A missão do cristão… e como realiza-la – C. H. Mackintosh

[Este pequeno artigo é enviado para a Igreja de Deus, “com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso”, com fervorosa oração para que Espírito Santo use para despertar nos corações de todos os que o leem o verdadeiro sentido da missão cristã e o fixo propósito de buscar, pela graça de Deus, realiza-lo. 

Precisamos lembrar, em dias como o presente, que todo filho de Deus, todo membro do corpo de Cristo, seja qual for sua posição ou esfera de ação, tem uma missão a cumprir, uma obra a fazer por Cristo.  Ele pode não ser chamado para ser evangelista, pastor ou professor: mas é chamado a viver Cristo, representá-Lo, para ser um canal de comunicação entre Seu coração amoroso e toda forma de necessidade no mundo em escuridão, frio e egoísta.  Esta é a missão do cristão: que todo cristão procure realiza-la!] 

 Naqueles dias, havendo mui grande multidão e não tendo o que comer, Jesus chamou a si os seus discípulos e disse-lhes: Tenho compaixão da multidão, porque há já três dias que estão comigo e não têm o que comer. E, se os deixar ir em jejum para casa, desfalecerão no caminho, porque alguns deles vieram de longe. E os seus discípulos responderam-lhe: Donde poderá alguém satisfazê-los de pão aqui no deserto? E perguntou-lhes: Quantos pães tendes? E disseram-lhe: Sete. E ordenou à multidão que se assentasse no chão. E, tomando os sete pães e tendo dado graças, partiu-os e deu-os aos seus discípulos, para que os pusessem diante deles; e puseram-nos diante da multidão. Tinham também uns poucos peixinhos; e, tendo dado graças, ordenou que também lhos pusessem diante. E comeram e saciaram-se; e, dos pedaços que sobejaram, levantaram sete cestos. E os que comeram eram quase quatro mil; e despediu-os. 

(Marcos 8:1-9)

A passagem apresentada mostra uma ilustração impressionante e bela de uma característica especial da missão do cristão neste mundo, que fará bem ao leitor meditar.  É de imensa importância e de aplicação universal.  Trata-se de cada filho de Deus.  Cada um deve se lembrar de que fomos enviados a este mundo para ser um canal de comunicação entre o coração de Cristo e toda forma de necessidade que cruze nosso caminho diariamente. 

 Esta é uma característica interessante e adorável da missão do cristão. É apenas uma das muitas características, mas é uma das mais belas e preciosas.  E como veremos, muito prática. 

Claro, necessariamente, presumindo que eu sou um cristão.  Se não sei se tenho a vida eterna, se tenho dúvidas quanto à minha eterna salvação, se não conheço Cristo como meu precioso Salvador e Senhor – a porção, o objeto e o lugar de repouso do meu Coração – ocupar-me com a missão do cristão é simplesmente enganar a mim mesmo e cegar meus olhos para a minha verdadeira condição.  Uma salvação conhecida e apreciada e um conhecido e apreciado Salvador e Senhor, são condições absolutamente essenciais para isso. 

 Dito isto, para proteger o leitor contra o autoengano, como também para proteger o nosso assunto contra qualquer mal-entendido, veremos, por alguns momentos, a adorável passagem que está à frente deste artigo.  Que o abençoado Espírito abra e aplique-a aos nossos corações! 

 “Naqueles dias, havendo mui grande multidão e não tendo o que comer”. Aqui estava o estado – grande necessidade e nenhum recurso aparente para tratá-la.  Mas Jesus estava ali – bendito seja o Seu santo nome!  – com todo o amor de Seu coração e o poder todo-poderoso da Sua mão.  Estava lá Aquele que, antigamente, alimentou três milhões de pessoas em um vasto e selvagem deserto por quarenta anos.  Sim, Ele estava ali e, claro, Ele poderia de uma só vez, sem auxílio de ninguém, ter atendido aquela necessidade sem chamar seus incrédulos, e ocupados com si mesmos, discípulos.  Ele poderia ter convocado mensageiros angelicais para alimentar aqueles milhares de famintos. 

Mas Ele não fez nem uma coisa nem outra, porque o Seu propósito gracioso era usar Seus discípulos como canais de comunicação entre Ele e aquela grande multidão faminta.  Não apenas como instrumentos de seu poder, que os anjos poderiam ser, mas a própria expressão do Seu coração. 

