A HISTÓRIA DA IGREJA

Prefácio

Como tudo o que sabemos da história chega a nós por meio de livros, eu examinei, com muito cuidado, os autores mais conceituados, considerando-os confiáveis. E apesar de haver frequentes referências ao volume e à página, isto de modo algum indica tudo o que foi reunido a partir dessas histórias. Seria impossível dizer quantos pensamentos, palavras e sentenças se entrelaçam com os meus próprios. As referências foram, geralmente, dadas, nem tanto para permitir a verificação do que foi escrito, mas também para induzir o leitor a estudá-las. O material é tão variado e abundante que a dificuldade consistiu em fazer a seleção, assim como manter uma linha de continuidade histórica, e ainda deixar de fora o que, no momento, não seria proveitoso nem interessante.

Alguns dos meus mais antigos e estimados amigos, tais como Greenwood, Milman e Graigie Robertson, concluíram seus relatos por volta do século XIV; Waddington, D’Aubigne e Scott, por volta do século XVI; e Wylie fecha sua história do Protestantismo com seu estabelecimento sob o reinado de William e Mary. As histórias e biografias especiais do Dr M’Crie são, também, extremamente valiosas; e assim também é a história do Protestantismo na França por Felice, a história da Reforma nos Países Baixos por Brandt, a breve história da Idade Média e Reforma por Hardwick, e também o relato de Cunningham sobre a Igreja da Escócia; no entanto, bons relatos gerais sobre os acontecimentos do começo do século XVI até o século presente1, são realmente escassos.

Eu tenho em vista, neste livro, mais do que a mera história. Tem sido meu desejo conectá-la a Cristo e Sua Palavra, de modo que o leitor possa receber a verdade e a bênção, por meio da graça, à sua alma. O leitor deverá observar que o livro começa com o propósito revelado pelo Senhor referente à Sua Igreja, em Mateus 16. Outras partes do Novo Testamento referentes ao alvorecer da Igreja foram cuidadosamente examinadas, mas me foquei no traçar de sua real história à luz das sete cartas às Igrejas da Ásia. Isto, é claro, de uma forma muito geral, uma vez que meu desejo é dar ao leitor a visão mais ampla da história eclesiástica quanto possível, de forma consistente com meu plano e brevidade.

Que as bênçãos do Senhor possam acompanhar o volume que agora é lançado.


N. do T.: século XIX, quando foi escrito este livro↩

Introdução

Muitos de nossos leitores, como sabemos, não têm disponibilidade de tempo nem a oportunidade de ler as volumosas obras que foram escritas ao longo do tempo sobre a história da igreja. Ainda assim, aquela que tem sido a morada de Deus nos últimos 2000 anos deve ser objeto do mais profundo interesse de Seus filhos. Não estamos falando, aqui, da igreja como é geralmente representada na história, mas de como ela é definida nas Escrituras. Ali, ela é vista em seu verdadeiro caráter espiritual, como o corpo de Cristo, e como a “morada de Deus em Espírito” (Efésios 2).

Devemos sempre ter em mente, ao ler tudo o que é relacionado à história da igreja, que, dos dias dos apóstolos até os dias de hoje, sempre existiram duas classes distintas e amplamente diferentes na igreja professa: os meramente nominais, e os reais – os verdadeiros e os falsos. Isto havia sido predito. “Porque eu sei isto”, disse o apóstolo, “que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho. E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si.” (Atos 20:29-30). Sua Segunda Epístola a Timóteo é também cheia de alertas e direções referentes às várias formas de mal que foram, então, claramente manifestas. Uma rápida mudança para pior tomou conta desde a vez que sua primeira epístola tinha sido escrita. Ele exorta aos verdadeiros crentes para andar em separação daqueles que tinham aparência de piedade, mas que negavam a eficácia dela. “Destes”, diz ele, “afasta-te”. Tais exortações são sempre necessárias, sempre aplicáveis – tanto hoje quanto antes. Não podemos nos separar da Cristandade professa sem deixarmos de lado o Cristianismo; mas podemos e devemos nos separar do que o apóstolo chama de “vasos para desonra”. A promessa é que, “se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra.” (2 Timóteo 2:21).

É interessante – apesar de também doloroso – destacar a diferença, neste ponto, entre a Primeira e a Segunda Epístola a Timóteo. Na primeira, é falado da igreja de acordo com seu verdadeiro caráter e com sua bendita posição na Terra. Lá ela é vista como a casa de Deus – a coluna e a firmeza da verdade para o homem. A Segunda Epístola mostra o que ela se tornou graças às falhas daqueles em cujas mãos ela foi confiada.

Vamos tomar uma passagem de cada Epístola como ilustração: (1) “Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te bem depressa. Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade.” (1 Timóteo 3:14-15) (2) “Numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra.” (2 Timóteo 2:20). Aqui tudo mudou – infelizmente mudou. No lugar da ordem divina há uma incorrigível confusão; no lugar da “casa de Deus, a coluna e firmeza da verdade”, há uma “grande casa” – praticamente “o mistério da iniquidade”. Em vez da casa ser mantida de acordo com a vontade de Deus, e adequada a Ele, ela é organizada e ordenada de acordo com a vontade do homem, e para sua própria vantagem e exaltação pessoal. Assim, sem muita demora, o mal, que tem sido o pecado e a desgraça da Cristandade até então, fez suas primeiras aparições. Mas isto é posto de lado quando o Espírito de Deus, em grande misericórdia, nos fornece as mais claras direções para o dia mais sombrio da história da igreja, indicando o caminho da verdade para os piores tempos; deste modo, ficamos sem desculpas. Os tempos e circunstâncias mudam, mas nunca a verdade de Deus.

Os Erros dos Historiadores em Geral

Alguns historiadores, infelizmente, não levaram em consideração esta triste mistura dos vasos bons e ruins – dos verdadeiros e falsos cristãos. Eles mesmos não eram homens com mentes espirituais. Portanto fizeram, e ainda fazem, de seu objetivo principal, registrar os vários caminhos anticristãos e perversos dos meros professos. Eles se delongam minuciosamente nas heresias que perturbaram a igreja, nos abusos que a desgraçaram, e nas controvérsias que a distraíram. Nós, pelo contrário, nos esforçaremos para perscrutar pelas longas páginas escuras da história em busca da linha prateada da graça de Deus nos verdadeiros cristãos, embora muitas vezes a liga seja tão predominante que o minério puro é quase imperceptível.

Deus nunca deixou a Si mesmo sem um testemunho. Ele sempre manteve Seus amados e queridos, mesmo que ocultos, em todas as eras e em todos os lugares. Nenhum olho a não ser o dEle poderia enxergar os sete mil em Israel que não tinham se curvado à imagem de Baal, nos dias de Acabe e Jezabel. E não há dúvida que dezenas de milhares, mesmo nas épocas mais sombrias do Cristianismo, serão encontrados, afinal, na “gloriosa igreja”, que Cristo apresentará a Si mesmo, no tão esperado dia de Sua alegria nupcial. Muitas pedras preciosas encontradas em meio ao lixo da “idade média” refletirão Sua graça e glória naquele dia sem par.

Que bendito pensamento! Mesmo agora enche a alma de júbilo e deleite. Senhor, apresse aquele dia tão feliz por amor de Teu próprio nome!

Diferente de muitos falsos, os verdadeiros crentes são humildes por instinto. Eles são geralmente reservados, e a maioria são pouco conhecidos. Não há humilhação tão profunda e real como aquela que o conhecimento da graça produz. Tais pessoas modestas e ocultas encontram pouco espaço nas páginas históricas. Mas o convincente e zeloso herege, e o barulhento e visionário fanático, são barulhentos demais para escapar à vista. Por isso, também, que os historiadores vêm recordando tão cuidadosamente os tolos e insensatos princípios e as más práticas de tais homens.

Vamos agora mudar um pouco de assunto, e tomar uma visão geral da primeira parte de nosso assunto: as sete cartas às igrejas da Ásia.

As Sete Igrejas da Ásia

Estas sete cartas às igrejas das Ásia servirão de base para nossos futuros estudos. Cremos que elas não sejam apenas históricas, mas também proféticas. Sem dúvida, elas são terminantemente históricas, e este fato deve pesar no que diz respeito ao estudo de seu caráter profético. As sete igrejas realmente existiram nas sete cidades aqui citadas, e nas condições aqui descritas. Porém, é igualmente claro que elas foram destinadas, por aquEle que sabe tudo do início ao fim, a ter um significado profético, assim como sua aplicação histórica. Estas igrejas locais foram selecionados em meio a muitas, e assim dispostas e descritas de modo a prenunciar o que havia de vir. Limitar sua aplicação apenas às sete igrejas literais que se encontravam na Ásia seria estragar a unidade do livro de Apocalipse, e perder de vista as bênçãos prometidas. “Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia” (Apocalipse 1:3). O caráter de todo o livro é profético e simbólico. O segundo e o terceiro capítulo não são exceções. Eles são introduzidos pelo próprio Senhor em seu caráter místico: “O mistério das sete estrelas, que viste na minha destra, e dos sete castiçais de ouro. As sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete castiçais, que viste, são as sete igrejas.” (Apocalipse 1:20)

O número sete é característico. Ele marca um círculo completo dos pensamentos e modos de Deus quanto ao tempo. Daí vêm os sete dias da semana, as sete festas de Israel e as sete parábolas do reino dos céus em mistério. Este número é frequentemente usado no decorrer do livro de Apocalipse ao tratar de judeus, gentios e a igreja de Deus como responsáveis diante de Deus sobre a Terra. Por isso vemos sete igrejas, sete estrelas, sete castiçais, sete anjos, sete selos, sete trombetas, sete taças e as sete últimas pragas. Apenas nos capítulos 2 e 3 vemos a igreja como responsável diante de Deus sobre a Terra, e como objeto do governo divino. Noscapítulos 4-19 a igreja está no Céu1. Então ela aparece novamente em plena glória manifesta com seu Senhor apenas no capítulo 19: “E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro.” (Apocalipse 19:14). 2

No corpo do livro, especialmente a partir do capítulo 6, é feita menção a judeus e gentios, que são tratados judicialmente a partir do trono de Deus no Céu. Porém isto não acontecerá até que a igreja – a verdadeira noiva do Cordeiro – seja arrebatada para o Céu, e as coisas meramente nominais e corruptas sejam finalmente rejeitadas.

Esta divisão do livro em três partes, vinda do próprio Senhor, torna a ordem dos eventos bastante clara, e deve ter um imenso peso como princípio de interpretação no estudo de Apocalipse. No capítulo 1:19 Ele nos fala do conteúdo e plano do livro inteiro: “Escreve as coisas que tens visto, e as que são, e as que depois destas hão de acontecer”. “As coisas que tens visto” se referem à revelação de Jesus como vistas por João no capítulo 1; “as coisas que são”, como a condição presente do corpo professante como apresentado nos capítulos 2 e 3. “As coisas que depois destas hão de acontecer” são referentes ao capítulo 4 em diante. A terceira divisão começa no capítulo 4. Uma porta no Céu é aberta, e o profeta é chamado para subir até lá. “Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer.” É a mesma frase encontrada no capítulo 1:19. As coisas que são, e as coisas que devem acontecer depois destas, não poderiam, de maneira alguma, acontecerem ao mesmo tempo. Uma deve terminar antes que a outra comece.

Quando o número sete é usado, não em sentido literal, mas simbolicamente, sempre tem o significado de completude. É evidente, portanto, que seja utilizado nos capítulos 2 e 3. Como sabemos, havia outras igrejas além daquelas mencionadas, mas sete são selecionadas e associadas a fim de apresentar um quadro completo do que se desenvolveria posteriormente na história da igreja sobre a Terra. Os mais importantes elementos morais que existiam naquelas igrejas naquele momento, o Senhor previu que reapareceriam no decorrer do tempo. Assim temos uma figura sete vezes perfeita – isto é, divinamente perfeita – dos sucessivos estados pela qual passaria a igreja professa durante todo o período de sua responsabilidade sobre a Terra.

Vamos agora resumir rapidamente o que é apresentado sobre essas sete igrejas, e dar uma ideia geral dos diferentes períodos da história aos quais elas se aplicam.

Um Resumo das Sete Igrejas

Éfeso: Em Éfeso o Senhor detecta a raiz de todo o declínio. “Deixaste teu primeiro amor”. Ela é ameaçada a ter seu castiçal removido a menos que se arrependa. Período: da era apostólica até o final do segundo século.

Esmirna: A mensagem a Éfeso é geral, mas para Esmirna é específica. E, apesar de aplicada àquela assembleia naquele tempo, ela prefigura, de forma muito marcante, as repetidas perseguições pela qual a igreja passou sob os imperadores pagãos. No entanto, Deus pode ter usado o poder do mundo para deter o progresso do mal dentro da igreja. Período: do segundo século até Constantino.

Pérgamo: Aqui temos o estabelecimento do Cristianismo por Constantino como a religião do Estado. Em vez de perseguir os cristãos, ele os patrocina. A partir daí a queda da igreja avança rapidamente. Sua aliança profana com o mundo resultou em sua mais triste e profunda queda. Foi então que ela perdeu o verdadeiro sentido de sua relação com Cristo no Céu, e de seu caráter como peregrina e estrangeira na Terra. Período: do começo do quarto século até o sétimo século, quando o papado foi estabelecido3.

Tiatira: Em Tiatira vemos o papado da idade média, em semelhança à Jezabel, praticando todo o tipo de maldade, e perseguindo os santos de Deus, sob o disfarce de zelo religioso. No entanto, havia um remanescente temente a Deus em Tiatira, a quem o Senhor conforta com a brilhante esperança de Sua vinda, e com a promessa de poder sobre as ações, quando o próprio Senhor reinará. Mas a palavra de exortação ao remanescente é: “Mas o que tendes, retende-o até que eu venha” (Apocalipse 2:25). Período: do estabelecimento do papado até a vinda do Senhor. Este período vai até o fim, mas é caracterizado pela idade das trevas (idade média).

Sardes: Aqui vemos a parte Protestante da Cristandade que surgiu após a grande Reforma. As características falhas do papado desaparecem, mas o novo sistema não tem vida em si mesmo. “Tens nome de que vives, e estás morto” (Apocalipse 3:1). Mas há, ainda, verdadeiros santos dentro desses sistemas sem vida, e Cristo conhece a todos. “Mas também tens em Sardes algumas pessoas que não contaminaram suas vestes, e comigo andarão de branco; porquanto são dignas disso” (Apocalipse 3:4). Período: do século XVI até hoje. Período marcado pelo início do Protestantismo após a Reforma.

Filadélfia: A igreja da Filadélfia apresenta um remanescente fraco, porém fiel à palavra e ao nome do Senhor Jesus. O que os caracterizava era o fato de guardarem a palavra da paciência de Cristo, e de não negarem Seu nome. A condição deles não era marcada por qualquer exibição de poder, nem de coisa alguma grande externamente, mas de uma próxima, íntima e pessoal comunhão com o Senhor. Ele está no meio deles como o Santo e o Verdadeiro, e é representado como sendo o dono da casa. Ele possui “a chave de Davi”. Os tesouros da palavra profética estão disponíveis para aqueles que estão dentro. Eles estão também desfrutando de Sua paciência, e na expectativa de Sua vinda. “Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na terra.” Período: especialmente a partir da primeira parte do século XIX.

Laodiceia: Em Laodiceia temos mornidão – indiferença, latitudinarismo4 ou ecumenismo – mas com altas pretensões, um espírito arrogante, e grande auto-suficiência. Este é o último estado daquela que leva o nome de Cristo sobre a Terra. Mas, que lástima! Isso é intolerável para Ele. Sua condenação final é chegada. Tendo separado, para Si mesmo, cada verdadeiro crente das corrupções da Cristantade, o Senhor os vomita de Sua boca. Aquilo que deveria ter sido doce a Seu paladar se tornou enjoativo, e é lançado fora para sempre. Período: começando quase em paralelo ao período de Filadélfia, mas especialmente próximo à cena final. Está ativa no período em que vivemos agora.

Tendo assim tomado uma visão geral das sete igrejas, devemos agora nos esforçar, com a ajuda do Senhor, a traçar brevemente estes diferentes períodos da história da igreja. Nosso propósito é examinar mais detalhadamente cada uma das sete epístolas enquanto avançamos com nosso estudo para que possamos verificar, à luz da Palavra, os diferentes períodos por elas referidos, e o quanto os fatos da história da igreja ilustram a história apresentada nas Escrituras nesses dois capítulos. Que o Senhor possa nos guiar, para o refrigério e bênção de Seus queridos.


Portanto não sendo mencionada nesses capítulos↩

N. do T.: E aparece no mesmo capítulo também como a esposa já pronta para o casamento: “Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou.” (Apocalipse 19:7)↩

O título “Papa” foi primeiramente adotado por Higino no ano de 139, e o Papa Bonifácio III induziu Focas, Imperador do Leste, a concedê-lo ao prelado de Roma em 606. Ainda com a conivência de Focas, a supremacia do papa sobre a igreja cristã foi estabelecida – Dicionário de Dados de Haydn)↩

N. do T.: latitudinarismo é uma seita inglesa que sustenta a máxima tolerância religiosa e a doutrina de que todos os homens se salvarão. Similar ao universalismo↩

Verdades Fundamentais

A Pedra do Fundamento

Ao iniciar o estudo de qualquer assunto, é bom que se conheça seus princípios – a intenção ou plano original, e o primeiro passo em sua história. Temos tais princípios da maneira mais clara e completa, em relação à igreja, nas Sagradas Escrituras. Lá temos, não somente a intenção original, mas os planos e especificações do grande Construtor, e o início da história do trabalho de Suas próprias mãos. O fundamento foi colocado, e o trabalho estava em andamento, mas o próprio Senhor era ainda o único Construtor: portanto, a este tempo, tudo era real e perfeito.

No final da dispensação dos judeus, o Senhor acrescentou o remanescente salvo de Israel à recém-formada igreja. No entanto, no final da presente dispensação – a dispensação da graça, ou dos cristãos – Ele levará todos os que creem em Seu nome para o Céu em corpos glorificados. Nenhum dos que pertencem à igreja serão agregados à congregação dos santos do milênio. “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor.” (1 Tessalonicenses 4:16-17). Este será o feliz fechamento da história da igreja na Terra – a verdadeira esposa de Cristo: os mortos ressuscitarão, os vivos serão transformados, e todos, em corpos glorificados, arrebatados juntamente nas nuvens para se encontrarem com o Senhor nos ares. Assim temos todo o limite da igreja definido, e todo o período de sua história diante de nós. Retornemos, porém, ao alvorecer de seu dia na Terra.

Sob a figura de um edifício, o Senhor introduz, pela primeira vez, o assunto acerca da igreja. E tão infinitamente precisas são Suas palavras, que podemos adotá-las como o texto, ou lema, de toda sua história. Elas têm sustentado os corações e esperanças de Seu povo em todas as eras, e em todas as circunstâncias, e serão sempre o baluarte da fé. O que pode ser mais bendito, mais tranquilizador, mais apascentador, que estas palavras? “SOBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI A MINHA IGREJA, E AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO CONTRA ELA.”

Em Mateus 16, o Senhor questiona Seus discípulos acerca do que andavam dizendo os homens sobre Ele. Isto leva à confissão de Pedro, e também à graciosa revelação do Senhor referente à Sua igreja. Pode ser interessante transcrever toda a conversa para nossas páginas, pois nos leva diretamente ao nosso assunto.

“E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mateus 16:13-18)

Aqui temos as duas principais coisas que estão conectadas ao edifício proposto – a Pedra do Fundamento1 e o divino Construtor. “Sobre esta pedra edificarei a Minha igreja”. “Mas, quem é, ou o que é, ’a pedra’?”, alguns poderiam questionar. Claramente, a resposta é: a confissão de Pedro; não o próprio Pedro, como ensina a apostasia. Verdadeiramente, ele era uma pedra – uma pedra viva no novo templo; “Tu és Pedro” – tu és uma pedra. Mas a revelação do Pai, por Pedro, da glória da Pessoa de Seu Filho, é o fundamento sobre a qual a igreja é edificada – “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A glória e a Pessoa do Filho ressurreto é a verdade revelada aqui. “To não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus”. Imediatamente após a confissão de Pedro, o Senhor dá a entender Sua intenção em edificar Sua igreja, e afirma sua segurança eterna. “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”

Ele mesmo, a fonte da vida, não podia ser vencido pela morte. Mas, ao morrer como o grande Substituto pelos pecadores, Ele triunfou sobre a morte e a sepultura, e está vivo para sempre, como disse ao apóstolo João após Sua ressurreição: “E [sou] o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno.” (Apocalipse 1:18). Quão majestosas e triunfantes são estas palavras! São palavras de um conquistador – de Alguém que tem poder, mas um poder sobre as portas do hades – o lugar dos espíritos separados de seus corpos. As chaves – símbolo de autoridade e poder – estão penduradas em Seu cinto. O golpe da morte pode cair sobre um cristão, mas o aguilhão dela se foi. Ela, agora, vem como uma mensageira de paz para conduzir o cansado peregrino para o descanso eterno da casa celestial. A morte não é mais mestre, mas sim serva do cristão. “Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso; seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro; tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus” (1 Coríntios 3:21-23)

A Pessoa de Cristo, então, o Filho do Deus vivo – em Sua ressurreição e glória – é o fundamento, o sólido e imperecível fundamento, sobre a qual a igreja é edificada. Como vivo dentre os mortos, Ele comunica vida em ressurreição a todos que são edificados nEle como a verdadeira pedra do fundamento. Pedro deixa isto claro em sua primeira Epístola: “E, chegando-vos para ele, pedra viva… sois vós também quais pedras vivas, edificados como casa espiritual” (1 Pedro 2:4-5). E mais adiante, no mesmo capítulo ele diz: “E assim para vós, os que credes, é preciosa”, ou “uma honra”, em outras versões (1 Pedro 2:7). Que possamos entender essas duas preciosas verdades em conexão com nossa “Pedra do Fundamento” – a vida divina e a preciosidade divina. Ambas são dadas e se tornam posse de todos os que colocam sua confiança em Cristo. “Chegando-vos a Ele”, não a qualquer outra coisa; é à Pessoa de Cristo que devemos ir, e com a qual devemos estar ligados. Sua vida – vida em ressurreição – se torna nossa. A partir desse momento, Ele é nossa vida. “Chegando-vos para ele, pedra viva… sois vós também quais pedras vivas, edificados como casa espiritual”. A própria vida de Cristo, como o Homem ressuscitado, e tudo o que é Sua herança é também nossa. Oh, que surpreendente, maravilhosa e bendita verdade! Quem não desejaria, acima de todas as coisas, essa vida, e essa vida além do poder da morte – além das portas do hades? Uma vitória eterna está gravada na vida ressurreta de Cristo, que não pode nunca mais ser testada; esta é a vida do crente.

Porém, há mais que vida para cada pedra viva no templo espiritual. Há também a preciosidade de Cristo. “E assim para vós, os que credes, é preciosa”. Portanto, do mesmo modo como a vida de Cristo se torna nossa quando cremos nEle, assim também é Sua preciosidade. O princípio é o mesmo para ambos. A vida pode ser vista como nossa capacidade de desfrutar, e a preciosidade, como nosso título de possessão e herança nas alturas. Suas honras, tútilos, dignidades, privilégios, possessões, glórias, são nossas – tudo é nosso nEle. “Para aqueles que creem Ele é a preciosidade”. Que pensamento maravilhoso! “Ele amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:25). Tal é nossa Pedra do Fundamento, e tal a bem-aventurança de todos os que estão sobre a Rocha. Assim como Jacó, sendo peregrino e estrangeiro, descansou sobre a pedra no deserto, e todo o panorama das riquezas celestiais em graça e glória passaram diante dele (Gênesis 28).

Cristo, O Único Construtor de Sua Igreja

Cristo, porém, é também o Construtor de Sua igreja. O edifício contra o qual nenhuma artimanha ou poder do inimigo poderia jamais prevalecer é a própria obra de Cristo, embora muitas vezes lemos sobre outros edificadores que participaram dela. “Sobre esta pedra edificarei a Minha igreja”. É bom ser claro nesse ponto para que não confundamos o que o homem edifica com o que Cristo edifica. Isto pode trazer uma imensa confusão para a mente, tanto em relação à verdade de Deus quanto ao presente estado da Cristandade, a menos que a distinção entre elas seja claramente entendida. Não há a nada mais importante do que notar que aqui é Cristo o único Construtor de Sua igreja, apesar de Paulo, Apolo e todos os verdadeiros evangelistas terem sido pregadores que levaram pecadores a crer. A obra do Senhor nas almas dos crentes é perfeita. É uma obra real, espiritual e pessoal. Por meio de Sua graça em seus corações eles vão até Ele, como a uma pedra viva, e são edificados sobre Ele que está ressurreto dentre os mortos. Eles provaram que o Senhor é gracioso. Assim são as pedras vivas com as quais o Senhor edifica Seu templo santo, e as portas do inferno nunca poderão prevalecer contra isto. Assim, o próprio Pedro, e todos os apóstolos, e todos os crentes são edificados como uma casa espiritual. Quando Pedro fala desse edifício em sua primeira epístola, ele não diz nada sobre ele mesmo ser um construtor. Aqui Cristo é o Construtor. É a obra dEle, e dEle somente. “Edificarei a Minha igreja”, disse Ele.

Vejamos agora, a partir da Palavra de Deus, o que o homem edifica, que materiais usa, e o modo como trabalha. Em 1 Coríntios 3 e 2 Timóteo 2 temos isto diante de nós. “Uma grande casa” é levantada pela instrumentalidade humana: que, de certo modo, é também a igreja, e a casa de Deus, como lemos em 1 Timóteo 3:15 da “casa de Deus, a igreja do Deus vivo”. É também chamada de casa de Cristo em Hebreus 3, “a qual casa somos nós”. Mas a casa em breve se tornou tristemente corrompida pela fraqueza e maldade humana. A autoridade da Palavra de Deus foi deixada de lado por muitos, e a vontade do homem se tornou de máxima importância. O efeito da filosofia humana nas simples instituições de Cristo foi rápida e dolorosamente manifesta. Porém madeira, feno e palha nunca poderiam ser “bem ajustados” com o ouro, a prata e as pedras preciosas. A casa se tornou grandiosa no mundo, assim como a árvore de mostarda, em cujos galhos se encontra uma inconveniente morada para toda “ave imunda e odiável”. A conexão com a “grande casa” dá ao homem um status no mundo, muito diferente do Mestre, que foi desprezado e rejeitado. O arquebispo está ao lado da realeza. Mas a igreja professa não é apenas exteriormente grande, sendo ainda mais pretensiosa ao tentar colocar o selo de Deus sobre sua própria obra ímpia. Essa é sua maior perversidade, e a fonte de sua cegueira, confusão e mundanismo.

Paulo, como um homem escolhido pelo Senhor para Sua obra, lançou os alicerces do “edifício de Deus” em Corinto, e outros edificaram sobre ele. Mas nem todos edificaram com material divino. O fundamento correto estava posto, e cada um deveria ver como edificava sobre ele. Em conexão com o verdadeiro fundamento, alguns podiam edificar com ouro, prata e pedras preciosas, e outros com madeira, feno e palha. Isto é, alguns podiam ensinar a sã doutrina e procurar por uma fé viva em todos os que desejassem entrar em comunhão, e outros podiam ensinar doutrinas erradas e receber à comunhão da igreja pessoas nas quais não havia fé verdadeira, mas sim a mera observância externa de ordenanças. Aqui a instrumentalidade, responsabilidade e falha do homem entram. No entanto, o próprio edificador pode ser salvo pela fé em Cristo, todavia sua obra é destruída.

Mas há ainda uma outra e pior classe de edificadores, que corrompe o templo do Senhor, e são eles mesmos destruídos. Citamos aqui, para a conveniência do leitor, a passagem integral. Nada poderia ser mais claro. “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo… Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá.” (1 Coríntios 3:10-17)

Podemos ainda observar nas palavras do Senhor, “sobre esta pedra edificarei a Minha igreja”, que Ele não havia começado a construir ainda: Ele está dizendo aos discípulos o que Ele ainda iria fazer. Ele não diz que já a edificou, ou que a está edificando, mas que irá edificá-la. Isto ele começou a fazer no dia de Pentecostes.

Mas há uma outra verdade ainda mais intimamente conectada com a história da igreja, e ligada à sua condição e caráter na Terra, que devemos observar antes de darmos prosseguimento à sua real história. Referimo-nos à verdade contida na expressão: “As chaves do reino dos céus”.

As Chaves do Reino dos Céus

Isso nos leva à já mencionada “grande casa” da profissão de fé cristã meramente externa. No entanto, devemos ter em mente que, apesar de intimamente conectados, o reino dos céus e a grande casa referem-se a coisas um tanto distintas. O mundo pertence ao Rei. “O campo é o mundo”. Seus servos devem ir a semear. Como resultado, temos “uma grande casa”, ou Cristandade. 2

Porém, quando tudo aquilo que é meramente nominal na Cristandade for varrido pelo juízo de Deus, o reino será estabelecido em poder e glória. Esse será o milênio.

Enquanto ainda falava com Pedro sobre a igreja, o Senhor acrescentou: “E eu te darei as chaves do reino dos céus”. A igreja sendo construída por Cristo, e o reino dos céus sendo aberto por Pedro, são coisas muito diferentes. É um dos grandes porém comuns erros da Cristandade usar os termos como sinônimos, como se significassem a mesma coisa. Escritores teológicos de todas as eras, ao assumir que eles são iguais, escreveram sobre a igreja e o reino da maneira mais confusa possível. A menos que tenhamos algum conhecimento dos modos dispensacionais de Deus, não poderíamos jamais manejar, ou dividir, bem Sua palavra (2 Timóteo 2:15). Não podemos confundir aquilo que o próprio Cristo edifica com aquilo que o homem edifica instrumentalmente, por meio de coisas como pregação e batismo. A igreja que é o corpo de Cristo é edificada sobre a confissão de que Ele é o Filho do Deus vivo, glorificado em ressurreição. Cada verdadeira alma convertida deve tratar com o próprio Cristo antes de ter algo a falar à igreja. O reino é algo muito mais amplo, e se aplica a cada pessoa batizada – isto é, todo o cenário da profissão cristã, seja ela verdadeira ou falsa.

Cristo não diz a Pedro que lhe daria as chaves da igreja ou as chaves dos céus. Se o tivesse feito, poderia realmente haver algum motivo para o sistema maligno do papado. Mas Ele simplesmente diz: “Te darei as chaves do reino dos céus” – isto é, de uma nova dispensação. Chaves, como já foi dito, não servem para construir templos, mas para abrirem portas, e o Senhor concedeu a Pedro a honra de abrir a porta do reino, primeiramente aos judeus (Atos 2), e depois aos gentios (Atos 10). Mas a linguagem que Cristo utiliza ao falar de Sua igreja é de uma outra ordem. É simples, bonita, enfática e inconfundível. “Minha igreja”. Que profundidade, que plenitude há nessas palavras. “Minha igreja”! Quando o coração encontra-se em comunhão com Cristo em relação à Sua igreja, existe uma compreensão de Suas afeições que palavras não têm o poder de expressar. Mas assim como são, gostamos de ponderar nestas duas palavras, “Minha igreja!”, mas quem pode falar do quanto do coração de Cristo que está aí revelada? Novamente, pense nessas outras duas palavras: “Esta pedra”, como se Ele tivesse dito: “A glória da Minha Pessoa, e o poder da Minha vida em ressurreição formam o sólido fundamento da ’Minha igreja”’. E de novo: “Eu a edificarei”. Vemos, assim, nessas sete palavras, que tudo está nas próprias mãos de Cristo, pois Ele é a “cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.” (Efésios 1:23)

A Abertura do Reino dos Céus

O Senhor, de maneira especial, concedeu a Pedro a administração do reino, como vemos nos primeiros capítulos de Atos O termo é tirado do Antigo Testamento (veja Daniel 2 e 7). No capítulo 2, temos o reino; no capítulo 7, temos o Rei. A frase “reino dos céus” aparece apenas no Evangelho de Mateus, no qual o evangelista escreve principalmente para Israel.

A vinda do reino dos céus em poder e glória à Terra, na Pessoa do Messias, era a natural expectativa de todo judeu fiel. João Batista, como precursor do Senhor, apareceu pregando que o reino dos céus estava próximo. Mas, em vez de receberem o Messias, os judeus O rejeitaram e crucificaram. Consequentemente, o reino, de acordo com as expectativas judaicas, foi deixado de lado. No entanto, ele foi introduzido de uma outra forma. Quando o rejeitado Messias ascendeu ao Céu, e tomou Seu lugar à direita de Deus, triunfante sobre todos os inimigos, o reino dos céus começou. Agora o rei está no Céu, e como Daniel diz, “o Céu reina”, embora não abertamente. E, a partir do tempo em que Ele subiu até Seu retorno, este é o reino em mistério (Mateus 13). Quando Ele voltar novamente em poder e grande glória, será o reino manifesto.

A Pedro foi dado o privilégio de abrir esse reino para ambos judeus e gentios. Isto foi feito em sua pregação aos judeus, em Atos 2, e em sua pregação aos gentios, em Atos 10. Mas, novamente, devemos prestar atenção ao fato de que a igreja de Deus e o reino dos céus não são a mesma coisa. Sejamos claros, para começar, quanto a este ponto fundamental. A identificação falha das duas coisas têm produzido grande confusão de ideias e pode ser vista como a origem do puseísmo3, do papado, e de todo o sistema humano da Cristandade. Os comentários da próxima seção sobre a parábola do joio tratam diretamente desse assunto, apesar de se referirem a um período posterior ao dos primeiros capítulos de Atos.4

A Parábola do Joio

“Mateus 13:24,25. ’Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se’ – isso é exatamente no que se tornou a profissão cristã. Há duas coisas necessárias para a invasão do mal entre os cristãos. A primeira é falta de vigilância dos próprios cristãos. Eles se tornam descuidados, dormem, e o inimigo vem e semeia joio. Isto começou a acontecer logo no início da história da Cristandade. Encontramos essas sementes mencionadas até no livro de Atos dos Apóstolos, e cada vez mais nas Epístolas. A Primeira Epístola aos Tessalonicenses é a primeira que o apóstolo Paulo escreveu, e a segunda foi escrita pouco tempo depois. E nesta ele já fala que o mistério da iniquidade ja operava, e que se seguiriam outras coisas, como a apostasia e o homem do pecado, e que, quando a impiedade fosse plenamente manifesta (e não como opera agora, em segredo), então o Senhor colocaria um fim no iníquo e em todos os envolvidos com ele. O mistério da iniquidade parece ser semelhante ao joio mencionado aqui. Algum tempo depois, ’quando a erva cresceu e frutificou’, quando o cristianismo começou a avançar rapidamente sobre a Terra, ’então apareceu também o joio’. Mas é evidente que o joio foi semeado quase imediatamente depois da boa semente. Sempre que Deus realiza uma obra, Satanás fica no pé. Quando o homem foi feito, ele deu ouvidos à serpente e caiu. Quando Deus deu a lei, ela foi quebrada antes mesmo de ser entregue nas mãos de Israel. Assim é sempre a história da natureza humana. ”

“Assim o mal está feito no campo, e nunca reparado. O joio não deve ser retirado do campo no tempo presente: não há juízo para ele por enquanto. Isso significa que deve haver joio na igreja? Se o reino dos céus fosse a mesma coisa que a igreja não deveria haver nenhum tipo de disciplina: deveríamos permitir a imundície da carne ou do espírito ali. Eis a importância de saber distinguir a igreja do reino. O Senhor proíbe que o joio seja tirado do reino dos céus: ’Deixai crescer ambos juntos até à ceifa’ (Mateus 13:30), isto é, até que o Senhor venha em juízo. Se o reino dos céus fosse a mesma coisa que a igreja, repito, então implicaria em nada menos que isso: que nenhum mal, seja ele flagrante ou simples, deveria ser colocado para fora da igreja5 até o dia do juízo. Vemos, então, a importância da fazer essas distinções que tantos desprezam. Elas são totalmente importantes para a verdade e santidade. Não existe nem mesmo uma única expressão na Palavra de Deus que possamos ignorar.”

“Qual é, então, o significado dessa parábola? Não tem nada a ver com a questão da comunhão da igreja. É do ’reino dos céus’ que é falado aqui – o cenário da confissão cristã, seja verdadeira ou falsa. Assim gregos, coptas, nestorianos, católicos romanos, assim como evangélicos protestantes fazem parte do reino dos céus; não apenas os crentes, mas também as más pessoas que professam o nome de Cristo. Um homem que não é judeu nem pagão, e que professa exteriormente o nome de Cristo, está no reino dos céus. Ele pode até ser muito imoral e herege, mas não deve ser tirado do reino dos céus. Mas, seria correto recebê-lo à mesa do Senhor? Deus o proíbe! Se uma pessoa caída em pecado aberto estiver na assembleia, deve ser colocado para fora dela, mas não será colocada para fora do reino dos céus. De fato, isto só poderia ser feito tirando sua vida, arrancando o joio pela raiz. E é nisto que o cristianismo mundano caiu, em um espaço de tempo não muito longo após os apóstolos partirem da Terra. Punições temporais foram introduzidas para disciplina: leis foram criadas com o propósito de entregar o refratário para o poder civil. Se não honrassem a assim chamada igreja, aos desobedientes não seria permitido viver. Deste modo, o mesmo mal contra o qual o Senhor estivera protegendo seus discípulos continuou; o Imperador Constantino usou a espada para reprimir os ofensores da “igreja”. Ele e seus sucessores introduziram penas temporais para lidar com o joio, tentando arrancá-los. Tome a “igreja” de Roma, onde vemos tamanha confusão entre a igreja e o reino dos céus: eles clamavam que, se um homem for herege, deveria ser entregue às cortes do mundo para ser queimado. Eles também nunca confessam ou corrigem o erro, pois fingem ser infalíveis. Supondo que as vítimas fossem realmente joio, isto seria tirá-los do reino. Se você arranca o joio do campo, você o mata. Podem haver homens lá fora profanando o nome de Deus, mas devemos deixar que Deus lide com eles.”

“Isso não anula a responsabilidade cristã referente àqueles que estão à mesa do Senhor. Você encontrará instruções sobre tudo isso no que foi escrito sobre a igreja. ’O campo é o mundo’, a igreja engloba apenas aqueles que acredita-se serem membros do corpo de Cristo. Tomemos 1 Coríntios, onde temos o Espírito Santo mostrando a verdadeira natureza da disciplina eclesiástica. Suponhamos que haja cristão professos vivendo na prática do pecado; tais pessoas não devem ser consideradas, enquanto continuarem no pecado, como membros do corpo de Cristo. Um verdadeiro santo pode cair em pecado aberto, mas a igreja, sabendo disto, é responsável por intervir com o propósito de expressar o juízo de Deus sobre o pecado. Se deliberadamente permitissem tais pessoas a estar à mesa do Senhor, estariam efetivamente fazendo do Senhor cúmplice do pecado. A questão não é se a pessoa é convertida ou não. Se não convertidos, os homens não têm nada a ver com a igreja, e se convertidos, o pecado não deve ser ignorado. O culpado não deve ser tirado do reino dos céus, mas deve ser colocados para fora da assembleia (igreja local). Assim, o ensinamento da palavra de Deus é muito clara sobre essas duas verdades. É errado usar de punições do mundo para lidar com um hipócrita, mesmo que ele seja detectado. Devemos procurar o bem de sua alma, mas isso não é motivo para puni-lo. No entanto, se um cristão está em pecado, a igreja não deve suportá-lo, apesar de ser exortada a ser paciente no juízo. Mas devemos deixar os não convertidos para serem julgados pelo Senhor em sua vinda. ”

“Este é o ensinamento da parábola do joio, que fornece uma visão muito solene da Cristandade. Assim como o Filho do homem semeou a boa semente, Seu inimigo semeou a má, que cresceu junto com o resto, e este mal não pode ser arrancado no momento presente. Existe uma solução para o mal que entra na igreja, mas não ainda para o mal no mundo.” 6

É perfeitamente claro, tanto das Escrituras quando da história, que o grande erro no qual caiu o corpo professante é a confusão quanto a essas duas coisas – o joio e o trigo; ou, de maneira prática, aqueles que foram admitidos, pela administração do batismo, a possuir todos os privilégios oficiais e temporais da igreja professa com aqueles que realmente se converteram e foram ensinados por Deus. Mas a vasta diferença entre o que podemos chamar de sistema sacramental e sistema vital deve ser claramente entendida e cuidadosamente distinguida, se quisermos estudar a história da igreja corretamente.

Outro erro, igualmente sério, segue como consequência. O grande e professo corpo se tornou, aos olhos e na linguagem dos homens, a ”igreja“. Homens piedosos foram atraídos por essa armadilha, de modo que a distinção entre a igreja e o reino foi, muito cedo, perdida de vista. Todos os lugares e privilégios mais sagrados da igreja professa foram, então, compartilhados tanto por pessoas piedosas quanto por ímpios. A Reforma falhou completamente em limpar a igreja dessa triste mistura, que tem sido transmitida a nós por sistemas como os Anglicanos, Luteranos e Presbiterianos, como fica claro pela forma do batismo. Em nossos dias, o sistema sacramental prevalece em um nível alarmante, e cresce rapidamente. O real e o formal, o vivo e o morto, são indistinguíveis nas várias formas do protestantismo. Infelizmente, e como isso é sério, há muitos na igreja professa – no reino dos céus – que nunca entrarão no Céu propriamente dito. Aqui encontramos tanto joio como trigo, servos maus e fiéis, virgens néscias e sábias. Embora todos os que foram batizados são contados no reino dos céus, apenas aqueles que forem vivificados e selados com o Espírito Santo pertencem à igreja de Deus.

Mas há ainda outra coisa ligada à igreja professa que exige um breve estudo aqui. É o princípio divino do governo na igreja, sobre o qual falaremos no próximo capítulo.

O Princípio Divino do Governo na Igreja

Deus não apenas dá a Pedro as chaves que poderiam abrir as portas da nova dispensação, mas também lhe confia sua administração interna. Esse princípio é totalmente importante no que tange à igreja de Deus. As palavras da comissão são estas: “E tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.” A questão é, o que estas palavras significam? Claramente cremos que é a autoridade e o poder do Senhor a ser exercitada na igreja, porém limitada, em seu resultado, a este mundo. Não há nas palavras do Senhor pensamentos sobre a igreja decidindo qualquer coisa nos céus. Esta é a falsa interpretação e o poder nefasto da apostasia. A igreja na terra pode não ter nada a dizer ou fazer sobre o que é feito nos céus no que diz respeito a ligar e desligar. A esfera de sua ação está dentro de seus próprios limites e, quando feita de acordo com a comissão de Cristo, há a promessa da ratificação nos céus.

Também não há aqui qualquer pensamento sobre a igreja, ou qualquer de seus oficiais, estando no papel de intermediários entre uma alma e Deus no que diz respeito ao perdão eterno ou juízo eterno. Essa é a ousada blasfêmia de Roma. “Quem pode perdoar pecados, senão Deus?” Ele reserva esse poder somente a Ele mesmo. Além disso, os indivíduos que estão sujeitos ao governo da igreja já são perdoados, ou, ao menos, têm direito ao perdão. “Não julgais vós os que estão dentro?” Isto apenas se aplica àqueles que estão dentro dos limites da igreja. “Mas Deus julga os que estão fora” (1 Coríntios 5:12-13). De cada crente no amplo campo da Cristandade é dito: “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados.” (Hebreus 10:14). Assim, a retenção ou remissão dos pecados por parte da igreja vale apenas para o tempo presente, e é estritamente administrativa em seu caráter. É o princípio divino de receber pessoas na assembleia de Deus 7, com base no testemunho adequado de suas conversões, solidez na doutrina e santidade de vida; e também de colocar para fora os ofensores impenitentes até que sejam restaurados pelo verdadeiro arrependimento.

Mas alguns de nossos leitores podem ter a comum impressão de que esse poder foi dado apenas a Pedro e ao resto dos apóstolos, e consequentemente deixou de existir após eles. Isto é um erro. Realmente, isso foi dado a Pedro em primeira instância, como já vimos, e sem dúvida um poder maior foi exercitado durante os dias dos apóstolos como nunca foi visto depois, mas não havia uma autoridade maior. A igreja possui a mesma autoridade agora, em relação à disciplina na assembleia, embora com menos poder. A palavra do Senhor permanece intacta. Apenas um apóstolos, nós cremos, poderia falar como Paulo falou em 1 Coríntios 5: “Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, seja, este tal, entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus.” Isto era poder espiritual em um indivíduo, e não o julgamento da igreja8. O mesmo apóstolo, em referência ao mesmo caso, diz à assembleia: ”Tirai pois dentre vós a esse iníquo.” (1 Coríntios 5:13). O ato de tirar foi o ato, não somente do apóstolo, mas de toda a assembleia. Nesse caso, e dessa maneira, os pecados da pessoa excomungada foram retidos, embora seja, evidentemente, um homem convertido. Na Segunda Epístola, capítulo 2, o encontramos totalmente restaurado. Seu arrependimento é aceito pela assembleia e seus pecados são remidos. O transbordamento do coração do apóstolo nessa ocasião, e suas exortações à igreja, são lições valiosas para todos os que estão envolvidos com o governo da igreja, e se destinam a remover a terrível desconfiança com a qual na maioria das vezes que os irmãos que erraram são recebidos de volta aos privilégios da assembleia. “Basta-lhe ao tal esta repreensão feita por muitos. De maneira que pelo contrário deveis antes perdoar-lhe e consolá-lo, para que o tal não seja de modo algum devorado de demasiada tristeza. Por isso vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor.” (2 Coríntios 2:6-8). Aqui temos um caso pontual, ilustrativo do governo da assembleia de acordo com a vontade de Cristo. “Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.

Esse Princípio do Governo na Igreja Ainda é Aplicável

Mas “como esses princípios podem ser realizados em nossos dias?” é ainda a questão e a dificuldade de muitos. Bem, basta voltarmos à palavra de Deus. Devemos ser capazes e dispostos a dizer: “Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade.” (2 Coríntios 13:8)

A autoridade e poder administrativos da qual falamos não foram dados apenas a Pedro e aos outros apóstolos, mas também à igreja. Em Mateus 18 temos a elaboração do princípio estabelecido no capítulo 16: “… dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu… Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mateus 18:17-20)

Assim aprendemos que os Atos de dois ou três reunidos ao nome de Cristo têm a mesma aprovação divina que a administração de Pedro. E novamente, em João 20, o Senhor ressurreto apresenta o mesmo princípio do governo aos discípulos, e não apenas aos apóstolos, onde a assembleia está vividamente unida a Cristo como o Homem ressuscitado. Isto é totalmente importante. O espírito da vida de Jesus Cristo torna os discípulos livres – todos eles – da lei do pecado e da morte. A igreja é construída sobre “esta pedra” – Cristo em ressurreição, e as portas do hades9 não podem prevalecer contra ela. “Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco. E, dizendo isto, mostrou-lhes as suas mãos e o lado. De sorte que os discípulos se alegraram, vendo o Senhor. Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos.” (João 20:19-23)

Podemos dizer que aqui o Senhor estabelece e dá início à nova criação. Os discípulos estão cheios e vestidos de paz, e com o Espírito da vida de Cristo Jesus. Eles devem seguir adiante como Seus mensageiros, partindo de Seu túmulo vazio devido à ressurreição, levando a bendita mensagem de paz e vida eterna a um mundo inclinado ao pecado, à tristeza e à morte. O princípio de seu próprio governo interno é também claramente estabelecido, e sua devida administração sempre dará à assembleia cristã um caráter distintivo e celestial, tanto na presença de Deus quanto na presença do homem.

O Princípio de Receber Pessoas no Início da Igreja

Como o princípio apresentado é a base adequada para todas as reuniões cristãs, pode ser interessante olhar por um momento para sua operação nos dias dos apóstolos. Certamente eles entendiam seu significado e como aplicá-lo.

No dia de Pentecostes, e algum tempo depois, não parecia que os jovens convertidos eram submetidos a qualquer prova quanto à realidade de sua fé. “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas” (Atos 2:41). Assim, receber a palavra já os colocavam no terreno do batismo e da comunhão; mas a obra estava, até então, inteiramente nas próprias mãos de Cristo. “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” (Atos 2:47). Podemos também mencionar a tentativa de enganar os apóstolos por Ananias e Safira, que foi detectada de imediato. Pedro age em seu lugar de direito, mas o Espírito Santo estava lá em majestade e poder. Por isso ele diz a Ananias: “Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo?” (Atos 5:3)

Mas tal estado virgem das coisas logo acabou. A falha se instala – o Espírito Santo foi entristecido, e tornou-se necessário examinar aqueles interessados em estar em comunhão a fim de verificar se seus motivos, objetivos e estado de alma estavam de acordo com a mente de Cristo. Estamos agora na condição das coisas descrita em 2 Timóteo 2. Devemos estar em comunhão apenas com “os que, com um coração puro, invocam o Senhor” (2 Timóteo 2:22).

Depois que a igreja se tornou tão misturada com adeptos meramente nominais, um grande cuidado tornou-se necessário ao receber pessoas à comunhão. Não é suficiente que a pessoa diga que é convertida e exija admissão na assembleia com base em suas próprias declarações: ela deve se submeter ao exame por parte de cristãos experientes. Quando alguém professa ter sido despertado para a consciência do pecado, e ter sido levado ao arrependimento diante de Deus, e fé no Senhor Jesus Cristo, sua confissão deve ser examinada por aqueles que passaram, eles próprios, pelos mesmos tipos de experiência. E mesmo onde a conversão é manifestamente genuína, um cuidado piedoso e gentil deve ser exercido na recepção, pois algo desonroso para Cristo, prejudicial e enfraquecedor para a assembleia, pode acabar entrando, mesmo inconscientemente. É necessário discernimento espiritual aqui. E esta é a mais verdadeira demonstração de bondade para com o requerente, e nada mais do que um cuidado necessário para a honra de Cristo e a pureza da comunhão. A comunhão cristã acabaria se pessoas fossem recebidas com base apenas em suas próprias opiniões sobre elas mesmas.

Em Atos 9 vemos esse princípio na prática no caso do próprio apóstolo Paulo. E, certamente, se ele não podia ser aceito sem testemunho adequado, quem deveria reclamar? É verdade que seu caso foi peculiar, porém ainda assim pode ser tomado como uma ilustração prática do nosso assunto.

Encontramos aqui tanto Ananias em Damasco, quanto a igreja em Jerusalém questionando a realidade da conversão de Saulo, mesmo tendo sido miraculosa. É claro que ele tinha sido um inimigo aberto do nome de Cristo, e isto deve ter tornado os discípulos ainda mais cuidadosos. Ananias hesitou em batizá-lo até que estivesse plenamente convencido de sua conversão. Ele consulta o Senhor sobre o assunto, e depois de ouvir Sua vontade, ele vai diretamente a Saulo, e garante a ele que foi enviado pelo mesmo Jesus que lhe tinha aparecido no caminho para Damasco, confirmando a verdade sobre o que tinha acontecido. Saulo é grandemente confortado, volta a ver, e é batizado.

Então, sobre a ação da igreja em Jerusalém lemos: “E, quando Saulo chegou a Jerusalém, procurava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não crendo que fosse discípulo. Então Barnabé, tomando-o consigo, o trouxe aos apóstolos, e lhes contou como no caminho ele vira ao Senhor e lhe falara, e como em Damasco falara ousadamente no nome de Jesus.” (Atos 9:26-27) Paulo é um modelo de homem para a igreja em muitas coisas, e também nisso. Ele é recebido na assembleia – como todos os requerentes deveriam ser recebidos – com base no testemunho adequado quanto à genuinidade de seu cristianismo. Mas, enquanto todo o cuidado piedoso deve ser tomado para que os “Simãos Magos” 10 possam ser detectados, toda a ternura e paciência devem ser exercidas com os mais tímidos e hesitantes. De qualquer modo, a vida em Cristo e a consistência com a mesma deve ser sempre procurada (Veja Rom 14, 15;… 1 Coríntios 5 e 2 Coríntios 2). O caminho da igreja é sempre estreito.

O papado tem demonstrado sua desesperada iniquidade no mau uso que tem feito da prerrogativa da igreja de reter ou remir pecados, resultando em todas as abominações da absolvição sacerdotal. O protestantismo tomou o outro extremo – provavelmente temendo a própria aparência do papado – e tem praticamente posto de lado completamente a disciplina. O caminho da fé, por outro lado, é somente seguir a palavra do Senhor.

Tendo sido, então, apurado o terreno dos grandes princípios fundamentais da igreja e do reino, chegamos ao dia de Pentecostes – o primeiro momento da história da igreja na Terra. A menos que entendamos os princípios do cristianismo, jamais poderemos compreender sua história.


N. do T.: Do inglês rock foundation, corner stone (ver Eph 2:20 e 1Pe 2:6) ou foundation stone (explicação no link, em inglês) . Pedra principal da esquina, ou pedra do fundamento. Do grego lithos akrogoniaios: pedra pertencente à esquina (extremo canto), ou pedra principal (aparece em Efésios 2:20 e 1 Pedro 2:6). Do hebraico eben pinnah: pedra angular, ou principal da esquina (aparece em Isaías 28:16 e Salmos 118:22). (Dicionário Strong de Grego e Hebraico)↩

Os termos “igreja”, “reino dos céus”, e “grande casa” são bíblicos, e diferem um pouco em seus significados, como usados pelo Senhor e Seus apóstolos. O termo “minha igreja”, como usado pelo Senhor, engloba apenas membros vivos e verdadeiros. O pensamento principal da expressão “reino dos céus” claramente se refere à autoridade do Senhor tendo ascendido às alturas. Todos os que professam sujeição a Ele pertencem a esse reino. Na “grande casa” vemos o mal em atividade, infiltrado no corpo professante por meio das falhas do homem, resultando em sua co-existência com o reino dos céus e com a igreja professante. Mas há ainda outro termo usado constantemente, e que não é encontrado nas Escrituras – a Cristandade. Trata-se de um termo eclesiástico, e originalmente indicava todos os que foram cristianizados, ou aquelas porções do mundo em que o Cristianismo prevalecia, distinguindo-as das terras pagãs ou maometanas. Mas agora, essa palavra tem sido usada como sinônimo dos outros três termos já mencionados. De modo geral, os quatro termos são usados para se referir à mesma coisa, apesar de serem originalmente diferentes em seu significado e aplicação. Mas onde não há confusão hoje em dia?↩

Movimento ritualista que visava a aproximar do catolicismo a igreja anglicana.↩

Lectures on the Gospel of Matthew. Por W. Kelly.↩

N. do T.: No sentido de assembleia local em seu caráter terreno, uma vez que não é possível perder a salvação e ser tirado do corpo de Cristo. Verhttp://aguapelapalavra.blogspot.com/2013/01/a-posicao-e-o-estado-do-crente.html↩

Trecho retirado dos Estudos sobre o Evangelho de Mateus, de William Kelly↩

N. do T.: Aqui no sentido da igreja de Deus, e não de uma denominação que possa levar esse nome↩

“Entregar a Satanás é um ato de poder; expulsar uma pessoa é um dever ligado à fidelidade da assembleia. Sem dúvida, a exclusão da assembleia de Deus é algo muito sério e nos deixa expostos à tristeza e vários transtornos vindos do inimigo. Mas entregar diretamente a Satanás é um ato de poder positivo. Isso foi feito no caso de Jó para seu bem. Também foi feito por Paulo em 1 Coríntios 5, embora agindo no contexto de uma assembleia estabelecida, e para a destruição da carne. E outra vez, sem referência à assembleia, em 1 Timóteo 1, quanto à Himeneu e Alexandre, para que aprendessem a não blasfemar. Toda a disciplina é para a correção do indivíduo, e também para a manutenção da santidade da casa de Deus, e da pureza da consciência dos próprios santos“ – trecho extraído do livro Present Testimony, volume 1↩

Leia mais sobre o hades e outros termos relacionados à vida após a morte aqui:http://manjarcelestial.blogspot.com.br/2013/05/a-morte-o-estado-interme diario.html↩

Ver Atos 8↩

CONTINUE LENDO

De Pentecostes ao Martírio de Estêvão

O Dia de Pentecostes

A festa judaica de Pentecostes pode ser chamada de dia do nascimento da igreja cristã. Era também o aniversário da entrega da lei no Monte Sinai, embora aparentemente não havia um dia observado pelos judeus para comemorar o evento. Cinquenta dias depois da ressurreição de nosso Senhor a igreja foi formada – deu-se início à sua história. Os santos do Antigo Testamento não fazem parte da igreja do Novo Testamento. Ela não existia, de fato, até o dia de Pentecostes.

