Notas sobre Êxodo 15

…examinando as várias notas deste cântico, no capítulo 15 de Êxodo, não encontramos uma nota sequer acerca do ego nem dos seus feitos: tudo se refere ao Senhor desde o princípio ao fim. Começa assim: “Cantarei ao SENHOR, porque sumamente se exaltou; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro”. Isto é uma amostra de todo o cântico. É um simples relato dos atributos e obras do Senhor. No capítulo 14 os corações dos israelitas haviam sido, com efeito, encurralados sob a pressão excessiva das circunstâncias; porém no capítulo 15 essa pressão é tirada, e os seus corações encontram plena saída num suave cântico de louvor. O ego é esquecido; as circunstâncias são perdidas de vista, e um só objeto enche a sua visão, e esse é o Próprio Senhor no Seu caráter e em Suas obras. Assim eles puderam dizer: “Pois tu, SENHOR, me alegraste com os teus feitos; exultarei nas obras das tuas mãos” (Salmo 92:4). Isto é culto verdadeiro. É quando o pobre ego, com tudo quanto lhe pertence, é perdido de vista e somente Cristo enche os nossos corações, que podemos oferecer a Deus culto verdadeiro. Os esforços de uma piedade carnal não são precisos para despertar na alma sentimentos de devoção. Não temos necessidade nenhuma de recorrer à pretendida ajuda da religião, assim chamada, para inflamar na alma a chama do culto aceitável a Deus. Ah! Não; deixai que o coração esteja ocupado somente com a Pessoa de Cristo, e os “cânticos de louvor” serão a consequência natural. É impossível que o olhar esteja fixado n’Ele sem que o espírito se curve em santa adoração. Se contemplarmos o culto dos exércitos celestiais, que rodeiam o trono de Deus e do Cordeiro, veremos que é sempre acompanhado da apresentação de algum traço especial das perfeições ou obras divinas. Assim deveria ser com a Igreja na terra; e quando é de outra maneira, é porque nos deixamos vencer por coisas que não têm lugar nas regiões da clara luz e da pura bem-aventurança. 
Deus: o Único Propósito do Louvor 
Em todo o culto verdadeiro, Deus é ao mesmo tempo o objeto do culto, o assunto do culto, e o poder do culto. 
Por isso neste capítulo de Êxodo encontra-se um belo exemplo de um cântico de louvor. É a linguagem de um povo redimido celebrando os louvores dignos d’Aquele que os redimiu. 
“O SENHOR é a minha força e o meu cântico; ele me foi por salvação; este é o meu Deus; portanto, lhe farei uma habitação; ele é o Deus de meu pai; por isso o exaltarei. O SENHOR É varão de guerra; SENHOR é o seu nome… A tua destra, ó SENHOR, se tem glorificado em potência; a tua destra, ó SENHOR, tem despedaçado o inimigo… O SENHOR, quem é como tu entre os deuses?- Quem é como tu glorificado em santidade, terrível em louvores, operando maravilhas?-… Tu, com a tua beneficência, guiaste este povo, que salvaste; com a tua força o levaste à habitação da tua santidade… O SENHOR reinará eterna e perpetuamente”. 
Quão compreensiva é a extensão deste cântico! Começa com a redenção e termina com a glória’. Principia com a cruz, e termina com o reino. É parecido com um belo arco-íris, do qual uma extremidade mergulha nos “sofrimentos” e a outra na “glória que se lhes seguiu” (1 Pedro 1:11). Tudo se refere ao Senhor. É o derramamento da alma produzido pela contemplação de Deus e das suas obras maravilhosas. 
Além disso, o cântico não para com o cumprimento dos desígnios de Deus, visto que lemos: “Com a tua beneficência guiaste este povo…, com a tua força o levaste à habitação da tua santidade”. O povo podia dizer isto, embora acabasse apenas de pôr os seus pés nas margens do deserto. Não era uma expressão de uma vaga esperança. Tampouco era aproveitar uma escura oportunidade. Ah! não; quando a alma está inteiramente ocupada com Deus pode espraiar-se na plenitude da Sua graça, gozar da proteção da luz do Seu rosto, e deleitar-se na rica abundância das Suas misericórdias e da Sua bondade. As perspectivas que se abrem ante a alma estão livres de nuvens, quando ela, tomando o seu lugar sobre a rocha eterna em que o amor redentor se associou com um Cristo ressuscitado, contempla a abóbada espaçosa dos planos e propósitos infinitos de Deus e fixa o olhar no esplendor dessa glória que Deus preparou para todos aqueles que lavaram e branquearam os seus vestidos no sangue do Cordeiro. 