E vamos observar como Ele fez isso.  Se Ele pretendesse apenas usá-los como instrumentos de Seu poder, teria bastado colocar os modos e meios nas suas mãos.  Mas não; Ele queria torná-los canais através dos quais a terna compaixão de Seu coração pudesse fluir.  E como isso deveria ser feito?  Assim: “Jesus chamou a si os seus discípulos e disse-lhes: Tenho compaixão da multidão, porque há já três dias que estão comigo e não têm o que comer. E, se os deixar ir em jejum para casa, desfalecerão no caminho, porque alguns deles vieram de longe”. 

 Aqui, então, temos o verdadeiro segredo da preparação de nossa elevada e santa missão.  Nosso abençoado Senhor primeiro reúne Seus discípulos em torno de Si mesmo e busca preencher seus corações com Seus próprios sentimentos e pensamentos antes dEle encher suas mãos com os pães e peixes.  É como se Ele tivesse dito: “Eu tenho compaixão, e quero que vocês a tenham também. Eu quero que vocês entrem em todos os Meus pensamentos e sentimentos, para pensar e sentir como Eu. Olhai com os Meus olhos para esta multidão faminta para que estejais em condições morais de serem os Meus canais”. 

 Isso é excepcionalmente bom.  Uma pessoa pode dizer, “eu desejo ser um canal, mas isso me parece elevado demais, muito além de mim. Como poderia atingir tal altura?”  A resposta é, aproximar-se o suficiente de Cristo para pensar como Ele pensa, para sentir como Ele sente.  Beba em Seu espírito.  Isso, garantir isso, é a verdade, a única maneira de ser um canal de comunicação.  Se eu disser: “Eu devo tentar ser um canal”, farei de mim um tolo.  Mas se eu beber na fonte do coração de Cristo, serei cheio até transbordar, todo o meu ser moral será impregnado pelo Seu espírito, para que eu tenha as condições de ser usado por Ele, e para que eu esteja na condição correta de ser usado por Ele – ou seja, usar para Ele – quaisquer maneiras e meios que Ele possa colocar em minhas mãos.  Se eu tiver minhas mãos cheias de meios, antes que meu coração esteja cheio de Cristo, não usarei os meios para Ele, os usarei para minha própria glória e não para a glória de Deus. 

 Irmãos, vamos refletir sobre isso.  Vamos considerar nossa missão e o verdadeiro segredo de realizá-la.  É um grande ponto ter o coração impressionado com o fato de que fomos chamados para ser canais através dos quais o coração de Cristo possa fluir Dele próprio para um mundo necessitado.  É maravilhoso, parece bom demais para ser verdade; Mas, bendito seja Deus, é tão verdadeiro quanto maravilhoso.  Busquemos apenas levá-la para dentro – crer nela, para torná-la nossa.  Não nos contentemos em admirá-la como uma bela teoria, mas procurarmos fazê-la operar em nossas almas pelo poder do Espírito Santo. 

 Mas observe quão lento os discípulos responderam ao desejo do coração de Cristo.  Foi Seu propósito gracioso usá-los como Seus canais concedendo a eles esse imenso privilégio; Mas, assim como nós, eles foram pouco capazes de apreciar isso, simplesmente porque não conseguiram entrar em Seus pensamentos e apreender a glória de Sua Pessoa.  “…os seus discípulos responderam-lhe: Donde poderá alguém satisfazê-los de pão aqui no deserto?”  Em outra ocasião, eles disseram: “Temos aqui apenas cinco pães e dois peixinhos”. 

 Eles não sabiam, ou haviam se esquecido, que estavam na presença do Criador e Mantenedor do universo?  Em verdade, Ele estava lá na humilde forma de Jesus de Nazaré.  Sua glória divina estava escondida da visão natural por trás do véu da humanidade.  Mas eles deviam ter conhecido melhor quem e o que Ele era, assim como usufruir da Sua presença gloriosa e das Suas inescrutáveis riquezas.  Certamente, se tivessem seus corações totalmente tomados pela glória da Sua Pessoa nunca poderiam ter feito tal pergunta: “Donde poderá alguém satisfazê-los de pão aqui no deserto?”  Moisés, no Antigo Testamento, havia perguntado: “De onde teria eu carne para dar a todo este povo?”  Deus é excluído pelo pobre coração incrédulo.  Será que Jeová pediu a Moisés para dar carne?  Certamente não.  Nenhum homem poderia fazê-lo.  Nenhum homem poderia alimentar quatro mil pessoas em um lugar deserto. 