Todos os santos, desde o início, possuem a mesma vida eterna, são filhos do mesmo Deus e Pai, e o mesmo Céu será a casa deles para sempre. No entanto, os santos do Antigo Testamento pertencem a outra dispensação1 (isto é, uma maneira de Deus tratar com o homem em uma determinada época), ou a diferentes dispensações que ocorreram antes da vinda de Cristo. Cada dispensação tem sua própria origem, progresso, declínio e queda nas Escrituras, e terá seu próprio reflexo no Céu. Nem as pessoas nem as dispensações serão indistinguíveis lá.

Por isso, o apóstolo em Hebreus 11, ao falar dos antigos santos, diz: “E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados.” (Hebreus 11:39-40). Certamente, se Deus proveu algo melhor para nós, deve ser também algo diferente. Não vamos nos opor à própria palavra de Deus. Além disso, nosso Senhor, em Mateus 16, diz: “Sobre esta pedra edificarei a Minha igreja”. E ao mesmo tempo, Ele deu as chaves para abrir as portas da nova dispensação a Pedro. Até então Ele ainda não tinha começado a edificar Sua igreja, e as portas do reino ainda não estavam abertas. Mas a diferença entre o velho e o novo é vista mais distintamente quando falamos dos grandes eventos do dia de Pentecostes. Vamos começar com os tipos, ou figuras, de Levítico, capítulo 23.

Os filhos de Israel eram ordenados a levar uma porção das primícias de suas colheitas ao sacerdote, que deveria movê-las perante o Senhor, para que o povo fosse aceito por Deus. Cremos que esse rito prefigurava a ressurreição de nosso Senhor na manhã seguinte ao sábado judaico. A base da aceitação dos cristãos diante de Deus é o Cristo ressuscitado. “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando houverdes entrado na terra, que vos hei de dar, e fizerdes a sua colheita, então trareis um molho das primícias da vossa sega ao sacerdote. E ele moverá o molho perante o SENHOR, para que sejais aceitos; no dia seguinte ao sábado o sacerdote o moverá.” (Levítico 23:10-11) (Ver também Mateus 28 e Marcos 16)

Sete semanas completas após o mover das primícias, a festa de Pentecostes era celebrada. O primeiro era reconhecido como o primeiro dia da colheita na Judeia, e no último supostamente o milho estaria completamente colhido. Então eles faziam um festival solene de ações de graça. Dois pães feitos com a farinha da nova colheita caracterizavam os festejos. Eles deviam ser assados com fermento e tirados de suas casas. Alguns pensam que os dois pães prefiguravam o chamado da igreja, sendo composta de judeus e gentios. Seja como for, o número é significante. Duas testemunhas eram necessárias para prestar testemunho em Israel. O fermento indica, sem dúvidas, o pecado que habita no crente e, é claro, na igreja, vista em sua atual condição terrena.

Como o mover do feixe das primícias – uma bela figura do Cristo ressuscitado puro e santo – sacrifícios de cheiro suave eram oferecidos, mas nenhum sacrifício pelo pecado. Com o mover dos dois pães – figura daqueles que são de Cristo – uma oferta pelo pecado era apresentada. Estando lá o pecado, era necessária uma oferta para cobrí-lo. Embora o perfeito sacrifício de Cristo satisfez a Deus tanto pelo pecado que habita no homem quanto pelos muitos pecados cometidos durante a vida, ainda assim, na prática e na experiência, o pecado habita em nós, e assim será enquanto estivermos neste mundo. Todos reconhecem isso, embora nem todos possam ver a completude, a integridade, da obra de Cristo. O cristão foi, por uma única oferta, feito perfeito para sempre, apesar de poder se humilhar a si mesmo e fazer confissão a Deus por cada falha.

O significado típico do Pentecostes foi notavelmente cumprido na descida do Espírito Santo. Ele veio para reunir os filhos de Deus que andavam dispersos (João 11:52). Por esse grande evento o sistema do judaísmo foi deixado de lado, e um novo vaso de testemunho – a igreja de Deus – foi introduzido. Agora, vamos observar a ordem dos eventos, começando pela ressurreição e ascensão de Cristo.

A Ressurreição e Ascensão de Cristo

Encarnação, Crucificação, Ressurreição, são os grandes fatos ou verdades fundamentais da igreja – do cristianismo. A encarnação era necessária para a crucificação, e ambos para a ressurreição. É a bendita verdade de que Cristo morreu na cruz pelos nossos pecados, mas é igualmente verdade que o crente morreu em Sua morte (Veja Romanos 8; Colossenses 2). A vida cristã é vida em ressurreição. A igreja é edificada sobre o Cristo ressuscitado. Nenhuma verdade pode ser mais bendita e maravilhosa do que a encarnação e crucificação, mas a igreja está associada com aquEle que está, agora, ressuscitado e glorificado.

Em Atos 1 temos aquilo que está conectado à ressurreição e ascensão do Senhor, e também com as ações dos apóstolos após a descida do Espírito Santo. O bendito Senhor, mesmo em ressurreição, ainda fala e age por meio do Espírito Santo. Foi “através do Espírito Santo” que Ele deu ordens aos apóstolos que Ele escolheu. Isso é digno de nota especial, pois nos ensina duas coisas:

1. O caráter de nossa união com Cristo; o Espírito Santo no cristão, e no Senhor ressurreto, une a ambos. “O que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito.” Pelo “mesmo Espírito” eles são unidos.

2. Esse importante fato aponta para a bendita verdade do Espírito Santo habitando e agindo no cristão, até mesmo depois que realmente ocorrer a ressurreição. Então não haverá mais – como há agora – a carne em nós para Ele combater, mas irá, calma e desimpedidamente, nos levar à completa alegria do Céu – a feliz adoração, o bendito serviço, e a completa vontade de Deus.

O Senhor ressurreto, a seguir, exorta os apóstolos, que esperam em Jerusalém pela “promessa do Pai” que, diz Ele, ouviste de Mim. “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias.” (Atos 1:5) Não é mais uma questão de promessas temporais a Israel; estas devem ser deixadas de lado até um dia futuro. A promessa do Pai sobre o Espírito Santo era algo inteiramente distinto, e grandemente diferente em seus resultados.

Muitas coisas “concernentes ao reino de Deus” foram conversadas entre o Senhor e Seus apóstolos, então Ele ascende (sobe) ao Céu, e uma nuvem O recebe, fora da vista dos discípulos. O retorno do Senhor é, então, mais clara e distintamente revelada: “E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. E, estando com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que junto deles se puseram dois homens vestidos de branco. Os quais lhes disseram: Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir.” (Atos 1:9-11) É bem evidente, a partir dessas palavras, que Ele subiu pessoalmente, visivelmente, corporalmente, e que Ele também virá de novo da mesma maneira – que Ele, novamente, aparecerá entre as nuvens, e será manifesto às pessoas na Terra, pessoalmente, visivelmente e corporalmente; mas, nesse dia, será com poder e grande glória.

Os apóstolos e discípulos agora aprenderam duas coisas:

1. Que Jesus foi tirado deste mundo para o Céu;

2. Que Ele estaria voltando novamente a este mundo.

Com base nesses dois grandes fatos o testemunho deles foi fundamentado. Mas Jerusalém seria o ponto inicial de seu ministério, e eles deveriam esperar pelo poder do alto. Chegamos, agora,

ao segundo grande evento, de extrema importância no que diz respeito à condição do homem neste mundo – o dom (dádiva) do Espírito Santo. Agora seria não apenas Deus por nós, mas Deus em nós. Isto aconteceu no dia de Pentecostes.

A Descida do Espírito Santo

O tempo chegou. A redenção foi consumada, Deus foi glorificado – Cristo está à Sua direita no Céu, e o Espírito Santo desce à Terra. Deus inaugura a igreja, fazendo isto de maneira adequada à Sua própria sabedoria, poder e glória. Um poderoso milagre é operado, um sinal do alto é dado. O grandioso evento é assim registrado:

Atos 2: “E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar. E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” Talvez seja bom fazer uma pausa por um momento e observar algumas coisas conectadas à descida do Espírito Santo e à demonstração de Seu poder nesse importante dia.

Havia, em primeiro lugar, o cumprimento da promessa do Pai: o próprio Espírito Santo foi enviado do Céu. Esta era a grande verdade do Pentecostes. Ele veio das alturas para habitar na igreja – o lugar preparado para Ele pela aspersão do sangue de Jesus Cristo. Havia também o cumprimento da palavra do Senhor aos apóstolos: “Vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias.” (Atos 1:5). Talvez os discípulos não soubessem o significado dessas palavras, mas o fato é que agora estavam cumpridas. A revelação completa da doutrina do “um só corpo”aguardava o ministério de Paulo: “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito.” (1 Coríntios 12:13)

Mas, além disso, além dos vários dons dispensados para a obra do Senhor, temos algo mais benditamente pessoal, e bastante novo na Terra. O próprio Espírito Santo veio habitar, não apenas na igreja coletivamente, mas também em cada indivíduo que crê no Senhor Jesus. E, graças ao Senhor, este tão bendito fato é tão verdadeiro hoje quanto era naqueles dias. Ele habita agora em cada crente que descansa na obra consumada (finalizada) de Cristo. O Senhor tinha dito, predizendo esse dia: “Porque [o Espírito Santo] habita convosco, e estará em vós” (João 14:17). Esses dois grandes aspectos da presença do Espírito foram totalmente alcançados no dia de Pentecostes. Ele veio para habitar em cada cristão e na igreja; e agora – que bendita verdade – sabemos que Deus não é apenas para nós, mas em nós, e conosco.

Quando “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude”, Ele apareceu na forma de uma pomba – um belo símbolo da imaculada pureza, da mansidão e da humildade de Jesus. Ele não veio fazer Sua voz ecoar pelas ruas, ou quebrar o caniço rachado, ou apagar o pavio que se queima. Porém, no caso dos discípulos que esperavam em Jerusalém, foi completamente diferente. O Espírito Santo desceu sobre eles como línguas repartidas – línguas como que de fogo que pousaram sobre cada um deles. Isto foi característico. Era o poder de Deus dando testemunho de que aquilo deveria ir além, não apenas para Israel, mas para todas as nações da Terra. A palavra de Deus também julgaria a todos que viriam depois – ela era como línguas de fogo2. O juízo de Deus sobre o homem por causa do pecado tinha sido judicialmente expresso na cruz, e agora tal fato solene deve ser tornado público a todos pelo poder do Espírito Santo. No entanto, a graça reina – reina através da justiça, para a vida eterna, por Cristo Jesus. O perdão é proclamado aos culpados, salvação aos perdidos, paz aos conturbados, e descanso aos cansados. Todos os que creem são, e serão para sempre, abençoados em – e com – um Cristo rescussitado e glorificado.

O espanto e consternação do Sinédrio e do povo judeu deve ter sido realmente grande na reaparição, em tal poder, dos seguidores do Jesus crucificado. Eles tinham, sem dúvida, concluído que, como o Mestre tinha partido, os discípulos não poderiam fazer nada por si mesmos. Para a maioria, os discípulos eram simples homens iletrados. Mas qual deveria ter sido o espanto das pessoas quando ouviram que aqueles homens simples estavam pregando corajosamente nas ruas de Jerusalém, e fazendo convertidos aos milhares para a religião de Jesus! Mesmo vista apenas historicamente, a cena é cheia do mais emocionante interesse, não havendo paralelo nos anais do tempo.

Jesus foi crucificado. Suas alegações de ser o Messias, à vista popular, tinham sido enterradas em Seu túmulo. Os soldados que guardavam Seu sepulcro tinham sido subornados para espalhar um falso relato quando à Sua ressurreição; a excitação popular tinha, sem dúvida, passado, e a cidade e a adoração no templo tinham retornado a seu curso normal, como se nada tivesse acontecido. Mas da parte de Deus as coisas não iriam ser deixadas passar quietamente. Ele estava esperando o tempo certo para reivindicar Seu Filho, e reivindicá-Lo no mesmo cenário de Sua humilhação. Isso aconteceu cedo de manhã, no dia de Pentecostes. Repentina e inesperadamente, Seus dispersos seguidores reapareceram em um poder miraculoso. Eles ousadamente acusaram os governantes e as pessoas culpadas de Sua apreensão, julgamento e crucificação – que eles haviam matado seu próprio Messias – mas que Deus O havia ressuscitado para ser Príncipe e Salvador, e para colocá-Lo em Seu lugar de direito no Céu. “Onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Romanos 5:20)

A sentença de Babel, podemos também mencionar, foi revertida naquele maravilhoso dia. Nas diferentes línguas, pelas quais o homem tinha sido condenado por ter desobedecido a Deus, a salvação é proclamada. Essa poderosa e maravilhosa obra de Deus atraiu a multidão. Eles são surpreendidos, e especulam sobre o estranho acontecimento. Cada um, em sua própria língua do país de onde vieram, ouve dos lábios dos pobres galileus sobre as maravilhosas obras de Deus. Os judeus que habitavam em Jerusalém, não entendendo essas línguas estrangeiras, zombavam. Então Pedro se pôs de pé, e declarou a eles em sua própria língua, provando pelas suas próprias Escrituras, o verdadeiro caráter do que havia ocorrido.

O Primeiro Apelo de Pedro aos Judeus

Então lemos: “E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, e Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus. E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto. Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia”, ou, como devemos considerar, eram nove horas da manhã – a hora da oração no templo. (Atos 2:5-15)

Assim, Pedro toma a dianteira e explica aos judeus que as coisas maravilhosas que eles têm visto e ouvido naquela manhã não eram resultado de emoção, mas sim aquilo que deveria ser procurado segundo as suas próprias profecias das Escrituras. “Isto é o que foi dito pelo profeta Joel” (Atos 2:16). É marcante o motivo pelo qual Pedro se levanta e prega com tal ousadia, que é o terreno da ressurreição e exaltação de Cristo. Isto deve ser cuidadosamente observado, uma vez que mostra o fundamento sobre o qual a igreja descansa, e quando e onde sua história começa. Este foi o primeiro dia de sua existência, a primeira página de sua história, e seus primeiros triunfos do dom (presente) inefável de Deus para o homem.

“Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas. De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis. Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio diz: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés. Saiba, pois com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” (Atos 2:32-36)

Citamos agora as palavras de outro autor sobre os benditos efeitos do primeiro sermão de Pedro, e da presença do Espírito Santo na Terra:

“Não foi meramente uma mudança moral, mas um poder que pôs de lado todos os motivos que individualizavam aqueles que O tinham recebido, unindo-os em uma só alma, e em uma só mente. Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos, eles estavam em comunhão uns com os outros, eles partiam o pão, eles passavam o tempo em oração: a consciência da presença de Deus era poderosa entre eles, e muitos sinais e maravilhas eram operados pelas mãos dos apóstolos. Eles estavam unidos pelos laços mais fortes, onde ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todos dividiam suas possessões com aqueles que necessitavam. Eles estavam diariamente no templo, o local público de Israel para os exercícios religiosos, ao mesmo tempo em que tinham seu próprio local, fora daquilo, quando partiam o pão nas casas diariamente. Eles comiam com alegria e júbilo de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo ao seu redor. Assim a assembleia foi formada, e o Senhor acrescentava todos os dias a ela o remanescente de Israel que seria salvo dos juízos que cairiam sobre a nação que havia rejeitado o Filho de Deus, seu próprio Messias. Deus trouxe à assembleia – assim propriedade dEle pela presença do Espírito Santo – aqueles a quem Ele poupou em Israel. Aqui se encontrava a presença e a casa de Deus, apesar da antiga ordem de coisas ainda existir até a execução do juízo sobre Israel3”

“A igreja foi formada, portanto, pelo poder do Espírito Santo que desceu do Céu, sobre o testemunho de que Jesus, que tinha sido rejeitado, foi elevado ao Céu, tendo sido feito, de Deus, Senhor e Cristo. Ela foi composta do remanescente judeu que seria poupado, com a reserva de acrescentar também os gentios sempre que Deus fosse chamá-los.”4

Esta é, então, a igreja de Deus: a união daqueles a quem Deus chamou para o nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito Santo. O amor governa e caracteriza a recém-formada assembleia. As poderosas vitórias que a graça alcançou naquele memorável dia comprovou totalmente o poder do exaltado Senhor, e a presença do Espírito Santo na Terra. Três mil almas foram convertidas por meio de um único sermão. Aqueles que haviam sido inimigos declarados do Senhor, e que tinham participação na culpa de Seu assassinato, agora agonizavam sob o poder das palavras de Pedro. Alarmados pelo terrível pensamento de terem matado seu próprio Messias, e que Deus, em cuja presença eles estavam agora, O tinha exaltado à Sua própria destra no Céu, eles clamaram: “Que faremos, homens irmãos?”

Pedro agora procura aprofundar as boas obras em suas almas – Ele [o Senhor], procura humilhar os judeus, uma vez orgulhosos e desdenhosos. “Arrependei-vos”, diz Pedro, “e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo”. Ele não diz simplesmente “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”, embora, é claro, a fé e o arrependimento devem andar juntos onde quer que a obra é genuína. Mas Pedro, neste caso, pressiona ao arrependimento. A culpa deles tinha sido grande demais, e uma obra moral profunda em suas consciências era necessária para o arrependimento deles. Eles devem ver sua culpa diante de Deus, e receber a remissão de seus pecados aos pés daquEle que eles tinham rejeitado e crucificado. No entanto, tudo era graça. Seus corações foram tocados. Trocaram de lado, para o lado de Deus, contra eles mesmos – realmente se arrependeram, foram perdoados, e receberam a dádiva do Espírito Santo. Agora eles são filhos de Deus e têm a vida eterna: o Espírito Santo habita neles.

A realidade da mudança foi manifesta por uma completa mudança de caráter. “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas, e perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.” (Atos 2:41-42)

Batismo, na confissão de fé; recepção na assembleia; a ceia do Senhor, a comunhão dos santos, a oração; estas eram suas observâncias distintivas. Nesse momento, a oração do Senhor, “que todos sejam um”, foi respondida, como lemos no capítulo 4. “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.” (Atos 4:32). Vamos pular agora, a fim de continuar nossa linha de raciocínio, para o capítulo 10 de Atos.

O Chamado Dirigido aos Gentios

Cornélio, o centurião, um homem devoto, e aqueles que estavam com ele, são agora recebidos na igreja de Deus. Pedro havia dado a entender tal chamado em seu primeiro discurso. Ele é agora convocado por Deus, de um modo especial e com indicações especiais de Seu propósito, para abrir a porta àqueles gentios tementes a Deus. Até esse momento a igreja consistia principalmente, se não exclusivamente, de judeus. Mas Deus tratou carinhosamente com seu povo antigo, considerando seus preconceitos nacionais. “Cornélio, … piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, o qual fazia muitas esmolas ao povo, e de contínuo orava a Deus.” (Atos 10:1-2). Eles não podiam ter qualquer objeção, de modo pessoal, quanto a receber tal pessoa. Assim, Deus é gracioso, terno e misericordioso. Mas nenhuma dúvida foi deixada na mente de Pedro quanto à vontade divina. Deus graciosamente silenciou seus raciocínios, e venceu sua relutância com a suave repreensão: “Não faças tu comum ao que Deus purificou”.

Pedro agora procede, embora lentamente. Era um novo tipo de trabalho para ele. Mas nada parece mais surpreendente a Pedro do que o fato de que os gentios deveriam ser trazidos à benção sem ao menos se tornarem judeus ou se submeterem a qualquer ordenança judaica. Isto, para Pedro, para os gentios, e em si mesmo, foi um imenso passo. Isso ataca a própria raiz do papado, do puseísmo5, da sucessão apostólica, e de qualquer sistema de ordenanças. Nesse fato, uma enxurrada de luz é derramada sobre o caráter da presente dispensação. “E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo.” (Atos 10:34-35). Claramente, não era mais necessário se tornar judeu ou se submeter aos ritos e cerimônias externas do judaísmo para desfrutar das mais ricas bênçãos do Céu. Sem a imposição das mãos apostólicas – embora o próprio Pedro, em poder e autoridade divina, estivesse presente – e antes de serem batizados com água, eles foram batizados com o Espírito Santo. Enquanto a palavra de Deus saía dos lábios de Pedro, o Espírito Santo desceu sobre todos que o ouviam. Antes disso, no entanto, uma obra abençoada, por meio da graça de Deus, vinha acontecendo no coração de Cornélio: ele era uma alma divinamente vivificada.

As operações de vivificação do Espírito são bem distintas de ser selado com o Espírito. Antes que o Espírito Santo possa selar, deve haver algo para Ele selar. Ele não pode selar nossa velha natureza. Deve haver uma nova natureza para Ele selar. Portanto, deve haver um momento na história de cada cristão quando ele é vivificado, mas não ainda selado. Porém, mais cedo ou mais tarde a obra estará completa (Efésios 1:13). Por exemplo, o filho pródigo foi vivificado, ou convertido, quando ele deixou o país distante, mas ele ainda era estranho ao amor e graça do Pai e, consequentemente, ainda não tinha fé para descansar calmamente em Cristo como a fonte de toda a bênção. Ele era ainda um incrédulo, embora vivificado. Certamente ele não foi selado com o Espírito, quanto ao seu perdão e aceitação, até o momento em que recebeu o beijo de reconciliação, ou o anel, o símbolo do eterno amor. O Evangelho da salvação é mais que uma preocupação pela alma, ainda que seja legítima. A incredulidade, que desonra a Cristo, pode acompanhar, por um certo tempo, uma obra genuína do Espírito de Deus na alma. O filho pródigo tinha uma certa crença de que havia algo de bom no coração de seu Pai, o que o leva a se aproximar, mas certamente ainda carecia da plena fé no evangelho. “Aquele que aceitou o seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro.” (João 3:33). Onde quer que haja fé em Cristo e em Sua obra, lá está o selo de Deus. O próprio Paulo esteve, pelo menos, três dias no mais profundo exercício de alma, sem a paz e o descanso que o selo do Espírito Santo proporciona. “E esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu.” (Atos 9:9)

Retornemos, agora, ao ponto principal que temos diante de nós.

O Selo dos Gentios

Observe, então, esse importante fato conectado à introdução dos gentios à igreja – eles recebem o dom/dádiva do Espírito Santo simplesmente por meio da pregação da Palavra. Em Jerusalém, os judeus foram batizados antes de terem recebido o Espírito Santo. Em Samaria, os samaritanos foram não apenas batizados, mas tiveram que passar pela imposição de mãos dos apóstolos com oração, antes de receberem o Espírito Santo. Mas em Cesareia, sem batismo, sem imposição de mãos e sem oração, a mais rica bênção cristã foi dada aos gentios, embora a doutrina da igreja como o corpo de Cristo ainda não ter sido revelada.

A graça de Deus, assim apresentada aos gentios no início da dispensação, a tem caracterizado desde então. Somos gentios: não somos judeus nem samaritanos. Portanto os caminhos de Deus em graça, e Sua ordem de coisas para com os gentios, têm uma aplicação especial para nós. Não há exemplo registrado pelos historiadores inspirados de alguém que tenha sido batizado sem professar fé em Cristo, mas se formos seguir o padrão de coisas em Cesareia, devemos procurar pelo selamento assim como pela vivificação – para a paz com Deus, assim como para a fé em Cristo antes do batismo. O caso de Cornélio se situa justamente no início de nossa dispensação. Foi a primeira expressão de graça endereçada diretamente aos gentios e, certamente, deveria ser um modelo para pregadores e discípulos gentios. Quando a Palavra de Deus que foi, naqueles dias, pregada a Cornélio é, hoje, crida, podemos garantir que teremos os mesmos efeitos, isto é, a paz com Deus..

Pregar, crer, selar, batizar, é a ordem divina das coisas aqui. Deus e Sua Palavra nunca mudam, embora os “tempos mudam”, como dizem os homens, assim como as opiniões humanas mudam, e as observâncias religiosas mudam. Mas a Palavra de Deus – nunca. Judeus, gentios e samaritanos professaram fé em Cristo antes de serem batizados. De fato, o batismo presume vida eterna adquirida pela fé, e não transmitida após o ato de batizar, como ensinam os católicos e anglicanos. “A graça e a vida são comunicadas por meio de sacramentos”, dizem eles, “e só podem ser efetuadas por esses meios, independente de qualquer exercício de intelecto da parte da pessoa trazida à união. O santo batismo é o meio pelo qual uma vida nova e espiritual é conferida ao receptor.”6

Tais noções – nem precisamos comentar muito – são totalmente contrárias às Escrituras. O batismo não concede nada. A vida é concedida por outros modos, como as Escrituras claramente ensinam. A conversão, ou “nascer de novo”, é efetuada, em todos os casos, sem exceção, pelo Espírito Santo. Como lemos em 1 Pedro: “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro. Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.” (1 Pedro 1:22-23). Aqui, a verdade do evangelho é vista como o meio, e o Espírito Santo como o poder, da conversão. Cristo, ou Deus em Cristo, é o novo objetivo da alma. É pelo Espírito e pela verdade de Deus que tal bendita mudança é efetuada. Àqueles que confiam nas águas do batismo como o meio de efetuá-la, sinto-lhes dizer, estão em uma grande e fatal engano.7

No caso dos gentios em questão aqui, ainda mais que vida era possuída antes do batismo ser administrado. Eles tinham o selo de Deus. O batismo é o sinal da plena libertação e salvação garantidas ao crente pela morte e ressurreição de Cristo. Cornélio tinha vida, era um homem devoto, mas ele deveria ouvir de Pedro as palavras pelas quais ele seria salvo e totalmente liberto. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento ensinam essa bendita verdade da maneira mais clara possível. Israel, como um povo típico, após ter sido trazido a Deus e protegido pelo sangue do cordeiro no Egito, foi batizado a Moisés na nuvem e no mar. Assim eles foram libertos do Egito e viram a salvação de Jeová. Novamente, Noé e sua família foram salvos através do dilúvio – não por ele. Eles deixaram o velho mundo, passaram através das águas da morte, e pousaram em uma nova condição de coisas. “Como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, … pela ressurreição de Jesus Cristo.” (Êxodo 14; 1 Pedro 3:21)

Mas qual era a palavra, alguns poderiam perguntar, que Pedro pregou, e que foi acompanhada de tal notável bênção? Ele pregou paz por Jesus Cristo como o Senhor de tudo. Cristo ressuscitado, exaltado e glorificado foi o grandioso objeto de seu testemunho. Ele o resume com essas palavras: “A este dão testemunho todos os profetas, de que todos os que nele crêem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome.” (Atos 10:43). Então segue-se a bênção. Os judeus que estavam presentes ficaram atônitos, mas se curvam, e reconhecem a bondade de Deus para com os gentios. “E, dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar línguas, e magnificar a Deus. Respondeu, então, Pedro: Pode alguém porventura recusar a água, para que não sejam batizados estes, que também receberam como nós o Espírito Santo? E mandou que fossem batizados em nome do Senhor. Então rogaram-lhe que ficasse com eles por alguns dias.” (Atos 10:44-48)

Vamos, agora, refazer um pouco nossos passos e observar alguns dos principais eventos que, por ordem, precedem o capítulo 10.

O Primeiro Mártir Cristão

Estêvão, diácono e evangelista, é o primeiro a receber a coroa do martírio pelo nome de Jesus. Ele permanece à frente do “nobre exército dos mártires”. Ele é perfeito como uma figura – um protótipo de um verdadeiro mártir. Firme e inabalável em sua fé. Ousado e destemido diante de seus acusadores. Aguçado e fiel em sua defesa diante do Sinédrio. Livre da malícia em suas mais fortes declarações. Cheio de caridade para com todos os homens, ele sela seu testemunho com seu sangue, e então dorme em Jesus.

Em alguns aspectos, Estêvão lembra o próprio bendito Senhor. “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (Atos 7:59), parece com “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lucas 23:46); e de novo, “Senhor, não lhes imputes este pecado” (Atos 7:60), lembra “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34), apesar de Estêvão não indicar a ignorância deles.

Já podemos ver que problemas, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora, atacam a jovem igreja. É verdade que a palavra de Deus aumentou, multidões foram convertidas, e uma grande parte dos sacerdotes eram obedientes à fé. Porém os gregos, ou helenistas (judeus de origem grega), murmuravam contra os hebreus (nativos da Judeia), porque suas viúvas eram negligenciadas na ministração diária. Isto levou à nomeação de sete diáconos (Atos 6). Pelos seus nomes aqui dados, parece que os sete escolhidos eram gregos – todos do lado dos murmuradores. Assim o Espírito de Deus dominou em graça. Estêvão era um deles, e neste caso, a palavra do apóstolo foi exemplificada: aqueles que “servirem bem como diáconos, adquirirão para si uma boa posição e muita confiança na fé que há em Cristo Jesus.” (1 Timóteo 3:13). Ele era cheio de fé e poder, e fazia grandes maravilhas e milagres entre o povo. A energia do Espírito Santo se manifestava especialmente em Estêvão.

Havia diferentes sinagogas em Jerusalém apropriadas para diferentes raças de judeus. Foram as sinagogas dos libertinos, dos cireneus, etc., que se opunham a Estêvão. Mas “não podiam resistir à sabedoria, e ao Espírito com que falava”. Segue-se, então, o que tem geralmente acontecido com os que confessam a Jesus em todas as eras: incapazes de respondê-lo, eles o acusam perante o conselho. Falsas testemunhas são subornadas para jurar que eles o tinham ouvido falar “palavras blasfemas contra Moisés, e contra Deus”, e que Jesus de Nazaré destruiria aquele lugar e mudaria os costumes entregues a eles por Moisés. O caso estava agora diante do Sinédrio – o julgamento começa. Mas o que seus juízes teriam pensado quando viram sua face radiante como a face de um anjo?

Temos o nobre discurso de Estêvão aos chefes da nação diante de nós. Convincente, desconcertante e esmagador. Sem dúvidas, foi um testemunho do Espírito Santo aos judeus, da boca de Estêvão, e ainda mais humilhante para os orgulhosos judeus: ouvirem sua condenação dos lábios de um helenista. Mas o Espírito de Deus, quando sem impedimentos pelos arranjos do homem, opera por quem Ele quer.

Estêvão recapitula, em linguagem ousada, os principais pontos de sua história nacional. Ele fala especialmente das histórias de José e de Moisés. O primeiro, seus pais (os outros dos doze filhos de Jacó) o haviam vendido aos gentios, e o último desprezaram como príncipe e juiz. Ele também os acusa de sempre resistir ao Espírito Santo – de sempre desobedecerem a lei – e agora por terem sido os traidores e assassinos do Justo. Aqui a testemunha fiel de Cristo foi interrompida. Não lhe foi permitido terminar seu discurso – uma figura, tão verdadeira, do tratamento para com os mártires daqueles dias até hoje. Os murmúrios, a indignação, a fúria do Sinédrio, estavam fora de controle. “E, ouvindo eles isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra ele.” (Atos 7:54). Mas, em vez de dar prosseguimento ao discurso, ele entra em êxtase de coração ao Senhor e fixa seus olhos no Céu – o lar e centro de união para todo Seu povo.

“Eis que vejo”, diz Estêvão, “os céus abertos” (Atos 7:56). Ele está cheio do Espírito Santo enquanto olha para o alto, e vê o Filho do homem de pé, ali, pronto para receber seu espírito. _ “Tal é”, escreveu alguém, “a posição do verdadeiro crente – ligado ao Céu, bem acima da Terra – na presença do mundo que rejeitou a Cristo, um mundo assassino. O crente, vivo na morte, vê, pelo poder do Espírito, o Céu, e o Filho do homem à direita de Deus. Estêvão não diz ’Jesus’. O Espírito O caracteriza como ’o Filho do homem’. Que precioso testemunho para o homem! Não é sobre a glória que Ele aqui testifica, mas sim sobre o Filho do homem na glória, tendo os céus abertos diante dele… Quanto ao objeto de fé e a posição do crente, essa cena é definitivamente característica.”

Eis o proeminente, o mais próximo ao trono

Perfeitas vestes triunfais trajando

Aí está o que mais ao mestre se assemelha

Este santo, este Estêvão que se ajoelha

Fixando o olhar enquanto os céus

Se abriam aos seus olhos que se fechavam

Que, tal como lâmpada quase apagada retoma seu fulgor,

E faz vê-lo o que a morte esconde a rigor.

_

Ele, que parece estar na terra

Há de voar como pomba vera

E da amplitude do céu sem nuvens

Extrair o mais puro dos ares

Para que os homens contemplem sua face angelical

Plena do resplendor da graça celestial,

Mártir íntegro, apto a se conformar

À morte de Jesus, vitória sem par!

_

(tradução livre da poesia constante da edição original em inglês)

Já examinamos, com certo cuidado e minúcia, a primeira seção da história da igreja. Temos sido os mais cuidadosos possível, uma vez que as histórias sobre a igreja, em geral, começam em um período posterior. A maioria começa onde as Escrituras terminam, ao menos quanto aos detalhes. Nenhuma das que temos referem-se a Mateus 16, e poucas tentam um exame crítico de Atos dos Apóstolos que, afinal, é a única parte de sua história que comanda nossa fé, e que tem uma reivindicação absoluta de nossa obediência.

No capítulo 8 encontramos o Espírito Santo em Samaria operando por Filipe. Ele tinha, por assim dizer, deixado Jerusalém. Isso marca uma época distinta na história da igreja, especialmente em sua conexão com Jerusalém. Deixemos, por enquanto, os judeus enfurecidos e perseguidores, e sigamos o caminho do Espírito à cidade de Samaria. Será, no entanto, de proveito olharmos por um momento ao que alguns têm chamado de a terceira perseguição.


Leia mais sobre dispensações:http://manjarcelestial.blogspot.com.br/2011/06/dispensacao.html ouhttp://dispensacao.blogspot.com.br/2013/07/pacto-ou-dispensacao-prefacio_31.html↩

N. do T.: fogo, na Bíblia, sempre aparece com a conotação de juízo de Deus. Podemos refletir sobre a diferença na forma como o Espírito Santo pousou sobre o Senhor (pomba, simbolizando paz, pureza, mansidão), e como Ele se manifestou ao descer sobre a igreja (línguas como que de fogo, simbolizando juízo). Os crentes, embora sejam completamente salvos do juízo de Deus e feitos perfeitos – pelo novo nascimento – aos olhos de Deus pela obra consumada de Cristo, ainda possuem em si a velha natureza – a carne – enquanto neste mundo. A semelhança das línguas com fogo, no dia de Pentecostes, provavelmente simboliza que o Espírito Santo, em juízo, luta contra a carne, conforme Gálatas 5:17: “Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis.”↩

N. do T.: invasão romana e destruição do templo de Jerusalém no ano 70 d.C.↩

Trecho extraído das Sinopses dos Livros da Bíblia, de J. N. Darby, vol. 4, p. 8.↩

Puseísmo: Movimento religioso renovador, promovido pelo teólogo inglês Eduardo Pusey, que levou para o catolicismo uma fração da Igreja anglicana.↩

The Church and the World, páginas 178-188.↩

As seguintes breves declarações dos “pais” do quarto século, sobre o assunto do batismo, mostrará aos leitores as fontes, ou autoridades, de muito do que se dizia e fazia naqueles dias pelos ritualistas. Note que a autoridade das Escrituras é totalmente posta de lado: “Na Páscoa, e no Pentecostes, e em alguns lugares na Epifania, o rito do batismo era administrado publicamente – isto é, na presença dos fiéis – a todos os convertidos naquele ano, com exceção de alguns que tiveram a oportunidade de participar da cerimônia sem atraso, ou quando o cristão deixava para fazê-lo apenas próximo ao final de sua vida, como o exemplo de Constantino: uma prática há muito tempo condenada pelo clero. Mas o fato do atraso demonstra quão profundamente a importância e eficácia do rito era enraizada na mente cristã. Significava uma completa purificação da alma. O neófito (novo convertido) emergia das águas do batismo em um estado de perfeita inocência. A pomba – o Espírito Santo – constantemente pairava sobre a fonte, santificando as águas para a misteriosa lavagem de todos os pecados da vida passada. Se a alma não sofresse nenhuma culpa posterior, ela passaria de uma vez por todas para o reino de pureza e felicidade, isto é, o coração seria purificado, com entendimento iluminado e o espírito revestido de imortalidade.

”Vestido em branco, emblemático da pureza imaculada, o candidato se aproximava do batistério – que em igrejas maiores era um edifício separado. Lá, ele proferia os solenes votos de que se comprometeria com sua religião. O gênio simbolizante do Oriente adicionou algumas cerimônias significativas. O catecúmeno (um dos primeiros estágios da instrução cristã) se virava para o Ocidente, o reino de Satanás, e renunciava três vezes ao seu poder. Então se virava para o Oriente para adorar o Sol da Justiça, e para proclamar seu pacto com o Senhor da vida. O místico número três prevalecia em tudo: o voto era triplo, e três vezes pronunciado. O batismo se dava geralmente por imersão. O despir das roupas era emblemático do ’tirar o velho homem’, mas o batismo por aspersão era permitido, de acordo com a exigência do caso. A água em si se tornava, na vívida linguagem da igreja, o sangue de Cristo: era comparada, por uma fantasiosa analogia, com o Mar Vermelho. A ousada metáfora de alguns dos ’pais’ parece afirmar uma transmutação da cor da água.

“Quase todos os ’pais’ dessa era, como Basílio, os dois Gregórios, Ambrósio, etc., tinham escrito tratados sobre o batismo, e rivalizaram, por assim dizer, uns com os outros em seus louvores sobre a importância e eficácia do batismo. Gregório de Nazianzo quase esgota a copiosidade da língua grega ao falar do batismo.” – A História do Cristianismo por Milman, vol. 3↩

De Estêvão ao Apostolado de Paulo

A Perseguição e Dispersão dos Discípulos

Após a morte de Estêvão uma grande perseguição começou (Atos 8). Os líderes judeus pareciam ter ganho uma vitória sobre os discípulos, e estavam determinados a prosseguir com seu aparente triunfo com a maior violência. Mas Deus, que está acima de todos, e que sabe como conter as crescentes paixões dos homens, anulou a posição deles para o cumprimento de Sua própria vontade.

O homem ainda não tinha aprendido a verdade do provérbio, que “o sangue dos mártires é a semente da igreja.” No caso do primeiro e mais nobre dos mártires, o provérbio foi plenamente verificado. Mas em todas essas vinte centenas de anos os homens têm sido lentos para aprender, ou crer, nesse simples fato histórico. A perseguição, geralmente falando, tinha feito aumentar a causa que procuravam reprimir. Isso tem se provado verdadeiro na maioria dos casos, em qualquer tipo de perseguição ou de oposição . Resistência, decisão e firmeza são criadas por tal tratamento. Verdadeiramente, mentes tímidas podem ser levadas à apostasia por um tempo sob a perseguição; mas quão comumente tais, com o mais profundo arrependimento, e de modo a recuperar sua antiga posição, suportaram com a maior alegria os mais agudos sofrimentos, e mostraram em seus últimos momentos a maior fortaleza! Mas a perseguição, de uma forma ou de outra, deve ser esperada pelos seguidores de Jesus. Eles são exortados a tomar sua cruz diariamente e segui-Lo. Isto testa a sinceridade de nossa fé, a pureza de nossos motivos, a força de nossa afeição por Cristo, e a medida de nossa confiança nEle.

Aqueles que não são verdadeiros de coração para Cristo com certeza irão cair em tempos de afiada perseguição. Mas o amor pode perdurar até o fim, quando não houver mais nada a fazer. Vemos isso perfeitamente no próprio bendito Senhor. Ele suportou a cruz – que era de Deus: Ele desprezou a vergonha – que foi do homem. Foi em meio à vergonha e sofrimentos da cruz que toda a força do Seu amor apareceu, e na qual Ele triunfou sobre tudo. Nada poderia afastar Seu amor do objeto deste, ou seja, do Pai, pois era mais forte que a morte. Nisso, assim como em todas as coisas, Ele nos deixou um exemplo, de que devemos andar em Seus passos. Que possamos sempre ser encontrados seguindo-O de perto!

Da história da igreja em Atos aprendemos que o efeito do martírio de Estêvão foi a imediata propagação da verdade que seus perseguidores estavam tentando impedir. As impressões produzidas por tal testemunho, e tal morte, devem ter sido avassaladoras para seus inimigos, e convincentes para os imparciais e indecisos. O último recurso da crueldade humana é a morte. No entanto, é maravilhoso dizer que a fé cristã, em sua primeira dificuldade, provou-se mas forte que a morte em sua forma mais assustadora. O inimigo foi testemunha disso, e sempre se lembraria. Estêvão estava sobre a Pedra, e as portas do inferno não podiam prevalecer contra Ela.

Toda a igreja em Jerusalém, na ocasião, foi dispersa; mas eles iam por toda a parte pregando a Palavra. Como a nuvem que voa com o vento, levando sua chuva fresca a terras secas, assim os discípulos foram expulsos de Jerusalém pela tempestade da perseguição, levando as águas da vida às almas sedentes de terras distantes. “E fez-se naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judéia e de Samaria, exceto os apóstolos” (Atos 8:1). Alguns historiadores pensam que o fato dos apóstolos permanecerem em Jerusalém quando os discípulos fugiram prova, da parte deles, maior firmeza e fieldade na causa de Cristo, mas estamos dispostos a julgar o fato de modo diferente, e a considerá-lo uma falha em vez de fieldade. A comissão do Senhor a eles era: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). E eles tinham sido ensinados: “Quando pois vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra” (Mateus 10:23). Até onde a história das Escrituras nos informa, a comissão nunca foi realizada pelos doze. No entanto, Deus era poderoso em Paulo, para com os gentios, e em Pedro para com os judeus.

O Espírito Santo agora vai além de Jerusalém, para manifestar poder em terras estrangeiras – que solene verdade! Mas aquela cidade culpada preferia a dominação de Roma à ressurreição em poder de seu próprio Messias. “Que faremos?”, diziam os judeus, “porquanto este homem faz muitos sinais. Se o deixamos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação.” (João 11:47-48). Eles rejeitaram o Messias em Sua humilhação, e agora eles rejeitam o testemunho do Espírito Santo sobre Sua exaltação. A iniquidade deles era completa, e a ira se aproximava deles até o fim. Mas, por ora, nossa tarefa, seguindo o curso da história da igreja, é acompanhar o Espírito Santo em seu caminho a Samaria. Seu caminho é a linha prateada da graça salvadora para almas preciosas.

Os Triunfos do Evangelho em Samaria

Filipe, o diácono, evidentemente próximo a Estêvão em zelo e energia, desce à Samaria. O Espírito Santo opera por meio dele. Na sabedoria dos caminhos do Senhor, a desprezada Samaria é o primeiro lugar, fora da Judeia, onde o Evangelho foi pregado por Suas testemunhas escolhidas. “E, descendo Filipe à cidade de Samaria lhes pregava a Cristo. E as multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe dizia, porque ouviam e viam os sinais que ele fazia. E havia grande alegria naquela cidade.” (Atos 8:5-6,8). Muitos creram e foram batizados, tanto homens quanto mulheres. Até mesmo Simão Mago, o feiticeiro, experimentou a presença de um poder muito acima do seu próprio, e se curvou à força e corrente da obra do Espírito nos outros, embora a verdade não houvesse penetrado em seu próprio coração e consciência. Mas, como agora já viajamos a essa outra parte do país, este pode ser o momento apropriado para dizermos algumas palavras sobre sua história.

A Terra Santa, uma nação interessante, que se destaca entre as outras nações da Terra, tanto moral quanto historicamente, é em tamanho muito pequena. “É como um pedaço de um país, de tamanho próximo ao do País de Gales, com menos de 225 quilômetros de comprimento, e quase 64 quilômetros, em média, de largura”1. A parte norte é a Galileia; o centro, Samaria; o sul, a Judeia. Mas embora fisicamente tão pequena, ela foi o teatro dos acontecimentos mais importantes na história do mundo. Lá, o Salvador nasceu, viveu e foi crucificado – e lá Ele foi sepultado e ressuscitado. E lá, também, Seus apóstolos e mártires viveram, testificaram e sofreram. E lá o evangelho foi pregado pela primeira vez, e lá a primeira igreja foi plantada.

A terra ocupada por Israel se encontra entre os antigos impérios da Assíria e do Egito. Daí a frequente referência no Antigo Testamento ao “rei do Norte” e ao “rei do Sul”. Devido a essa posição, Israel foi muitas vezes o campo de batalha desses dois poderosos impérios, e sabemos que ainda será o cenário de seu último e mortal conflito (Daniel 11). Os homens têm sido tão supersticiosos sobre a Terra Santa que ela tem sido objeto de ambição nacional, e quase sempre motivo de guerras religiosas desde os dias dos apóstolos. Quem poderia estimar quanto sangue foi derramado, e o tesouro que foi desperdiçado por essas planícies sagradas? – e tudo, podemos acrescentar, sob o nome do zelo religioso, ou melhor, sob as bandeiras da cruz e da lua crescente. Para ali os peregrinos de todas as eras têm viajado para que pudessem adorar no “santo sepulcro” e cumprir seus votos. Também tem sido a grande atração para viajantes de todo tipo e de todas as nações, e o grande empório de “relíquias milagrosas”. O cristão, o historiador e o antiquário têm procurado diligentemente e feito conhecidas suas descobertas. Desde os dias de Abraão, esse tem sido o lugar mais interessante e atraente da face da Terra. E para o estudante da profecia, sua história futura é ainda mais interessante que seu passado. Ele sabe que o dia se aproxima, quando toda aquela terra será povoada pelas doze tribos de Israel, e cheia da glória e majestade de seu Messias. Então eles serão conhecidos como o povo metropolitano da Terra. Retornemos, agora, a Samaria, com sua nova vida e alegria.

Os samaritanos, por meio da bênção de Deus, prontamente creram no Evangelho pregado por Filipe. O efeito da verdade, recebida com simplicidade, foi imediato e do mais bendito caráter. “Havia grande alegria naquela cidade”, e muitos foram batizados. Tais devem ser sempre os efeitos do Evangelho, quando crido, a menos que haja algum obstáculo com relação a nós mesmos. Onde há genuína simplicidade de fé, deve haver paz e alegria genuínas, e uma feliz obediência. O poder do Evangelho sobre um povo que tinha, durante séculos, resistido às reivindicações do judaísmo, foi então demonstrado. O que a lei não podia fazer a este respeito, o Evangelho realizou. “Samaria foi uma ’conquista”’, disse alguém, “que toda a energia do judaísmo não tinha sido capaz de fazer. Foi um novo e esplêndido triunfo do Evangelho. O domínio espiritual do mundo pertencia à igreja.”

Jerusalém e Samaria Unidas pelo Evangelho

O amargo ciúme que existia entre judeus e samaritanos tinha sido, por muito tempo, proverbial; tanto que lemos: “os judeus não se comunicam com os samaritanos”. Mas agora, em conexão com o Evangelho da paz, essa raiz de amargura desaparece. No entanto, na sabedoria dos caminhos de Deus, os samaritanos devem esperar pela mais elevada bênção do Evangelho até que os crentes judeus – os apóstolos da igreja em Jerusalém – impusessem suas mãos sobre eles, e oferecessem orações por eles. Nada pode ser mais profundamente interessante do que esse fato, quando tomamos em consideração a rivalidade religiosa que tinha sido, por tanto tempo, manifesta por ambos. Se Samaria não tivesse recebido essa lição oportuna de humildade, ela poderia ter sido descartada, mais uma vez, por manter sua orgulhosa independência de Jerusalém. Mas o Senhor não teria deixado assim. Os samaritanos tinham crido, se regozijado, e foram batizados, mas ainda não tinham recebido o Espírito Santo. “Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Os quais, tendo descido, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo (porque sobre nenhum deles tinha ainda descido; mas somente eram batizados em nome do Senhor Jesus). Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo.” (Atos 8:14-17)

Identificação é a grande ideia da imposição de mãos, e unidade é a consequência do dom/dádiva do Espírito Santo. Esses são fatos importantes em conexão com o progresso da igreja. Samaria é, então, trazida à feliz associação com seu antigo rival, e feita uma só com a igreja em Jerusalém. Não há, na mente de Deus, pensamentos sobre uma assembleia ser independente da outra. Se elas tivessem sido abençoadas separada e independentemente, sua rivalidade poderia se tornar maior que nunca. Mas não deveria mais ser assim: “Nem neste monte nem em Jerusalém” (João 4:21), mas uma só Cabeça no Céu, um só corpo na Terra, um só Espírito, uma só família redimida adorando a Deus em espírito e em verdade, porque o Pai procura os que assim O adoram2.

Para saber mais sobre a origem da mistura de povos e sobre a adoração de Samaria, leia 2 Reis 17. Eles eram apenas “metade” judeus, apesar de se gabarem por sua relação com Jacó. Eles consideravam os cinco livros de Moisés sagrados, mas subestimavam o restante da Bíblia. Eles eram circuncidados, guardavam a lei de maneira não muito fiel, e esperavam a vinda de um Messias. A visita pessoal do bendito Senhor a Samaria é do mais profundo e tocante interesse (João 4). Da fonte na qual Ele descansou diz-se que “ficava em um vale entre as duas famosas montanhas Ebal e Gerizim, onde foi lida a lei. Sobre este último estava o templo rival dos samaritanos, que por tanto tempo afligiu os judeus mais zelosos por sua ousada oposição ao único santuário escolhido, no Monte Moriá.”

O Eunuco Etíope Recebe o Evangelho

Filipe é agora chamado a deixar sua feliz e interessante obra em Samaria e descer até Gaza – um deserto – e lá pregar o evangelho a uma única pessoa. Certamente há, nesse fato, uma lição da mais profunda importância para o evangelista, e uma que não podemos deixar passar sem alguma breve observação.

O pregador, em tal cenário de despertar e conversão como houve em Samaria, necessariamente torna-se muito interessado na obra. Deus está colocando seu selo sobre o ministério da Palavra, e sancionando as reuniões em Sua presença. O obra do Senhor prospera. O evangelista é cercado de respeito e afeição, e seus filhos na fé naturalmente procuram por ele para obter mais luz e instrução para seus caminhos. “Como poderia ele deixar tal campo de trabalho?”, muitos perguntariam, “Seria correto partir?”. Apenas, respondemos, se o Senhor chamasse Seu servo a fazer isso, como Ele fez no caso de Filipe. Mas como alguém pode saber hoje em dia, visto que anjos e o Espírito não nos falam como falavam com Filipe? Embora um cristão, hoje em dia, não seja chamado dessa forma, ele deve procurar e esperar pela orientação divina. A fé deve ser seu guia. As circunstâncias não são seguras como guias; elas podem até nos repreender e nos corrigir em nosso andar, mas é o olho de Deus que deve ser nosso guia. “Guiar-te-ei com os meus olhos”, essa é a promessa, “instruir-te-ei, e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir” (Salmos 32:8).

Somente o Senhor sabe o que é melhor para Seus servos e para Sua obra. O evangelista, em tal cenário, correria o risco de sentir sua própria importância pessoal. Daí o valor, se não a necessidade, da mudança do lugar de serviço.

“Levanta-te”, falou o anjo do Senhor a Filipe, “e vai para o lado do sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta. E levantou-se, e foi; e eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração, regressava e, assentado no seu carro, lia o profeta Isaías. E disse o Espírito a Filipe: Chega-te, e ajunta-te a esse carro.” (Atos 8:27-29)

É bela a obediência imediata e incondicional de Filipe nesse momento. Ele não faz nenhum questionamento sobre a diferença entre Samaria e Gaza – entre sair de um amplo campo de trabalho e partir para um lugar deserto para falar com uma única pessoa sobre a salvação. Mas o Espírito de Deus estava com Filipe. E o único desejo do evangelista deveria ser de sempre seguir a direção do Espírito. A partir da falta de discernimento espiritual, um pregador poderia permanecer no mesmo lugar após o Espírito ter terminado seu trabalho ali, e assim o serviço é vão.

Deus, em Sua providência, cuida de Seu servo. Ele envia um anjo para direcioná-lo quanto à estrada que ele havia de tomar. Mas quando se trata do evangelho e do lidar com almas, o Espírito toma a direção. “E disse o Espírito a Filipe: Chega-te, e ajunta-te a esse carro.” Não sabemos de nada, em toda a história da igreja, mais interessante que essa cena no caminho para Gaza. O anjo e o Espírito de Deus acompanham o evangelista: o primeiro representando a providência de Deus em indicar exatamente a estrada a tomar, e o último representando o poder espiritual direcionando o lidar com as almas. Assim como era, assim é agora, embora tendemos a adotar mais o hábito de pensar na orientação do Espírito do que na direção de providência. Que possamos confiar em Deus para tudo! Ele nunca muda!

O evangelho agora encontra seu caminho, na pessoa do tesoureiro da rainha, para o centro da Abissínia. O eunuco crê, é batizado, e segue seu caminho cheio de alegria. O que ele procurava, em vão, em Jerusalém, tendo seguido uma longa jornada até lá, ele encontra no deserto. Um belo exemplo da graça do evangelho! A ovelha perdida é encontrada no deserto, e águas vivas brotam de lá. O eunuco é também um belo exemplo de uma alma ansiosa. Quando sozinho e ocioso, ele lê o profeta Isaías. Ele reflete sobre a profecia do sofrimento sem resistência do Cordeiro de Deus. Mas o momento de luz e libertação era chegado. Filipe explica o profeta: o eunuco é ensinado por Deus – ele crê: imediatamente deseja o batismo e retorna para casa, cheio das novas alegrias da salvação. Será que ele ficaria calado sobre o que encontrou quando lá chegasse? Certamente não, um homem de tal caráter e influência teria muitas oportunidades de disseminar a verdade. Mas, como tanto as Escrituras quanto a história são omissas quanto aos resultados de sua missão, não nos aventuremos além.

O Espírito é ainda visto em companhia de Filipe e o leva para longe. Ele se encontra, então, em Azoto, e evangeliza todas as cidades até Cesareia.

Mas uma nova era na história da igreja começa a despontar. Um novo obreiro entra em cena: o mais notável, em muitos aspectos, que já serviu ao Senhor e à Sua igreja.

A Conversão de Saulo de Tarso

Nenhum evento no progresso da história da igreja a afeta tão profundamente, ou tão felizmente, quanto a conversão de Saulo de Tarso. De principal dos pecadores ele se tornou o principal dos santos – do mais violento opositor de Cristo ele se tornou o mais zeloso defensor da fé – como inimigo e perseguidor do nome de Jesus na Terra, ele era o “principal”; todos os outros, em comparação a ele, eram subordinados (Atos 9; 1 Timóteo 1).

É bastante evidente, a partir do que ele fala sobre si mesmo, que ele acreditava que o judaísmo era não só divino, mas a perpétua e imutável religião de Deus para o homem. Seria difícil explicar a força de seus preconceitos judaicos sobre qualquer outro princípio. Portanto, todas as tentativas de pôr de lado a religião dos judeus, e de introduzir outra, ele considerava como sendo algo do inimigo, devendo ser arduamente combatidas. Ele tinha ouvido o nobre discurso de Estêvão – ele tinha testemunhado sua morte triunfante – mas sua subsequente perseguição aos cristãos mostrou que a glória moral daquela cena não o havia impressionado de maneira séria em sua mente. Ele foi cegado pelo zelo; mas o zelo pelo judaísmo agora era um zelo contra o Senhor. Neste exato momento ele estava “respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor” (Atos 9:1).

Ouvindo que alguns dos santos perseguidos haviam encontrado um abrigo em Damasco, uma antiga cidade da Síria, ele se convenceu a ir até lá e trazê-los de volta a Jerusalém como criminosos. Para este fim, ele recebeu cartas do sumo sacerdote e do conselho de anciãos, de que ele poderia trazê-los presos a Jerusalém para serem punidos (Atos 22, 26). Ele, então, se torna o próprio apóstolo da malícia judaica contra os discípulos de Jesus – ignorantemente, sem dúvida, mas ele se fez o missionário voluntário deles.

Com sua mente forjada até o tom mais violento do zelo perseguidor, ele segue em sua memorável jornada. Inabalável em seu apego fervoroso pela religião de Moisés, e determinado a punir os convertidos ao cristianismo como apóstatas da fé de seus ancestrais, ele se aproxima de Damasco. Mas lá, na plena energia de sua louca carreira, o Senhor Jesus o detém. Uma luz dos céus, mais forte que a luz do sol, brilha em torno dele, e o subjuga com seu brilho ofuscante. Ele cai por terra – com a vontade quebrada, a mente subjugada, o espírito humilhado, e completamente mudado. Seu coração é agora sujeito à voz que fala com ele. Raciocínio, extenuação e auto-justificação não têm lugar na presença do Senhor.

