INTRODUÇÃO

O leitor atento do Novo Testamento encontrará em suas páginas três fatos solenes e significativos colocados diante de si. O primeiro, que o Filho de Deus veio a este mundo e Se foi; o segundo, que o Espírito Santo desceu à terra e permanece aqui; e, o terceiro, que o Senhor Jesus voltará.

Estes são os três grandes temas descortinados nas Escrituras do Novo Testamento, e vamos descobrir que cada um deles tem uma dupla aplicação: uma diz respeito ao mundo e outra à Igreja. Ao mundo de uma forma geral, e em particular a cada homem, mulher e criança não convertidos; à Igreja, de uma forma geral, e a cada membro individualmente. É impossível alguém se esquivar do significado destes três grandes fatos naquilo que diz respeito à sua própria condição pessoal e ao seu destino eterno.

É importante notar que não estamos falando de doutrinas — embora não haja dúvida de que existam doutrinas — mas de fatos; fat apresentados da maneira mais simples possível pelos vários escritores inspirados usados para apresentá-los. Não existe qualquer intenção de adorná-los ou alterá-los. os fat falam por si próprios; estão registrados e deixados ali para produzir seu peculiar e poderoso efeito na alma.

1. Antes de tudo, vamos analisar o fato do Filho de Deus ter vindo a este mundo. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. “O Filho de Deus é vindo”. Ele veio em perfeito amor, como a exata expressão do coração e propósito de Deus, de Sua natureza e caráter. Era o resplendor da glória de Deus, a expressa imagem da Sua Pessoa e, mesmo assim, modesto, humilde, bondoso e sociável. Era Alguém que podia ser visto dia após dia caminhando pelas ruas, indo de casa em casa, bom e afável para com todos, acessível aos mais pobres e tomando criancinhas em Seus braços da forma mais terna, gentil e cativante. Era visto enxugando as lágrimas da viúva, consolando o coração contrito e abatido, saciando o faminto, curando o enfermo, purificando o pobre leproso, atendendo a toda sorte de necessidade e sofrimento humano, a serviço de todos os que necessitavam de auxílio e compaixão. Ele “andou fazendo o bem”, foi o incansável servo das necessidades humanas. Ele jamais pensou em Si mesmo, ou buscou Seus próprios interesses no que quer que fosse; Ele viveu para os outros. Sua comida e bebida eram fazer a vontade de Deus, e satisfazer os corações cansados e sobrecarregados dos filhos e filhas dos homens. Seu amável coração sempre fluiu em mananciais de bênçãos para todos os que sentissem a pressão deste mundo triste e contaminado pelo pecado.

Temos aqui, portanto, o maravilhoso fato diante de nossos olhos. Este mundo foi percorrido por aquela bendita Pessoa da qual falamos — este mundo recebeu a visita do Filho de Deus, o Criador e Mantenedor do Universo, o humilde, despojado, amoroso e benigno Filho do Homem, Jesus de Nazaré, Deus sobre tudo e eternamente bendito e, ao mesmo tempo, um Homem absolutamente perfeito, santo e incontaminado. Ele veio em amor para com os homens, veio a este mundo como a expressão do perfeito amor para com aqueles que tinham pecado contra Deus e não mereciam coisa alguma além da perdição eterna por causa de seus pecados. Ele não veio para esmagar, mas para curar; não veio para julgar, mas para salvar e abençoar.

O que aconteceu a esse bendito Jesus? Como o mundo O tratou? O mundo O expulsou! Não O quis! Preferiu um ladrão e homicida em lugar desse Homem santo, bondoso e perfeito. O mundo recebeu o que pediu. Jesus e um ladrão foram colocados diante do mundo e a pergunta foi feita: “Qual desses dois quereis vós?“. Qual foi a resposta? “Barrabás”. “os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram à multidão que pedisse Barrabás e matasse Jesus. E, respondendo o presidente, disselhes: Qual desses dois quereis vós que eu solte? E eles disseram: Barrabás” (Mt 27:20-21). os líderes e guias religiosos do povo — os homens que deveriam guiá-los pelo caminho direito — persuadiram a multidão pobre e ignorante a rejeitar o Filho de Deus e aceitar um ladrão e homicida em Seu lugar!

Leitor lembre-se de que você está em um mundo que é culpado deste terrível ato. E não só isso, mas a menos que você se arrependa e creia verdadeiramente no Senhor Jesus Cristo, você é parte e porção deste mundo, e está sob toda a culpa que decorre daquele ato. Isto é por demais solene. O mundo todo é culpado de deliberada rejeição e assassinato do Filho de Deus. Para isso temos o testemunho de pelo menos quatro testemunhas inspiradas. Mateus, Marcos, Lucas e João, todos eles registram que o mundo todo — judeus e gentios, reis e governantes, sacerdotes e o povo — todas as classes, seitas e partidos, concordaram em crucificar o Filho de Deus. Todos concordaram em assassinar o único homem perfeito que apareceu neste mundo, a perfeita expressão de Deus — do Deus que é sobre tudo bendito eternamente. Ou consideramos os quatro evangelistas como falsas testemunhas ou admitimos que o mundo, como um todo e em cada uma das partes que o constituem, está manchado pelo terrível crime de ter crucificado o Senhor da glória.

Este é o verdadeiro padrão pelo qual o mundo deve ser medido e pelo qual deve ser medida a condição de todo inconverso deste mundo, seja homem, mulher ou criança. Se eu quiser saber o que é o mundo, basta ponderar no fato de que o mundo é aquele que permanece culpado diante de Deus pelo deliberado assassinato de Seu Filho. Que tremendo fato! Um fato que coloca sua marca no mundo da forma mais solene, e o expõe diante de nossos olhos em toda sua obscuridade. Deus tem uma demanda com este mundo. Ele tem uma questão a ser resolvida com o mundo — uma questão terrível — cuja mera menção deveria fazer os ouvidos dos homens retinir e o coração tremer. Um Deus justo precisa vingar a morte de Seu Filho. Não se trata meramente do fato de ter o mundo aceitado um vil ladrão e assassinado um homem inocente; isto, por si só, já teria sido um ato pavoroso. Mas, não, aquele inocente não era ninguém menos do que o Filho de Deus, o querido do coração do Pai.

Que pensamento! O mundo deverá prestar contas a Deus pela morte do Seu Filho — por tê-Lo pregado na cruz entre dois ladrões! Que ajuste de contas será! Quão vermelho será o dia da vingança! Que esmagamento terrível trará aquele momento, quando Deus desembainhar a espada do juízo para vingar a morte de Seu Filho! Quão vã é a ideia de que o mundo esteja melhorando! Melhorando apesar de manchado com o sangue de Jesus? Melhorando apesar de estar sob o juízo de Deus por causa desse ato? Melhorando apesar de precisar prestar contas a um Deus justo pelo tratamento dado ao Amado de Sua alma, enviado em amor para abençoar e salvar? Que estupidez cega! Que tolice louca! Ah, não! Não pode haver qualquer melhoria até que o mundo seja varrido pela destruição e a espada do juízo tenha feito seu terrível trabalho para vingar o assassinato — o assassinato deliberadamente planejado, e executado com tamanha determinação — do bendito Filho de Deus. Não podemos conceber uma ilusão mais falsa e fatal do que imaginar que o mundo possa algum dia ser melhorado enquanto estiver sob a terrível maldição da morte de Jesus. O mundo que preferiu Barrabás a Cristo não pode conhecer melhoria. Nada há para ele além do devastador juízo de Deus.

O mesmo se pode dizer do significativo fato da ausência de Jesus, em relação à presente condição e ao destino futuro do mundo. Mas este fato traz outras implicações. Ele está relacionado à Igreja de Deus como um todo, e ao crente individualmente. Se, por um lado, o mundo expulsou a Cristo, por outro os céus O receberam. Se, de sua parte, os homens O rejeitaram, Deus O exaltou. Se o homem O crucificou, Deus O coroou. Devemos distinguir cuidadosamente estas duas coisas. A morte de Cristo, quando vista como um ato do mundo — o ato do homem — envolve a total e absoluta ira e juízo. Por outro lado, a morte de Cristo, quando vista como um ato de Deus, envolve a total e absoluta bênção para todos aqueles que se arrependem e creem. Uma ou duas passagens da divina Palavra irão provar isto.

Vamos abrir por um momento no Salmo 69, o qual apresenta de forma tão clara nosso bendito e adorável Senhor sofrendo nas mãos dos homens e suplicando a Deus por vingança. “Ouve-me, Senhor, pois boa é a Tua misericórdia. Olha para mim segundo a Tua muitíssima piedade. E não escondas o Teu rosto do Teu servo, porque estou angustiado; ouve-me depressa. Aproxima-Te da minha alma, e resgata-a; livrame por causa dos meus inimigos. Bem tens conhecido a minha afronta, e a minha vergonha, e a minha confusão; diante de Ti estão todos os meus adversários. Afrontas Me quebrantaram o coração, e estou fraquíssimo; esperei por alguém que tivesse compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores, mas não os achei. Deram-me fel por mantimento, e na minha sede Me deram a beber vinagre. Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha. Escureçam-se-lhes os seus olhos, para que não vejam, e faze com que os seus lombos tremam constantemente. Derrama sobre eles a Tua indignação, e prenda-os o ardor da Tua ira” (Sl 69:16-28).

Tudo isso é por demais profundo e solene. Cada palavra desta súplica será respondida. Nem uma sílaba sequer cairá por terra. Com toda certeza Deus vingará a morte de Seu Filho. Ele acertará contas com o mundo — com os homens — pelo tratamento que Seu Filho unigênito recebeu em suas mãos. Acreditamos ser correto insistir nisto para o coração e consciência do leitor. Quão terrível o pensamento de Cristo intercedendo contra as pessoas! Quão espantoso escutá-Lo rogando a Deus por vingança sobre Seus adversários! Quão terrível será a resposta devida ao clamor do Filho ferido!

Mas olhemos o outro lado da questão. Abra no Salmo 22, que apresenta o bendito Senhor sofrendo nas mãos de Deus. Aqui o resultado é totalmente diferente. Ao invés de julgamento e vingança, trata-se de bênção e glória, universais e eternas. “Então declararei o Teu nome aos meus irmãos; louvar-Te-ei no meio da congregação. Vós, que temeis ao Senhor, louvai-O; todos vós, semente de Jacó, glorificai-O; e temei-O todos vós, semente de Israel…. O meu louvor será de Ti na grande congregação; pagarei os meus votos perante os que O temem. os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao Senhor os que O buscam; o vosso coração viverá eternamente. Todos os limites da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor; e todas as famílias das nações adorarão perante a Tua face. Porque o reino é do Senhor, e Ele domina entre as nações… Uma semente O servirá; será declarada ao Senhor a cada geração. Chegarão e anunciarão a Sua justiça ao povo que nascer, porquanto Ele o fez” (Sl 22:22-31).

Estas duas passagens apresentam, com imensa distinção, os dois aspectos da morte de Cristo. Ele morreu, como um mártir, pela justiça, nas mãos dos homens. O homem prestará contas disso a Deus. Mas Ele morreu nas mãos de Deus como uma vítima pelo pecado. Este é o fundamento de toda bênção para aqueles que creem no Seu nome. Seus sofrimentos como mártir desencadeiam a ira e o juízo sobre um mundo ímpio, enquanto Seus sofrimentos expiatórios abrem as fontes eternas de vida e salvação para a Igreja, para Israel e para toda a criação. A morte de Jesus consuma a culpa do mundo, mas assegura a aceitação da Igreja. O mundo está manchado, enquanto a Igreja está purificada por meio do sangue derramado na cruz.

Esta é a dupla aplicação do primeiro de nossos três grandes fat do Novo Testamento. Jesus veio e Se foi — veio, pois Deus amou ao mundo — foi embora, porque o mundo odiou a Deus. Se Deus perguntasse — e Ele perguntará — “o que vocês fizeram com Meu Filho?”, qual seria a resposta? “Nós O odiamos; nós O expulsamos e O crucificamos. Preferimos um ladrão a Ele”.

Mas, bendito seja eternamente o Deus de toda graça, o cristão, o verdadeiro crente, pode levantar os olhos para o céu é dizer: “Meu Senhor ausente está lá, e está lá por mim. Ele Se foi deste pobre mundo, e Sua ausência torna todo o cenário ao meu redor um deserto moral — uma desolada ruína”.

Ele não está aqui. Isto coloca no mundo, no discernimento de todo coração leal, o carimbo de um caráter inconfundível. O mundo não queria a Jesus. É o suficiente. De agora em diante já não precisamos nos espantar com qualquer história de horror. O noticiário policial, os processos nos tribunais, as estatísticas de nossas cidades e vilas já não precisam nos surpreender. O mundo que foi capaz de rejeitar a divina personificação de toda a bondade humana, e aceitou um ladrão e homicida em Seu lugar, provou sua torpeza moral em um grau que jamais poderá ser ultrapassado. Será que é motivo de espanto quando descobrimos a falsidade e crueldade do mundo? Ficamos surpresos quando descobrimos que este mundo não é confiável? Se isto ocorrer, está claro que não interpretamos corretamente a ausência de nosso bendito Senhor. O que prova a cruz de Cristo? Que Deus é amor? Sem dúvida. Que Cristo deu Sua preciosa vida para nos salvar das chamas de um inferno sem fim? Bendita verdade, seja dado total louvor ao Seu nome inigualável! Mas o que a cruz prova em relação ao mundo? Que sua culpa está consumada e seu juízo determinado. O mundo, ao pregar na cruz Aquele que era perfeitamente bom, provou da forma mais irrefutável que é perfeitamente mau. “Se Eu não viera, nem lhes houvera falado, não teriam pecado, mas agora não têm desculpa do seu pecado. Aquele que Me odeia, odeia também a Meu Pai. Se Eu entre eles não fizesse tais obras, quais nenhum outro tem feito, não teriam pecado; mas agora, viram-nas e Me odiaram a Mim e a Meu Pai. Mas é para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: Odiaram-Me sem causa” (Jo 15:22-26).

2. Porém devemos agora nos ocupar por um momento com nosso segundo e importante fato. O Espírito Santo de Deus desceu a este mundo. Já se passaram mais de dezenove séculos* desde que o bendito Espírito desceu do céu, e Ele permanece aqui desde então. Trata-se de um fato estupendo. Existe uma Pessoa divina neste mundo e Sua presença — assim como a ausência de Jesus — tem uma dupla aplicação: uma está relacionada ao mundo, outra tem a ver com cada homem, mulher e criança aqui; está relacionada à Igreja como um todo e a cada membro dela em particular. No que diz respeito ao mundo, esta excelsa testemunha desceu do céu para convencer o mundo de seu terrível crime de haver rejeitado e crucificado o Filho de Deus. No que diz respeito à Igreja, Ele veio como o bendito Consolador, para ocupar o lugar do Jesus ausente e confortar, com Sua presença e ministério, os corações do Seu povo. Assim, para o mundo o Espírito Santo é um poderoso Persuasor; para a Igreja Ele é um precioso Consolador.

[* N. do T.: O autor viveu no século 19]

Uma ou duas passagens das sagradas Escrituras fundamentarão estes pontos no coração e mente do leitor piedoso que se sujeita em humilde reverência à autoridade da divina Palavra. Vamos abrir no capítulo 16 do Evangelho de João. “E agora vou para Aquele que Me enviou; e nenhum de vós Me pergunta: Para onde vais? Antes, porque isto vos tenho dito, o vosso coração se encheu de tristeza. Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que Eu vá; porque, se Eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando Eu for, vo-lo enviarei. E, quando Ele vier, convencerá (elegxei) o mundo do pecado, e da justiça e do juízo. Do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para Meu Pai, e não Me vereis mais; e do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado” (Jo 16:5-11).

Mais uma vez, em João 14 lemos: “Se Me amais, guardai os Meus mandamentos. E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece; mas vós O conheceis, porque habita convosco, e estará em vós”. (Jo 14:15-19).

Estas passagens comprovam a dupla aplicação da presença do Espírito Santo. Não ousamos tratar este assunto apenas com esta breve introdução, mas sabemos que o leitor será incentivado a estudá-lo por si mesmo à luz das Sagradas Escrituras, e estamos convencidos de que quanto mais estudá-lo, maior será a profundidade e a importância prática de seu interesse. Oh, que pena que isto seja tão pouco compreendido, que os cristãos vejam tão pouco daquilo que está envolvido na presença pessoal do Espírito eterno, o Espírito Santo de Deus, neste mundo — suas solenes consequências relacionadas ao mundo e seus preciosos resultados para com a assembleia como um todo e para cada membro em particular.

Oh, que aqueles que fazem parte do povo de Deus em todo lugar possam ser guiados a uma compreensão mais profunda destas coisas; que possam considerar aquilo que é devido à divina Pessoa que habita neles e com eles; que possam ter o zeloso cuidado de não “entristecer” o Espírito Santo em seu andar ou “estingui-Lo” em suas assembleias públicas!

O FATO

Ao abordarmos este assunto tão glorioso, sentimos que não há nada melhor do que apresentar ao leitor o claro testemunho das Sagradas Escrituras, no que diz respeito ao fato em sua amplitude, de que nosso Senhor Jesus Cristo voltará — de que Ele deixará o lugar que agora ocupa no trono de Seu Pai e virá nas nuvens do céu, para receber Seu povo para Si, para executar juízo sobre o ímpio e estabelecer Seu reino universal e eterno.

Este fato está clara e completamente estabelecido no Novo Testamento, do mesmo modo como os outros dois fat aos quais já nos referimos. É verdade que o Filho de Deus virá do céu, assim como também é verdade que Ele foi para o céu, ou que o Espírito Santo continua neste mundo. Se admitirmos um fato, devemos admitir todos; se negarmos um, devemos negar todos, uma vez que tudo se apoia exatamente na mesma autoridade. Juntos eles permanecem ou juntos eles caem. É verdade que o Filho de Deus foi rejeitado, expulso e crucificado? É verdade que Ele foi para o céu? É verdade que Ele agora está sentado à destra de Deus, coroado de honra e glória? É verdade que o Espírito Santo de Deus desceu a este mundo cinquenta dias após a ressurreição de nosso Senhor e que Ele continua aqui?

Todas estas coisas são verdadeiras? Tão verdadeiras quanto as Escrituras podem torná-las. Portanto, é igualmente verdade que nosso bendito Senhor voltará outra vez e estabelecerá Seu reino neste mundo, que Ele irá — literal, real e pessoalmente — descer do céu, tomar posse de Seu grande poderio e do reino que vai de um polo ao outro, “desde o rio do Egito” aos confins da terra.

Talvez possa parecer estranho para alguns de nossos leitores considerarmos necessário levantar as provas de uma verdade tão clara como esta, mas é bom lembrar que estamos escrevendo como se o assunto fosse totalmente inédito para o leitor, como se ele nunca tivesse ouvido falar de algo parecido com a segunda vinda do Senhor, ou como se, tendo ouvido falar, continuasse a colocar isto em dúvida. Este é o motivo de tratarmos deste tema tão precioso de um modo tão elementar.

Agora vamos às nossas provas. Quando nosso adorável Senhor estava prestes a deixar Seus discípulos, em Sua infinita graça Ele procurou consolar o coração pesaroso deles com palavras da mais doce ternura. “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em Mim. na casa de Meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, Eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando Eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para Mim mesmo, para que onde Eu estiver estejais vós também”. (Jo 14:1-3).

Encontramos aqui algo bem definido. Na verdade não está apenas bem definido, como é também motivo de ânimo e consolo. “Virei outra vez”. Ele não diz “mandarei alguém buscar vocês”. Muito menos Ele diz que “vocês virão Me encontrar quando morrerem”. Ele não diz algo parecido. Enviar um anjo ou uma legião de anjos não seria a mesma coisa que Ele vir pessoalmente. Não há dúvida de que seria muito gentil de Sua parte, e muito glorioso para nós, se uma multidão dentre as hostes celestiais fosse enviada, com cavalos e carruagens de fogo, para nos transportar triunfantes para o céu. Mas isto não seria o cumprimento da doce promessa que Ele mesmo fez, e certamente Ele cumprirá o que prometeu. Ele não diria uma coisa para depois fazer outra. Ele não pode mentir ou alterar Sua Palavra. E não apenas isto, mas algo como enviar um anjo ou uma hoste de anjos para nos buscar não iria satisfazer o amor que Ele traz em Seu coração.

Que tocante a graça que fulgura em tudo isso! Se eu estiver esperando por um amigo importante e muito querido que deve chegar de trem, não ficarei satisfeito em mandar um funcionário ou um táxi para encontrá-lo; devo ir eu mesmo. É precisamente isto que nosso Senhor quer fazer. Ele foi para o céu, e Sua entrada ali prepara e define o lugar do Seu povo. Não haveria lugar para nós em meio às muitas mansões na casa do Pai se nosso Jesus não tivesse ido na frente; e então, para que não existisse no coração qualquer sentimento de estranheza de pensar em nossa entrada naquele lugar, Ele diz, com tamanha doçura: “Virei outra vez, e vos levarei para Mim mesmo, para que onde Eu estiver estejais vós também”. Nada menos do que isto pode cumprir a graciosa promessa feita por nosso Senhor, ou satisfazer o amor que Ele traz no coração.

E é bom que se observe cuidadosamente que esta promessa nada tem a ver com a morte do crente individualmente. Quem poderia imaginar que, ao dizer “virei outra vez”, o Senhor realmente quisesse dizer que deveríamos ir a Ele por meio da morte? Como presumir que podemos ter tal liberdade para interpretar de outro modo as palavras claras e preciosas de nosso Senhor? O certo é que, se Ele quisesse dizer que iríamos nos encontrar com Ele por meio da morte, poderia e teria dito isto. Mas não disse, pois não foi o que quis dizer; tampouco é possível que falasse uma coisa querendo dizer outra. Sua vinda para nós, e nossa ida para Ele, são coisas totalmente diferentes, e por se tratar de ideias diferentes, elas teriam sido apresentadas em linguagem diferente. Assim, por exemplo, no caso do ladrão arrependido na cruz, nosso Senhor não fala de vir buscá-lo, mas diz: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. É preciso que nos lembremos de que as Escrituras são tão divinamente definitivas quanto inspiradas, e por esta razão nunca deveríamos confundir duas coisas que são tão diferentes quanto a vinda do Senhor e o adormecer do cristão.

Talvez aqui seja bom assinalar que não existem mais do que quatro passagens em todo o Novo Testamento se referindo à questão do cristão passando pela morte. A primeira é aquela em Lc 23, já mencionada: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. A segunda ocorre em Atos 7: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”. A terceira é aquela expressão familiar e encantadora de 2 Coríntios 5, “deixar este corpo, para habitar com o Senhor”. A quarta ocorre no fascinante primeiro capítulo da epístola aos Filipenses, “tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor”.

Estas passagens tão preciosas compõem a totalidade de testemunhos nas Escrituras sobre a interessante questão da condição pós-morte. Há uma passagem em Ap 14 que costuma ser erroneamente aplicada a este assunto: “Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, e as suas obras os seguem”. Mas isto não tem relação com os cristãos hoje, embora não haja dúvida de que todos os que morrem no Senhor sejam bem-aventurados e suas obras os sigam. Todavia, a referência é para um tempo ainda futuro, quando a Igreja já tiver deixado esta cena por completo, e outras testemunhas se apresentarem. Em suma, Ap 14:13 refere-se aos tempos apocalípticos e deve ser visto desta forma se quisermos evitar confusão.

Devemos agora voltar ao nosso assunto e seguir com nossas provas e, ao fazê-lo, gostaríamos de pedir ao leitor que abra no primeiro capítulo de at dos Apóstolos. O bendito Senhor tinha acabado de subir deste mundo diante de Seus santos apóstolos. “E, estando com os olhos fitos no céu, enquanto Ele subia, eis que junto deles se puseram dois homens vestidos de branco. os quais lhes disseram: Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu O vistes ir” (Atos 1:10,11).

