Cartas para jovens crentes (de todas as idades) – Uma garrafa para nossas lágrimas (Salmo 56) – W. J. Hocking

Cartas para jovens crentes (de todas as idades) 
29 (nova série) – Uma garrafa para nossas lágrimas (Salmo 56)
Existem nas escrituras muitas figuras bonitas e delicadas usadas para expressar o carinho, o cuidado e o interesse de Deus por Seus filhos. A mencionada no título deste texto não é o menos impressionante. O salmista está falando dos inimigos que diariamente o oprimem e perseguem. Mas, diante de todas as ameaças do mal, ele olha confiante para Deus como seu preservador. “No dia em que sentir medo”, disse ele, “confiarei em Ti”. E então ele expressa sua confiança implícita no interesse individual que Deus tem em todas as suas circunstâncias de provação. “Tu contas os meus passos errantes; põe as minhas lágrimas na tua garrafa” (Salmo 56:8).
A expressão figurativa não é difícil de entender. Colocar lágrimas em uma garrafa transmite imediatamente a ideia de preservá-las como preciosas. No Oriente, parece comum acondicionar em pequenos sacos ou garrafas, protegidas com um selo, quaisquer pequenos objetos de valor, como ornamentos de ouro, prata ou pedras preciosas. Portanto, o sentido geral das palavras parece ser o de Deus em relação às lágrimas de Davi, de tal valor que seja estimado por Ele.
Lágrimas são as expressões externas de tristeza e sofrimento interior. Em um mundo onde o pecado reina até a morte, lágrimas são inevitáveis. Nenhum dos filhos de Adão está isento. “o homem nasce para a aflição, tão certo como as faíscas voam para cima” (Jó 5:7). Portanto, é reconfortante saber que existem algumas circunstâncias em que as lágrimas têm valor real diante de Deus, assim como elas também oferecem ocasiões em que podemos experimentar algo que é realmente tão maravilhoso por si só – a compaixão divina.
Depende muito do que causa as lágrimas. É, obviamente, uma tarefa longa demais para enumerar aqui todas as causas variadas das lágrimas, algumas dignas de louvor e outras dignas de culpa. Apenas um ou dois exemplos devem ser suficientes para ilustrar do assunto deste texto.
Vemos que durante os dias de Sua carne, o Senhor tinha um interessa particular em acolher aqueles que lamentavam e choravam. Nos lembramos do caso da viúva de Naim (Lucas 7:11 em diante), que O encontrou no momento em que levava o corpo morto de seu único filho para a sepultura. Quando o Senhor a viu chorando, sentiu compaixão e disse-lhe: “Não chores”. Então Ele devolveu o filho. Esse foi o mesmo amor que preserva as lágrimas dos santos em Sua garrafa que, antes de ressuscitar o filho, disse-lhe: “Não chores”.
Maria Madalena, diante do sepulcro aberto, mas vazio, de Jesus, foi tomada pela tristeza. O corpo Daquele que ela amava e adorava não estava lá. Pedro e João foram embora. Mas Maria “ficou do lado de fora, junto ao sepulcro, chorando” (João 20:11). Ele observou de longe aquelas lágrimas, se aproximou e dirigiu a ela aquela pergunta terna e gentil: “Mulher, por que choras?” Podemos dizer que as lágrimas daquela alma fiel e devota foram lágrimas na Sua garrafa?
Talvez o evento mais marcante dessa figura dado nos evangelhos esteja relacionado ao luto das irmãs de Betânia. Prova de forma absoluta como o Senhor entra nos sentimentos e nas circunstâncias daqueles que estão sofrendo. Lemos estas palavras significativas: “Jesus amava a Marta, sua irmã e Lázaro” (João 11:5). Foi nesse feliz círculo doméstico que a morte chegou. Lázaro morreu e foi sepultado. E somente quatro dias depois de sua morte, o Senhor chegou ao lar de Betânia. Então as lágrimas dos enlutados caíram aos Seus pés. Se surgir em nossos corações o pensamento do Senhor estar sem essas lágrimas, Suas próprias lágrimas negam totalmente esse pensamento. “Quando Jesus a viu [Maria] chorando, e também chorando os judeus que vinham com ela, moveu-se muito em espírito e perturbou-se, e disse: Onde o puseste? Disseram-lhe: Senhor, vem e vê. Jesus chorou. Então disseram os judeus: Vede como Ele o amava!” (João 11:33-36). Cada lágrima era motivo da requintada compaixão do Salvador. E quão precioso Ele contou as lágrimas daquelas tristes irmãs! Podemos dizer que elas também foram lágrimas na Sua garrafa?
É bom ter em mente que o amor e a compaixão do Senhor são os mesmos agora como sempre, e as inevitáveis tristezas, tribulações e provações deste mundo movem esse amor e compaixão do Senhor em relação a nós, dando-nos a oportunidade de uma experiência de Sua graça compassiva, que de outra forma não poderíamos ter.
“Te agradecemos, Senhor, por dias cansativos,
Quando as fontes do deserto estavam secas;
E sabíamos que tão profunda necessidade
Teu amor poderia satisfazer.
Te agradecemos por esse descanso em Ti.
Os cansados apenas sabem –
A perfeita e maravilhosa compaixão
Que precisamos aprender aqui
Conhecendo a Ti como não poderíamos conhecer
Através de anos dourados do céu;
Lá veremos Sua face gloriosa,
Mas Maria viu Suas lágrimas.
O toque que cura o coração partido
Nunca é sentido acima;
Seus anjos conhecem Sua benção,
Seus santos desgastados, Seu amor.”
Pode ser, pela misericórdia do Senhor, que nossas lágrimas até agora tenham sido poucas, mas cedo ou tarde elas irão nos visitar. Que possamos nos lembrar que existe alguém que conta todas as nossas lágrimas. Podem ser lágrimas de tristeza por luto, ou por causa da maldade de alguém, ou por causa do sofrimento que vem sobre você por causa de sua fidelidade ao Senhor e à Sua palavra. Em todo caso, que sejam lágrimas que Ele possa colocar em Sua garrafa.
W. J. Hocking
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