Uma voz da magnífica glória disse-lhe: “Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues.” (Atos 9:4-5). Então o Senhor Jesus, mesmo estando no Céu, declara que Ele próprio é ainda identificado com Seus discípulos na Terra. A unidade da igreja com Cristo, sua Cabeça nos céus, a semente da bendita verdade do “um só corpo”, é resumida nessas poucas palavras: “Saulo, Saulo, por que me persegues? … Eu sou Jesus, a quem tu persegues.” Estar em guerra contra os santos é o mesmo que estar em guerra contra o próprio Senhor. Que bendita verdade para o crente, mas quão solene para o perseguidor!

A visão que Saulo tinha visto e a terrível descoberta que ele tinha feito o absorveram completamente. Ele fica cego por três dias, e não pode comer nem beber. Então ele entra em Damasco, cego, quebrantado e humilhado pelo solene juízo do Senhor! Quão diferente daquilo que ele pretendia! Ele agora se une à companhia daqueles que ele tinha resolvido exterminar. No entanto, ele entra pela porta, e humildemente toma seu lugar entre os discípulos do Senhor. Ananias, um discípulo fiel, é enviado para confortá-lo. Ele recebe sua vista de volta, é cheio do Espírito Santo, é batizado, e então é alimentado e fortalecido.

Alguns pensam que o Senhor dá, na conversão de Paulo, não somente uma amostra de Sua longanimidade, como em todo o pecador que é salvo, mas também um sinal da futura restauração de Israel. Paulo nos conta, ele próprio, ter obtido misericórdia porque ele fez tudo aquilo em ignorante incredulidade – e tal será a mesma situação de Israel nos últimos dias quando receber misericórdia. Como nosso próprio Senhor orou por eles: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). Pedro também diz: “E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também os vossos príncipes” (Atos 3:17)

Mas, como o apostolado de Paulo difere, em muitos aspectos, do apostolado dos doze, será necessário observá-lo mais um pouco. A menos que essa diferença seja compreendida, o verdadeiro caráter da presente dispensação poderá não ser apreendida de maneira tão consistente.

O Apostolado de Paulo

A lei e os profetas foram até João; após João o próprio Senhor, em Sua própria Pessoa, oferece o reino à Israel, mas “os Seus não O receberam”. Eles crucificaram o Príncipe da vida, mas Deus O ressuscitou dentre os mortos, fazendo-O sentar à Sua direita nos lugares celestiais. Temos então os doze apóstolos. Eles são dotados com o Espírito Santo, e levam o testemunho da ressurreição de Cristo. Mas o testemunho dos doze é desprezado, o Espírito Santo é resistido, Estêvão é martirizado, a oferta final de misericórdia é rejeitada, e agora o tratamento de Deus com Israel como um povo é encerrado por um tempo. As cenas de Siló são encenadas novamente, Icabode é escrito em Jerusalém, e uma nova testemunha é convocada, como nos dias de Samuel. (Leia 1 Samuel 4)

Chegamos agora ao grande apóstolo dos gentios. Ele é como um nascido fora do tempo e fora de seu devido lugar. Seu apostolado não tinha nada a ver com Jerusalém ou com os doze. Era fora de ambos. Seu chamado era extraordinário e vindo direto do Senhor no Céu. Ele tem o privilégio de trazer a novidade: o caráter celestial da igreja – que Cristo e a igreja são um, e que o Céu é seu lar em comum (Efésios 1,2). Enquanto Deus estava tratando com Israel, essas benditas verdades estavam guardadas em segredo em Sua própria mente. “A mim,”, diz Paulo, “o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo.” (Efésios 3:8-9)

Não podia haver dúvidas sobre o caráter do chamado do apóstolo quanto à sua autoridade divina. “Não da parte dos homens, nem por homem algum”, como diz ele em sua Epístola aos Gálatas, “mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gálatas 1:1). Isto é, não era “da parte dos homens”, quanto à sua fonte, nem de qualquer Sínodo de homens oficiais. “Nem por homem algum”, foi como veio sua comissão. Ele não era apenas um santo, mas um apóstolo por chamado: e esse chamado era por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que O ressuscitou dentre os mortos. Em alguns aspectos, seu apostolado foi ainda de mais alta ordem do que o dos doze. Estes tinham sido chamados por Jesus quando na Terra; aquele tinha sido chamado pelo Cristo ressuscitado e glorificado no Céu. E, sendo seu chamado vindo do Céu, não necessitava nem da sanção nem do reconhecimento dos outros apóstolos. “Mas, quando aprouve a Deus … revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.” (Gálatas 1:15-17)

A forma como Saulo foi chamado para apóstolo é digna de nota especial, pois bate de frente com a raiz do orgulho judaico, e pode também ser vista como o golpe mortal à vã noção de sucessão apostólica. Os apóstolos, a quem o Senhor tinha escolhido e nomeado quando estava na Terra, não eram nem a fonte nem o canal, de maneira alguma, da nomeação de Paulo. Eles não lançaram sortes para ele, como fizeram no caso de Matias (Atos 1). Ali eles estavam apenas em terreno judeu, o que pode explicar sua decisão por sorteio. Era um antigo costume, em Israel, descobrir a vontade divina por esses modos. Mas estas enfáticas palavras: “Paulo, apóstolo, não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo”, excluem completamente a intervenção do homem sob qualquer forma. A sucessão apostólica é descartada. Somos santos por chamado e servos por chamado. E tal chamado deve vir do Céu. Paulo está diante de nós como um verdadeiro padrão para todos os pregadores do evangelho, e para todos os ministros da Palavra. Nada pode ser mais simples que o terreno que ele toma como pregador, sendo o grande apóstolo que era. “E temos, portanto, o mesmo espírito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos.” (2 Coríntios 4:13)

Imediatamente após ser batizado e fortalecido, ele começou a confessar sua fé no Senhor Jesus e a pregar nas sinagogas de que Ele era o Filho de Deus. Isto é algo novo. Pedro pregava que Ele tinha sido exaltado à destra de Deus – que Ele tinha sido feito tanto Senhor quanto Cristo, mas Paulo prega uma doutrina mais elevada sobre Sua glória pessoal – “que Ele é o Filho de Deus”. Em Mateus 16, Cristo é revelado pelo Pai aos discípulos como “o Filho do Deus vivo”. Mas agora Ele é revelado, não apenas a Paulo, mas em Paulo. “Aprouve a Deus … revelar seu Filho em mim” (Gálatas 1:15-16), disse ele. Mas quem é suficiente para falar dos privilégios e bênçãos daqueles a quem o Filho de Deus é, pois, revelado? A dignidade e segurança da igreja descansa sobre essa bendita verdade, e também sobre o evangelho da glória, que foi especialmente confiado a Paulo, e que ele chama de “meu evangelho”.

“Sobre o Filho assim revelado”, disse alguém docemente, “paira tudo o que é peculiar ao chamado e glória da igreja – suas santas prerrogativas – aceitação no Amado com perdão dos pecados por meio de Seu sangue – entrada para os tesouros da sabedoria e do conhecimento, de modo a tornar conhecido, a nós, o mistério da vontade de Deus – herança futura nEle e com Ele, no qual todas as coisas nos céus e na Terra serão congregadas – e o presente selo e penhor dessa herança, o Espírito Santo. Tal brilhante sequência de privilégios é escrita pelo apóstolo desta maneira: ”bênçãos espirituais nos lugares celestiais“ (Efésios 1:3-14); e assim são elas; bênçãos através do Espírito fluindo e nos ligando a Ele, que é o Senhor nos céus.”3

Mas a doutrina da igreja – o mistério do amor, da graça e do privilégio – não tinha sido revelada até Paulo a ter declarado. O Senhor tinha falado dela quanto ao efeito que teria a presença do Consolador, dizendo: “Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós.” (João 14:20). E novamente, quando Ele diz aos discípulos após a ressurreição: “Eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.” (João 20:17). Dessa “sequência brilhante” de bênçãos Paulo foi, especial e caracteristicamente, o apóstolo.

Devemos agora deixar um pouco de lado a história de Saulo e voltar a Pedro, que ocupa o campo até que Paulo comece seu ministério público em Atos 13.


Dicionário Bíblico de Smith↩

Veja Lecture 6 de Atos 2, 8, 10, 19. Lectures on the New Testament Doctrine of the Holy Spirit, por W. Kelly.↩

Veja mais detalhes sobre esse assunto em John Gifford Bellet, Christian Witness [Testemunho cristão], v. 4, p. 221; William Kelly, Introductory Lectures on Galatians [Estudos introdutórios sobre Gálatas], cap. 1.↩

Os Apóstolos e os Pioneiros

Os Primeiros Missionários da Cruz

Em vez de passar por cima dos capítulos restantes de Atos achamos que pode ser mais interessante e igualmente instrutivo para nossos leitores considerá-los em conexão com a história dos apóstolos, especialmente com a história dos dois grandes apóstolos. O livro de Atos é quase inteiramente ocupado com os atos de Pedro e de Paulo, embora, é claro, sob a direção do Espírito Santo: o primeiro como o grande apóstolo dos judeus, e o segundo como o grande apóstolo dos gentios. Mas seria também de interesse abraçar a presente oportunidade para observar brevemente os primeiros companheiros e missionários pessoalmente escolhidos por nosso bendito Senhor – os doze apóstolos.

Mas, antes de tentarmos um esboço dessas interessantes vidas, parece bem declarar qual objetivo temos em vista ao fazê-lo. Estamos saindo um pouco do curso que estávamos seguindo. Em nenhuma das publicações sobre a história da igreja que conhecemos a vida dos apóstolos é apresentada de forma ordenada, e é estranho que os grandes fundadores da igreja não achem seus lugares em sua história.

Ao mesmo tempo, no que diz respeito aos apóstolos, temos que ter em mente que, além da narrativa sagrada, há bem pouco material sobre o qual possamos nos apoiar. O tradicional e o bíblico, o certo e o incerto, são quase desamparadamente misturados nos escritos dos Pais da Igreja. Cada raio de luz histórico distinto é de grande valor, mas são somente as Escrituras que podemos tomar por totalmente corretas. Ainda assim, as poucas notas que temos ali espalhadas, de alguns dos apóstolos, quando reunidas, podem dar ao leitor uma ideia da pessoa e individualidade de cada um. Outros, também notamos, além dos apóstolos, aparecerão em conexão com eles, especialmente com Paulo. Assim nossos leitores terão, de maneira conveniente, um breve resumo de quase todos os nobres pregadores, professores, confessores e mártires do Senhor Jesus que são mencionados no Novo Testamento.

Os Doze Apóstolos

Eram eles: Simão Pedro, André, Tiago e João (filhos de Zebedeu), Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago (filho de Alfeu), Tadeu, Simão o Zelote, e Matias, que foi escolhido para substituir Judas Iscariotes. Veja Mateus 10, Lucas 6, Marcos 3 e Atos 1.

Paulo também foi um apóstolo por chamado direto do Senhor, no sentido mais elevado, como já vimos. Havia outros que eram chamados de apóstolos, mas eram mais especificamente apóstolos das igrejas. Os doze e Paulo eram proeminentemente os apóstolos do Senhor. Compare 2 Coríntios 8:23, Filipenses 2:25 e Romanos 16:7.

O nome oficial, “apóstolo”, significa “enviado”. “Jesus enviou estes doze.” (Mateus 10:5). Esse nome foi dado aos doze pelo próprio Senhor. “Chamou a si os seus discípulos, e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de apóstolos” (Lucas 6:13). Conhecê-Lo pessoalmente e tê-Lo acompanhado por todo o seu ministério era a original e necessária qualificação de um apóstolo. Isso foi afirmado por Pedro antes da eleição de um sucessor para o traidor Judas. “É necessário, pois, que, dos homens que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o batismo de João até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição.” (Atos 1:21-22). Por essa relação pessoal com o Senhor eles foram particularmente indicados para serem as testemunhas de Sua trajetória sobre a Terra. Ele mesmo os descreve como “os que têm permanecido comigo nas minhas tentações” (Lucas 22:28)

Acreditamos que o número doze marca nitidamente sua relação com as doze tribos de Israel. As fantasias dos pais (cristãos proeminentes do início da história da igreja) quanto ao significado do número aqui escolhido mostra o quão pouco suas mentes eram governadas pelo contexto. Santo Agostinho “acha que a menção de nosso Senhor aos quatro cantos do mundo, aos quais os apóstolos foram chamados a pregar o evangelho, e que, ao multiplicar por três, como denotando a Trindade, resulta em doze.” Ao não enxergar a distinção entre Israel e a igreja, existe muita confusão por parte de tais escritores.

Cremos que o número doze nas Escrituras significa a completude administrativa no homem. Daí as doze tribos, os doze apóstolos, e a promessa a estes, de que se sentariam em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel (Mateus 19:28). Mas aqui, nos termos mais claros possíveis, o Senhor limita a missão dos doze às ovelhas perdidas da casa de Israel. Não era nem mesmo para eles irem visitar os samaritanos, nem os gentios. A missão se restringia aos judeus. “Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 10:5-6). Certamente nada poderia ser mais claro. O chamado da igreja não é mencionado aqui. Isto aconteceu depois, quando um outro extraordinário apóstolo foi escolhido, tendo em vista especialmente os gentios. Depois os doze teriam seu próprio lugar na igreja, mas Paulo foi seu divinamente chamado e qualificado ministro.

Há uma noção geral de que os doze eram completamente analfabetos, com a qual não podemos concordar. A expressão “homens sem letras e indoutos”, como usada pelo conselho em Atos 4:13, apenas denotava pessoas que não tinham sido ensinadas na tradição rabínica dos judeus. Seria a mesma ideia do termo “leigo”, isto é, homens de educação regular, em contrate com aqueles que foram especialmente treinados nas escolas de eruditos, ou homens que não participam de “ordens sagradas”. Assim, Pedro e João podem ter sido completamente familiarizados com as Sagradas Escrituras e com a história de seu país e de seu povo, e ainda assim serem considerados, pelo conselho, como “homens iletrados e indoutos”. Tiago e João, pelo menos, tinham todas as vantagens do ensinamento de uma mãe fiel e devota, que muitas vezes fez grandes coisas para a igreja de Deus.

Vamos, agora, passar brevemente as vistas a cada um dos doze.

O Apóstolo Pedro (Parte 1)

Vamos, agora, passar brevemente as vistas a cada um dos doze.

O primeiro, em ordem, é o apóstolo Pedro. Não pode haver dúvida de que Pedro esteve em primeiro lugar entre os doze. O Senhor lhe deu tal posição. Ele é o primeiro a ser mencionado em todas as listas dos apóstolos. Essa precedência, como sabemos, não veio por ter conhecido o Senhor primeiro, pois ele não tinha sido nem o primeiro nem o último. André, e provavelmente João, conheceram o Senhor antes de Pedro. Vamos aqui observar, com o mais profundo interesse, o primeiro encontro desses amigos que iriam ser unidos para sempre. Leia João 1:29-51.

João Batista presta testemunho a Jesus como o Cordeiro de Deus que tiraria o pecado do mundo. Dois dos discípulos de João o deixam e seguem Jesus. “Era André, irmão de Simão Pedro, um dos dois que ouviram aquilo de João, e o haviam seguido. Este achou primeiro a seu irmão Simão, e disse-lhe: Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo). E levou-o a Jesus.” (João 1:40-42). Essa foi a primeira introdução de Pedro ao Senhor – àquele que havia de ser a fonte de sua felicidade para sempre. E quão significante foi esse primeiro encontro! “E levou-o a Jesus. E, olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro).” (João 1:42). Naturalmente impulsivo, rápido em se valer de um objetivo, mas pronto demais para desistir pela força de qualquer pressão, ele tem, pela graça do Senhor, a firmeza que lhe foi dada, embora vez ou outra seu caráter natural aparece.

A primeira coisa que leva Pedro à grande proeminência é sua nobre confissão de Cristo como o Filho do Deus vivo (Mateus 16). O Senhor, então, o honrou com as chaves do reino dos céus, e deu-lhe um lugar de proeminência entre seus irmãos. Mas essa parte da história de Pedro, somados a alguns dos primeiros capítulos de Atos já consideramos anteriormente. Portanto, nos referiremos somente aos pontos que ainda não tocamos.

Ainda não nos referimos ao quarto capítulo de Atos embora estejamos dispostos a pensar que ali é apresentado o dia mais brilhante da história do apóstolo, enquanto o batismo de Cornélio apresenta o dia culminante de seu ministério. Como ali é constantemente demonstrado, no grande apóstolo, uma mistura de força e fraqueza, de excelências e defeitos, é profundamente interessante que tracemos seu caminho através dos primeiros temporais que assolaram a recém-nascida igreja. Mas não devemos nos esquecer que o grande segredo da ousadia, sabedoria e poder dos apóstolos não vinham de seu caráter natural, mas sim da presença do Espírito Santo. Ele estava com eles e neles, e trabalhando por eles. O Espírito Santo era a força do testemunho deles.

Observe, em particular, os benditos efeitos da presença do Espírito Santo em quatro aspectos distintos:

1. Na coragem demonstrada por Pedro e pelos outros. “Então Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse: Principais do povo, e vós, anciãos de Israel, visto que hoje somos interrogados acerca do benefício feito a um homem enfermo, e do modo como foi curado, seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” (Atos 4:8-12) A grande e solene questão entre Deus e os governantes de Israel é aqui formalmente declarada. Nada pode ser mais simples. O testemunho de Deus não está mais com os dirigentes do templo, mas com os apóstolos do exaltado Messias.

2. Em Sua presença com os discípulos reunidos (em assembleia). “E, tendo orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com ousadia a palavra de Deus.” (Atos 4:31) Esse versículo claramente ensina o que têm sido tantas vezes falado quanto ao Espírito estar com os discípulos e neles. O lugar onde eles estavam reunidos foi chacoalhado; isto prova Sua presença com eles. Mas eles também estavam cheios do Espírito Santo – tão cheios, cremos, que naquele momento não havia espaço para a carne agir.

3. Em grande poder quanto ao serviço. “E os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça.” (Atos 4:33) Prontidão e energia agora caracterizam os apóstolos.

4. Dedicação de todo o coração. “Todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos.” (Atos 4:34) No capítulo dois, os ricos davam, eles mesmos, aos pobres: algo que dificilmente poderia ser feito sem atribuir importância ao doador. Mas no capítulo quatro, os ricos deixavam o dinheiro aos pés dos apóstolos. Deveríamos aceitar este fato como um claro sinal de aumento de humildade, e de grande devoção.

É também nesse completo e instrutivo capítulo que temos a famosa resposta de Pedro e João ao conselho. “Julgai vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes a vós do que a Deus.” (Atos 4:19) Daquele dia em diante os verdadeiros confessores do nome de Jesus encontram, nessas palavras, uma resposta adequada a seus inquisidores e opressores. Que diferença, podemos exclamar, entre o homem que sentou ao fogo no pátio do sumo sacerdote (Mateus 26:69-75) e o homem que toma a dianteira em Atos 4 – entre o homem que caiu diante da acusação de uma criada e o homem que faz a nação tremer com seus apelos! “Mas como essa diferença pode ser explicada?”, alguns podem perguntar. A explicação completa para isso é a presença e poder de um Espírito Santo não entristecido ou extinto. E a fraqueza ou poder de muitos hoje em dia pode ser explicada pelo mesmo princípio. O Espírito de Deus é o único poder no cristão. Que possamos conhecer a bem-aventurança de viver, andar e trabalhar no poder salvador e santificador do Espírito Santo! “E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o dia da redenção.” (Efésios 4:30)

O Apóstolo Pedro (Parte 2)

Chegamos agora à última seção na narrativa sagrada da história de Pedro. Do versículo 32 do capítulo 9 ao versículo 18 do capítulo 11 de Atos temos um relato de suas pregações e milagres. Ali o vemos mais uma vez em plena autoridade apostólica, e o Espírito Santo trabalhando com ele. Sua missão nesse momento foi grandemente abençoada, tanto nas cidades de Israel quanto na Cesareia. Toda a cidade de Lida e o distrito de Sarona parecem ter sido despertados. Os milagres feitos por Pedro, e o evangelho por ele pregado, foram usados por Deus para a conversão de muitos. Assim, lemos: “E viram-no todos os que habitavam em Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor.” (Atos 9:35). A benção era geral. “Se converter ao Senhor” é a ideia de conversão encontrada nas Escrituras. E em Jope também, pela ressurreição de Dorcas, havia grande agitação e benção. “E foi isto notório por toda a Jope, e muitos creram no Senhor.” (Atos 9:42)

No capítulo 10 – que já consideramos – os gentios são trazidos à igreja. E agora Pedro, tendo terminado sua missão por essas bandas, retorna a Jerusalém. Após o relato de sua libertação do poder de Herodes no capítulo 12, não temos mais relatos sobre a história do apóstolo da circuncisão em Atos.

Como Herodes Agripa, o rei idumeu, tem papel tão proeminente nessa história, pode ser interessante tomar nota sobre ele. Ele professava grande zelo pela lei de Moisés e mantinha um certo respeito para com sua observância externa. Desse modo, ele ficou do lado dos judeus contra os discípulos de Cristo, sob um fingido zelo religioso. Esta era sua política. Era uma figura do rei adversário.

Foi por volta de 44 d.C. que Herodes buscou se insinuar com seus súditos judeus, perseguindo os inofensivos cristãos. Não que houvesse qualquer amor entre Herodes e os judeus, posto que se odiavam de coração; mas aqui eles se uniram, pois ambos odiavam o testemunho celestial. Herodes matou Tiago com a espada e lançou Pedro na prisão. Era sua intenção perversa mantê-lo lá até depois da Páscoa, e então, quando uma grande quantidade de judeus de todas as partes estivessem em Jerusalém, fariam um espetáculo público de sua execução. Mas Deus preservou e libertou Seu servo em resposta às orações dos santos. Eles têm armas de guerra que os governantes do mundo não conhecem. Deus permitiu que Tiago selasse seu testemunho com seu sangue, mas preservou Pedro para que pudesse ser testemunha na Terra por mais tempo. Assim nosso Deus governa sobre tudo. Ele é o Governador entre as nações, seja qual for o orgulho e a vontade do homem. O poder pertence a Ele. Débil, de fato, é o poder de cada inimigo quando Ele interfere. Herodes, tornando-se perplexo e confuso diante das manifestações de um poder que ele não podia entender, condena os guardas da prisão à morte, e deixa Jerusalém. Mas ele nem imaginava que sua própria morte precederia a de seus próprios prisioneiros.

Em Cesareia, a sede gentia de sua autoridade, ele ordenou que se fizesse uma festa magnífica em honra ao Imperador Cláudio. Somos informados de que multidões da mais alta hierarquia, vindas de todos os cantos, foram reunidas. Na segunda manhã de festividades, o rei apareceu em um manto prateado de grande esplendor, que brilhava com os raios do sol, de modo que ofuscava os olhos de toda a assembleia e provocava admiração geral. Ao fazer um discurso ao povo, de seu trono, alguns de seus bajuladores levantaram um grito: “É a voz de um deus!”. Herodes, em vez de reprimir tal ímpia adulação, que se espalhou pelo teatro, a aceitou. Mas um senso do julgamento de Deus, naquele momento, atravessou o coração do rei. Em tom de profunda melancolia ele disse: “Seu deus irá, em breve, sofrer da comum sina da mortalidade”. Na força da linguagem das Escrituras, está escrito assim: “E no mesmo instante feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus e, comido de bichos, expirou.” (Atos 12:23). Ele foi, então, tomado de intensas dores violentas, e levado do teatro a seu palácio. Ali ele permaneceu por cinco dias, e morreu na maior agonia, e na mais humilhante e repugnante condição possível.

A Linhagem Real Herodiana

Não seria fora de propósito ou tedioso para o leitor se observarmos por um momento a linhagem real herodiana. Eles frequentemente aparecem, tanto na vida de nosso Senhor quanto no começo da história da igreja. Os temos associados em nossas mentes, desde cedo, com o massacre das crianças em Belém e Herodes, o rei da Judeia, embora seja de certo modo notável que Josefo, o principal historiador de Herodes, não menciona esse evento. Em geral pensa-se que o assassinato de algumas crianças em uma vila obscura, em comparação com outros Atos sanguinários de Herodes, não era muito importante aos olhos de Josefo para ser registrado. Mas não sucedia o mesmo na mente de Deus: tanto o engano quanto a crueldade do traiçoeiro coração do rei estão registrados na narrativa sagrada. O olho de Deus vigiava o “Menino nascido” a Israel – a única fonte de esperança para todas as nações. O cruel desígnio de Herodes foi, assim, derrotado.

Herodes, o Grande, o primeiro rei idumeu de Israel, recebeu o reino do Senado de Roma através da influência de Marco Antônio. Isto ocorreu cerca de trinta e cinco anos antes do nascimento de Cristo (35 a.C.), e cerca de trinta e sete anos antes de sua própria morte. Esses idumeus eram uma ramificação dos antigos edomitas que, enquanto os judeus estavam no cativeiro babilônico, e sua terra desolada, tomaram posse tanto da parte sul da mesma, que fazia parte de toda a herança da tribo de Simeão, quanto de metade da terra que tinha sido a herança da tribo de Judá; e ali eles permaneceram até então. No decorrer do tempo, os idumeus foram conquistados por João Hircano e levados ao judaísmo. Após sua conversão, eles receberam a circuncisão, se submeteram às leis dos judeus, e se incorporaram à nação judaica. Desse modo, se tornaram judeus, embora não fizessem parte da linhagem original de Israel. Isto aconteceu por volta de 129 a.C. Eles eram audaciosos, espertos e cruéis como príncipes: tinham grande visão política, cortejavam a favor de Roma, e se preocupavam apenas com o estabelecimento de sua própria dinastia. Mas, pela vontade de Deus, com a destruição de Jerusalém, a dinastia idumeia acabou, e até mesmo o próprio nome de Herodes parece ter perecido entre as nações.

Além do massacre das crianças em Belém, que aconteceu pouco antes da morte de Herodes, ele também tinha encharcado suas mãos no sangue de sua própria família, e no sangue de muitas pessoas nobres da linhagem asmoneia. Sua cruel inveja em relação àquela família nunca dormia. Mas um de seus últimos Atos foi assinar a sentença de morte de seu próprio filho. No leito de morte – o que evidentemente foi um juízo de Deus, tal como aconteceu com seu neto, Herodes Agripa – ele conseguiu se levantar da cama para dar o mandato de execução de Antípatro e nomear Arquelau como seu sucessor no trono. Feito isso, caiu para trás e expirou.

Dessa forma, infelizmente, os monarcas muitas vezes morriam: distribuindo mortes com uma mão e reinos com a outra. Mas, e depois? Na realidade nua a crua de sua própria condição moral, eles devem comparecer ante o tribunal de Deus. O manto púrpura não mais poderá protegê-los. Uma justiça inflexível rege aquele trono. Julgados de acordo com as obras feitas no corpo, eles devem ser banidos eternamente para além do “abismo” que foi “posto” pelo juízo de Deus (Lucas 16:26). Ali lembrarão, em tormentos, cada momento de sua história passada – dos privilégios que abusaram, das oportunidades que perderam, e de todo mal que fizeram. Que o Senhor possa salvar cada alma que olha para estas páginas do terrível peso destas palavras: “lembrar”; “tormento”; “posto”. Elas descrevem e caracterizam o futuro estado das almas impenitentes (Lucas 16).

A seita dos herodianos provavelmente era composta dos partidários de Herodes e tinha caráter principalmente político, tendo, como principal objetivo, a manutenção da independência nacional dos judeus em face do poder e ambição romanos. Eles devem ter pensado em usar Herodes para o cumprimento dessa finalidade. Na história narrada nos evangelhos, eles são lembrados por agir com astúcia para com o bendito Senhor, e em conspirar com os fariseus. (Mateus 22:15,16; Marcos 12:12, 14).

Vamos agora retornar à história de nossos apóstolos.

Em Atos 15, após uma ausência de mais ou menos cinco anos, Pedro aparece novamente. No entanto, durante aquele tempo não sabemos nada sobre sua morada ou trabalho. Ele tem um papel ativo na assembleia em Jerusalém, e parece ter mantido seu antigo lugar entre os apóstolos e anciãos.

Pedro na Antioquia

Pouco tempo depois, como aprendemos em Gálatas 2, Pedro faz uma visita à Antioquia. Mas apesar da decisão dos apóstolos e da igreja em Jerusalém, uma característica fraqueza de Pedro o trai em um ato de dissimulação. Uma coisa é resolver uma questão na teoria, e outra é realizá-la na prática. Pedro tinha, realmente, declarado na assembleia que o evangelho que Paulo pregava, pela revelação dada a ele, não era nada menos do que uma bênção tanto para o judeu quanto para o gentio. E, enquanto sozinho na Antioquia, ele agiu nesse princípio, andando na liberdade da verdade celestial e comendo com os gentios. Mas quando alguns cristãos judeus vieram da parte de Tiago, ele não mais se atreveu a usar de tal liberdade. “Se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação.” (Gálatas 2:12-13). “Que coisa mais pobre que é o homem!”, exclamou alguém. “Somos fracos em relação à nossa importância diante dos homens. Quando não somos nada, podemos fazer tudo, desde que esteja de acordo com a aceitação dos outros… Paulo, energético e fiel, pela graça, permanece sozinho de pé, e repreende Pedro diante de todos.”

A partir de então, no ano 49 ou 50 d.C., seu nome não aparece novamente no livro de Atos dos Apóstolos, e não temos certeza da esfera de seu trabalho. No entanto, ele se dirige aos cristãos hebreus em sua primeira carta da seguinte maneira: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia”. Disso podemos concluir que ele trabalhou nesses países. Sua segunda Epístola data de muito tempo depois, e deve ter sido escrita pouco tempo antes de sua morte. Aprendemos isso com o que ele diz no primeiro capítulo: “Sabendo que brevemente hei de deixar este meu tabernáculo, como também nosso Senhor Jesus Cristo já mo tem revelado” (v.14; ver também João 21:18-19).

A data exata da visita de Pedro a Roma tem sido assunto de grande controvérsia entre escritores católicos e protestantes em todas as eras. Mas pode ser considerado um ponto resolvido o fato de ele não ter visitado tal cidade até uma data bem próxima do fim de sua vida. A data de seu martírio é também incerta. Muito provavelmente aconteceu em 67 ou 68 d.C., com mais ou menos setenta anos de idade. O incêndio de Roma causado por Nero é datado por Tácito por volta do mês de julho de 64. A perseguição contra os cristãos eclodiu logo depois, e foi sob tal perseguição que nosso apóstolo foi honrado com a coroa do martírio.

Ele foi sentenciado à crucificação, sendo esta a mais severa e vergonhosa morte. Mas quando ele olhou para a cruz, ele suplicou aos oficiais romanos para não ser crucificado do modo usual, mas que preferiria sofrer de cabeça para baixo, afirmando que ele não era digno de sofrer na mesma posição de seu bendito Senhor e Mestre. Tendo seu pedido concedido, ele foi crucificado de cabeça para baixo. Seja isto um fato ou uma mera lenda, está em conformidade com o temperamento fervente e a profunda humildade do grande apóstolo.1

O Apóstolo André

Seguindo a vida dos apóstolos, vamos tomar nota sobre o apóstolo André.

Os historiadores sagrados têm sido muito completos e abundantes ao descrever os Atos de Pedro, mas bastante frugais nos relatos sobre seu irmão André. Ele foi criado com Pedro no ramo de seu pai, e continuou em sua ocupação até ser chamado pelo Senhor para ser tornar um “pescador de homens”.

André, como outros jovens da Galileia, tinha se tornado um discípulo de João Batista. No entanto, ao ouvir seu mestre falar, pela segunda vez, de Jesus como o Cordeiro de Deus, deixou João para seguir a Jesus. Ele foi, imediatamente após isso, o meio pelo qual seu irmão Pedro foi trazido a seu novo Mestre. Até o momento, ele tinha a honra de ser o primeiro dos apóstolos a apontar para Cristo (João 1). Ele aparece ainda nos capítulos seis e doze de João, e no décimo terceiro de Marcos, mas, além desses poucos e espalhados relatos, as Escrituras não relatam mais nada a respeito dele. Seu nome não aparece nos Atos dos Apóstolos, com exceção do primeiro capítulo.

Conjecturas e a tradição têm dito muitas coisas sobre ele, mas devemos considerar apenas fatos razoavelmente estabelecidos. Dizem que ele pregou em Cítia, e que viajou pela Trácia, Macedônia, Tessália, e que sofreu o martírio em Petra, na Acaia. Sua cruz, dizem, era formada de dois pedaços de madeira se cruzando no meio, na forma de X, geralmente conhecida pelo nome de cruz de Santo André. Ele morreu orando e exortando as pessoas à constância e perseverância na fé. O ano em que ele sofreu isso é incerto.

Dos dois irmãos Pedro e André, procedemos aos dois irmãos Tiago e João. Os quatro também eram parceiros de negócios. Mas vamos falar primeiro de Tiago.

O Apóstolo Tiago

Zebedeu e seus dois filhos, Tiago e João, estavam seguindo sua ocupação habitual no mar da Galileia quando Jesus passava por ali. Vendo os dois irmãos, “logo os chamou. E eles, deixando o seu pai Zebedeu no barco com os jornaleiros, foram após ele.” (Marcos 1:20). Pedro e André também estavam lá. Foi nessa ocasião que o Senhor pediu a Pedro para se lançar às águas profundas e tentar, mais uma vez, pegar peixes. Pedro se inclina à razão: eles tinham sido muito mal sucedidos na noite anterior. Mesmo assim, pela palavra do Senhor, a rede foi lançada. “E, fazendo assim, colheram uma grande quantidade de peixes, e rompia-se-lhes a rede.” (Lucas 5:6) Espantado, Pedro acenou a seus parceiros para que fossem e o ajudassem a trazer os peixes à terra.

Uma plena convicção de que Jesus era o verdadeiro Messias foi, então, levada às mentes daqueles quatro jovens. Eles podem ter tido dúvidas antes, mas não têm nenhuma agora. Ao chamado de Jesus eles deixam tudo e se tornam, de uma vez para sempre, Seus discípulos. Daí em diante se tornariam “pescadores de homens”. Em toda lista que temos dos apóstolos estes quatro nobres homens são citados primeiro (Mateus 4:17-20; Marcos 1:16-20; Lucas 5:1-11)

Esse é o chamado de Tiago ao discipulado. Mais ou menos um ano depois ele é chamado ao apostolado com seus onze irmãos (Mateus 10, Marcos 3, Lucas 6, Atos 1)

Pedro, Tiago, João e ocasionalmente André sempre foram os companheiros mais íntimos do bendito Senhor. Somente os três primeiros foram convidados a testemunhar da ressurreição da filha de Jairo (Marcos 5; Lucas 8). Os mesmos três apóstolos foram, somente eles, permitidos a estarem presentes na cena da transfiguração (Mateus 17, Marcos 9, Lucas 9). Foram os mesmos três que testemunharam Sua agonia no Getsêmani (Mateus 26, Marcos 14, Lucas 22). Mas os quatro, Pedro, Tiago, João e André, estão juntos quando perguntam ao Senhor em particular sobre a destruição do templo (Marcos 13).

Assim como a mudança – ou acréscimo – ao nome de Pedro, os filhos de Zebedeu são apelidados de Boanerges, ou “filhos do trovão”. Grande ousadia e fidelidade pode ter apontado Tiago para Herodes como o primeiro a ser detido e silenciado. Não é estranho que “o filho do trovão” e o “homem-pedra” sejam os primeiros a serem apreendidos. Mas Tiago tem a honra de ser o primeiro dos apóstolos que receberam a coroa do martírio em 44 d.C., tendo Pedro sido resgatado por um milagre.

A inveja de uma mãe e a ambição de seus filhos levam Salomé a pedir por lugares distintos no reino para seus dois filhos. O Senhor permitiu que o pedido passasse por uma repreensão muito leve, mas disse aos irmãos que eles deveriam tomar de Seu cálice e serem batizados com Seu batismo. Tiago foi chamado bem cedo para cumprir esta predição. Após a ascensão, ele é visto em companhia dos outros apóstolos em Atos 1. Então ele desaparece da narrativa sagrada até sua apreensão e morte em Atos 12. E lá é simplesmente dito, na breve linguagem do historiador inspirado, que o rei Herodes matou Tiago, irmão de João, com a espada.

Clemente de Alexandria relata uma tradição sobre o martírio de Tiago que não é algo improvável de ter realmente ocorrido. Enquanto era levado para o lugar de execução, o soldado ou oficial que o tinha guardado para o tribunal, ou melhor, seu acusador, estava tão comovido pela coragem e ousada confissão de Tiago no momento de seu julgamento que se arrependeu do que tinha feito. Então ele foi e prostrou-se ao pé do apóstolo, pedindo perdão pelo que tinha dito contra ele. Tiago, um pouco surpreso, o levantou, o abraçou e o beijou, e disse: “Paz, meu filho, paz seja contigo, e o perdão de tuas falhas.” Antes disso, ele publicamente tinha professado ser um cristão, e assim ambos foram decapitados ao mesmo tempo. Assim caiu Tiago, o proto-mártir apostólico, alegremente tomando o cálice que ele tinha a muito tempo dito ao seu Senhor que estaria pronto para beber. 2

O Apóstolo João

João era filho de Zebedeu e Salomé, e irmão mais novo de Tiago. Embora seu pai fosse um pescador, eles aparentemente estavam em boas circunstâncias de acordo com a narrativa do Evangelho. Alguns dos antigos falam da família como sendo rica, e até mesmo de conexão nobre. Porém, tais tradições não são reconciliáveis com os fatos relatados nas Escrituras. Lemos, no entanto, de seus “jornaleiros”, e eles podem ter tido mais do que apenas um barco. Quanto a Salomé, sem dúvidas, foi uma daquelas mulheres honradas que serviam ao Senhor com o que tinham. E João tinha sua própria casa (Lucas 8:3; João 19:27). A partir desses fatos, podemos inferir, com segurança, que a situação deles era consideravelmente acima da pobreza. Como muitos têm sido extremos ao falar dos apóstolos como pobres e analfabetos, é interessante observar algumas poucas dicas nas escrituras sobres esses assuntos.

Do caráter de Zebedeu nada sabemos. Ele não fez objeções a seus filhos quando o deixaram ao chamado do Messias. Mas não ouvimos mais sobre ele depois disso. Frequentemente encontramos a mãe em companhia dos seus filhos, mas não há menções ao pai. É provável que ele tenha morrido pouco depois do chamado de seus filhos.

O evangelista Marcos, ao enumerar os doze apóstolos (Marcos 3:17), quando menciona Tiago e João, diz que nosso Senhor “pôs o nome de Boanerges, que significa: Filhos do trovão.” O que nosso Senhor particularmente pretendeu, com esse título, não é facilmente determinado. Conjecturas têm havido muitas. Alguns supõem que seria porque esses dois irmãos eram da mais furiosa e resoluta disposição, e de um temperamento mais feroz e ardente do que o resto dos apóstolos. Mas não vemos motivo para tal suposição na história narrada nos Evangelhos. Sem dúvida, em uma ou duas ocasiões o zelo deles era intemperado, mas isso foi antes de entenderem o espírito de seu chamado. É mais provável que nosso Senhor os tenha apelidado em profecia ao zelo ardente deles ao proclamar aberta e corajosamente as grandes verdades do evangelho, após tê-lo conhecido plenamente. Estamos certos de que João, em companhia de Pedro nos primeiros capítulos de Atos demonstrou uma coragem que não temia ameaças, e não era intimidado por nenhuma oposição.

Supõe-se que João era o mais novo de todos os apóstolos e, a julgar por seus escritos, parece ter sido possuído por uma disposição singularmente carinhosa, suave e amável. Ele foi caracterizado como “o discípulo a quem Jesus amava”. Em várias ocasiões, ele foi admitido a uma livre e íntima relação com o Senhor (João 13).

“O que distinguia João”, diz Neander, “era a união das mais opostas qualidades, como temos muitas vezes observado em grandes instrumentos do avanço do reino de Deus – a união de uma disposição inclinada à silente e profunda meditação, com um ardente zelo, embora não impulsionado a uma grande e diversificada atividade no mundo exterior; não um zelo apaixonado, como supomos que tenha enchido os peitos de Paulo antes de sua conversão. Mas havia também um amor, não suave e flexível, mas um que se agarrava com tudo o que podia, e firmemente retia o objetivo para o qual se dirigia – vigorosamente repelindo qualquer coisa que desonrasse esse objetivo, ou tentasse arrancá-lo de sua posse; tal era sua principal característica.”

E a história de João está tão intimamente conectada com as histórias de Pedro e Tiago, as quais já abordamos, que podemos agora ser bastante breves. Esses três nomes raramente são vistos separados na história dos Evangelhos. Mas há uma cena em que João aparece sozinho e que é digna de nota. Ele era o único apóstolo que seguiu Jesus ao lugar de Sua crucificação. E lá ele foi especialmente honrado com o respeito e confiança de seu Mestre. “Ora Jesus, vendo ali sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa.” (João 19:26-27)

Após a ascensão de Cristo e a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, João se tornou um dos principais apóstolos da circuncisão. Mas seu ministério continua até o final do primeiro século. Com sua morte, a era apostólica naturalmente se encerra.

Há uma tradição muito difundida e geralmente aceita de que João permaneceu na Judeia até depois da morte da virgem Maria. A data do evento é incerta. Mas logo depois ele prosseguiu para a Ásia Menor. Lá ele plantou e cuidou de várias igrejas em diferentes cidades, mas fez de Éfeso seu centro. De lá ele foi banido para a Ilha de Patmos, perto do final do reinado de Domiciano. Ali ele escreveu o livro de Apocalipse (ou Revelação) (Apocalipse 1:9). Em sua libertação do exílio, pela ascensão de Nerva ao trono imperial, João retornou a Éfeso, onde escreveu seu Evangelho e suas Epístolas. Ele morreu por volta do ano 100 d.C., no terceiro ano do imperador Trajano, e com mais ou menos cem anos de idade.3

Das muitas tradições sobre o próprio João, selecionamos apenas uma, que pensamos ser a mais interessante e a mais provável de que seja verdade. Como um que foi incansável em seu amor e cuidado para com as almas dos homens, ele estava profundamente entristecido pela apostasia de um rapaz pelo qual ele tinha especial interesse. Ao revisitar o lugar onde ele o tinha deixado, ouviu que ele tinha se unido a um bando de ladrões e se tornado o capitão deles. Seu amor por ele era tão grande que se determinou a encontrá-lo. Assim, foi ao encalço dos ladrões e deixou-se capturar, implorando que o levassem à presença do capitão deles. Quando ele viu a venerável aparência do velho apóstolo, sua consciência foi despertada. A lembrança dos dias passados foi maior do que ele podia suportar, de modo que fugiu, em consternação, de sua presença. Mas João, cheio de amor paternal, foi atrás dele. Ele pediu que o rapaz se arrependesse e retornasse à igreja, e o encorajou pela certeza do perdão de seus pecados no nome do Senhor Jesus. Sua maravilhosa afeição para com o rapaz e sua profunda preocupação pela sua alma o venceram por completo. Ele se arrependeu, retornou, foi restaurado e, posteriormente, se tornou um digno membro da comunidade cristã. Que possamos buscar a fazer o mesmo na restauração de desviados!

Chegamos agora ao que podemos chamar de segundo grupo de quatro apóstolos; e, assim como Pedro encabeçava o primeiro grupo, o segundo é liderado pelo apóstolo Filipe.

O Apóstolo Filipe

Nos três primeiros Evangelhos ele é apresentado nessa ordem. Ele é mencionado como sendo de Betsaida, a cidade de André e Pedro (João 1:44). É mais que provável que ele estivesse entre os galileus daquele distrito que se reuniram para ouvir a pregação de João Batista. Embora nenhuma parte da Palestina tenha sido tão mal falada como a Galileia, foi destes desprezados, mas simples, sinceros e devotos galileus que nosso Senhor escolheu Seus apóstolos. “Examina”, disseram os fariseus, “e verás que da Galileia nenhum profeta surgiu” (João 7:52). Mas afirmações muito generalizadas, em geral, costumam ser falsas. “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” é uma amostra desse caráter.

Nada é dito na história do Evangelho sobre os pais de Filipe ou sua ocupação. O mais provável é que ele tenha sido um pescador, o comércio geral daquele lugar. A partir da similaridade da linguagem utilizada por Filipe e André, e por serem repetidamente mencionados juntos, podemos concluir que nosso apóstolo, assim como os filhos de Jonas e Zebedeu, eram amigos íntimos, e que eles todos estavam procurando e esperando pelo Messias. Mas, de todo o círculo dos discípulos de nosso Senhor, Filipe tem a honra de ser o primeiro a ser chamado. Os três primeiros tinham vindo a Cristo e conversado com Ele antes de Filipe, mas depois disso eles voltaram às suas ocupações e não foram chamados para seguir o Senhor até cerca de um ano mais tarde. Mas Filipe foi chamado de uma vez por todas. “No dia seguinte quis Jesus ir à Galileia, e achou a Filipe, e disse-lhe: Segue-me.” (João 1:43). Estas palavras, tão cheias de significado e rica bênção para a alma, “Segue-me”, (cremos) que tenham sido as primeiras ditas a Filipe. Quando os doze foram especialmente separados de seus ofícios, Filipe foi contado entre eles.

Imediatamente após seu chamado, ele encontra Natanael e o leva a Jesus. É evidente, pela feliz surpresa que respira em sua informação, que eles já tinham conversado sobre essas coisas antes. Seu coração estava agora seguro de sua verdade, daí a alegria expressa nestas palavras: “Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José.” (João 1:45). Há uma evidente sinceridade de coração em Filipe, embora pouco seja dito sobre ele nos Evangelhos. Nossa última menção a ele, assim como a primeira, é profundamente interessante. Tendo ouvido o Senhor se referir repetidamente ao Seu Pai em João 12, 13 e 14, Filipe manifestou um forte desejo de conhecer mais sobre o Pai. As comoventes palavras de nosso Senhor sobre Seu Pai parecem ter causado uma profunda impressão e admiração em seu coração. “Pai, salva-me desta hora” (João 12:27); “Pai, glorifica o teu nome” (João 12:28); “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (João 14:2); sem dúvida, tais palavras penetraram profundamente nos corações de todos os discípulos. Mas há uma bela simplicidade sobre Filipe, embora carente de inteligência. “Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta.” (João 14:8). Há uma evidente repreensão, se não uma reprovação, na resposta do Senhor a Filipe: “Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras.” (João 14:9-10). Ele era a revelação do Pai em Sua própria Pessoa, e Filipe deveria sabê-lo. Ele já estava a muito tempo com Seus discípulos, e eles deveriam ter visto que Ele estava no Pai, e o Pai nEle, e que Ele iria para o Pai. Eles tinham tanto as “palavras” quanto as “obras” do Filho para convencê-los de que o Pai habitava nEle. Eles tinham ouvido Suas palavras, eles tinham visto Suas obras, eles tinham testemunhado Seu caráter, e essas coisas foram ajustadas e destinadas para trazer o Pai diante deles. Sua própria Pessoa era a resposta para qualquer pergunta. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Ele é o caminho – o único caminho ao Pai. Ele era a verdade: a verdade quanto a tudo e todos, como são, é apenas conhecida por Ele. Ele é a vida – “aquela vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada”. Mas é apenas pelo ensino e poder do Espírito que Ele, que é “o caminho, a verdade e a vida”, é conhecido e desfrutado. E deve haver sujeição de coração a Cristo se desejamos conhecer o ensino do Espírito.

Após tal profundamente interessante e instrutiva conversa com o Senhor, tudo é incerto quanto ao resto da história de Filipe – seu nome desaparece da narrativa dos Evangelhos. Ele estava ainda entre os apóstolos em Atos 1:13. A tradição tem confundido, tão frequentemente, o Filipe evangelista com o Filipe apóstolo, que tudo é incerto. Sem dúvidas seus dias restantes foram gastos no serviço devoto ao seu Senhor e Salvador, mas em que lugar é difícil determinar. Alguns pensam que a Ásia foi o cenário de seus primeiros labores, e que no final de sua vida ele esteve em Hierápolis, na Frígia, onde sofreu um cruel martírio.

O Apóstolo Bartolomeu

Em geral, acredita-se, tanto pelos antigos quanto pelos modernos, que a história de Bartolomeu está oculta sob outro nome. Que ele foi um dos doze apóstolos está perfeitamente claro na narrativa dos Evangelhos, embora nada mais seja dito sobre ele além da mera noção de seu nome. Nos três primeiros Evangelhos, Filipe e Bartolomeu são mencionados juntos; no Evangelho de João, vemos Filipe e Natanael. Tal circunstância tem dado origem a uma suposição muito comum: que na verdade sejam diferentes nomes para a mesma pessoa. Isso era muito comum entre os judeus. Por exemplo, Simão Pedro é chamado de “Bar-jonas”, que simplesmente significa: o filho de Jonas. “Bar-timeu”, também, significa “filho de Timeu”; e “Bar-tolomeu” parece ser um nome do mesmo tipo. Esses são apenas nomes relativos, e não próprios. Dada a generalidade desse costume entre os judeus, muitas vezes é extremamente difícil identificar as pessoas na história dos Evangelhos.

Assumindo, então, que Natanael de João é o Bartolomeu dos Evangelhos sínóticos, prosseguimos com o que sabemos de sua história. Como o resto dos apóstolos, ele era um galileu; ele era “de Caná da Galileia”. Vimos anteriormente que ele foi primeiramente conduzido a Cristo por meio de Filipe. Ao se aproximar, ele foi saudado pelo Senhor com a mais honrada distinção: “Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo.” (João 1:47). Ele era, sem dúvidas, um homem de verdadeira simplicidade e integridade de caráter, e um que “esperava pela redenção em Israel”. Surpreso com tão graciosa saudação de nosso Senhor, e se perguntando como Ele poderia conhecê-lo à primeira vista, “disse-lhe Natanael: De onde me conheces tu? Jesus respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira.” (João 1:48). Solene e bendito pensamento! Ele estava diante dAquele – um homem – neste mundo que conhecia os segredos de seu coração e de seus caminhos. Natanael estava agora plenamente convencido da absoluta divindade do Messias, e O reconhece em Sua maior glória como “o Filho de Deus”, assim como “o rei de Israel”.

O caráter de Natanael e seu chamado são considerados por muitos como uma figura do remanescente de Israel sem dolo nos últimos dias. A alusão à figueira – um conhecido símbolo de Israel – confirma tal visão dessa passagem; e assim declara seu belo testemunho: “Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel.” (João 1:49). O remanescente disperso, visto e conhecido pelo Senhor, irá então confessar sua fé nEle, como os profetas mostraram tão plenamente. E todos aqueles que então reconhecerem o Messias verão Sua glória universal como o Filho do homem, de acordo com o Salmos 8. Aquele dia vindouro de ampla glória é antecipada por nosso Senhor em Suas conclusivas observações a Natanael: “Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem.” (João 1:51). Então os céus e a terra serão unidos, como podemos lembrar da escada de Jacó. Mas devemos agora retornar à história de nosso apóstolo.

A mais distinta e conclusiva passagem quanto ao seu apostolado se encontra em João 21. Ali o encontramos em companhia dos outros apóstolos, a quem nosso Senhor apareceu no Mar da Galileia após Sua ressurreição. “Estavam juntos Simão Pedro, e Tomé, chamado Dídimo, e Natanael, que era de Caná da Galiléia, os filhos de Zebedeu, e outros dois dos seus discípulos” que provavelmente eram André e Filipe.

Há uma tradição geralmente aceita de que Bartolomeu viajou até a Índia pregando o evangelho – provavelmente àquela parte da Índia mais próxima da Ásia. Após ter viajado a diferentes lugares, buscando disseminar o cristianismo, ele finalmente chegou a Albanópolis na Armênia Maior, um lugar infestado pela idolatria. Lá ele foi preso pelo governador do lugar, e condenado à crucificação. A data não é conhecida com exatidão.

O Apóstolo Mateus

Mateus – também chamado Levi, o filho de Alfeu; mas não o mesmo Alfeu, acreditamos, que o Alfeu pai de Tiago (Mateus 10:3; Marcos 2:14; Lucas 5:27-29). Embora fosse um oficial romano, ele era “um hebreu de hebreus”, e provavelmente um galileu; mas de qual cidade ou tribo não somos informados. Antes do seu chamado para seguir o Messias, ele era um publicano, ou coletor de impostos, sob o comando romano. Ele parece ter sido alocado em Cafarnaum, uma cidade marítima no Mar da Galileia. Ali ele era o que podemos chamar de um oficial de alfândega. Era nesta qualidade que Jesus o encontrou. Quando Ele passou, Ele o viu “sentado na alfândega, e disse-lhe: Segue-me. E, levantando-se, o seguiu.” (Marcos 2:14) Mas antes de prosseguirmos com a história de Mateus, vamos considerar algumas palavras sobre o caráter de sua ocupação, uma vez que é tão frequentemente mencionada no Novo Testamento, e por ser um termo realmente genérico.

Os publicanos propriamente ditos eram pessoas que coletavam os impostos ou rendimentos públicos para Roma. Eles eram, geralmente, pessoas de riqueza e crédito. Era considerada, ente os romanos, uma posição de honra, e geralmente conferida a cavaleiros romanos. Sabino (segundo a história, o pai do Imperador Vespasiano), era o publicano das províncias asiáticas. Eles tinham sob eles oficiais inferiores, e estes, geralmente, eram nativos das províncias das quais os impostos eram coletados; sem dúvida, Mateus pertencia a esta classe de oficial.

Estes suboficiais eram, por toda a parte, notórios por suas cobranças fraudulentas. Mas para os judeus, eles eram especialmente odiosos. Os judeus olhavam para si mesmos como um povo nascido livre que tinha privilégios concedidos diretamente do Próprio Deus. “Somos descendência de Abraão,” diziam eles, “e nunca servimos a ninguém” (João 8:33). Consequentemente, os coletores de impostos romanos eram a prova visível da escravidão deles, e do estado de degradação de sua nação. Esse era o grilhão que os afligia e os incitava a muitos Atos de rebelião contra os romanos. Por isso que os publicanos eram abominados pelos judeus. Eles os viam como traidores e apóstatas, e como ferramentas do opressor. Além disso, os publicanos eram, na maioria, injustos em suas cobranças; e tendo a lei do seu lado, eles podiam forçar os pagamentos. Estava sob o poder deles examinar cada caso de bens exportados ou importados, e de avaliar o alegado valor da maneira mais vexatória. Podemos saber, baseado no que João disse a eles, que eles cobravam injustamente sempre que tinham a oportunidade. “E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado.” (Lucas 3:13). Veja também o caso de Zaqueu (Lucas 19:9)

Certamente essas coisas eram mais do que suficientes para trazer toda essa classe de oficiais à maior repulsa, em todo lugar. Mas vamos nos limitar ao que aprendemos deles no Novo Testamento. O espírito da verdade nunca exagera. Ali os encontramos associados a pecadores (Mateus 9:11; 11:19), a prostitutas (Mateus 21:31, 32), e a pagãos (Mateus 18:17). Como classe, eles eram considerados como estando fora, não somente dos privilégios do santuário, mas também dos privilégios da sociedade civil. E ainda assim, apesar de todas essas desvantagens, eles são contados entre alguns dos primeiros discípulos tanto de João quanto de nosso Senhor. Eles tinham menos hipocrisia do que aqueles que eram melhor estimados; eles não tinham uma moralidade convencional, e não tinham uma falsa religião para desaprender. Estas coisas podem ser bastante discutidas a partir da parábola do Fariseu e do Publicano (Lucas 18). A bondade convencional é um grande obstáculo à salvação da alma. É difícil, para tais, tomar o lugar de um pecador perdido e arruinado, para que a graça possa ter livre curso para fazer sua bendita, salvífica e graciosa obra. Aquele que seria justificado diante de Deus deveria tomar o lugar de um publicano e fazer a mesma oração do publicano: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, um pecador!” (Lucas 18:13). Retornemos agora à história de nosso apóstolo.

Com grande prontidão Mateus obedeceu ao chamado de Jesus. Sua situação lucrativa logo foi deixada para trás, e sua conversão, tão completa e manifesta, foi acompanhada de muita bênção para outros. Havia um grande despertar e interesse entre sua própria classe. “E fez-lhe Levi um grande banquete em sua casa; e havia ali uma multidão de publicanos e outros que estavam com eles à mesa.” (Lucas 5:29) Um banquete é o símbolo de alegria e regozijo – o efeito imediato de um coração rendido a Cristo. É digno de nota que em seu próprio Evangelho ele torna seu nome bem conhecido, mas nenhum dos outros evangelistas falam do “Mateus, o publicano”. Junto com os outros ele foi escolhido como um dos doze. Daquele tempo em diante ele continuou com o Senhor como o restante dos apóstolos. Que bendito privilégio! – “um acompanhante familiar de Sua pessoa, um espectador de Sua vida pública e privada, um ouvinte de Suas palavras e discursos, um observador de Seus milagres, uma testemunha de Sua ressurreição e ascensão à glória.” Isto ele não testifica, embora tenha visto. Mateus estava com os outros apóstolos no dia de Pentecostes e recebeu o dom do Espírito Santo. Quanto tempo ele continuou na Judeia após aquele evento, disto não somos informados. Supõe-se que seu Evangelho seja o primeiro que foi escrito, e contém uma referência especial a Israel.