Isto é profundamente interessante e fornece uma prova das mais marcantes de nossa tese atual. Na verdade, é impossível ficar imune à sua força. Oh, quem poderia ou desejaria evitá-la? A forma como a testemunha angelical fala para os homens da Galileia poderia até ser considerada tautologia, mas, como bem sabemos, não existe e nem pode existir algo assim no volume de Deus. Portanto, o que vemos neste testemunho é algo encantador em sua abrangência e divino em sua plenitude. Dele aprendemos que o mesmo Jesus, que deixou este mundo e subiu ao céu na presença de diversas testemunhas, deverá voltar da mesma maneiracomo eles O viram subir ao céu. Como Ele subiu? Subiu pessoalmente, literalmente, realmente, a mesma Pessoa que tinha acabado de conversar com eles com tanta familiaridade — a mesma Pessoa que eles viram com seus próprios olhos, ouviram com seus ouvidos, tocaram com suas mãos — que comera na presença deles e, “depois de ter padecido, Se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas”. Bem, então Ele “há de vir assim como para o céu O vistes ir”.

Aquele que com mãos levantadas, Subiu de um mundo tão cruel, Voltará com bênçãos reservadas, Pra nos levar daqui ao céu. E neste ponto podemos perguntar, já prevendo algo que poderá vir a ser publicado futuramente: Quem viu o bendito Senhor subir? O mundo? Não, nenhum inconverso, nenhum incrédulo jamais teve diante de seus olhos nosso precioso Senhor depois daquele momento quando foi colocado no túmulo. A última visão que o mundo teve de Jesus foi pendurado na cruz, um espetáculo para anjos, homens e demônios. Da próxima vez Ele será visto, assim como acontece com o relâmpago, vindo para executar juízo e pisar, em terrível vingança, o lagar da ira do Deus Todo-poderoso. Que pensamento tremendo!

Portanto ninguém, exceto os que são Seus, viu o Salvador subir, do mesmo modo como apenas os Seus, e ninguém mais, O viram a partir do momento de Sua ressurreição. Ele Se revelou — bendito seja o Seu santo nome! — àqueles que eram queridos ao Seu coração. Ele confirmou e confortou, fortaleceu e encorajou suas almas por meio dessas “muitas e infalíveis provas” das quais o narrador inspirado nos fala. Ele os levou até os confins do mundo invisível, o mais longe que os homens poderiam ir ainda no corpo, e ali permitiu que O vissem subindo ao céu e, enquanto contemplavam aquela cena gloriosa, Ele colocou o precioso testemunho bem em seus corações. “Esse Jesus” — o mesmo, não outro, não um estranho, mas o mesmo amoroso, compassivo, gracioso, imutável amigo — “que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu O vistes ir”.

Será que um testemunho poderia ser mais claro ou satisfatório? Poderia a prova ser mais evidente ou conclusiva? Como pode qualquer contra-argumento se sustentar ou ser levantada qualquer objeção? Ou aqueles dois homens em vestes brancas eram testemunhas falsas, ou nosso Jesus voltará exatamente do modo como partiu. Não há meio-termo entre estas duas conclusões. Lemos nas Escrituras que “pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada”, portanto pela boca de dois mensageiros celestiais — dois arautos vindos da região de luz e verdade — temos a firme palavra de que nosso Senhor Jesus Cristo voltará em Sua forma corpórea atual, para ser visto antes de todos pelos Seus, à parte de todos os outros, na santa intimidade e profundo recato que caracterizou Sua partida deste mundo. Tudo isso, bendito seja Deus, está incluído nestas duas pequenas palavras: “assim como”.

Não podemos tentar, em um texto breve como este, apresentar todas as provas que podem ser encontradas nas páginas do Novo Testamento. Apresentamos uma dos Evangelhos e uma de Atos, e agora gostaríamos de pedir ao leitor que abrisse conosco as Epístolas. Vamos tomar como exemplo a Primeira Epístola aos Tessalonicenses. Escolhemos esta Epístola porque é reconhecida como a mais antiga dentre os escritos de Paulo, e também porque foi escrita para um grupo de convertidos muito novos. Esta última observação é importante, já que às vezes ouvimos afirmações de que a verdade da vinda do Senhor não deve ser apresentada a novos convertidos. Fica evidente que o apóstolo Paulo não a considerava imprópria para novos convertidos pelo fato de que, dentre todas as epístolas que escreveu, nenhuma fala tanto da vinda do Senhor quanto a que foi escrita para os recém-convertidos tessalonicenses. A verdade é que, quando uma alma é convertida e exposta à plena luz e liberdade do evangelho de Cristo, é divinamente natural que ela aguarde a vinda do Senhor. Esta verdade tão preciosa é parte integral do evangelho. A primeira vinda e a segunda vinda estão ligadas da forma mais bendita pelo elo divino da presença pessoal do Espírito Santo na Igreja.

Por outro lado, onde quer que a alma não esteja fundamentada na graça, onde quer que paz e liberdade não estejam sendo desfrutadas e onde um evangelho incompleto tiver sido apresentado, se descobrirá que a esperança da vinda do Senhor não é tratada com carinho, pelo simples motivo de que a alma estará, por necessidade, ocupada com a questão de sua própria condição e seus objetivos. Se eu não tenho a certeza de minha salvação — se não sei que tenho vida eterna, que sou filho de Deus — não posso estar esperando pela volta do Senhor. É só quando conhecemos o que Jesus fez por nós em Sua primeira vinda que podemos buscar, com uma santa e viva inteligência, pela Sua segunda vinda.

Mas vamos abrir em nossa Epístola. Leia as seguintes sentenças do primeiro capítulo: “Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza… De maneira que fostes exemplo para todos os fiéis na Macedônia e Acaia. Porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou, de tal maneira que já dela não temos necessidade de falar coisa alguma; Porque eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que tivemos para convosco, e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus a Seu Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura” (1 Ts 1:5-10).

Temos aqui uma bela ilustração do efeito de um evangelho completamente claro, recebido com uma fé simples e sincera. Eles se converteram dos ídolos para servir o Deus vivo e verdadeiro, e esperar pelo Seu Filho. Estavam realmente convertidos à bendita esperança da vinda do Senhor. Aquela era uma parte integral do evangelho que Paulo pregava, e uma parte integral da fé deles. Era real a conversão dos ídolos? Sem dúvida. Era uma realidade servir o Deus vivo? Indubitavelmente. Bem, então era igualmente tão real, tão positivo, tão simples que esperassem pelo Filho de Deus vindo do céu. Se questionarmos a realidade de uma coisa, seremos obrigados a questionar a realidade de todas, já que todas estão ligadas e formam um belo conjunto da verdade cristã na prática. Se você perguntasse a um cristão tessalonicense o quê ele esperava, qual teria sido sua resposta? Será que teria respondido, “estou esperando que o mundo melhore por meio do evangelho que eu próprio recebi” ou “estou esperando pelo momento de minha morte quando irei me encontrar com Jesus”? Não. Sua resposta teria sido simplesmente esta: “Estou esperando pelo Filho de Deus vindo do céu”.

Esta, e nenhuma outra, é a esperança adequada ao cristão, a esperança adequada à Igreja. Esperar pela melhoria do mundo não é esperança cristã alguma. Se fosse, você poderia igualmente esperar pela melhoria da carne, pois há tanta esperança para a carne como para o mundo. E quanto à questão da morte — que sem dúvida pode ocorrer — ela não é apresentada sequer uma vez como a verdadeira esperança adequada ao cristão. E pode-se afirmar, com toda confiança, que não existe sequer uma passagem em todo o Novo Testamento na qual a morte seja citada como a esperança do crente. Por outro lado, a esperança da vinda do Senhor está ligada, da forma mais íntima, a todas as preocupações, questões e relacionamentos da vida, conforme vemos na epístola que temos diante de nós. Assim, ao procurar fazer referência à interessante questão de sua própria ligação pessoal com os amados santos em Tessalônica, o apóstolo diz: “Porque, qual é a nossa esperança, ou gozo, ou coroa de glória? Porventura não o sois vós também diante de nosso Senhor Jesus Cristo em Sua vinda? na verdade vós sois a nossa glória e gozo”.

Mais uma vez, ao pensar em seu progresso em santidade e amor, ele acrescenta, “E o Senhor vos aumente, e faça crescer em amor uns para com os outros, e para com todos, como também o fazemos para convosco; para confirmar os vossos corações, para que sejais irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os Seus santos” (1Ts 3:12-13).

Finalmente, ao querer confortar o coração de seus irmãos acerca dos que já dormiam, como o apóstolo faz? Acaso ele lhes diz que em breve eles deviam segui-los? Não, isso teria sido bem adequado para os tempos do Antigo Testamento, como diz Davi acerca de sua criança que tinha partido: “Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” (2 Sm 12:23). Todavia não é assim que o Espírito Santo nos instrui em 1 Tessalonicenses, muito pelo contrário. “Não quero, porém, irmãos”, diz ele, “que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança. Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com Ele. Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (1 Ts 4:13-18).

É praticamente impossível algo ser mais simples, direto e conclusivo do que isto. os cristãos tessalonicenses, como já assinalamos, se converteram na esperança da volta do Senhor. Foram ensinados a buscar por isso diariamente. Crer que Ele voltaria era algo tão integrado ao seu cristianismo quanto crer que Ele veio e partiu. Por isso eles foram pegos de surpresa quando alguns foram levados a passar pela morte; eles não esperavam por isso e temiam que os que tinham partido pudessem perder o gozo daquele momento tão bem-aventurado e aguardado que era a volta do Senhor. Portanto o apóstolo escreve para corrigir o equívoco e, ao fazê-lo, derrama sobre o tema uma fresca torrente de luz, assegurando-lhes que os mortos em Cristo — o que inclui todos que dormiram ou dormirão, em suma, aqueles dos tempos do Antigo Testamento, bem como aqueles do Novo Testamento — ressuscitarão primeiro, isto é, antes que os vivos sejam transformados, e todos subirão juntos para encontrar seu Senhor que desce.

Teremos oportunidade de voltar a esta notável passagem, quando tratarmos de outros aspectos deste glorioso assunto. Nós tão somente a citamos aqui como uma das quase inumeráveis provas de que nosso Senhor voltará — pessoal, real e verdadeiramente — e que Sua vinda pessoal é a verdadeira e adequada esperança da Igreja de Deus, coletivamente, e do crente, individualmente.

Devemos encerrar esta porção lembrando o leitor cristão de que ele jamais poderá se sentar à mesa de seu Senhor sem ser lembrado desta gloriosa esperança, considerando as palavras que brilham nas páginas inspiradas: “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até…” quando? Até você morrer? Não, mas “até que venha” (1 Co 11:26). Quão precioso é isto! A mesa do Senhor permanece entre essas duas maravilhosas épocas, a cruz e o advento — a morte e a glória. O crente pode elevar os olhos acima da mesa e ver os raios de glória iluminando o horizonte. É nosso privilégio, ao nos reunirmos a cada dia do Senhor em torno da mesa do Senhor para anunciar Sua morte, podermos dizer: “Talvez esta seja a última oportunidade de celebrar esta preciosa festa. Ele poderá voltar antes que outro dia do Senhor amanheça sobre nós”. Mais uma vez dizemos: Quão precioso é isto!

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A DUPLA APLICAÇÃO DO FATO

Confiando ter apresentado o fato da vinda do Senhor de forma completa, devemos agora colocar diante do leitor a dupla aplicação desse fato — sua aplicação em relação ao povo do Senhor, e sua aplicação em relação ao mundo. A primeira é apresentada, no Novo Testamento, como a vinda de Cristo para receber Seu povo para Si; a última é tratada como “o dia do Senhor” — uma expressão usada com frequência também nas Escrituras no Antigo Testamento. Estas coisas nunca são confundidas nas Escrituras, conforme veremos ao nos ocuparmos das várias passagens. os cristãos as confundem e é por esta razão que encontramos com frequência “a bendita esperança” envolta em densas nuvens e associada, na sua maneira de pensar, com circunstâncias de terror, ira e juízo, coisas que não têm absolutamente coisa alguma a ver com a vinda de Cristo para o Seu povo, mas que estão intimamente ligadas com “o dia do Senhor”. Portanto, que o leitor cristão tenha bem definido em seu coração, com base na clara autoridade das Sagradas Escrituras, que a grande e específica esperança que deve sempre acalentar é a da vinda de Cristo para o Seu povo. Esta esperança pode se realizar nesta mesma noite. Não há qualquer outra coisa para se esperar, nenhum evento para ocorrer entre as nações, nada para acontecer na história de Israel, nada no governo de Deus neste mundo, nada, em suma, em qualquer que seja a sua forma, para se interpor entre o coração do verdadeiro crente e sua esperança celestial. Cristo pode vir hoje à noite para o Seu povo. na verdade não há nada que impeça. Ninguém pode dizer quando Ele virá, mas podemos dizer com júbilo que Ele deve vir a qualquer momento. E, bendito seja o Seu nome, quando Ele vier para nós, não será acompanhado das circunstâncias de terror, ira e juízo. Não será com trevas e escuridão e tempestade. Tais coisas acompanharão “o dia do Senhor”, como o apóstolo Pedro explica claramente aos Judeus em seu primeiro grande sermão, no dia de Pentecostes, no qual cita as seguintes palavras da solene profecia de Joel: “E mostrarei prodígios no céu, e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes…” antes de quê? Da vinda do Senhor para o Seu povo? Não, mas antes “que venha o grande e terrível dia do Senhor”. Quando nosso Senhor vier para receber o Seu povo para Si nenhum olho O verá, nenhum ouvido ouvirá Sua voz, exceto seu próprio povo amado e redimido. Lembremo-nos das palavras das testemunhas angelicais no primeiro capítulo de Atos. Quem viu o bendito Senhor subindo aos céus? Ninguém além dos que eram Seus. Bem, Ele “há de vir assim como para o céu O vistes ir”. Do mesmo modo como foi na ida, assim será na volta, se acatarmos o que dizem as Escrituras. Confundir o dia do Senhor com Sua vinda para Sua Igreja é ignorar os mais claros ensinos das Escrituras e privar o crente de sua verdadeira e justa esperança. E aqui talvez não possamos fazer melhor do que chamar a atenção para uma passagem muito importante e interessante na Segunda Epístola de Pedro: “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a Sua majestade. Porquanto Ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória Lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em Quem Me tenho comprazido. E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com Ele no monte santo; e temos, mui firme [ou confirmada], a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” (2 Pe 1:16-19). Esta passagem exige a maior atenção do leitor. Ela apresenta, da forma mais clara possível, a diferença entre “a palavra dos profetas” e a esperança peculiar do cristão, a saber, “a estrela da alva”. Devemos nos lembrar de que o grande assunto da profecia é o governo de Deus do mundo em conexão com a descendência de Abraão. “Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando dividia os filhos de Adão uns dos outros, estabeleceu os termos dos povos, conforme o número dos filhos de Israel. Porque a porção do Senhor é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança” (Dt 32:8,9). Aqui está, portanto, o escopo e tema da profecia — Israel e as nações. Até uma criança é capaz de entender isto. Se percorrermos os profetas, do início de Isaías ao final de Malaquias, não encontraremos qualquer menção da Igreja de Deus, sua posição, sua porção ou suas perspectivas. Não há dúvida de que a palavra profética é profundamente interessante, e é extremamente útil para o cristão estudá-la, mas ela será útil na medida em que este entender sua própria abrangência e objetivo, além de enxergar a diferença entre ela e a esperança que cabe ao cristão. Podemos afirmar sem medo de errar que é totalmente impossível alguém estudar as profecias do Antigo Testamento corretamente sem enxergar claramente o verdadeiro lugar da Igreja. Não podemos tentar entrar no assunto da Igreja neste breve tratado. Trata-se de um assunto que já foi repetidamente abordado e escrutinado em outras publicações, e podemos agora apenas pedir que o leitor pondere e examine a afirmação que deliberadamente fazemos aqui, a saber, que não existe uma única sílaba sobre a Igreja de Deus — o corpo de Cristo — de uma capa a outra do Antigo Testamento. Existem tipos, sombras e ilustrações que, com a plena luz que agora temos do Novo Testamento, podemos ver, entender e apreciar. Mas não teria sido possível a qualquer crente do Antigo Testamento enxergar o grande mistério de Cristo e da Igreja, principalmente por isto não ter sido então revelado. O apóstolo inspirado nos diz expressamente que é algo que estava “oculto”, não nas Escrituras do Antigo Testamento, mas “em Deus”, conforme lemos em Ef 3:9, “E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo”. Do mesmo modo, em cl lemos do “mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos” (Cl 1:26). Estas duas passagens deixam fora de qualquer questão a veracidade de nossa afirmação para aqueles que tiverem o desejo de serem governados tão somente pela autoridade das Sagradas Escrituras. Elas nos ensinam que o grande mistério — Cristo e a Igreja — não é para ser encontrado no Antigo Testamento. Onde é que temos, no Antigo Testamento, qualquer menção de Judeus e Gentios formando um só corpo e sendo unidos pelo Espírito Santo a uma Cabeça viva no Céu? Como tal coisa poderia ser possível enquanto a “parede de separação que estava no meio” permanecesse como uma barreira intransponível entre circuncisos e incircuncisos? Se alguém precisasse citar uma característica especial da antiga dispensação, mencionaria logo “a rígida separação entre judeus e gentios”. Por outro lado, se lhe fosse solicitado que mencionasse uma característica especial da Igreja, ou do cristianismo, ele imediatamente responderia: “A união íntima de judeus e gentios em um só corpo”. Em suma, as duas condições estão em claro contraste e era totalmente impossível que ambas pudessem ser válidas ao mesmo tempo. Assim, enquanto a parede de separação permanecesse, a verdade da Igreja não poderia ter sido revelada. Mas após a morte de Cristo ter derrubado essa parede, o Espírito Santo desceu do Céu para formar um corpo e uni-lo, por Sua presença e habitação, à Cabeça ressuscitada e glorificada nos Céus. Tal é o grande mistério de Cristo e da Igreja, para a qual não poderia existir uma base que fosse menos do que uma redenção consumada. Pedimos agora ao leitor que examine este assunto por si mesmo. Busque nas Escrituras para ver se estas coisas são realmente assim. Esta é a única maneira de se chegar à verdade. Devemos deixar de lado todos nossos pensamentos e argumentos, nossos preconceitos e preferências, e abordarmos as Sagradas Escrituras como uma criancinha. É assim que aprenderemos a vontade de Deus sobre este assunto tão precioso e interessante. Descobriremos que a Igreja de Deus, o corpo de Cristo, não existiu de fato até após a ressurreição e ascensão de Cristo e a consequente descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Além disso, descobriremos que a plena e gloriosa doutrina da Igreja não foi apresentada até os dias do apóstolo Paulo. (Veja Rm 16:25, 26; Ef 1-3; Cl 1:25-29). Finalmente, veremos que as verdadeiras e inequívocas fronteiras da história terrena da Igreja são o Pentecostes (Atos 2) e o arrebatamento, ou o traslado dos santos para o céu (1Ts 4:13-17). Chegamos, portanto, à posição da qual podemos ter uma visão da esperança que é pertence à Igreja, e essa esperança é, com toda certeza, “a resplandecente estrela da manhã”. A respeito desta esperança os profetas do Antigo Testamento não emitiram sequer uma sílaba. Eles falam de forma ampla e clara do “dia do Senhor” — um dia de juízo sobre o mundo e suas práticas (veja Is 2:12-22 e referências) —, todavia o “dia do Senhor”, com todas as circunstâncias de ira, juízo e terror que lhe são peculiares nunca deve ser confundido com Sua vinda para o Seu povo. Quando nosso bendito Senhor vier para o Seu povo não haverá coisa alguma de terrível. Ele virá em toda a doçura e ternura de Seu amor para receber os Seu povo amado e redimido para Si. Ele virá terminar a preciosa história de Sua graça. “Aparecerá (ophthesetai) segunda vez, sem pecado [Isto é, à parte de qualquer questão relacionada ao pecado], aos que o esperam para salvação” (Hb 9).* Ele virá como noivo para receber a noiva; e quando assim vier, ninguém além dos que são Seus ouvirão Sua voz ou verão Sua face. Se Ele viesse nesta mesma noite para o Seu povo — e pelo que sabemos Ele pode vir — se a voz do arcanjo e a trombeta de Deus forem ouvidas esta noite, então todos os mortos em Cristo — todos os que foram colocados a dormir por Jesus — todos os santos de Deus, tanto aqueles dos tempos do Antigo quanto do Novo Testamento, que dormem em nossos cemitérios e sepulcros, ou nas profundezas do oceano, todos ressuscitariam de seu sono temporário. Todos os santos que estivessem vivos seriam transformados num momento, e todos seriam arrebatados para encontrar seu Senhor nos ares, e voltar com Ele para a casa do Pai. (Jo 14:3; 1 Ts 4:16, 17; 1 Co 15:51-52). [* A expressão “que O esperam para salvação” refere-se a todos os crentes. Não se refere, como alguns poderiam supor, apenas àqueles que detêm a verdade da segunda vinda do Senhor. Isso tornaria nosso lugar com Cristo em Sua vinda dependente de conhecimento, ao invés de depender de nossa união com Ele pela presença e poder do Espírito Santo. O Espírito de Deus, na passagem acima, assegura da forma mais graciosa que todo o povo de Deus espera, de uma maneira ou outra, pelo precioso Salvador, e isso é o que realmente acontece. As pessoas podem não enxergar todos os detalhes. Elas podem não desfrutar de igual clareza de opinião ou profundidade e plenitude de compreensão, mas, com toda certeza, elas ficariam contentes de, a qualquer momento, poderem ver Aquele que as amou e Se entregou a Si mesmo por elas.] É isto que significa o arrebatamento ou retirada dos santos, e não tem nada a ver diretamente com Israel ou com as nações. Trata-se da esperança distinta e única da Igreja, e não existe sequer uma pista disso em todo o Antigo Testamento. Se alguém afirmar que existe, que apresente. Se existir, não terá dificuldade para mostrar. Nós declaramos, solene e deliberadamente, que não existe. Pois para tudo o que diz respeito à Igreja — sua posição, sua vocação, sua porção, suas expectativas — devemos nos dirigir às páginas do Novo Testamento e, dentre aquelas páginas, em especial às Epístolas de Paulo. Confundir “a palavra profética” com a esperança da Igreja é causar dano à verdade de Deus e iludir as almas do Seu povo. É verdade que o inimigo tem tido êxito neste sentido em toda a extensão da Igreja professa. E é por isso que tão poucos cristãos têm ideias realmente bíblicas sobre a vinda de seu Senhor. A maioria perscruta a profecia em busca da esperança da Igreja, confundindo “o Sol de justiça” com a “Estrela da manhã”, misturando a vinda de Cristo para o Seu povo com Sua vinda com o Seu povo e considerando a Sua “vinda” ou o estar com Ele como algo idêntico à Sua “aparição” ou “manifestação”.* [* N. do T.: Em algumas versões da Bíblia em português é usada indistintamente a palavra “vinda” em ambas as situações. Na versão em inglês, à qual o autor se refere, são utilizadas palavras como “coming” para o primeiro caso e “appearing” ou “manifestation” para o segundo caso.] Isso tudo é um erro dos mais sérios, para o qual queremos alertar nossos leitores. Quando Cristo vier com o Seu povo “todo olho O verá”. Quando Ele Se manifestar, os Seus também serão manifestos com Ele. “Quando Cristo, que é a nossa vida, Se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória” (Cl 3:4). Quando Cristo vier exercer juízo, os Seus santos virão com Ele. “Eis que é vindo o Senhor com milhares de Seus santos; para fazer juízo contra todos” (Jd 1:14, 15). O mesmo é encontrado em Ap 19, onde Aquele que cavalga o cavalo branco é seguido pelos exércitos nos céus em cavalos brancos, vestidos de linho fino, branco e puro. Esses exércitos não são anjos, mas santos, pois não lemos de anjos vestidos de linho branco, o que é uma clara expressão, no próprio capítulo, das “justiças dos santos” (versículo 8). Portanto, é por demais evidente que para os santos estarem acompanhando Seu Senhor quando Ele vier em juízo, devem estar com Ele antes disso. O evento de sua subida para estar com Ele não é apresentado no livro do Apocalipse, a menos que esteja subentendido — como não temos dúvida de que está — no arrebatamento da criança no capítulo 12. A criança é, com certeza, Cristo, e já que Cristo e o Seu povo estão indissoluvelmente unidos, o Seu povo encontra-se assim completamente identificado com Ele, bendito seja para sempre Seu santo e precioso nome! Todavia, fica claro que não faz parte do escopo do livro de Apocalipse apresentar-nos a vinda de Cristo para o Seu povo, o arrebatamento deste para encontrá-Lo nos ares, ou seu retorno para a casa do Pai. Estes benditos eventos ou fat devem ser procurados em outras passagens como, por exemplo, Jo 14:3, 1 Co 15:23, 51, 52 e 1Ts 4:14-17. Que o leitor pondere nestas três passagens; que possa absorver, no íntimo de sua alma, o seu ensino claro e precioso. Não há coisa alguma difícil acerca delas, não há qualquer obscuridade, névoa ou incerteza. Um bebê em Cristo pode entendê-las. Elas apresentam da forma mais clara e simples possível a verdadeira esperança do cristão, a qual, repetimos com ênfase e insistimos com o leitor como sendo a instrução direta e positiva das Sagradas Escrituras, é a vinda de Cristo para receber para Si mesmo o Seu povo — todos os que Lhe pertencem. Ele virá para levá-los de volta à casa de Seu Pai, para que estejam ali Consigo enquanto Deus executa Seus procedimentos governamentais para com Israel e as nações, preparando, por meio de Seus Atos judiciais, o caminho para a revelação do Seu Primogênito ao mundo. Então, se alguém perguntar a razão de não encontrarmos a vinda de Cristo para os Seus no livro de Apocalipse, a resposta é que esse livro é principalmente um livro de juízo — um livro governamental e judicial, pelo menos do capítulo 1 ao 20. É por esta razão que até a Igreja ser apresentada ali ela está sob juízo. Nos capítulos 2 e 3 não vemos a Igreja como o corpo ou a noiva de Cristo, mas como uma testemunha responsável na terra, cuja condição está sendo cuidadosamente examinada e rigidamente julgada por Aquele que anda em meio aos candeeiros. Portanto, não estaria de acordo com o caráter ou objetivo do livro de Apocalipse apresentar, de forma direta, o arrebatamento dos santos. Ele nos mostra a Igreja na terra ocupando um lugar de responsabilidade. Isto aparece, em Ap 2 e 3, como “as coisas que são”. Mas dali até o capítulo 19 de Apocalipse não há uma sílaba sequer sobre a Igreja na terra. O que fica bem claro é que a Igreja não estará na terra durante aquele solene período. Ela estará com sua Cabeça e Senhor no divino abrigo da casa do Pai. os redimidos são vistos no céu, nos capítulos 4 e 5, como os vinte e quatro anciãos coroados. Eles estarão ali, bendito seja Deus, enquanto os selos forem abertos, as trombetas estiverem soando e as taças forem derramadas. Pensar na Igreja como estando no mundo em Apocalipse 6-8, colocá-la em meio aos juízos apocalípticos, fazê-la passar pela “grande tribulação” ou sujeitá-la à “hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo para tentar os que habitam na terra”, seria o mesmo que falsificar sua posição, roubar dela seus direitos garantidos e contradizer a clara e positiva promessa de seu Senhor.* [* Em uma publicação futura teremos oportunidade de mostrar que, após a Igreja ter sido removida para o céu, o Espírito de Deus irá agir tanto entre os judeus como entre os gentios. Veja Ap 7.] Não, de modo algum, amado leitor cristão; jamais permita que homem algum o engane, por quaisquer que sejam os meios. A Igreja é vista na terra em Ap 2 e 3. Ela é vista no céu, junto com os santos do Antigo Testamento, em Ap 4 e 5. O livro de Apocalipse não nos diz como ela chegou ali, mas nós a vemos ali em elevada comunhão e santa adoração. Depois, em Ap 19, Aquele que cavalga o cavalo branco desce, com os Seus santos, para exercer juízo sobre a besta e o falso profeta — para vencer todo inimigo e todo o mal, e reinar sobre toda a terra pelo bendito período de mil anos. Tal é o claro ensinamento do Novo Testamento para o qual sinceramente chamamos a atenção de nossos leitores. E ninguém suponha que, ao ensinarmos assim, ao enfatizarmos que a Igreja não estará na “grande tribulação” e não passará pela “hora da tentação”, nosso objetivo seja apresentar uma senda fácil para os cristãos. Não se trata disso. O fato é que a condição real e normal da Igreja neste mundo, e, por conseguinte do cristão individualmente, é de tribulação. Assim diz nosso Senhor: “no mundo tereis aflições”. E “também nos gloriamos nas tribulações”. Portanto, não se trata de uma questão de se evitar aquilo que já é a porção determinada para nós neste mundo, se tão somente formos fiéis a Cristo. Mas é certo que toda a verdade da posição da Igreja e de sua expectativa está envolvida nesta questão, e esta é a razão de insistirmos tanto para que nossos leitores atentem a isto em oração. O grande objetivo do inimigo é arrastar a Igreja de Deus para um nível terreno, desviar totalmente os cristãos da esperança que lhes foi divinamente designada, levá-los a confundir as coisas que Deus diferenciou, ocupá-los com as coisas terrenas, fazendo com que misturem de tal maneira a vinda de Cristo para o Seu povo com Sua aparição em juízo para o mundo, que fiquem incapazes de cultivar aquelas afeições nupciais e as aspirações celestiais que lhes pertencem por serem membros do corpo de Cristo. O inimigo de bom grado fará com que fiquem procurando por diversos eventos terrenos que possam separá-los da esperança que lhes cabe, a fim de não poderem viver — como Deus gostaria que pudessem — numa premente expectativa, com um desejo ardente pelo surgimento da “resplandecente Estrela da Manhã”. O inimigo sabe muito bem o que o aguarda, e certamente não devemos ignorar sua astúcia, mas nos dedicarmos ao estudo da Palavra de Deus, aprendendo assim, como certamente aprenderemos, a dupla aplicação do glorioso fato da vinda do Senhor.

