A Festa de Pentecostes (ou das Semanas)

“Depois, para vós contareis desde o dia seguinte ao sábado, desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete semanas inteiras serão. Até ao dia seguinte ao sétimo sábado, contareis cinquenta dias; então, oferecereis nova oferta de manjares ao Senhor. Das vossas habitações trareis dois pães de movimento; de duas dízimas de farinha serão, levedados se cozerão; primícias são ao Senhor” (versículos 15 a 17). Esta é a festa do pentecostes – figura do povo de Deus reunido pelo Espírito Santo e apresentado perante Ele, em conexão com toda a preciosidade de Cristo. Na páscoa temos representada a morte de Cristo; no molho das primícias vemos a ressurreição de Cristo; e na festa do pentecostes temos a descida do Espírito Santo para formar a Igreja. Tudo isto é divinamente perfeito. A morte e ressurreição de Cristo tinham de ser cumpridas, antes que a lgreja pudesse ser formada.

E note-se a expressão “levedados se cozerão”. Porque deviam os dois pães ser cozidos com fermento. Figuras dos que, embora cheios do Espírito Santo e dotados com os Seus dons e graça, tinham, todavia, mal em si mesmos. A assembleia, no dia de pentecostes, desfrutava por completo os benefícios do sangue de Cristo, e estava adornada com os dons do Espírito Santo; mas também havia mal nela. O poder do Espírito Santo não podia evitar que o mal estivesse entre o povo de Deus. O mal podia ser combatido e ocultado; mas ainda assim estava ali. Este fato é representado em figuras pelo fermento nos dois pães; e é encontrada a sua expressão na história da Igreja; porque, apesar de Deus o Espírito Santo estar presente na Assembleia, a carne manifesta-se também mentindo-lhe. A carne é carne, e dela não poderá jamais fazer-se outra coisa. O Espírito Santo não desceu, no dia de pentecostes, para melhorar a natureza humana ou acabar com a realidade do mal nela, mas, sim, para batizar os crentes em um corpo e ligá-los com a Cabeça que vive no céu.

Já fizemos alusão, no capítulo que trata do sacrifício pacífico, ao fato que o fermento era permitido em relação com esse sacrifício. Por este meio Deus reconhecia a existência de mal no adorador. Assim é também na ordenação dos “dois pães de movimento”; deviam ser cozidos com fermento, devido ao mal no antítipo.

Mas, bendito seja Deus, se a existência do mal era divinamente reconhecida, também era feita provisão do remédio. Isto dá paz e consolação à alma. É consolador saber que Deus conhece o pior que há em nós; e, além disso, que deu o remédio, segundo o Seu conhecimento, e não apenas segundo o nosso.

“Também com o pão oferecereis sete cordeiros sem mancha, de um ano, e um novilho, e dois carneiros; holocausto serão ao Senhor, com a sua oferta de manjares e as suas libações, por oferta queimada de cheiro suave ao Senhor” (versículo 18).

Portanto, temos aqui, em imediata ligação com os pães levedados, a oferta de um sacrifício sem mancha, tipificando a verdade muito importante de que é a perfeição de Cristo e não a nossa iniquidade que está sempre perante os olhos de Deus. Observe-se especialmente as palavras “também com o pão oferecereis sete cordeiros sem mancha”. Que preciosa verdade! Eminentemente preciosa, ainda que revestida de figuras típicas. Possa o leitor compreendê-la, apropriar-se dela, fazer dela o apoio da sua consciência, o alimento e refrigério de seu coração, e as delícias da sua alma; e dizer: Não eu, mas Cristo.