À Etiópia é geralmente atribuída a cena de seus trabalhos apostólicos. Ali, dizem alguns, pela pregação e milagres, ele triunfou poderosamente sobre o erro e a idolatria, foi o meio de conversão de muitos, nomeou guias e pastores espirituais para os confirmar e edificar, e para levar outros à fé; e ali terminou seu curso. Mas as fontes de informação sobre esses pontos não podem ser confiadas com muita certeza.

O Apóstolo Tomé

O apóstolo Tomé foi convocado por nosso Senhor para o apostolado, sendo mencionado em várias listas apostólicas. Não somos informados de seu local de nascimento ou sobre seus pais nas Escrituras, mas a tradição diz que ele nasceu na Antioquia. Tudo o que sabemos dele com certeza é relatado por João. Mas embora nosso conhecimento sobre Tomé seja limitado, não há um caráter entre os apóstolos mais distintamente marcante do que o dele. De fato, seu nome se tornou, tanto na igreja quanto no mundo, um sinônimo de dúvida e incredulidade. Um famoso artista, tendo sido designado a produzir um retrato do apóstolo Tomé, o desenhou com uma régua na mão, no sentido de que ele media as evidências e argumentos. Sua mente era pensativa, meditativa, demorada para acreditar. Ele olhava para todas as dificuldades de uma questão e se inclinava a tomar o lado negro das coisas. Mas vamos olhar, por um momento, para o retrato que a pena da inspiração divina desenhou pelas seguintes três passagens:

1. Em João 11, seu verdadeiro caráter aparece distintamente. Ele evidentemente via a viagem proposta por nosso Senhor até a Judeia com os mais sombrios pressentimentos. “Disse, pois, Tomé, chamado Dídimo, aos condiscípulos: Vamos nós também, para morrermos com ele.” (João 11:16) Em vez de acreditar que Lázaro seria ressuscitado dos mortos, ele temeu que tanto o Senhor quanto Seus discípulos encontrariam suas próprias mortes na Judeia. Ele não conseguia ver nada em tal viagem além de um completo disastre. Isso também é característico. Ele tinha profunda afeição pelo Senhor, e tal era sua devoção que, embora a viagem pudesse custar a vida de todos eles, ele desejava ir.

2. A segunda vez em que ele é referenciado é após a Última Ceia (João 14). Nosso Senhor falava de sua partida, do lar que Ele iria preparar para eles no Céu, e que Ele viria de novo e os receberia para Ele mesmo, de modo que onde Ele estivesse eles estivessem também. “Mesmo vós sabeis para onde vou”, acrescentou Ele, “e conheceis o caminho” (João 14:4). Mas para a mente do nosso apóstolo essas belas promessas apenas despertaram pensamentos sombrios sobre o invisível, o desconhecido e o futuro. “Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?” (João 14:5). Evidentemente, ele estava ansioso para ir, e sincero em seus questionamentos, mas ele desejava ter certeza do caminho antes de dar o primeiro passo. “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6). Contanto que o olho esteja fixo em Cristo, é impossível darmos um passo em falso. É apenas o olho que recebe a luz dos céus que lança seu brilho sobre todo o caminho.

3. A terceira vez foi após a ressurreição (João 20). Ele estava ausente quando o Senhor ressurreto apareceu pela primeira vez aos discípulos. Quando contaram a ele que eles tinham visto o Senhor, ele obstinadamente se recusou a acreditar no que eles diziam. Pelo que ele diz, podemos razoavelmente concluir que ele tinha visto o Senhor na cruz, e que tal esmagadora visão havia produzido uma profunda impressão em sua mente. “Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.” (João 20:25). No seguinte dia do Senhor (domingo), quando os discípulos estavam reunidos, Jesus apareceu no meio deles – Seu lugar apropriado como o centro da reunião. Novamente os saudou com as mesmas palavras de paz: “Paz seja convosco” (João 20:26). Mas logo Ele se dirige a Tomé. “Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.” (João 20:27). O efeito em Tomé foi imediato: todas as suas dúvidas foram removidas, e em verdadeira fé exclamou: “Senhor meu, e Deus meu!” (João 20:28) “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.” (João 20:29)

Alguns têm pensado que a fé de Tomé, neste caso, se eleva muito acima da fé dos outros discípulos, e que nunca um testemunho tão elevado saiu dos lábios de um apóstolo. Esta opinião, embora seja comum, não pode ser fundada dado o contexto geral. Cristo, em resposta a Tomé, pronuncia que são mais abençoados aqueles que, não tendo visto, ainda assim creram. A fé de Tomé, naquele momento, mal podia ser chamada de fé cristã, como nosso Senhor evidentemente sugere. A fé cristã é crer naquEle que não temos visto – andando pela fé, e não pela vista.

Tomé, sem dúvidas, representa a mente devagar e incrédula dos judeus nos últimos dias, que acreditarão apenas quando verem (Zacarias 12). Ele não estava presente na primeira reunião dos santos após a ressurreição. O motivo nós não sabemos. Mas quem pode estimar a bênção que pode ser perdida pela ausência nas sancionadas reuniões dos santos? Ele perdeu as benditas revelações de Cristo quanto ao relacionamento com o Pai: “Meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.” (João 20:17). Sua fé não está conectada com sua posição de filho. “Ele não tinha ainda apreendido a eficácia da obra do Senhor”, disse alguém, “e do relacionamento com Seu Pai ao qual Jesus conduziu a Sua igreja. Talvez Tomé tivesse paz, mas ele perdeu de vista toda a revelação da posição da igreja. Quantas almas – até mesmo almas salvas – se encontram nessas duas condições!”

Os futuros trabalhos apostólicos de Tomé, e o fim de sua vida, são tão cheios de tradições e lendas que não podemos saber nada com certeza. Alguns dizem que ele esteve na Índia e alguns que ele esteve na Pérsia. Seu martírio, dizem, foi ocasionado por uma lança, e até hoje se comemora isto, em 21 de dezembro pela igreja latina, em 6 de outubro pela igreja grega, e em 1º de julho pelos indianos.

O Apóstolo Tiago, Filho de Alfeu

A identificação dos Tiagos, das Marias, e dos irmãos do Senhor, tem sido por muito tempo um ponto de discussão pelos críticos, e aqui não haveria lugar para ficar remoendo suas teorias e argumentos. Mas, depois de olhar para diferentes lados da questão, ainda acreditamos que o nosso apóstolo é o mesmo Tiago que foi um homem importante para a igreja de Jerusalém – o mesmo que escreveu “A Epístola Universal de Tiago” – e que também é chamado de irmão do Senhor e apelidado de “o Justo” e “o Menor”, provavelmente por causa de sua baixa estatura. A identificação de pessoas em tais histórias costuma ser extremamente difícil, graças ao hábito, tão comum entre os judeus, de se referir às pessoas pelas suas relações – como a relação de irmão e irmã – e pelo fato de que quase todos eles possuíam dois ou mais nomes.

Nas quatro listas dos apóstolos, Tiago sempre se mantém no mesmo lugar. Ele lidera a terceira classe. Pedro parece liderar o primeiro grupo, Filipe o segundo, e Tiago o terceiro. Muito pouco se sabe sobre Tiago até o período posterior à ressurreição. Pelo que Paulo relata em 1 Coríntios 15:7, é evidente que Tiago tinha sido honrado com uma conversa pessoal com o Senhor antes de Sua ascensão. Isto foi antes do dia de Pentecostes, e pode ter ocorrido para incentivo, orientação e fortalecimento especial do apóstolo. Vamos agora observar as principais passagens que nos dão base para adquirirmos nosso conhecimento sobre Tiago.

No primeiro capítulo de Atos o encontramos, junto com os outros, à espera da promessa do Pai, o dom do Espírito Santo. Depois disso o perdemos de vista, até que ele é visitado por Paulo (Gálatas 1:18,19) por volta do ano 39 d.C. Ali o encontramos na mesma posição de Pedro como um apóstolo. Ele era, nesse tempo, o supervisor (ou bispo) da igreja em Jerusalém, e se encontrava no mesmo nível dos principais apóstolos. O lugar que ele ocupava na estima de Pedro é evidente a partir do fato de que, quando Pedro foi liberto da prisão, ele desejava que a informação sobre sua libertação fosse enviada a “Tiago e aos irmãos.” (Atos 12:17)

Em 50 d.C., encontramo-lo no concílio apostólico, onde parece exercer juízo na assembleia. “Por isso julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus.” (Atos 15:19) Não existe nenhum relato de outros apóstolos falando desta maneira. Parece que ele tinha adquirido grande posição e autoridade apostólica. Por volta do ano 51, quando Paulo fez outra visita a Jerusalém, ele reconhece Tiago como um dos “pilares” (ou “colunas”) da igreja, e cita seu nome antes do de Cefas (Pedro) e João (Gálatas 2:9). Mais uma vez, por volta do ano 58, Paulo fez uma visita especial a Tiago, na presença de todos os anciãos. “E no dia seguinte, Paulo entrou conosco em casa de Tiago, e todos os anciãos estavam presentes.” (Atos 21:18) Vê-se facilmente, a partir destas poucas observações, que Tiago tinha a mais alta estima dos demais apóstolos, e que ocupava uma posição importante na igreja de Jerusalém. Seu apego ao judaísmo era profundo e sério, e seu avanço no cristianismo parece ter sido lento e gradual. Ele era um oposto perfeito de Paulo, e Pedro era o meio-termo entre ambos.

O martírio de Tiago aconteceu por volta do ano 62, mais ou menos trinta anos depois do Pentecostes. O testemunho da antiguidade é universal quanto à sua distinta piedade e santidade. Sua humildade, também, sempre é relatada como sendo grande: embora ele fosse irmão de sangue do Senhor, ou um parente próximo, ele se auto-intitula de servo de Jesus Cristo, e não faz nada além de se chamar pelo título de apóstolo. Por causa de sua reputação por ter uma vida santa e justa, ele foi universalmente denominado “Tiago, o Justo.” E, como se conformava aos costumes judaicos em certa medida, ele não era, definitivamente, tão ofensivo aos olhos de seus compatriotas incrédulos como o apóstolo dos gentios (Paulo). Mas, mesmo com a elevada opinião que, acredita-se, as pessoas tinham sobre seu caráter, sua vida foi prematuramente terminada com o martírio.

Temos acesso a um relato da vida, caráter e morte de Tiago graças, principalmente, a Hegésipo, um cristão de origem judaica que viveu em meados do século II. Ele geralmente é recebido como um historiador confiável. Sua narrativa sobre o martírio de Tiago é encontrada na íntegra, e em suas próprias palavras, no “Dicionário Bíblico de Smith”. Aqui só podemos apresentá-la em resumo:

Uma vez que muitos dos governantes e do povo dos judeus tornaram-se crentes em Jesus através dos trabalhos de Tiago, os escribas e fariseus estavam muito incitados contra ele. Todo o povo, diziam eles, iriam acreditar em Cristo se continuasse assim. Por isso, foram até Tiago e disseram: “Te pedimos que pare as pessoas, pois se desviaram após Jesus como se Ele fosse o Cristo. Te pedimos para convencer a todos os que vêm para a Páscoa a respeito de Jesus. Persuada o povo para que não se desviem para Jesus; para que todo o povo, e para que todos nós, dê ouvidos a ti. Estejas, portanto, sobre o pináculo do templo para que estejas visível, e para que as tuas palavras possam ser ouvidas por todo o povo; para todas as tribos e até mesmo aos gentios que estiverem reunidos para a Páscoa.” Tiago, no entanto, em vez de dizer o que lhe foi pedido, proclamou em alta voz aos ouvidos de todo o povo que Jesus era o verdadeiro Messias, que ele acreditava firmemente nEle, que Jesus estava agora no Céu à mão direita de Deus, e que ele viria outra vez em poder e grande glória. Muitos foram convencidos por meio da pregação de Tiago e deram glória a Deus, clamando: “Hosana ao Filho de Davi”.

Quando os escribas e fariseus ouviram isto, disseram entre si: “Nós erramos ao dar crédito a um tal testemunho de Jesus; subamos e joguemos-o para baixo, para que as pessoas fiquem aterrorizadas e não creiam nele.” E gritaram, dizendo: “até Tiago, o Justo, se extraviou”, e atiraram-no para baixo. Mas, como ele não morreu com a queda, começaram a apedrejá-lo. Então um deles, que era tecelão, tomou um pisão [instrumento usado para dar consistência aos tecidos] e bateu com ele na cabeça de Tiago. Assim, o apóstolo morreu e, como o proto-mártir Estevão, morreu orando por eles, de joelhos. Foi quase que imediatamente depois disso que Vespasiano começou o cerco de Jerusalém, e o exército romano transformou toda a cena em desolação, sangue e ruína.

O Apóstolo Simão, o Zelote

Simão, o Zelote, também chamado de “Simão, o cananeu”, parece não ser a mesma pessoa que Simão, irmão de Tiago. Não temos relatos aprofundados sobre ele na história narrada no Evangelho. Ele sempre é mencionado junto com os outros apóstolos nos Evangelhos e em Atos e depois disso desaparece da narrativa sagrada.

É geralmente aceito que, antes de ser chamado para ser apóstolo, ele pertencia a uma seita dos judeus chamada de “Os Zelotes.” A principal característica deles era a feroz defesa ao ritual mosaico. Eles se consideravam sucessores de Finéias que, em seu zelo pela honra de Deus, matou Zimri e Cosbi (Número 25). Fingindo seguir o zelo dos sacerdotes antigos, eles achavam que tinham o direito de sentenciar à morte um blasfemador, um adúltero, ou qualquer preso notório, sem as formalidades comuns da lei. Eles alegavam que Deus tinha feito uma aliança eterna com Finéias e com a sua descendência, “porque ele foi zeloso pelo seu Deus, e fez expiação por Israel.” Estas retumbantes reivindicações e pretensões enganaram tanto os governantes quanto o povo por um bom tempo. Além disso, sua fúria e zelo pela lei de Moisés e pela libertação do povo do jugo romano deu-lhes graça aos olhos de toda a nação. Mas, como sempre parece ser o caso em circunstâncias semelhantes, seu zelo logo se degenerou em todos os tipos de libertinagem e extravagância selvagem. Tornaram-se as pragas de todas as classes da sociedade.

Sob um pretendido zelo pela honra de Deus, eles acusavam quem quisessem de serem culpados de blasfêmia ou de algum outro pecado grave, e imediatamente os matavam e apreendiam suas propriedades. Josefo nos conta que eles falharam em não acusar alguns da “nata da sociedade” e, embora tenham conseguido tornar tudo uma confusão, não deixavam de pescar “em águas turbulentas”. Josefo os classificou como as grandes pragas da nação. Tentativas foram feitas em diferentes épocas para suprimir a sociedade, mas não parece que eles tinham sido muito reduzidos até que, junto com todo o resto da nação incrédula, foram varridos do mapa no fatal cerco dos romanos.

Simão é frequentemente denominado “Simão, o Zelote”, portanto supõe-se que tenha pertencido a essa problemática facção. Podem ter havido homens verdadeiros e sinceros entre eles, mas bons e maus passaram sob o odioso nome de “Zelote”. Nada é sabido com certeza sobre os futuros trabalhos do nosso apóstolo. Alguns dizem que, após viajar por um tempo para o Oriente, voltou para o Ocidente e chegou até a Grã-Bretanha, onde pregou, fez milagres, suportou muitas provações, e finalmente sofreu o martírio.

O Apóstolo Judas, irmão de Tiago

Este apóstolo também é chamado de Judas Tadeu, ou Lebeu. Estes diferentes nomes têm diferentes nuances quanto ao significado, mas o exame de tais sutilezas está fora do escopo deste livro. Judas era filho de Alfeu, e um dos parentes de nosso Senhor, como lemos em Mateus 13:55: “não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas?”

Quando, ou como, ele foi chamado para o apostolado, disto não somos informados; e não há praticamente nenhuma menção a ele no Novo Testamento, exceto nas várias vezes em que os doze apóstolos são nomeados. Seu nome só aparece uma vez na narrativa do Evangelho, quando ele faz a seguinte pergunta: “Disse-lhe Judas (não o Iscariotes): Senhor, de onde vem que te hás de manifestar a nós, e não ao mundo?” (João 14:22). É evidente, a partir desta pergunta, que ele ainda imaginava, assim como seus condiscípulos, a ideia de um reino temporal, ou a manifestação do poder de Cristo na terra de modo que o mundo pudesse percebê-lo. Mas eles não entendiam ainda a dignidade de seu próprio Messias. Eles eram estranhos à grandeza do Seu poder, à glória da Sua Pessoa, e à espiritualidade do Seu reino. Seus súditos são libertos, não apenas deste mundo perverso, mas do poder de Satanás e do domínio da morte e da sepultura: “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Colossenses 1:13). A resposta de Cristo para a questão de Judas é o mais importante. Ele fala das bênçãos da obediência. O discípulo verdadeiramente obediente certamente conhece a doçura da comunhão com o Pai e com o Filho, na luz e no poder do Espírito Santo. Aqui não se trata da questão do amor de Deus em graça soberana para com um pecador, mas das relações do Pai com Seus filhos. Por isso, é no caminho da obediência que a manifestação do amor do Pai e do amor de Cristo são encontrados. (Veja João 14:23-26)

Mas devemos ter em mente, quando comentamos sobre as perguntas ou sobre as palavras dos apóstolos, que o Espírito Santo ainda não tinha sido dado, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado. Os pensamentos, sentimentos e expectativas dos apóstolos, depois desse evento, foram completamente alterados. Assim, encontramos nosso apóstolo, assim como seu irmão Tiago, intitulando-se “Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago” (Judas 1:1). Ele não chama a si mesmo de apóstolo, nem de irmão do Senhor. Isto é humildade verdadeira, fundada em um verdadeiro senso da mudança de relacionamento com o Senhor exaltado. No dia de Pentecostes foi proclamado: “Saiba pois com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” (Atos 2:36)

Nada é sabido com certeza sobre o restante da história de nosso apóstolo. Alguns dizem que ele pregou primeiramente na Judeia e na Galileia, e depois da Samaria até a Idumeia, e em cidades da Arábia. Mas, próximo ao fim de sua jornada, a Pérsia foi o local de seus labores e o cenário de seu martírio.

Com base em 1 Coríntios 9:5, podemos razoavelmente inferir que ele era um dos apóstolos que eram casados:

“Não temos nós direito de levar conosco uma esposa crente, como também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?”

Existe uma tradição sobre dois de seus netos, que é interessante e aparentemente verdadeira. Tal tradição foi transmitida por Eusébio de Hegésipo, um judeu convertido. Domiciano, o Imperador, tendo ouvido sobre a existência de alguns da linhagem de Davi, e parentes de Cristo ainda vivos, movido pela inveja, ordenou que fossem apreendidos e levados a Roma. Dois netos de Judas foram trazidos diante dele. Eles confessaram francamente que eram da linhagem de Davi, e parentes de Cristo. Ele os questionou sobre suas possessões e propriedades. Eles lhe contaram que não tinham nada além de alguns hectares de terra, cuja produção servia para o pagamento de impostos e para sustento próprio. Suas mãos foram examinadas, sendo encontradas ásperas e cheias de calos por causa do trabalho. Ele, então, perguntou-lhes acerca do reino de Cristo, e quando e onde ele viria. Então eles responderam que se tratava de um reino celestial e espiritual, e não de um reino temporal, e que ele não seria manifesto até que chegasse o fim deste mundo. O Imperador, satisfeito pelo fato de que eles eram homens pobres e inofensivos, os dispensou e cessou sua perseguição geral contra a igreja. Quando retornaram à Palestina, foram recebidos pela igreja com muito carinho, por serem parentes do Senhor e por terem confessado nobremente Seu nome – Seu reino, poder e glória.

O Apóstolo Matias

Matias – o apóstolo eleito para ficar no lugar do traidor Judas. Ele não era um apóstolo da primeira eleição – isto é, ele não tinha sido imediatamente chamado e escolhido pelo próprio Senhor. É mais do que provável que ele era um dos setenta discípulos, e que tenha sido um acompanhante constante do Senhor Jesus durante todo o curso de seu ministério. Isto era uma qualificação necessária, conforme declarado por Pedro, para alguém que deveria ser uma testemunha da ressurreição. Até onde sabemos, o nome de Matias não aparece em nenhum outro lugar no Novo Testamento.

De acordo com algumas tradições antigas, ele pregou o evangelho e sofreu o martírio na Etiópia, e outros acreditam que isto ocorreu na Capadócia. Assim permitiu-se que os grandes fundadores da igreja passassem da Terra para o Céu sem que uma caneta confiável narrasse seus trabalhos – seus últimos dias – suas últimas palavras, ou mesmo o lugar de descanso de seus corpos. Mas todos serão narrados no Céu, e serão guardados em uma memória eterna. Quão maravilhosos são os caminhos de Deus, e quão contrários aos caminhos dos homens!

O modo pelo qual este apóstolo foi eleito foi por sorteio – um antigo costume judaico. As sortes foram colocadas em uma urna e o nome de Matias foi retirado e, desse modo, ele foi o apóstolo escolhido por Deus. “E apresentaram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o Justo, e Matias. E, orando, disseram: Tu, Senhor, conhecedor dos corações de todos, mostra qual destes dois tens escolhido, para que tome parte neste ministério e apostolado, de que Judas se desviou, para ir para o seu próprio lugar. E, lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre Matias. E por voto comum foi contado com os onze apóstolos.” (Atos 1:23-26). O modo solene com o qual o sorteio foi realizado foi considerado como uma forma de se referir à decisão de Deus. “E Arão lançará sortes sobre os dois bodes; uma pelo Senhor, e a outra pelo bode emissário.” “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda a determinação.” (Levítico 16:8; Provérbios 16:33). Os apóstolos, é bom lembrar, ainda não tinham recebido o dom do Espírito Santo. O sorteio nunca mais foi repetido após o dia de Pentecostes.


Veja William CAVE, Lives o f the Apostles [A vida dos apóstolos]; Edward BURTON, Lectures upon the Ecclesiastical History, [Palestras sobre história eclesiástica]; William SMITH, Smith’s Bible Dictionary.↩

Veja William CAVE, Lives of the Apostles.↩

Veja Introdução ao Novo Testamento de Horne.↩

As Duas Primeiras Viagens de Paulo

O Apóstolo Paulo

Tendo esboçado brevemente as vidas dos doze apóstolos, naturalmente chegamos ao que pode ser chamado de décimo terceiro – o apóstolo Paulo.

No capítulo três falamos sobre a “conversão” e sobre o “apostolado” de Paulo. Vamos agora nos esforçar para traçar seu maravilhoso caminho, e tomar nota de algumas características de destaque de seus trabalhos. Mas, antes de tudo, vamos reunir tudo o que sabemos sobre ele antes de sua conversão.

Antes de sua Conversão

É bastante evidente, a partir das poucas dicas que temos na narrativa sagrada sobre o começo da vida de Paulo, que ele foi formado de maneira notável, por todo o curso de sua educação, para chegar ao que se tornaria, e para o que ele iria realizar. Foi Deus, que vigiava o desenvolvimento dessa mente e desse coração maravilhoso, desde o começo (Gálatas 1:16). Até então ele era conhecido como “Saulo de Tarso” – seu nome judeu – o nome dado a ele pelos seus pais judeus. Paulo foi seu nome gentio; mas vamos chamá-lo de “Saulo” até que ele seja nomeado “Paulo” pelo historiador sagrado.

Tarso era a capital da Cilícia e, como diz Paulo, “cidade não pouco célebre” (Atos 21:39). Essa cidade era reconhecida como um local de comércio e berço de literatura. Os tutores de ambos Augusto e Tibério eram homens de Tarso. Mas ela ficará famosa em todos os tempos principalmente por ter sido a cidade natal e primeira residência do grande apóstolo.

Mas, embora tenha nascido em uma cidade gentia, ele era “um hebreu de hebreus” (Filipenses 3:5). Seu pai era da tribo de Benjamim e da seita dos fariseus, mas moravam em Tarso. De algum modo ele tinha adquirido a cidadania romana, e seu filho podia dizer ao comandante: “Mas eu o sou de nascimento.” (Atos 22:28). Em Tarso ele aprendeu o ofício de fazer tendas. Era um costume saudável entre os judeus ensinar seus filhos algum ofício, embora possa haver pouca perspectiva de seu uso dependendo de sua condição de vida.

Quando Paulo fez sua defesa perante seus compatriotas (Atos 22), ele lhes conta que, embora tenha nascido em Tarso, ele havia sido “criado aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais.” (Atos 22:3) A história fala de Gamaliel como um dos mais eminentes dos doutores da lei; e das Escrituras aprendemos que ele era moderado em suas opiniões, e possuído de muita sabedoria mundana. Mas o zelo perseguidor do pupilo logo apareceu em um forte contraste com os conselhos de seu mestre sobre tolerância.

Na época do martírio de Estêvão, Saulo é mencionado como sendo ainda um jovem, mas consentindo com a morte de Estêvão, e guardando as roupas daqueles que o apedrejaram. Sua conversão parece ter ocorrido cerca de dois anos depois da crucificação, mas a data exata é desconhecida.

A partir de Atos 9 aprendemos que ele não demorou, após sua conversão, para confessar sua fé em Cristo àqueles que estavam à sua volta. “E esteve Saulo alguns dias com os discípulos que estavam em Damasco. E logo nas sinagogas pregava a Cristo, que este é o Filho de Deus.” (Atos 9:19-20). Este novo testemunho é especialmente digno de nota. Pedro tinha proclamado Jesus como o exaltado Senhor e Cristo; Paulo O proclama em Sua mais elevada e pessoal glória, como o Filho de Deus. Mas a hora de seu ministério público ainda não tinha chegado, ele ainda tinha muito o que aprender e, dirigido pelo Espírito, ele se retira para a Arábia, permanece lá por três anos, e retorna a Damasco (Gálatas 1:17).

Fortalecido e confirmado na fé durante seu retiro, ele prega com maior ousadia, provando que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Os judeus, seus inimigos implacáveis dali em diante, se incitaram contra ele. E eles vigiavam os portões dia e noite para matá-lo. Mas os discípulos o levaram de noite e o desceram pela muralha em um cesto (2 Coríntios 11:32,33). Ele então achou seu caminho até Jerusalém, e através do amigável testemunho de Barnabé, achou seu lugar entre os discípulos. Que maravilhoso e bendito triunfo da graça soberana!

A Primeira Visita de Saulo a Jerusalém (por volta de 39 d.C.)

O apóstolo está agora em Jerusalém – a cidade santa de seus pais – a metrópole da religião judaica, e o reconhecido centro do cristianismo. Mas quanto mudou sua própria posição desde que ele começou sua memorável jornada a Damasco!

Podemos aqui fazer uma breve pausa e observar, de passagem, a antiga cidade de Damasco. Tal cidade está intimamente conectada à conversão, ministério e história de nosso apóstolo. Além disso, ela é notável no decorrer de toda a Escritura.

Supõe-se que Damasco seja a cidade mais antiga do mundo. De acordo com Josefo (Ant. 1. 6, 4), ela foi fundada por Uz, o filho de Arã, e neto de Sem (Gênesis 10:23). Ela é mencionada pela primeira vez nas Escrituras em conexão a Abraão, cujo mordomo era um nativo do lugar: “o mordomo da minha casa é o damasceno Eliézer” (Gênesis 15:2). A cidade é, portanto, um elo entre a era patriarcal e os tempos modernos. Sua beleza e riqueza têm sido proverbiais por quatro mil anos. Os reis de Nínive, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma a conquistaram, e ela prosperou sob cada dinastia, e sobreviveu a todas elas; mas ela deve seu principal brilho e seu eterno memorial ao nome do Apóstolo Paulo.1

Retornemos agora a Jerusalém. Após passar quinze dias com Pedro e Tiago argumentando com os gregos, os irmãos “o acompanharam até Cesaréia, e o enviaram a Tarso. Assim, pois, as igrejas em toda a Judéia, e Galiléia e Samaria tinham paz, e eram edificadas; e se multiplicavam, andando no temor do Senhor e consolação do Espírito Santo.” (Atos 9:30-31). Por enquanto o adversário é silenciado. A paz reina por meio da bondade de Deus. A perseguição cumpriu os propósitos de Sua graça. Os dois grandes elementos da bênção – o temor do Senhor e a consolação do Espírito Santo – prevaleciam em todas as assembleias. Andando no temor do Senhor, e no consolo do Espírito Santo, eles são edificados, e seu número aumenta significativamente.

Enquanto Saulo estava em Tarso, sua terra natal, a boa obra do Senhor estava fazendo grande progresso na Antioquia. Dentre aqueles que foram dispersos pela perseguição que se levantou por causa de Estêvão, havia “homens chíprios e cirenenses, os quais entrando em Antioquia falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus. E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor.” (Atos 11:20-21). Uma nova ordem de coisas começa aqui. Até o momento, o evangelho tinha sido pregado “senão somente aos judeus” (Atos 11:19). Quando a notícia dessa bendita obra de Deus entre os gentios chegou a Jerusalém, Barnabé foi enviado pela igreja em uma missão especial até a Antioquia. “O qual, quando chegou, e viu a graça de Deus, se alegrou, e exortou a todos a que permanecessem no Senhor, com propósito de coração; porque era homem de bem e cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor.” (Atos 11:23-24)

À medida que a obra aumentava, Barnabé – sem dúvida, sentindo a necessidade de ajuda – pensou em Saulo; e, guiado pelo Senhor, partiu à sua procura. Tendo-o encontrado, o trouxe à Antioquia; e ali eles trabalharam juntos por “todo um ano”, tanto nas assembleias dos crentes quando entre o povo. Barnabé ainda assume a liderança, pois lemos de “Barnabé e Saulo”. Mais tarde, a ordem muda e lemos “Paulo e Barnabé”.

Uma oportunidade de mostrar a afeição pelos irmãos de Jerusalém logo apareceu para os jovens convertidos na Antioquia. Um profeta, “por nome Ágabo, dava a entender pelo Espírito, que haveria uma grande fome em todo o mundo, e isso aconteceu no tempo de Cláudio César. E os discípulos determinaram mandar, cada um conforme o que pudesse, socorro aos irmãos que habitavam na Judéia. O que eles com efeito fizeram, enviando-o aos anciãos por mão de Barnabé e de Saulo.” (Atos 11:28-30)

A Segunda Visita de Saulo a Jerusalém (por volta de 44 d.C.)

Encarregado desse serviço (levar provisões para os irmãos de Jerusalém, conforme visto no final da seção anterior), Barnabé e Saulo sobem a Jerusalém. Até agora, Jerusalém é considerada o centro da obra, embora agora estivesse rapidamente se estendendo aos gentios. Mas a união é preservada, e a ligação com a metrópole é fortalecida por meio da ajuda agora enviada. Não obstante, um novo centro, uma nova comissão, um novo caráter de poder, em conexão com a história da igreja, agora nos são apresentados. Barnabé e Saulo, tendo cumprido seu ministério, retornam novamente à Antioquia, trazendo com eles João, cujo sobrenome era Marcos.

Atos 13 abre diante de nós uma ordem de coisas inteiramente nova em conexão à obra apostólica, e faremos bem em assinalar tal grande mudança. O grande fato a ser observado aqui é o lugar que o Espírito Santo toma ao chamar e enviar Barnabé e Saulo. Não se trata mais de Cristo na Terra com Sua autoridade pessoal comissionando apóstolos, mas agora trata-se do Espírito Santo fazendo isso. “Apartai-me”, disse o Espírito, “a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado… E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre.” (Atos 13:2,4) Isto não significa, é claro, que podia haver alguma mudança no que diz respeito à autoridade ou poder, quer do Senhor quer do Espírito, mas seu modo de agir agora mudou. O Espírito Santo na Terra, em conexão a Cristo glorificado no Céu, agora se torna a fonte e poder da obra que se abre diante de nós, e que é atribuída a Barnabé e Saulo. A partir daí chegamos à primeira viagem missionária de Saulo.

A Primeira Viagem Missionária de Saulo (por volta de 48 d.C.)

Antes de nos ocuparmos com os apóstolos em sua viagem, cabe aqui uma observação sobre como as coisas mudaram. Eles partiram, devemos observar, não do velho centro, Jerusalém, mas da Antioquia, uma cidade de gentios. Isto é significativo. Jerusalém e os doze perderam a posição quanto à autoridade e poder para com o exterior. O Espírito Santo chama a Barnabé e Saulo para a obra, os prepara para isto, e os envia, sem a jurisdição dos doze.

Não será de esperar que em um livro, cujo conteúdo se propõe a ser resumido, possamos tomar nota dos vários eventos ocorridos nas viagens de Paulo. O leitor os encontrará em Atos e nas Epístolas. Propomos meramente traçar um esboço e dar destaque a determinados pontos de referência, pelos quais o leitor será capaz de traçar, por si mesmo, as várias jornadas do maior dos apóstolos – o maior dos missionários – o maior dos obreiros que já viveu, com exceção do bendito Senhor. Mas em primeiro lugar, gostaríamos de observar seus companheiros e seu ponto de partida.

Barnabé foi, por algum tempo, o companheiro mais próximo de Saulo. Ele era um levita da ilha de Chipre. Ele tinha sido chamado logo no início da história da igreja para seguir a Cristo, e “possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos.” (Atos 4:37). Comparando sua liberalidade com o belo testemunho que o Espírito Santo dá sobre ele, ele permanece diante de nós com um amável e requintado caráter. E, a partir de seu apego a Paulo desde o início, e de sua cordialidade em apresentá-lo aos outros apóstolos, podemos julgar que ele era mais franco e tinha um coração maior do que aqueles que tinham sido treinados na estreiteza do judaísmo; mas faltava-lhe ainda, quanto ao serviço, o rigor e a determinação de seu companheiro Saulo.

João Marcos era um parente próximo de Barnabé – “o sobrinho de Barnabé” (Colossenses 4:10). Sua mãe era uma certa Maria que morava em Jerusalém, e cuja casa parece ter sido um local de reunião para os apóstolos e primeiros cristãos. Quando Pedro foi liberto da prisão, ele foi direto para “a casa de Maria, mãe de João, que tinha por sobrenome Marcos” (Atos 12:12). Supõe-se que ele tenha sido convertido por meio de Pedro, pois depois Pedro fala dele como “meu filho Marcos” (1 Pedro 5:13)

A partir disso aprendemos que ele não era nem um apóstolo nem um dos setenta – que ele não havia acompanhado o bendito Senhor durante Seu ministério público. Mas podemos supor que ele estava ansioso para servir a Cristo, pois se uniu a Barnabé e Saulo, embora mais tarde pareça que sua fé não era páreo para as dificuldades da vida missionária. “E, partindo de Pafos, Paulo e os que estavam com ele chegaram a Perge, da Panfília. Mas João, apartando-se deles, voltou para Jerusalém.” (Atos 13:13). Supõe-se que Marcos tenha escrito seu Evangelho por volta do ano 63 d.C.

A Antioquia, a antiga capital dos selêucidas, foi fundada por Seleuco Nicator por volta de 300 a.C. Foi uma cidade que só ficava atrás de Jerusalém no que diz respeito ao início da história da igreja. O que Jerusalém tinha sido para os judeus, a Antioquia era agora para os gentios. Era um ponto central. Nessa época ocupava um lugar de grande importância na propagação do cristianismo entre os pagãos. Aqui a primeira igreja gentia foi plantada (Atos 11:20,21). Aqui os discípulos de Cristo foram primeiramente chamados de cristãos (Atos 11:26). E aqui nosso apóstolo começou seu trabalho ministerial público.

Retornemos agora à missão.

Barnabé e Saulo, com João Marcos como auxiliar no ministério, são então enviados pelo Espírito Santo. Os judeus, em virtude de sua conexão com as promessas, tiveram o evangelho primeiramente pregado a eles; mas a conversão de Sérgio Paulo marca, de maneira especial, o início do trabalho entre os gentios. Também marca uma crise na história do apóstolo. Aqui seu nome é mudado de Saulo para Paulo; e agora – com exceção de Jerusalém (Atos 15:12-22) – não vemos mais “Barnabé e Saulo”, mas sim “Paulo e os que estavam com ele” (Atos 13:13). Ele toma a dianteira; os outros são apenas aqueles que estão com Paulo. Mas o cenário tem ainda um caráter típico.

O procônsul era, evidentemente, um homem prudente e pensativo, e sentiu a necessidade de sua alma. Ele chama a Barnabé e a Saulo, e deseja ouvir a Palavra de Deus. Mas Elimas, o encantador, resiste a eles. Ele sabia bem que, se o governador recebesse a verdade que Paulo pregava, ele perderia sua influência na corte. Ele, portanto, procura afastar o deputado da fé. Mas Paulo, em dignidade consciente e no poder do Espírito Santo, “fixando os olhos nele” (Atos 13:9), e em palavras de mais fulminante indignação, o repreende na presença do governador. “Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor? Eis aí, pois, agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. E no mesmo instante a escuridão e as trevas caíram sobre ele e, andando à roda, buscava a quem o guiasse pela mão. Então o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor.” (Atos 13:10-12). O poder de Deus acompanha a palavra de Seu servo, e a sentença pronunciada é executada no mesmo instante. O deputado fica tomado pela glória moral da cena, e se submete ao evangelho.

“Eu não duvido”, disse alguém, “que neste miserável Barjesus (Elimas) vemos uma figura dos judeus no tempo presente, acometidos de cegueira por algum tempo, por causa dos ciúmes da influência do evangelho. A fim de preencher a medida de sua iniquidade, eles resistiram à pregação do evangelho aos gentios. A condição deles é julgada; sua história é dada na missão de Paulo. Em oposição à graça e buscando destruir seus efeitos sobre os gentios, eles foram acometidos de cegueira; no entanto, apenas por um tempo.”2

Durante essa primeira missão entre os gentios, um grande e abençoado trabalho foi feito. Compare Atos 13 e 14. Muitos lugares foram visitados, igrejas foram plantadas, anciãos foram nomeados, a hostilidade dos judeus manifestada, e a energia do Espírito Santo demonstrada no poder e progresso da verdade. Em Listra, o cristianismo foi confrontado, pela primeira vez, com o paganismo; mas em todo lugar o evangelho triunfa, e os vários dons de Paulo como obreiro aparecem de maneira abençoada. Seja ao abordar os judeus, que conheciam as Escrituras, ou bárbaros ignorantes, ou cultos gregos, ou multidões enfurecidas, ele prova ser um vaso divinamente escolhido para sua grande obra.

A Antioquia, na Pisídia, merece atenção especial pelo que aconteceu na sinagoga. Embora haja uma grande semelhança no discurso de Paulo comparado aos de Pedro e Estêvão nos primeiros capítulos de Atos ainda podemos notar certos toques estritamente paulinos em seu caráter. Seu estilo conciliador de abordagem, o modo como ele apresenta a Cristo, e sua ousada proclamação de justificação pela fé somente, podem ser consideradas como típicas de suas póstumas abordagens e Epístolas. Nenhum dos escritores sagrados fala da justificação pela fé como Paulo fala. Seu apelo final tem sido um texto evangelístico favorito de muitos pregadores em todas as eras. Em poucas palavras, ele afirma a bem-aventurança de todos que recebem a Cristo, e a terrível desgraça daqueles que O rejeitarem, provando assim que não poderia haver um meio-termo ou terreno neutro quando Cristo está em questão. “Seja-vos, pois, notório, homens irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê. Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; porque opero uma obra em vossos dias, obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar.” (Atos 13:38-41)

Tendo sido cumprida a missão deles, eles retornam à Antioquia na Síria. Quando os discípulos ouviram o que o Senhor tinha feito, e que a porta da fé foi aberta aos gentios, eles deviam apenas louvar e bendizer Seu santo nome. Devemos agora retornar, por um momento, a Jerusalém.

O efeito da primeira missão de Paulo sobre os discípulos em Jerusalém levou a uma grande crise na história da igreja. O ciúme e a mente farisaica estava tão excitada que uma divisão entre Jerusalém e Antioquia foi ameaçada naquele período inicial da história da igreja. Mas Deus governou em graça, e o problema quanto à Antioquia foi felizmente resolvido. Mas o fanatismo dos crentes judeus era insaciável. Na igreja em Jerusalém eles ainda conectavam ao cristianismo os requisitos da lei, e procuravam impor esses requisitos aos crentes gentios.

Alguns dos cristãos judeus de cabeça mais fechada desceram à Antioquia, e asseguraram aos gentios que, a menos que eles fossem circuncidados segundo o costume de Moisés, e que guardassem a lei, eles não poderiam ser salvos. Paulo e Barnabé não tiveram pequena discussão e contenda com eles; mas como era uma questão muito pesada para ser resolvida pela autoridade apostólica de Paulo, ou por uma resolução da igreja em Antioquia, foi decidido que uma delegação deveria subir à Jerusalém e pôr a questão diante dos doze apóstolos e dos anciãos. A escolha de quem deveria levar a questão, naturalmente, caiu sobre Paulo e Barnabé, já que tinham sido os mais ativos na propagação do cristianismo entre os gentios.

Chegamos agora à terceira visita de Paulo a Jerusalém.

A Terceira Visita de Paulo a Jerusalém (por volta de 50 d.C.)

Quando eles chegaram a Jerusalém, encontraram a mesma coisa3 não apenas nas mentes de alguns poucos irmãos inquietos, mas no próprio seio da igreja. A fonte da confusão estava lá, não entre judeus incrédulos, mas entres aqueles que professavam o nome de Jesus. “Alguns, porém, da seita dos fariseus, que tinham crido, se levantaram, dizendo que era mister circuncidá-los e mandar-lhes que guardassem a lei de Moisés.” (Atos 15:5). Esta declaração clara trouxe toda a questão diante da assembleia, e suas importantes deliberações começaram. O Capítulo 15 de Atos contém o relato do que ocorreu e como a questão foi resolvida. Os apóstolos, anciãos, e todo o corpo da igreja em Jerusalém não estavam apenas presentes, mas também tomaram parte na discussão. Os apóstolos nem assumiram nem exercitaram poder exclusivo sobre o assunto. Este é geralmente chamado “O primeiro Concílio da Igreja”, mas pode também ser chamada de último concílio da igreja que podia dizer: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (Atos 15:28).

Muitos, de acordo com noções modernas de “essencial e não-essencial”, sem dúvida diriam que a mera cerimônia de circuncidar ou não circuncidar uma criança não tinha muita importância. Mas não é assim de acordo com a mente de Deus. Era uma questão vital. Afetava o próprio fundamento do cristianismo, os profundos princípios da graça, e toda a questão sobre a relação do homem com Deus. A Epístola de Paulo aos Gálatas é um comentário sobre a história dessa questão.

Não havia rito ou cerimônia que o judeu convertido fosse tão averso a deixar para trás como a circuncisão. Era o sinal e o selo do seu próprio relacionamento com Jeová, e das hereditária bênçãos da aliança com seus filhos. É da opinião de alguns em todas as eras que o “batismo de crianças” foi introduzido pela igreja para atender ao forte preconceito judaico. Mas se isto tivesse sido a pretensão do Senhor, o concílio em Jerusalém seria o próprio lugar para anunciá-lo. Isto acabaria com toda a dificuldade, e resolveria a questão diante deles, e restauraria a paz e unidade entre os duas “igrejas-mãe”4. Mas nenhum dos apóstolos ou dos outros aludiram a isto.

Antes de deixarmos essa importante e sugestiva parte da história do nosso apóstolo, pode ser bom observar certos fatos trazidos em Gálatas 2, mas que não são mencionados em Atos Foi nesta ocasião que Paulo subiu, por revelação, a Jerusalém com Tito. Em Atos temos a história de Paulo vista de fora, cedendo aos motivos, desejos e objetivos do homem; nas Epístolas temos algo mais profundo – aquilo que governava o coração do apóstolo. Mas Deus sabe como combinar essas circunstâncias externas com a direção interna do Espírito. A liberdade cristã ou a servidão da lei estavam em debate: se a lei de Moisés – em particular, o rito da circuncisão – deveria ser imposta aos gentios convertidos. Paulo, guiado por Deus, sobe a Jerusalém, e leva com ele Tito. Perante a face dos doze apóstolos, e de toda a igreja, ele traz a Tito, que era grego, e que não tinha sido circuncidado. Isto foi um passo ousado – introduzir um gentio, e incircunciso, no próprio centro de um judaísmo intolerante! Mas o apóstolo foi lá por revelação. Ele tinha comunicações positivas, vindas de Deus, sobre o assunto. Foi a maneira divina de decidir a questão, de uma vez por todas, entre ele mesmo e os cristãos judaizantes. Este passo era necessário, como ele diz: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão; aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós.” (Gálatas 2:4-5)

O apóstolo, então, tendo atingido seu principal objetivo, e tendo comunicado seu evangelho aos de Jerusalém, vai embora, com Barnabé, e retorna aos cristãos gentios em Antioquia. Os dois representantes, Judas e Silas, carregando os decretos do concílio, os acompanham. Quando a multidão de discípulos se reuniu e ouviu a epístola lida, se alegraram e foram consolados.

Assim termina o primeiro concílio apostólico, e a primeira controvérsia apostólica. E, pelo que aprendemos desses assuntos em Atos podemos concluir que a divisão entre os cristãos judeus e gentios tinha sido completamente curada pela decisão da assembleia; mas sabemos, pelas Epístolas, que a oposição do partido judaizante contra a liberdade dos cristãos gentios nem sequer cochilava. Logo começava de novo, e Paulo tinha que, constantemente, confrontar e lutar contra a questão.

A Segunda Viagem Missionária de Paulo (por volta de 51 d.C.)

Depois de Paulo e Barnabé terem ficado algum tempo com a igreja em Antioquia, outra viagem missionária foi proposta. “Tornemos”, disse Paulo, “a visitar nossos irmãos por todas as cidades em que já anunciamos a palavra do Senhor, para ver como estão. E Barnabé aconselhava que tomassem consigo a João, chamado Marcos. Mas a Paulo parecia razoável que não tomassem consigo aquele que desde a Panfília se tinha apartado deles e não os acompanhou naquela obra. E tal contenda houve entre eles, que se apartaram um do outro. Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. E Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu, encomendado pelos irmãos à graça de Deus. E passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas.” (Atos 15:36-41)

Com uma jornada tão importante, tão cheia de provações, que exigia coragem e perseverança – segundo a opinião de Paulo – ele não podia confiar em Marcos como companheiro; ele não podia facilmente desculpar aquele cujos laços familiares o tornaram infiel no serviço ao Senhor. O próprio Paulo deixava de lado todas as considerações e sentimentos pessoais quando a obra de Cristo estava em questão, e ele desejava que os outros fizessem o mesmo. A afeição natural, nesta ocasião, pode ter traído Barnabé a, novamente, pressionar seu sobrinho ao serviço; mas uma severa seriedade caracterizava Paulo. Os laços dos relacionamentos naturais e dos apegos humanos ainda tinham grande influência sobre o caráter cristão ameno de Barnabé. Isto é evidente pela sua conduta em Antioquia na ocasião da fraca complacência de Pedro para com os judaizantes de Jerusalém (Gálatas 2). A disseminação do evangelho no mundo gentio era sagrada demais aos olhos de Paulo para admitir experimentos. Marcos tinha preferido Jerusalém à obra, mas Silas preferiu a obra a Jerusalém. Isto pesou na decisão de Paulo, embora, sem dúvida, ela tenha sido guiado pelo Espírito.

Barnabé leva Marcos, seu parente, e navega para Chipre, sua terra natal. E aqui nos despedimos de Barnabé, aquele amado santo e precioso servo de Cristo! Seu nome não é mais mencionado em Atos Essas palavras, “parente” e “terra natal” devem ser deixadas a falar por elas mesmas ao coração de cada discípulo que lê estas páginas. Se estivéssemos meditando sobre essa cena dolorosa, em vez de dar um mero esboço de uma grande história, poderíamos ter muito o que dizer sobre o assunto; mas o deixamos com duas felizes reflexões: 1) Isto foi direcionado de modo que redundou em benção para os pagãos; as águas da vida agora fluíam em duas correntes no lugar de uma só. Isso, no entanto, é a bondade de Deus, e não dá sanção à divisão entre cristãos. 2) Paulo, mais tarde, fala de Barnabé com inteira afeição, e deseja que Marcos vá até ele, tendo-o achado útil para o ministério (1 Coríntios 9:6; 2 Timóteo 4:11). Não temos dúvida de que a fidelidade de Paulo se tornou uma benção para ambos. Mas o mel das afeições humanas nunca poderão ser aceitas no altar de Deus.

Tendo sido encomendados pelos irmão à graça de Deus, eles iniciam sua jornada. Tudo é maravilhosamente simples. Nenhum desfile é feito pelos seus amigos ao vê-los partir, e nenhuma grande promessa é feita por eles quanto ao que eles estavam determinados a fazer. “Tornemos a visitar nossos irmãos”, são as poucas, simples e despretensiosas palavras que nos levam à segunda grande viagem missionária de Paulo. Mas o Mestre estava pensando em Seus servos e provendo para eles. Eles não precisavam ir longe até encontrar um novo companheiro em Timóteo de Listra, um que havia de suprir o vazio causado pela ausência de Barnabé. Se Paulo perdeu o companheirismo de Barnabé como amigo e irmão, ele encontrou em Timóteo, como seu próprio filho na fé, uma simpatia e um companheirismo que só combinava com a vida do apóstolo. “Paulo quis que este fosse com ele”, mas antes de partirem, Paulo “o circuncidou, por causa dos judeus que estavam naqueles lugares; porque todos sabiam que seu pai era grego.” Paulo, nesta ocasião, inclina-se ao preconceito dos judeus, e circuncisa Timóteo por segurança.

Timóteo era filho de um daqueles casamentos mistos que sempre foram fortemente condenados tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Seu pai era um gentio, mas seu nome nunca é mencionado; sua mãe era uma piedosa judia. Dada a ausência de qualquer referência ao pai, tanto em Atos quanto nas Epístolas, supõe-se que ele possa ter morrido pouco tempo depois do filho ter nascido. Timóteo foi, evidentemente, deixado na infância ao único cuidado de sua mãe Eunice e de sua avó Lóide, que o ensinou, desde criança, a conhecer as Sagradas Escrituras. E, das muitas alusões nas Epístolas de Paulo ao carinho, sensibilidade, e às lágrimas de seu amado filho na fé, podemos acreditar que ele manteve por toda a vida as impressões daquele gentil, amável e santo cuidado doméstico. O maravilhoso amor de Paulo por Timóteo, e suas afáveis lembranças de sua casa em Listra, e seu treinamento inicial ali, ditaram algumas das mais tocantes passagens dos escritos do grande apóstolo. Quando já um homem idoso – na prisão, passando necessidades, e com o martírio diante de si – ele escreve: “A Timóteo, meu amado filho: Graça, misericórdia, e paz da parte de Deus Pai, e da de Cristo Jesus, Senhor nosso. Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepassados sirvo com uma consciência pura, de que sem cessar faço memória de ti nas minhas orações noite e dia; desejando muito ver-te, lembrando-me das tuas lágrimas, para me encher de gozo; trazendo à memória a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti.” (2 Timóteo 1:2-5). Ele insiste e repete seu urgente convite a Timóteo para ir e vê-lo. “Procura vir ter comigo depressa” – “Procura vir antes do inverno” (2 Timóteo 4:9,21). Podemos permitir-nos a crer que um filho tão ternamente amado pôde chegar a tempo de acalmar as últimas horas de seu pai em Cristo, de receber seu último conselho e bênção, e de testemunhá-lo terminando sua carreira com alegria.

Silas, ou Silvano, aparece pela primeira vez como um mestre na igreja em Jerusalém; e provavelmente ele era tanto um helenista quanto um cidadão romano, como o próprio Paulo (Atos 16:37). Ele foi apontado como responsável por acompanhar Paulo e Barnabé em seu retorno a Antioquia com os decretos do concílio. Mas, como muitos detalhes tanto da vida de Timóteo quanto de Silas naturalmente aparecerão ao traçarmos o caminho do apóstolo, não precisamos dizer nada mais sobre eles no presente momento. Procedamos com a viagem.

Paulo e Silas, com seu novo companheiro, percorrem as cidades, ordenando-lhes a manter os decretos ordenados pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém. Os decretos foram deixados com as igrejas, de modo que os judeus tinham a própria decisão de Jerusalém de que a lei não era para ser imposta aos gentios. Após visitar e confirmar as igrejas já plantadas na Síria e Cilícia, eles procederam para a Frígia e Galácia. Aqui fazemos uma pausa e nos deteremos nestas palavras: “pela Frígia e pela província da Galácia” (Atos 16:6). A Frígia e a Galácia não eram meras cidades, mas províncias, ou grandes distritos do país. E ainda assim o historiador sagrado usa apenas essas poucas palavras ao recordar a grande obra feita lá. Quão diferente é a energia condensada do Espírito comparada ao estilo inflado do homem! Aprendemos da história, segundo Neander, que somente na Frígia, no sexto século, havia sessenta e duas cidades. E parece que Paulo e os que estavam com ele tinham percorrido todas as que existiam naquela época.

As mesmas observações quanto ao trabalho se aplica à Galácia. E aprendemos pela Epístola de Paulo aos Gálatas que, nessa época, ele estava sofrendo no corpo. “E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em fraqueza da carne” (Gálatas 4:13). Mas o poder da sua pregação contrasta de maneira tão impressionante com a fraqueza da sua carne que os gálatas foram movidos até mesmo a extravasar em simpatia e sentimentos generosos. “E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha carne, antes me recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo. Qual é, logo, a vossa bem-aventurança? Porque vos dou testemunho de que, se possível fora, arrancaríeis os vossos olhos, e mos daríeis.” (Gálatas 4:14-15). Aprendemos pela história que os gálatas eram de origem celta, impulsivos e de caráter instável5. A Epístola inteira é uma triste ilustração da instabilidade deles, e dos tristes efeitos do elemento judaizante entre eles. “Maravilho-me de”, disse Paulo, “que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho; o qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo.” (Gálatas 1:6-7). Mas retornemos à história narrada em Atos.

O caráter e os efeitos do ministério de Paulo, como relatados nos capítulos 16 a 20, são realmente maravilhosos. Eles deveriam até se destacar nas páginas de toda a história. Todo servo de Cristo, e especialmente o pregador, deveria estudá-los cuidadosamente e lê-los com frequência. “O vaso do Espírito”, disse alguém de maneira tão bela, “brilha com uma luz celestial através de toda a obra do evangelho; ele condescende em Jerusalém; trovoa na Galácia quando almas estão sendo pervertidas, guia os apóstolos a decidirem pela liberdade dos gentios, e usa, ele mesmo, de toda a liberdade de ser um judeu de judeus, e como um sem lei para aqueles que não tinham a lei, como não estando debaixo da lei, mas sempre sujeito a Cristo. Ele também ’procurava sempre ter uma consciência sem ofensa’ (Atos 24:16). Nada que havia dentro dele dificultava sua comunhão com Deus, de onde ele tirou suas forças para ser fiel entre os homens. Ele podia dizer, e [talvez, N. do T.] ninguém além dele: ’sede meus imitadores, como também eu de Cristo’ (1 Coríntios 11:1). Assim também ele podia dizer: ’Tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna.’ (2 Timóteo 2:10)”6

Os modos do Espírito para com o apóstolo nesses capítulos são também dignos de nota. Ele, e somente Ele, dirige o apóstolo em seu maravilhoso caminho, e o sustêm em meio a muitas provas e circunstâncias opostas. Por exemplo, Ele proíbe Paulo de pregar a Palavra na Ásia – Ele não o deixa ir à Bitínia, mas o direciona por meio de uma visão à noite para que ele fosse à Macedônia. “E Paulo teve de noite uma visão, em que se apresentou um homem da Macedônia, e lhe rogou, dizendo: Passa à Macedônia, e ajuda-nos. E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedônia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o evangelho. E, navegando de Trôade, fomos correndo em caminho direito para a Samotrácia e, no dia seguinte, para Neápolis; e dali para Filipos, que é a primeira cidade desta parte da Macedônia, e é uma colônia.” (Atos 16:9-12)

Paulo leva o Evangelho para a Europa

Isto marca uma época distinta na história da igreja, na história de Paulo, e no progresso do cristianismo. Paulo e seus companheiros agora levam o evangelho Europa adentro. E aqui creio que podemos fazer uma pausa, por um momento, para lembrarmos as várias e interessantes associações históricas dos conquistadores e conquistas da Macedônia, e para habitarmos por um momento sobre a planície de Filipos, também famosa na história romana. Aqui a grande luta entre a república e o império tinha terminado. Para comemorar esse evento, Augusto fundou uma colônia em Filipos. Esta foi a primeira cidade na qual Paulo chegou em sua entrada para a Europa. Ela é chamada “a primeira cidade desta parte da Macedônia, e é uma colônia.” (Atos 16:12) Uma colônia romana, como nos é relatado, era caracteristicamente uma lembrança em miniatura de Roma; e Filipos era mais apta que qualquer outra cidade no império para ser considerada representativa da Roma Imperial.