“A VINDA” E “O DIA”

Pediremos agora ao leitor que abra conosco as duas Epístolas aos Tessalonicenses. Como já dissemos, esses cristãos se converteram à bendita esperança da volta do Senhor. Eles foram ensinados a esperar por Ele dia após dia. Não se tratava meramente da doutrina do advento recebida e guardada na mente, mas de uma Pessoa divina que era continuamente aguardada por corações que haviam aprendido a amá-La e a esperar por Sua vinda. Porém, como podemos facilmente imaginar, os cristãos tessalonicenses ignoravam muitas coisas conectadas a essa bendita esperança. O apóstolo tinha sido privado deles “por um momento de tempo, de vista, mas não do coração”. Não lhe fora permitido permanecer tempo suficiente com eles para instruí-los nos detalhes do assunto relacionado à esperança que tinham. Eles sabiam que Jesus estava para voltar — a mesma bendita Pessoa que graciosamente os livrara da ira vindoura. Mas eles ainda estavam totalmente ignorantes quanto a qualquer distinção entre Sua vinda para o Seu povo e Sua vinda com o Seu povo. Por isso, como era de se esperar, acabaram caindo em vários erros e enganos. É impressionante o quão rápido a mente humana divaga para a mais grosseira e selvagem confusão e erro. Precisamos ser guardados de todos os lados pela pura, sólida e reparadora verdade de Deus. Devemos ter nossa alma perfeitamente equilibrada pela revelação divina, ou certamente mergulharemos em toda sorte de noções falsas e tolas. Por esta razão alguns dos tessalonicenses conceberam a ideia de abandonar suas obrigações. Pararam de trabalhar com as próprias mãos e ficaram ociosos. Um grande erro. Ainda que estivéssemos perfeitamente seguros de que nosso Senhor poderia vir hoje à noite, não haveria razão para deixarmos de cumprir, fiel e diligentemente, nossa quota diária de deveres, e fazer tudo o que nos foi confiado na esfera em que Sua boa mão nos colocou. Na verdade, o próprio fato de esperarmos por nosso Mestre iria fortalecer nosso desejo de fazer tudo o que precisasse ser feito até o exato momento de Sua volta, de modo que nem uma única responsabilidade fosse negligenciada. A esperança da iminente volta do Senhor, quando mantida em poder na alma, é imensamente santificadora, purificadora e retificadora em sua influência na vida, conduta e caráter do cristão. Todavia sabemos que até a mais gloriosa verdade pode ser armazenada na esfera da razão e petulantemente confessada com os lábios, enquanto o coração, a vida, o andar, a conduta e o caráter permanecem totalmente alheios à sua influência. Mas nos é expressamente ensinado pelo inspirado apóstolo jo que “qualquer que nEle tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro” (1 João 3:3). E, certamente, essa “purificação” envolve tudo aquilo que diz respeito à nossa vida prática do dia-a-dia. Porém existia outro grave erro no qual aqueles queridos tessalonicenses caíram, e de onde o bendito apóstolo, como um fiel e verdadeiro pastor, procurou resgatá-los. Eles achavam que seus amigos cristãos que já tinham partido não participariam do gozo da volta do Senhor. Temiam que eles deixassem de participar daquele momento tão bendito e almejado. Bem, apesar de ser verdade que o próprio erro demonstrava quão intensamente aqueles cristãos pensavam em sua bendita esperança, ainda assim era um erro e precisava ser corrigido. Mas vamos reparar com cuidado na correção: “Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança. Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem [ou que Jesus fez dormir], Deus os tornará a trazer com Ele”. Repare nisto. Ele não procura confortar aqueles pesarosos amigos assegurando que eles iriam, não muito tempo depois, seguir os que partiram. Muito pelo contrário. Ele lhes assegura que Jesus traria Consigo os que partiram. Trata-se de algo claro e distinto, além de estar fundamentado no grande fato de que “Jesus morreu por nós e ressuscitou”. O apóstolo, porém, não para aqui, mas segue derramando uma nova luz sobre a compreensão de seus queridos filhos na fé. “Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras”. Portanto, temos diante de nós aquilo que comumente chamamos de arrebatamento dos santos, um tema dos mais gloriosos, emocionantes e cativantes, e certamente a mais brilhante esperança da Igreja de Deus e do crente individualmente. O mesmo Senhor descerá do Céu com uma convocação dirigida apenas aos ouvidos e ao coração dos que Lhe pertencem. Nenhum ouvido incircunciso ouvirá, nenhum coração não renovado será tocado por essa voz celestial, por essa convocação da divina trombeta. Todos os mortos em Cristo — incluindo, conforme cremos, os santos do Antigo Testamento, bem como aqueles do Novo Testamento que tiverem partido na fé de Cristo — ouvirão o bendito som e sairão dos lugares onde dormem. Todos os santos vivos escutarão e serão transformados num momento. E então, oh! que mudança! O pobre e gasto tabernáculo de barro será substituído por um corpo glorificado, à semelhança do corpo de Jesus. Observe aquela silhueta arqueada e atrofiada, aquele corpo arruinado pela dor e exaurido pelos anos de sofrimento pungente. É o corpo de um santo. Quão humilhante é vê-lo assim! Sim, mas espere um pouco. Basta apenas trombeta soar e, em um instante, aquela estrutura pobre e decadente será transformada e feita semelhante ao corpo glorificado do Senhor que virá. E ali, naquele sanatório para doentes mentais, está um pobre paciente. Ele está ali há anos. É um santo de Deus. Quão misterioso é isso! É verdade, não podemos compreender tal mistério, está além do estreito alcance de nossa compreensão. Mas assim é, aquele pobre paciente é um santo de Deus e herdeiro da glória. Ele também ouvirá a voz do arcanjo e a trombeta de Deus, e deixará sua enfermidade para trás para sempre, ao subir para o céu, em seu corpo glorificado, para encontrar o Seu Senhor que vem. Oh! Que momento radiante! Quantos leitos de enfermos ficarão vagos então! Que mudanças maravilhosas acontecerão! Como o coração é cativado por tal pensamento e anseia cantar, em coro, o belo hino: Cristo, o Senhor, sim, voltará, Ninguém O aguardará em vão: Então Sua glória mostrará: Com Ele os santos estarão. Quando o arcanjo a voz soar, os que já dormem ouvirão, E, ressurretos, vão cantar Louvores, em adoração. “Este é o nosso Redentor!” As hostes todas clamarão: “A Ele seja o louvor e universal adoração!” Amém e amém! Quão glorioso pensarmos nos milhões de ressuscitados! Quão maravilhoso estar entre eles! Quão preciosa esperança será ver aquela bendita Pessoa que nos amou e Se entregou por nós! Tal é a esperança do cristão, uma esperança acerca da qual não há uma única menção de uma capa a outra do Antigo Testamento. “A palavra profética” é de suprema importância. Fazemos bem em atentar para ela. Trata-se de uma inexprimível misericórdia para aqueles que estão em trevas poderem contar com uma luz que alumia em lugar escuro. Mas é bom que o cristão tenha em mente que seu desejo é ter “a estrela da alva aparecendo em seus corações”; em outras palavras, ter todo o seu coração governado pela esperança de ver a Jesus como a refulgente Estrela da Manhã. Quando o coração está assim cheio e guiado pela esperança que é própria do cristão, então os olhos podem perscrutar inteligentemente o mapa profético: podem se ocupar de todo o campo da profecia do modo como nosso Deus a abriu graciosamente diante de nós, e encontrar interesse e proveito em cada página e em cada linha. Mas, por outro lado, podemos estar certos de que o homem que busca pela Igreja ou sua esperança na profecia estará olhando na direção errada. Encontrará ali “o judeu” e “o gentio”, mas não “a Igreja de Deus”. Confiamos sinceramente que nenhum de nossos leitores deixará de se apoderar deste fato — um fato que, podemos dizer com total segurança, é da maior importância. Mas é provável que alguém pergunte: “Para quê serve, então, a profecia? Se for verdade que não podemos encontrar nada sobre a Igreja na página profética, que utilidade teria ela para os cristãos? Por que razão nos teria sido dito que atentássemos para ela, se ela não nos diz respeito?” Redarguimos, perguntando: Será que não existe algo de valor para nós além daquilo que especificamente nos diz respeito? Será que não devemos nos interessar por algo a menos que sejamos nós o seu tema principal? Será que é de pouca importância para nós ter os conselhos, propósitos e planos de Deus revelados diante de nossos olhos? Acaso damos pouca importância ao imenso favor de ter os pensamentos de Deus comunicados a nós em Sua santa Palavra profética? Com certeza não foi assim que Abraão tratou as comunicações divinas que lhe foram feitas em Gênesis 18: “Ocultarei Eu a Abraão o que faço?” E o que era aquilo? Dizia respeito especificamente a Abraão? De modo algum. Dizia respeito a Sodoma e cidades vizinhas, onde Abraão nada possuía. Mas acaso isso o impedia de apreciar aquilo como um favor especial com o qual estava sendo honrado, como depositário de confiança dos pensamentos de Deus? Certamente que não. Podemos seguramente afirmar que o fiel patriarca tinha em alta estima o privilégio que lhe fora conferido. E assim deveria ser conosco. Deveríamos estudar a profecia com o maior interesse possível, pelo fato de nos ter sido revelado nela, com divina precisão, o que Deus está para fazer neste mundo com Israel e com as nações. A profecia é a história que Deus escreveu do futuro, e é na proporção que O amamos que iremos nos deliciar em estudar Sua história. Certamente não da forma como alguns sugerem, de que podemos conhecer sua veracidade por meio de seu cumprimento, mas para podermos nos apropriar de toda aquela absoluta e divina certeza quanto ao futuro que a Palavra de Deus pode comunicar. Nada pode ser mais absurdo, no juízo da fé, do que supor que devemos aguardar o cumprimento de uma profecia para saber se ela é verdadeira. Que insulto é isto — inconscientemente, sem dúvida — à inigualável revelação de nosso Deus. Mas devemos agora voltar, por alguns instantes, ao solene assunto do “dia do Senhor”. Trata-se de um termo que ocorre com frequência nas Escrituras do Antigo Testamento. Não temos a pretensão de citar todas as passagens, mas devemos nos referir a uma ou duas e, a partir delas, o leitor poderá seguir examinando o assunto por si mesmo. Em Isaías 2 lemos: “Porque o dia do Senhor dos Exércitos será contra todo o soberbo e altivo, e contra todo o que se exalta, para que seja abatido… E a arrogância do homem será humilhada, e a sua altivez se abaterá, e só o Senhor será exaltado naquele dia. E todos os ídolos desaparecerão totalmente. Então os homens entrarão nas cavernas das rochas, e nas covas da terra, do terror do Senhor, e da glória da Sua majestade, quando Ele Se levantar para assombrar a terra. Naquele dia o homem lançará às toupeiras e aos morcegos os seus ídolos de prata, e os seus ídolos de ouro, que fizeram para diante deles se prostrarem. E entrarão nas fendas das rochas, e nas cavernas das penhas, por causa do terror do Senhor, e da glória da Sua majestade, quando Ele se levantar para abalar terrivelmente a terra”. O mesmo podemos ver em Jl 2: “Tocai a trombeta em Sião, e clamai em alta voz no Meu santo monte; tremam todos os moradores da terra, porque o dia do Senhor vem, já está perto; dia de trevas e de escuridão; dia de nuvens e densas trevas, como a alva espalhada sobre os montes; povo grande e poderoso, qual nunca houve desde o tempo antigo, nem depois dele haverá pelos anos adiante, de geração em geração… Diante dele tremerá a terra, abalar-se-ão os céus; o sol e a lua se enegrecerão, e as estrelas retirarão o seu resplendor. E o Senhor levantará a Sua voz diante do seu exército; porque muitíssimo grande é o Seu arraial; porque poderoso é, executando a Sua palavra; porque o dia do Senhor é grande e mui terrível, e quem o poderá suportar?” Destas e de outras passagens similares aprendemos que “o dia do Senhor” está associado ao pensamento profundamente solene de juízo sobre o mundo: sobre o Israel apóstata, sobre o homem e suas práticas e sobre tudo aquilo que o coração humano valoriza e anseia. Em suma, o dia do Senhor aparece em evidente contraste com o dia do homem. Hoje é o homem quem detém a supremacia; então a supremacia será do Senhor. Bem, enquanto é perfeitamente verdade que todo o povo do Senhor pode se regozijar na perspectiva daquele dia que, embora se inicie com juízo sobre o mundo, deverá ser marcado pelo reino universal de justiça, ainda assim devemos nos lembrar de que a esperança peculiar ao cristão não está naquele dia com todos os seus terríveis desdobramentos de juízo, ira e terror. Sua esperança está na vinda ou presença de Jesus, com seus desdobramentos de paz e gozo, amor e glória. A Igreja já terá então se encontrado com seu Senhor e voltado com Ele para a casa do Pai antes daquele terrível dia explodir sobre o mundo. Essa será sua bendita porção, quando experimentará a sublime comunhão daquele lar celestial por um período de tempo indefinido antes do início do dia do Senhor. Seus olhos serão gratificados com a visão da “resplandecente Estrela da manhã” muito tempo antes que o “Sol de justiça” se levante, em sua restauradora virtude, sobre a porção piedosa da nação de Israel — o remanescente da descendência de Abraão que teme a Deus. Desejamos muito que o leitor cristão possa apreender totalmente esta grande e importante diferença. Sentimo-nos persuadidos de que ela terá um efeito imenso sobre todos os seus pensamentos, perspectivas e esperanças para o futuro. Ela o capacitará a ver, sem que exista qualquer nuvem de impedimento, sua verdadeira perspectiva como cristão. Ela o livrará de toda névoa, incerteza e confusão, além de fazer desaparecer de sua mente todo tipo de sentimento de pavor com que tantos, até mesmo dentre os queridos do Senhor, contemplam o futuro. Ela irá ensiná-lo a esperar pelo Salvador — o Noivo bendito, o eterno Amante de sua alma — e não pelos juízos, pelo terror, por eclipses e terremotos, convulsões e revoluções, mantendo seu espírito tranquilo e feliz, na certa e convicta esperança de estar com Jesus antes que chegue aquele grande e terrível dia do Senhor. Veja o quanto o fiel apóstolo trabalhava para encaminhar seus queridos convertidos tessalonicenses a uma clara compreensão da diferença entre “a vinda” e “o dia”. “Mas, irmãos, acerca dos tempos e das estações, não necessitais de que se vos escreva; porque vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; pois que, quando [eles, não vós] disserem: Há paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores de parto àquela que está grávida, e de modo nenhum escaparão. Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreenda como um ladrão; porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” — O Senhor seja louvado! — “Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos, e sejamos sóbrios; porque os que dormem, dormem de noite, e os que se embebedam, embebedam-se de noite. Mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e do amor, e tendo por capacete a esperança da salvação; porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós, para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos juntamente com Ele. Por isso exortai-vos uns aos outros, e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis” (1 Ts 5:1-11). Temos aqui a distinção estabelecida com inequívoca clareza. O mesmo Senhor descerá para nós como o Noivo. O dia do Senhor virá sobre o mundo como um ladrão. Poderia um contraste ser mais evidente? Como alguém pode confundir as duas coisas? Elas são tão distintas quanto duas coisas poderiam ser. Um noivo e um ladrão são certamente coisas diferentes. E igualmente diferentes são a vinda do Senhor para Seu povo que O aguarda e a vinda do Seu dia sobre um mundo embriagado e adormecido. Talvez alguns encontrem certa dificuldade no fato de palavras tão solenes quanto as que se seguem serem dirigidas à Igreja em Sardis: “E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei” (Ap 3:3). Essa dificuldade se desvanecerá quando refletirmos que, no caso de Sardis, o corpo professo é visto como possuindo meramente um nome de que vive, enquanto está morto. Ela afundou ao mesmo nível do mundo e só consegue enxergar as coisas do ponto de vista do mundo. A Igreja fracassou completamente, caiu de sua elevada e santa posição, se encontra sob juízo e não pode, portanto, ser encorajada pela esperança que é própria da Igreja, mas é ameaçada pela terrível maldição destinada ao mundo. Não vemos a Igreja aqui como o corpo ou noiva de Cristo, mas como a testemunha responsável por Deus na terra, o candeeiro de ouro que deveria revelar a divina luz do testemunho neste mundo de trevas, enquanto o seu Senhor está ausente. Mas, oh! a Igreja professa afundou ainda mais e se tornou mais sombria até que o próprio mundo. Daí a solene ameaça. A exceção confirma a regra. Vamos continuar com este assunto do modo como é apresentado em 2 Tessalonicenses. Trata-se de um fato cheio do mais rico conforto e consolação para o coração de um verdadeiro crente, que Deus, em Sua maravilhosa graça, sempre transforme o comedor em comida e do forte tire doçura. Ele produz luz das trevas, traz vida da morte e faz com que os refulgentes raios de Sua glória brilhem em meio a mais desastrosa ruína causada pela mão do inimigo. A verdade disto está ilustrada em todas as Escrituras e deveria encher nosso coração de paz e nossa boca de louvor. Por isso os vários erros doutrinários e práticas malignas nas quais foi permitido que os primeiros cristãos caíssem foram neutralizados por Deus e usadas na instrução, direção e real proveito da Igreja para o final de sua história terrena. Assim, por exemplo, o erro dos cristãos tessalonicenses, no que diz respeito aos seus irmãos que haviam partido, serviu de ocasião para derramar tamanho dilúvio de luz divina sobre a vinda do Senhor e sobre o arrebatamento dos santos, que é impossível que qualquer mente simples que se submeta às Escrituras venha a cair em semelhante erro. Eles aguardavam pela vinda do Senhor, e nisto estavam certos. Eles O esperavam para estabelecer Seu reino na terra, e nisto, de um modo geral, também estavam certos. Mas eles cometeram um grande erro ao deixarem de fora o lado celestial desta gloriosa esperança. Seu entendimento era insuficiente — sua fé falha. Eles não viram as duas partes, a dupla aplicação do advento de Cristo: descendo nos ares para receber Seu povo para Si, e aparecendo em glória para estabelecer o Seu reino em manifestação de poder. Por isso temiam que seus irmãos que partiram estivessem necessariamente fora da esfera de bênção, do círculo de glória. Tal erro é divinamente corrigido, conforme vimos em 1 Tessalonicenses 4. O lado celestial da esperança — a porção que cabe ao cristão — é colocado diante do coração como verdadeiro corretivo para o erro relacionado aos santos que dormiam. Cristo irá reunir todo o Seu povo (e não apenas parte dele) para Si. E se existir qualquer vantagem — qualquer sombra de privilégio nesta questão — ela fica com aquelas mesmas pessoas pelas quais eles lamentavam. Pois “os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro”. Porém, da Segunda Epístola aosTessalonicenses aprendemos que aqueles queridos recém-convertidos tinham sido levados a cometer outro grave erro — um erro que não estava relacionado aos mortos, mas aos vivos; um erro que não estava relacionado à vinda do Senhor, mas ao dia do Senhor. Se, por um lado, eles temiam que os mortos pudessem não participar do bendito triunfo da vinda, por outro temiam que os vivos já estivessem, naquele exato momento, passando pelos terrores do dia do Senhor. É com este erro que o apóstolo inspirado tem de lidar em sua segunda carta aos crentes tessalonicenses, e não há nada maior que a ternura e sensibilidade de sua abordagem, além da precisão com que faz a correção. os cristãos em Tessalônica passavam por intensa perseguição e tribulação, e fica bem evidente que o inimigo, por meio de falsos mestres, procurava confundir suas mentes levando-os a pensar que “o grande e terrível dia do Senhor” (Jl 2:31) tivesse chegado e que as tribulações pelas quais estavam passando eram consequências daquele dia. Se assim fosse, todo o ensino do apóstolo teria sido provado como falso, pois se havia uma verdade que brilhava com maior fulgor e proeminência em seu ensino era a da associação e identificação dos crentes com Cristo — uma associação tão íntima, uma identificação tão próxima, que seria impossível para Cristo aparecer em glória sem o Seu povo. “Quando Cristo, que é a nossa vida, Se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória” Cl 3:4. Mas antes Ele deverá vir, para depois poder trazer “o dia”. Além disso, quando o dia do Senhor realmente chegar, não será para atribular o Seu povo; ao contrário, será para atribular os perseguidores deste. É isto que o apóstolo lhes faz lembrar da maneira mais simples e eficaz, logo nas primeiras linhas: “Sempre devemos, irmãos, dar graças a Deus por vós, como é justo, porque a vossa fé cresce muitíssimo e o amor de cada um de vós aumenta de uns para com os outros, de maneira que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa paciência e fé, e em todas as vossas perseguições e aflições que suportais; prova clara do justo juízo de Deus, para que sejais havidos por dignos do reino de Deus, pelo qual também padeceis; se de fato é justo diante de Deus que dê em paga tribulação aos que vos atribulam, e a vós, que sois atribulados, descanso conosco, quando se manifestar o Senhor Jesus desde o céu com os anjos do Seu poder, como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus [gentios] e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo [judeus]” 2Ts 1:6. Portanto, não era apenas a posição do cristão que estava envolvida nessa questão, mas até mesmo a glória de Deus — Sua própria justiça. Se era certo que o dia do Senhor tinha trazido tribulação aos cristãos, então não havia verdade na doutrina — na grande e proeminente doutrina do ensino de Paulo — de que Cristo e Seu povo são um, além do que isso acabaria comprometendo a justiça de Deus. Em suma, se os cristãos estavam passando por tribulação, seria moralmente impossível que o dia do Senhor tivesse chegado, pois quando chegar será para trazer alívio para os crentes. E isto como uma recompensa pública para eles no reino, e não meramente na casa do Pai, o que não é o assunto tratado aqui. A mudança que irá ocorrer será bem clara. A Igreja estará em repouso e os que a atribularam, por sua vez, estarão em tribulação. Enquanto durar o dia do homem a Igreja estará sujeita à tribulação, mas no dia do Senhor tudo isso será invertido. Repare nisto cuidadosamente. Não se trata da questão dos cristãos passarem ou não por dificuldades. Eles são destinados a isto neste mundo, enquanto a impiedade mantiver o domínio. Cristo sofreu, e o mesmo deve acontecer também com eles. Todavia, o ponto que queremos frisar para a mente e o coração do cristão é que, quando Cristo vier para estabelecer Seu reino, será totalmente impossível que Seu povo esteja em tribulação. Assim, todo o ensino do inimigo, pelo qual ele procurava inquietar os crentes tessalonicenses, mostrou-se claramente fraudulento. O apóstolo leva de roldão o próprio fundamento de toda a trama, usando apenas a afirmação da preciosa verdade de Deus. Esta é a forma divina de libertar as pessoas de seus vãos temores e ideias falsas. Dê a elas a verdade e o erro irá bater em retirada. Deixe derramar a luz da eterna Palavra de Deus e todas as nuvens e névoas de falsa doutrina serão afastadas. Permita-nos, por alguns instantes, examinar um pouco mais o ensino de nosso apóstolo neste texto marcante. Ao fazê-lo veremos com que clareza ele define a diferença entre “a vinda” e “o dia”, uma distinção que o leitor faz bem em ponderar. “Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda [ou sobre este fundamento] de nosso Senhor Jesus Cristo, e pela nossa reunião com Ele, que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia do Senhor estivesse presente”.* [* Não temos qualquer pretensão de erudição; somos meros respigadores na tão interessante seara da análise do texto onde outros têm colhido grandes resultados. Não queremos ocupar o pensamento de nossos leitores com argumentos em defesa das passagens apresentadas no texto, mas sentimos que não há qualquer utilidade em apresentar aquilo que acreditamos ser errado. Cremos não haver dúvida quanto à forma correta de ler 2 Ts 2, que é como apresentamos: “como se o dia do senhor estivesse presente”. A palavra enesteken só pode ser traduzida assim. Ela aparece em Rm 8:38, onde é traduzida como “o presente”. O mesmo acontece em 1 Co 3:22, “o presente”; 1 Coríntios 7:26, “presente necessidade”; Gl 1:4, “presente século mau”; Hb 9:9, “tempo presente”. (N. do. T.: No original inglês ou autor faz uso de uma tradução alternativa para o final do versículo: “como se o dia do Senhor estivesse presente”).] Portanto, independente da questão das diversas interpretações, basta um momento de reflexão para mostrar ao cristão sincero que o apóstolo não poderia estar querendo ensinar aos tessalonicenses que o dia do Senhor não estava, mesmo naquela época, já perto. As Escrituras nunca podem se contradizer. Nenhuma sentença da revelação divina pode vir a colidir com outra. Mas se a forma apresentada na excelente Authorized Version for correta, estaria em direta oposição a Rm 13:12, onde somos expressa e claramente informados de que o “dia é chegado”. Que “dia”? O dia do Senhor, com toda certeza, que é sempre o termo utilizado em conexão com nossa responsabilidade individual no andar e no serviço. Podemos assinalar rapidamente que se trata de um ponto de muito interesse e valor prático. Se o leitor se der ao trabalho de examinar as várias passagens que falam do “dia”, descobrirá que, de um modo ou de outro, elas fazem referência à questão da obra, serviço ou responsabilidade. Por exemplo: “O qual vos confirmará também até ao fim, para serdes irrepreensíveis no *dia [*não na vinda] de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1:8). Outra vez: “A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará” (1 Co 3:13). “Para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo” (Fp 1:10). “Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia” (2 Tm 4:8). De todas estas passagens, e de muitas outras que poderiam ser citadas, aprendemos que “o dia do Senhor” será uma grande ocasião para o ajuste de contas com os trabalhadores, para a avaliação divina do serviço, o esclarecimento de todas as questões envolvendo a responsabilidade pessoal e para a distribuição de recompensas — as “dez cidades” e as “cinco cidades”. Portanto, onde quer que procuremos, e qualquer que seja a forma como abordemos o assunto, seremos cada vez mais confirmados na verdade da clara diferença entre a “vinda” de nosso Senhor, ou o estar na Sua presença, e Sua “aparição” ou “o dia”. A primeira é sempre colocada diante do coração como a bendita e brilhante esperança do crente, que pode se realizar a qualquer momento. A outra é mais voltada para a consciência, de um modo solene e profundo, relacionando-se com toda a vida prática daqueles que são colocados neste mundo para trabalhar e testemunhar no lugar de um Senhor que está ausente. As Escrituras nunca confundem estas coisas, não importa o quanto nós mesmos o façamos. Não há uma única sentença, de capa a capa do volume sagrado, que ensine que os crentes não devam estar continuamente esperando pela vinda do Senhor, e zelosos pelo pensamento de que “o dia é chegado”. É só o “servo mau” — descrito no discurso de nosso Senhor em Mt 24 — que diz em seu coração: “O meu senhor tarde virá”; e ali vemos as terríveis consequências que sempre acabam resultando de se acalentar tal pensamento no coração. Devemos agora retornar por alguns instantes a 2Ts 2, uma passagem das Escrituras que tem causado muita discussão entre os comentaristas e apresentado considerável dificuldade para os estudantes da profecia. Fica bem evidente que os falsos mestres procuravam perturbar os pensamentos dos tessalonicenses, levando-os a acreditar que estavam, já naquela época, cercados pelos terrores do dia do Senhor. Não era assim e nem poderia ser, ensina o apóstolo. Antes mesmo de aquele dia começar seremos todos reunidos para encontrar o Senhor nos ares. Com base (huper) na vinda do Senhor e nossa reunião com Ele, Paulo pediu que não se perturbassem a respeito do dia. Ele já lhes tinha mostrado o lado celestial da vinda do Senhor. Tinha lhes ensinado que eles, como cristãos, pertenciam ao dia; que seu lar, sua porção e esperança, estavam todas elas naquela mesma região de onde o dia haveria de surgir. Portanto, era totalmente impossível que o dia do Senhor pudesse envolver qualquer terror ou tribulação para aqueles que já eram, verdadeiramente e por graça, filhos do dia. Além do mais, mesmo quando o assunto era visto do ponto de vista terreno, os falsos mestres estavam todos enganados. “Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim [a vinda do dia] sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus. Não vos lembrais de que estas coisas vos dizia quando ainda estava convosco? E agora vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado. Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado; e então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da Sua boca, e aniquilará pelo esplendor da Sua vinda [pela aparição de Sua presença]; a esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem” (2Ts 2:3-10). Aqui, portanto, nos é ensinado que antes que chegue o dia do Senhor, o iníquo, o homem do pecado, o filho da perdição deverá ser revelado. O mistério da iniquidade deve atingir seu ápice. O homem deverá se colocar em aberta oposição a Deus, e mais, chegará até a aceitar para si o nome e a adoração devidos a Deus. Tudo isso precisa ocorrer neste mundo antes que irrompa em cena o grande e terrível dia do Senhor. Por enquanto há uma barreira, um impedimento à manifestação desse terrível personagem. Aqui não nos é dito que barreira ou impedimento é esse. Deus pode mudar isso de tempos em tempos.* Mas aprendemos, da forma mais clara possível no livro do Apocalipse, que antes que o mistério da iniquidade atinja o seu ápice na pessoa do homem do pecado, a Igreja será removida completamente deste cenário. É impossível ler Apocalipse 4 e 5 com a mente espiritual sem ser capaz de enxergar que a Igreja deverá estar no círculo mais interior da glória celestial antes que qualquer selo seja aberto, antes que qualquer trombeta seja soada e qualquer taça seja derramada. Não acreditamos que alguém consiga entender o livro do Apocalipse sem enxergar isto. [* Alguns supõem que o impedimento seja do Espírito Santo. Sabemos de outras partes das Escrituras que antes da entrada em cena do iníquo a Igreja estará segura e abençoada em seu lar celestial nas alturas — o lugar preparado para ela. Quão precioso é este pensamento!] É provável que voltemos a tratar deste ponto tão interessante oportunamente. Agora podemos apenas incentivar o leitor a estudar o assunto por si mesmo. Pondere em Ap 4 e 5 e peça a Deus para interpretar para sua alma o seu precioso conteúdo. Fazendo assim, estamos convencidos de que o leitor aprenderá que os vinte e quatro anciãos coroados representam os santos celestiais, que estarão reunidos, em glória, em torno do Cordeiro, antes que uma única linha da parte profética do livro seja cumprida. Gostaríamos de fazer ao leitor uma pergunta muito simples, uma pergunta que só pode ser corretamente respondida na intimidade da presença de Deus. A pergunta é: O que você busca? Qual é a sua esperança? Você espera por determinados eventos que estão para ocorrer nesta terra, como o restabelecimento do Império Romano, o desenvolvimento dos dez reinos, o retorno dos judeus para sua própria terra na Palestina, a reconstrução de Jerusalém, o surgimento do Anticristo, a grande tribulação e, finalmente, os estarrecedores juízos que serão, com toda certeza, um prenúncio do dia do Senhor? São estas as coisas que ocupam o horizonte da sua alma? É por elas que você anseia e espera? Se assim for, fique ciente de que você não está sendo governado pela esperança que convém à Igreja. Certamente é verdade que todas estas coisas que mencionamos deverão ocorrer no seu devido tempo, mas nenhuma delas deve ficar entre você e a esperança que lhe convém. Todas elas pertencem à página profética, todas estão registradas na história que Deus escreveu do futuro, mas jamais deveriam lançar uma sombra sequer sobre a brilhante e bendita esperança do cristão. Essa esperança mostra-se em glorioso contraste com o cenário da profecia. E que contraste é este? Sim, voltamos a perguntar, que contraste é este? Trata-se da vinda da refulgente Estrela da manhã — a vinda do Senhor Jesus, o bendito Noivo da Igreja. É esta, e nenhuma outra, a verdadeira e correta esperança da Igreja de Deus. “E dar-lhe-ei a Estrela da manhã” (Ap 2:28). “Aí vem o Esposo” (Mt 25). Quando — poderíamos perguntar — a estrela da manhã aparece no mundo natural? Logo antes de raiar o dia. Quem a vê? Aquele que esteve vigiando durante as horas escuras e sombrias da noite. Quão simples, quão prática, quão eficaz essa alusão. A Igreja deve estar vigiando — alegremente desperta — olhando para fora. Oh! A Igreja fracassou nisto. Mas isto não é motivo para que o crente, individualmente, não viva na plenitude do poder real da bendita esperança. “E quem ouve, diga: Vem”. Trata-se de algo profundamente pessoal. Oh! Que o escritor e o leitor destas linhas possam colocar habitualmente em prática o poder purificador, santificador e motivador desta esperança celestial! Que possamos entender e exibir o poder prático destas palavras do Apóstolo João: “E qualquer que nEle tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro”.