Isto explica-nos o caráter peculiarmente brilhante e elevado desses rasgos de louvor que encontramos através das páginas da Sagrada Escritura. A criatura é colocada de lado; Deus é o único objeto e enche toda a esfera da visão da alma. Nada há ali que pertença ao homem, nem aos seus pensamentos ou às suas experiências; e, portanto, a corrente de louvor corre copiosa e ininterruptamente. Quão diferente é tudo isto dos hinos que frequentemente ouvimos cantar nas reuniões cristãs, tão repletos das nossas faltas, das nossas fraquezas e das nossas deficiências! O fato é que nunca poderemos cantar com verdadeira inteligência espiritual e poder enquanto nos contemplarmos a nós próprios.
 
Descobriremos sempre qualquer coisa em nós que será um obstáculo para o nosso culto. De fato, muitos parecem crer que estar num estado de dúvida e hesitação é uma graça cristã; e, como resultado, os seus hinos são do mesmo caráter da sua condição espiritual. Estas pessoas, por muito sinceras e piedosas que possam ser, nunca, na verdadeira experiência das suas almas, compreenderam o próprio fundamento do culto. Ainda não puseram de parte o ego; não atravessaram ainda o mar; e, não tomaram ainda o seu lugar, como um povo espiritualmente batizado, na outra margem, no poder da ressurreição. Estão ainda, de um modo ou de outro, ocupadas consigo: não consideram o ego como uma coisa crucificada, com a qual Deus acabou para sempre. 
Que o Espírito Santo leve o povo de Deus a uma compreensão mais clara, plena, e digna do seu lugar e privilégios, como aqueles que, havendo sido lavados dos seus pecados no sangue de Cristo, são apresentados diante de Deus naquela aceitação infinita e pura em que Ele está, como Chefe ressuscitado e glorificado da Sua Igreja. As dúvidas e os temores não são próprios dos filhos de Deus, porque o seu divino penhor não deixou sombra de dúvidas, para que haja suspeita de temor. O seu lugar é no santuário. Têm “ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus” (Hebreus 10:19). Acaso podem existir dúvidas ou temores no santuário”? Não é evidente que aquele que duvida põe a perfeição da obra de Cristo – obra que foi confirmada, à vista da inteligência, pela ressurreição de Cristo de entre os mortos’?- O bendito Senhor não podia ter deixado a sepultura sem que todo o motivo de dúvida e de temor para o Seu povo tivesse sido inteiramente removido. Por esse motivo, é doce privilégio do cristão exultar na salvação completa. O próprio Senhor é a sua salvação, e ele tem apenas que gozar os frutos da obra que Deus fez por ele, e andar para Seu louvor enquanto espera pelo tempo em que “O SENHOR reinará eterna e perpetuamente”. 
Existe uma nota neste cântico para a qual desejo chamar a atenção do leitor: “…este é o meu Deus; portanto, lhe farei uma habitação” (versículo 2). É um fato digno de notar que quando o coração transborda da alegria da redenção, então expressa o propósito de se consagrar referente à habitação fará Deus. 
Que o cristão pondere isto. O pensamento de Deus habitar com os homens acha-se nas Escrituras desde Êxodo, capítulo 15, ao Apocalipse. Escutemos a linguagem de um coração consagrado: “Certamente, que não entrarei na tenda em que habito, nem subirei ao leito em que durmo, não darei sono aos meus olhos, nem repouso às minhas pálpebras, enquanto não achar lugar para o SENHOR, uma morada para o Poderoso de Jacó” (Salmo 132:3-5). “Pois o zelo da tua casa me devorou, e as afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (Salmo 69:9; João 2:17). Não pretendo tratar deste assunto aqui; porém, gostaria de despertar interesse por ele no coração do leitor, para que o estudasse, por si mesmo, com oração, desde a primeira vez que o encontramos nas Escrituras até chegar àquela consoladora declaração: “Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima”(Apocalipse 21:3-4). 
A Partida para o Deserto 
“Depois, fez Moisés partir os israelitas do Mar Vermelho, e saíram ao deserto de Sur, e andaram três dias no deserto; e não acharam águas” (versículo 22). E quando entramos na experiência do deserto que somos postos à prova, a fim de que se manifeste até que ponto conhecemos Deus e o nosso próprio coração. O princípio da nossa vida cristã é acompanhado por uma vivacidade e de um gozo exuberantes, que logo as rajadas de vento do deserto procuram deter; e então, a não ser que haja um profundo sentimento daquilo que Deus é para nós, acima e além de tudo mais, sentimo-nos desfalecer, e em nossos corações tornamos ao Egito (Atos 7:39). A disciplina do deserto é necessária, não para nos dar o direito a Canaã, mas para nos tornar familiarizados com Deus e os nossos próprios corações, para nos habilitar a compreendermos o poder do nosso parentesco e para nos dar capacidade para gozarmos da terra de Canaã, quando lá chegarmos (veja Deuteronômio 8:2-5). 