Para muitos de nossos jovens e questionadores leitores, esta breve digressão, temos certeza, não será desinteressante. Além disso, um conhecimento sobre tais histórias são úteis ao estudante da profecia, uma vez que se tratam do cumprimento da visão de Daniel, especialmente do capítulo 7. A cidade de Filipos era, por si própria, um monumento ao crescente poder da Grécia, que deveria esmagar o poder em declínio da Pérsia. Alexandre, o Grande, filho de Filipe, foi o conquistador do grande rei Dário; quando o “Leopardo” da Grécia venceu o “Urso” da Pérsia.7

Ao olharmos para trás a partir do tempo em que Paulo partiu da Ásia para a Europa, quase quatrocentos anos tinham passado desde que Alexandre partiu da Europa para a Ásia. Mas quão diferentes eram seus motivos e objetivos – seus conflitos e suas vitórias! O entusiasmo de Alexandre foi despertado pela lembrança de seus grandes antepassados, e por sua determinação em derrubar as grandes dinastias do Oriente; mas, embora não intencional e inconscientemente, ele estava cumprindo os propósitos de Deus. Paulo tinha cingido sua armadura para outro propósito, e para ganhar maiores e mais duradouras vitórias. Ele foi enviado pelo Espírito Santo, não apenas para subjugar o Ocidente, mas para trazer o mundo inteiro a cativar pela obediência de Cristo. O cristianismo não é apenas para uma nação ou um povo, mas para o homem universalmente; até mesmo o próprio Paulo expressa isto em Colossenses 1:23: “A toda criatura que há debaixo do céu”. Esta é a missão do evangelho, e esta é sua esfera.

Mas há outra coisa que devemos observar aqui antes de procedermos com a viagem de Paulo.

Lucas, “o médico amado”, historiador e evangelista parece ter se unido a Paulo neste momento particular. No versículo 10 ele escreve na primeira pessoa do plural: “Procuramos partir para a Macedônia”. Supõe-se que ele era um gentio de nascença e convertido em Antioquia. Ele parece ter permanecido como um fiel companheiro do apóstolo até o fim de seus trabalhos e aflições (2 Timóteo 4:11).

O Efeito da Pregação de Paulo em Filipos

A quantidade de judeus em Filipos aparentemente era pequena, já que não havia sinagoga no lugar. Mas o apóstolo, como de costume, vai a eles primeiro, mesmo quando se trata de umas poucas mulheres reunidas à margem do rio (Atos 16). Paulo prega a elas, Lídia é convertida, a porta é aberta, e outras também creem. Foi nesse lugar despretensioso, e àquelas poucas mulheres piedosas, que o evangelho foi pregado pela primeira vez na Europa, e onde a primeira casa foi batizada8. Mas o silencioso início e seus triunfos pacíficos logo foram perturbados pela malícia de Satanás e pela cobiça do homem. O evangelho não avançaria em meio ao paganismo com facilidade e conforto, mas com grande oposição e sofrimento.

Enquanto o apóstolo e seus companheiros iam ao oratório, ou lugar de oração, uma jovem possuída por um espírito maligno os seguia, e clamava, dizendo: “Estes homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo.” (Atos 16:17). Da primeira vez, Paulo não deu atenção. Ele foi em frente com sua própria bendita obra de pregação de Cristo, e de ganhar almas para Ele. Mas a pobre e obsessiva escrava persistia em segui-los, e em proferir a mesma exclamação. Foi uma tentativa maliciosa do inimigo para impedir a obra de Deus ao prestar um testemunho aos ministros da Palavra. Deve ser observado que ela não presta testemunho a “Jesus”, ou ao “Senhor”, mas aos Seus “servos”, e ao “Deus Altíssimo”. Mas Paulo não queria um testemunho para ele mesmo, nem um testemunho vindo de um espírito maligno, e ele, “perturbado, voltou-se e disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela. E na mesma hora saiu.” (Atos 16:18)

Como a moça não podia mais praticar suas artes de adivinhação, seus mestres viram-se privados dos ganhos que eles tinham derivado daquela fonte. Enfurecidos pela perda de sua propriedade, e movendo as multidões ao seu favor, prenderam Paulo e Silas e os arrastaram perante os magistrados. Como eles estavam bem conscientes de que não tinham nenhuma acusação verdadeira para trazê-los perante eles, levantaram o velho clamor da “perturbação da paz” – de que eles estavam tentando introduzir práticas judaicas na colônia romana, e ensinar costumes que eram contrários às leis romanas. E, como tem sido muitas vezes, o clamor da multidão foi aceito no lugar da evidência, exame e deliberação. Os magistrados, sem perguntar mais nada, ordenou-lhes que fossem açoitados e lançados na prisão. E assim foi, aqueles benditos servos de Deus, feridos, sangrando e fracos foram entregues a um cruel carcereiro, que aumentou ainda mais o sofrimento deles ao prender-lhes os pés no tronco. Mas Paulo e Silas, em vez de ficarem deprimidos por seus sofrimentos no corpo e pelas sombrias paredes da prisão, alegraram-se por terem sido considerados dignos de sofrer vergonha e dor por causa de Cristo; e em vez do silêncio da meia-noite ser quebrado com os suspiros e gemidos dos prisioneiros, eles “oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam.” (Atos 16:25)

Se a Satanás não lhe falta recursos para continuar sua obra ruim, a Deus não Lhe falta recursos para continuar Sua boa obra. Ele agora faz uso de tudo que aconteceu para direcionar o progresso da obra do evangelho, e para cumprir os propósitos do Seu amor. O carcereiro deve ser convertido, a igreja deve ser reunida, e um testemunho criado para o Senhor Jesus Cristo na própria fortaleza do paganismo. À meia-noite, enquanto Paulo e Silas estavam cantando e os prisioneiros estavam ouvindo ao som incomum, ocorre um grande terremoto. Deus entra em cena em majestade e graça. Ele levanta Sua voz e a terra treme: as paredes da prisão são chacoalhadas, as portas se abrem, e os grilhões de todo homem caem. E agora, o que são cadeias e prisões? O que são legiões romanas? O que é todo o poder do inimigo? A voz de Deus é ouvida na tempestade: mas a violência da tempestade é sucedida pela voz mansa e delicada do evangelho e da paz do Céu.

Logo despertado pelo terremoto, os primeiros pensamentos do carcereiro foram em relação a seus prisioneiros. Alarmado por ver as portas da prisão abertas, e supondo que os presos tinham fugido, ele pega sua espada para se matar. “Mas Paulo clamou com grande voz, dizendo: Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos.” (Atos 16:28). Estas palavras de amor quebraram o coração do carcereiro. A calma serenidade de Paulo e Silas – sua recusa em valer-se da oportunidade de escapar – sua carinhosa preocupação para com ele – tudo combinado para fazê-los aparecer aos olhos do espantado carcereiro como seres de uma ordem superior. Ele deixou de lado sua espada, pediu por luz, saltou para dentro da prisão e, tremendo, caiu aos pés do apóstolo. Sua consciência foi, agora, alcançada, seu coração foi quebrantado, e havia algo como a violência de um terremoto agitando toda sua alma. Ele toma o lugar de um pecador perdido, e clama: “Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?” (Atos 16:30). Ele não fala como o doutor da lei em Lucas 10:25: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” O que estava em questão para o carcereiro não era sobre fazer algo para a vida, mas sobre a salvação para o perdido. O doutor da lei, como muitos outros, não conhecia a si mesmo como um pecador perdido, portanto ele não fala sobre salvação.

Em resposta à mais importante pergunta que os lábios humanos podem fazer, “O que devo fazer para ser salvo?”, o apóstolo direciona a mente do carcereiro para Cristo – “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa.” (Atos 16:31). Deus deu a bênção, e toda sua família creu, se alegrou, e foi batizada. E agora tudo está mudado: o carcereiro leva os prisioneiros à sua própria casa – sua crueldade é transformada em amor, simpatia e hospitalidade. Na mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões – lhes ofereceu comida – regozijou-se, crendo em Deus com toda sua casa. Que noite agitada! Que mudança em poucas horas! E que manhã alegre clareou sobre aquela feliz casa! O Senhor seja louvado!

Como o rei Dário, os magistrados parecem ter sido perturbados durante a noite. A notícia do terremoto, ou de que Paulo e Silas eram cidadãos romanos, parece tê-los alcançado. Mas assim que amanheceu, mandaram dizer ao carcereiro que “soltassem aqueles homens”. Ele, imediatamente, fez conhecer a ordem a Paulo e Silas, e desejou-lhes que partissem em paz. Mas Paulo se recusou a aceitar sua liberdade sem algum reconhecimento público do erro de que haviam sido vítimas. Ele agora também torna conhecido o fato de que ele e Silas eram cidadãos romanos. As famosas palavras de Cícero tinham se tornado um provérbio, e tinham um imenso peso onde quer que fosse: “Acorrentar um cidadão romano é um ultraje, açoitá-lo é um crime”. Os magistrados tinham, evidentemente, violado as leis romanas; mas Paulo só exigiu que, como eles tinham sido publicamente tratados como culpados, os magistrados fossem a público e declarassem que eram inocentes. Isto eles fizeram prontamente, vendo o erro que tinham cometido. “E, vindo, lhes dirigiram súplicas; e, tirando-os para fora, lhes pediram que saíssem da cidade. E, saindo da prisão, entraram em casa de Lídia e, vendo os irmãos, os confortaram, e depois partiram.” (Atos 16:39-40) 9

Antes de deixarmos este memorável capítulo, devemos apenas acrescentar algo que é muito agradável de se encontrar: na Epístola de Paulo aos Filipenses, as provas de um vínculo que os unia, e que continuou desde “o primeiro dia” até mesmo depois do aprisionamento de Paulo em Roma. Sua afeição pelos amados filipenses era maravilhosa. Ele se dirigiu a eles como “meus amados e mui queridos irmãos, minha alegria e coroa, estai assim firmes no Senhor, amados.” (Filipenses 4:1). E ele reconhece, sem poder conter a alegria, sua comunhão incansável com eles no evangelho, e as muitas provas práticas do amável cuidado e carinhosa simpatia que eles tinham por ele. Já em sua residência em Tessalônica eles se lembravam das necessidades do apóstolo. “Porque também uma e outra vez me mandastes o necessário a Tessalônica.” (Filipenses 4:16)

Paulo em Tessalônica e Bereia

Paulo e Silas agora dirigem seu percurso até Tessalônica. Timóteo e Lucas parecem ter ficado para trás em Filipos por um tempo. Tendo passado através de Anfípolis e Apolônia, Paulo e Silas chegam a Tessalônica. Ali eles encontram uma sinagoga. Era uma cidade comercial de grande importância, onde muitos judeus residiam. “Paulo, como tinha por costume, foi ter com eles; e por três sábados disputou com eles sobre as Escrituras.” (Atos 17:2). Os corações de muitos foram tocados por suas pregações, e uma grande multidão de devotos gregos e mulheres da alta sociedade creram. Mas o velho inimigo de Paulo aparece novamente. “Os judeus desobedientes, movidos de inveja, tomaram consigo alguns homens perversos, dentre os vadios e, ajuntando o povo, alvoroçaram a cidade, e assaltando a casa de Jasom, procuravam trazê-los para junto do povo. E, não os achando, trouxeram Jasom e alguns irmãos à presença dos magistrados da cidade, clamando: Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui; os quais Jasom recolheu; e todos estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, Jesus.” (Atos 17:5-7). Estes versículos devem bastar para nos dar uma ideia do caráter universal dos judeus contra o evangelho e contra Paulo, seu principal ministro.

O apóstolo tinha, evidentemente, pregado aos tessalonicenses a verdade a respeito da exaltação de Cristo e Sua vinda na glória: “Dizendo que há outro rei, Jesus.” Daí a constante alusão à vinda do Senhor, e ao “dia do Senhor”, nas Epístolas de Paulo àquela igreja. Pelo que diz Paulo em sua primeira Epístola, aprendemos que seus trabalhos foram muito abundantes e grandemente reconhecidas e abençoados pelo Senhor para muitas almas. (1 Tessalonicenses 1:9-10; 2:10-11)

O apóstolo agora procede para a Bereia. Ali os judeus eram mais nobres. Eles examinavam o que ouviam pela Palavra de Deus. Houve uma grande bênção ali também. Muitos creram, mas os judeus, como caçadores após sua presa, apressaram-se de Tessalônica para a Bereia, e levantaram um tumulto que forçou Paulo a deixar o lugar quase imediatamente. Acompanhado por alguns dos bereianos convertidos, ele direcionou seu curso para Atenas. Silas e Timóteo ficaram para trás.

A Visita de Paulo a Atenas

A aparição do apóstolo em Atenas é um evento de grande importância em sua história. Atenas era, em certos aspectos, a capital do mundo, e a sede da cultura e filosofia grega; mas era também o ponto central da superstição e idolatria.

É muito interessante observar que o apóstolo não tinha pressa de começar seu trabalho nesse lugar. Ele concedeu tempo à reflexão. Pensamentos profundos, e o pesar de tudo na presença de Deus e à luz da morte e ressurreição de Cristo, encheram sua mente. Sua primeira intenção era esperar pela chegada de Silas e Timóteo. Ele tinha enviado uma mensagem para Bereia para que eles fossem ter com ele o mais rápido possível. Mas quando ele se viu rodeado de templos, e altares, e estátuas, e adoração idólatra, ele não podia mais ficar em silêncio. Como de costume, ele começa com os judeus, mas também disputa diariamente com os filósofos no mercado: cristianismo e paganismo então se confrontam abertamente entre si; e, vale observar, o apóstolo do cristianismo estava sozinho em Atenas, enquanto o lugar fervilhava de apóstolos do paganismo; e tão numerosos eram os objetos de adoração, que um satirista uma vez observou: “É mais fácil encontrar um deus que um homem em Atenas”.

Alguns, com desprezo, ridicularizavam o que ouviam, e outros ouviam e desejavam ouvir mais. “E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele; e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos; porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição.” (Atos 17:18). Estas palavras tinham causado grande impressão, e permaneceram claramente em suas mentes. Que novidade, e que bendita realidade para as almas! A Pessoa de Cristo; não uma teoria: o fato da ressurreição; não uma sombria incerteza quanto ao futuro. O ministro de Cristo desnuda aos estudados atenienses a temerosa condição em que se encontravam sob a visão do verdadeiro Deus. No entanto, eles desejavam uma exposição mais plena e mais deliberada sobre esses misteriosos assuntos, e levaram Paulo ao Areópago.

Desse lugar, o Areópago, é dito que era o mais conveniente e apropriado para um discurso. A mais solene corte da justiça havia sentado desde tempos imemoriais na colina do Areópago. Os juízes se sentavam ao ar livre sobre assentos escavados na rocha. Nesse local, muitas questões solenes tinham sido discutidas, e muitos casos solenes decididos: começando com o lendário julgamento de Marte, o que deu ao lugar o nome de “colina de Marte”.

Foi nesse cenário que Paulo dirigiu-se à multidão. Não há um momento sequer na história do apóstolo, ou na história do começo do cristianismo, mais profundamente interessante ou mais conhecido que este. Inspirado por sentimentos para a honra de Deus, e cheio do conhecimento sobre a condição do homem à luz da cruz, o que deve ter ele sentido enquanto estava na colina de Marte? Para onde quer que voltasse os olhos, os sinais da idolatria em suas milhares de formas se levantavam diante dele. Ele poderia ter sido traído, diante das circunstâncias, a falar com exagerada ousadia; mas ele dominou seus sentimentos, e absteve-se de uma linguagem intemperada. Considerando a fervência de seu espírito, e a grandeza de seu zelo pela verdade, foi um notável exemplo de auto-negação e auto-controle. Mas seu Senhor e Mestre estava com ele, embora para o olho humano ele estivesse sozinho diante dos atenienses e dos muitos estrangeiros que se reuniam naquela universidade do mundo.

Pela sabedoria, prudência, raciocínio claro e perfeita habilidade, o discurso de Paulo se destaca nos anais da história da humanidade. Ele não começou atacando seus falsos deuses, ou denunciando a religião deles como uma ilusão satânica e objeto de seu ódio absoluto. O zelo sem conhecimento teria feito assim, e teria ficado satisfeito com sua própria fidelidade. Mas no discurso que temos diante de nós temos um exemplo da melhor maneira de se aproximar das mentes e corações de pessoas ignorantes e preconceituosas de qualquer idade. Que o Senhor possa dar sabedoria a todos Seus servos para seguir este exemplo!

Suas palavras de abertura são, ao mesmo tempo, vencedoras e reprobatórias: “Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos.” (Atos 17:22). Ele, então, começa reconhecendo que eles tinham sentimentos religiosos, mas que estavam na direção errada; e então fala de si como sendo um que estava disposto a conduzi-los ao conhecimento do verdadeiro Deus: “Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio.” (Atos 17:23). Ele sabiamente seleciona, para seu texto, a inscrição: “AO DEUS DESCONHECIDO” (Atos 17:23). Isto lhe dá a oportunidade de começar do mais baixo degrau da escada da verdade. Ele fala da unicidade de Deus, o Criador, e da relação do homem com Ele. Mas ele logo deixa o argumento contra a idolatria e procede pregando o evangelho. E ainda assim ele tem o cuidado de não introduzir o nome de Jesus em seu discurso público. Ele tinha tinha feito isso totalmente em suas ministrações mais particulares: mas, estando cercado pelos discípulos e admiradores de nomes como Sócrates, Platão, Zeno e Epícuro, ele sagradamente guarda o santo nome de Jesus do risco de uma comparação com tais. Ele bem sabia que o nome do humilde Jesus de Nazaré era “loucura (bobagem) para os gregos” (1 Coríntios 1:23). No entanto, é fácil observar que, próximo ao fim de seu discurso, a atenção de toda a audiência está concentrada no homem Cristo Jesus, embora Seu nome não seja mencionado em todo o discurso. Então ele procede: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos.” (Atos 17:30-31). Aqui a paciência de sua audiência acabou – seu discurso foi interrompido. Mas a última impressão deixada em suas mentes era de eterno peso e importância. O apóstolo inspirado se dirigiu às consciências, e não à curiosidade intelectual dos filósofos. A menção da ressurreição dos mortos e do julgamento do mundo, com tal poder e autoridade, não podia deixar de perturbar aqueles orgulhosos e auto-indulgentes homens. O princípio essencial, ou o maior objetivo, do filósofo epicureu, era satisfazer a si mesmo; o do estoico era uma orgulhosa indiferença ao bem e ao mal, ao prazer e a dor.

Que dúvidas podemos ter de que essa notável assembleia se desfaria em meio ao escárnio desdenhoso de alguns e à gélida indiferença de outros? Mas, apesar de tudo, o cristianismo tinha ganhado sua primeira e nobre vitória sobre a idolatria e, quaisquer que tenham sido os resultados imediatos do discurso de Paulo, sabemos que tem sido de bênção para muitos desde então, e que ainda trará muitos frutos em muitas almas, e continuará a dar frutos para a glória de Deus sempre e sempre.

Paulo agora se afasta do meio deles. Ele não parece ter sido expulso por qualquer tumulto ou perseguição. O bendito Senhor lhe concedeu provar de Sua própria alegria e da alegria dos anjos quando alguns pecadores contritos o buscaram: “entre os quais foi Dionísio, areopagita, uma mulher por nome Dâmaris, e com eles outros.” (Atos 17:34). Mas na cidade militar de Filipos, e nas cidades mercantis de Tessalônica e Corinto, o número de conversões parece ter sido muito maior do que na altamente educada e civilizada cidade de Atenas. Isto é profundamente humilhante para o orgulho do homem, e para os vangloriosos poderes da mente humana. Uma Epístola foi escrita aos filipenses, duas aos tessalonicenses, e duas aos coríntios: mas não temos nenhuma carta escrita por Paulo aos atenienses, e não lemos de ter ele outra vez visitado Atenas.

A Visita de Paulo a Corinto

A conexão de Corinto com a história, com os ensinos e com os escritos de nosso apóstolo é quase tão íntima e importante quanto Jerusalém ou Antioquia. Corinto pode ser considerada seu centro na Europa. Aqui Deus teve “muito povo” (Atos 18:10), e aqui Paulo “ficou um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus.” (Atos 18:11). Foi também em Corinto que ele escreveu suas duas primeiras cartas apostólicas – as duas Epístolas aos Tessalonicenses.

Corinto, a capital romana da Grécia, era uma grande cidade mercantil, em conexão imediata com Roma e com o oeste do Mediterrâneo, com Tessalônica e Éfeso no Mar Egeu, e com a Antioquia e Alexandria a leste. Assim, por meio de seus dois notáveis portos, a cidade recebia embarcações tanto dos mares ocidentais quanto dos mares orientais.10

Paulo parece ter viajado sozinho a Corinto. Se Timóteo foi ter com ele quando em Atenas (1 Tessalonicenses 3:1), ele foi enviado de volta a Tessalônica, lugar pelo qual, como veremos em breve, Paulo tinha grande afeição no coração. Logo após sua chegada ele inesperadamente encontrou dois amigos e companheiros na obra: Áquila e sua esposa Priscila. Nesta época em particular deveria haver um número maior de judeus em Corinto do que o normal, “pois Cláudio tinha mandado que todos os judeus saíssem de Roma.” (Atos 18:2) O Senhor usou, assim, o banimento de Áquila e Priscila para fornecer um lugar para Seu solitário servo ficar. Eles eram da sua terra (Israel), do seu mesmo ramo de negócio, e do mesmo coração e espírito. “E, como era do mesmo ofício, ficou com eles, e trabalhava; pois tinham por ofício fazer tendas.” (Atos 18:3)

Quão graciosos e maravilhosos são os caminhos do Senhor para Seu servo. Em uma cidade de riqueza e comércio cercada de gregos nativos, colonos romanos, e judeus vindos de todos os cantos, ele trabalha silenciosamente em seu próprio comércio de modo a não ser um incômodo para nenhum deles. Aqui temos, de certo modo, um exemplo da mais profunda e elevada espiritualidade combinada com o trabalho diligente nas coisas comuns desta vida. Que exemplo! E que lição! Sua labuta diária não gerava impedimento à sua comunhão com Deus. Nunca ninguém conheceu tão bem, ou sentiu tão profundamente, o valor do evangelho que ele carregava consigo: as questões da vida e da morte estavam ligadas a isso, e mesmo assim ele podia se entregar ao trabalho comum. Mas isto ele fez, assim como a pregação, para o Senhor e para Seus santos. Ele frequentemente se refere a isto em suas Epístolas, e fala disso como um de seus privilégios: “E em tudo me guardei de vos ser pesado, e ainda me guardarei. Como a verdade de Cristo está em mim, esta glória não me será impedida nas regiões da Acaia.” (2 Coríntios 11:9,10) 11

Há outra coisa relacionada a esta característica do percurso do apóstolo que é de grande interesse. Acredita-se, em geral, que ele tenha escrito suas duas epístolas aos tessalonicenses mais ou menos nessa época, e alguns pensam que também a Epístola aos Gálatas. Estas permanecem diante de nós como verdadeiras testemunhas de sua proximidade com Deus e sua comunhão com Ele, enquanto se mantinha com o trabalho de suas próprias mãos. Mas quando chega o sábado de descanso, a oficina é fechada, e Paulo vai à sinagoga. Este era seu hábito. “E todos os sábados disputava na sinagoga, e convencia a judeus e gregos” (Atos 18:4). Mas enquanto Paulo estava ocupado, tanto nos dias de semana quanto nos sábados, Silas e Timóteo chegaram da Macedônia. É evidente que eles trouxeram consigo alguma ajuda que iria ajudar a suprir as necessidades do apóstolo naquele tempo, e assim aliviá-lo de tal trabalho constante.

A chegada de Silas e Timóteo parece ter encorajado e fortalecido o apóstolo. Seu zelo e energia no evangelho são evidentemente fortalecidos. Ele “foi impulsionado no espírito, testificando aos judeus que Jesus era o Cristo.” (Atos 18:5), mas eles se opuseram à sua doutrina e blasfemaram. Isto levou Paulo a tomar seu curso com grande ousadia e decisão. Ele sacode a roupa, como sinal de estar limpo do sangue deles, e declara que dali em diante passará a tratar com os gentios. Em tudo isto ele foi conduzido por Deus, e agiu de acordo com Sua mente. Enquanto era possível, ele pregava na sinagoga; mas quando ele não mais podia estar lá, foi compelido a usar o lugar mais conveniente que ele podia encontrar. Em Éfeso, ele pregou na escola de um tal de Tirano; em Roma, ele “ficou dois anos inteiros na sua própria habitação que alugara, e recebia todos quantos vinham vê-lo;” (Atos 28:30); e aqui, em Corinto, um prosélito chamado Justo abriu sua casa ao rejeitado apóstolo.

Nessa particular crise na história do apóstolo ele foi favorecido com outra revelação especial do próprio Senhor. “E disse o Senhor em visão a Paulo: Não temas, mas fala, e não te cales; porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade. E ficou ali um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus.” (Atos 18:9-11). Porém, novamente, seus implacáveis inimigos se enfurecem. O grande sucesso do evangelho entre os pagãos excitou a raiva dos judeus contra Paulo, que procuraram usar a vinda de Gálio, um novo governador, para realizar suas más intenções.

Gálio foi o irmão de Sêneca, o filósofo, e, como tal, era muito bem instruído. Ele era sábio, justo e tolerante como governador, embora desdenhoso em seu tratamento com as coisas sagradas. Mas o Senhor, que estava com Seu servo como Ele mesmo tinha dito, usou a incrédula indiferença de Gálio para derrotar os maliciosos desígnios dos judeus, e para virar suas falsas acusações contra eles mesmos. Como estavam frustrados em seus propósitos malignos, o apóstolo tinha maior liberdade e menos aborrecimento ao levar em frente a obra do evangelho. Seus benditos frutos logo se manifestaram por toda a província da Acaia (1 Tessalonicenses 1:8,9)

A Rápida Visita de Paulo a Éfeso

O momento chegou em que Paulo achou por bem deixar Corinto e revisitar Jerusalém. Ele tinha um grande desejo de estar na próxima festa. Mas antes de partir, recebeu uma solene despedida da jovem assembleia, prometendo (o Senhor permitindo) retornar.

Acompanhado de Áquila e Priscila, ele deixa Corinto em paz. Mas quando no porto, antes da partida, aconteceu uma cerimônia que levantou não pouca discussão. Paulo, estando sob um voto, raspa sua cabeça em Cencreia. Em sua própria mente, e como um que era guiado pelo Espírito, temos certeza de que ele estava muita acima e além de uma religião de festas e votos, mas mesmo assim, inclinou-se, em graça, aos costumes de sua nação. Aos judeus ele se torna um judeu. A constante oposição dos judeus à sua doutrina e a violenta perseguição nunca enfraqueceram as afeições do apóstolo para com seu amado povo: certamente tal proceder vinha de Deus. Enquanto ele procurava, na energia do Espírito, pregar o evangelho aos gentios, ele nunca esquecia, em fidelidade à palavra de Deus, de pregar aos judeus primeiro. Assim ele é para nós como a viva expressão da graça de Deus para com os gentios, e de suas remanescentes afeições para com os judeus.

A equipe missionária chega a Éfeso. Paulo vai à sinagoga e debate com os judeus. Eles parecem inclinados a ouvi-lo, mas ele tem um forte desejo de subir a Jerusalém e celebrar a festa que se aproxima. Assim ele “se despediu deles, dizendo: É-me de todo preciso celebrar a solenidade que vem em Jerusalém; mas querendo Deus, outra vez voltarei a vós. E partiu de Éfeso.” (Atos 18:21)

A Quarta Visita de Paulo a Jerusalém

Não nos são fornecidas quaisquer informações, pelos historiadores sagrados, sobre o que ocorreu em Jerusalém naquela ocasião. Apenas nos é dito que Paulo “subiu a Jerusalém e, saudando a igreja, desceu a Antioquia.” (Atos 18:22). Mas seu intenso desejo de fazer esta visita pode nos assegurar sua grande importância. Ele pode ter sentido que tinha chegado a hora quando os judeus cristãos, reunidos na festa, deveriam ouvir um relato completo da recepção do evangelho entre os gentios. Colônias romanas e capitais gregas tinham sido visitadas, e uma grande obra de Deus tinha sido cumprida. Tudo isto teria sido perfeitamente natural e correto, mas desejamos não remover o véu que o Espírito Santo colocou sobre essa visita.

Paulo desce de Jerusalém à Antioquia, visitando todas as assembleias que ele tinha inicialmente formado; e assim, de certo modo, unindo sua obra: Antioquia e Jerusalém. Até onde sabemos, foi a última visita de Paulo à Antioquia. Já vimos como novos centros de vida cristã tinham sido estabelecidos por ele nas cidades gregas do Egeu. O curso do evangelho segue cada vez mais para o Ocidente, e a parte inspirada da biografia do apóstolo, após um curto período de profundo interesse na Judeia, finalmente se centraliza em Roma.

O Retorno de Paulo à Antioquia

Após uma jornada que se estendeu em um espaço de três ou quatro anos, nosso apóstolo retorna à Antioquia. Ele tinha viajado um longo circuito, e disseminado o cristianismo em muitas cidades prósperas e populosas, quase que inteiramente por seus próprios esforços. Se o leitor deseja manter interesse na história de Paulo, deve notar clara e distintamente as grandes épocas na vida de Paulo, e os principais pontos em suas diferentes jornadas. Mas antes de começar com Paulo em sua terceira jornada missionária, pode ser interessante tomar nota de um outro grande pregador do evangelho que aparece exatamente neste momento, e cujo nome, ao lado do apóstolo, é talvez o mais importante na história do início da igreja (N. do T., tirando o nome do próprio Senhor).

Apolo era um judeu de nascença, natural da Alexandria. Ele era um “homem eloquente e poderoso nas Escrituras … conhecendo somente o batismo de João” (Atos 18:24,25). Ele era devoto, sincero e reto, publicamente confessando e pregando aquilo que conhecia, e o poder do Espírito Santo era manifesto nele. Não parece que ele tenha recebido qualquer designação, ordenação ou sanção de qualquer tipo, nem dos doze nem de Paulo. Mas o Senhor, que está acima de todos, o chamou, e estava agindo nele e por ele. Vemos assim, no caso de Apolo, a manifestação do poder e liberdade do Espírito Santo, sem a intervenção humana. É interessante observar isto. A ideia de um clericalismo exclusivo é a negação prática da liberdade do Espírito em agir por quem Ele quer. Mas embora ardente em zelo e um locutor poderoso, Apolo conhecia apenas o que João (o batista) tinha ensinado a seus discípulos. O Senhor sabia disto, e proveu mestres para ele. Dentre aqueles que ouviam a seus fervorosos apelos, dois dos bem instruídos discípulos de Paulo foram conduzidos a tomar um interesse especial por ele. E embora ela fosse ensinado e eloquente, ele era humilde o bastante para ser instruído por Áquila e Priscila. Eles o convidaram à sua casa e, sem dúvida, em espírito humilde, “lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus” (Atos 18:26). Que simples! Que natural! E que belo! Tudo é do Senhor. Ele ordenou que Áquila e Priscila fossem deixados em Éfeso – que Apolo deveria vir e animar o povo em Éfeso antes da chegada de Paulo; e, após ser instruído, que deveria ir a Corinto e ajudar na boa obra naquele lugar, obra esta iniciada por Paulo. Apolo regou o que Paulo tinha plantado, e Deus deu um aumento abundante. Tais são os benditos caminhos do Senhor em Seu pensativo amor e carinhoso cuidado por Seus servos, e por todas as Suas assembleias.


Para os mais recentes e melhores relatos sobre a cidade e suas cercanias, indicamos Cinco Anos em Damasco, de Porter.↩

Synopsis of the Books of the Bible, volume 4, página 53,54. [Segunda Edição, Janeiro de 1950])↩

N. do T.: fanatismo dos crentes judeus pela guarda da lei pelos gentios↩

N. do T.: a igreja em Jerusalém, sendo a primeira igreja onde predominavam os judeus, e a igreja em Antioquia, sendo a primeira igreja onde predominavam os gentios↩

Veja História do Novo Testamento, de Smith↩

Sinopse dos Livros da Bíblia, por J. N. Darby.↩

Veja Notas sobre o Livro de Daniel, por W. Kelly.↩

A ação do Espírito quanto à família parece ter sido marcante entre os gentios; entre os judeus, até onde sabemos, não ouvimos falar disso. Encontramos, também, distritos entre os judeus, e também entre os samaritanos, que foram poderosamente impressionados (para dizer o mínimo) pelo evangelho. Mas entre os gentios, famílias parecem ter sido particularmente visitadas pela graça divina, como registrado pelo Espírito. Tome por exemplo Cornélio, o carcereiro e Estéfanas; de fato, encontramos isso vez após vez. Isto é extremamente encorajador – especialmente para nós. – Extraído de Leituras Introdutórias dos Atos dos Apóstolos, etc., por W. Kelly↩

Veja os artigos evangelísticos sobre as principais personagens deste capítulo em Things New and Old, vol. 12, páginas 29-97.↩

Para detalhes geográficos mais completos e detalhados, veja A Vida e as Epístolas de São Paulo, de Conybeare e Howson. Também acrescentamos que essa é nossa principal fonte no que diz respeito às datas. É provavelmente o melhor e mais abrangente livro sobre a história do grande Apóstolo, com exceção das próprias Escrituras↩

Como alguns têm supervalorizado essa passagem, e outros a têm subestimado, pode ser interessante observar o que cremos ser seu verdadeiro significado. A decisão do apóstolo de não ser pesado aos santos, como aqui tão fortemente expressa, se aplica principalmente, se não exclusivamente, à igreja de Corinto. Um importante princípio estava envolvido, mas foi um princípio de particular aplicação ao caso, e não geral. Ele reconhece as dádivas das outras igrejas da maneira mais grata possível (Filipenses 4) e, ao escrever aos coríntios mais tarde, ele diz: “Outras igrejas despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e quando estava presente convosco, e tinha necessidade, a ninguém fui pesado. Porque os irmãos que vieram da macedônia supriram a minha necessidade” (2 Coríntios 11:8,9). O apóstolo, sem dúvida, tinha a melhor das razões para recusar, dessa maneira, a comunhão com a igreja em Corinto. Sabemos que havia “falsos apóstolos” e muitos inimigos lá, e que muitas perturbações graves e sérias tinham sido permitidas entre eles, as quais ele fortemente repreendeu e procurou corrigir. Sob tais circunstâncias, para que seus motivos não fossem mal interpretados, o apóstolo preferiu trabalhar com suas próprias mãos do que receber apoio da igreja em Corinto. E, “Por quê?”, ele pergunta, “Porque não vos amo? Deus o sabe. Mas o que eu faço o farei, para cortar ocasião aos que buscam ocasião, a fim de que, naquilo em que se gloriam, sejam achados assim como nós” (2 Coríntios 11:11-12).↩

A Terceira Viagem de Paulo

A Terceira Viagem Missionária de Paulo (por volta de 54 d.C.)

Tendo passado “algum tempo” na Antioquia, Paulo deixa o centro gentio e parte para outra viagem missionária. Nada é dito sobre seus companheiros nesta ocasião. Ele “passou sucessivamente pela província da Galácia e da Frígia, confirmando a todos os discípulos” (Atos 18:23), e também dando instruções para a coleta em favor dos santos pobres em Jerusalém (1 Coríntios 16:1,2). Em pouco tempo ele chegou ao centro de sua obra na Ásia.

Éfeso. Nesta época era a maior cidade da Ásia Menor, e a capital da província. Devido à sua posição central, era o ponto de encontro comum de várias personagens e classes de homens. Por esta altura, Apolo tinha partido para Corinto, mas ainda havia outros doze discípulos de João em Éfeso. Paulo fala com eles sobre seu estado e posição. Devemos tomar uma rápida nota do que ocorreu.

O batismo de João requeria o arrependimento, mas não a separação da sinagoga judaica. O evangelho ensina que o cristianismo é fundamentado na morte e ressurreição. O batismo cristão é um símbolo significativo e expressivo dessas verdades. “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Colossenses 2:12) Como esses homens eram inteiramente ignorantes sobre as verdades fundamentais do cristianismo, supomos que eles nunca tinham se misturado com cristãos. O apóstolo, sem dúvida, explicou para eles sobre a eficácia da morte e ressurreição de Cristo, e sobre a descida do Espírito Santo. Eles creram na verdade e receberam o batismo cristão. Então Paulo, por sua capacitação apostólica, impõe suas mãos sobre eles, e eles são selados com o Espírito Santo, “e falavam línguas, e profetizavam” (Atos 19:6).

Imediatamente após a menção desse importante acontecimento, nossa atenção é direcionada às obras do apóstolo na sinagoga. Durante três meses ele pregou a Cristo ousadamente lá, disputando e persuadindo seus ouvintes “acerca do reino de Deus.” (Atos 19:8). Os corações de alguns “se endureceram”, enquanto outros se arrependeram e creram; mas enquanto muitos dos judeus tomaram o lugar dos adversários, e “falaram mal do Caminho perante a multidão” (Atos 19:9), Paulo age da forma mais definitiva possível. Ele “separou os discípulos” da sinagoga judaica e deles formou uma nova assembleia, se reunindo com eles “diariamente na escola de um certo Tirano” (Atos 19:9). Este é um ato profundamente interessante e instrutivo por parte do apóstolo, mas ele age conscientemente no poder e na verdade de Deus. A igreja em Éfeso é agora perfeitamente distinta, tanto em relação aos judeus quanto em relação aos gentios. Aqui vemos ao que o apóstolo, em outro lugar, se refere em sua exortação: “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus.” (1 Coríntios 10:32). Onde esta importante distinção não é vista haverá grande confusão de pensamento tanto quanto à Palavra quanto aos caminhos de Deus.

O apóstolo agora aparece como o instrumento do poder de Deus de forma notável e marcante. Ele comunica o Espírito Santo aos doze discípulos de João, separa os discípulos de Jesus e formalmente funda a igreja em Éfeso. Seu testemunho ao Senhor Jesus é ouvido em toda a Ásia, tanto pelos judeus quanto pelos gregos; milagres extraordinários são operados por suas mãos e enfermidades fugiam de muitos apenas ao tocar a borda de suas vestes. O poder do inimigo desaparece diante do poder que está em Paulo; as consciências dos pagãos são alcançadas, e o domínio do inimigo sobre eles se vai. O medo caiu sobre muitos que “seguiam artes mágicas”, e eles mesmos queimaram seus livros de magia que, no total, custariam hoje em dia cerca de R \$1:300:000,00. “Assim a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia.” (Atos 19:20). Assim o poder do Senhor foi demonstrado na pessoa e na missão de Paulo, e seu apostolado estabelecido de forma inquestionável.

O apóstolo havia agora passado cerca de três anos de incessante trabalho em Éfeso. E ele mesmo diz, ao se dirigir aos anciãos em Mileto: “Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós.” (Atos 20:31). É também suposto que, durante este período, ele tenha feito uma rápida visita e tenha escrito a Primeira Epístola aos Coríntios.

O Tumulto em Éfeso

Um grande e abençoado trabalho tinha agora sido cumprido pela poderosa energia do Espírito de Deus, por meio de Seu servo escolhido, Paulo. O evangelho tinha sido pregado na capital da Ásia, e tinha sido espalhado por toda a província. O apóstolo agora sentia que seu trabalho tinha terminado ali, e planeja ir a Roma, a capital do Ocidente e metrópole do mundo. A Grécia e a Macedônia já tinham recebido o evangelho, mas ainda faltava Roma. “E, cumpridas estas coisas, Paulo propôs, em espírito, ir a Jerusalém, passando pela Macedônia e pela Acaia, dizendo: Depois que houver estado ali, importa-me ver também Roma.” (Atos 19:21)

Mas enquanto Paulo fazia os arranjos para a próxima viagem, o inimigo planejava um novo ataque. Seus recursos ainda não tinham sido esgotados. Demétrio excita a multidão ignorante contra os cristãos. Um grande tumulto começa, sendo as paixões dos homens despertadas contra os instrumentos do testemunho de Deus. Os oficiais de Demétrio levantaram o clamor de que não somente a profissão deles corria perigo, como também que o templo da grande deusa Diana corria o risco de ser desprezado. Quando a multidão ouviu essas coisas, se encheram de raiva e gritaram, dizendo: “Grande é a Diana dos efésios.” (Atos 19:28). A cidade inteira estava agora imersa em confusão, mas Paulo misericordiosamente – pelos seus irmãos, e por alguns dos principais governantes da Ásia que eram seus amigos – se abstém de comparecer ao teatro.

Os judeus evidentemente começaram a temer que a perseguição se voltasse contra eles, pois a maioria das pessoas não sabia com que propósito tinham ali se ajuntado. Eles, então, põem um certo Alexandre diante da multidão, provavelmente com a intenção de transferir a atenção para cima dos cristãos; mas no momento em que os pagãos descobriram que ele era um judeu, a fúria deles aumentou: o grito de guerra foi novamente levantado, e por duas horas inteiras as pessoas gritavam: “Grande é a Diana dos efésios.”. Felizmente, para todas as partes, o escrivão da cidade era um homem de grande tato e admirável política. Ele acalmou e dissolveu a aglomeração. Mas, para a fé, era Deus usando a eloquência persuasiva de um oficial pagão para proteger Seus servos e Seus muitos filhos que estavam ali.

O tão afamado templo de Diana foi contado pelos antigos como uma das maravilhas do mundo; o sol, diziam, não via nada em seu curso mais magnífico que o templo de Diana. Era construído com o mais puro mármore, e levou 220 anos para ser terminado. Mas com a disseminação do cristianismo, se afundou em decadência, e quase nada dele agora sobrou para nos mostrar como era. O comércio de Demétrio era a confecção de pequenos modelos em prata do santuário da deusa. Estes eram colocados nas casas, guardados em memoriais e carregados em viagens. Mas como a introdução do cristianismo necessariamente afetou as vendas desses modelos, os artesãos pagãos foram instigados por Demétrio a levantar um clamor popular em favor de Diana contra os cristãos.

A Partida de Paulo de Éfeso para a Macedônia

Atos 20. Após o tumulto ter cessado, o perigo acabado e os manifestantes dispersos, Paulo se despede dos discípulos, os abraça, e parte para a Macedônia. Dois dos irmãos efésios, Tíquico e Trófimo, parecem tê-lo acompanhado, mantendo-se fiéis a ele em meio a todas as suas aflições. Eles são mencionados com frequência, e inclusive aparecem no último capítulo de sua última epístola, em 2 Timóteo 4.

O historiador sagrado é extremamente breve em seu registro sobre o proceder de Paulo neste momento. Toda a informação que ele dá é comprimida nas seguintes palavras: “Saiu para a macedônia. E, havendo andado por aquelas terras, exortando-os com muitas palavras, veio à Grécia. E, passando ali três meses…” (Atos 20:1-3). É geralmente suposto que essas poucas palavras abrangem um período de nove ou dez meses – do começo do verão de 57 d.C. até a primavera de 58 d.C. Mas esta falta de informação é, felizmente, suprida nas cartas do apóstolo. Aquelas que foram escritas durante essa jornada nos suprem com vários detalhes históricos e, o que é melhor, elas nos dão, da sua própria caneta, uma imagem viva dos profundos e dolorosos exercícios da mente e do coração pelas quais ele estava passando.

Parece que Paulo tinha combinado de se encontrar com Tito em Trôade, que lhe traria notícias direto de Corinto sobre o estado das coisas por lá. Mas semana após semana se passou, e Tito não aparecia. Sabemos alguma coisa sobre as obras dessa grande mente e coração nesse tempo pelo que ele mesmo diz: “Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e abrindo-se-me uma porta no Senhor, não tive descanso no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito; mas, despedindo-me deles, parti para a macedônia.” (2 Coríntios 2:12,13). Sua ansiedade pessoal, no entanto, não o impediu de ir em frente com a grandiosa obra do evangelho. Isto é evidente nos versículos de 14 a 17.

Finalmente o há muito esperado Tito chega à Macedônia, provavelmente em Filipos. E agora a mente de Paulo é aliviada e seu coração confortado. Tito lhe traz melhores notícias de Corinto do que ele esperava ouvir. A reação é manifesta: ele se enche de louvor a Deus: “Grande é a ousadia da minha fala para convosco”, diz ele, “grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas tribulações. Porque, mesmo quando chegamos à macedônia, a nossa carne não teve repouso algum; antes em tudo fomos atribulados: por fora combates, temores por dentro. Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito.” (2 Coríntios 7:4-6)

Logo após isso, Paulo escreve sua Segunda Epístola aos Coríntios, que descobrimos ser dirigida não apenas a eles, mas a todas as igrejas em toda a Acaia. Todas elas podiam ter sido mais ou menos afetadas pela condição das coisas em Corinto. Tito é novamente o servo voluntário do apóstolo, não apenas como portador da segunda carta à igreja em Corinto, mas também tendo um papel especial nas coletas que eles faziam para os pobres. Paulo não apenas dá a Tito estritas instruções sobre as coletas, como também escreve dois capítulos sobre o assunto (capítulos 8 e 9), embora este fosse mais o trabalho de diáconos do que de apóstolos. Mas, como tinha dito ele em resposta à sugestão de Tiago, Cefas e João, de que ele deveria se lembrar dos pobres – “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência.” (Gálatas 2:10)

O espaço que o apóstolo dedica aos assuntos relacionados às coletas para os pobres é notável e merece nossa cuidadosa consideração. Pode ser que alguns de nós tenhamos ignorado este fato até agora. Observe, por exemplo, o que ele diz de uma igreja em particular. Temos boas razões para acreditar que os filipenses, desde o começo, se importavam com o apóstolo – eles o pressionaram a aceitar suas contribuições para ajudá-lo, desde sua primeira visita a Tessalônica até seu aprisionamento em Roma, além de sua generosidade para com os outros (2 Coríntios 8:1-4). Mas alguns podem imaginar, a partir disso, que eles eram uma igreja rica. Pelo contrário. Paulo nos diz: “Como em muita prova de tribulação houve abundância do seu gozo, e como a sua profunda pobreza abundou em riquezas da sua generosidade.” (2 Coríntios 8:2). Eles doavam com tanta generosidade o que tinham de sua própria pobreza.

O que os filipenses são nas Epístolas, a viúva pobre é nos Evangelhos – duas moedinhas era tudo o que ela tinha. Ela podia ter dado uma e ficado com a outra; mas ela tinha um coração não dividido, e ela deu as duas. Ela, também, deu o que tinha de sua pobreza, e onde quer que o evangelho seja pregado por todo o mundo, essas coisas hão de ser contadas como um memorial da generosidade deles.

Após Paulo ter enviado a Tito e os que estavam com ele com a Epístola, ele permaneceu “naquelas partes” da Grécia fazendo a obra de um evangelista. Sua mente, no entanto, almejava fazer uma visita pessoal aos coríntios. Mas ele concedeu tempo para que sua carta produzisse seus próprios efeitos sob a bênção de Deus. Um dos objetivos do apóstolo era preparar o caminho para seu ministério pessoal entre eles. É comum o pensamento de que foi durante este período que ele pregou plenamente o evangelho de Cristo aos arredores até o Ilírico (Romanos 15:19). É provável que ele tenha alcançado Corinto no inverno, de acordo com sua expressa intensão: “E bem pode ser que fique convosco, e passe também o inverno” (1 Coríntios 16:6). Lá ele ficou por três meses.

Todos estão de acordo, podemos dizer, que foi durante esses meses de inverno que ele escreveu sua grande Epístola aos Romanos. Alguns dizem que ele também escreveu sua Epístola aos Gálatas neste mesmo período. Mas há grande diversidade de opiniões entre os cronologistas sobre este ponto. Pela ausência de nomes e saudações, como temos na Epístola aos Romanos, é difícil determinar sua data. Mas se ela não foi escrita neste tempo em particular, mesmo assim devemos mencioná-la mais cedo, e não mais tarde. O apóstolo ficou surpreso pelo antecipado abandono da verdade. “Maravilho-me”, diz ele, “de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho” (Gálatas 1:6). Seu grande desapontamento é manifesto no calor do espírito no qual escreve essa Epístola.

Mas devemos retornar à história do nosso apóstolo: não nos adentraremos mais a fundo nas sutilezas da cronologia. Mas após compararmos as últimos escritos, relataremos o que acreditamos serem as datas mais confiáveis.

Paulo deixa Corinto

A obra do apóstolo tinha agora sido terminada em Corinto, e ele se prepara para ir embora. Sua mente se inclinava a ir a Roma, mas havia uma missão de caridade em seu coração a qual ele devia acatar primeiro. Somos favorecidos com suas próprias palavras sobre esses diferentes pontos: “Mas agora, que não tenho mais demora nestes sítios, e tendo já há muitos anos grande desejo de ir ter convosco, quando partir para Espanha irei ter convosco; pois espero que de passagem vos verei, e que para lá seja encaminhado por vós, depois de ter gozado um pouco da vossa companhia. Mas agora vou a Jerusalém para ministrar aos santos. Porque pareceu bem à macedônia e à Acaia fazerem uma coleta para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém.” (Romanos 15:23-26). Quanto à sequência de nomes em Atos20:4 – Sópater, Aristarco, Segundo, Gaio, Tíquico e Trófimo – supõe-se que sejam irmãos que tinham em mãos as coletas que tinham sido feitas nos diferentes lugares mencionados. Em vez de velejar direto para a Síria, ele rodeia a Macedônia, por causa dos judeus que estavam à espreita. Seus companheiros o esperavam em Trôade. Lá ele passou o dia do Senhor (domingo) e uma semana inteira, a fim de ver os irmãos.

Devemos observar brevemente o que aconteceu nesse estágio de sua jornada. Duas coisas, de imensa importância para os cristãos, estão ligadas a isso – o dia do Senhor e a Ceia do Senhor. O historiador, que estava com Paulo nesse tempo, entra com incomum minúcia sobre os detalhes daquele dia.

É evidente, a partir desta incidental observação, que era o estabelecido costume dos primeiros cristãos se reunirem no “primeiro dia da semana” com a compreendida finalidade do “partir o pão”. Temos aqui o principal objetivo e o momento normal da reunião deles. “E no primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão” (Atos 20:7; Veja também 1 Coríntios 16:2, João 20:19, Apocalipse 1:10). Mesmo o discurso do apóstolo, precioso como era, é mencionado como algo secundário. A lembrança do amor do Senhor ao morrer por nós, e tudo aquilo que Ele nos deu ao ressuscitar, era, e continua sendo, o principal. Se houver uma oportunidade também para o ministério da Palavra, assim como para reunir os pensamentos e afeições dos adoradores de Cristo, é bom que haja; mas o partimento do pão deve ser a primeira consideração, e o principal objetivo da assembleia. A celebração da Ceia do Senhor nessa ocasião foi à noite. No início, o partimento do pão também era observado em alguns lugares antes do amanhecer, e em outros, após o pôr do sol. Mas aqui os discípulos não eram obrigados a se reunirem em segredo. “E havia muitas luzes no cenáculo onde estavam juntos.” (Atos 20:8). E Paulo continuou sua fala até a meia-noite, pois deveria partir no dia seguinte. Foi uma ocasião extraordinária, e Paulo aproveita a oportunidade de conversar com eles a noite toda. Ainda não havia chegado o tempo, como disse alguém, em que os ternos discursos do coração seriam cronometrados, quando a duração da ardente agonia do pregador pelas almas perdidas seria contada no relógio pela frieza dos meros professos, ou pela descuidada indiferença dos cristãos mundanos. Êutico, um rapaz, caiu no sono e “caiu do terceiro andar… e foi levantado morto.” (Atos 20:9). Isto foi visto por alguns como um castigo pela sua falta de atenção, mas foi um milagre; o rapaz foi levantado de um estado de morte pelo poder e bondade de Deus através de Seu servo Paulo, e todos ficaram grandemente reconfortados.

Paulo em Mileto

O estágio mais importante dessa jornada é Mileto, embora os diferentes lugares em que eles passam sejam cuidadosamente notados pelo historiador sagrado. Paulo, estando cheio do Espírito, dá direções para a viagem. Seus companheiros, de bom grado, lhe obedecem, mas não como a um mestre, mas como a um que dirige na humildade do amor e na sabedoria de Deus. Ele decide não ir a Éfeso, embora fosse um lugar central, pois ele tinha o propósito no coração de ir a Jerusalém no dia de Pentecostes. Mas, como o navio viria a ser detido algum tempo em Mileto, ele envia uma carta aos anciãos da igreja em Éfeso para poderem se encontrar. Dizem que a distância entre os dois lugares é de cerca de 48 quilômetros, de modo que levaria dois ou três dias para ir e voltar. Mesmo assim, tiveram tempo suficiente para se reunirem antes do navio sair. Assim o Senhor pensa em Seus servos e faz com que todas as coisas cooperem para o bem e para Sua própria glória.

O discurso de despedida de Paulo aos anciãos de Éfeso é característico e representativo, exigindo nosso mais cuidadoso estudo. Ele põe diante de nós a profunda e tocante afeição do apóstolo, a posição da igreja naquele tempo, e a obra do evangelho entre as nações. Ele os exorta com incomum seriedade e ternura; ele sentia que estava se dirigindo a eles pela última vez; ele os lembra de seus trabalhos entre eles “servindo ao Senhor com toda a humildade, e com muitas lágrimas” (Atos 20:19). Ele os adverte contra os falsos mestres e heresias – os lobos cruéis que entrariam no meio deles, e os homens amantes de si mesmos que se ergueriam, falando coisas perversas, para atraírem os discípulos após si. “E, havendo dito isto, pôs-se de joelhos, e orou com todos eles. E levantou-se um grande pranto entre todos e, lançando-se ao pescoço de Paulo, o beijavam, entristecendo-se muito, principalmente pela palavra que dissera, que não veriam mais o seu rosto. E acompanharam-no até o navio.” (Atos 20:36-38)

Como este pensamento sobre Paulo é da mais elevada importância, e marca uma época distinta na história da igreja, além de lançar luz divina sobre todos os sistemas eclesiásticos, podemos citar um pensamento abrangente e compreensivo de outro autor:

“A igreja estava consolidada sobre uma extensa área do território, e em vários lugares tinha tomado a forma de uma instituição comum. Anciãos eram estabelecidos e reconhecidos. O apóstolo podia chamá-los para ter com ele. Sua autoridade era também reconhecida por parte deles. Ele fala de seu ministério como algo passado – solene pensamento!… Assim, o que o Espírito Santo coloca diante de nós é que, agora, quando os detalhes de sua obra entre os gentios de plantar o evangelho são relatados como um panorama entre judeus e gentios, ele diz adeus ao trabalho. Isto para que pudesse deixar aqueles que ele havia reunido em uma nova posição e, em certo sentido, entregues a si mesmos. É um discurso que marca a cessação de uma fase da igreja – a dos trabalhos apostólicos – e a entrada de uma outra: a responsabilidade da igreja de manter-se firme agora que esses trabalhos tinham cessado; o serviço dos anciãos, a quem ’o Espírito Santo constituiu supervisores (bispos)’ (Atos 20:28); e, ao mesmo tempo, os perigos e dificuldades que se seguiriam após o fim dos trabalhos apostólicos, complicando o trabalho dos anciãos, a quem a responsabilidade recairia especialmente.