AS DUAS RESSURREIÇÕES

Pode ser que alguns de nossos leitores se sintam atemorizados pelo título desta seção. Acostumados, desde a mais tenra idade, a encarar esta grande questão pelo prisma dos padrões definidos pela cristandade para a doutrina e suas confissões de fé, a ideia de duas ressurreições jamais passou por suas mentes. Todavia, as Escrituras falam, nos termos mais claros e inequívocos, de uma “ressurreição da vida” e uma “ressurreição da condenação” — duas ressurreições, distintas em caráter e distintas no tempo. E não apenas isto, mas as Escrituras nos informam que pelo menos mil anos passarão entre as duas. Se os homens ensinam de outra maneira — se criam sistemas religiosos e estabelecem credos e confissões de fé contrários ao ensino direto e claro das Sagradas Escrituras — deverão prestar contas disso ao seu Senhor, assim como todos os que se colocam sob a direção desses homens. Mas lembre-se, leitor, de que se trata de um dever sagrado, nosso e de vocês, dar ouvidos apenas à autoridade da Palavra de Deus e nos sujeitarmos, em absoluta submissão, aos seus santos ensinamentos. Vamos então, de forma reverente, inquirir o que dizem as Escrituras sobre o assunto indicado no título deste artigo? Que o Espírito de Deus nos guie e instrua! Devemos inicialmente citar aquela notável passagem em Jo 5: “na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a Minha palavra, e crê nAquele que Me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Porque, como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em Si mesmo; e deu-Lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem. Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a Sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação”.* [* O leitor da versão inglesa precisa saber que em toda a passagem de Jo 5:22-26 as palavras “juízo”, “condenação” e “perdição” aparecem no original como uma mesma palavra, simplesmente “julgamento”, de krisis, que significa o processo, não o resultado. É uma pena que a Authorized Version não tenha usado a palavra deste modo em todo o texto. Isto teria tornado o ensino da passagem muito mais claro. É com extrema relutância que nos aventuramos a fazer sugestões para nossa inigualável versão inglesa da Bíblia, mas às vezes é absolutamente necessário que isto seja feito para o bem da verdade e de nossos leitores. Quanto à forma como é apresentado o versículo 24, a conclusão é a mesma, quer digamos “condenação” ou “julgamento”, uma vez que se há um julgamento seu resultado deve ser uma condenação. Mas por que não foram mais precisos?] Portanto, temos indicadas aqui, da forma mais inequívoca, as duas ressurreições. É verdade que nesta passagem elas não estão diferenciadas quanto ao tempo, mas sim quanto ao caráter. Temos uma ressurreição da vida e uma ressurreição da condenação, e nada poderia ser mais distinto do que isto. Não existe um fundamento sequer que permita construir a teoria de uma ressurreição geral. A ressurreição dos crentes será seletiva; ela ocorrerá com base no mesmo princípio e compartilhará do mesmo caráter da ressurreição de nosso bendito e adorável Senhor; será uma ressurreição dentre os mortos. Será um ato de poder divino, fundamentado na redenção completa, através da qual Deus irá intervir a favor de seus santos que dormem e ressuscitá-los de entre os mortos, deixando o restante dos mortos em suas sepulturas por mil anos (Ap 20:5). Há uma interessante passagem em Marcos 9 que derrama intensa luz sobre este assunto. os versículos iniciais contêm o registro da transfiguração e, em seguida, lemos: “E, descendo eles do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, até que o Filho do homem ressuscitasse dentre os mortos. E eles retiveram o caso entre si, perguntando uns aos outros que seria aquilo, ressuscitar dentre [ek, dentre] os mortos” (Mc 9:9, 10). os discípulos sentiam que havia algo especial, algo totalmente além da ideia ortodoxa corrente da ressurreição dos mortos, e realmente tinham razão, embora na época não tivessem o entendimento disso. Era algo que naquele momento estava além do seu campo de visão. Vamos abrir em Fp 3 e escutar atentamente as aspirações de alguém que conheceu e desfrutou profundamente desta grande doutrina cristã, e afetuosamente guardou no coração esta esperança gloriosa e celestial. “Para conhecê-Lo, e à virtude da Sua ressurreição, e à comunicação de Suas aflições, sendo feito conforme à Sua morte; para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dentre os mortos” [Exanastasin] (Fp 3:10, 11). Basta uma breve reflexão para convencer o leitor de que o apóstolo não está aqui se referindo à grande e ampla verdade da “ressurreição dos mortos”, ainda que cada um deva ressuscitar. Mas havia algo específico diante do coração daquele querido servo de Cristo, a saber, “uma ressurreição dentre os mortos” — uma ressurreição seletiva — uma ressurreição que segue o modelo da ressurreição de Cristo. Era esta que ele buscava continuamente. Tratava-se da bendita e radiante esperança que brilhava em sua alma e o animava em meio às tristezas e provas, labores e dificuldades, turbulências e conflitos de sua extraordinária carreira. Mas alguém poderia perguntar: Será que o apóstolo sempre usa esta pequena e peculiar palavra (ek) quando fala de ressurreição? Nem sempre. Abra, por exemplo, emAtos 24:15: “Tendo esperança em Deus, como estes mesmos também esperam, de que há de haver ressurreição de mortos, assim dos justos como dos injustos”. Aqui não há qualquer palavra que indique o lado cristão ou celestial do assunto, possivelmente pela simples razão de que o apóstolo estivesse falando àqueles que eram totalmente incapazes de compreender a esperança que cabe ao cristão — mais incapazes até que os discípulos em Marcos 9. Como poderia ele fazer confidências na presença de homens como Tértulo, Ananias e Félix? Como poderia falar a eles de sua própria e acalentada esperança específica? Não, ele só poderia se ater à grande e ampla verdade da ressurreição que era comum a todos os judeus ortodoxos. Se tivesse falado de uma “ressurreição dentre os mortos”, não poderia ter acrescentado a expressão “como estes mesmos também esperam”, pois eles não “esperavam” qualquer coisa do gênero. Mas, oh! que contraste entre aquele precioso servo de Cristo, defendendo-se de seus acusadores em Atos 24 e expondo seu coração aos seus amados irmãos em Fp 3! A estes ele podia falar da verdadeira esperança cristã na plena luz que a glória de Cristo derrama sobre o assunto. Podia dar vazão aos seus pensamentos, sentimentos e aspirações mais íntimos provenientes de seu imenso e amoroso coração que palpitava pela ressurreição da vida na qual ele ficará satisfeito quando despertar à semelhança de seu bendito Senhor. Mas devemos retornar por alguns instantes à nossa primeira passagem em Jo 5. Talvez o fato de nosso Senhor utilizar a palavra “hora” ao falar das duas classes apresente certa dificuldade para alguns de nossos leitores entenderem a verdade da esperança cristã da ressurreição. Indaga-se como pode existir um período de mil anos entre as duas ressurreições, quando o Senhor nos afirma expressamente que tudo deve ocorrer dentro dos limites de uma hora. A esta questão temos uma resposta dupla. Em primeiro lugar, encontramos nosso Senhor fazendo uso da mesma palavra “hora” no versículo 25, quando fala da grande e gloriosa obra de vivificar os mortos. “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão”. Ora, aqui temos uma obra que tem estado em progresso por quase dezenove longos séculos. Durante todo esse tempo, referido aqui como uma “hora”, a voz de Jesus, o Filho de Deus, tem sido ouvida chamando almas preciosas da morte para a vida. Se, por conseguinte, no mesmo discurso nosso Senhor usou a palavra “hora” ao falar de um período que já se estende por quase dois mil anos, que dificuldade pode existir em aplicar a palavra a um período de mil anos? Certamente nenhuma, segundo a nossa opinião. Todavia, se ainda assim permanecer qualquer dificuldade, ela deve ser completamente atendida pelo testemunho direto do Espírito Santo em Ap 20, onde lemos: “Mas os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se acabaram. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com Ele mil anos” (Ap 20:5, 6). Isto resolve a questão completamente e de uma vez por todas para todos os que desejam ser ensinados exclusivamente pelas Sagradas Escrituras, como todo cristão deveria desejar. Haverá duas ressurreições, a primeira e a segunda, e um período de mil anos entre elas. Da primeira fazem parte todos os santos do Antigo Testamento — citados em Hb 12como espíritos dos justos aperfeiçoados — então a Igreja dos primogênitos e, finalmente, todos os que serão mortos durante a “grande tribulação” e durante todo o período entre o arrebatamento dos santos e a aparição de Cristo em juízo, quando descer sobre a besta e seus exércitos em Ap 19. À última ressurreição, por sua vez, pertencem todos os que morreram em seus pecados, desde os dias de Caim em Gn 4 até o último apóstata durante a glória milenial em Ap 20. Quão solene é tudo isso! Quão real! Como domina a alma! Se nosso Senhor viesse hoje à noite, que cena seria desencadeada em todos nossos cemitérios e sepulcros! Que língua, que pena poderia descrever — que coração poderia conceber — as tremendas realidades desse momento? Há milhares de túmulos onde o pó dos mortos em Cristo jaz misturado ao pó dos mortos sem Cristo. Em muitos jazigos familiares pode sem encontrado o pó de ambos. Bem, então quando a voz do arcanjo for ouvida, todos os santos que dormem ressuscitarão de seus túmulos, deixando para trás aqueles que morreram em seus pecados para permanecerem nas trevas e no silêncio do sepulcro por mil anos. Sim, leitor, tal é o testemunho simples e direto da Palavra de Deus. É verdade que ele não entra em muitos detalhes singulares e nem procura alimentar algum tipo de imaginação mórbida ou curiosidade inútil. Todavia, esse testemunho estabelece o solene e grave fato de uma primeira e uma segunda ressurreição — uma ressurreição da vida e glória eternas, e uma ressurreição da condenação e miséria eternas. Não existe, de forma alguma, algo como uma ressurreição geral — uma ressurreição comum a todos simultaneamente. Devemos abandonar completamente tal ideia, como muitas outras que recebemos e nas quais fomos instruídos desde a mais tenra idade — ideias que cresceram com nosso crescimento e amadureceram com nossa maturidade, até ficarem totalmente incorporadas à nossa constituição mental, moral e religiosa, de tal modo que abandoná-las é como ser desmembrado ou arrancar a carne de nossos ossos. Todavia, isto é algo que precisa ser feito, se desejamos realmente crescer no conhecimento da revelação divina. Não existe um obstáculo maior para entrarmos nos pensamentos de Deus do que termos nossa mente cheia com nossas próprias ideias ou com pensamentos de homens. Assim, por exemplo, em referência a este assunto, quase todos nós já professamos, ao menos uma vez na vida, a opinião de que todos ressuscitarão juntos, tanto crentes como incrédulos, e que todos se apresentarão juntos para serem julgados. Todavia, quando nos voltamos como criancinhas para as Escrituras, não há nada mais claro, mais simples, mais explícito do que seu ensino acerca desta questão. Ap 20:5 nos ensina que haverá um intervalo de mil anos entre a ressurreição dos santos e a ressurreição dos ímpios. De nada adianta falarmos de uma ressurreição de espíritos. Na verdade, isto é até um grande absurdo, pois considerando que espíritos não podem morrer, também não podem ser ressuscitados. Igualmente absurdo é falar de uma ressurreição de princípios. Não existe tal coisa nas Escrituras. A linguagem é clara como o cristal: “Mas os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se acabaram. Esta é a primeira ressurreição” (Ap 20:5). Por que alguém iria querer desprezar toda a força que tem esta passagem? Por que não se submeter a ela? Por que não se livrar, de uma vez por todas, de todas aquelas velhas ideias que insistimos em acalentar, para recebermos com submissão a Palavra que é tão incisiva? Leitor, não parece claro a você que, se as Escrituras falam de uma primeira ressurreição, é porque não irão todos ressuscitar juntos? Por que iriam dizer “bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição” se todos ressuscitassem ao mesmo tempo? Para nós, na verdade, parece impossível que uma mente livre de preconceitos no estudo do Novo Testamento se apegue à teoria de uma ressurreição geral. Trata-se de uma questão relacionada à glória de Cristo, a Cabeça, que Seus membros tivessem uma ressurreição específica — uma ressurreição como foi a Sua — uma ressurreição dentre os mortos. E é exatamente o que terão. “Eis aqui vos digo um mistério: na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória? Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1 Co 15:51-58).