 Mas Deus estava lá.  Sim, Deus, falando através de lábios humanos, disse: “Tenho compaixão da multidão”.  Foi Deus quem levou em conta todas as circunstâncias de cada indivíduo naquela vasta multidão de famintos.  Ele sabia a distância exata que cada um tinha percorrido e o tempo que cada um tinha estado em jejum.  Ele levou em conta as consequências obvias de serem dispersados sem comida.  Foi Deus quem pronunciou essas tocantes palavras: “se os deixar ir em jejum para casa, desfalecerão no caminho, porque alguns deles vieram de longe”. 

 Sim, Deus estava lá, em toda a ternura de um amor que levava em conta os menores detalhes da fraqueza e da necessidade de uma criatura.  Lá também, em Seu poder onipotente e recursos inesgotáveis, para capacitar Seus pobres discípulos a serem depositários de Seus pensamentos, os vasos de Sua bondade, os canais de Sua graça.  E o que eles queriam para poder realizar sua missão?  Eles queriam ser ou fazer alguma coisa?  Não.  Bastava simplesmente querer vê-Lo e usá-Lo.  Bastava que eles exercitassem essa fé simples que conta com Deus para tudo e encontra Nele todas as suas fontes. 

 Assim foi com os discípulos e assim é conosco.  Se quisermos agir como canais da graça de Cristo, devemos estar com Ele no profundo secreto de nossas próprias almas.  Devemos aprender Dele;  devemos nos alimentar Dele;  devemos conhecer o significado da comunhão com o Seu coração;  precisamos estar perto o suficiente dEle para conhecer os segredos de Sua mente e realizar os propósitos de Seu amor.  Se desejamos refleti-Lo, devemos contemplá-Lo.  Se desejamos reproduzi-Lo, devemos nos alimentar Dele, devemos tê-Lo habitando em nossos corações pela fé.  Podemos estar certos disso, o que realmente está em nossos corações se revelará em nossas vidas.  Podemos ter uma quantidade de verdade em nossas cabeças, fluindo por nossos lábios, mas se realmente desejamos ser canais de comunicação entre Seu coração e os necessitados pelos lugares através do qual estamos passando, devemos habitualmente beber do Seu amor.  Não pode ser de outra forma.  “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre”.  (João 7:38) 

 Aqui reside o grande segredo de toda a questão: “Se alguém tem sede, que venha a mim e beba”.  Se os rios estão fluindo, devemos beber.  Não pode ser de outra forma.  Se cada membro da Igreja de Deus estivesse no poder deste grande princípio, que estado muito diferente de coisas testemunharíamos!  E onde está o obstáculo?  Nós não estreitamos o relacionamento com nosso adorável Senhor e Salvador.  É Seu desejo nos usar, assim como Ele usou Seus discípulos na ocasião diante de nós.  Ele os reuniu em torno de si, e procurou graciosamente derramar em seus corações a compaixão do Seu próprio coração para que eles pudessem sentir com Ele, com a qualificação moral para agir por Ele.  Podemos nos sentir sempre seguros de que quando o coração está cheio de Cristo, o poder de agir não faltará. 

 Mas, infelizmente, assim como foi com os discípulos, assim é conosco.  Eles falharam em apreciar e usar o poder que estava em seu meio.  Eles disseram: “Donde poderá alguém?”  Quando deveriam ter dito: “Temos a Cristo”.  Eles praticamente O ignoraram, e nós também.  Inventamos desculpas para a nossa pobreza, nossa indolência, nossa frieza, nossa indiferença, pela súplica de que não temos isso, e aquilo e aquele outro;  ao passo que o que realmente precisamos é de um coração cheio de Cristo, cheio de Seus pensamentos, cheio de Seu amor, cheio de Sua bondade, cheio de Sua terna consideração pelos outros, cheio de Sua bela entrega.  Nos queixamos de nossa falta de modos e meios, quando a real necessidade é da correta condição da alma – a verdadeira atitude moral do coração, e isso só pode nascer da estreita intimidade com Cristo, comunhão com Sua mente e beber em Seu espírito. 

 Com fervor colocamos este assunto sobre a Igreja de Deus.  Desejamos ver cada membro do corpo de Cristo atuando como um canal pelo qual Sua preciosa graça possa fluir em rios vivos para todos ao redor, derramando frescor e vida em seu curso – não uma piscina estancada, tão marcadamente ilustrada em um cristão fora da comunhão. 

 [Nota – Devemos sempre lembrar que não estamos aqui para sermos expectadores do mundo em torno de nós, mas colaboradores.  Um verdadeiro colaborador nunca se queixa de falta de amor.  Ele anda no amor, manifesta amor e sua linguagem é: “Eu tenho tudo e transbordo”.  Que seja assim com todos nós!]

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