“A primeira observação que decorre da consideração deste discurso é que a sucessão apostólica é inteiramente negada. Devido à ausência do apóstolo, várias dificuldades surgiriam, e não haveria ninguém em seu lugar para lidar ou prevenir estas dificuldades. Sucessor, portanto, ele não tinha. Em segundo lugar, parece que o fato de que esta energia, que freava o espírito do mal, uma vez que estivesse longe, faria erguer as cabeças dos lobos devoradores vindos de fora, e dos mestres de coisas perversas vindos de dentro, que atacariam a simplicidade e a felicidade da igreja. Esta seria assediada pelos esforços de satanás, uma vez que não possuía mais a energia apostólica para resistir-lhes. Em terceiro lugar, o que de primordial deveria ser feito para o impedimento do mal era alimentar o rebanho, e vigiar, quer sobre si mesmos ou sobre o rebanho, para aquele propósito. Ele então os encomenda – nem a Timóteo nem a algum bispo, mas de um modo que deixa de lado qualquer tipo de recurso oficial – a Deus e à palavra de Sua graça. Nesse ponto ele deixa a igreja. Os trabalhos em liberdade do apóstolo dos gentios estavam terminados. Ele tinha sido o instrumento escolhido de Deus para comunicar ao mundo Seus conselhos a respeito da igreja e para estabelecer na mente do mundo o precioso objeto de Suas afeições, unida a Cristo à Sua mão direita. O que seria dela aqui?” 1

Atos 21. Com um vento justo, Paulo e sua companhia partiam de Mileto, enquanto os entristecidos anciãos de Éfeso se preparavam para sua viagem de volta. Em um curso reto eles velejaram a Cós, Rodes, e daí até Pátara e Tiro. A partir do que aconteceu lá – tão similar ao que houve em Mileto – é evidente que Paulo logo conquistou o coração dos discípulos. Embora ele tenha ficado apenas uma semana em Tiro, não conhecendo os cristãos dali, ele tinha ganhado suas afeições. “E seguimos nosso caminho, acompanhando-nos todos”, diz Lucas, “com suas mulheres e filhos até fora da cidade; e, postos de joelhos na praia, oramos.” (Atos 21:5). Parece também que um espírito de profecia foi derramado sobre esses afetuosos cristãos de Tiro, pois eles advertiram o apóstolo para que não fosse a Jerusalém. Após esperar ali por sete dias, foram a Ptolemaida, onde ficaram por um dia. Em Cesareia, ficaram hospedados na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete. Ele também já é bem conhecido nosso, mas é interessante encontrá-lo novamente após um intervalo de mais de vinte anos. Agora ele tem quatro filhas virgens que profetizavam. Aqui Ágabo, o profeta, previu o aprisionamento de Paulo, e rogou-lhe que não fosse a Jerusalém. Todos os discípulos disseram o mesmo, e suplicavam-lhe com lágrimas para que não fosse. Mas embora o coração terno e sensível de Paulo deva ter se movido pelas lágrimas e suplicas de seus amigos e de seus próprios filhos na fé, ele decidiu não alterar sua resolução e não deixar de lado seu propósito. Ele se sentiu compelido em espírito a ir, e pronto a deixar todas as consequências à vontade do Senhor.

A Quinta Visita de Paulo a Jerusalém (por volta de 58 d.C.)

O apóstolo e seus companheiros foram recebidos com agrado ao chegarem em Jerusalém. “E, logo que chegamos a Jerusalém”, observa Lucas, “os irmãos nos receberam de muito boa vontade.” (Atos 21:17). No dia seguinte, Paulo e seus companheiros visitaram Tiago, em cuja casa os anciãos estavam presentes. Paulo, como orador principal, declarou particularmente as coisas que Deus fizera entre os gentios por seu ministério. Mas embora estivessem muito interessados, e louvassem ao Senhor pelas boas notícias, eles evidentemente se sentiram desconfortáveis. Eles imediatamente chamaram a atenção de Paulo para o fato de que um grande número de judeus que criam em Jesus como o Messias eram observadores zelosos da lei de Moisés e eram fortemente preconceituosos contra Paulo.

Como satisfazer os preconceitos desses judeus cristãos era agora a importante questão entre Paulo e os anciãos. Eles sabiam que multidões de judeus, convertidos e não convertidos, se ajuntariam quando ouvissem da chegada de Paulo. Por muito tempo eles acreditavam nas mais sérias e pesadas acusações contra ele – “e já acerca de ti foram informados de que ensinas todos os judeus que estão entre os gentios a apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem circuncidar seus filhos, nem andar segundo o costume da lei.” (Atos 21:21). O que deveria agora ser feito? Os anciãos propuseram que Paulo deveria se mostrar publicamente como alguém que era obediente à lei. Esta foi a mais dolorosa e desconcertante posição do apóstolo dos gentios. O que ele poderia fazer agora? Será que o mensageiro do evangelho da glória – o ministro do chamado celestial – se inclinaria às regras dos votos nazireus? Foi uma questão séria e solene. Se ele se recusasse a ceder à vontade deles, a suspeita dos judeus seria confirmada; se ele agisse de acordo com o desejo deles, ele deveria se humilhar – colocar seu elevado chamado em segundo plano, e se render à ignorância, preconceito e orgulho dos judaizantes. Mas o que mais podia fazer? Ele estava no centro de um judaísmo fanático, e desejava honestamente conquistar a igreja de Jerusalém para um cristianismo mais puro e mais nobre.

Alguns tomaram muita liberdade em seu criticismo sobre o apóstolo no decorrer desse tempo. Mas embora seja nosso privilégio humildemente examinar tudo o que o historiador sagrado escreveu, tememos que alguns se aventuraram longe demais em dizer coisas duras sobre o apóstolo. Podemos perguntar reverentemente quão longe o desejo e a afeição de Paulo o influenciaram nesta ocasião, além das advertências do Espírito através dos irmãos; mas certamente devemos nos manter entre os limites do que o Próprio Espírito Santo disse pelas Escrituras. Vamos agora cuidadosamente observar os fatos exteriores que conduziram o apóstolo a essa memorável época de sua vida.

Roma tinha estado por muito tempo em sua mente. Ele tinha um grande desejo de pregar o evangelho naquele lugar. Isto estava correto – estava de acordo com Deus – não era algo de si mesmo: ele era o apóstolo dos gentios. Deus vinha trabalhando em Roma de modo abençoado mesmo sem Paulo ou Pedro, pois ainda nenhum apóstolo tinha visitado Roma. Paulo tinha sido privilegiado por escrever uma epístola aos romanos, e nessa carta ele expressa o mais ardente desejo de vê-los, e de trabalhar entre eles. “Porque desejo ver-vos”, diz ele, “para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados” (Romanos 1:11). Este era seu estado mental e o objetivo que tinha diante de si, o que também devemos ter em vista quando estudamos esta parte de sua história. Compare Romanos 1:7-15; 15:15-33.

O Fim dos Trabalhos de Paulo em Liberdade

Chegamos agora a uma questão importante, e a um ponto de virada na história de Paulo daqui para a frente. Iria ele direto para o ocidente, em direção a Roma, ou iria passar por Jerusalém? Tudo depende disso. Jerusalém também estava em seu coração. Mas se Cristo o tinha enviado tão longe, para os gentios, poderia o Espírito, da parte de Cristo, conduzi-lo a Jerusalém? Foi apenas aqui, acreditamos, que foi permitido ao grande apóstolo seguir os desejos de seu próprio coração, cujos desejos eram corretos e belos em si mesmos, mas não estavam de acordo com a mente de Deus naquele momento. Ele amava profundamente sua nação, e especialmente os santos pobres em Jerusalém; e, tendo sido muito mal representado ali, ele esperava provar seu amor pelos pobres dentre seu povo levando as ofertas dos gentios pessoalmente. “Assim que”, diz ele, “concluído isto, e havendo-lhes consignado este fruto, de lá, passando por vós, irei à Espanha.” (Romanos 15:28). Certamente isto era amável e louvável! Sim, mas isto vinha de um lado apenas, e este era o lado da natureza – da carne – e não do Espírito. “E, achando discípulos, ficamos ali sete dias; e eles pelo Espírito diziam a Paulo que não subisse a Jerusalém.” (Atos 21:4). Isto parece claro o bastante, mas Paulo naquele momento se inclinou para o lado de suas afeições “pelos pobres do rebanho” em Jerusalém. Será que poderia haver um erro mais perdoável que este? Impossível! Foi seu amor pelos pobres, e o prazer de levar a eles as ofertas dos gentios, que o conduziu a passar por Jerusalém em seu caminho a Roma. No entanto, foi um erro, e um erro que custou a Paulo sua liberdade. Seu trabalhos em liberdade acabam aqui. Ele permitiu liberdade à sua carne, e Deus permitiu que os gentios o prendessem em correntes. Esta era a expressão de puro amor do Mestre para com Seu servo. Paulo era muito precioso para que o Senhor o deixasse sem a justa disciplina nessa ocasião. Também provaria que nem Jerusalém nem Roma poderiam ser a metrópole do cristianismo. Cristo, a Cabeça da igreja, estava no céu, e lá é o único lugar em que a metrópole do cristianismo deve estar. Jerusalém perseguiu o apóstolo, Roma o aprisionou e martirizou. No entanto, o Senhor estava com Seu servo para o seu próprio bem, para o avanço da verdade, para a bênção da igreja, e para a glória de Seu próprio grandioso nome.

Aqui podemos tomar a permissão para mais uma reflexão. Em quantas histórias, desde a quinta visita de Paulo a Jerusalém, essa cena solene tem sido reproduzida! Quantos santos têm sido amarrados com correntes de diferentes tipos, mas quem pode dizer para quê, ou para quem? Todos nós teríamos dito – se não iluminados pelo Espírito – que o apóstolo não podia ter atuado por um motivo mais digno ao passar por Jerusalém em seu caminho a Roma. Mas o Senhor não havia dito para ele fazer isso. Tudo depende disso. Quão necessário é ver, em cada estágio de nossa jornada, que temos a palavra de Deus para nossa fé, o serviço de Cristo para nossos motivos, e o Espírito Santo para nossa direção. Retornemos agora ao relato dos eventos.

Deixamos Paulo sentado com os anciãos na casa de Tiago. Eles tinham sugerido a ele um modo de conciliar os crentes judeus, e de refutar as acusações de seus inimigos. Deslealdade para com sua nação e com a religião de seus pais era a principal acusação levantada contra ele. Mas sob a superfície dos eventos exteriores, e especialmente tendo a luz das epístolas derramada sobre eles, descobrimos a raiz de toda a questão na inimizade do coração humano contra a graça de Deus. De modo a entender isso, devemos observar que o ministério de Paulo tinha um duplo caráter: (1) Sua missão era pregar o evangelho “a toda criatura debaixo do céu” – não foi apenas além dos limites do judaísmo, como também estava em perfeito contraste com esse sistema;(2) Ele era também o ministro da igreja de Deus, e pregava sua exaltada posição, e seus benditos privilégios, como estando unida a Cristo, o Homem glorificado no Céu. Essas verdades benditas serão vistas erguendo a alma do crente muito acima da religião da carne, sempre tão penosa – sempre tão abundante em ritos e cerimônias. Votos de jejum, festas, ofertas, purificações, tradições e filosofia, são todas excluídas como nada dignas diante de Deus, e opostas à própria natureza do cristianismo. Isto exasperava o judeu religioso com suas tradições, e o grego incircunciso com sua filosofia; e ambos se uniram para perseguir o verdadeiro portador deste duplo testemunho. E assim tem sido sempre. O homem religioso com suas ordenanças, e o homem meramente natural com sua filosofia, por um processo natural, prontamente se uniram em oposição ao testemunho de um cristianismo celestial. Veja Colossenses 1 e 2.

Se Paulo tivesse pregado a circuncisão, a ofensa da cruz teria cessado, pois isto teria dado lugar, e a oportunidade, de ser alguma coisa e fazer alguma coisa, e até mesmo de tomar parte com Deus em Sua religião. Isto era o judaísmo, e isto dava ao judeu sua preeminência. Mas o evangelho da graça de Deus se dirige ao homem como já perdido – como “morto em delitos e pecados” – e não tem mais respeito para com os judeus do que para com os gentios. Assim como o sol no firmamento, ele brilha para todos. Nenhuma nação, tribo, língua ou povo é excluído de seus raios celestiais. “Pregar o evangelho a toda criatura que está debaixo do céu” é a divina comissão e a esfera mais ampla do evangelista; ensinar aqueles que acreditam neste evangelho sua perfeição em Cristo é o privilégio e dever de cada ministro do Novo Testamento.

Tendo assim limpado o terreno quanto aos motivos, objetivos e posição do grande apóstolo, vamos agora traçar brevemente o restante de sua vida agitada. Chegou o tempo em que ele seria levado diante dos reis e governantes, e até mesmo diante do próprio César, por causa do nome do Senhor Jesus.

Paulo no Templo

De acordo com a proposta de Tiago e dos anciãos, Paulo agora prossegue ao templo com “os quatro homens que fizeram voto” (Atos 21:23). Então lemos: “Então Paulo, tomando consigo aqueles homens, entrou no dia seguinte no templo, já santificado com eles, anunciando serem já cumpridos os dias da purificação; e ficou ali até se oferecer por cada um deles a oferta.” (Atos 21:26). Na conclusão do voto do nazireado a lei requeria que certas ofertas fossem apresentadas no templo. Estas ofertas envolviam um preço considerável, como podemos ver em Números 6; e era considerado um ato de grande mérito e piedade para um irmão rico prover estas ofertas para um irmão pobre, e assim permitir que ele completasse seu voto. Paulo não era rico, mas ele tinha um grande e terno coração, e ele generosamente comprometeu-se a pagar os custos para os quatro pobres nazireus. Tal prontidão da parte de Paulo em agradar alguns e ajudar outros deveria ter pacificado e conciliado os judeus e, provavelmente, teria se tão somente estivessem presentes os que estavam associados a Tiago. Mas isto teve um efeito oposto nos inveterados zelotes: eles ficaram apenas mais furiosos contra ele. A celebração da festa atraía multidões à cidade santa, de modo que o templo estava repleto de adoradores de todos os lugares.

Dentre esses judeus estrangeiros estavam alguns da Ásia, provavelmente alguns dos velhos antagonistas de Paulo em Éfeso, que ansiavam por uma oportunidade de se vingarem dele, que tinha anteriormente os derrotado. Perto do fim dos sete dias em que os sacrifícios deveriam ser ofertados, estes judeus asiáticos viram Paulo no templo, e imediatamente caíram encima dele, “clamando: homens israelitas, acudi; este é o homem que por todas as partes ensina a todos contra o povo e contra a lei, e contra este lugar; e, demais disto, introduziu também no templo os gregos, e profanou este santo lugar… E alvoroçou-se toda a cidade, e houve grande concurso de povo; e, pegando Paulo, o arrastaram para fora do templo, e logo as portas se fecharam.” (Atos 21:28,30). A cidade toda estava agora em polvorosa, e a multidão correu furiosamente ao ponto de ataque. A multidão estava à beira da loucura, e se não fosse pelo zelo deles em não derramar sangue no lugar santo, Paulo teria sido feito em pedaços no mesmo instante. O objetivo deles agora era levá-lo para fora do recinto sagrado. Mas antes que os planos assassinos deles fossem executados, a ajuda do Senhor chegou, e eles foram inesperadamente interrompidos.

As sentinelas nos portões sem dúvida comunicaram imediatamente a guarnição romana, situada defronte do templo, de que havia um tumulto próximo à corte. O tribuno, Cláudio Lísias, imediatamente correu ele mesmo ao local, levando com ele soldados e centuriões. Quando os judeus viram o tribuno e os soldados romanos se aproximando, eles pararam de espancar Paulo. O governador, percebendo que era ele a causa de toda a agitação, prontamente o mandou prender com duas correntes, ou por correntes entre dois soldados. Veja Atos 12:6.

Tendo feito isto, Lísias prosseguiu a fazer um inquérito quanto à real causa do distúrbio, mas, como nenhuma informação certa podia ser obtida da ignorante e agitada multidão, ele ordenou que Paulo fosse levado à fortaleza. A desapontada massa agora vai atrás de sua vítima com enorme ímpeto. Eles viram ele sendo tirado de suas mãos, e pressionaram tão violentamente os soldados que Paulo foi levado em seus braços até para cima das escadas do fortaleza. Enquanto isso, gritos ensurdecedores se erguiam da multidão enraivecida abaixo, como fizeram cerca de trinta anos antes: “Fora com ele, fora com ele”.

Neste momento de grande interesse, o apóstolo preservou grande presença de espírito, e perfeitamente controlou a agitação de seus sentimentos. Ele age prudentemente sem comprometer a verdade. Assim que alcançaram a entrada da fortaleza, Paulo dirige-se da maneira mais cortês ao tribuno, e diz: “É-me permitido dizer-te alguma coisa?”, e ele disse: “Sabes o grego? Não és tu porventura aquele egípcio que antes destes dias fez uma sedição e levou ao deserto quatro mil salteadores?”. Mas Paulo lhe disse: “Na verdade que sou um homem judeu, cidadão de Tarso, cidade não pouco célebre na Cilícia; rogo-te, porém, que me permitas falar ao povo.” (Atos 21:37-39). Por incrível que pareça, esse pedido lhe foi concedido. Paulo já tinha ganhado o respeito do governador romano. Mas a mão do Senhor estava nisso, Ele estava vigiando sobre Seu servo. Paulo havia jogado a si mesmo nas mãos de seus inimigos ao procurar agradar os crentes judeus. Mas Deus estava com ele, e sabia como livrá-lo de seu poder, e usá-lo para a glória de Seu próprio grandioso nome. (Atos 21:26-40)

O Discurso de Paulo nas Escadarias da Fortaleza

Para o tribuno ele tinha falado em grego; para os judeus ele fala em hebraico. Estes pequenos detalhes e considerações são as belas mesclas do amor e da sabedoria, e devem servir de lição para nós. Ele estava sempre pronto para vencer, ao “fazer-se tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns.” (1 Coríntios 9:22). Vemos os efeitos maravilhosos de sua influência sobre a massa enfurecida, assim como sobre o oficial comandante. No momento em que ele se dirige a eles, a cena toda muda. Ele acalmou o tumultuoso mar das paixões humanas pelo som de sua língua sagrada, que caiu como óleo sobre as águas agitadas, e então houve imediatamente “grande silêncio”. Lemos sua nobre defesa, dirigida a seus irmãos e pais, por extenso em Atos 22:1-21.

Observa-se, ao ler o discurso, que seus compatriotas ouviam com grande atenção, enquanto ele falava a eles sobre sua vida passada, sua perseguição à igreja, sua missão a Damasco, sua miraculosa conversão, sua visão no templo, e sua conversa com Ananias. Mas no momento em que ele menciona sua missão aos gentios, uma explosão de indignação se levanta da multidão, silenciando o apóstolo. Eles não podiam suportar a ideia da graça de Deus se derramar sobre os gentios. Aquele odioso nome os levava à fúria. O orgulho nacional deles se rebelava contra a ideia de que pagãos incircuncisos pudessem ser feitos iguais aos filhos de Abraão. Eles gritavam com desdenhoso desprezo contra cada argumento, humano ou divino, que pudesse influenciar suas mentes. Em vão o apóstolo deu tanta ênfase sobre o que tinha acontecido entre ele e o devoto Ananias. Todo apelo era em vão quando se tratava dos gentios. Uma cena da mais selvagem confusão se seguiu. Eles arrancaram suas roupas, jogaram terra para o ar, “e levantaram a voz, dizendo: Tira da terra um tal homem, porque não convém que viva.” (Atos 22:22)

O tribuno, vendo a violência frenética do povo, e não entendendo o que significava, foi lançado em nova perplexidade. Ele viu os resultados de um discurso na língua hebraica – que ele provavelmente não entendia – e, naturalmente concluindo que seu prisioneiro deveria ser culpado de algum crime terrível, ordenou que o prendessem e açoitassem para fazê-lo confessar sua culpa. Mas esse proceder foi imediatamente cancelado quando Paulo torna conhecido o fato de que ele era um cidadão romano.

Os soldados que estavam engajados em prendê-lo retiraram-se alarmados, e alertaram o governador quanto ao que ele estava fazendo. Lísias perguntou de pronto: “Dize-me, és tu romano? E ele disse: Sim. E respondeu o tribuno: Eu com grande soma de dinheiro alcancei este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu o sou de nascimento.” (Atos 22:27,28). Lísias se encontrava agora em uma situação difícil, pois tinha violado uma lei romana. Expor um cidadão a tal indignidade era considerado traição contra a majestade do povo romano. Mas a única maneira de salvar a vida de Paulo era mantê-lo sob custódia, e ele felizmente pensou em um outro modo mais brando de determinar a natureza da ofensa de seu prisioneiro.

Paulo Diante do Sinédrio

No dia seguinte ele “mandou vir o principais dos sacerdotes, e todo o seu conselho; e, trazendo Paulo, o apresentou diante deles.” (Atos 22:30). A política de Lísias aqui é interessante. Ele é ativo em suprimir o tumulto; ele protege um cidadão romano; ele demonstra respeito para com a religião e costumes dos judeus. Esta mistura de política e cortesia em um romano arrogante, sob tais circunstâncias, é digna de um momento de reflexão, mas temos de prosseguir.

Paulo se dirige ao conselho com dignidade e seriedade, mas com uma evidente expressão de integridade consciente. “E, pondo Paulo os olhos no conselho, disse: Homens irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de Deus com toda a boa consciência.” (Atos 23:1). Este inabalável senso de retidão enfureceu tanto Ananias, o sumo sacerdote, que ele ordenou àqueles que estavam próximos a golpeá-lo na boca. Esta arbitrária violação da lei por parte do chefe do conselho despertou tanto os sentimentos do apóstolo, que ele destemidamente exclamou: “Deus te ferirá, parede branqueada; tu estás aqui assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir?” (Atos 23:3). É evidente que o sumo sacerdote não estava vestido de modo a ser reconhecido como tal. Portanto Paulo se desculpa por sua ignorância do fato, e cita a formal proibição da lei: “Não dirás mal do príncipe do teu povo” (Atos 23:5).

O apóstolo logo percebeu, como nos é dito, que o conselho estava dividido em duas partes – alguns eram fariseus e outros eram saduceus – e portanto clamou: “Homens irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu; no tocante à esperança e ressurreição dos mortos sou julgado.” (Atos 23:6). Esta declaração, seja intencionalmente ou não, teve o efeito de dividir a assembleia, colocando um partido contra o outro. E tão ferozes suas dissensões se tornaram que alguns dos fariseus acabaram ficando do lado de Paulo, dizendo: “Nenhum mal achamos neste homem, e, se algum espírito ou anjo lhe falou, não lutemos contra Deus.” (Atos 23:9). A sala de julgamento imediatamente se tornou cenário da mais violenta contenda, e a presença de Cláudio Lísias se fez absolutamente necessária. Paulo é mais uma vez levado recluso à fortaleza.

Assim se passou essa agitada manhã na história de nosso apóstolo. À noite, quando sozinho, será que o coração dele estava desanimado? Pelo que havia acontecido, e pela aparência sombria de tudo à sua volta, o apóstolo nunca esteve em maior necessidade de consolo e força que só a presença do Mestre concede. Mas quem poderia saber disso tão bem, ou poderia sentir tão profundamente pelo solitário prisioneiro como o Próprio Mestre? E assim Ele aparece na mais rica graça para confortar e animar o coração de Seu servo. Foi um conforto divinamente cronometrado. O Senhor apareceu-lhe, como tinha feito em Corinto, e como Ele mais tarde faria em sua viagem a Roma, “e disse: Paulo, tem ânimo; porque, como de mim testificaste em Jerusalém, assim importa que testifiques também em Roma.” (Atos 18:9,10;23:11; 27:23,24). Uma conspiração tramada por mais de quarenta homens para assassinar Paulo é descoberta, e todos os planos malignos, frustrados. Cláudio Lísias imediatamente convoca seus centuriões e soldados, dando-lhes ordens estritas de conduzir Paulo em segurança para Cesareia. Os detalhes sobre este assunto são relatados por Lucas com singular riqueza de detalhes (Atos 23:12-25).

Paulo Comparece Diante de Félix

Como alguns de nossos leitores podem ter observado, o caráter dos modos de Deus para com Seu servo de certa forma muda aqui. Pode ser interessante uma pausa por um momento para reverentemente investigar as aparentes causas dessa mudança. E, como muitos têm dado livremente suas opiniões quanto a esse difícil ponto, vamos aqui citar algumas linhas de alguém que parece ter captado a mente do Espírito.

“Eu creio que a mão de Deus estava nesta viagem de Paulo – que, em Sua soberana sabedoria, Ele desejou que Seu servo a empreendesse, tendo também a abençoado – mas que os meios empregados para conduzi-lo de acordo com essa sabedoria soberana foram as afeições humanas do apóstolo pelas pessoas que eram seus parentes segundo a carne; e que ele não foi conduzido a isso pela ação do Espírito Santo da parte de Cristo na igreja. Este apego a seu povo, esta afeição humana, resultou naquilo que acabou por colocá-lo em seu próprio lugar. Humanamente falando, foi um sentimento amável; mas não era o poder do Espírito Santo fundamentado na morte e ressurreição de Cristo. Aqui, não havia mais judeu ou gentio… a afeição de Paulo era boa em si mesma, mas como fonte de ação não chegava à altura da obra do Espírito que, da parte de Cristo, o tinha conduzido para longe de Jerusalém, para os gentios, de modo a revelar a igreja como Seu corpo unido a Ele no céu.”

“Ele era o mensageiro da glória celestial, que trouxe à tona a doutrina da igreja composta por judeus e gentios, unidos sem distinção no um só corpo de Cristo, deixando de lado o judaísmo. Mas seu amor por sua nação o levou, repito, ao centro do judaísmo hostil – o judaísmo enfurecido contra a igualdade espiritual.”

“Contudo, a mão de Deus estava, sem dúvida, nisso. Paulo, individualmente, estava realizado.”

“Aquilo que Paulo disse levanta um tumulto, e o tribuno o tira do meio deles. Deus tem tudo à Sua disposição. Um sobrinho de Paulo, nunca antes mencionado, ouve falar de uma emboscada armada contra ele e o avisa. Paulo o envia ao tribuno, que agiliza a partida de Paulo sob guarda até Cesareia. Deus cuidava dele, mas tudo aqui está no nível dos modos humanos e providenciais. Não há um anjo como no caso de Pedro, nem um terremoto como em Filipos. Estamos sensivelmente em um terreno diferente”2

Os acusadores de Paulo não tardaram em partir também para Cesareia. “E, cinco dias depois, o sumo sacerdote Ananias desceu com os anciãos, e um certo Tértulo, orador, os quais compareceram perante o presidente contra Paulo.” (Atos 24:1). Em um breve discurso, cheio de bajulação e insinuação, Tértulo acusa Paulo de sedição [motim], heresia e profanação do templo.

Félix então fez um sinal permitindo que Paulo respondesse por si. E agora, podemos dizer, o apóstolo dos gentios está mais uma vez no lugar certo. Mesmo humilhado pelas circunstâncias, ele é ainda o mensageiro de Deus para os gentios, e Deus está com Seu amado servo. Os judeus ficaram em silêncio, e Paulo, com sua maneira direta como de costume, rebateu as acusações.

Félix, aparentemente, sabia muito sobre essas coisas, e é evidente que uma forte impressão foi deixada em sua mente. Muitos anos antes, o cristianismo tinha penetrado no exército romano em Cesareia (Atos 10), de modo que ele provavelmente sabia algo sobre isso, e estava convencido da verdade das afirmações de Paulo, mesmo não dando o devido valor às suas convicções e de seu prisioneiro. Ele “adia” maiores investigações, com a desculpa de que estaria esperando a chegada de Lísias. Enquanto isso, no entanto, ele dá ordens para que Paulo fosse tratado com gentileza e consideração, e que seus amigos deveriam ter livre acesso a ele.

Não muitos dias depois, Félix entrou na sala de audiências com sua esposa Drusila, e mandou chamar Paulo. Eles estavam evidentemente curiosos para ouvi-lo falar “acerca da fé em Cristo” (Atos 24:24). Mas não seria Paulo quem iria gratificar a curiosidade de um romano libertino e de uma devassa princesa judia. O fiel apóstolo, ao pregar Cristo, falou de modo claro e ousado à consciência de seus ouvintes. Ele tinha, agora, uma oportunidade ao seu alcance que ele dificilmente poderia ter obtido. “E, tratando ele da justiça, e da temperança, e do juízo vindouro, Félix, espavorido…” (Atos 24:25). Não é de se estranhar. Se devemos acreditar nos historiadores de seus dias, como Josefo e Tácito, nunca um casal tão sem princípios e dissoluto havia se sentado diante de um pregador. Mas, embora com a consciência atingida, Félix continuou impenitente. Que temível condição! “Por agora vai-te”, disse ele, “e em tendo oportunidade te chamarei.” (Atos 24:25). Mas tal oportunidade jamais chegou, embora tenha visto o apóstolo com frequência mais tarde, sem dúvidas, dando a entender que queria fazer um suborno para garantir sua liberdade. O governador romano nem imaginava que sua mercenária justiça seria recordada no livro de Deus, e levada adiante para todas as gerações que se sucederam. Seu caráter é representado como mesquinho, cruel e dissoluto; capaz de qualquer impiedade, ele exerceu o poder de um rei com o temperamento de um escravo. “Mas, passados dois anos, Félix teve por sucessor a Pórcio Festo; e, querendo Félix comprazer aos judeus, deixou a Paulo preso.” (Atos 24:27)

Paulo Comparece Diante de Festo e Agripa

Imediatamente após a chegada de Festo à província, ele visitou Jerusalém. Lá, os líderes judeus aproveitaram a oportunidade para exigir o retorno de Paulo. Seus argumentos, sem dúvida, era de que ele deveria novamente ser julgado perante o Sinédrio, mas a verdadeira intenção deles era matá-lo no caminho. Festo recusou o pedido. No entanto, ele os convidou a ir com ele para a Cesareia e acusá-lo lá. O julgamento ocorreu e assemelhou-se ao que ocorreu diante de Félix. É bem evidente que Festo viu claramente que a verdadeira ofensa de Paulo estava ligada às opiniões religiosas dos judeus, e que ele não tinha cometido ofensa alguma contra a lei. Mas ao mesmo tempo, tendo desejo de agradar os judeus, pergunta a Paulo se ele não iria a Jerusalém para ser ali julgado. Isto era apenas um pouco melhor do que uma proposta de sacrificá-lo ao ódio judaico. Paulo, estando bem consciente disso, apelou de vez ao Imperador – “Eu apelo para César” (Atos 25:11).

Festo estava sem dúvidas surpreso com a dignidade e independência de seu prisioneiro. Mas era seu privilégio como cidadão romano ter sua causa transferida ao supremo tribunal do Imperador de Roma. “Então Festo, tendo falado com o conselho, respondeu: Apelaste para César? para César irás.” (Atos 25:12).

Até onde os olhos do homem podem enxergar, este era o único recurso de Paulo sob tais circunstâncias. Mas a mão e propósito do Senhor estava nisto. Paulo deveria dar testemunho de Cristo e da verdade também em Roma. Jerusalém tinha rejeitado o testemunho aos gentios; Roma também deve ter tido sua porção na rejeição ao mesmo testemunho, se tornando também a prisão do testemunho. Mas em tudo isso Paulo é altamente favorecido pelo Senhor. Sua posição lembra a de seu bendito Senhor, quando Ele foi entregue aos gentios pelo ódio dos judeus. Apenas o Senhor foi perfeito em tudo isto, e Ele estava em Seu verdadeiro ligar diante de Deus. Ele veio para os judeus – esta era Sua missão. Paulo foi enviado dos judeus – tal era a diferença. Cristo se entregou a Si mesmo, como lemos: “Que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus” (Hebreus 9:14). Parte da comissão de Paulo é assim: “Livrando-te deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio”(Atos 26:17). Mas Paulo retornou àquele “povo” (os judeu) na energia de suas afeições humanas, após ter sido colocado fora deles na energia do Espírito Santo. Jesus tinha tirado ele de ambos judeus e gentios para exercer um ministério que unia ambos em um só corpo em Cristo. Como o próprio Paulo diz: “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne” (2 Coríntios 5:16). Em Cristo Jesus não há judeu nem grego.

Vamos agora retomar a história do grande apóstolo.

Paulo Comparece Diante de Agripa e Berenice

Aconteceu nessa época que Agripa, rei dos judeus, e sua irmã Berenice, foram fazer uma visita de cortesia a Festo. E como Festo não sabia como levar o caso de Paulo ao Imperador, ele aproveitou a oportunidade de consultar Agripa, que estava mais bem informado que ele sobre os pontos em questão. O príncipe judeu, que devia saber algo sobre o cristianismo, e que sem dúvidas havia ouvido falar de Paulo, expressou o desejo de ouvi-lo falar. Festo prontamente acedeu ao pedido. “Amanhã”, disse ele, “o ouvirás” (Atos 25:22).

O apóstolo teria agora o privilégio de levar o nome de Jesus diante da mais digníssima assembleia que ele já tinha abordado. Reis judeus, governadores romanos, oficiais militares e comandantes da Cesareia se reuniram “com grande pompa” para ouvir o prisioneiro dar conta de si mesmo a Agripa. Não era uma audiência qualquer, e está perfeitamente claro que eles não consideravam o prisioneiro como uma pessoa qualquer. Festo, tendo reconhecido a dificuldade na qual se encontrava, remeteu a questão ao melhor conhecimento do rei judeu. Agripa cortesmente deu sinal a Paulo, permitindo que falasse. Chegamos agora a um dos momentos mais interessantes em toda a história de nosso apóstolo.

A dignidade de seus modos perante seus juízes, embora preso por correntes a um soldado, deve ter impressionado profundamente sua audiência. A profundidade de sua humilhação apenas manifestava mais acentuadamente a elevação moral de sua alma. Ele não pensava nem em suas correntes nem em sua pessoa. Perfeitamente feliz em Cristo, e ardente de amor por aqueles ao seu redor, o bem-estar e as circunstâncias foram completamente esquecidas. Com uma digna consideração para com a posição daqueles ao seu redor, levantou-se, na honesta declaração de uma boa consciência, infinitamente acima de todos. Ele se dirigiu à consciência de sua audiência, com a ousadia e retidão de um homem acostumado a andar com Deus, e de agir por Ele. O caráter e conduta dos governadores são lançadas em doloroso contraste com o caráter e conduta do apóstolo, e nos mostra o que o mundo é quando desmascarado pelo Espírito Santo.

Certo autor escreveu: “Não mencionarei a vaidade mundana que se revela em Lísias e Festo por meio da conjectura de toda classe de boas qualidades e boa conduta – mistura de uma consciência tocada e falta de princípios nos líderes – e do desejo de agradar os judeus pela sua própria importância, ou de facilitar seu governo sobre um povo rebelde. A posição de Agripa e todos os detalhes da história têm o extraordinário cunho da verdade, cujos vários personagens são apresentados de maneira tão vívida que parece que estamos presenciando a cena aqui descrita, e vendo as pessoas se movendo nela. Além do mais, essa é uma característica marcante dos escritos de Lucas”.

Capítulo 26. Paulo se dirige ao rei Agripa como alguém bem versado nos costumes e questões que prevalecem entre os judeus. E assim ele relata sua miraculosa conversão e sua subsequente carreira de modo a agir na consciência do rei. Pela clara e direta narrativa do apóstolo, ele não estava longe de ser convencido. Sua consciência foi despertada. Mas o mundo e suas próprias paixões estavam no caminho. Festo ridicularizou. Para ele não passava de um entusiasmo extravagante – um delírio. Ele interrompeu o apóstolo abruptamente e ”disse em alta voz: Estás louco, Paulo; as muitas letras te fazem delirar.“ (Atos 26:24). A resposta do apóstolo foi digna e segura de si, mas intensamente séria e, com grande sabedoria e discernimento, ele apela por fim a Agripa: “Não deliro, ó potentíssimo Festo; antes digo palavras de verdade e de um são juízo. Porque o rei, diante de quem também falo com ousadia, sabe estas coisas, pois não creio que nada disto lhe é oculto; porque isto não se fez em qualquer canto.” (Atos 26:25,26)

Então, voltando-se ao rei judeu, que se sentava ao lado de Festo, ele fez este direto e solene apelo:

“Crês tu nos profetas, ó rei Agripa? Bem sei que crês.” (Atos 26:27)

“E disse Agripa a Paulo: Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!” (Atos 26:28)

No momento, o rei foi levado pelo poder do discurso de Paulo, e pela afiada picada de seus apelos. Então Paulo deu sua resposta – uma resposta que se sobressai. É caracterizada pelo zelo piedoso, pela cortesia cristã, pelo ardente amor pelas almas, e por grande alegria pessoal no Senhor:

“E disse Paulo: Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito, não somente tu, mas também todos quantos hoje me estão ouvindo, se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias.” (Atos 26:29)

Com a expressão deste nobre desejo, a conferência foi encerrada. A reunião foi dissolvida. Agripa não queria ouvir mais. Os apelos tinham sido tão penetrantes e tão pessoais, ainda que misturados com dignidade, afeição e solicitude, que ele não aguentou mais. Então “levantou-se o rei, o presidente, e Berenice, e os que com eles estavam assentados.” (Atos 26:30). Após uma breve consulta, Festo, Agripa e sua companhia chegaram à conclusão de que Paulo não era culpado de nada digno de morte ou mesmo prisão. “Bem podia soltar-se este homem”, disse Agripa, “se não houvera apelado para César.” (Atos 26:32)

Este era o cuidado do Senhor para com Seu amado servo. Ele teria sua inocência provada e reconhecida por seus juízes, e plenamente estabelecida perante o mundo. Sendo isto cumprido, o rei e sua companhia retomam seus lugares no mundo e seus divertimentos, e Paulo retorna à sua prisão. Mas nunca seu coração esteve mais feliz ou mais cheio do Espírito de Seu Mestre do que naquele momento.

A Viagem de Paulo a Roma (60 d.C.)

Atos 27. Chegou a hora em que Paulo viajaria a Roma. Nenhum julgamento formal do apóstolo tinha acontecido. E, sem dúvidas, cansado da oposição dos judeus – com dois anos de prisão em Cesareia – e com repetidos exames diante dos governantes e de Agripa, ele tinha solicitado um julgamento perante a corte imperial. Lucas, o historiador de Atos e Aristarco de Tessalônica, tiveram o privilégio de acompanhá-lo. Paulo foi entregue aos cuidados de um centurião chamado Júlio, da guarda imperial: um oficial que, em todas as ocasiões, tratou o apóstolo com grande gentileza e consideração.

Foi então determinado que Paulo deveria ser enviado juntamente com “alguns outros presos” pelo mar até a Itália. “E, embarcando nós”, diz Lucas, “em um navio adramitino, partimos navegando pelos lugares da costa da Ásia, estando conosco Aristarco, macedônio, de Tessalônica. E chegamos no dia seguinte a Sidom, e Júlio, tratando Paulo humanamente, lhe permitiu ir ver os amigos, para que cuidassem dele.” (Atos 27:2,3). Partindo de Sidom eles foram forçados a navegar por baixo do Chipre, pois os ventos eram contrários, e chegaram a Mirra, uma cidade na Lícia. Aqui o centurião teve seus prisioneiros transferidos para um navio de Alexandria em rota para a Itália. Neste navio, após deixarem Mirra, “por muitos dias navegaram vagarosamente”, pois o clima era desfavorável. Mas navegando por baixo de Creta, eles chegaram em segurança em Bons Portos.

O inverno estava próximo, e se tornou uma séria questão qual curso deveria ser tomado – se eles deviam permanecer em Bons Portos durante o inverno, ou se deveriam procurar algum porto melhor.

Aqui devemos fazer uma breve pausa e contemplar a maravilhosa posição de nosso apóstolo nessa séria consulta. Como anteriormente com Festo e Agripa, ele se põe diante do capitão, do proprietário do navio, do centurião e de toda tripulação, tendo a mente de Deus. Ele aconselha, dirige e age como se ele fosse realmente o mestre do navio, no lugar de ser um prisioneiro sob custódia de soldados. Ele aconselha para que fiquem onde estão. Ele adverte-lhes de que iriam se encontrar com um clima violento se se aventurassem ao alto mar, e que muito prejuízo seria feito ao navio e sua carga, e que colocaria em risco a vida dos que estavam a bordo. Mas o mestre e o proprietário do navio, que tinham o máximo interesse no próprio navio, se deixaram guiar pelas circunstâncias e não pela fé; eles desejavam correr o risco de buscar por um porto mais cômodo para invernar, e o centurião naturalmente cedeu ao julgamento deles. Todos estavam contra o julgamento do homem de fé – o homem de Deus – o homem que estava falando e agindo por Deus. Até mesmo as circunstâncias no cenário ao redor deles parecia favorável à opinião dos marinheiros, e não do apóstolo. Mas nada pode falsificar o julgamento da fé. Este deve ser verdade a despeito de qualquer circunstância.

Foi, portanto, resolvido pela maioria de que eles deveriam deixar Bons Portos, e navegar para Fenice como um porto mais seguro para o inverno. O vento mudou nesse exato momento. Tudo parecia favorecer os marinheiros. “E, soprando o sul brandamente…”. Eles estavam tão otimistas que Lucas nos diz que eles supunham que o propósito deles já estava realizado (v. 13). Estando em acordo, eles levantaram âncora e, com uma brisa suave vinda do sul, o navio, com suas “duzentas e setenta e seis almas” a bordo, partiu do porto de Bons Portos. Mas mal eles contornaram o Cabo Matala, uma distância de apenas quatro ou cinco milhas, e um vento forte vindo da costa pegou o navio, e o lançou de tal maneira que já não era possível para o timoneiro mantê-lo em seu curso. E, como observa Lucas, “nos deixamos ir à toa”(Atos 27:15), ou seja, eles foram obrigados a deixar o navio ser levado pelo vento.

Mas nossa principal preocupação aqui é com Paulo como o homem da fé. Quais devem ter sido os pensamentos e sentimentos de seus companheiros passageiros nesse momento? Eles tinham confiado no vento, e agora eles tinham que enfrentar a tempestade. Os solenes conselhos e avisos da fé tinham sido rejeitados. Muitos, infelizmente, sem se importarem com os avisos aqui registrados, e sob o lisonjeiro vento de circunstâncias favoráveis, se lançaram na grande viagem da vida, totalmente desatentos e independentes da voz da fé. Mas como o lisonjeiro vento que traiu o navio depois que saiu do porto, tudo logo se torna uma furiosa tempestade no agitado mar da vida.

A Tempestade no Mar Adriático

O termo “euro-aquilão” dado a este tempestuoso vento indica, como nos é dito, uma tempestade de extrema violência. Veio acompanhada pela agitação e rodopio das nuvens, e por um grande abalo marítimo, com enormes ondas. O historiador sagrado agora procede dando um relato preciso sobre o que foi feito do navio nessas perigosas circunstâncias. Tendo corrido para o sotavento de Clauda, eles parecem ter escapado por um momento da violência da tempestade. Isso lhes deu então uma oportunidade de fazer preparações para a tempestade.

O dia após terem deixado Clauda – e a violência da tempestade continuando – eles começaram a aliviar o navio, lançando ao mar tudo o que poderia ser poupado. Todas as mãos pareciam estar trabalhando. “E, andando nós agitados por uma veemente tempestade, no dia seguinte aliviaram o navio. E ao terceiro dia nós mesmos, com as nossas próprias mãos, lançamos ao mar a armação do navio. E, não aparecendo, havia já muitos dias, nem sol nem estrelas, e caindo sobre nós uma não pequena tempestade, fugiu-nos toda a esperança de nos salvarmos.” (Atos 27:18-20)

Nada poderia ser mais terrível para os marinheiros antigos do que um céu continuamente cheio de nuvens, já que estavam acostumados a serem guiados pela observação dos corpos celestiais. Foi nesse momento de perplexidade e desespero que o apóstolo “pôs-se em pé” e ergueu sua voz em meio à tempestade. E de suas palavras de simpatia aprendemos que todo o sofrimento deles foi agravado pela dificuldade de se preparar comida. “E, havendo já muito que não se comia, então Paulo, pondo-se em pé no meio deles, disse: Fora, na verdade, razoável, ó senhores, ter-me ouvido a mim e não partir de Creta, e assim evitariam este incômodo e esta perda. Mas agora vos admoesto a que tenhais bom ânimo, porque não se perderá a vida de nenhum de vós, mas somente o navio. Porque esta mesma noite o anjo de Deus, de quem eu sou, e a quem sirvo, esteve comigo, dizendo: Paulo, não temas; importa que sejas apresentado a César, e eis que Deus te deu todos quantos navegam contigo. Portanto, ó senhores, tende bom ânimo; porque creio em Deus, que há de acontecer assim como a mim me foi dito. É contudo necessário irmos dar numa ilha.” (Atos 27:21-26)

O Naufrágio

O naufrágio não estava muito distante. “E, quando chegou a décima quarta noite, sendo impelidos de um e outro lado no mar Adriático, lá pela meia-noite suspeitaram os marinheiros que estavam próximos de alguma terra. E, lançando o prumo, acharam vinte braças; e, passando um pouco mais adiante, tornando a lançar o prumo, acharam quinze braças.” (Atos 27:27,28). Por quatorze dias e noites o pesado vendaval continuou sem parar, tempo durante o qual o sofrimento deles deve ter sido além de qualquer descrição.

No fim do décimo quarto dia, “lá pela meia-noite”, os marinheiros ouviram um som que indicava que eles estavam se aproximando da terra. O som, sem dúvidas, vinha das ondas de arrebentação, que se quebram nos rochedos. O tempo não podia ser desperdiçado, então eles imediatamente lançaram quatro âncoras da popa, e ansiosamente esperaram pelo amanhecer. Aqui houve uma tentativa natural, porém mesquinha, dos marinheiros para salvarem suas próprias vidas. Eles baixaram o bote com o professo propósito de lançar as âncoras da proa, porém com a intenção de abandonar o navio a afundar. Paulo, vendo isso, e conhecendo seus verdadeiros desígnios, imediatamente “disse ao centurião e aos soldados: Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos. Então os soldados cortaram os cabos do batel (bote), e o deixaram cair.” (Atos 27:31,32). Assim, o conselho divino do apóstolo foi o meio de salvar todos a bordo. “Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos.” (Atos 27:31). Já não mais o capitão do navio ou sua tripulação eram procurados para buscar sabedoria e segurança. Todo olho se voltava para Paulo, o prisioneiro – o homem da fé – o homem que acredita e age de acordo com a revelação de Deus. Circunstâncias frequentemente enganam quando olhamos para sua direção; a palavra de Deus é nosso único guia seguro, seja em clima calmo ou desagradável.

Durante o ansioso intervalo que se manteve até o amanhecer do dia, Paulo teve uma oportunidade de levantar sua voz a Deus, e para o encorajamento de toda a companhia. Que cena de intenso interesse deve ter sido! A noite escura e tempestuosa – o navio em perigo de afundar ou de se despedaçar nos rochedos. Mas havia alguém a bordo que estava perfeitamente feliz em meio a tudo isto. O estado do navio, as águas rasas e o alarmante som das ondas não surtiam terror nele. Ele estava feliz no Senhor, e em plena comunhão com Seus próprios pensamentos e propósitos. Tal é o lugar do cristão em meio a toda tempestade, embora comparativamente poucos tomam esse lugar: somente a fé pode alcançá-lo. Esta foi a última exortação de Paulo à companhia do navio.

“E, entretanto que o dia vinha, Paulo exortava a todos a que comessem alguma coisa, dizendo: É já hoje o décimo quarto dia que esperais, e permaneceis sem comer, não havendo provado nada. Portanto, exorto-vos a que comais alguma coisa, pois é para a vossa saúde; porque nem um cabelo cairá da cabeça de qualquer de vós. E, havendo dito isto, tomando o pão, deu graças a Deus na presença de todos; e, partindo-o, começou a comer. E, tendo já todos bom ânimo, puseram-se também a comer.” (Atos 27:33-36)

O único desejo deles agora era chegar com o navio em terra e escapar. Embora não tivessem ainda conhecido a terra, “enxergaram uma enseada que tinha praia” e se determinaram a encalhar o navio ali. Então eles lançaram âncoras, largaram as amarras do leme, içaram a vela maior e dirigiram-se para a praia. O navio, assim, conduzido, com a proa encravada na praia, permaneceu imóvel, mas a popa se quebrou em pedaços pela violência das ondas.

O navio de Paulo tinha agora alcançado a costa, e mais uma vez o homem da fé foi necessário para a salvação das vidas de todos os prisioneiros. O centurião, grandemente influenciado pelas palavras de Paulo, e temendo por sua segurança, previne que os soldados matem os prisioneiros, e ordena que aqueles que sabiam nadar deveriam se lançar primeiro ao mar e chegar à terra, e que o resto deveria seguir em tábuas ou pedaços do navio disponíveis. “E assim aconteceu que todos chegaram à terra a salvo.” (Atos 27:44). O salvamento deles foi completo, como Paulo tinha predito que seria.

Paulo em Malta

Atos 28. Os habitantes da ilha receberam os náufragos estrangeiros com muita gentileza, e imediatamente acenderam um fogo para aquecê-los. O historiador sagrado nos pinta um quadro vivo de toda a cena. Vemos as pessoas descritas se movendo nela: o apóstolo recolhendo lenha para o fogo – a víbora mordendo sua mão – os nativos pensando, a princípio, que ele fosse um assassino, e depois que fosse um deus, pelo fato de ter escapado ileso da mordida. Públios, o principal líder da ilha, os recebeu com cortesia por três dias, e seu pai, que estava de cama com febre, foi curado por Paulo ao impor suas mãos sobre ele e orar. Permitiram que o apóstolo obrasse muitos milagres durante sua estadia na ilha, e toda companhia, por causa dele, foram tidos com muita honra. Vemos que Deus está com Seu amado servo, e que ele exercita, como de costume, seu poder entre os habitantes. Como a parte final da viagem de Paulo a Roma é bastante próspera, havendo poucos incidentes registrados, vamos tomar nota brevemente:

Após uma estadia de três meses em Malta, os soldados e seus prisioneiros partiram em um navio de Alexandria para a Itália. Eles passaram por Siracusa, onde ficaram por três dias: e em Régio, a partir de onde tiveram um vento bom até Potéoli. Aqui eles “acharam alguns irmãos”, e enquanto passavam alguns dias com eles, desfrutando do ministério do amor fraternal, as novidades sobre a chegada de Paulo chegaram aos ouvidos dos cristãos de Roma. Eles logo enviaram alguns dos seus, que se encontraram com Paulo e seus amigos na Praça de Ápio e nas Três Vendas. Um belo exemplo e ilustração da comunhão dos santos. Quais deveriam ter sido os sentimentos de nosso apóstolo nessa primeiro encontro com os cristãos da igreja em Roma! Seu desejo há muito acalentado estava finalmente cumprido. Seu coração estava cheio de louvor. “Ele deu graças a Deus”, como diz Lucas, “e tomou ânimo.” (Atos 28:15)

A Chegada de Paulo a Roma

Ao longo da Via Ápia, muito provavelmente, Paulo e seus companheiros viajaram até Roma. Ao chegarem, “o centurião entregou os presos ao capitão da guarda3; mas a Paulo se lhe permitiu morar por sua conta à parte, com o soldado que o guardava.” (Atos 28:16). Embora ele não tenha sido libertado do constante aborrecimento de estar acorrentado a um soldado, todas as indulgências permitidas a um prisioneiro lhe foram concedidas.

Paulo tinha agora o privilégio “de anunciar o evangelho aos que estavam em Roma” (Romanos 1:15); e prosseguiu sem demora a agir de acordo com sua regra divina: “primeiro aos judeus”. Ele chama os principais dos judeus e explica a eles sua verdadeira posição. Ele lhes assegura que não tinha cometido ofensa alguma contra sua nação, ou contra os costumes dos pais, mas que ele tinha sido trazido a Roma para responder a certas acusações feitas contra ele pelos judeus na Palestina: e tão infundadas eram acusações, que até mesmo o governador romano estava disposto a libertá-lo, mas os judeus se opunham à sua liberdade. De fato era, como ele disse, que “pela esperança de Israel estou com esta cadeia”. (Atos 28:20). Seu único crime tinha sido sua firme fé nas promessas de Deus a Israel através do Messias.

Os judeus romanos, em resposta, asseguraram a Paulo que nenhum relato sobre os preconceitos sofridos tinha chegado a Roma, e que eles desejavam ouvir dele mesmo uma declaração de sua fé; e além disso, que em toda parte se falava mal dos cristãos. Um dia foi então marcado para um encontro em seu próprio aposento. Na hora marcada muitos vieram, “aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus, e procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde.” (Atos 28:23). Mas os judeus em Roma, assim como em Antioquia e Jerusalém, foram tardios de coração em crer. “E alguns criam no que se dizia; mas outros não criam.” (Atos 28:24). Mas quão séria e incansavelmente ele trabalhava para ganhar seus corações para Cristo! De manhã até à tarde ele não apenas pregava a Cristo, mas procurava convencê-los a respeito dEle. Ele procurou, podemos estar certos, persuadi-los a respeito da Divindade e humanidade do Senhor – Seu perfeito sacrifício – Sua ressurreição, ascensão e glória. Que lição e que assunto para o pregador em todas as épocas. Persuadir homens a respeito de Jesus desde a manhã até à tarde.

A condição dos judeus é agora posta diante de nós pela última vez. O juízo pronunciado por Isaías estava para cair sobre eles em todo o seu poder fulminante – um juízo sob o qual permanecem até hoje – um juízo que deve continuar até que Deus se interponha para dar-lhes arrependimento, e para livrá-los por Sua graça à glória de Seu próprio nome. Mas, em meio a tudo isso, “a salvação de Deus é enviada aos gentios, e eles a ouvirão.” (Atos 28:28), e, como sabemos – bendito seja Seu nome – eles ouviram, e nós mesmos somos testemunhas disso. 4

“E Paulo ficou dois anos inteiros na sua própria habitação que alugara, e recebia todos quantos vinham vê-lo; pregando o reino de Deus, e ensinando com toda a liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum.” (Atos 28:30,31)

Estas são as últimas palavras de Atos A cena na qual as cortinas se fecham é bastante sugestiva – a oposição da incredulidade judaica quanto às coisas relacionadas à salvação de suas almas sugerem, infelizmente, o que em breve se abateria sobre eles. E aqui, também, acaba a história desse precioso servo de Deus, até onde nos foi diretamente revelada. A voz do Espírito da verdade sobre este assunto torna-se silenciosa. O conhecimento que temos sobre a subsequente história de Paulo deve agora ser coletado quase que exclusivamente de suas próximas epístolas. E delas aprendemos mais que mera história: elas nos dão um bendito vislumbre dos sentimentos, conflitos, afetos e simpatias do grande apóstolo, e da condição da igreja de Deus em geral, até o momento de seu martírio.

O Livro de Atos como um Livro Transicional entre Dispensações

Vamos aqui fazer uma pausa e contemplar por um momento nosso apóstolo como prisioneiro na cidade imperial. O evangelho tinha agora sido pregado de Jerusalém a Roma. Grandes mudanças tinham ocorrido nos modos dispensacionais de Deus [N. do T.: os modos como Deus trata com o ser humano]. O livro de Atos é transicional neste caráter. Os judeus, como vemos, são agora deixados de lado – ou melhor, eles mesmos se deixaram ficar de lado por rejeitarem aquilo que Deus estava fazendo. Os conselhos de Sua graça dirigidos a eles, sem dúvida, permanecem para sempre; mas, entretanto, eles são deixados de lado e outros vêm e tomam o lugar do bendito relacionamento com Deus. Paulo era uma testemunha da graça de Deus para com Israel. Ele mesmo era um israelita, mas também escolhido de Deus para introduzir algo inteiramente novo – a igreja, o corpo de Cristo, “do qual fui feito ministro… de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a comunhão do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo” (Efésios 3:7-9). Esta nova coisa pôs de lado qualquer distinção entre judeu e gentio, como pecadores e na unidade desse corpo. A hostilidade dos judeus contra essas verdades nunca diminuíram, como temos sempre visto, assim como vemos os resultados desta inimizade. Os judeus desaparecem da cena inteiramente, e a igreja se torna o vaso do testemunho de Deus na terra, e Sua habitação pelo Espírito (Efésios 2:22). Indivíduos judeus, é claro, que creem em Jesus, são abençoados em conexão com um Cristo celestial e com o “um só corpo”. Mas Israel, por um tempo, é deixado sem Deus, e sem a presente comunicação com Ele. As Epístolas aos Romanos e aos Efésios estabelecem plenamente essa doutrina (especialmente Romanos, capítulos 9, 10 e 11). Agora retornamos à ocupação de Paulo durante sua prisão.

A Ocupação de Paulo Durante Sua Prisão

Embora um prisioneiro, ele foi autorizado a manter livre relação com seus amigos, e foi então cercado de muitos de seus mais antigos e fiéis companheiros. Das Epístolas aprendemos que Lucas, Timóteo, Tíquico, Epafras, Aristarco e outros estavam com o apóstolo durante esse tempo. Ainda assim, devemos nos lembrar que ele estava, como prisioneiro, preso em cadeias a um soldado e exposto ao rude controle de tal. Devido ao longo atraso de seu julgamento, ele permaneceu nessa condição por dois anos, durante o qual ele pregou o evangelho e abriu as escrituras às congregações que vinham ouvi-lo. Ele também escreveu várias epístolas para as igrejas em lugares distantes.