O JUÍZO

Existe algo particularmente doloroso em se colidir com tanta frequência com as opiniões comumente aceitas na Igreja professa. Parece presunção querer contradizer, em tantos aspectos, todos os grandes padrões e credos da cristandade. Mas o que fazer? Se realmente fosse apenas uma questão de opinião humana poderia parecer uma pretensão injustificada alguém se colocar em direta oposição à fé arraigada por toda a Igreja professa — uma fé que há séculos exerce sua influência na mente de milhões de pessoas. Mas gostaríamos de continuar insistindo com nossos leitores no fato de que não se trata, de modo algum, de uma questão de opinião humana ou de uma diferença de interpretação entre até mesmo os homens mais capazes. Trata-se, na verdade, de uma questão do ensino e autoridade das Sagradas Escrituras. Têm existido, existem e existirão escolas de doutrina, variedades de opiniões e manifestações de ideias, mas o claro dever de todo filho de Deus e de todo servo de Cristo é se submeter, em santa reverência, e dar ouvidos à voz de Deus nas Escrituras. Se fosse meramente uma questão de autoridade humana, sua importância não seria tão grande. Todavia, se por outro lado a questão for de autoridade divina, então toda discussão é encerrada e nosso lugar — o lugar de todos nós — é nos submetermos e crermos. Assim, na seção anterior fomos guiados a ver que não há nas Escrituras algo como uma ressurreição geral — uma mesma ressurreição de todos simultaneamente. Assim como fizeram os varões de Bereia na antiguidade, cremos que nossos leitores examinaram as Escrituras a este respeito, e que estão agora preparados para nos acompanhar enquanto examinamos a Palavra de Deus quanto à questão do juízo. A grande questão que logo surge é esta: Será que as Escrituras ensinam a doutrina de um juízo geral? Isto é o que professa a cristandade, mas será que as Escrituras ensinam o mesmo? Vejamos. Em primeiro lugar, no que diz respeito ao cristão individualmente, e à Igreja de Deus coletivamente, o Novo Testamento apresenta a preciosa verdade de que não existe qualquer juízo. No que diz respeito ao crente, o juízo já aconteceu e a questão está resolvida. A densa nuvem de juízo precipitou-se sobre a cabeça de nosso divino Substituto. Ele bebeu até o fim, em nosso lugar, o cálice da ira e do juízo, e nos transportou para a nova posição de ressurreição, onde o juízo não pode, de maneira alguma, ser aplicado. É tão impossível que um membro do corpo de Cristo venha a passar pelo juízo quanto é impossível que isto aconteça com a própria Cabeça. Esta parece ser uma afirmação muito séria, mas será que é verdadeira? Se for, sua força está em sua glória e valor moral. Para quê, perguntamos, Jesus recebeu o juízo na cruz? Pelo Seu povo. Ele foi feito pecado por nós. Ele nos representou ali. Ele tomou o nosso lugar. Ele recebeu tudo o que merecíamos. Nossa condição, em sua totalidade, com tudo o que lhe diz respeito, recebeu o devido tratamento na morte de Cristo e foi tratada ali de uma forma tal que é totalmente impossível que qualquer dúvida a respeito venha sequer a ser levantada. Será que Deus tem alguma coisa a resolver com Cristo, a Cabeça? É claro que não. Bem, então Ele não tem coisa alguma a resolver com Seus membros. Tudo foi definitiva e divinamente resolvido e, como prova disso, a Cabeça está coroada com honra e glória e Se assenta hoje à destra da majestade nas alturas. Portanto, supor que os cristãos passarão pelo juízo, quando quer que seja, ou com base no que quer que seja, seja lá pela razão que for, é negar a própria verdade fundamental do cristianismo e contradizer as claras palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, que declarou expressamente, referindo-se a todos os que creem nEle, que não entrarão em juízo ou condenação (Jo 5:24). na verdade, a ideia de cristãos sendo levados a juízo para provar se têm direito ao céu e estão preparados para ele é tão absurda quanto sem base nas Escrituras. Por exemplo, o que pensar de Paulo ou do ladrão arrependido esperando para serem julgados quanto ao seu direito de entrar no céu, depois de ficarem ali por cerca de dois mil anos? Todavia, assim deveria ser se existisse qualquer verdade na teoria de um juízo geral. Se a grande questão de nosso direito ao céu precisar ser resolvida no dia do juízo, então ela claramente não ficou resolvida na cruz; e se não ficou resolvida na cruz, então nós certamente estamos condenados, pois se formos julgados isto deve ser feito em relação às nossas obras, e o único resultado de um julgamento assim é o lago de fogo. Todavia, se alguém afirmar que os cristãos passarão pelo juízo apenas para deixar claro que estão limpos por meio da morte de Cristo, isto seria transformar o dia do juízo em uma mera formalidade, algo que só de pensar já causa aversão a qualquer pessoa sensata e piedosa. Mas a verdade é que não há necessidade de se discutir esta questão. Uma sentença apenas das Escrituras é muito melhor do que dez mil dos mais convincentes argumentos humanos. Nosso Senhor Jesus Cristo declarou, nos termos mais claros e enfáticos, que os crentes “não entrarão em condenação [juízo]”. Isto já basta. O crente foi julgado há mais de mil e oitocentos anos na Pessoa de sua Cabeça, e levá-lo outra vez a juízo seria ignorar completamente a cruz de Cristo no que diz respeito à sua eficácia expiatória e, com certeza, Deus não iria e nem poderia fazer isso. O mais fraco cristão pode afirmar, em triunfo e gratidão: “Naquilo que me diz respeito, tudo o que precisava ser julgado já foi julgado. Toda questão que precisava ser resolvida já foi resolvida. O juízo é passado e jamais se repetirá. Sei que minhas obras devem ser provadas e meu serviço avaliado, mas naquilo que diz respeito à minha pessoa, minha posição, meu direito, tudo já está divinamente resolvido. O Homem que Se colocou no meu lugar na cruz está agora no trono, coroado, e a coroa que Ele traz é a prova de que não resta juízo algum para mim. Aguardo pela ressurreição da vida”. Esta, e nada menos, é a linguagem adequada ao cristão. É simplesmente graças à obra da cruz que o crente pode se sentir e expressar desta maneira. Para o crente, aguardar pelo dia do juízo para resolver a questão de seu destino eterno é desonrar seu Senhor e negar a eficácia de Seu sacrifício expiatório. Ficar em dúvida pode soar como humildade e aparência de piedade, mas devemos descansar assegurados de que todos os que alimentam a dúvida, todos os que vivem em um estado de incerteza, todos aqueles que aguardam pelo dia do juízo para a solução final de suas questões — todos os que assim fazem — estão mais ocupados consigo mesmos do que com Cristo. Ainda não entenderam a aplicação da cruz aos seus pecados e à sua natureza. Estão duvidando da Palavra de Deus e da obra de Cristo, e isto não é cristianismo. Não há — nem pode haver — qualquer juízo para aqueles que, abrigados pela cruz, colocaram os pés firmemente em um novo e eterno terreno de ressurreição. Para estes o juízo se foi para sempre, e nada resta senão uma perspectiva de nítida glória e de bênção eterna na presença de Deus e do Cordeiro. Todavia, não é de todo improvável que enquanto dizemos isto o pensamento do leitor esteja voltando a Mt 25:31-46 como uma passagem que estaria, de forma direta, comprovando a teoria de um juízo geral. Por isso sentimos ser nosso sagrado dever acompanhá-lo por um momento àquela importante e muito solene passagem, enquanto lembramos que nenhuma passagem das Escrituras pode entrar em conflito com outra e, portanto, se lemos em Jo 5:24que os crentes não entrarão em juízo, não poderíamos ler em Mateus 25 que eles entrarão. Trata-se de um princípio fixo e invulnerável — uma regra geral para a qual não há, e nem pode haver, exceção. Mesmo assim, vamos abrir em Mt 25. “Quando o Filho do homem vier em Sua glória, e todos os santos anjos com Ele, então se assentará no trono da Sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dEle, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas”. Ora, é extremamente necessário prestar muita atenção aos termos exatos usados nesta passagem das Escrituras. Devemos evitar toda negligência de pensamento, toda aquela pressa, descuido e imperfeição que tem causado sérios estragos ao ensino desta importante passagem, e lançado tantos dentre o povo do Senhor na mais completa confusão a este respeito. Vejamos, antes de qualquer coisa, quem são as partes levadas a juízo. “Todas as nações serão reunidas diante dEle”. Isto é muito claro. São nações vivas. Não é uma questão de indivíduos, mas de nações — todos os gentios. Israel não está aqui, pois lemos em Nm 23:9 que “este povo habitará só, e entre as nações não será contado”. Se Israel fosse incluído nesta cena de juízo, então Mt 25 estaria em evidente contradição com Nm 23, o que está totalmente fora de questão. Israel nunca é contado com os gentios, seja lá qual for o assunto ou a base para isso. Do ponto de vista divino, Israel permanece só. O povo pode, por causa de seus pecados e sob as ações governamentais de Deus, ser disperso entre as nações, mas a Palavra de Deus declara que não será contado com elas. Para nós isto deve ser suficiente. Então, se for verdade que Israel não está incluído no juízo de Mt 25, então, sem precisarmos avançar um passo sequer, a ideia de aquele ser um juízo geral deve ser abandonada. Não pode ser geral se não estiverem todos incluídos, e Israel nunca é incluído sob o termo “gentios”. As Escrituras falam de três classes distintas, a saber, “judeus… gregos [gentios]… Igreja de Deus” (1 Co 10:32), e estas três nunca são confundidas. Além disso, devemos assinalar que a Igreja de Deus não está incluída no juízo que aparece em Mt 25. Tampouco esta afirmação é baseada apenas no fato que já mencionamos, da necessária exclusão da Igreja do juízo, mas também na grande verdade de que a Igreja é tomada das nações, como Pedro declarou no concílio de Jerusalém. “Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o Seu nome” (Atos 15:14). Portanto, se a Igreja é tirada das nações, ela não pode ser contada entre elas e, por conseguinte, temos uma evidência adicional contra a teoria de um suposto juízo geral em Mt 25. O judeu não está ali, a Igreja não está ali e, portanto, a ideia de um juízo geral deve ser abandonada como totalmente infundada. Então quem são os que aparecem no juízo de Mt 25? A própria passagem fornece a resposta para a mente simples. Ela diz que “todas as nações serão reunidas diante dEle”. Claro e preciso. Não se trata de um julgamento de indivíduos, mas de nações como tal. Além disso, podemos acrescentar que nenhum dos que são indicados aqui terão experimentado a morte. Esta cena está em claro contraste com a de Ap 20:11-15, na qual não haverá um que não tenha morrido. Em suma, em Mateus 25 temos o juízo dos vivos e em Apocalipse 20 o juízo dos mortos. Ambos são mencionados em 2 Timóteo 4:1: “Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na Sua vinda e no Seu reino”. Nosso Senhor Jesus Cristo julgará as nações vivas em Sua aparição, e julgará “os mortos, grandes e pequenos” no final de Seu reino milenial. Mas vamos dar uma olhada, por um instante, no modo como as partes são organizadas no juízo de Mt 25: “E porá as ovelhas à Sua direita, mas os bodes à esquerda”. Ora, a crença quase universal da Igreja professa é que as “ovelhas” representam todo o povo de Deus, do início ao fim dos tempos, e os “bodes”, por sua vez, representam todos os maus, do primeiro ao último. Todavia, se fosse assim, o que faremos com o terceiro grupo citado aqui como “meus irmãos”? O Rei se refere tanto às ovelhas como aos bodes ao falar desta terceira classe. na verdade, o próprio motivo do juízo é o tratamento dado aos irmãos do Rei. Seria um total absurdo dizer que as ovelhas seriam o próprio grupo que está sendo mencionado. Se fosse assim, a linguagem seria completamente diferente e, em lugar de dizer “em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos”, teríamos o Rei dizendo “em verdade vos digo que quando o fizestes uns para com os outros” ou “para convosco”. Rogamos uma atenção especial do leitor para este ponto. Consideramos que se não existisse qualquer outro argumento e qualquer outra passagem sobre o assunto, bastaria este ponto para provar a falácia da teoria de um juízo geral. É impossível não enxergar estes três grupos na cena, a saber, as “ovelhas”, os “bodes” e “meus pequeninos irmãos”. E se existem três grupos não poderia haver um juízo geral, ainda mais considerando que os “meus pequeninos irmãos” não fazem parte nem do grupo das ovelhas, nem dos bodes. Não, querido leitor, aqui não se trata, de modo algum, de um juízo geral, mas de um julgamento bem específico e parcial. Trata-se de um julgamento das nações vivas, precedendo o início do reino milenial. As Escrituras nos ensinam que, após a Igreja deixar a terra, surgirá um testemunho para as nações; o evangelho do reino será levado, por mensageiros judeus, por toda a extensão da terra, até para as regiões hoje envoltas pelas trevas do paganismo. As nações que receberem os mensageiros e os tratarem bem ficarão à direita do Rei. Aquelas, ao contrário, que os rejeitarem e os tratarem mal, ficarão à Sua esquerda. os “meus pequeninos irmãos” são judeus — os irmãos do Messias. O tratamento dado aos judeus é a base sobre a qual as nações eventualmente serão julgadas, e este é outro argumento contra um juízo geral. Sabemos bem que todos os que viveram e morreram em rejeição ao evangelho de Cristo terão uma razão a mais para terem tratado mal os irmãos do Rei. E, por outro lado, aqueles que se encontrarão ao redor do Cordeiro em glória celestial estarão ali graças a algo muito diferente daquilo que suas obras poderiam proporcionar. Em suma, não existe sequer um detalhe na cena, um fato na história, um ponto na narrativa, que não seja contrário à noção de um juízo geral. E não apenas isto, mas quanto mais estudamos as Escrituras, mais conhecemos o modo de agir de Deus; mais conhecemos Sua natureza, Seu caráter, Seus propósitos, Seus conselhos, Seus pensamentos; mais conhecemos a Cristo, Sua Pessoa, Sua obra, Sua glória; mais conhecemos a Igreja, seu lugar diante de Deus em Cristo, sua plenitude, sua perfeita aceitação em Cristo. Quanto mais detalhadamente estudamos as Escrituras — quanto mais profundamente meditamos nela — mais ficamos convencidos de que não existe nela algo como um juízo geral. Quem é que, mesmo sem conhecer coisa alguma de Deus, poderia supor que Ele iria justificar hoje aqueles que são Seus, apenas para levá-los a juízo amanhã — que Ele iria apagar suas transgressões hoje e julgá-los conforme suas obras amanhã? Quem é que, mesmo sem conhecer coisa alguma de nosso adorável Senhor e Salvador Jesus Cristo, poderia supor que Ele seria capaz de colocar Sua Igreja, Seu corpo, Sua noiva, diante do trono do juízo junto com aqueles que morreram em seus pecados? Seria possível Ele entrar em juízo contra Seu povo pelas iniquidades e pecados dos quais Ele próprio disse: “Jamais Me lembrarei”? Isto é suficiente. Confiamos totalmente que o leitor agora esteja, de si mesmo, plenamente convencido de que não existe, e nem poderia existir, algo como uma ressurreição geral — ou algo como um juízo geral. Não podemos agora, no que diz respeito ao juízo em Apocalipse 20:11-15, ir muito além do que dizer que se trata de uma cena pós milenial que incluirá todos os ímpios mortos desde os dias de Caim até o último apóstata da glória milenial. Ali não haverá um sequer que não tenha passado pela morte, alguém cujo nome esteja no livro da vida, que não deva ser julgado por suas próprias obras e que não venha a passar da pavorosa realidade do grande trono branco para os horrores e tormentos eternos do lago que queima com fogo e enxofre. Quão horroroso! Quão terrível! Quão pavoroso! Oh, leitor! O que você diz acerca destas coisas? Você é um verdadeiro crente em Jesus? Você está limpo por Seu precioso sangue? Você tem nEle o abrigo contra o juízo vindouro? Se não, deixe-me suplicar a você agora, com toda ternura e sinceridade, que fuja agora mesmo da ira vindoura! Volte-se para Jesus, que está esperando para receber você para Si mesmo, para apresentá-lo a Deus na plenitude do valor de Sua obra expiatória e na plenitude do crédito que tem o Seu nome incomparável.