A verdura, a frescura e a exuberância da primavera têm atrativos peculiares, os quais desaparecem perante o calor abrasador do verão; porém, com os devidos cuidados, este mesmo calor que destrói os traços esplêndidos da primavera, produz os frutos maduros e sazonados do outono. O mesmo acontece na vida cristã; pois existe, como sabemos, uma analogia notável e profundamente instrutiva entre os princípios que regem o reino da natureza e aqueles que caracterizam o reino da graça, sendo uns e outros obra do mesmo Deus. 
Podemos contemplar Israel sob três posições distintas, a saber: 
no Egito, 
no deserto, e 
na terra de Canaã. 
Em todas estas posições, eles são “nossas figuras”; enquanto que nós nos achamos nas três ao mesmo tempo. De fato, nós encontramo-nos, por assim dizer, no Egito, rodeados de coisas da natureza, que se adaptam perfeitamente ao coração natural. Todavia, porquanto fomos chamados pela graça de Deus à comunhão de Seu Filho Jesus Cristo, nós, segundo os afetos e desejos da nova natureza, encontramos, necessariamente, o nosso lugar fora de tudo que pertence ao Egito (*) (o mundo no seu estado natural), e isto faz-nos passar pelas experiências do deserto, ou, por outras palavras, põe-nos, quanto à experiências, no deserto. 
A natureza divina suspira ardentemente por uma ordem de coisas diferentes – por uma atmosfera mais pura do que aquela que nos rodeia, e desta forma faz-nos sentir que o Egito é como um deserto moral. Porém, visto que estamos, aos olhos de Deus, eternamente ligados Aquele que penetrou nos céus, e se assentou à destra da Majestade, é nosso privilégio saber, pela fé, que estamos assentados com Ele ali (Efésios 2:6). De forma que, apesar de estarmos, quanto aos nossos corpos, no Egito, quanto à nossa experiência estamos no deserto, enquanto que, ao mesmo tempo, a fé nos conduz a Canaã e habilita-nos a alimentarmo-nos “do trigo da terra do ano antecedente” (Josué 5:11), isto é, de Cristo, como Aquele que não somente veio à terra, mas que voltou para o céu e Se assentou ali em glória. 
 
(¹) Existe uma grande diferença moral entre o Egito e Babilônia, que é importante conhecer. O Egito foi o país de onde veio o povo de Israel; Babilônia foi a terra para onde eles foram levados cativos mais tarde (comparar Amós 5:25-27 com Atos 7:42-43). O Egito significa aquilo que o homem fez do mundo; Babilônia expressa o que Satanás tem feito, faz ou fará da Igreja professa. Por isso, não estamos apenas rodeados das circunstâncias do Egito, como também pelos princípios morais de Babilônia. 
“E toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Arão no deserto. E os filhos de Israel disseram-lhes: Quem dera que nós morrêssemos pela mão do SENHOR na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne, quando comíamos pão até fartar! Porque nos tendes tirado para este deserto, para matardes de fome a toda esta multidão (capítulo 16:2-3). 
Isto faz do “nosso tempo” o que o Espírito Santo considera “trabalhosos”, “difíceis”. São necessárias a energia do Espírito de Deus e uma sujeição completa à autoridade da Palavra de Deus para se poder enfrentar a influência combinada das realidades do Egito e o espírito e os princípios de Babilônia. Aquelas satisfazem os desejos naturais do coração; enquanto estes se ligam e dirigem à religiosidade da natureza, que lhes dá um acolhimento peculiar no coração. O homem é um ente religioso e peculiarmente susceptível das influências da música, da escultura, da pintura, ritos pomposos e cerimônias. Quando estas coisas se acham ligadas com o suprimento das necessidades naturais-sim, com a facilidade e a luxúria da vida, nada senão o poder da Palavra de Deus e do Espírito pode manter alguém fiel a Cristo. 