Dir-se-á que o fato de Cristo ser o Cordeiro imaculado não basta para tirar o peso de culpa de uma consciência manchada-que uma oferta de cheiro suave não aproveitaria, em si, ao pecador culpado. Pode apresentar-se esta objeção; porém ela é não só contestada como desfeita pelo símbolo que estamos a analisar. Em boa verdade, que um Holocausto não teria bastado havendo “fermento”; e por isso lemos: “Também oferecereis um bode para expiação do pecado e dois cordeiros de um ano por sacrifício pacífico” (versículo 19). A “expiação do pecado” era a resposta ao “fermento” nos pães – firmava-se “a paz” de forma que podia gozar-se de comunhão, e subia em imediata conexão com o “cheiro suave” do “holocausto” para o Senhor.

Assim, no dia de pentecostes a Igreja foi apresentada em todo o valor e excelência de Cristo pelo poder do Espírito Santo. Embora tendo em si mesma o fermento da velha natureza, esse fermento não era tido em conta, porque a divina expiação do pecado tinha respondido por ele. O poder do Espírito Santo não tirava o fermento, mas o sangue do Cordeiro de Deus tinha feito expiação pelo mal nele representado. É uma distinção das mais importantes e ao mesmo tempo interessantes. A obra do Espírito no crente não tira o mal que nele habita. Torna-o capaz de detectar, de julgar e de dominar o mal, mas não há poder espiritual que possa anular o fato de que o mal existe nele – embora, bendito seja Deus, a consciência esteja perfeitamente em paz, visto que o sangue da expiação do pecado resolveu para sempre toda a questão; e, portanto, Deus, em vez de ter presente o nosso mal, afastou-o da vista para sempre, e nós somos aceitos em Cristo, que se ofereceu a Si mesmo a Deus em sacrifício de cheiro suave, para poder glorificá-Lo perfeitamente em todas as coisas e ser para sempre o alimento do Seu povo.

Dissemos o bastante sobre o pentecostes – depois do qual desliza um longo período sem que haja qualquer movimento entre o povo. Há contudo uma alusão ao “pobre e estrangeiro” nesta bela ordenação que temos considerado em seu aspecto moral. Aqui podemos considerá-la sob o ponto de vista dispensacional. “E, quando segardes a sega da vossa terra, não acabarás de segar os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás. Eu sou o Senhor, vosso Deus” (versículo 22). Aqui é determinado que todo o estrangeiro possa colher espigas nos campos de Israel. Os gentios são introduzidos para participar da bondade superabundante de Deus. Quando os celeiros e lagares de Israel estiverem cheios, haverá preciosas gabelas e ricos cachos para que os gentios os possam colher.

Não devemos contudo supor que as bênçãos espirituais com que a Igreja é dotada nos lugares celestiais com Cristo são representadas pela figura de um estrangeiro rebuscando espigas nos campos de Israel. Estas bênçãos são tão novas para os descendentes de Abraão como para os gentios. Não são as espigas de Canaã, mas as glórias do céu – as glórias de Cristo. A Igreja não é apenas abençoada por Cristo, mas com Cristo e em Cristo. A noiva de Cristo não terá que ir, como um estrangeiro, buscar as espigas e os cachos nos campos e vinhedos de Israel. Não; ela tem maiores bênçãos, mais rico gozo, dignidades mais elevadas do que Israel jamais conheceu. Não tem de buscar como um estrangeiro na terra, mas sim de gozar a sua riqueza e feliz morada no céu a que pertence. Estas são “as melhores coisas” que Deus tem, em Sua graça e sabedoria, “preparado” para ela. Sem dúvida, será um feliz privilégio para “o estrangeiro” poder pegar espigas depois de terminada a ceifa de Israel; porém a parte da Igreja é incomparavelmente melhor, como é ser a noiva do Rei de Israel, que compartilha do Seu trono, tem parte nas Suas honras e glória; ser semelhante a Ele e estar com Ele para sempre. As moradas eternas da casa do Pai nas alturas, e não os rincões sem espigas dos campos de Israel, são a porção da Igreja. Conservemos isto sempre em nosso espírito para podermos viver de uma maneira digna de tão nobre e santo destino!

Texto extraído de Notas sobre o Pentateuco de C. H. Mackintosh

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