O REMANESCENTE JUDEU

Mateus 24:1-44 é parte de um dos mais profundos e abrangentes discursos já ouvidos pelo homem — um discurso que inclui, em sua maravilhosa extensão, o destino do remanescente judeu, a história da cristandade e o juízo das nações. Já demos uma olhada neste último assunto. Agora nos resta considerar a questão do remanescente de Israel e a história da cristandade professa, seja ela falsa ou genuína. Vamos ver primeiro o remanescente judeu. Para entender Mt 24:1-44 precisamos olhar do ponto de vista das pessoas às quais o Senhor falava naquele momento. Se tentarmos importar para este discurso a luz que brilha na epístola aos Efésios, acabaremos entregando nossa mente à confusão e perderemos o solene ensinamento da passagem que agora temos diante de nós. Não encontramos aqui coisa alguma acerca da Igreja de Deus, o corpo de Cristo. O ensino de nosso Senhor é divinamente perfeito e, portanto, não podemos, sequer por um momento, imaginar que exista na passagem algo de prematuro. Mas seria prematuro introduzir um assunto que, naquele momento, estava oculto em Deus. A grande verdade da Igreja não poderia ser desvendada até que Cristo, o Messias que foi cortado, tivesse ocupado Seu lugar à destra de Deus e enviado o Espírito Santo ao mundo para formar, por meio de Sua presença, o um só corpo composto de judeus e gentios. Nada disso é encontrado em Mateus 24. Estamos ali em terreno totalmente judeu, cercados por circunstâncias e influências judaicas. O cenário e as alusões feitas são todas puramente judaicas. Tentar aplicar a passagem à Igreja seria perder completamente de vista o assunto de nosso Senhor e falsificar a real posição da Igreja de Deus. Quanto mais de perto examinarmos as Escrituras, com maior clareza veremos que as pessoas às quais as palavras são dirigidas ocupam uma perspectiva judaica e estão em terreno judeu, não importa se consideramos as pessoas às quais o Senhor Se dirigia, ou aquelas que deverão ocupar exatamente a mesma posição no final, quando a Igreja tiver deixado esta cena de uma vez para sempre. Vamos examinar a passagem. No final de Mateus 23 nosso Senhor resume Seu apelo aos líderes da nação judaica com as seguintes palavras de terrível solenidade: “Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? Portanto, eis que Eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis Eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta; porque Eu vos digo que desde agora Me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 23:32-39). Assim termina o testemunho do Messias para a apóstata nação de Israel. Todo esforço que o amor — até mesmo o amor divino — poderia demonstrar havia sido tentado, e tentado em vão. Profetas tinham sido enviados e apedrejados; mensageiro após mensageiro tinha ido e suplicado, ponderado, avisado e implorado, mas sem resultado. Suas poderosas palavras haviam caído em ouvidos surdos e corações endurecidos. A única recompensa dada a esses mensageiros fora um tratamento vergonhoso, o apedrejamento e a morte. Finalmente o próprio Filho foi enviado, e enviado com esta tocante declaração: “Talvez, vendo-O, seja respeitado”. Respeitaram? Ah, não! Quando O viram não havia nEle beleza alguma que os atraísse. A filha de Sião não sentia nada por seu Rei. A vinha estava sob o controle de lavradores ímpios que queriam mantê-la para si mesmos. “Mas, vendo-o os lavradores, arrazoaram entre si, dizendo: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, para que a herança seja nossa”. Foi por causa da condição moral de Israel que nosso Senhor disse as palavras excepcionalmente terríveis da passagem acima; e então saiu do templo. Sabemos o quanto ele relutou em fazer isso, pois, bendito seja o Seu nome, sempre que deixa um lugar de misericórdia, ou entra em um lugar de juízo, Ele se move em ritmo lento e cuidadoso. Veja a partida da glória nos capítulos iniciais de Ezequiel. “Então saiu a glória do Senhor de sobre a entrada da casa, e parou sobre os querubins. E os querubins alçaram as suas asas, e se elevaram da terra aos meus olhos, quando saíram; e as rodas os acompanhavam; e cada um parou à entrada da porta oriental da casa do Senhor; e a glória do Deus de Israel estava em cima, sobre eles” (Ez 11:22, 23). Assim, de modo lento e calculado, a glória do Deus de Israel sai da casa em Jerusalém. Jeová demorou, foi relutante em partir.* Ele chegara, com amoroso entusiasmo, de alma e coração, para habitar no meio do Seu povo, para encontrar um lar bem no seio de Sua assembleia; mas foi forçado a Se retirar por causa dos seus pecados e iniquidades. De bom grado Ele ficaria, mas era impossível; e mesmo assim Ele provou, do modo como partiu, o quão relutante estava em partir. [* Compare esta relutante partida com Sua rápida entrada no tabernáculo em Ex 40:34 e no templo em 2 Cr 7:1. A habitação tinha acabado de ficar pronta e Ele já descia para ocupá-la, enchendo-a com Sua glória. Ele foi tão rápido em entrar quanto foi lento em partir. E não somente isto, mas antes que o livro de Ezequiel termine, vemos a glória voltando novamente, e “Jeová Shamá” permanece gravado em caracteres eternos sobre as portas da amada cidade. Nada mudou na afeição de Deus. Quem Ele ama, e como ama, Ele ama até o fim. “É o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente”.] Não foi diferente com o Jeová Messias de Mt 23. Ouça Suas tocantes palavras: “Quantas vezes quis Eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!” Eis o profundo segredo: “quis Eu”. Assim estava o coração de Deus. “Tu não quiseste”. Assim estava o coração de Israel. Como aconteceu com a glória nos dias de Ezequiel, Ele também foi obrigado a Se retirar, mas — bendito seja o Seu nome — não sem antes deixar uma palavra que forma a preciosa base da esperança dos dias brilhantes que ainda virão, quando a glória retornar e a filha de Sião der as boas-vindas ao seu Rei com alegres cânticos: “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Todavia, até que aquele radiante dia amanheça, trevas, desolação e ruína é tudo o que pode ser visto na história de Israel. Aquilo que os líderes procuravam evitar, por meio da rejeição de Cristo, caiu sobre eles como uma dura e terrível realidade. “Virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação”. Quão literal e solene foi a forma como isto se cumpriu! Ah, seu lugar e sua nação foram tirados e o significativo ato de Jesus em Mateus 24:1 não passou da promulgação da sentença e da desolação de todo o sistema judaico. Jesus saiu do templo. O caso estava perdido. Tudo deve ser deixado de lado. Um longo período de trevas e tristeza deve tomar conta daquela obcecada nação — um período que deverá culminar naquela “grande tribulação” que deve preceder a hora do livramento final. Mas, como aconteceu nos dias de Ezequiel, havia aqueles que suspiravam e choravam por causa dos pecados e desgraças da nação. Por isso, nos dias de Mt 24 foi possível encontrar um remanescente de almas fiéis que se juntaram ao Messias rejeitado acalentando a terna esperança da redenção e restauração de Israel. É certo que suas percepções eram bem turvas e seus pensamentos cheios de confusão. Todavia o coração de cada um, como que tocado pela graça divina, batia sincero para com o Messias e estava cheio de esperança quanto ao futuro de Israel. Ora, é da maior importância que o leitor consiga reconhecer e entender o caráter desse remanescente, e saber que é disso que nosso Senhor está tratando em Seu maravilhoso discurso no Monte das Oliveiras. Supor, ainda que por um momento, que as pessoas que ouviam estivessem sobre um fundamento cristão seria exigir que abandonássemos todas as ideias genuínas quanto ao que vem a ser cristianismo, e que ignorássemos um grupo cuja existência é reconhecida ao longo dos Salmos, dos Profetas e em várias partes do Novo Testamento. Havia, e sempre haverá, “um remanescente, segundo a eleição da graça”. Citar as passagens que revelam a história, as tristezas, as experiências e exercícios desse remanescente exigiria um volume inteiro. Por isso não tentaremos fazê-lo, mas temos grande desejo que o leitor adote a ideia de que esse remanescente fiel é representado pelo grupo de discípulos que se reunia em torno de nosso Senhor no Monte das Oliveiras. Sentimo-nos persuadidos de que, se isto não for enxergado, se perderá o verdadeiro escopo, significado e aplicação deste notável discurso. “E, quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dEle os Seus discípulos para Lhe mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada. E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a Ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da Tua vinda e do fim do mundo?” (ou da era, aionos.) os discípulos estavam, naturalmente, ocupados com questões e expectativas terrenas e judaicas — o templo e suas cercanias. Devemos ter isto em mente se quisermos entender a pergunta que fizeram e a resposta de nosso Senhor. Até ali eles não tinham qualquer ideia além do lado terreno das coisas. Eles buscavam pelo estabelecimento do reino, pela glória do Messias, pelo cumprimento das promessas feitas aos pais. Ainda não tinham se dado conta do importante e solene fato de que o Messias estava para ser “cortado… mas não para Si mesmo” (Dn 9:26). É verdade que o bendito Mestre estava, pouco a pouco, procurando preparar suas mentes para este solene evento. Ele os havia avisado verdadeiramente quanto às densas sombras que estavam para se derramar em Seu caminho. Havia dito a eles que o Filho do Homem deveria ser entregue aos gentios para ser ridicularizado, flagelado e crucificado. Mas eles não entendiam o que Ele dizia. Aquilo parecia sombrio, difícil e incompreensível; e seus corações continuavam a se apegar afetuosamente à esperança da bênção e restauração nacional. Eles ansiavam por ver a estrela de Jacó em ascensão. Seus pensamentos estavam cheios de expectativa da restauração do reino de Israel. Portanto nada sabiam — e como poderiam? — daquilo que estava para se desencadear: a rejeição e morte do Messias. Sem dúvida alguma o Senhor havia falado de edificar uma assembleia, mas no que diz respeito à posição e privilégios dessa assembleia, sua vocação, sua posição, suas esperanças, eles não sabiam absolutamente coisa alguma. A ideia de um corpo composto de judeus e gentios, unidos pelo Espírito Santo a uma Cabeça viva e glorificada nos céus, jamais entrara — e como poderia? — em suas cabeças. A parede de separação continuava de pé, e um deles — o mais proeminente dentre eles — teria de ser ensinado, muito tempo depois e com muita dificuldade, a aceitar a ideia de até admitir que os gentios entrassem no reino. Tudo isso, repetimos, deve ser levado em conta se quisermos ler corretamente a resposta de nosso Senhor à pergunta sobre Sua vinda e o fim dos tempos. Não há sequer uma sílaba sobre a Igreja como tal, do princípio ao fim daquela resposta. Até o versículo 14 Ele vai direto ao final, dando uma rápida ideia dos eventos que devem ocorrer entre as nações. “Acautelai-vos, que ninguém vos engane”, diz Ele. “Porque muitos virão em Meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos. E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares. Mas todas estas coisas são o princípio de dores. Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do Meu nome. Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão. E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará. Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mt 24:4-14). Temos aqui, portanto, um esboço dos mais abrangentes de todo o período a partir do momento que nosso Senhor falava até o tempo do fim. Mas o leitor precisará ter em mente que existe um intervalo não perceptível — um parêntese, uma pausa — nesse período, durante o qual o grande mistério da Igreja é revelado. Este intervalo ou pausa é totalmente deixado de lado neste discurso, principalmente porque ainda não tinha chegado o tempo de seu desenvolvimento. Ele continuava “oculto em Deus” e não poderia ser revelado até que o Messias fosse finalmente rejeitado, cortado da terra e recebido em glória nas alturas. Este discurso, em sua totalidade, teria seu pleno e perfeito cumprimento, mesmo que jamais se tivesse ouvido falar de algo como a Igreja. Pois a Igreja — que isto nunca seja esquecido — não tem qualquer parte nas deliberações de Deus para com Israel e o mundo. E no que diz respeito à alusão feita à pregação do evangelho no versículo 14, não devemos supor que seja a mesma coisa que o “glorioso evangelho da graça de Deus”, do modo como foi pregado por Paulo. Aquele, além de ser denominado “o evangelho do reino”, deverá ser pregado não com o propósito de reunir a Igreja, mas “em testemunho a todas as nações”. Não podemos confundir as coisas que Deus, em Sua infinita sabedoria, mostrou serem distintas. A Igreja não deve ser confundida com o reino, tampouco o evangelho da graça de Deus deve ser confundido com o evangelho do reino. São coisas completamente distintas e, se as confundirmos, acabaremos não entendendo nem uma, nem outra. Além disso, gostaríamos de insistir com o leitor quanto à absoluta necessidade de se enxergar a pausa, o parêntese ou o imperceptível intervalo no qual o grande mistério da Igreja é inserido. Se isto não for claramente visto, Mt 24 não poderá ser entendido. Mas devemos seguir adiante com o discurso de nosso Senhor. No versículo 15 Ele parece chamar a atenção de Seus leitores um pouco para o passado, como se quisesse falar de algo bem específico — algo da alusão feita por Daniel, com a qual um crente judeu estaria familiarizado. “Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, atenda; então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; e quem estiver sobre o telhado não desça a tirar alguma coisa de sua casa; e quem estiver no campo não volte atrás a buscar as suas vestes… E orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado; porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver”. Tudo isso é muito claro. A citação de Dn 12 não deixa qualquer dúvida quanto à aplicação da passagem. Prova que a referência não é ao cerco de Jerusalém por Tito, pois lemos em Daniel 12 que “naquele tempo livrar-se-á o teu povo”, e é perfeitamente claro que o povo não foi liberto nos dias de Tito. Não, a referência é ao tempo do fim. A cena se passa em Jerusalém. As pessoas às quais o discurso é dirigido e aquelas envolvidas são crentes judeus — o piedoso remanescente de Israel durante a grande tribulação, após a Igreja ter saído de cena. Como alguém poderia imaginar que as pessoas às quais a passagem se refere pudessem ser consideradas como estando em terreno cristão? Que importância teria para elas a alusão feita ao inverno ou ao sábado? Portanto, mais uma vez: “Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não lhe deis crédito… se vos disserem: Eis que Ele está no deserto, não saiais. Eis que Ele está no interior da casa; não acrediteis”. Que aplicação teria tais palavras para pessoas que estão instruídas a aguardar pelo Filho de Deus vindo do Céu, que sabem que quando Ele voltar a este mundo elas irão encontrá-Lo entre nuvens e voltar com Ele para a casa do Pai? Poderia algum cristão bem informado da esperança que lhe diz respeito ser enganado por pessoas dizendo que Cristo está aqui ou ali, no deserto ou no interior da casa? Impossível. O cristão está aguardando pelo Noivo vindo do Céu, e sabe que está totalmente fora de questão que Cristo apareça na terra se não estiver trazendo consigo todo o Seu povo. Assim, a simples verdade deixa tudo resolvido, e tudo o que queremos é abordá-la com simplicidade. O cristão mais simples sabe muito bem que seu Senhor não aparecerá para si como um raio ou relâmpago, mas como a resplandecente Estrela da manhã e, portanto, entende que Mt 24 não pode se aplicar à Igreja, muito embora a Igreja certamente possa estudar o capítulo com interesse e obter benefícios dele, como acontece com todas as outras passagens proféticas. E, podemos acrescentar, o interesse será ainda mais intenso, e o benefício ainda mais profundo, na proporção em que enxergarmos a verdadeira aplicação destas passagens das Escrituras. O limite de espaço impede que entremos tanto quanto gostaríamos no restante deste maravilhoso discurso, mas quanto mais detalhadamente cada sentença for examinada, maior o peso que se dará a cada circunstância, e maior a clareza com que poderemos ver que as pessoas às quais foi dirigido não têm natureza cristã. Toda a cena é judaica e terrena, e não cristã e celestial. Há ali muito ensino para aqueles que se encontrarão, eventualmente, na posição ali prevista, e nada pode ser mais claro do que o fato de que o parágrafo inteiro, do versículo 15 ao 42, se refere ao período que se passa entre o arrebatamento dos santos e a aparição do Filho do Homem. Alguns talvez sintam dificuldade em entender o versículo 34: “Não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam”. Mas devemos nos lembrar de que a palavra “geração” é constantemente usada nas Escrituras com um sentido moral. Não deve ser limitada a certo número de pessoas que estiverem vivas na ocasião, mas leva em consideração o povo. Na passagem que lemos, ela se aplica simplesmente à geração judaica, mas o modo como as palavras são colocadas pode deixar em aberto também a questão do tempo, de maneira que o coração deve ser mantido sempre de prontidão para a vinda do Senhor. Nada há nas Escrituras que interfira com a constante expectativa desse grande evento. Pelo contrário, cada parábola, cada figura, cada alusão é colocada na forma de palavras que garantam que cada pessoa espere pela volta do Senhor durante o tempo de sua vida, deixando ainda margem para o prolongamento do tempo em conformidade com a paciente graça de um Deus Salvador.

A CRISTANDADE

Que pensamentos e sentimentos diversos são despertados na alma pelo simples ouvir da palavra “cristandade”! Trata-se de uma palavra terrível. Ela coloca diante de nós, de uma só vez, aquela imensa massa de pessoas professas e batizadas que se denominam a si mesmos Igreja de Deus, mas que não são; que dão a si mesmas o título de cristianismo, mas não são. Cristandade é uma terrível e sombria anomalia. Não é uma coisa nem outra. Não é judeu, nem gentio, nem Igreja de Deus. Trata-se de uma misteriosa mistura corrompida, uma deformação espiritual, a obra prima de Satanás, o corruptor da verdade de Deus e destruidor de almas humanas, uma armadilha, um engano, uma pedra de tropeço, a mais sombria mancha moral no universo de Deus. Trata-se da corrupção de nada menos do que aquilo que há de melhor e, por isso, é a pior das corrupções. Trata-se daquilo que Satanás fez a partir do cristianismo professo. É, de longe, pior que o judaísmo, pior que todas as mais sombrias formas de paganismo. Por possuir uma luz mais elevada e privilégios mais ricos, isto a torna a profissão mais elevada e faz com que ocupe o mais eminente lugar. Finalmente, é para essa horrível apostasia que estão reservados os mais pesados juízos de Deus — a mais amarga borra da taça de Sua justa ira. Há, bendito seja Deus, alguns poucos nomes na cristandade que, por graça, não contaminaram suas vestes. Há algumas brasas vivas entre suas cinzas inertes — pedras preciosas entre o horrível entulho. Todavia, no que diz respeito à massa da profissão cristã à qual o termo cristandade se aplica, nada pode ser mais consternador, quer pensemos em sua condição atual ou em seu destino futuro. Duvidamos que os cristãos, de um modo geral, tenham uma percepção clara do verdadeiro caráter e inevitável ruína daquilo que os cerca. Se tivessem, ficariam preocupados e sentiriam a necessidade premente de se manterem à parte, em santa separação, dos caminhos da cristandade, em um claro testemunho contra seu espírito e princípios. Mas vamos voltar ao profundo discurso de nosso Senhor no Monte das Oliveiras, no qual, como já observamos, Ele trata da questão da profissão cristã. Ele faz isso em três parábolas distintas, a saber, a do servo, das dez virgens e dos talentos. Em cada uma e em todas vemos as mesmas duas coisas que foram mostradas acima, o genuíno e o espúrio, o verdadeiro e o falso, o brilhante e o sombrio, aquilo que é de Cristo e aquilo que é de Satanás, aquilo que pertence ao Céu e aquilo que emana do inferno. Devemos olhar de relance para as três parábolas que contêm, apesar de sua brevidade, um imenso manancial de ensino prático e dos mais solenes. Abram em Mt 24:45-47. “Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim. Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens”. Aqui, portanto, temos definida a fonte e objetivo de todo ministério na casa de Deus. “Que o seu senhor constituiu sobre a sua casa”. Esta é a fonte. “Para dar o sustento a seu tempo”. Este é o objetivo. Estas coisas são da mais alta importância e dignas da mais profunda atenção do leitor. Todo ministério na casa de Deus, seja nos dias do Antigo ou do Novo Testamento, é por ordenação divina. Não existe nas Escrituras algo como uma autoridade humana ordenando alguém para o ministério. Tampouco existe algo como um ministério auto constituído. Ninguém além de Deus pode fazer ou ordenar um ministro, qualquer que seja seu tipo ou qualificação. Assim, nos tempos do Antigo Testamento, Jeová ordenou Aarão e seus filhos para o sacerdócio e, se um estranho pretendesse se infiltrar nas funções do santo ofício, deveria ser condenado à morte. Nem mesmo o próprio rei ousava tocar no incensório sacerdotal, pois nos é dito de Uzias, rei de Judá, que “havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o Senhor seu Deus, porque entrou no templo do Senhor para queimar incenso no altar do incenso. Porém o sacerdote Azarias entrou após ele, e com ele oitenta sacerdotes do Senhor, homens valentes. E resistiram ao rei Uzias, e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o Senhor, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para queimar incenso; sai do santuário, porque transgrediste; e não será isto para honra tua da parte do SENHOR Deus… Assim ficou leproso o rei Uzias até ao dia da sua morte” (2 Cr 26:16-21). Tal foi o solene resultado — a terrível consequência de alguém ousar se intrometer naquilo que era uma ordenação totalmente divina. Acaso isto não tem algo a dizer à cristandade? Certamente. É algo que emite uma nota de alerta, que diz à Igreja professa, em alto e bom som, para tomar cuidado com a intromissão humana em uma área que pertence apenas a Deus. “Porque todo o sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens[e não por homens] nas coisas concernentes a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados… e ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado [não por homens, mas] por Deus, como Arão” (Hb 5). Tampouco estava este princípio de ordenação divina restrito ao santo e elevado ofício do tabernáculo. Homem algum ousava colocar sua mão na menor parte que fosse daquela estrutura sagrada a menos que tivesse autoridade recebida diretamente de Jeová. “Depois falou o Senhor a Moisés, dizendo: Eis que Eu tenho chamado por nome a Bezalel, o filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá” (Ex 31). E nem Bezalel poderia escolher seus companheiros no trabalho, ou ordenar quem quisesse para trabalhar, do mesmo modo como não poderia ter escolhido ou ordenado a si mesmo. Não, isso também era uma prerrogativa divina. “E eis que eu”, diz Jeová, “tenho posto com ele a Aoliabe”. Assim tanto Aoliabe como Bezalel receberam sua comissão diretamente do próprio Jeová, a única fonte de toda autoridade ministerial. E nem podia ser diferente no caso do ministério e do ofício profético. Só Deus poderia fazer, preparar e enviar um profeta. Oh, mas havia aqueles dos quais Jeová precisava dizer: “Não mandei esses profetas, contudo eles foram correndo” (Jr 23:21). Eram pessoas não consagradas se intrometendo no campo da profecia, assim como aqueles que se intrometiam no ofício do sacerdócio. Todavia, todos atraíram para si mesmos o juízo de Deus. Será que este grande princípio mudou? Acaso o ministério foi tirado de seu antigo fundamento? Porventura o manancial de águas vivas foi desviado de sua divina fonte? Será que esta instituição tão gloriosa e preciosa foi despojada de sua sublime dignidade? Seria possível que, na época do Novo Testamento, o ministério tivesse sido rebaixado de sua divina excelência? Teria ele se transformado numa mera ordenação humana? Poderia alguém ordenar seu companheiro, ou ordenar a si próprio, para qualquer ministério na casa de Deus? Que resposta devemos dar a estas perguntas? Sem dúvida alguma, e graças a Deus por isso, nenhuma outra resposta há senão um claro e enfático Não! O ministério era, é e sempre será divino; divino em sua fonte, divino em sua natureza, divino em cada princípio e aspecto. “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos” (1 Co 12:4-6). “Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis… E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores, depois milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas” (1 Co 12:18, 28). “Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo. Por isso diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens… E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4:7-13). Eis a grande fonte de todo ministério na Igreja de Deus, do primeiro ao último — do alicerce estabelecido em graça, até a pedra do topo, em glória. Não vem do homem e nem é ordenado pelo homem, mas é de Jesus Cristo, e de Deus Pai que O ressuscitou dentre os mortos, e no poder do Espírito Santo (veja Gl 1). Não há nas Escrituras qualquer coisa referente a algum tipo de autoridade humana em qualquer área do ministério na Igreja. Se for uma questão de dom, está enfaticamente declarado que se trata de dom de Cristo. Se for uma questão de posição ordenada, nos é dito, com igual clareza e ênfase, que Deus coloca os membros. Se for uma questão de responsabilidade local, seja ela de ancião ou diácono, trata-se de uma designação exclusivamente divina, exercida por mão dos apóstolos ou daqueles por eles delegados. Tudo isso está tão claro, tão definido, tão palpável nas páginas das Escrituras que a única coisa que se pode dizer é: “Como lês?”. E quanto mais penetramos sob a superfície — quanto mais somos guiados pelo Espírito Eterno nas mais preciosas e profundas regiões da inspiração — mais convencidos ficaremos de que o ministério, em cada uma de suas áreas e aspectos, é divino em sua fonte, natureza e princípios. A verdade a este respeito resplandece em todo o seu fulgor nas Epístolas, mas temos sua essência nas palavras de nosso Senhor em Mt 25:45: “Que o seu senhor constituiu sobre a sua casa”. A casa pertence ao Senhor e somente Ele pode designar Seus servos, o que Ele faz conforme Sua vontade soberana. Igualmente claro é o assunto do ministério, conforme é declarado na parábola e desenvolvido nas Epístolas. “Para dar o sustento a seu tempo”. “Para edificação do corpo de Cristo” — “para que a igreja receba edificação”. É isto que está junto ao terno coração de Jesus. Ele queria que Sua casa fosse aprimorada, que Sua Igreja fosse edificada, que Seu corpo fosse alimentado e cuidado. Para este fim, Ele deu dons e os mantêm na Igreja, e irá mantê-los até que não sejam mais necessários. Mas, oh!, existe um lado sombrio nesse quadro. Devemos estar preparados para isso, já que temos diante de nós o quadro da cristandade. Se existe um servo fiel, sábio e bendito, existe também um servo mau que, no seu coração diz: “O meu senhor tarde virá”. Preste atenção nisto. É no coração do servo mau que o pensamento da demora da vinda tem sua origem. E qual é o resultado? Ele começa “a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com os ébrios”. Não precisamos comentar o modo terrível como isso tem sido retratado na história da cristandade. Ao invés de um verdadeiro ministério fluindo da Cabeça ressuscitada e glorificada nos céus, promovendo a edificação do corpo, a bênção das almas e a prosperidade da casa, temos uma falsa autoridade clerical, um governo arbitrário, se assenhoreando da herança de Deus, numa ávida busca pela riqueza e poder seculares, pela permissividade mundana e satisfação dos próprios desejos, exaltação pessoal e domínio sacerdotal das mais variadas e imagináveis formas e resultados. O leitor fará bem se aplicar seu coração em compreender estas coisas. Para isto deverá apreender, com clareza e poder, a diferença entre clericalismo e ministério. O primeiro não passa de pretensão humana; o último é uma instituição puramente divina. O primeiro tem sua fonte no coração do homem mau; o último provém de um Salvador ressuscitado e exaltado que, depois de ressuscitado dentre os mortos, recebeu dons para serem dados aos homens e os derrama sobre Sua Igreja conforme a Sua própria vontade. O primeiro é verdadeiramente um flagelo e maldição; o último, uma bênção divina dada aos homens. Este, em sua essência, flui primorosamente do céu e para lá retorna; aquele, flui do inferno que é a sua origem e é para lá que retorna. Tudo isso é extremamente solene e deveria exercer uma poderosa influência em nossa alma. Está chegando o dia quando Cristo, o Senhor, irá tratar com justiça sumária tudo aquilo que o homem ousou estabelecer em Sua casa. Não falamos aqui de indivíduos — apesar de ser algo muito sério e terrível alguém praticar ou se envolver com aquilo sobre o que um julgamento tão medonho está para cair. Falamos de um sistema — um grande princípio que se espalha, em uma corrente profunda e sombria, por toda a extensão da Igreja professa — falamos do clericalismo e do poder sacerdotal, em todas as suas formas e ramificações. É contra essa coisa terrível que solenemente alertamos nossos leitores. Nenhuma linguagem humana seria capaz de descrever o mal que há nisso, tampouco pode a linguagem humana expor adequadamente a profunda bênção do genuíno ministério na Igreja de Deus. O Senhor Jesus não apenas concede os dons ministeriais, mas, em Sua maravilhosa graça, recompensará abundantemente o exercício fiel e diligente desses dons. Todavia, no que diz respeito àquilo que o homem estabeleceu, lemos acerca de seu destino nestas veementes palavras: “Virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe, e separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes”. Que o gracioso Senhor possa livrar Seus servos e Seu povo de qualquer participação nessa grande impiedade que tem penetrado até mesmo no seio daquilo que se denomina a Igreja de Deus. E, por outro lado, que Ele possa levá-los a compreender, a apreciar e a exercitar aquele verdadeiro, precioso e divino ministério que emana de Si próprio e é designado, em Seu infinito amor para a verdadeira bênção e crescimento dessa Igreja que é tão cara ao Seu coração. Enquanto buscamos nos manter longe do mal do clericalismo (como certamente devemos fazer), corremos o risco — deveras um grande risco — de cairmos no extremo oposto, que é o de desprezar o ministério. Isto deve ser cuidadosamente evitado. Devemos sempre ter em mente que o ministério adequado à Igreja é o ministério vindo de Deus. Sua fonte é divina. Sua natureza é celestial e espiritual. Seu objetivo é reunir, é edificar a Igreja de Deus. Nosso Senhor Jesus Cristo concede os diversos dons — evangelistas, pastores e mestres ou doutores. É dEle o grande reservatório de dons espirituais. Ele nunca abriu mão disso e nem abrirá. Apesar de tudo aquilo que Satanás tem feito na Igreja professa; apesar de todos os feitos daquele “servo mau”; apesar de toda a pretensa usurpação de autoridade do homem que de forma alguma lhe pertence; apesar de tudo isso, nosso Senhor ressuscitado e glorificado tem as “sete estrelas”. É dEle que provêm todos os dons de ministério, todo o poder e autoridade. Só Ele pode fazer de alguém um ministro. Se Ele não conceder um dom, não pode existir um ministério genuíno. Pode existir a vã pretensão — a usurpação culposa, a simulação vazia, o discurso inútil — mas não haverá um átomo sequer de ministério verdadeiro, divino e terno, exceto onde nosso soberano Senhor quiser conceder o dom. E até mesmo onde Ele concede o dom, esse dom deve ser “despertado” e diligentemente cultivado, caso contrário o “aproveitamento” não será “manifesto a todos”. O dom deve ser exercitado no poder do Espírito Santo, ou não promoverá o objetivo para o qual foi divinamente designado. Mas estamos apenas antecipando o que ainda está para nos ser apresentado na parábola dos talentos, por isso terminaremos aqui simplesmente lembrando o leitor que o grave assunto com o qual nos ocupamos tem ligação direta com a vinda de nosso Senhor, ainda mais considerando que todo ministério genuíno é exercido tendo em vista aquele grande e glorioso evento. E não apenas isto, mas aquela imitação, aquela coisa corrupta e má, será judicialmente tratada quando Cristo, o Senhor, surgir em Sua glória.