Devemos notar também que existe uma grande diferença entre os destinos do Egito e os de Babilônia. O capítulo 19 de Isaías apresenta-nos as bênçãos que estão guardadas para o Egito. Esta é a conclusão: “E ferirá o SENHOR aos egípcios e os curará; e converter-se-ão ao SENHOR, e mover-se-á às suas orações, e os curará: …Naquele dia, Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra. Porque o SENHOR dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança” (versículos 22-25). 
O fim da história da Babilônia é muito diferente quer o encaremos como uma cidade literal ou um sistema espiritual. “E reduzi-la-ei a possessão de corujas e a lagoas de águas; e varrê-la-ei com vassoura de perdição, diz o SENHOR dos Exércitos” (Isaías 14:23). “Nunca mais será habitada, nem reedificada de geração em geração” (Isaías 13:20). Isto quando a Babilônia, literalmente; sob o ponto de vista místico ou espiritual vemos o seu destino em Apocalipse, capítulo 18. Esse capítulo é uma descrição de Babilônia, e termina com estas palavras: “E um forte anjo levantou uma pedra como uma grande mó e lançou-a no mar, dizendo: Com igual ímpeto será lançada Babilônia, aquela grande cidade, e não será jamais achada” (versículo 21). 
Com que imensa solenidade deveriam essas palavras soar aos ouvidos de todos aqueles que estão ligados, de qualquer modo, com Babilônia-isto é, com a Igreja professa. “Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados e para que não incorras nas suas pragas” (Apocalipse 18:4). O “poder” do Espírito Santo operará necessariamente ou expressar-se-á numa certa “forma” de piedade, e o alvo do inimigo tem sido sempre defraudar a Igreja professa do poder, ao mesmo tempo que a induz a apoiar-se na forma e a perpetuá-la, imprimindo a forma depois de todo o espírito e a vida haverem desaparecido. É assim que ele edifica a Babilônia espiritual. As pedras com que esta cidade é edificada são os professos sem vida espiritual; e o martelo com que ele liga essas pedras é “a forma de piedade sem poder”. 
Oh! prezado leitor, certifiquemo-nos de que compreendemos estas coisas plena e claramente. 
   
Mara: as Águas Amargas 
Os versículos finais deste capítulo mostram-nos Israel no deserto. Até aqui parece que tudo lhes havia corrido bem. Terríveis juízos haviam caído sobre o Egito, mas Israel fora perfeitamente excluído; o exército do Egito jazia morto nas praias do mar, mas Israel estava em triunfo. Tudo isto era bastante; mas, enfim, o aspecto das coisas depressa mudou! Os hinos de louvor foram depressa substituídos pelas palavras de descontentamento. “Então, chegaram a Mara; mas não puderam beber as águas de Mara, porque eram amargas: por isso, chamou-se o seu nome Mara. E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: Que havemos de beber (versículos 23 a 24). 
Eis aqui as provações do deserto. “Que havemos de comer” e “que havemos de beber” As águas de Mara puseram à prova o coração de Israel e mostraram o seu espírito murmurador; mas o Senhor mostrou-lhes que não havia amargura que Ele não pudesse dulcificar com a provisão da Sua graça: “…e o SENHOR mostrou-lhe um lenho que lançou nas águas, e as águas se tornaram doces: ali lhes deu estatutos e uma ordenação, e ali os provou”. Que formosa figura d’Aquele que foi, em graça infinita, lançado às águas da morte, para que essas águas nada mais nos pudessem dar senão doçura, para todo o sempre. Verdadeiramente, podemos dizer: “Na verdade já passou a amargura da morte”, e nada mais nos resta senão as doçuras eternas da ressurreição.
 
O versículo 26 põe diante de nós o importante caráter desta primeira etapa dos remidos de Deus no deserto. Encontramo-nos em grande perigo, nesta hora, de cair num espírito mal disposto, impaciente de murmuração. O único remédio contra este mal é conservarmos os olhos postos em Jesus -“olhando para Jesus” (Hebreus 12:2). Bendito seja o Seu nome, Ele sempre Se mostra à altura das necessidades do Seu povo; e eles, em vez de se queixarem das suas circunstâncias, deviam fazer delas o motivo de se aproximarem mais d’Ele. É assim que o deserto se torna útil para nos ensinar o que Deus é. É uma escola na qual aprendemos a conhecer a Sua graça constante e os Seus amplos recursos. “E suportou os seus costumes no deserto por espaço de quase quarenta anos” (Atos 13:18). 
O homem espiritual reconhecerá sempre que vale a pena ter águas amargas para Deus as dulcificar: “…também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência; e a paciência, a experiência, e a experiência, a esperança” (Romanos 5:3-5). 
 
Notas sobre o Pentateuco – Mackintosh 
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