Tendo plena e fielmente cumprido o dever que tinha para com os judeus, o povo favorecido de Deus, ele agora se dirige aos gentios, embora não deixasse totalmente de lado os judeus. Sua porta estava aberta de manhã até a noite para todos que quisessem vir e ouvir as grandes verdades do cristianismo. E, em alguns aspectos, ele nunca teve oportunidade melhor, uma vez que, sob proteção dos romanos, os judeus não tinham permissão para incomodá-lo.

Os efeitos da pregação de Paulo através da bênção do Senhor logo foram manifestos. Os guardas romanos, a família de César, e pessoas de “todos os demais lugares” foram abençoados através dele. “E quero, irmãos, que saibais”, escreve ele aos filipenses, “que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do evangelho; de maneira que as minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana, e por todos os demais lugares”. E depois, o apóstolo diz: “Todos os santos vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César.” (Filipenses 1:12,13; 4:22). A bênção parece ter sido primeiramente manifesta ao pretório, ou entre os guardas pretorianos. “As minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana”, isto é, no alojamento dos guardas e tropas. O evangelho da glória que Paulo pregava foi ouvido por todos eles. Até mesmo o gentil prefeito romano Burrus, com seu amigo íntimo Sêneca, tutor de Nero, pode ter ouvido o evangelho da graça de Deus. Os modos corteses de Paulo, e suas grandes habilidades, tanto naturais quanto adquiridas, eram bem adequadas para atrair tanto o estadista quanto o filósofo. Sua estadia ali por dois anos lhe trouxe muitas oportunidades.

Ele deve ter ficado conhecido, podemos dizer, entre quase todos os guardas. Com cada mudança de guarda, a porta para o evangelho se abria cada vez mais. Estando constantemente preso a um dos soldados como sentinela, e sendo tal sentinela constantemente substituído, ele então se familiarizou com muitos; e com que amor, fervor e ardente eloquência ele deve ter falado com eles sobre Jesus e sobre a necessidade que tinham dEle! Mas devemos esperar até a manhã da primeira ressurreição para vermos os resultados da pregação de Paulo naquele lugar. O dia o declarará, e Deus terá toda a glória.

O apóstolo também nos faz saber que o evangelho tinha penetrado no próprio palácio. Havia santos na casa de César. O cristianismo foi plantado dentro das paredes imperiais, “e por todos os demais lugares”. Sim, “por todos os demais lugares”, disse o historiador sagrado. Não apenas Paulo estava trabalhando dentro dos recintos imperiais, como também seus companheiros, a quem ele chama de “cooperadores”, estavam sem dúvidas pregando o evangelho “por todos os demais lugares”, dentro e fora da cidade imperial, de modo que o sucesso do evangelho pudesse ser atribuído aos esforços de outros, assim como aos incansáveis esforços do grande apóstolo em seu cativeiro.

O Escravo Foragido, Onésimo

De todos os convertidos que o Senhor deu ao apóstolo estando preso, nenhum deles parece ter ganho tão inteiramente seu coração como o pobre escravo fugitivo, Onésimo. Uma bela imagem de força, humildade e ternura do divino amor no coração que trabalha pelo Espírito, e docemente brilha em todos os detalhes da vida individual! O sucesso do apóstolo no palácio imperial não enfraquece seu interesse em um jovem discípulo da mais baixa condição da sociedade. Nenhuma porção da comunidade era mais depravada do que os escravos. Mas quem se associaria a um escravo fugitivo naquela devassa cidade? Mesmo assim, a partir destas profundezas, Onésimo é tirado pelas mãos invisíveis do amor eterno. Ele cruza o caminho do apóstolo, ouve-o pregar o evangelho, é convertido, dedica-se de uma vez por todas ao Senhor e a Seu serviço, e encontra em Paulo um amigo e irmão, assim como um líder e mestre. E agora resplandecem as virtudes e o valor do cristianismo, e as mais doces aplicações da graça de Deus para com um escravo pobre, sem amigos, destituído e foragido.

“O que é o cristianismo?”, podemos perguntar, e qual sua origem, em vista de tais novidades em Roma. O que é o cristianismo no mundo? Será que foi aos pés de Gamaliel que Paulo aprendeu a amar assim? Não, querido leitor. Foi aos pés de Jesus. Que bom seria se o eloquente historiador de “O Declínio e a Queda do Império Romano” tivesse entrado nesta cena e aprendido o valor do cristianismo divino, em vez de ter se delongado em ridicularizá-lo com desdém! Se pensarmos por um momento nos trabalhos do apóstolo nesse tempo – sua idade – suas fraquezas – suas circunstâncias (para não falar dos assuntos elevados, e das imensas verdades fundamentais que então ocupavam sua mente) – podemos muito bem admirar a graça que podia entrar em cada detalhe do relacionamento de mestre e escravo, e isto com tal delicada consideração por cada pedido. A carta que ele enviou, com Onésimo, ao seu injuriado mestre Filemom, é claramente a mais tocante já escrita. Lendo-a por alto, perderemos o calor e seriedade de suas afeições, a delicadeza e equidade de seus pensamentos, ou a sublime dignidade que permeia por toda a epístola.

Vamos agora ponderar por um momento sobre as epístolas escritas durante sua prisão.

Epístolas que foram Escritas por Paulo Durante seu Aprisionamento

Não pode haver dúvida de que a Epístola a Filemom, aos Colossenses, aos Efésios e aos Filipenses foram escritas por volta dos últimos tempos de Paulo como prisioneiro em Roma. Ele se refere a suas “prisões” em todas essas cartas, e fala repetidamente sobre a expectativa de sua libertação (Compare Filemom 1:22; Colossenses 4:18; Efésios 3:1; 4:1; 6:20; Filipenses 1:7, 25; 2:24; 4:22). Além disso, ele deve ter estado por tempo o bastante em Roma para que as novidades sobre sua prisão chegassem aos afetuosos filipenses, e para que eles tivessem lhe enviado refrigério.

As três primeiras parecem ter sido escritas algum tempo antes da Epístola aos Filipenses. Paulo fala sobre um assunto urgente o qual teve de ser resolvido em sua epístola a eles: “De sorte que espero vo-lo enviar logo que tenha provido a meus negócios. Mas confio no Senhor, que também eu mesmo em breve irei ter convosco.” (Filipenses 2:23,24). As três primeiras podem ter sido escritas por volta da primavera do ano 62 d.C., e enviadas por Tíquico e Onésimo; a última, no outono e enviada por Epafrodito.

Supõe-se também que a Epístola aos Hebreus tenha sido escrita por essa época, e cada justa consideração leva à conclusão de que Paulo foi o escritor. A expressão ao final da epístola “os da Itália vos saúdam” parecem decisivas quanto a onde o escritor estava quando a escreveu. E as seguintes passagens parecem ser decisivas quanto à época: “Sabei que já está solto o irmão Timóteo, com o qual, se ele vier depressa, vos verei.” (Hebreus 13:23,24). Compare isto com o que Paulo escreveu aos filipenses: “E espero no Senhor Jesus que em breve vos mandarei Timóteo… logo que tenha provido a meus negócios. Mas confio no Senhor, que também eu mesmo em breve irei ter convosco.” (Filipenses 2:19,23,24). É difícil duvidar que essas passagens não tenham sido escritas pela mesma caneta por volta da mesma época, e que se referem aos mesmo movimentos pretendidos. Mas não iremos insistir nesse ponto. Uma coisa, no entanto, é evidente – que a epístola foi escrita antes da destruição de Jerusalém em 70 d.C., pois o templo ainda estava de pé, e a adoração no templo continuava inalterada. Compare Hebreus 8:4; 9:25; 10:11; 13:10-13.

A Absolvição e Libertação de Paulo

Depois de quatro anos cheios em prisão, parte na Judeia e parte em Roma, o apóstolo está novamente em liberdade. No entanto, não temos detalhes particulares quanto ao caráter de seu julgamento, ou quanto aos motivos de sua absolvição. O historiador sagrado nos conta que ele ficou por dois anos inteiros em sua própria casa alugada, mas ele não diz o que se seguiu ao final desse período. Teria se seguido a condenação e morte do apóstolo, ou sua absolvição e liberação? Esta é a questão, e a única resposta certa para ela deve ser retirada principalmente das Epístolas Pastorais. A Primeira a Timóteo e a Epístola a Tito parecem ter sido escritas na mesma época; e a Segunda a Timóteo algum tempo depois.

É admitido, cremos, por quase todos os que são competentes para decidir sobre tal questão, que Paulo foi absolvido, e que ele passou alguns anos em viagem, em perfeita liberdade, antes de ser novamente preso e condenado. E, embora seja difícil traçar os passos do apóstolo durante esse período, ainda assim podemos tirar algumas conclusões pelas suas cartas, sem invadir o domínio da conjectura. Muito provavelmente ele viajou rapidamente e visitou muitos lugares. Durante o prolongado período de seu aprisionamento, muito mal tinha sido feito pelos seus inimigos nas igrejas que foram plantadas por meio dele. Elas precisavam de sua presença, seu conselho e seu encorajamento. E pelo que conhecemos quanto à sua energia e zelo, podemos ter certeza de que nenhum trabalho seria poupado para visitá-las.

A Partida de Paulo da Itália

1. Ao escrever aos Romanos, antes de seu aprisionamento, Paulo expressou sua intenção de passar por Roma até a Espanha. “Quando partir para Espanha”, diz ele, “irei ter convosco”. E novamente: “Assim que, concluído isto, e havendo-lhes consignado este fruto, de lá, passando por vós, irei à Espanha.” (Romanos 15:24,28). Alguns pensam que ele tenha ido à Espanha imediatamente após sua libertação. A principal evidência apresentada em favor dessa hipótese é suprida por Clemente, um cooperador mencionado em Filipenses 4:3, que dizem que mais tarde era reconhecido como um bispo de Roma. O escritor fala de Paulo ter pregado o evangelho do leste a oeste: que ele tinha instruído o mundo todo (se referindo, sem dúvidas, ao Império Romano), e que ele tinha ido ao mais extremo oeste – ou seja, até a região da Espanha. Como Clemente foi um dos próprios discípulos e cooperadores de Paulo, seu testemunho é digno de nosso respeito. Ainda assim, não está nas Escrituras, e portanto não pode ser considerado conclusivo.

2. Pelas cartas mais recentes de Paulo, ele parece ter alterado seus planos e desistido da ideia de ir à Espanha, pelo menos por um tempo. Podemos tirar isso principalmente das Epístolas a Filemom e aos Filipenses. Ao primeiro ele escreve: “E juntamente prepara-me também pousada, porque espero que pelas vossas orações vos hei de ser concedido.” (Filemom 1:22). Aqui ele pede a Filemom que espere pois iria em breve ter com ele em pessoa. Aos filipenses ele escreve, e falando de Timóteo acrescenta: “De sorte que espero vo-lo enviar logo que tenha provido a meus negócios. Mas confio no Senhor, que também eu mesmo em breve irei ter convosco.”. E novamente, “E espero no Senhor Jesus que em breve vos mandarei Timóteo, para que também eu esteja de bom ânimo, sabendo dos vossos negócios.” (Filipenses 2:19,23,24). Os movimentos pretendidos do apóstolo e de seu amado Timóteo parecem muito claros nessas passagens. Era evidentemente o propósito do apóstolo enviar Timóteo a Filipos assim que o julgamento terminasse, e ficar na Itália até que Timóteo retornasse com um relatório sobre a condição deles.

3. Pode-se razoavelmente esperar que Paulo tenha cumprido a intenção que ele havia expressado tão recentemente, de visitar as igrejas na Ásia Menor, algumas das quais ainda nem mesmo tinha conhecido. Tendo cumprido os objetivos de sua missão à Ásia Menor, alguns pensam que, depois disso, ele deve ter empreendido sua viagem à Espanha, mas sobre isso não temos informação confiável, e a mera conjectura não tem valor.

4. Outra teoria é que ele tenha ido da Itália para a Judeia, e daí para a Antioquia, Ásia Menor e Grécia. Este esquema se baseia principalmente em Hebreus 13:23,24. “Sabei que já está solto o irmão Timóteo, com o qual, se ele vier depressa, vos verei… Os da Itália vos saúdam.” É também suposto que, enquanto ele estava esperando em Potéoli para a embarcação, imediatamente após o retorno de Timóteo, notícias chegaram ao apóstolo de que uma grande perseguição se erguia contra os cristãos em Jerusalém. Esse conhecimento tão triste encheu tanto o coração de Paulo com tristeza que ele escreveu sua famosa carta a eles – a Epístola aos Hebreus. Pouco tempo depois Timóteo teria chegado, e então Paulo e seus companheiros partiram para a Judeia. 5

Os Lugares Visitados por Paulo Durante sua Liberdade

Tendo conhecido essas diferentes teorias para examinação própria por parte do leitor, vamos tomar nota dos lugares visitados por Paulo mencionados nas Epístolas.

1. Algum tempo depois de ter deixado Roma, Paulo e seus companheiros devem ter visitado a Ásia Menor e a Grécia. “Como te roguei, quando parti para a macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina.” (1 Timóteo 1:3). Sentindo-se, talvez, um pouco ansioso por seu filho Timóteo e pelo peso das responsabilidades de sua posição em Éfeso, ele envia uma carta de encorajamento, conforto e autoridade, enquanto estava ainda na Macedônia – A Primeira Epístola a Timóteo.

2. Algum tempo depois, Paulo visitou a ilha de Creta em companhia de Tito, e o deixou lá. Ele também, algum tempo depois, envia a ele uma carta de instrução e autoridade, a Epístola a Tito. Timóteo e Tito podem ser considerados como delegados ou representantes do apóstolo. “Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei.” (Tito 1:5)

3. Paulo pretendia passar o inverno em um lugar chamado Nicópolis: “Quando te enviar Ártemas, ou Tíquico, procura vir ter comigo a Nicópolis; porque deliberei invernar ali.” (Tito 3:12)

4. Ele visitou Trôade, Corinto e Mileto. “Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos… Erasto ficou em Corinto, e deixei Trófimo doente em Mileto.” (2 Timóteo 4:13,20)

O Segundo Aprisionamento de Paulo em Roma

Alguns supõem que o apóstolo tenha sido preso em Nicópolis (onde ele pretendia passar o inverno) e dali levado prisioneiro a Roma. Outros supõem que, após invernar em Nicópolis e visitar os lugares mencionados anteriormente, ele retornou a Roma em um estado de liberdade pessoal, mas foi preso durante a perseguição de Nero e lançado na prisão.

Quanto à acusação exata que agora era feita contra o apóstolo, e pela qual ele foi preso, não temos meios de verificar com certeza. Pode ter sido simplesmente a acusação por ser um cristão. A perseguição generalizada contra os cristãos agora se enfurecia com maior severidade. Não se tratava mais sobre certas questões da lei, e ele não estava mais sob os cuidados suaves e humanos de Burrus: ele agora era tratado como um malfeitor – como um criminoso comum: “Por isso sofro trabalhos e até prisões, como um malfeitor” (2 Timóteo 2:9) – e muito diferente das cadeias de seu primeiro aprisionamento, quando ele morava em sua própria casa alugada.

Alexandre – que acreditamos ser de Éfeso – evidentemente tinha algo a ver com sua prisão. Ou ele foi um de seus acusadores ou, ao menos, uma testemunha contra ele. “Alexandre, o latoeiro”, ele escreve a Timóteo, “causou-me muitos males” [“exibiu muito mal de espírito contra mim”] (2 Timóteo 4:14) . Dez anos antes disso, ele tinha estado à frente como um antagonista aberto do apóstolo em Éfeso (Atos 19). Ele pode agora ter procurado vingança colocando informação contra o apóstolo perante o prefeito. O fato de ser o mesmo Alexandre de Éfeso parece claro considerando o que ele escreve a Timóteo: “Tu, guarda-te também dele, porque resistiu muito às nossas palavras.” (2 Timóteo 4:15)

Durante a primeira e extensa prisão de Paulo, ele estava cercado por muitos de seus mais velhos e valorados companheiros, a quem ele chama de “cooperadores” e “prisioneiros comigo”. Por meio destes, seus mensageiros, embora acorrentado e preso em um único local, ele continuou em constante relação com seus amigos por todo o império, e com as igrejas dos gentios que ainda nem tinham visto sua face. Mas seu segundo aprisionamento estava em perfeito contraste com tudo isso. Ele estava longe de todos os seus companheiros de costume. Erasto ficou em Corinto, Trófimo foi deixado doente em Mileto, Tito tinha ido à Dalmácia, Crescente à Galácia, Tíquico tinha sido enviado a Éfeso, e Demas o tinha abandonado, “amando o presente século” (2 Timóteo 4:10).

O apóstolo estava agora quase que inteiramente sozinho. “Só Lucas está comigo”, diz ele (2 Timóteo 4:11). Mas o Senhor pensava em Seu solitário e abandonado servo. Um feixe luminoso, a partir da fonte de amor, brilha em meio à escuridão e melancolia de sua prisão. Havia alguém fiel em meio à deserção geral, e alguém que não se envergonhava das cadeias do apóstolo. Quão peculiarmente doce e refrescante para o coração do apóstolo deve ter sido o ministério de Onesíforo naquele tempo! Nunca poderá ser esquecido. Onesíforo e sua casa – que Paulo relaciona consigo mesmo – serão guardados em memória eterna, e deverão colher o fruto de sua coragem e devoção ao apóstolo para sempre e sempre. “Estive na prisão, e foste me ver.” (leia Mateus 25:31-46).

No que diz respeito às circunstâncias do julgamento de Paulo, não temos informação certa. Muito provavelmente, na primavera de 66 ou 67 d.C., Nero tomou seu lugar no tribunal, cercado por seus jurados e a guarda imperial, e Paulo foi levado à corte. Temos razões para acreditar que o espaçoso lugar se encheu de uma multidão promíscua de judeus e gentios. O apóstolo estava mais uma vez diante do mundo. Ele tinha novamente a oportunidade de proclamar a todas a nações aquilo pelo qual ele tinha sido feito prisioneiro – “e todos os gentios a ouvissem.” (2 Timóteo 4:17). Imperadores e senadores, príncipes e nobres, e todos os grandes da terra, deveriam ouvir o evangelho da graça de Deus. Tudo o que o inimigo tinha feito se torna um testemunho ao nome de Jesus. Aqueles que antes eram inacessíveis ouvem o evangelho pregado com poder do alto.

Seria bastante proveitoso nos demorarmos nessa maravilhosa cena por alguns momentos. Nunca antes houve tal testemunho no pretório de Nero. A sabedoria de Deus em tornar todos os esforços do inimigo em tal testemunho é a mais profunda, enquanto Seu amor e graça no evangelho brilha inefável e igualmente para todas as classes. O próprio apóstolo comanda nossa devota admiração. Embora nesse momento seu coração estivesse quebrado pela infidelidade da igreja, ele permaneceu forte no Senhor e na força do Seu poder. Ele tinha uma oportunidade de falar de Jesus, de Sua morte e ressurreição, de modo que a multidão pagã pudesse ouvir o evangelho. Sua idade, suas fraquezas, sua forma venerável, seu braço agrilhoado, tudo isso tendia a aprofundar a impressão de sua eloquência viril e direta. Mas, felizmente, temos um relato, de sua própria pena, da primeira audiência de sua defesa. Ele escreve assim a Timóteo, imediatamente após o evento: “Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam. Que isto lhes não seja imputado. Mas o Senhor assistiu-me e fortaleceu-me, para que por mim fosse cumprida a pregação, e todos os gentios a ouvissem; e fiquei livre da boca do leão.” (2 Timóteo 4:16,17)

”Observe agora, e veja o santo escolhido de Cristo

Em triunfo usar cadeias como seu Senhor;

Nenhum temor irá desviá-lo ou abatê-lo

Sua vida é Cristo, sua morte é lucro.”

O Martírio de Paulo

Embora não tenhamos registro do segundo estágio de seu julgamento, temos motivos para acreditar que se sucedeu pouco tempo depois do primeiro, e que terminou em sua condenação e morte. Mas a Segunda Epístola a Timóteo é o divino registro do que estava se passando em sua mente profundamente exercitada nesse solene momento. Sua profunda preocupação pela verdade e pela igreja de Deus; seu comovente carinho para com os santos, e especialmente para com seu amado filho Timóteo; sua triunfante esperança frente ao imediato prospecto do martírio; tudo isso só pode ser dito em suas próprias palavras: “Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.” (2 Timóteo 4:6-8)

O tribunal de Nero aqui desaparece de sua vista. A morte em sua forma mais violenta não exerce nele terror. Cristo em glória é o objeto de seus olhos e de seu coração – a fonte de sua alegria e de sua força. Sua obra foi concluída, e as fadigas de seu amor se cumpriram. Embora prisioneiro e pobre – embora velho e rejeitado – ele era rico em Deus, ele possuía Cristo, e nEle todas as coisas. O Jesus que ele tinha visto em glória no início de sua jornada, e que o tinha feito passar por todas as provas e trabalhos pelo evangelho, era agora sua posse e sua coroa. O injusto tribunal de Nero, e a espada manchada de sangue do carrasco, eram para Paulo apenas mensageiros da paz, que tinham vindo fechar seu longo e cansativo caminho, e introduzi-lo na presença de Jesus em glória. A hora tinha agora chegado em que Jesus, que o amava, o levaria para Si mesmo. Ele tinha lutado o bom combate do evangelho até o fim; ele tinha terminado seu curso, e agora só lhe faltava ser coroado, quando o Senhor, o justo Juiz, aparecer em glória.

“Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores

Por aquele que nos amou.

Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida

Nem os anjos, nem os principados, nem as potestades

Nem o presente, nem o porvir

Nem a altura, nem a profundidade

Nem alguma outra criatura

Nos poderá separar do amor de Deus

Que está em Cristo Jesus nosso Senhor.”

Temos simultâneos testemunhos da antiguidade de que Paulo sofreu martírio durante a perseguição de Nero, e muito provavelmente em 67 d.C. Como cidadão romano, ele foi decapitado em lugar de ser flagelado e crucificado ou exposto a torturas terríveis que então tinham sido inventadas para os cristãos. Como seu Mestre, ele sofreu “fora da porta” (Hebreus 13:12). Há um local na Via Ostia, mais ou menos duas milhas para além dos muros da cidade, onde supõe-se que seu martírio aconteceu. Ali o último ato da crueldade humana foi executado, e o grande apóstolo finalmente estava “fora do corpo, e habitando com o Senhor.” (2 Coríntios 5:8). Seu espírito fervente e feliz foi libertado desse frágil e sofrível corpo, e o desejo há muito acalentado de seu coração foi cumprido – “partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.” (Filipenses 1:23)

Tabela Cronológica da Vida de Paulo

Ano 36 – Conversão de Saulo de Tarso (Atos 9).

Anos 36-39 – Em Damasco; prega na sinagoga; vai à Arábia; retorna a Damasco; foge de Damasco. Sua primeira visita a Jerusalém, três anos depois de sua conversão. Dali parte para Tarso (Atos 9:23-26; Gálatas 1:18).

Anos 39,40 – Paz nas igrejas judias (Atos 9:31).

Anos 40-43 – Paulo prega o evangelho na Síria e Cilícia (Gálatas 1:21). Um período de duração incerta. Durante este tempo ele provavelmente sofre a parte principal dos perigos e sofrimentos aos quais se refere ao escrever aos coríntios (2 Coríntios 11). Ele é trazido de Tarso para a Antioquia por Barnabé, e fica ali um ano antes da fome (Atos 11:26).

Ano 44 – A segunda visita de Paulo a Jerusalém, com a coleta (Atos 11:30).

Ano 45 – O retorno de Paulo à Antioquia (Atos 12:25).

Anos 46-49 – A primeira viagem missionária de Paulo com Barnabé; vai para o Chipre, Antioquia na Pisídia, Icônio, Listra, Derbe, e de volta pelo mesmo caminho até a Antioquia. Ele fica por um longo tempo na Antioquia. Dissensões e disputas sobre a circuncisão (Atos 13; 14; 15:1,2).

Ano 50 – A terceira visita de Paulo a Jerusalém com Barnabé, quatorze anos depois de sua conversão (Gálatas 2:1). Eles participam do concílio em Jerusalém (Atos 15). Retorno de Paulo e Barnabé à Antioquia, com Judas e Silas (Atos 15:32-35).

Ano 51 – A segunda viagem missionária de Paulo com Silas e Timóteo. Ele parte da Antioquia para a Síria, Cilícia, Derbe, Listra, Frígia, Galácia e Trôade. Lucas se une ao grupo apostólico (Atos 16:10).

Ano 52 – Entrada do evangelho na Europa (Atos 16:11-13). Paulo visita Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas e Corinto. Passa um ano e seis meses em Corinto (Atos 18:11). A Primeira Epístola aos Tessalonicenses é escrita.

Ano 53 – A Segunda Epístola aos Tessalonicenses é escrita. Paulo deixa Corinto e navega até Éfeso (Atos 18:18,19).

Ano 54 – A quarta visita de Paulo a Jerusalém para as festas. Retorna à Antioquia.

Anos 54-56 – A terceira viajem missionária de Paulo. Ele parte da Antioquia – visita a Galácia, Frígia, e chega a Éfeso, onde fica por dois anos e três meses. Aqui Paulo separa os discípulos da sinagoga judaica (Atos 19:8,10). A Epístola aos Gálatas é escrita.

Ano 57 – (Primavera) A Primeira Epístola aos Coríntios é escrita. O tumulto em Éfeso; Paulo parte para a Macedônia (Atos 19:23; 20:1). (Outono) A Segunda Epístola aos Coríntios é escrita (2 Coríntios 1:8; 2:13,14; 7:5; 8:1; 9:1). Paulo visita a região do Ilírico; vai a Corinto; passa o inverno ali (Romanos 15:19; 1 Coríntios 16:6).

Ano 58 – (Primavera) A Epístola aos Romanos é escrita (Romanos 15:25-28; 16:21-23; Atos 20:4). Paulo deixa Corinto; passa pela Macedônia; navega a partir de Filipos; prega em Trôade; faz um discurso aos anciãos em Mileto; visita Tiro e Cesareia (Atos 20; 21:1-14).

Anos 58-60 – A quinta visita de Paulo a Jerusalém antes do Pentecostes. Ele é preso no Templo; levado perante Ananias e o Sinédrio; enviado por Lísias a Cesareia, onde é mantido em prisão por dois anos.

Ano 60 – Paulo é ouvido por Félix e Festo. Ele apela para César; prega diante de Agripa e Berenice, e aos homens de Cesareia. (Outono) Paulo parte de navio para a Itália. (Inverno) Naufrágio em Malta (Atos 27).

Ano 61 – (Primavera) Chega em Roma; habita por dois anos em sua própria casa alugada.

Ano 62 – (Primavera) As Epístolas a Filemom, aos Colossenses e aos Efésios são escritas. (Outono) A Epístola aos filipenses é escrita.

Ano 63 – (Primavera) Absolvição e libertação de Paulo. A Epístola aos Hebreus é escrita. Paulo parte para uma nova viajem, pretendendo visitar a Ásia Menor e a Grécia (Filemom 22;Filipenses 2:24).

Ano 64 – Visita Creta e deixa Tito ali; exorta Timóteo a permanecer em Éfeso. A Primeira Epístola a Timóteo é escrita. A Epístola a Tito é escrita.

Anos 64-67 – Pretende invernar em Nicópolis (Tito 3:12). Visita Trôade, Corinto e Mileto (2 Timóteo 4:13-20). Paulo é preso e enviado a Roma. Abandonado e solitário, tendo apenas Lucas, dentre seus velhos associados, com ele. A Segundo Epístola a Timóteo é escrita, provavelmente não muito tempo antes de sua morte. Geralmente supõe-se que essas viagens e eventos cobrem um período de mais ou menos três anos.

Ano 67 – O martírio de Paulo.


The Present Testemony [O Atual Testemunho], v. 8, p. 405-407.↩

Trechos retirados de “Estudos sobre a Palavra de Deus”, de J. N. Darby.↩

O sábio e humano Burrus era prefeito da guarda pretoriana quando Júlio chegou com seus prisioneiros. Ele era um romano virtuoso e sempre tratou Paulo com grande consideração e gentileza. – Dicionário de Biografias do Dr. Smith↩

Veja Estudos Introdutórios ao Livro de Atos por W. Kelly↩

Para pormenores sobre a perseguição veja Josefo, Ant. 20, 9, 1.↩

Roma e Seus Governantes (64 d.C. – 177 d.C.)

O Incêndio de Roma

Como nossos dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo, sofreram o martírio durante a primeira perseguição imperial, pode ser interessante para muitos de nossos leitores saber algo sobre os elementos particulares que conduziram a esse edito cruel.

Mas aqui, embora relutantemente, devemos trocar a certeza da Palavra de Deus pelos escritos incertos dos homens. Passamos, neste momento, do firme e sólido solo da inspiração para o solo inseguro dos historiadores romanos e da historia eclesiástica. No entanto, todos os historiadores, tanto antigos quanto modernos, pagãos e cristãos, concordam quanto aos principais fatos sobre o incêndio em Roma, e sobre a perseguição aos cristãos.

No mês de julho do ano de 64 d.C. um grande incêndio irrompeu no Circo Máximo, e continuou a se espalhar até que deixou em ruínas toda a antiga grandeza da cidade imperial. As chamas se estenderam com grande rapidez, e sendo Roma uma cidade de ruas longas e estreitas, e de montes e vales, e tendo o vento ajudado o fogo a se alastrar, logo se tornou um caos generalizado. Em pouco tempo a cidade inteira parecia envolta em um mar de chamas ardentes.

Tácito, um historiador romano daqueles dias, e considerado um dos mais precisos de sua época, nos conta: “Das quatorze áreas nas quais Roma era dividida, apenas quatro permaneceram inteiras, três foram reduzidas a cinzas, e dos sete restantes restou nada mais que um monte de casas destroçadas em meio às ruínas.” O fogo se alastrou furiosamente por seis dias e sete noites. Palácios, templos, monumentos, as mansões dos ricos e as habitações dos pobres pereceram nesse fogo fatal. Mas isso não era nada comparado aos sofrimentos dos habitantes. As doenças da idade, a fraqueza dos jovens, o desamparo dos doentes, os pavorosos gritos de lamentação das mulheres: tudo se somava à miséria desta cena terrível. Alguns se esforçaram para prover para si mesmos, outros para salvar seus amigos, mas nenhum lugar de segurança podia ser encontrado. Para qual caminho se virar, ou que caminho tomar, ninguém podia dizer. O fogo se alastrava por todos os lados, de modo que um grande número de pessoas caíam prostradas nas ruas, lançando-se a uma morte voluntária, e pereciam nas chamas.

A questão importante, quanto à origem do fogo, era agora discutida em todos os lugares. Quase todos acreditavam que a cidade foi queimada por incendiários, e por ordens do próprio Nero. Era certo que um número de homens foram vistos estendendo as chamas em vez de extingui-las, afirmando ousadamente que eles tinham autoridade para fazê-lo. Foi também geralmente relatado que, enquanto Roma estava em chamas, o desumano monstro Nero permaneceu em uma torre de onde podia assistir o progresso do incêndio, divertindo-se tocando “A Queda de Troia” em sua lira favorita.

Muitos de nossos leitores, sem dúvidas, devem estar se perguntando qual poderia ser o objetivo de Nero ao incendiar a maior parte de Roma. O objetivo, acreditamos, era de poder reconstruir a cidade em uma escala de maior magnificência, para então chamá-la com seu próprio nome. E ele tentou fazer isso imediatamente de maneira grandiosa. Mas tudo o que ele fez não conseguiu restabelecer-lhe o favor popular, ou remover a infame acusação de ter incendiado a cidade. E quando toda a esperança de obter o favor, tanto das pessoas quanto dos deuses, se acabou, ele partiu para o plano de passar a culpa que tinha para outros. Ele sabia bem da impopularidade dos cristãos, tanto com os judeus quanto com os pagãos, para decidir fazer deles seu bode expiatório. Um rumor logo se espalhou de que os incendiários tinham sido descobertos, e que os cristãos eram os criminosos. Muitos foram imediatamente presos para que pudessem ser levados à uma punição à altura, e para satisfazer a indignação popular. Chegamos então à primeira perseguição sob os imperadores.

A Primeira Perseguição sob os Imperadores

Aqui podemos fazer uma breve pausa para contemplar o progresso do cristianismo, e o estado da igreja em Roma nessa época. Muito cedo, e sem o auxílio de qualquer apóstolo, o cristianismo tinha encontrado o seu caminho até Roma. Sem dúvida, deve ter sido primeiramente levado por alguém que tinha se convertido por meio da pregação de Pedro no dia de Pentecostes. Dentre seus ouvintes temos expressamente mencionados “forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos” (Atos 2:10). E Paulo, em sua epístola àquela igreja, dá graças a Deus “porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé” (Romanos 1:8). E em suas saudações ele fala de “Andrônico e Júnias”, seus parentes e companheiros de prisão, que eram homens que se distinguiam entre os apóstolos e cuja conversão foi anterior à sua própria (Romanos 16:7). Mas grandes maravilhas tinham sido escritas pelo evangelho no decorrer de trinta anos. Os cristãos tinham se tornado um povo marcado, separado e peculiar. Eles eram agora conhecidos como perfeitamente distintos dos judeus, e amargamente negados por eles.

Os trabalhos de Paulo e seus companheiros, durante os dois anos de seu aprisionamento, eram sem dúvida abençoados pelo Senhor para a conversão de muitos; tanto que os cristãos, nesse tempo, não formavam uma comunidade secreta ou inconsiderada, mas uma que era conhecida por ter em seu meio tanto judeus quanto gentios de todas as classes e condições, desde membros da família imperial até escravos fugitivos. No entanto, seu sofrimento presente, como vimos, não era pelo cristianismo que professavam. Eles foram, na verdade, sacrificados por Nero para apaziguar a fúria popular e para se reconciliar com suas divindades ofendidas.

Essa foi a primeira perseguição oficial aos cristãos; e, por algumas de suas características, ela se destaca dentre os anais da barbaridade humana. Uma crueldade inventiva procurava novas formas de tortura para saciar o sanguinário Nero – o imperador mais cruel que já reinou. Os calmos, pacíficos e inofensivos seguidores do Senhor Jesus eram costurados nas peles de feras selvagens e rasgados por cachorros; outros eram envoltos em um tipo de roupa coberta com cera, piche e outros materiais inflamáveis, tendo uma estaca debaixo do queixo para mantê-los na vertical, sendo então incendiados quando chegava a noite, para que servissem de tochas nos jardins públicos, para divertimento dos populares. Nero emprestou seus próprios jardins para tais exibições, dando entretenimento ao povo. Ele tomava parte ativa nos próprios jogos, algumas vezes se misturando à multidão à pé, e às vezes assistindo o horrível espetáculo de sua carruagem. Mas o povo, mesmo acostumado a execuções públicas e espetáculos de gladiadores, começou a se compadecer pelas crueldades sem precedentes infligidas contra os cristãos. Eles começaram a perceber que os cristãos sofriam, não pelo bem público, mas para gratificar a crueldade de um monstro. Contudo, por mais terrível que fosse a morte, ela logo terminaria, e para os cristãos, sem dúvida, seria então o momento mais feliz de sua existência. Muito, mas muito tempo antes que as luzes se apagassem no jardim de Nero, os mártires já tinham chegado ao seu lar e descanso no florescente jardim das eternas delícias de Deus. Esta preciosa verdade aprendemos do que o Salvador disse ao ladrão arrependido na cruz – “Hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lucas 23:43).

Embora os historiadores não entrem em acordo quanto à extensão ou duração dessa terrível perseguição, há muitas boas razões para crer que ela se espalhou pelo império e durou até o fim da vida do tirano. Ele morreu por sua própria mão na mais absoluta miséria e desespero, em 68 d.C., cerca de quatro anos depois da queimada de Roma, e um ano após o martírio de Pedro e Paulo. Perto do fim de seu reinado, os cristãos eram obrigados, sob as mais pesadas penas, até mesmo de morte, a oferecer sacrifícios ao imperador e aos deuses pagãos. Embora tais decretos estivessem em vigor, a perseguição deve ter continuado.

Após a morte de Nero, a perseguição cessou, e os seguidores de Jesus desfrutaram de relativa paz até o reinado de Domiciano, um imperador que ficava só um pouco atrás de Nero em termos de maldade. Mas enquanto isso, devemos mudar de assunto por um momento e tomar nota do cumprimento de um dos avisos mais solenes do Senhor: a queda de Jerusalém.

A Queda de Jerusalém (70 d.C.)

A dispersão dos judeus e a total destruição de sua cidade e templo são os próximos eventos a se considerar no restante do primeiro século, embora, estritamente falando, essa terrível catástrofe não faça parte da história da igreja, e sim da história dos judeus. No entanto, pelo fato de ter sido um cumprimento literal da profecia do Salvador, e que afetou de imediato aqueles judeus que eram cristãos, esse evento merece um lugar em nossa história.

Os discípulos, antes da morte e ressurreição de Cristo, eram fortemente judaicos em todos os seus pensamentos e associações. Eles conectavam o Messias ao templo. Seus pensamentos eram de que Ele deveria libertá-los do poder dos romanos, e que todas as profecias sobre a terra, as tribos, a cidade e o templo seriam cumpridas. Mas os judeus rejeitaram o próprio Messias e, consequentemente, todas as suas próprias esperanças e promessas nEle. As palavras iniciais de Mateus 24 são muito significativas e importantes: “E, quando Jesus ia saindo do templo…”. O templo estava agora, de fato, vazio aos olhos de Deus. Tudo o que dava valor a Ele ali agora se foi. “Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta” (Mateus 23:38). Ela agora estava pronta para a destruição.

“Aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo.” (Mateus 24:1). Eles ainda se ocupavam com a grandeza e glória externas dessas coisas. “Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada.” (Mateus 24:2). Essas palavras foram literalmente cumpridas pelos romanos cerca de quarenta anos depois de terem sido faladas, e da mesma maneira que o Senhor predisse: “Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados; e te derrubarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação.” (Lucas 19:43,44)

Depois dos romanos terem experimentados muitas decepções e derrotas na tentativa de abrir uma brecha nas muralhas, por causa da desesperada resistência dos judeus insurgentes e, embora houvesse pouca esperança de tomar a cidade, Tito mesmo assim convocou um conselho de guerra. Dois planos foram discutidos: invadir violentamente a cidade imediatamente; consertar os aparatos militares e reconstruir as máquinas; ou sitiar e induzir a fome na cidade para forçar a rendição. A última foi a preferida, e todo o exército foi colocado para “entrincheirar” toda a cidade. Mas o cerco foi longo e difícil. Durou da primavera até setembro. E durante todo o tempo, as mais sem precedentes misérias de todo tipo foram experimentas pelos sitiados. Mas afinal chegou o fim, quando tanto a cidade quanto o templo estavam nas mãos dos romanos. tt estava ansioso para tomar o magnificente templo e seus tesouros. Mas, contrários a suas ordens, um soldado, montado nos ombros de um de seus camaradas, ateou fogo em uma pequena porta dourada no pátio exterior. As chamas logo se espalharam. Tito, vendo isto, correu ao lugar o mais rápido que pôde. Ele gritou, fez sinais para seus soldados para que extinguissem o fogo; mas sua voz foi abafada, e seus sinais não foram percebidos em meio à terrível confusão. O esplendor do interior do templo o encheu de admiração e, como as chamas ainda não tinham chegado ao lugar santo, ele fez um último esforço para salvá-lo, exortando os soldados a apagar o incêndio; mas era tarde demais. Chamas ardentes se erguiam por todas as direções, e a feroz excitação da batalha, somada à insaciável esperança de pilhagem, tinha atingido seu ápice. Tito mal sabia que Alguém que era maior que ele tinha dito: “Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada.” (Mateus 24:2). A palavra do Senhor, e não os comandos de Tito, devia ser obedecida. O templo foi realmente arrasado até as fundações, de acordo com a palavra do Senhor.

Para quase todos os aspectos particulares desse terrível cerco, estamos em débito com Josefo, que estava no acampamento romano e próximo da pessoa de Tito naquele tempo. Ele agiu como intérprete quando foram tratados os termos entre Tito e os insurgentes. Os muros e baluartes de Sião pareciam inconquistáveis para os romanos, e Josefo ansiava muito por um tratado de paz. No entanto, os judeus rejeitavam cada proposta, até que os romanos finalmente triunfaram. Ao entrar na cidade, Josefo nos conta que Tito se encheu de admiração pela sua força. De fato, ao contemplar a sólida altitude das torres, a magnitude de várias das pedras, e a precisão de suas junções, e ao ver quão grandes eram sua amplitude e quão vasta sua altura, “Claramente”, exclamou Tito, “lutamos com Deus do nosso lado; e foi Deus quem derrubou os judeus daqueles baluartes, pois o que as mãos humanas ou maquinas podiam fazer contra aquelas torres?” Tais foram as confissões do general pagão. Certamente deve ter sido o cerco mais terrível de toda história do mundo registrada.

Os relatos dados por Josefo sobre os sofrimentos dos judeus durante o cerco são horríveis demais para serem transferidos para nossas páginas. Os números que pereceram sob Vespasiano no país, e sob Tito na cidade, no período de 67–70 d.C., por fome, facções internas e pela espada romana, chegou à casa de 1.350.460, além de cem mil vendidos como escravos1. Infelizmente, essas foram as horríveis consequências da incredulidade e desdém aos apelos solenes, ternos e a afetuosos de seu próprio Messias. Podemos imaginar as lágrimas do Redentor derramadas sobre a cidade amada? E podemos imaginar as lágrimas dos pregadores de hoje em dia, enquanto apela a amados pecadores, em vista da vinda e dos juízos eternos? Certamente é de se maravilhar o fato de que tantas lágrimas sejam derramadas por causa de pecadores imprudentes, descuidados e perdidos. Ah, que corações sintam como sentiu o Salvador e que olhas chorem como os dEle!

Os cristãos, com quem temos mais especialmente que tratar, lembrando-se do aviso do Senhor, em grupo deixaram Jerusalém antes do cerco ser formado. Eles viajaram para Pella, uma vila além do Jordão, onde permaneceram até que Adriano lhes permitiu retornar às ruínas da antiga cidade. E isso nos leva ao fim do primeiro século.

Durante os curtos reinados de Vespasiano e de seu filho Tito, o número de cristãos deve ter crescido consideravelmente. Isto aprendemos, não de algum relato direto que possamos ter sobre a prosperidades deles, mas das circunstâncias incidentais que provam isso, e que vamos conhecer em seguida.

O Cruel Reinado de Domiciano

Domiciano, o irmão mais novo de Tito, ascendeu ao trono em 81 d.C. No entanto, ele tinha um temperamento totalmente diferente de seu pai e de seu irmão. Estes toleravam os cristãos, mas ele os perseguia. Seu caráter era covarde, suspeitoso e cruel. Ele levantou uma perseguição contra os cristãos por causa de um certo temor vago e supersticioso que ele nutria sobre a possível aparição de uma pessoa nascida na Judeia, da família de Davi, e que deveria obter o império do mundo. Domiciano não poupou nem os romanos de nascimento da mais ilustre e alta posição que tinham abraçado o cristianismo. Alguns foram martirizados de imediato, outros foram banidos para serem martirizados no exílio. Sua própria sobrinha, Domitila, e seu primo Flávio Clemente, para quem tinha sido dada em casamento, foram vítimas de sua crueldade por terem abraçado o evangelho de Cristo. Assim vemos que o cristianismo, pelo poder de Deus, apesar de exércitos e imperadores, fogo e espada, estava se espalhando, não apenas entre os de classe média e baixa, mas também entre as classes mais altas.

“Domiciano”, diz Eusébio, o pai da história eclesiástica, “tendo exercido sua crueldade contra muitos, e injustamente matando não poucos homens nobres e ilustres de Roma, e tendo, sem causa, punido um vasto número de homens honráveis com o exílio e a confiscação de suas propriedades, por fim estabeleceu a si mesmo como o sucessor de Nero em termos de ódio e hostilidade contra Deus.” Ele também seguia Nero ao endeusar a si mesmo. Ele comandou que sua própria estátua fosse adorada como um deus, reviveu a lei da traição, e pôs em temeroso vigor suas terríveis provisões: sob tais circunstâncias, cercado de espiões e informantes, quão terrível deve ter sido essa segunda perseguição aos cristãos!2

Mas o fim desse tirano fraco, vão e desprezível se aproximava. Ele tinha o hábito de escrever em um rolo os nomes daquelas pessoas que ele destinava à morte, mantendo-o cuidadosamente aos seus próprios cuidados. E, de modo a desviar a atenção de suas futuras vítimas, ele os tratava com a mais lisonjeira atenção. Mas esse rolo fatal foi um dia tomado de debaixo de uma almofada em que ele estava dormindo por uma criança que estava brincando no apartamento, que então o levou à imperatriz. Ela foi atingida com espanto e alarme ao encontrar seu próprio nome na lista negra, juntamente com os nomes de outros que eram aparentemente elevados em seu favor. Assim, a imperatriz comunicou o conhecimento de seu perigo, e não obstante toda a precaução que a covardia e astúcia podia sugerir, ele foi expulso por dois oficiais de sua própria casa.

O Curto Porém Pacífico Reinado de Nerva

No mesmo dia da morte de Domiciano, Nerva foi escolhido pelo Senado para ser o imperador, em 18 de setembro de 96 d.C. Ele era um homem de reputação irrepreensível. O caráter de seu reinado foi o mais favorável para a paz e prosperidade da igreja de Deus. Os cristãos que tinham sido banidos por Domiciano foram chamados de volta, e recuperaram suas propriedades confiscadas. O apóstolo João retornou de seu banimento na ilha de Patmos, retornando ao seu lugar de serviço entre as igrejas na Ásia. Ele viveu até o reinado de Trajano quando, em idade avançada de cerca de 100 anos, adormeceu em Jesus.

Nerva iniciou seu reinado remediando as injustiças, repelindo os estatutos iníquos, decretando boas leis, e dispensando favores com grande liberalidade. No entanto, sentindo-se inadequado quanto aos deveres de sua posição, adotou Trajano como colega e sucessor ao império, e morreu no ano 98 d.C.

A Condição dos Cristãos Durante o Reinado de Trajano (98–117 d.C.)

Uma vez que a história externa da igreja tenha sido afetada pela vontade de um homem, será portanto necessário observar, embora brevemente, a disposição da paixão pelo governo do príncipe reinante. A condição dos cristãos em todo lugar dependia, em grande parte, daquele que era o mestre do mundo romano, e de certo modo do mundo todo. Ainda assim, Deus estava e está acima de tudo.

Trajano foi um imperador de grande renome. Talvez nunca mais alguém assim tenha se sentado no trono dos Césares. O mundo romano, dizem, alcançou seus mais amplos limites por suas vitórias. Ele fez com que o terror das armas e da disciplina romana fossem sentidas nas fronteiras, como nunca antes tinha sido feito. Ele foi, portanto, um grande general e soberano militar; e, possuindo uma grande e vigorosa mente, ele foi um governante capaz, fazendo Roma florescer sob sua influência. No entanto, na história da igreja, essa personagem aparece em uma luz menos favorável. Ele tinha um preconceito confirmado contra o cristianismo, e sancionou a perseguição aos cristãos. Alguns dizem que ele anelava a extinção desse nome. Esta é a mancha mais profunda que repousa sobre a memória de Trajano.

Mas o cristianismo, apesar dos imperadores romanos, das prisões romanas e das execuções romanas, prosseguiu em sua silente e firme caminhada. Em pouco mais que setenta anos depois da morte de Cristo, o cristianismo tinha feito tão rápidos progressos em alguns lugares que chegavam a ameaçar a queda do paganismo. Os templos pagãos estavam desertos, a adoração aos deuses foi negligenciada, e as vitimas para os sacrifícios eram raramente compradas. Isto naturalmente levantou um clamor popular contra o cristianismo, assim como houve em Éfeso: “E não somente há o perigo de que a nossa profissão caia em descrédito, mas também de que o próprio templo da grande deusa Diana seja estimado em nada.” (Atos 19:27). Aqueles cujo sustento dependia da adoração das divindades pagãs lançavam muitas e graves acusações contra os cristãos perante os governantes. Isto aconteceu mais especialmente nas províncias asiáticas onde o cristianismo foi mais prevalente.

Por volta do ano 110, muitos cristãos foram então levados perante o tribunal de Plínio, o Jovem, o governador de Bitínia e Ponto. Mas Plínio, sendo naturalmente um homem sábio, cândido e humano, teve o cuidado de se informar sobre os princípios e práticas dos cristãos. Quando ele descobriu que muitos deles foram condenados à morte, não tendo nada que os condenasse por qualquer crime público, ele ficou imensamente embaraçado. Ele não tinha tomado parte em tais assuntos antes, e nenhuma lei sobre o assunto existia até então. Os decretos de Nero tinham sido repelidos pelo Senado, e aqueles de Domiciano pelo seu sucessor, Nerva. Sob tais circunstâncias, Plínio buscou o conselho de seu mestre, o imperador Trajano. As cartas que eles trocaram, sendo justamente consideradas como os mais valiosos registros da historia da igreja durante aquele período, merece um lugar em nosso livro. Mas podemos apenas transcrever uma parte da celebrada epístola de Plínio, e principalmente aquelas partes que se referem ao caráter dos cristãos, e a extensão do cristianismo.

Carta de Plínio ao Imperador Trajano

“Saúde. É meu costume usual, senhor, consultá-lo em todas as coisas das quais tenho qualquer dúvida. Pois quem pode melhor dirigir meu julgamento e sua hesitação, ou instruir meu entendimento em sua ignorância? Eu nunca tive a chance de estar presente em qualquer julgamento de cristãos antes de chegar a esta província. Estou, portanto, perdido em determinar qual o assunto corrente, quer de inquérito ou de punição, e que duração qualquer um deles deveria ter…Enquanto isso, este tem sido meu método com respeito àqueles que foram trazidos diante de mim por serem cristãos. Perguntei-lhes se eram cristãos: caso se declarassem culpados, eu os interrogava – uma segunda e uma terceira vez – com uma ameaça de pena capital. Em caso de perseverança obstinada, eu ordenei que fossem executados…Um ’libelo’ anônimo foi publicado, contendo os nomes de muitos que negavam que eles eram, ou tinham sido, cristãos, e invocavam os deuses, como ordenei que fizessem, e rezavam para tua imagem com incenso e vinho, e além disso insultavam o Cristo; enfim, coisas que tenho ouvido que jamais um cristão seria compelido a fazer. Então achei adequado dispensar estes…A totalidade do crime ou erro dos cristãos se baseia nisso: eles estão acostumados a se reunir antes do dia amanhecer, e a cantar juntos um hino a Cristo, como a um deus, e se comprometer através de juramento a não cometer qualquer maldade, a não ser culpado de furto, ou roubo, ou adultério; a nunca falsificar sua palavra, nem se negar a devolver um penhor quando solicitados a fazê-lo. Quando essas coisas eram feitas, era o costume deles se separarem, e então voltarem a se reunir para uma refeição inofensiva, da qual participavam em comum sem qualquer desordem. Mas desta última prática eles deixaram de participar desde a publicação de meu decreto, pelo qual, de acordo com minhas ordens, proibi tais assembleias.”

“Após este relato, julguei mais necessário examinar, e por tortura, duas mulheres que diziam ser diaconisas, mas não tenho descoberto nada exceto uma má e excessiva superstição. Suspendendo, portanto, todos os processos judiciais, recorro a ti para aconselhar-me. O número de acusados é tão grande que foi necessária esta séria consulta. Muitas pessoas estão sendo denunciadas, de todas as idades e classes, e de ambos os sexos, e muitos ainda irão ser acusados. O contágio dessa superstição não tem atingido apenas as grandes cidades, mas também as cidades menores, e o campo: no entanto, parece-me que pode ser contido e corrigido. É certo que os templos que estavam quase abandonados começaram a ser mais frequentados, e as solenidades sagradas, após um longo intervalo, estão revividas. Vítimas para os sacrifícios, da mesma forma, tem sido trazidas de todos os lugares, embora ainda haja poucos compradores. Daí podemos facilmente imaginar o número daqueles que podem ser recuperados se o perdão for concedido àqueles que se arrependem.”

Carta de Trajano para Plínio

“Você agiu perfeitamente correto, meu caro Plínio, na pergunta que me fez a respeito dos cristãos. Pois, realmente, não há uma regra geral que possa ser prevista para ser aplicada a todos os casos. Essas pessoas não dever ser procuradas: se forem trazidas diante de você e estiverem convictos, que seja aplicada pena capital, mas com essa restrição: que se alguém renunciar ao cristianismo, e evidenciar sua sinceridade suplicando aos nossos deuses, por mais suspeito que tenha sido no passado, que seja perdoado por seu arrependimento. Mas libelos anônimos em nenhum caso devem ser levados em consideração, pois é um precedente muito perigoso e perfeitamente incongruente com as máximas de nossa era.”

O testemunho claro e insuspeito dessas duas cartas desperta pensamentos e sentimentos do mais profundo interesse na mente cristã de hoje em dia. A Primeira Epístola de Pedro foi endereçada aos pais desses santos sofredores, e possivelmente a alguns dos que ainda estavam vivos. E não é improvável que Pedro tenha trabalhado entre eles pessoalmente. Assim eles foram ensinados e encorajados de antemão a dar ao governador romano “a razão da esperança que havia neles com mansidão e temor” (1 Pedro 3:15). De fato, a totalidade da primeira epístola parece divinamente equipada para fortalecer aqueles cristãos inocentes contra o injusto e irracional proceder de Plínio. “Ora, pois, já que Cristo padeceu por nós na carne, armai-vos também vós com este mesmo pensamento” (1 Pedro 4:1). Pedro contempla em sua epístola a família da fé como se estivesse em uma jornada através do deserto, e Deus como o supremo Governador sobre todos – tanto crente como incrédulos. “Porque os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos às suas orações; mas o rosto do Senhor é contra os que fazem o mal.” (1 Pedro 3:12). Com tal cena diante de nós, e com tais testemunhas, levando em consideração a posição de Trajano e Plínio como estadistas pagãos, pode ser interessante indagar nessa fase tão inicial de nossa história qual a real causa da perseguição.

A Verdadeira Causa da Perseguição

Embora diferentes razões possam ser dadas por diferentes pessoas e governos para perseguir os cristãos, ainda assim cremos que a verdadeira causa é a inimizade do coração contra Cristo e Sua verdade, como vista nas vidas piedosas de Seu povo. Além disso, a luz deles torna manifesta a escuridão ao redor, e expõe e reprova as inconsistências dos falsos professos e as vidas ímpias dos malignos. O inimigo, tomando ocasião por essas coisas, desperta as paixões cruéis daqueles que tinham o poder para apagar a luz ao perseguirem os portadores da luz. “Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz” (João 3:20). Tal tem sido a experiência de todos os cristãos, em todas as épocas, tanto em tempos de paz quanto em tempos de angústia. Não há isenção de perseguição, secreta ou abertamente, se vivermos de acordo com o Espírito e a verdade de Cristo. Dentre as últimas palavras que o grande apóstolo escreveu estavam estas: “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições.” (2 Timóteo 3:12)

Estas verdades divinas, dadas para a instrução e direção da igreja em todas as eras, foram admiravelmente ilustradas no caso de Plínio e dos cristãos da Bitínia. Ele é citado por todos os historiadores como um dos mais esclarecidos, virtuosos e realizados homens da antiguidade. Ele foi também possuidor de grandes riquezas, e tinha a reputação de ser muito liberal e benevolente em sua vida privada. Por que então, podemos perguntar, sendo um estadista e governador romano, ele se tornou um tal perseguidor dos cristãos? Esta pergunta ele responde em sua própria carta. Foi simplesmente pela fé deles em Cristo – nada mais. Tinha sido provado a ele, tanto por amigos quanto por inimigos, que os cristãos não eram culpados de mal algum, nem moralmente, socialmente e politicamente. Fazendo três vezes a pergunta “Vocês são cristãos?”, e se eles firmemente afirmassem que eram, ele os condenava à morte. O único pretexto que ele deu para cobrir a injustiça de sua conduta como governador era o fato de que os cristãos professavam obstinadamente uma religião não estabelecida pelas leis do império.