AS DEZ VIRGENS

Abordaremos agora esta solene parte do discurso de nosso Senhor no qual Ele apresenta o reino dos céus comparado a “dez virgens”. O ensino contido nesta parábola tão interessante e significativa é de uma aplicação mais ampla do que a do servo à qual já nos referimos, considerando que ela aborda todo o espectro da profissão cristã e não fica restrita ao ministério, seja ele dentro ou fora da casa. Ela se relaciona direta e explicitamente à profissão cristã, tanto a falsa como a verdadeira. “Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo”. Há quem acredite que esta parábola refira-se ao remanescente judeu, mas não parece ser esta a ideia que ela dá, tanto pelo contexto no qual ocorre, quanto pelos termos nela utilizados. No que diz respeito ao contexto como um todo, quanto mais de perto nós a examinarmos, mais claramente veremos que a porção judaica do discurso termina com Mt 24:44. Isto é algo tão claro que descarta qualquer questão. Igualmente distinta é a porção cristã, que se estende, como vimos, de Mt 24:45 a mt 25:30, enquanto de Mt 25:31 ao final temos os gentios. Tamanha ordem e plenitude encontradas neste maravilhoso discurso deve tocar todo leitor atento. Ele apresenta o judeu, o cristão e o gentio, cada um em seu terreno distinto e em conformidade com seus próprios princípios. Não há uma mistura de uma coisa com outra, não há confusão de coisas que diferem. Em suma, a ordem, a plenitude e a abrangência deste profundo discurso são coisas divinas que enchem a alma de “assombro, amor e adoração”. Depois de estudá-lo, só podemos fazer nossas, em uníssono, as palavras do apóstolo que disse: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os Seus juízos, e quão inescrutáveis os Seus caminhos!” E então, quando examinamos os termos exat utilizados por nosso Senhor na parábola das dez virgens, acabamos percebendo que esta não se aplica a judeus, mas a cristãos professos — aplica-se a nós. Proclama e ensina uma solene lição ao escritor e também ao leitor destas linhas. Vamos, então, aplicar nosso coração à sua leitura. “Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo”. O cristianismo primitivo era especialmente caracterizado pelo fato aqui indicado, a saber, de aguardar pelo ansiado encontro com um Noivo que voltaria. os primeiros cristãos foram levados a se desligar das coisas presentes e a saírem, de mente e coração, ao encontro do Salvador que amavam e pelo qual aguardavam. Não se tratava, evidentemente, de sair de um lugar para outro; não era uma questão de lugar, mas algo moral e espiritual. Era uma saída de coração, ao encontro de um amado Salvador cujo retorno era ansiosamente aguardado, dia após dia. É impossível ler as epístolas dirigidas às diversas igrejas sem perceber que a esperança da eminente e segura volta do Senhor governava os corações de Seu amado povo nos primeiros dias. Eles esperavam pelo Filho vindo do céu. Sabiam que Ele viria para levá-los, para estarem Consigo para sempre, e o conhecimento e poder dessa esperança tinha o efeito de desligar seus corações das coisas presentes. Sua esperança, viva e celestial, acabou por torná-los indiferentes às coisas deste mundo. Eles esperavam pelo Salvador. Acreditavam que Ele poderia vir a qualquer momento e, por isso, as obrigações desta vida acabavam sendo tão somente assumidas e atendidas para o momento — sem dúvida alguma atendidas de forma completa e adequada — mas apenas no caráter transitório que tinham, enquanto viviam em grande expectativa. Tudo isso é comunicado ao nosso coração, de forma breve, porém clara, pela expressão: “Saíram ao encontro do esposo”. Não há como conscientemente aplicar isto ao remanescente judeu, ainda mais sabendo que eles não sairão ao encontro de seu Messias, mas, ao contrário, permanecerão em sua posição ou em meio às circunstâncias até que Ele venha e coloque Seu pé no Monte das Oliveiras. Eles não aguardarão pela vinda do Senhor para levá-los embora desta terra para estarem com Ele no céu, mas Ele virá para trazer-lhes libertação em sua própria terra, e para fazê-los feliz ali mesmo, sob Seu próprio reino pacífico e bendito durante o milênio. Porém o chamado feito aos cristãos foi para “saírem”. Espera-se deles que estejam sempre de mudança; que não se acomodem no mundo, mas que estejam de saída em uma sincera e santa expectativa pela glória celestial para a qual são chamados, e pelo Noivo celestial com Quem estão desposados, e cujo breve advento são ensinados a aguardar. Tal é a ideia verdadeira, divina e normal para a condição e atitude esperadas de um cristão. E uma ideia tão terna era maravilhosamente entendida e colocada em prática pelos primeiros cristãos. Mas, oh!, somos lembrados de que, na cristandade estamos diante tanto do que é genuíno como daquilo que é falso. Há o “joio” e há também o “trigo” no reino dos céus, portanto lemos acerca destas dez virgens que “cinco delas eram prudentes, e cinco loucas”. No cristianismo professo existe o verdadeiro e o falso, o genuíno e a imitação, o real e o ilusório. Sim, e isto deve continuar até o tempo do fim, até que o Noivo venha. O joio não é convertido em trigo, tampouco as virgens loucas transformadas em prudentes. Não, jamais. O joio irá queimar e as virgens loucas serão deixadas do lado de fora. Até aqui, pelo que vemos de um aparente progresso levado a efeito pelos meios hoje em operação — a pregação do evangelho e as diversas organizações beneficentes funcionando em todo o mundo — percebemos, graças a todas as parábolas e ao ensino de todo o Novo Testamento, que o reino dos céus se revela como uma mescla de mal das mais deploráveis. Trata-se de um processo que corrompe, uma repugnante adulteração da obra de Deus engendrada pelo inimigo e um real progresso do mal em princípio, profissão e prática. E tudo isso seguirá até o fim. As virgens loucas são vistas quando surge o Noivo. De onde viriam, se fosse correta a ideia de que todos deverão se converter antes da vinda do Senhor? Se todos forem levados ao conhecimento do Senhor pelos meios hoje utilizados, então como explicar a existência do mesmo número de virgens loucas e sábias nessa ocasião? Mas talvez alguém alegue que isto não passa de uma parábola, uma figura. Certamente, mas figura de quê? Certamente não de um mundo inteiro convertido. Afirmar isto seria ofender o volume sagrado e tratar o solene ensino de nosso Senhor de um modo tal que não ousaríamos tratar nem mesmo o ensino de um mero mortal. Não, leitor, a parábola das dez virgens ensina, sem dúvida alguma, que quando o Noivo vier entrarão em cena as virgens loucas e, evidentemente, se existirem as virgens loucas é porque elas não terão sido previamente convertidas. Até uma criança é capaz de entender isto. Não conseguimos enxergar como seria possível, levando-se em consideração esta parábola, manter a teoria de um mundo convertido antes da vinda do Noivo. Mas vamos examinar um pouco mais de perto estas virgens loucas. Sua história é cheia de admoestações para todos os que professam ser cristãos. Trata-se de algo muito sutil, mas de uma abrangência impressionante. “As loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo”. Existe a profissão exterior, mas não uma realidade interior — nenhuma vida espiritual — nenhuma unção — nenhuma ligação vital com a fonte de vida eterna — nenhuma união com Cristo. Nada além da lâmpada da profissão e do seco pavio de uma crença nominal, teórica e racional. Isto é particularmente solene. Lança uma tremenda responsabilidade sobre aquela imensa massa de professos batizados que, neste exato momento, nos rodeia, na qual existe tanta aparência exterior, porém tão pouca realidade interior. Todos professam ser cristãos. A lâmpada da profissão cristã pode ser vista em todas as mãos, mas, oh!, quão poucos trazem o azeite em seus vasos, o espírito de vida em Cristo Jesus, o Espírito Santo habitando em seus corações. Sem isto, tudo é completamente inútil e vão. Pode haver a mais elevada profissão, pode existir o mais ortodoxo credo, alguém pode ser batizado, pode receber a ceia do Senhor, pode estar regularmente registrado e ser perfeitamente reconhecido como membro de uma comunidade cristã, pode ser um professor da escola dominical ou um ministro ordenado por alguma religião. Pode ser alguém que seja tudo isso e, mesmo assim, não possuir uma centelha sequer de vida divina, nem mesmo um raio de luz celestial, qualquer ligação com o Cristo de Deus. Ora, existe algo de particularmente terrível no pensamento de se ter tão somente uma medida de religião suficiente para enganar o coração, amortecer a consciência e arruinar a alma — religião suficiente apenas para dar nome de vivo a quem está morto — suficiente para deixar alguém sem Cristo, sem Deus e sem esperança neste mundo; suficiente para sustentar a alma com uma falsa confiança, e enchê-la de uma falsa paz, até que o Noivo venha e, então, os olhos sejam abertos quando for tarde demais. Assim é com as virgens loucas. Elas são muito parecidas com as prudentes. Um observador comum talvez não seja capaz de ver qualquer diferença por algum tempo. Todas se preparam juntas. Todas têm lâmpadas. E, além disso, todas acabam indo descansar e adormecem, tanto as prudentes como as loucas. Todas se levantam com o clamor da meia-noite e preparam suas lâmpadas. Até aqui não existe uma diferença visível. As virgens loucas acendem suas lâmpadas — a lâmpada da profissão cristã é acesa com o pavio seco de uma fé nominal, teórica e sem vida. Oh! tudo em vão — pior do que em vão, um engano fatal para a destruição da alma. Aqui surge a grande diferença — a bem definida linha de demarcação — com uma clareza terrível, sim, apavorante. “E as loucas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam”. Isso prova que suas lâmpadas estavam acesas, pois se não estivessem acesas não poderiam se apagar. Mas era apenas uma luz falsa, tremulante e passageira. Não era alimentada pela divina fonte. Era a luz da mera profissão dos lábios, alimentada por uma crença racional, com duração apenas suficiente para enganar a si mesmas e a outros, e apagar bem na hora em que mais precisavam dela, deixando-as nas terríveis trevas da noite eterna. “Nossas lâmpadas se apagam”. Terrível descoberta! “Aí vem o esposo, e nossas lâmpadas se apagam. Nossa vã profissão cristã está sendo revelada pela luz de Sua vinda. Pensamos que estava tudo em ordem. Professamos a mesma fé, tivemos o mesmo tipo de lâmpada, o mesmo tipo de pavio; mas, oh! agora descobrimos, para horror nosso, que nos enganamos a nós mesmas, que não temos aquilo que é necessário, o espírito de vida em Cristo, a unção do Santo, a ligação viva com o Noivo. O que faremos? Oh, virgens prudentes, tenham pena de nós e compartilhem conosco seu azeite. Façam isso, por misericórdia, compartilhem um pouco conosco, nem que seja uma gota dessa coisa tão essencial, para não perecermos para sempre”. Oh, tudo em vão. Nenhuma delas pode compartilhar este azeite com outra. Cada uma possui o suficiente para si. Além do mais, ele só pode ser recebido do próprio Deus. Um homem pode dar luz, mas não pode dar o azeite. Este é uma dádiva que provém somente de Deus. “Mas as prudentes responderam, dizendo: Não seja caso que nos falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai-o para vós. E, tendo elas ido comprá-lo, chegou o esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta”. De nada adianta buscar por amigos cristãos que nos ajudem ou que nos deem suporte. De nada adianta correr de um lado para o outro procurando alguém em quem se apoiar — algum santo, ou algum eminente mestre — de nada adianta buscar apoio em nossa Igreja, ou em nosso credo, ou em nossos sacramentos. Queremos azeite. Não podemos viver sem ele. Onde encontrá-lo? Não no homem, ou na Igreja, ou nos santos, ou nos pais. Devemos obtê-lo de Deus; e Ele, bendito seja o Seu nome, o dá graciosamente. “O dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor”. Mas, repare bem, trata-se de algo individual. Cada um deve tê-lo para si mesmo. Ninguém pode crer, ou obter vida para outro. Cada um deve tratar disso pessoalmente com Deus. A ligação que faz a conexão da alma com Cristo é algo completamente individual. Não existe algo como uma fé de segunda mão. Uma pessoa pode nos ensinar religião, teologia ou a letra das Escrituras, mas não pode nos dar o azeite; não pode nos dar fé; não pode nos dar vida. “É domde Deus”. Que pequena e preciosa palavra, “dom”. É como Deus. É tão gratuito quanto o ar de Deus; gratuito como Seus raios solares; gratuita como Suas refrescantes gotas de orvalho. Mas, repetimos e com solene ênfase, cada um deve obtê-lo para si mesmo e tê-lo em si mesmo. “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre), para que viva para sempre, e não veja corrupção” (Sl 49:7-9). Leitor, o que você diz destas solenes realidades. Você é uma virgem louca ou prudente? Você já obteve vida em um Salvador ressuscitado e glorificado? Você é um mero professo de uma religião, satisfeito com a mera rotina comum e sem vida de ir à igreja, possuindo apenas um pouco de religião que o torne alguém respeitável neste mundo, mas não o suficiente para ligá-lo com o céu? Insistimos sinceramente com você para que pense seriamente nestas coisas. Pense nelas agora. Pense no indescritível horror de descobrir que sua lâmpada da mera profissão cristã está se apagando e deixando você em densas trevas — trevas palpáveis — as trevas exteriores de uma noite eterna. Quão terrível será descobrir que a porta foi fechada antes que você pudesse embarcar rumo às núpcias; foi fechada na sua cara! Que lamento de agonia, “Senhor, Senhor, abre-nos!” Que contundente e esmagadora resposta: “Em verdade vos digo que vos não conheço”. Oh, querido amigo, dê a estas solenes palavras um lugar em seu coração agora mesmo, enquanto a porta ainda está aberta, enquanto o dia da graça se estende pela maravilhosa paciência de Deus. Está chegando rapidamente aquele momento quando a porta de misericórdia será fechada para você para sempre, quando toda esperança acabará e sua preciosa alma será precipitada em um sombrio e eterno desespero. Que o Espírito de Deus possa tirá-lo de seu sono fatal e não permita que você descanse até encontrar o verdadeiro repouso na obra completa do Senhor Jesus Cristo e nos Seus benditos pés, em devota adoração. Devemos agora encerrar este texto, mas antes de fazê-lo gostaríamos de, por um momento, dar uma olhada nas virgens prudentes. De acordo com o ensino desta parábola, a grande característica que as distingue e as separa das virgens loucas é que, logo de início, elas “levaram azeite em suas vasilhas, com as suas lâmpadas”. Em outras palavras, o que distingue os verdadeiros crentes daqueles que meramente professam é que os primeiros têm em seus corações a graça do Espírito Santo de Deus; eles têm o espírito de vida em Cristo Jesus e o Espírito Santo habitando neles como o selo, o penhor, a unção e o testemunho. Este grande e glorioso fato caracteriza hoje todos os verdadeiros crentes no Senhor Jesus Cristo — um fato estupendo, maravilhoso, com toda certeza — um imenso e inefável privilégio que deveria sempre curvar nossa alma em santa adoração diante de nosso Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo, cuja redenção já consumada nos garantiu tão grande bênção. Quão triste é pensar que, apesar deste privilégio tão santo e elevado, somos obrigados a ler, como mostram as palavras de nossa parábola: “Tosquenejaram todas, e adormeceram!”. Todas igualmente, tanto as prudentes quanto as loucas, adormeceram. O Noivo tardou em vir, e todas, sem exceção, perderam o frescor, o fervor e o poder da esperança da Sua vinda, e adormeceram. É isto que declara nossa parábola, e é este o solene fato da história. Todo o corpo professo adormeceu. A bendita esperança que brilhou com tanto fulgor no horizonte dos primeiros cristãos, se desvaneceu com muita rapidez. E enquanto perscrutamos as páginas da história da Igreja durante dezoito séculos, desde os Pais Apostólicos ao início do presente século, em vão buscamos por alguma referência clara à esperança específica da Igreja — a volta pessoal do bendito Noivo. Na verdade, aquela esperança foi virtualmente perdida pela Igreja, e não apenas isto, mas hoje é quase uma heresia ensiná-la e, nestes últimos dias, centenas de milhares de ministros que professam a Cristo não ousam pregar ou ensinar sobre a vinda do Senhor conforme o ensino das Escrituras. É verdade, bendito seja Deus, que uma grande mudança aconteceu no último século. Houve então um grande despertamento. Deus, por meio do Seu Espírito Santo, voltou a chamar a atenção de Seu povo para verdades há muito esquecidas e, entre elas, a gloriosa verdade da vinda do Noivo. Muito então erceberam que a razão da demora do Noivo se devia simplesmente à paciência de Deus para conosco, pois Ele não quer que nenhum pereça, mas que todos venham a se arrepender. Precioso motivo! Mas eles também viram que, apesar dessa paciência, nosso Senhor está próximo. Cristo vem. O clamor da meia-noite já foi ouvido: “Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro”. Muitos milhões de vozes ecoam esse clamor tão comovente, até que ele alcance, em seu poder moral, de um polo a outro, “desde o rio do Egito” aos confins da terra, conclamando toda a Igreja a esperar — todos juntos — pela gloriosa vinda do Noivo que é tão bendito aos nossos corações. Amados irmãos no Senhor, despertem! Que cada alma seja despertada. Vamos deixar de lado a indolência do conforto mundano e da satisfação própria — vamos nos colocar acima da debilitante influência do formalismo religioso e da tediosa rotina — vamos jogar de lado os dogmas da falsa teologia e sair, com vontade e na afeição do coração, ao encontro de nosso Noivo que está chegando. Que estas solenes palavras atinjam nossa alma com revigorado poder: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora”. Que a resposta de nossa vida e coração seja: “Ora vem, Senhor Jesus”. Sinistra é a fonte do mal que hoje passa; Despertai, ó santos, vós filhos da graça; Buscai os perdidos com fé destemida, Sabendo o preço da cruz e sua lida. Cantai, inspirados, do amor sem medida, Enquanto aguardamos, ao céu, a subida — Que pode ser hoje, oh doce certeza! — Com lombos cingidos e a luz sempre acesa.

OS TALENTOS

Agora só falta considerarmos aquela parte do discurso de nosso Senhor na qual Ele volta a tratar do assunto tão solene da responsabilidade do ministério durante o tempo de Sua ausência. Que isto está intimamente ligado à esperança de Sua vinda é evidente pelo fato de que, tendo concluído a parábola das dez virgens com a forte expressão, “vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora”, Ele segue dizendo: “Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens”. Existe uma diferença essencial entre a parábola dos talentos e a do servo em Mt 24:45-51. na última, temos o ministério dentro da casa. Na primeira, por outro lado, temos o ministério no exterior, no mundo. Mas em cada uma encontramos um grande fundamento para todo ministério, a saber, o dom e a autoridade de Cristo. “Chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens”. os servos são dEle, e os bens são dEle. Ninguém além de Cristo, o Senhor, pode colocar um homem no ministério, do mesmo modo como ninguém pode conceder dons espirituais. É totalmente impossível para qualquer um ser ministro de Cristo a menos que Ele próprio o tenha chamado e preparado para a obra. Trata-se de algo tão claro que não admite um questionamento sequer. Um homem pode ser ministro de uma religião, pode pregar as doutrinas do evangelho e ensinar teologia, mas não pode ser um ministro de Cristo a menos que o próprio Cristo o chame e o prepare com dons para a obra. Se fosse uma questão de ministério dentro da casa, a questão seria “que o seu senhor constituiu sobre a sua casa”. Caso se trate de uma questão de ministério exterior, no mundo, nos é dito que Ele “chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens”. Este grande e primordial princípio do ministério está poderosamente incorporado nestas palavras de um dos maiores ministros que já existiu, quando ele diz: “Dou graças ao que me tem confortado [var. “me fortaleceu”], a Cristo Jesus Senhor nosso, porque me teve por fiel,pondo-me no ministério” (1Tm 1:12). Assim deve ser em todos os casos, não importa qual seja a medida, o caráter ou a esfera do ministério. Somente Cristo, o Senhor, pode colocar alguém no ministério e capacitá-lo para o cumprir. Se não for assim, o caso ou será, ou de algum homem se colocando a si mesmo no ministério, ou de algum seu semelhante fazendo isso, ambos agindo igualmente de forma contrária à vontade de Deus e contra todos os princípios do verdadeiro ministério, conforme o ensino da Palavra. Se quisermos ser guiados pelas Escrituras, devemos ver que todo ministério, dentro ou fora da casa, deve ser uma designação divina e por capacitação divina. Se não for assim, é pior do que nada. Um homem pode declarar a si mesmo ministro ou ser feito um por seus colegas, mas é tudo em vão. Não é algo vindo do céu — não provém de Deus — não é feito por Jesus Cristo; e, no porvir, isso ficará manifesto e será julgado como uma das piores e mais ousadas formas de usurpação. É da maior importância que o leitor cristão agarre totalmente este grande princípio do ministério. Ele é tão simples quanto solene. E, além do mais, trata-se de algo sobre um fundamento verdadeiramente divino que não pode ser questionado por todo aquele que se submete — como todo cristão deveria se submeter — com absoluta e irrestrita submissão, à autoridade da divina Palavra. Que o leitor pegue sua Bíblia e leia cuidadosamente cada linha nela que trata do assunto do ministério. Se abrir na parábola do servo na casa, lerá: “Que o seu Senhor constituiu sobre a Sua casa”. O servo não constitui a si mesmo e nem é ordenado por seus companheiros. A ordenação é divina. O mesmo acontece na parábola dos talentos, o mestre chama seus próprios servos e dá a eles os seus bens. O chamado e o aparelhamento são divinos. Temos outro aspecto da mesma verdade em Lucas 19. “Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois. E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas, e disselhes: Negociai até que Eu venha”. A diferença entre Lucas e mt parece ser esta: em Lucas, trata-se da responsabilidade humana; em Mateus o que está em destaque é a soberania divina. Mas em ambos o grande princípio essencial é claramente mantido e inquestionável, a saber, que todo ministério é por ordenação divina. A mesma verdade vem ao nosso encontro em Atos dos Apóstolos. Quando alguém precisou ser escolhido para preencher o lugar de Judas, apelaram para Jeová: “Tu, Senhor, conhecedor dos corações de todos, mostra qual destes dois [Tu] tens escolhido, para que tome parte neste ministério e apostolado”. E até mesmo quando se trata de uma questão de responsabilidade local, como a dos diáconos em Atos6, ou de anciãos, em Atos 14, trata-se de algo feito por ordenação direta dos apóstolos. Em outras palavras, é algo divino. Um homem não poderia ordenar a si mesmo diácono e muito menos ancião. No caso do primeiro, enquanto os diáconos cuidavam dos bens das pessoas, estes últimos deviam, segundo a ordem em graça e ternura moral do Espírito, selecionar homens em quem pudessem confiar; mas a ordenação era divina, tanto dos diáconos como dos anciãos. Assim, seja ela uma questão de dom ou de responsabilidade local, tudo permanece sobre uma base puramente divina. Este é o ponto de suma importância. Além disso, se abrirmos nas epístolas veremos que a mesma grande verdade irá brilhar em pleno e radiante fulgor diante de nós. Assim, no início de Romanos 12 lemos: “Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um. Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada…” Em 1 Co 12 lemos: “Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis” (versículo 18). E, mais uma vez, “a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos…” (versículo 28). O mesmo em Ef 4: “Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo”. Todas estas passagens, e muitas outras que poderiam ser citadas, sevem para estabelecer a verdade que nós desejamos muito mostrar a nossos leitores, a saber, que o ministério em todas as suas áreas é divino — provém de Deus, vem do céu e é por Jesus Cristo. Não existe absolutamente coisa alguma no Novo Testamento relacionada a algum tipo de autoridade humana para ministrar na Igreja de Deus. Onde quer que procuremos entre as páginas sagradas, só encontraremos a mesma bendita doutrina que está contida naquela breve sentença de nossa parábola: “Chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens”. Toda a doutrina do Novo Testamento relacionada ao ministério está incorporada aqui; e insistimos sinceramente com o leitor cristão que permita que esta doutrina domine completamente sua alma e exerça toda sua influência sobre o seu caráter, andar e conduta.* [* Não restringimos, de forma alguma, a aplicação dos “talentos” a alguns dons espirituais específicos. Cremos que a parábola se aplica a um amplo espectro do serviço cristão, do mesmo modo que a parábola das dez virgens abrange um amplo espectro da profissão cristã.] Mas talvez a pergunta que se faça seja esta: Não ocorre uma adaptação do vaso para o dom espiritual que é depositado nele? Sem dúvida alguma, e esta mesma adaptação é claramente apresentada nas palavras de nossa parábola: “E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade”. Este é um ponto do mais profundo interesse e jamais deve ser perdido de vista. O Senhor conhece o uso que pretende fazer de um homem. Ele conhece o caráter do dom que pretende depositar no vaso, e assim Ele dá forma ao vaso e molda o homem adequadamente. Não podemos duvidar que Paulo era um vaso especialmente formado por Deus para o lugar que depois iria ocupar, e para a obra que iria fazer. E assim acontece em todos os casos. Se Deus designa um homem para ser um orador em público, Ele lhe dá pulmões, dá a ele uma voz, proporciona uma estrutura física adaptada para a obra que pretende que ele faça. O dom vem de Deus; mas há sempre uma referência muito clara à habilidade do homem. Se isto for perdido de vista, nossa compreensão do verdadeiro caráter do ministério certamente será bastante imperfeita. Jamais devemos nos esquecer de duas coisas, a saber, do dom divino e do vaso humano no qual o dom é depositado. Existe a soberania de Deus e existe a responsabilidade do homem. Quão perfeitos e belos são todos os caminhos de Deus! Mas, oh!, o homem estraga tudo e o mero toque do dedo humano só serve para turvar o brilho da obra divina. Mesmo assim, jamais nos esqueçamos de que o ministério é divino em sua fonte, natureza, poder e objetivo. Se o leitor terminar este texto convencido de alma e coração acerca desta grande verdade, teremos alcançado nosso objetivo ao escrevê-lo. Mas nunca é demais perguntar: O que todo esse assunto do ministério tem a ver com a vinda do Senhor? Muita coisa, em diversos aspectos. Acaso nosso bendito Senhor não apresentou o tema por vezes seguidas em Seu discurso no Monte das Oliveiras? E porventura este discurso não é todo ele uma resposta à pergunta dos discípulos, “que sinal haverá da Tua vinda e do fim do mundo?” Não é a Sua vinda o grande e proeminente assunto do discurso como um todo, e de cada seção dele em particular? Sem dúvida alguma. E qual é o próximo tema proeminente? Acaso não é o ministério? Veja a parábola do servo a quem é dada a responsabilidade de cuidar da casa. Como ele deve servir? Tendo em vista o retorno de seu Senhor. Do mesmo modo o ministério tem uma conexão com a partida e retorno do Mestre. Ele se encontra entre estes dois grandes eventos e é caracterizado por eles. E o que é que leva ao fracasso no ministério? Perder de vista a volta do Senhor. O servo mau diz em seu coração, “meu Senhor tarde virá”, e, como consequência, começa “a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com os ébrios”. O mesmo ocorre na parábola dos talentos. A palavra solene e instigante para a alma é “negociai até que Eu venha”. Em suma, aprendemos que o ministério, seja ele na casa de Deus ou fora, no mundo, deve ser exercido tendo sempre em vista a volta do Senhor. “E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles”. Todos os servos precisam ter sempre em mente o solene fato de que haverá um tempo quando será feito o acerto de contas. Isto é o que irá controlar seus pensamentos e sentimentos em tudo o que diz respeito ao seu ministério. Atente para as importantes palavras a seguir, com as quais um servo procura animar outro: “Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na Sua vinda e no Seu reino, que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas. Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério. Porque Eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a Sua vinda” (2 Tm 4:1-8). Porventura esta tocante e importante passagem não nos mostra como o ministério está intimamente conectado à vinda do Senhor? O bendito apóstolo, o mais devotado, dotado e eficaz obreiro que já trabalhou na vinha de Cristo, o mais habilidoso mordomo a manusear os mistérios de Deus, o mais sábio construtor, o grande ministro da Igreja e pregador do evangelho, o incomparável servo, este raro e precioso vaso, levou adiante sua obra, cumpriu seu ministério e exerceu suas santas responsabilidades tendo sempre em vista “aquele dia”. Ele aguardava, e continua aguardando, aquela solene e gloriosa ocasião quando o justo Juiz colocará sobre sua fronte “a coroa da justiça”. E acrescenta, com terna doçura, “não somente a mim, mas também a todos os que amarem a Sua vinda”. Isto é peculiarmente tocante. Haverá uma coroa de justiça “naquele dia”, não apenas para o dotado, laborioso e devotado Paulo, mas para cada um que ame a vinda de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Não há dúvida de que Paulo terá, em sua coroa, gemas de um brilho peculiar; mas, antes que alguém pense que a coroa de justiça era só para Paulo, ele acrescenta estas ternas palavras: “também a todos os que amarem a Sua vinda”. O Senhor seja louvado por tais palavras! Possam elas ter o efeito de despertar nosso coração, não apenas para amar a vinda de nosso Senhor, mas também para servir com uma devoção mais intensa e dedicada tendo em vista aquele dia glorioso! Que as duas coisas estão intimamente conectadas podemos ver na sequência da parábola dos talentos. Não há muito que possamos fazer além de citar as palavras de nosso Senhor. Quando os servos receberam os talentos, lemos que “o que recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou outros cinco talentos. Da mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros dois. Mas o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles. Então aproximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que granjeei com eles. E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. E, chegando também o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; eis que com eles granjeei outros dois talentos. Disse-lhe o seu Senhor: Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor”. É interessante e instrutivo notar a diferença entre a parábola dos talentos, conforme ela é contada em Mateus, e a parábola dos dez servos em Lucas 19. Em Mateus trata-se de uma questão da soberania divina; em Lucas trata-se da responsabilidade humana. Nesta, cada um recebe uma soma igual, mas na outra um recebe cinco, outro dois, conforme a vontade do mestre. Então, quando chega o dia da prestação de contas, encontramos em Lucas uma recompensa clara em conformidade com o trabalho feito, enquanto em Mateus a palavra é: “sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor”. Não lhes é dito o que receberão, ou sobre quantas coisas serão colocados. O mestre é soberano, tanto em Seus dons como nas recompensas; e o ponto alto disso tudo é: “entra no gozo do teu senhor”. Isto, para um coração que ama o Senhor, está além de qualquer outra coisa. É verdade que haverá as dez cidades e as cinco cidades. Haverá uma recompensa ampla, distinta e definitiva pela responsabilidade exercida, pelo serviço apresentado e pelo trabalho executado. Tudo será recompensado. Mas, acima e além de tudo brilha esta preciosa palavra: “Entra no gozo do teu senhor”. Nenhuma recompensa poderia jamais se igualar a isto. O senso de amor que transpira destas palavras levará cada um a lançar sua “coroa da justiça” aos pés de seu Senhor. A própria coroa que o justo Juiz dará, nós de bom grado a lançaremos aos pés de um amável Salvador e Senhor. Basta um sorriso Seu para tocar o coração com muito maior poder e profundidade que a mais fulgurante coroa colocada sobre a fronte. Uma palavra mais antes de terminarmos. Quem não trabalhou? Quem escondeu o dinheiro de seu senhor? Quem demonstrou ser um “mau e negligente servo”? Aquele que não conhecia o coração de seu mestre, o caráter de seu mestre, o amor de seu mestre. “Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste; e, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros. Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado. Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes”. Quão terrível e solene! Que imenso contraste entre os dois servos! Um conhece, ama, confia em seu senhor e o serve. O outro esconde, teme, desconfia e não faz coisa alguma. Um entra no gozo do seu senhor, o outro é lançado nas trevas exteriores, um lugar de pranto e ranger de dentes. Quão solene! Quão persuasivo para a alma é isso tudo! E quando é que tudo se revela? Quando o Mestre volta! [Nota – Podemos acrescentar, em conexão com as observações feitas sobre o ministério, que todo cristão tem seu lugar e obra específica para desempenhar. Todos são solenemente responsáveis diante do Senhor em saber seu lugar e ocupá-lo, em conhecer seu trabalho e executá-lo. Trata-se de uma verdade clara, prática e plenamente confirmada pelo princípio sobre o qual temos insistido, a saber, que todo ministério e toda obra deve ser recebida das mãos do Mestre, executada sob Sua supervisão e em plena consciência de Sua vinda. Estas coisas nunca devem ser esquecidas.]

OBSERVAÇÕES FINAIS

Devemos agora concluir esta série de textos, e é com um forte sentimento de relutância que o fazemos. O tema é por demais interessante, profundamente prático e proveitoso em extremo. Todavia, ele é bastante sugestivo e abre um extenso campo de visão para a mente espiritual explorar com um interesse que nunca termina, pois o assunto é inexaurível. Todavia, devemos, ao menos por enquanto, finalizar nossas meditações nesta linha de verdade tão maravilhosa, mas ao fazê-lo, estamos ansiosos por chamar a atenção do leitor, da forma mais sucinta, para uma ou duas coisas que mal foram mencionadas ao longo destes textos. Nós as consideramos não só interessante, mas de verdadeiro valor prático para ajudar a esclarecer o entendimento de muitos ramos do grande assunto que tem ocupado nossa atenção. O leitor que viajou conosco ao longo das várias ramificações de nosso assunto irá se lembrar de uma referência rápida àquilo que nos aventuramos a chamar de “um intervalo, pausa ou parêntese despercebido” na relação de Deus com Israel e com a terra. Trata-se de um ponto do mais profundo interesse, e esperamos ser capazes de mostrar ao leitor que não se trata de alguma questão curiosa, de um assunto misterioso e sombrio, ou de uma noção favorita de alguma escola ou interpretação profética em particular. Muito pelo contrário, consideramos isto como um ponto que derrama uma torrente de luz sobre muitas ramificações de nosso assunto como um todo. Foi o que descobrimos para nós mesmos, e é assim que desejamos apresentar aos nossos leitores. Aliás, questionamos com veemência se porventura alguém pode entender corretamente a profecia ou sua verdadeira posição e consequências, sem enxergar o sutil intervalo ou pausa à qual nos referimos acima. Mas vamos nos voltar diretamente para a Palavra e abrir no capítulo 9 do livro de Daniel. os primeiros versículos desta notável seção nos revelam o amado servo de Deus em um profundo exercício de alma relacionado à triste condição se seu tão amado povo de Israel — uma condição na qual, através do Espírito de Cristo, ele entra com profundidade. Embora ele próprio não tivesse participado pessoalmente dessas ações que trouxeram ruína à nação, mesmo assim ele se identifica, da forma mais completa, com o povo, e toma para si os seus pecados em confissão e juízo-próprio diante de Deus. Não podemos, no momento, tentar citar toda a extraordinária oração e confissão de Daniel, mas o assunto que imediatamente nos diz respeito agora é apresentado no versículo 20. “Estando eu ainda falando e orando, e confessando o meu pecado, e o pecado do meu povo Israel, e lançando a minha súplica perante a face do Senhor, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus, estando eu, digo, ainda falando na oração, o homem Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio, voando rapidamente, e tocou-me, à hora do sacrifício da tarde. Ele me instruiu, e falou comigo, dizendo: Daniel, agora saí para fazer-te entender o sentido. No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado; considera, pois, a palavra, e entende a visão. Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniquidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo” (Dn 9:20-24). Em razão de nosso limitado espaço não poderemos entrar em algum argumento mais complexo para provar que as “setenta semanas” da passagem acima significam, na realidade, quatrocentos e noventa anos. Assumimos isto como sendo um fato. Acreditamos que Gabriel tenha sido comissionado a instruir o profeta amado e a informá-lo de que, a partir da ordem para reconstruir Jerusalém, deveria passar um período de quatrocentos e noventa anos, e então Israel seria introduzido na bênção. Isto é algo tão simples e claro quanto qualquer coisa pode ser. Podemos asseverar, com total confiança, que é menos provável que o sol nasça amanhã na hora esperada, que o povo de Daniel ser introduzido na bênção no final do período acima mencionado pelo mensageiro angelical. Trata-se de algo tão certo quanto o trono de Deus. Nada pode impedir isso. Nem todos os poderes da terra e do inferno juntos são capazes de barrar o total e perfeito cumprimento da Palavra de Deus saída da boca de Gabriel. Quando o último grão de areia do último dos quatrocentos e noventa anos deixar a ampulheta, Israel entrará na posse de toda a preeminência e glória à qual foi destinado. É impossível ler Dn 9:24 e não enxergar isto. Mas pode ser que o leitor se sinta disposto a perguntar — e a perguntar com certo espanto — “Porventura os quatrocentos e noventa anos já não passaram há muito tempo?” A resposta é que seguramente não. Se assim fosse, Israel estaria agora em sua própria terra, sob o bendito reinado de seu próprio Messias amado. As Escrituras não podem falhar e tampouco nós podemos tratar suas afirmações de maneira leviana e superficial, como se pudessem significar qualquer coisa, ou tudo, ou coisa alguma. A palavra é precisa. “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo”. Nem mais, nem menos do que setenta semanas. Se isto significar literalmente semanas, a passagem não tem qualquer sentido ou significado. Seria um insulto aos nossos leitores perder tempo combatendo um absurdo deste. Mas se Gabriel se referiu a setenta semanas de anos, como estamos totalmente persuadidos de que tenha sido o caso, então temos diante de nós um período bem distinto e definido — um período que se estende do momento em que Ciro emitiu a ordem para restaurar Jerusalém, até o momento da restauração de Jerusalém. Todavia ainda assim o leitor pode querer perguntar, “Como pode ser assim? Passou muito mais que quatrocentos e noventa anos, quatro vezes mais, desde que o rei da Pérsia emitiu sua ordem, e mesmo assim não há sinal da restauração de Israel. Certamente deve existir algum outro modo de interpretar as setenta semanas”. Nada podemos fazer além de repetir nossa afirmação, de que os quatrocentos e noventa anos ainda não se cumpriram. Houve uma pausa — um parêntese, um intervalo longo e despercebido. Que o leitor observe atentamente Dn 9:25-26: “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas [49 anos], e sessenta e duas semanas [434 anos]; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos” ou, “tempos apertados”, isto é, as ruas e o muro de Jerusalém foram construídos no menor dos dois períodos citados, ou em quarenta e nove anos. “E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para Si mesmo” ou “e não será mais”. É aqui que chegamos a essa marcante, memorável e solene época. O Messias, ao invés de ser recebido, é cortado. No lugar de sua ascensão ao trono de Davi, Ele vai para a cruz. Ao invés de entrar na posse de todas as promessas, Ele nada tem. Sua única porção — no que diz respeito a Israel e à terra — foi a cruz, o vinagre, a lança e o túmulo emprestado. O Messias foi rejeitado, cortado e nada ganhou. E agora? Deus mostrou Sua intenção suspendendo por um tempo Suas ações dispensacionais relativas a Israel. O curso do tempo é interrompido. Cria-se uma grande lacuna. Quatrocentos e oitenta e três anos se cumprem; restam sete — uma semana cancelada, e todo o tempo desde a morte do Messias passou como um intervalo não percebido — uma pausa ou parêntese, durante o qual Cristo tem estado escondido nos céus, e o Espírito Santo tem trabalhado na terra na formação do corpo de Cristo, a Igreja, a noiva celestial. Quando o último membro tiver sido incorporado a este corpo, o próprio Senhor virá e receberá o Seu povo para Si, para conduzi-lo de volta à casa do Pai, para estar ali com Ele na inefável comunhão daquele bendito lar, enquanto Deus, por meio de Suas ações governamentais, prepara Israel e a terra para a introdução do Primogênito no mundo. Quanto a este intervalo e tudo o que deveria ocorrer dentro dele, Gabriel mantém um profundo segredo. Se ele entendia ou não isso, não é esta a questão. Fica claro que ele não estava comissionado a falar sobre o assunto, mesmo porque ainda não havia chegado a hora de fazê-lo. Ele passa, com um salto misterioso e maravilhoso, sobre eras e gerações — vai de um cabo a outro da carta marítima profética, e cita em uma ou duas breves sentenças um período extenso de aproximadamente dois mil anos. A tomada de Jerusalém pelos romanos é, assim, rapidamente mencionada: “O povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário”. Então é apresentado um período que já dura dezoito séculos da seguinte maneira: “E o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações”. Então, com grande rapidez, somos conduzidos ao tempo do fim, quando a última das setenta semanas, os últimos sete anos dos quatrocentos e noventa, se cumprirão. “E ele [o Príncipe] firmará aliança com muitos [judeus] por uma semana [sete anos]; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador”. Chegamos aqui ao final dos quatrocentos e noventa anos que foram determinados ou distribuídos para o povo de Daniel. Tentar interpretar este período sem enxergar a pausa e o longo intervalo despercebido, acabará necessariamente lançando a mente em total confusão. É algo impossível de ser feito. Inúmeras teorias já foram divulgadas, especulações e cálculos sem fim foram tentados, mas tudo em vão. os quatrocentos e noventa anos ainda não se cumpriram e tampouco se cumprirão até que a Igreja tenha deixado definitivamente este cenário e subido para estar com seu Senhor em Seu brilhante lar celestial. os capítulos 4 e 5 de Apocalipse nos mostram o lugar que os santos celestiais deverão ocupar durante a última das setenta semanas de Daniel, enquanto encontramos em Ap 6-18 os vários Atos governamentais de Deus, preparando Israel e a terra para a introdução do Primogênito no mundo.* [* Estamos cientes de que existe um debate entre os expositores, se os eventos de Ap 6-18devem ocupar uma semana inteira ou apenas metade. Não tentamos oferecer aqui uma opinião. Alguns consideram que os ministérios públicos de João Batista e de nosso Senhor tenham ocupado uma semana, ou sete anos, e que em consequência da rejeição de ambos por Israel, a semana teria sido cancelada e ficado por se cumprir. Trata-se de uma questão interessante, mas que de modo algum afeta os grandes princípios que temos diante de nós ou a interpretação do livro de Apocalipse. Podemos acrescentar que as expressões “quarenta e dois meses” — “mil duzentos e sessenta dias” — “um tempo, e tempos, e a metade de um tempo” indicam o período de meia semana ou três anos e meio.] Queremos muito esclarecer estas questões para o leitor. Elas nos têm ajudado muito no entendimento da profecia e eliminaram várias dificuldades. Estamos plenamente convencidos de que ninguém pode entender o livro de Daniel, ou mesmo o escopo geral da profecia, se não enxergar que a última das setenta semanas ainda está para ser cumprida. Nem mesmo um jota ou til da Palavra de Deus pode jamais passar, e considerando que Ele declarou que “setenta semanas estão determinadas sobre” o povo de Daniel, e que no final desse período ele será introduzido na bênção, fica claro que o período ainda não se cumpriu. Mas a menos que enxerguemos o intervalo, e a suspensão na contagem do tempo em função da rejeição do Messias, não há como decifrar o cumprimento das setenta semanas de Daniel, ou dos quatrocentos e noventa anos. Outro fato importante para o leitor ter em mente é este: a Igreja não tem qualquer parte nos procedimentos de Deus para com Israel e a terra. A Igreja não pertence ao tempo, mas à eternidade. Ela não é terrena, mas celestial. Ela é chamada à existência durante um intervalo não registrado — um intervalo ou parêntese resultante do Messias ter sido cortado. Humanamente falando, se Israel tivesse recebido o Messias, então as setenta semanas ou quatrocentos e noventa anos teriam se cumprido. Mas Israel rejeitou seu Rei, e Deus O chamou à Sua presença até que o povo reconheça sua iniquidade. Deus suspendeu seus procedimentos públicos para com Israel e a terra, apesar de estar certamente controlando todas as coisas por Sua providência, e mantendo Seu olhar sobre a semente de Abraão, sempre amada por causa do patriarca. Enquanto isso Ele está tirando dentre judeus e gentios esse corpo chamado Igreja, para ser uma companhia para Seu Filho na glória celestial — para estar totalmente identificada com Ele em Sua atual rejeição neste mundo, e para aguardar em santa paciência por Seu glorioso advento. Tudo isso distingue a posição do cristão da forma mais clara possível. Sua porção e expectativas são também definidas com igual clareza. De nada adianta procurar na página profética pela posição da Igreja, sua vocação e esperança. Não está ali. É algo completamente fora de propósito para o cristão ficar ocupado com datas e eventos históricos, como se estas coisas lhe dissessem respeito. Não há dúvida de que todas estas coisas têm seu lugar, seu valor e seu interesse, quando conectadas aos desígnios de Deus para com Israel e a terra. Mas o cristão não deve jamais perder de vista o fato de pertencer ao céu, de estar inseparavelmente ligado a um Cristo que foi rejeitado na terra e aceito no céu, que sua vida está oculta com Cristo em Deus e que é seu santo privilégio aguardar, dia a dia, hora a hora, pela vinda de seu Senhor. Nada deve ofuscar a compreensão dessa bendita esperança por um momento sequer. Nada, senão uma só coisa, pode causar seu atraso, e esta é a paciência de nosso Senhor, que não deseja que alguém pereça, mas que todos venham a arrepender-se — preciosas palavras estas para um mundo culpado e perdido! A salvação está pronta para ser revelada, e Deus está pronto para julgar. Nada há para se esperar além da reunião do último eleito e então — oh! pensamento bendito! — nosso querido e amável Salvador virá e nos receberá para Si, para estarmos com Ele onde Ele está, e para jamais sairmos de Sua presença. Então, quando a Igreja partir para estar com seu Senhor no lar celestial, Deus voltará a agir publicamente com Israel. O povo será levado a uma grande tribulação durante a semana à qual já nos referimos. Mas no final daquele período de inigualável pressão e sofrimento, seu Messias há tanto rejeitado aparecerá para seu alívio e libertação. Ele virá como o cavaleiro montado no cavalo branco, acompanhado pelos santos celestiais. Ele executará um julgamento sumário sobre Seus inimigos, e tomará para Si Seu grande reino e poderio. os reinos do mundo se tornarão reinos de nosso Senhor e de Seu Cristo. Satanás será preso por mil anos e todo o universo repousará sob o bendito e benevolente governo do Príncipe da paz. Finalmente, ao término dos mil anos, Satanás será solto e terá permissão para fazer mais um desesperado esforço — um esforço que terminará com sua derrota e confinamento eterno no lago de fogo, para ser ali atormentado juntamente com a besta e o falso profeta por toda a eternidade. Em seguida vem a ressurreição e o juízo dos ímpios que morreram, quando serão lançados no lago que queima com fogo e enxofre — terrível e tremendo pensamento este! Coração algum jamais será capaz de conceber — língua alguma será capaz de contar — os horrores daquele lago de fogo. Mas mal temos tempo para tratar dessa imagem horrível e sinistra e eis que diante da visão da alma surgem as indizíveis glórias dos novos céus e da nova terra: a santa cidade é vista descendo do céu, e sons angelicais enchem os ouvidos, “Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o Seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o Seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas”. Oh, amado leitor cristão, que cenas temos diante de nós! Que imensas realidades! Que fulgurantes glórias morais! Possamos nós viver na luz e poder dessas coisas! Possamos acalentar essa bendita esperança de ver Aquele que nos amou e Se entregou a Si mesmo por nós — que não gostaria de desfrutar de Sua glória sozinho, mas suportou a ira de Deus para poder nos ligar Consigo e compartilhar conosco todo o Seu amor e glória para todo o sempre. Oh! viver por Cristo e aguardar por Sua vinda! Nas alturas do céu, lá na casa do Pai, Ele foi preparar-me lugar Grato de tanto amor, de minha boca hoje sai, Meu louvor e um canto sem par. Muito em breve estarei lá, de branco, na luz, Onde as trevas jamais vão entrar, Com meus olhos verei o meu terno Jesus, E Suas marcas de amor, contemplar. Findo todo o pesar e o pecado cruel, Livre, então, para sempre do mal, Pela graça de Deus, na mansão lá no céu, Viverei esse dia eternal.

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