Muitos, por causa de malícia privada e outras razões, eram nesse tempo anonimamente acusados de serem cristãos, sendo que de fato não eram. Estes eram testados sendo chamados para negar sua fé, oferecer incenso aos deuses, adorar a imagem do imperador, e insultar a Cristo. Todos os que se conformavam a esses termos eram dispensados. Mas a nenhuma dessas coisas, como o próprio Plínio dá testemunho, podiam ser os verdadeiros cristãos compelidos a fazer. Ele, em seguida, recorreu ao costume brutal de examinar pessoas inocentes por tortura. Duas mulheres, notáveis servas da igreja, foram então examinadas. Mas, em vez da esperada confissão sobre o rumoroso caráter sedicioso (revoltoso) e licencioso (desregrado) de suas reuniões, nada desfavorável à comunidade cristã podia ser extraído delas por tortura. O governador não podia detectar nada por quaisquer meios tentados, exceto o que ele chama de “uma superstição perversa e extravagante”.

Também deve-se ter em mente, tanto pelo crédito como também pela culpa mais profunda de Plínio, que ele não procedeu contra os cristãos por mero preconceito popular – ao contrário de seu amigo Tácito, que se deixou levar pelos rumores e, sem qualquer investigação mais profunda, escreveu contra o cristianismo da maneira mais irracional e desgraçada. Mas Plínio considerou como dever entrar em cuidadosa investigação sobre toda a questão antes de dar seu julgamento. Como, então, podemos explicar que tal homem, aparentemente desejoso de agir de forma imparcial, pudesse perseguir até a morte pessoas inocentes? Para responder esta pergunta, devemos investigar as causas externas ou ostensivas da perseguição.

As Causas Ostensivas da Perseguição

Os romanos professavam tolerar todas as religiões, e que a comunidade não tinha nada a temer. Esta era a vangloriosa liberalidade que professavam. Até mesmo aos judeus eram permitidos viver de acordo com suas próprias leis. O que foi que aconteceu então, podemos nos perguntar, que pode ter causado toda a severidade deles contra os cristãos? Tinha a comunidade algo a temer deles? Havia algo a temer daqueles cujas vidas eram irrepreensíveis, cujas doutrinas era a pura verdade do céu, e cuja religião era propícia ao bem-estar das pessoas, tanto de modo público como privado?

Os seguintes pontos podem ser considerados como algumas das inevitáveis causas da perseguição, olhando para os dois lados da questão:

1. O cristianismo, ao contrário de todas as religiões que a precederam, era agressivo em seu caráter. O judaísmo era exclusivo: a religião de uma nação só. O cristianismo era proclamado como a religião da humanidade, ou do mundo todo. Isto era algo inteiramente novo na terra. “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15), este era o mandamento do Senhor para seus discípulos. Eles deviam prosseguir e guerrear contra o erro em todas as suas formas e em todas as suas obras. A conquista a ser feita era o coração para Cristo. “As armas da nossa milícia”, diz o apóstolo, “não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas; destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo.” (2 Coríntios 10:4,5). Nessa guerra de agressão contra as instituições existentes, e contra os hábitos corruptos dos pagãos, os discípulos de Jesus tinham pouco a esperar além de resistência, perseguição e sofrimento.

2. A religião pagã, a qual o cristianismo estava rapidamente prejudicando e destinando à queda, era uma instituição do Estado. Ela estava tão intimamente entrelaçada com todo o sistema civil e social que atacar esta religião era entrar em conflito com ambos os sistemas civil e social. E foi exatamente isto que aconteceu. Se a igreja primitiva fosse tão acomodada com o mundo como é a cristandade hoje, muita perseguição poderia ter sido evitada. Mas a hora não tinha chegado para tal frouxo acomodamento. O evangelho que os cristãos então pregavam, e a pureza da doutrina e da vida que mantinham, abalaram o próprio fundamento da velha e profundamente enraizada religião do Estado.

3. Os cristãos naturalmente se separavam dos pagãos. Eles se tornaram um povo separado e distinto. Eles não podiam fazer nada além de condenar e abominar o politeísmo como algo totalmente oposto ao único e verdadeiro Deus, e ao evangelho de Seu Filho Jesus Cristo. Isto deu aos romanos a ideia de que os cristãos eram hostis à raça humana, vendo que condenavam todas as religiões, menos a sua própria. Portanto, diz-se que eles eram chamados de “ateus”, pois não acreditavam nas divindades pagãs e ridicularizavam a adoração pagã.

4. Simplicidade e humildade caracterizavam a adoração cristã. Eles pacificamente se reuniam antes do sol nascer ou após o sol se pôr para evitar ofender os demais. Eles cantavam hinos a Cristo como Deus, eles partiam o pão em memória de Seu amor ao morrer por eles, eles edificavam-se uns aos outros e comprometiam-se a uma vida de santidade. Mas eles não tinham templos bonitos, nem estátuas, nem ordens sacerdotais, e nem vítimas para oferecer em sacrifício. O contraste entre a adoração deles e a de todos os outros no império se tornou muito claro. Os pagãos, em sua ignorância, concluíram que os cristãos não tinham nenhuma religião, e que suas reuniões secretas tinham o pior dos propósitos. O mundo agora, assim como naquela época, diria daqueles que adoram a Deus em espírito e em verdade que “essas pessoas não tem nenhuma religião”. A adoração cristã, em verdadeira simplicidade, sem o auxílio de templos e sacerdotes, ritos e cerimônias, não é muito melhor compreendida agora pela cristandade professa do que era pela Roma pagã daquela época. Continua sendo verdade que “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (João 4:24)

5. Pelo progresso do cristianismo, os interesses temporais de um grande número de pessoas foram seriamente afetados. Isto era uma fonte fecunda e amarga de perseguição. Uma incontável multidão de sacerdotes, fabricantes de imagens, comerciantes, adivinhos, augures e artesãos ganhavam uma boa vida pela existência da adoração de tantas divindades.

6. Todos estes, vendo seu trabalho e fonte de renda em perigo, se levantaram em força unida contra os cristãos, e procuraram por todos os meios deter o progresso do cristianismo. Eles inventaram e disseminaram as mais vis calúnias contra tudo o que era cristão. Os astutos sacerdotes e adivinhos facilmente persuadiam os vulgares e a mente do público em geral de que todas as guerras, tempestades e doenças que afligem a humanidade foram enviadas sobre eles por deuses raivosos, porque os cristãos que desprezavam a autoridade deles eram tolerados em todo lugar.3

Muitas outras coisas poderiam ser mencionadas, mas estas eram, em todo lugar, as causas diárias dos sofrimentos dos cristãos, tanto publicamente quanto em privado. Da verdade desses fatos um momento de reflexão é capaz de convencer qualquer leitor. Mas a fé podia ver a mão do Senhor e ouvir Sua voz em tudo: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos…eles vos entregarão aos sinédrios, e vos açoitarão nas suas sinagogas; e sereis até conduzidos à presença dos governadores, e dos reis, por causa de mim, para lhes servir de testemunho a eles, e aos gentios…Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” (Mateus 10:16–34) 4

Tendo falado bastante sobre a grande oposição que a igreja primitiva teve que lutar contra, será necessário olhar por um momento para a verdadeira causa das causas e dos meios para o rápido progresso do cristianismo.

O Rápido Progresso do Cristianismo

Sem dúvidas, as causas e meios foram divinos. Eles provam ser assim. O Espírito de Deus, que desceu em poder no dia de Pentecostes, e que tinha tomado Sua morada na igreja e em cada cristão individualmente, é a verdadeira fonte de todo o sucesso na pregação do evangelho, na conversão das almas, e no testemunho para Cristo contra o mal. “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor” (Zacarias 4:6). Além disso, o Senhor prometeu estar com Seu povo o tempo todo: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.” (Mateus 28:20). Mas nosso objetivo aqui é olhar para as coisas historicamente, e não apenas com a segurança da fé:

1. Uma das grandes causas da rápida propagação do cristianismo é sua perfeita adaptação ao homem em qualquer idade, em qualquer país, e em qualquer condição. Ele aborda todos como perdidos, e supõe uma falta em todos. Assim, ele se adapta ao judeu e ao gentio, ao rei e ao súdito, aos sacerdotes e ao povo, ao rico e ao pobre, ao jovem e ao velho, ao erudito e ao ignorante, ao moral e ao devasso. É a religião de Deus para o coração, e ali firma Sua soberania, e a Sua apenas. Ele se anuncia como o “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). Ele propõe levantar o homem das profundezas mais profundas de degradação para as alturas mais elevadas da glória eterna. Quem é capaz de estimar, apesar de todo preconceito, o efeito da proclamação de tal evangelho a pagãos miseráveis e ignorantes? Milhares, milhões, cansados de uma religião sem valor e desgastada, responderam à voz celestial, foram reunidos em torno do nome de Jesus, tomaram com alegria o espólio de seus bens, e estavam prontos para sofrer por amor a Ele. O amor reinava na nova religião, e o ódio na antiga.

2. A confirmação e manutenção de todas as relações terrenas que estivessem de acordo com Deus é outro motivo para a aceitação do evangelho entre os pagãos. Cada um era exortado a permanecer em seus relacionamentos e a procurar glorificar a Deus neles. As bênçãos do cristianismo para as esposas, filhos e servos são indescritíveis. Seu amor, felicidade e conforto eram um espanto para os pagãos, e uma novidade entre eles. Ainda assim, tudo era natural e ordenado. Um cristão, que dizem ter vivido nessa época – no início do segundo século – descreve assim seus contemporâneos: “Os cristãos não são separados dos outros homens pelo lugar onde moram, por língua ou por costumes. Eles não moram em um lugar especial na cidade, eles não usam uma linguagem diferente ou assumem um estilo de vida extravagante. Eles habitam nas cidades dos gregos, e dos bárbaros…e embora se adaptem aos costumes da região, no que diz respeito ao modo de vestir, à comida, e outras coisas que pertencem à vida exterior, eles ainda assim mostram uma conduta peculiar que é maravilhosa e marcante para todos. Eles obedecem as leis existentes, e superam a lei pela forma com que vivem.” 5

3. As vidas irrepreensíveis dos cristãos, a pureza divina de suas doutrinas, sua paciência, alegre resistência a sofrimentos piores que a morte, assim como a própria morte, seu desprezo por qualquer objeto de ambição comum, sua ousadia na fé a ponto de correrem risco de vida, crédito e propriedades; estes eram os principais recursos na rápida disseminação do cristianismo. “Pois quem”, diz Tertuliano, “ao observar tais coisas, não é impelido a investigar a causa? E quem, tendo investigado, não abraça o cristianismo, e tendo abraçado, não tem o desejo de sofrer por isso?”

Essas poucas indicações permitirão ao leitor formar um juízo mais definitivo quanto ao que, por um lado, tendia a impedir, e o que, por outro lado, tendia a promover o progresso do evangelho de Cristo. Nada pode ser mais interessante para a mente cristã que o estudo dessa grande e gloriosa obra. Os obreiros do Senhor, em sua maioria, eram homens simples e iletrados; eram pobres, sem amigos e destituídos de toda a ajuda humana; e ainda assim, em pouco tempo, persuadiram uma grande parte da humanidade a abandonar a religião de seus ancestrais, e a abraçar uma nova religião que é oposta às disposições naturais dos homens, aos prazeres do mundo, e aos estabelecidos costumes das eras. Quem poderia questionar o poder que vinha de dentro do cristianismo tendo tais fatos exteriores diante de si? Certamente foi o Espírito de Deus que revestiu de poder as palavras daqueles primeiros pregadores! Certamente a força deles nas mentes dos homens era divina. Uma mudança completa foi produzida: foram nascidos de novo – criados de novo em Cristo Jesus.

Em menos de cem anos a partir do dia de Pentecostes, o evangelho tinha penetrado na maioria das províncias do império romano, e foi largamente difundido em muitos delas. Em nosso breve resumo da vida de Paulo, e na tabela cronológica de suas missões, traçamos o primeiro plantio de muitas igrejas, e a propagação da verdade em muitas regiões. Nas grandes cidades centrais, tais como a Antioquia na Síria, Éfeso na Ásia, e Corinto na Grécia, vimos o cristianismo bem estabelecido, e espalhando suas ricas bênçãos entre as cidades e vilas vizinhas.

Também aprendemos, da antiguidade eclesiástica, que Cartago era para a África o mesmo que essas cidades eram para a Síria, Ásia e Grécia. Quando Escápula, o presidente de Cartago, ameaçou os cristãos com tratamento severo e cruel, Tertuliano, em um de seus veementes apelos, tentou fazê-lo refletir: “O que pretendes fazer”, diz ele, “com tantos milhares de homens e mulheres de todas as idades e dignidades, por mais que livremente se ofereçam a si mesmos? Quantas fogueiras e espadas ainda serão necessárias? O que Cartago é capaz de sofrer se for dizimada por ti? Quando todos encontrarem ali o seu parente mais próximo e vizinhos, verá matronas e possivelmente homens de sua própria classe social e condição, e as pessoas mais importantes, também parentes ou amigos daqueles que são teus amigos mais próximos. Poupe-os então, por isso, para o seu próprio bem, se não para o nosso.”6

Vamos agora continuar a narrativa dos eventos, e o próximo na ordem a ser relacionado é o martírio de Inácio.

O Martírio de Inácio

Não há nenhum fato do início da história da igreja mais sagradamente preservado 7 que o martírio de Inácio, o bispo8 da Antioquia. E não há narrativa mais celebrada que sua viagem, como prisioneiro em correntes, da Antioquia para Roma.

De acordo com a opinião geral dos historiadores, o imperador Trajano, em seu caminho para a guerra da Pártia no ano 107, visitou Antioquia. Por que causa é difícil dizer, mas aparentemente os cristãos foram ameaçados de perseguição por suas ordens. Inácio, portanto, preocupado pela igreja em Antioquia, desejou ser introduzido à presença de Trajano. Seu grande objetivo era prevenir, se possível, a perseguição ameaçada. Com este objetivo em vista, ele apresentou ao imperador o verdadeiro caráter e condição dos cristãos, e se ofereceu a si mesmo para sofrer no lugar deles.

Os detalhes da marcante entrevista são dados em muitas relatos sobre a história da igreja, mas existe um certo ar de suspeita sobre eles que nos absteremos de inserir aqui. De qualquer modo, a história acabou na condenação de Inácio. Ele foi sentenciado pelo imperador a ser levado a Roma, e lançado às feras selvagens para o entretenimento do povo. Ele recebeu a cruel sentença sem reclamar, e de bom grado submeteu-se às cadeias, crendo ser assim por sua fé em Cristo e como um sacrifício pelos santos.

Inácio estava agora sob custódia de dez soldados, que parecem ter ignorado sua idade, tratando-o com grande dureza. Ele tinha sido um bispo da Antioquia por quase quarenta anos, e portanto devia ser um homem idoso. Mas eles o levaram grosseiramente por uma longa viagem, tanto por mar quanto por terra, de modo a chegar a Roma antes dos jogos terminarem. Ele chegou no último dia do festival, e foi logo levado ao anfiteatro, onde sofreu, de acordo com sua sentença, à vista dos espectadores reunidos. E então, o cansado peregrino encontrou o descanso das fadigas de sua longa viagem no bendito repouso do paraíso de Deus.

Alguns têm perguntado o porquê de Inácio ter sido levado pelo longo caminho da Antioquia até Roma para sofrer o martírio. A resposta só pode ser conjectura. Pode ter sido com a intenção de infundir medo aos outros cristãos, pelo espetáculo de alguém tão eminente e tão conhecido ser levado em correntes a uma morte terrível e degradante. Mas se esta foi a expectativa do Imperador, ele deve ter ficado inteiramente desapontado. O martírio de Inácio teve justamente o efeito oposto. Notícias sobre sua sentença e sobre sua rota se disseminaram amplamente, e representantes das igrejas das proximidades foram enviados para encontrá-lo em pontos convenientes durante a viagem. Ele foi, então, saudado e encorajado com calorosas felicitações de seus irmãos; e eles, em troca, se alegraram em ver o venerável bispo e em receber sua bênção de despedida. Muitos dos santos se sentiriam encorajados a enfrentar, e até mesmo a desejar, uma morte de mártir e uma coroa de mártir. Dentre os que o encontraram pelo caminho estavam Policarpo, bispo de Esmirna que, assim como Inácio, tinha sido um discípulo do apóstolo João, e estava também destinado a ser um mártir pelo evangelho. Mas além desses encontros pessoais, dizem que ele escreveu sete cartas durante essa viagem, que foram preservadas pela providência divina e chegaram até nós. Sempre houve grande interesse, e ainda há, nessas cartas.

Os Escritos dos Pais e as Escrituras Sagradas

Mas, embora Inácio possa ser digno de honra como um homem santo de Deus, e como um nobre mártir de Cristo, devemos nos lembrar que suas cartas não são a Palavra de Deus. Elas podem nos interessar e nos instruir, mas não podem comandar nossa fé. Esta pode apenas se firmar no sólido fundamento da Palavra de Deus, e nunca no frágil solo da tradição. “As Escrituras permanecem à parte”, disse alguém, “em majestoso isolamento, preeminente em instrução, e separado por uma excelência inigualável de tudo o que foi escrito pelos pais apostólicos: de modo que esses que seguiram de perto os apóstolos nos deixaram escritos que são mais para nossa advertência do que para nossa edificação”. Ao mesmo tempo, esses primeiros escritores cristãos têm todo direito ao respeito e veneração com os quais a antiguidade os investiu. Eles eram contemporâneos dos apóstolos, eles desfrutaram do privilégio de ouvir seus ensinos, compartilhavam com eles os labores do evangelho, e conversaram livremente com eles no dia a dia. Paulo fala de um Clemente – um que é conhecido como pai apostólico – como um de seus “cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida”, e o que ele diz de Timóteo pode ter sido pelo menos em parte verdade para muitos outros: “Tu, porém, tens seguido a minha doutrina, modo de viver, intenção, fé, longanimidade, amor, paciência, perseguições e aflições.” (Filipenses 4:3, 2 Timóteo 3:10,11)

Desses que tinham tão alto privilégio deveríamos naturalmente esperar a sã doutrina apostólica – uma fiel repetição das verdades e instruções que foram entregues a eles pelos apóstolos inspirados. Mas, infelizmente, este não é o caso! Inácio foi um dos primeiros pais apostólicos. Ele se tornou um bispo de Antioquia, a metrópole da Síria, por volta do ano 70. Ele era um discípulo do apóstolo João, e morreu apenas cerca de 7 anos após a morte de João. Certamente de alguém assim poderíamos esperar uma estreita semelhança com os ensinos do apóstolo, mas isso não acontece. As afirmações definitivas e absolutas das Escrituras, vindas diretamente de Deus para a alma, são muito diferentes dos escritos de Inácio e de todos os Pais. Nosso único guia seguro e certo é a Palavra de Deus. Quão conveniente, então, é a palavra na Primeira Epístola de João: “Portanto, o que desde o princípio ouvistes permaneça em vós. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis no Filho e no Pai.” (1 João 2:24). Esta passagem evidentemente se refere mais especialmente à pessoa de Cristo, e consequentemente às Escrituras do Novo Testamento, nas quais temos a revelação do Pai no Filho, feito conhecido a nós pelo Espírito Santo. Nas Epístolas de Paulo, temos mais plenamente revelados os conselhos de Deus relacionados à igreja, a Israel e aos gentios, de modo que podemos ir mais longe do que “os Pais” para encontrar o verdadeiro fundamento da fé; devemos voltar àquilo que existia desde “O Princípio”. Nada tem autoridade divina direta para o crente além daquilo que era “desde o princípio”. Isto por si só assegura que continuemos “no Filho e no Pai”.

As epístolas de Inácio têm sido muito estimadas pelos episcopais como a principal autoridade no sistema da igreja inglesa9, e essa é a nossa desculpa para se referir tanto a este “pai”10. Quase todos os fundamentos do anglicanismo em favor do episcopado vêm de suas cartas. Ele bate tanto a tecla na submissão à autoridade episcopal, e tanto a exalta, que muitos têm sido induzidos a questionar completamente sua autenticidade, e outros têm suposto que essas cartas devem ter sido bastante alteradas para servir aos interesses do clero. Mas quanto a essas controvérsias não temos nada a tratar em nosso livro.11

Vamos agora continuar nossa história a partir da morte de Trajano no ano 117, e olhar brevemente para a condição da igreja durante os reinados de Adriano e dos Antoninos.

Os Reinados de Adriano e dos Antoninos (do ano 117 ao 180 d.C.)

Embora seria injusto classificar Adriano e o primeiro Antonino com os sistemáticos perseguidores da igreja, ainda assim os cristãos foram expostos aos mais violentos sofrimentos e morte durante o domínio deles. O costume cruel de atribuir todas as calamidades públicas aos cristãos, e de pedir pelo sangue deles como expiação para as divindades ofendidas, continuavam, e eram geralmente cedidas pelos governantes locais, e não controladas pelos indiferentes imperadores. Mas sob o reinado do segundo Antonino, Marco Aurélio, o espírito maligno da perseguição aumentou drasticamente. Não era mais confinada às explosões da fúria popular, como também era encorajada pelas mais altas autoridades. A tímida proteção que os decretos ambíguos de Trajano, Adriano e dos Antoninos proporcionavam aos cristãos foi retirada, e as excitadas paixões dos pagãos idólatras não foram refreadas pelo governo. É de grande interesse para o estudante da história da igreja ver como isso podia acontecer sob o reinado de um príncipe que se distinguia pela aprendizagem, filosofia e suavidade geral de caráter.

Os últimos sessenta anos de relativa paz tinha aberto um amplo campo para a propagação do evangelho. Durante esse período houve rápido progresso de muitas maneiras. As congregações cristãs aumentaram em número, influência e riqueza por quase todos os cantos dos domínios romanos. Muitos dos ricos, sendo cheios do amor divino, distribuíam o que tinham aos pobres, viajavam para regiões que ainda não tinham ouvido o som do evangelho e, tendo ali plantado o cristianismo, seguiam para outros países. No entanto, o Espírito Santo não podia trabalhar sem despertar os ciúmes e agitar toda a inimizade dos apoiadores da religião nacional. Aurélio viu com maus olhos o poder superior do cristianismo sobre as mentes dos homens comparado com sua própria filosofia pagã. Ele se tornou, então, um intolerante perseguidor, e encorajou as autoridades provinciais a esmagar o que ele considerava um obstinado espírito de resistência a sua autoridade. Mas o evangelho da graça de Deus estava muito além do alcance de Aurélio, e nem sua espada nem seus leões poderiam prender sua triunfante carreira. Apesar das sangrentas perseguições que ele excitava ou sancionava, o cristianismo era propagado por todo o mundo conhecido.

Mas aqui devemos fazer uma breve pausa para olhar a nossa volta. Há algo muito mais profundo na mudança do governo em relação à igreja do que o mero olhar histórico pode discernir. Cremos estar chegando ao fim do primeiro período e início do segundo período da igreja na terra.

O Fim do Primeiro Período e o Início do Segundo

Pode-se dizer que a condição “efesiana” da igreja – isto é, a condição da igreja sob a luz da carta à igreja de Éfeso (Apocalipse 2:1–7) – terminou com a morte de Antonino Pio, no ano 161. E a condição “esmirniana” – isto é, a condição da igreja sob a luz da carta à igreja de Esmirna (Apocalipse 2:8–11) – parece ter começado com o reinado de Marco Aurélio. A perseguição na Ásia irrompeu com grande violência no ano 167, sob os novos decretos desse Imperador; e Esmirna, especialmente, sofreu grandemente: o justamente estimado Policarpo, bispo de Esmirna, sofreu o martírio nesse tempo. Mas, a fim de provar o ponto de vista que tomamos, será necessário dar uma olhada brevemente nas cartas às igrejas de Éfeso e Esmirna.

A Carta à Igreja de Éfeso (ap 2:1–7)

Apocalípse 2:1–7

O grande objetivo da igreja neste mundo era ser “a coluna e firmeza da verdade” (1 Timóteo 3:15). Ela foi criada para ser a portadora da luz de Deus. Ela é assim simbolizada por um “castiçal de ouro” – um suporte de luz. Ela deveria ser uma testemunha verdadeira do que Deus tinha manifestado em Jesus na terra, e do que Ele é agora quando Cristo está no céu. Aprendemos também, dessa carta, que a igreja, sendo um portador do testemunho neste mundo, é ameaçada de ser deixada de lado, a menos que seu primeiro estado seja mantido. Mas infelizmente ela falha, como sempre faz a criatura! Os anjos, Adão, Israel e a igreja não mantiveram seu primeiro estado. “Tenho, porém, contra ti”, disse o Senhor, “que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres.” (Apocalipse 2:4,5)

Havia ainda, no entanto, muito do que Ele podia elogiar, e Ele elogia tudo o que pode. Como uma assembleia, eles tinham paciência, eles tinham trabalhado e não se cansaram, eles não podiam suportar os “homens maus”, ou aqueles que buscavam os lugares mais elevados na igreja. Mesmo assim, Ele sente que estão abandonando Ele mesmo: “deixaste o teu primeiro amor”. Ele fala como alguém desapontado. Eles tinham deixado de se deleitarem no Seu amor por eles, e assim o próprio amor deles por Ele declinou. “Primeiro amor” é o feliz fruto de nossa apreciação do amor do Senhor por nós. “O testemunho externo pode continuar”, disse alguém, “mas não é isso o que o Senhor mais valoriza, embora o valorize desde que seja simples, genuíno e fiel. Ainda assim, Ele não pode deixar de apreciar, acima de tudo, os corações devotos a Ele, o fruto de Seu próprio amor pessoal, perfeito e de auto-sacrifício. Ele tem uma esposa sobre a terra, a quem Ele deseja ver tendo como único objeto de afeição Ele Próprio, e mantida pura, para Ele, do mundo e de seus caminhos. Deus nos chamou para isso: não apenas para salvação e para um testemunho para Ele mesmo em piedade, por mais verdadeiro e importante que isso seja; mas acima de tudo, Deus nos chamou para Cristo – uma noiva para Seu Filho! Certamente isto deveria ser nosso primeiro e último pensamento, nosso pensamento constante e terno; pois estamos compromissados com Cristo, e Ele provou a plenitude e fidelidade de Seu amor por nós! Mas e o nosso por Ele?”12

Era esse o estado das coisas em Éfeso, e na igreja em geral, que pedia a intervenção do Senhor em fiel disciplina. Aquela igreja, tendo sido plantada por Paulo, já tinha caído de seu primeiro estado. O apóstolo disse: “Porque todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus” (Filipenses 2:21); e “Os que estão na Ásia todos se apartaram de mim” (2 Timóteo 1:15). Esta é a causa da tribulação da qual fala a carta à igreja de Esmirna. Embora o Senhor seja cheio de graça e amor em todos os Seus modos para com Sua caída e falha igreja, ainda assim Ele é justo e deve julgar o mal. Ele não é visto, nessas cartas, como a Cabeça no céu do ”um só corpo”, nem como o Noivo de Sua igreja; mas Ele é visto em Seu caráter judicial, andando no meio dos castiçais, tendo os atributos de um juiz. Veja o capítulo 1.

O leitor deve observar que há uma certa distância e reserva no estilo de Seu discurso à igreja em Éfeso. Isto está de acordo com o lugar que Ele toma no meio dos castiçais de ouro. Ele escreve ao anjo da igreja, e não “aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus”, como na Epístola de Paulo aos Efésios.

Há muita discussão sobre quem seria o anjo. Ele era uma pessoa, acreditamos, tão identificada moralmente com a assembleia, que a representava e caracterizava. O Senhor se dirige ao anjo, e não imediatamente à igreja. “O anjo”, portanto, dá a ideia de representação. Por exemplo, no Antigo Testamento temos o anjo de Jeová (ou anjo do Senhor), o anjo da aliança, e no Novo Testamento temos os anjos das crianças, e em Atos 12 é dito de Pedro: “É o seu anjo”.

Vamos agora dar uma olhada na carta à igreja de Esmirna.

A Carta à Igreja de Esmirna (ap 2:8–11)

Apocalípse 2:8–11

Nosso interesse na história da igreja é muito maior quando vemos que o Senhor marcou clara e distintamente suas sucessivas épocas. A condição exterior da igreja até a morte do primeiro Antonino – até onde pode ser determinado a partir dos registros históricos mais autênticos – responde de forma marcante àquilo que aprendemos das Escrituras, especialmente a carta a Éfeso. Havia consistência e zelo exteriores; eles eram incansáveis. É também evidente que havia caridade, pureza, devoção, santa coragem, até mesmo a ponto da maior prontidão em sofrer de todos os modos por causa do Senhor. Ao mesmo tempo fica claro, tanto das Escrituras quanto da história, que falsas doutrinas estavam progredindo, e que muitos estavam manifestando um desejo mais indigno de conquistar preeminência na igreja. Aquele esquecimento de si mesmo, e aquele cuidado por Cristo e Sua glória, que eram os primeiros frutos de Sua graça, tinham desaparecido. Historicamente chegamos agora ao período da igreja de Esmirna. Para a conveniência do leitor vamos citar o discurso todo:

“E ao anjo da igreja em Esmirna, escreve: Isto diz o primeiro e o último, que foi morto, e reviveu: Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás. Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O que vencer não receberá o dano da segunda morte.” (Apocalipse 2:8–11). Aqui o Senhor enfrenta o declínio com uma severa tribulação. Meios mais amenos não atingiriam os objetivos. Isso não é incomum, embora eles pudessem pensar que algo estranho tinha acontecido com eles. Mas todas as suas aflições eram conhecidas pelo Senhor, calculadas por Ele, e estavam sob Seu controle. “Tereis uma tribulação de dez dias”. O período do sofrimento deles é especificado com exatidão. E Ele lhes fala como alguém que tinha conhecido, Ele mesmo, as profundezas da tribulação. “Isto diz o primeiro e o último, que foi morto, e reviveu”. Ele tinha passado através da mais profunda tristeza, e através da própria morte – Ele tinha morrido por eles, e estava vivo novamente. Eles tinham esta bendita Pessoa para se refugiarem nas provações. E enquanto Ele olha, e anda, no meio dos Seus em sofrimento, Ele diz: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida”. Assim Ele tem em Suas mãos a coroa de mártir, pronto para colocá-la na cabeça de Seu fiel vencedor.

Vamos agora voltar à nossa história, e observar sua semelhança com essa epístola.

O Início do Segundo Período da História da Igreja (por volta do ano 167 d.C.)

O reinado de Aurélio é marcado, sob a providência de Deus, por muitas e grandes calamidades públicas. Vemos a mão do Senhor em amor fiel castigando Seu próprio povo redimido e amado, mas Sua ira se acendia contra seus inimigos. O exército oriental, sob comando de Lúcio Vero, ao retornar da guerra contra os partos, trouxeram a Roma uma doença pestilenta que estava se espalhando pela Ásia, e que logo espalhou seus estragos por quase todo o Império Romano. Houve também uma grande inundação no Tibre, que deixou uma grande parte da cidade debaixo da água, e varreu imensas quantidades de grãos dos campos e armazéns públicos. Esses desastres foram naturalmente seguidos por uma fome que consumiu uma grande quantidade de pessoas.

Tais eventos não podiam deixar de aumentar a hostilidade dos pagãos contra os cristãos. Eles atribuíam todos os seus problemas à ira dos deuses, e supunham que a nova religião é que os tinha provocado. Foi assim que a perseguição aos cristãos no Império Romano começou pela população. O clamor contra eles se levantou por parte do povo e dos governantes. “Lancem os cristãos aos leões!” “Lancem os cristãos aos leões!” era o clamor geral: e assim os nomes dos mais proeminentes na comunidade eram exigidos com a mesma hostilidade incontrolável. Um fraco e supersticioso magistrado tremia diante da voz do povo, e se rendia como instrumento de sua vontade.

Mas vamos agora olhar mais de perto, sob a direção das várias histórias que temos ao alcance, para o modo como se dava essas perseguições, e para o comportamento dos cristãos sob elas.

A Perseguição na Ásia (ano 167 d.C)

Na Ásia Menor, a perseguição irrompeu com grande violência, como nunca se viu antes. O cristianismo era agora tratado como um crime direto contra o Estado. Isto mudou a face de tudo. Contrariamente ao documento oficial de Trajano e à conduta dos imperadores mais amenos, Adriano e Antonino, os cristãos deviam ser procurados como criminosos comuns. Eles eram arrancados de suas casas pela violência do povo, e submetidos às mais severas torturas. Se eles se recusassem obstinadamente a sacrificar aos deuses, eles eram condenados. Animais selvagens, a cruz, as estacas e o machado eram as formas cruéis de morte que os fiéis do Senhor encontravam em todo lugar.

O prudente e honrado Melito, bispo de Sardes, ficou tão comovido por tais barbaridades inéditas que compareceu perante o imperador como defensor dos cristãos. Seu discurso lança muita luz tanto sobre a lei quanto sobre a conduta das autoridades públicas, como segue: – “A estirpe dos adoradores de Deus neste país é perseguida como nunca antes, pelos novos decretos; pois os desavergonhados bajuladores, gananciosos pelas posses dos outros – uma vez que tais éditos lhes deram a oportunidade de fazê-lo – saqueiam vítimas inocentes de dia e de noite. E que assim seja certo se for feito sob seu comando, uma vez que um imperador justo nunca resolverá algo sob nenhuma medida de injustiça, assim como alegremente iremos levar o honrável quinhão de tal morte. Ainda assim, gostaríamos de enviar este único pedido, de que o senhor deveria se informar a respeito do povo que excita a contenção, e que deveria decidir imparcialmente se eles merecem a punição e a morte, ou a liberdade e a paz. Mas se essa resolução, e esse novo decreto – um decreto que não deveria ser emitido nem mesmo contra bárbaro hostis – vier de você, oramos mais para que não nos deixe expostos a tais roubos públicos.”13

Tememos que não haja motivo para acreditar que esse nobre apelo tenha trazido qualquer alívio direto aos cristãos. O caráter e modos de Aurélio têm deixado perplexos os historiadores. Ele era um filósofo da seita dos estoicos, naturalmente humano, benevolente, gentil e piedoso, até mesmo infantil em sua disposição, dizem alguns, pela influência da educação materna; ainda assim ela foi um implacável perseguidor dos cristãos por quase vinte anos. E a perplexidade aumenta quando olhamos para a Ásia, pois o procônsul, nessa época, não era pessoalmente oposto aos cristãos. Mesmo assim ele cedeu à fúria popular e às demandas da lei. Mas a fé vê além dos imperadores, governadores e do povo. A fé vê o príncipe das trevas governando esses homens ímpios, e o Senhor Jesus sobrepondo-se a todos. “Conheço as tuas obras, e tribulação…Nada temas das coisas que hás de padecer….Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida…O que vencer não receberá o dano da segunda morte.” (Apocalipse 2:9–11)

Aurélio, com toda a sua filosofia, era um total estranho à doçura e poder do Nome que, sozinho, pode atender e satisfazer os anseios do coração humano. Todas as especulações e vanglórias da filosofia nunca foram capazes de fazer isso. Daí a inimizade do coração humano contra o evangelho. Auto-suficiência, que leva ao orgulho e à presunção, é o assunto principal da religião estoica. Com essa visão não poderia haver humilhação, nem senso de pecado, e nem ideia de um Salvador. E quanto mais seriamente ele levasse sua própria religião, mais amarga e veementemente ele seria contra o cristianismo.

Em uma carta circular escrita pela igreja de Esmirna para outras igrejas cristãs temos um relato detalhado dos sofrimentos dos fiéis até a morte. “Eles tornaram isso evidente para todos nós”, diz a igreja, “de que no meio desses sofrimentos eles estavam ausentes do corpo, ou melhor, que o Senhor estava com eles, e andava no meio deles, e permanecendo na graça de Cristo, eles desafiaram os tormentos do mundo.” Alguns, com um estranho entusiasmo momentâneo, se apressando com auto-confiança ao tribunal, se declararam cristãos; mas quando os magistrados os pressionavam, manipulando seus medos ao mostrar a eles os animais selvagens, eles cediam e ofereciam incenso aos deuses. “Nós, portanto”, acrescenta a igreja, “não louvamos aqueles que voluntariamente se entregaram, pois o evangelho não nos ensina isso.” Nada menos que a presença do Senhor Jesus poderia fortalecer a alma para suportar com tranquilidade e compostura os mais agoniantes tormentos, e as mais terríveis mortes. Mas milhares levaram com brandura, e até mesmo com alegria, o máximo que o poder das trevas e da quarta besta de Daniel poderia fazer. Os espectadores pagãos eram frequentemente levados a sentir pena pelos sofrimentos dos cristãos, mas nunca podiam entender a serenidade da mente, amor pelos seus inimigos, e prontidão para morrer.

Vamos agora concluir esse relato geral da perseguição na Ásia, e observar particularmente as duas pessoas mais eminentes que sofreram a morte nessa época: Justino e Policarpo.

O Martírio de Justino, Chamado o Mártir

Justino nasceu em Neápolis, em Samaria, de pais gentios. Quando jovem, ele cuidadosamente estudou as diferentes seitas filosóficas; mas não encontrando a satisfação que seu coração ansiava, ele foi levado a ouvir o evangelho. Nisto ele descobriu, através da bênção de Deus, um perfeito descanso para sua alma, e cada desejo de seu coração integralmente cumprido. Ele se tornou um cristão sincero e um celebrado escritor em defesa do cristianismo.

No início do reinado de Aurélio, Justino era um homem marcado. Acusações foram feitas contra ele por um homem chamado Crescente, um filósofo da seita dos cínicos. Ele foi preso com seis de seus companheiros, e todos foram levados perante o prefeito. Eles foram requisitados a sacrificar aos deuses. “Ninguém”, respondeu Justino, “cujo entendimento é são, vai abandonar a verdadeira religião por causa do erro e impiedade.” “A menos que se sujeite”, disse o prefeito, “você será atormentado sem misericórdia.” “Não desejamos nada mais, sinceramente”, ele respondeu, “além de suportar torturas por nosso Senhor Jesus Cristo”. O restante concordou, e disseram: “Somos cristãos, e não podemos sacrificar aos ídolos.” O governador então pronunciou a sentença: “Quanto a esses que se recusam a sacrificar aos deuses, e a obedecer os decretos imperiais, que sejam primeiro açoitados, e depois decapitados, de acordo com as leis.” Os mártires se alegraram, a louvaram Deus, e sendo levados de volta à prisão, foram açoitados, e depois decapitados. Isto aconteceu em Roma, por volta do ano 165. Assim dormiu em Jesus um dos primeiros “Pais”, e ganhou o título glorioso de “Mártir”, que geralmente acompanha seu nome. Seus escritos têm sido cuidadosamente examinados por muitos, e lhes são atribuídos grande importância.

Versos Sobre o Martírio, por um Centurião Romano

“Dê o cristão ao leão!”

Clama descontroladamente a multidão romana

“Sim, ao leão castanho amarelado da África!”

Gritam os fortes e corajosos guerreiros.

“Deixe o faminto leão os rasgarem!”

Ecoa o riso contente da multidão;

“Arremessam-no – arremessam-no ao leão!”

Gritou alto a nobre matrona.

“Dê o cristão ao leão!”

Falaram em tom grave e lento,

De seus assentos de altos dignatários,

Senadores em vistosas fileiras.

Então de voo em voo, ecoa

O grito, o aplauso, e rajadas de risos

Até o gigante Coliseu

Debaixo do tumulto parecia oscilar;

E o clamor do povo

Rola através do Arco de Tito,

Todos para baixo do fórum romano,

Ao violento Capitólio,

Então uma pausa – mas silêncio, e ouça

Esse berro feroz e selvagem;

Esse é o leão do Saara,

Enfurecido em sua jaula!

Feroz, com fome e em grilhões,

Sacode ele sua juba castanho amarelado!

Para sua presa viva, impaciente,

Lutando contra suas barras e correntes.

Mas uma voz rouba fracamente

Da próxima jaula, fria e escura;

É o canto do cristão condenado à morte

Suave e baixo seu hino de morte;

Com as mãos erguidas está orando

Pelos homens que pedem seu sangue!

Com uma fé santa pleiteia

Por aquela multidão que grita.

Eles estão esperando! Levante a grade

Vem ele adiante, sereno para morrer:

Com uma radiância em torno da testa,

E um brilho nos olhos.

Nunca! quando legiões de romanos no meio,

Com o elmo em sua testa

Pressiona-o para a frente da batalha

Com um passo mais firme que agora.

Erga a grade! Ele está esperando.

Deixe o leão selvagem vir!

Ele só pode romper uma passagem

Para a alma alcançar seu lar!

O Martírio de Policarpo

O comportamento do venerável bispo de Esmirna, em vista de seu martírio, foi muito cristão e nobre. Ele estava preparado e pronto para seus perseguidores, sem ser impulsivo ou imprudente, como alguns que, em meio à excitação, tinham sido. Quando ouviu os gritos das pessoas exigindo sua morte, era sua intenção permanecer em silêncio na cidade, e esperar a decisão que Deus tomaria para si. Mas, pelas súplicas da igreja, ele se permitiu ser persuadido a se refugiar em uma vila vizinha. Ali ele passou o tempo, com alguns amigos, ocupado, noite e dia, em oração por todas as igrejas em todo o mundo. Mas seus perseguidores logo descobriram seu retiro. Quando lhe disseram que os oficiais públicos estavam à porta, ele os convidou a entrar, pediu que lhe servissem carne e bebida, e pediu para que lhe concedessem uma hora de oração silenciosa. Mas a plenitude do seu coração o levou a duas horas de oração. Sua devoção, idade e aparência impressionaram muito os pagãos. Ele devia ter mais de noventa anos de idade.

Chegou o momento de levá-lo à cidade O procônsul aparentemente não era pessoalmente hostil contra os cristãos. Ele evidentemente sentia pelo idoso Policarpo, e fez o que pôde para salvá-lo. Ele pediu-lhe que jurasse pelo gênio – ou espírito – do imperador e desse prova de seu arrependimento. Mas Policarpo foi calmo e firme, com seus olhos erguidos para o céu. O procônsul novamente pediu-lhe, dizendo: “Negue a Cristo, e te libertaremos.” O velho homem respondeu: “Oitenta e seis anos O tenho servido, e Ele só me fez bem; e como eu poderia negá-Lo, meu Senhor e Salvador?”. O governador, vendo que tanto promessas como ameaças eram em vão, foi forçado a proclamar no anfiteatro: “Policarpo se declarou cristão.” A população pagã, com um grito enfurecido, respondeu: “Este é o mestre do ateísmo, o pai dos cristãos, o inimigo de nossos deuses, por culpa dele tantos têm deixado de oferecer os sacrifícios.” Assim que o governador cedeu às exigências do povo, de que Policarpo deveria morrer na estaca, judeus e pagãos se apressaram para trazer madeira para esse fim. Quando estavam prestes a fixá-lo com pregos à estaca, ele disse: “Deixem-me assim: aquEle que tem me fortalecido para enfrentar as chamas também me capacitará a ficar firme na estaca.” Antes que acendessem o fogo ele orou: “Senhor, Deus Todo-Poderoso, Pai de Teu Filho amado, Jesus Cristo, por meio de quem temos recebido de Ti o conhecimento de Ti mesmo; Deus dos anjos, e de toda a criação, da raça humana, e do justo que viveu em Tua presença, eu Te louvo por ter me achado digno deste dia e desta hora, de fazer parte do rol de Tuas testemunhas no cálice de Teu Cristo.”

O fogo começou a arder, mas as chamas se movimentavam ao redor do corpo formando a figura de uma vela de navio soprada pelo vento. Os supersticiosos romanos, temendo que o fogo não o consumisse, mergulharam uma lança em seu lado: e assim Policarpo foi coroado com a vitória.

Estes são apenas breves extratos dos relatos que têm sido passados adiante até nós sobre o martírio do honrado e admirável bispo. As histórias de mártires estão cheias de pormenores. Mas o Senhor abençoou grandemente a maneira cristã pela qual Policarpo sofreu pelo bem da igreja. A fúria do povo foi aplacada, como se tivessem ficado satisfeitos com a vingança, e a sede de sangue pareceu se extinguir por um tempo. O procônsul, também, cansado de tanto abate, se recusou absolutamente a ter mais cristãos trazidos perante o tribunal. Quão manifesta é a mão do Senhor nessa maravilhosa e repentina mudança! Ele tinha limitado os dias da tribulação deles antes de serem lançados na fornalha, e agora esses dias estavam cumpridos, e nenhum poder na terra ou no inferno poderia prolongá-los uma hora sequer. Eles tinham sido fiéis até a morte, e receberam a coroa da vida.

As Perseguições na França (ano 177 d.C.)

Vamos agora nos voltar ao cenário da segunda perseguição sob o reinado do imperador Marco Aurélio. Aconteceu na França, e exatamente dez anos após a perseguição na Ásia. Pode ter havido outras perseguições durante esses dez anos, mas, até onde sabemos, não há registros autênticos de nenhum até o ano de 177. A fonte da qual derivamos nosso conhecimento sobre os detalhes desta última perseguição é uma carta circular das igrejas de Lion e Vienne às igrejas na Ásia. Se há qualquer alusão a esses dez ano históricos nas palavras do Senhor à igreja de Esmirna, não podemos dizer com certeza. As Escrituras não dizem isso. Comparando a história com a epístola, não é difícil ser sugerido tal pensamento. “Tereis uma tribulação de dez dias”. Em outras partes desse livro de significado sobrenatural, um dia é considerado como um ano, então pode ser o caso também da epístola à Esmirna. A história nos dá o início e o fim quanto ao tempo, e o leste e o oeste em relação à abrangência da cena. Mas vamos olhar agora para alguns dos detalhes nos quais a semelhança pode ser mais manifesta.

A prisão foi uma das principais características de seus sofrimentos. Muitos morreram pelo ar sufocante das masmorras fétidas. A este respeito diferia da perseguição na Ásia. A excitação popular se ergueu ainda mais alto do que em Esmirna. Os cristãos eram insultados e abusados sempre que apareciam, e eram até mesmo pilhados em suas próprias casas. Enquanto essa fúria popular irrompia durante a ausência do governador, muitos eram lançados na prisão pelos magistrados inferiores para aguardar seu retorno. Mas o espírito da perseguição nesta ocasião, embora tenha surgido da população, não se restringia a ela. O governador, em sua chegada, parece ter sido infectado com o fanatismo das classes mais baixas. Para sua desonra como magistrado, ele começou o exame dos prisioneiros com torturas. E o testemunho dos escravos, contrariamente a uma antiga lei em Roma, não foi apenas recebida contra seus mestres, como também arrancada deles por meio dos sofrimentos mais severos. Consequentemente, eles estavam prontos para dizer o que lhes era requerido para escapar do chicote e da roda14. Tendo provado, como diziam, que os cristãos praticavam os mais hediondos e piores crimes em suas reuniões, eles agora acreditavam que era correto submetê-los a qualquer crueldade. Nenhum parentesco, nenhuma condição, nenhuma idade e nenhum sexo era motivo para ser poupado.

Vétio, um jovem de bom nascimento e posição, e de grande caridade e fervor de espírito, ouvindo que tais acusações eram apresentados contra seus irmãos, se sentiu impelido a apresentar-se a si mesmo perante o governador como uma testemunha da inocência deles. Ele exigiu ser ouvido, mas o governador recusou-se a ouvir e apenas perguntou-lhe se ele também era um cristão. Quando ele distintamente afirmou que era, o governador ordenou que ele fosse lançado na prisão com o resto. Mais tarde, ele receberia a coroa do martírio.

O idoso bispo Potino, então com mais de noventa anos de idade, sendo provavelmente aquele que tinha, vindo da Ásia, levado o evangelho a Lion, era, naturalmente, uma boa presa para o leão do inferno. Ele sofria de asma e mal podia respirar, mas mesmo assim ele foi apreendido e arrastado perante as autoridades. “Quem é o Deus dos cristãos?”, perguntou o governador. O velho homem calmamente lhe disse que só poderia chegar ao conhecimento do verdadeiro Deus se mostrasse um espírito reto. Aqueles que cercavam o tribunal se esforçaram para conter a explosão de raiva contra o venerável bispo. Ele foi condenado à prisão, e após receber muitos golpes em seu caminho até lá, foi jogado no meio dos outros cristãos, e dois dias depois dormiu em Jesus, nos braços de seu rebanho sofredor.

Que peso de conforto e encorajamento as palavras do bendito Senhor devem ter sido para esses santos sofredores! “Nada temas das coisas que hás de padecer”, foi o que o Senhor disse à igreja em Esmirna, e que foi provavelmente levado também às igrejas francesas em Lion e Vienne por Potino. Eles estavam experimentando um exato cumprimento desse solene e profético aviso: “Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados.” Eles sabiam quem era o grande inimigo – o grande perseguidor – mesmo que imperadores, governadores e multidões pudessem ser seus instrumentos. Mas o Senhor estava com Seus amados sofredores. Ele não apenas os sustinha e confortava, como também manifestou, da maneira mais bendita, o poder de Sua própria presença nas formas mais débeis da humanidade. Isto era, nos aventuramos a dizer, uma coisa nova na terra. A superioridade dos cristãos frente a todas as aflições de torturas, e a todos os terrores de morte, surpreendeu totalmente a multidão, atingiu em cheio seus algozes, e feriu o orgulho estoico do imperador. O que poderia ser feito com um povo que orava por seus perseguidores e manifestava a compostura e tranquilidade do céu em meio às fogueiras e feras do anfiteatro? Tome um exemplo do que afirmamos – um exemplo digno de todo louvor, em todos os tempos e por toda a eternidade – do poder divino demonstrado na fraqueza humana.

Blandina, uma escrava, se distinguiu do resto dos mártires pela variedade de torturas que suportou. Sua senhora, que também sofreu o martírio, temia que a fé de sua serva pudesse ser deixada de lado sob tais provações. Mas isto não aconteceu, que o Senhor seja louvado! Firme como rocha, mas pacífica e despretensiosa, ela suportou os mais excruciantes sofrimentos. Seus carrascos lhe pressionavam a negar a Cristo e a confessar que as reuniões privadas dos cristãos serviam apenas para suas práticas perversas, e que então eles deixariam de torturá-la. Mas não! Sua única resposta foi: “Sou uma cristã, e não há perversidade entre nós.” O flagelo, a roda, a cadeira de ferro quente e as feras selvagens tinham perdido seu terror para ela. Seu coração estava fixado em Cristo, e Ele a manteve em espírito perto de Si. Seu caráter foi completamente formado, não por sua condição social, é claro – que era a mais degradada naqueles tempos – mas por sua fé no Senhor Jesus Cristo, através do poder do Espírito Santo que habitava em si.

Dia após dia ela era levada como um espetáculo público de sofrimento. Sendo uma mulher e uma escrava, os pagãos esperavam forçá-la a negar a Cristo, e a confessar que os cristãos eram culpados dos crimes denunciados contra eles. Mas foi tudo em vão. “Eu sou uma cristã, e não há perversidade entre nós”, era sua resposta calma e invariável. Sua constância exauriu a inventiva crueldade de seus algozes. Eles estavam surpresos por vê-la viver através da temível sucessão de seus sofrimentos. Mas em suas maiores agonias, ela encontrou força e alívio ao olhar para Jesus e testemunhar por Ele. “Blandina foi dotada de tanta coragem”, diz a carta da igreja de Lion, escrita a mil e setecentos anos atrás, “que aqueles que sucessivamente a torturavam de dia e de noite ficaram muito desgastados de cansaço, e se deram por vencidos e exaustos de todos os seus aparatos de tortura, e se espantaram de vê-la ainda respirando enquanto seu corpo estava dilacerado e exposto.”15

Antes de narrarmos as cenas finais de seus sofrimentos, devemos notar o que parece para nós ser o segredo de sua grande força e constância. Sem dúvidas o Senhor a estava sustendo de maneira marcante como uma testemunha para Ele, e como um testemunho para todas as eras do poder do cristianismo sobre a mente humana, comparado a todas as religiões que já existiram sobre a terra. Ainda assim, poderíamos dizer, particularmente, que sua humildade e temor piedoso eram as claras indicações do seu poder contra o inimigo, e de sua inabalável fidelidade a Cristo. Ela estava desenvolvendo sua própria salvação – libertação das dificuldades do caminho – por um profundo senso de sua própria fraqueza consciente, indicada por “medo e tremor”.

Em seu caminho de volta do anfiteatro para a prisão, em companhia de seus companheiros de sofrimento, eles foram rodeados por seus amigos entristecidos quando tiveram uma oportunidade, e em simpatia e amor se dirigiram a eles como “mártires por Cristo”. Mas a isso eles instantaneamente responderam, dizendo: “Não somos dignos de tal honra. A luta ainda não acabou, e o digno nome de Mártir pertence apropriadamente a Ele somente, que é verdadeira e fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos, o Príncipe da vida, ou, ao menos, apenas àqueles cujo testemunho Cristo selou pela sua constância até o fim. Somos apenas pobres e humildes confessores.” Em lágrimas eles rogaram para que seus irmãos orassem por eles para que pudessem ser firmes e verdadeiros até o fim. Assim a fraqueza deles era sua força, pois os levava a apoiarem-se no Poderoso. E é assim sempre, e sempre foi, tanto em pequenas quanto em grandes provações. Mas uma nova tristeza os aguardava em seu retorno à prisão. Eles encontraram alguns que tinham desistido pelo medo natural, e que tinham negado que eram cristãos. Todavia, nada ganharam por causa disso, pois Satanás jamais os iria libertar. Sob uma acusação de outros crimes, eles foram mantidos na prisão. Com esses fracos, Blandina e os outros oravam com muitas lágrimas, para que pudessem ser restaurados e fortalecidos. O Senhor respondeu suas orações, de modo que, quando levados novamente para uma examinação mais profunda, eles firmemente confessaram sua fé em Cristo, e assim foram condenados à morte e receberam a coroa do martírio.

Segundo os homens, nomes mais nobres do que o de Blandina desapareceram na cena ensanguentada, e nomes honrados também tinham testemunhado com grande coragem, como foi o caso de Vétio, Potino, Santus, Naturus e Atálius. Mas o último dia de sua provação tinha chegado, e a última dor que ela sentiria, e a última lágrima que ela derramaria. Ela foi levada para seu exame final com um jovem de quinze anos, chamado Pôntico. Eles foram obrigados a jurar pelos deuses; eles firmemente recusaram, mas estavam calmos e imóveis. A multidão estava irritada com a magnânima paciência deles. Todo o repertório de barbaridades lhes foi infligido. Pôntico, embora animado e fortalecido pelas orações de sua irmã em Cristo, logo sucumbiu sob as torturas, e adormeceu em Jesus.

E agora vinha a nobre e abençoada Blandina, como a igreja a intitulara. Como uma mãe que precisava confortar e encorajar seus filhos, ela foi mantida até o último dia dos jogos. Seus filhos haviam partido antes dela, e ela estava agora ansiando por seguir após eles. Eles tinham aderido ao nobre exército de mártires acima, e estavam descansando em Jesus, como descansam guerreiros cansados, no pacífico paraíso de Deus. Após ter suportado açoites, sentaram-na em uma cadeira de ferro quente, e então ela foi amarrada em uma rede e jogada a um touro; e tendo sido atingida algumas vezes pelo animal, um soldado mergulhou uma lança em seu lado. Sem dúvida ela já estava morta muito antes da lança tê-la atingido, mas nisto ela teve a honra de ser como seu Senhor e Mestre. Brilhante certamente será a coroa, em meio às muitas coroas no céu, da constante, humilde, paciente e perseverante Blandina.

Mas a raiva feroz e selvagem dos pagãos, instigados por Satanás, ainda não tinha alcançado seu limite. Eles começaram uma nova guerra contra os corpos mortos dos santos. O sangue deles ainda não os tinha saciado. Eles queriam suas cinzas. Assim os corpos mutilados dos mártires foram coletados e queimados, e lançados no rio Ródano com o fogo que os consumia, para que nenhuma partícula fosse deixada para poluir a terra. Mas a raiva, embora feroz, finalmente se esgotaria: e a natureza, embora selvagem, ficaria cansada de derramamento de sangue, e assim muitos cristãos sobreviveram a essa terrível perseguição.

Temos, portanto, entrado em detalhes, mais do que o usual, ao falar das perseguições sob o reinado de Marco Aurélio. Até então elas são um cumprimento, cremos, dos solenes e proféticos avisos da carta à Esmirna, e também, de modo marcante, da graça do Senhor prometida. Os sofredores foram cheios e animados por Seu próprio Espírito. “Até mesmo seus perseguidores”, diz Neander, “nunca foram mencionados por eles com ressentimento; mas eles oravam a Deus para que fossem perdoados aqueles que os tinham sujeitado a tais cruéis sofrimentos. Eles deixaram um legado para seus irmãos, não de conflito e guerra, mas de paz e alegria, unanimidade e amor.”

Estás em casa finalmente, cada poste do caminho passado,

Tendes apressado alcançar ao alvo antes de mim;

E ó, as minhas lágrimas caem grossas e rápido

Como as esperanças que tinham florescido sobre ti.

Os meus lábios recusam dizer, Adeus,

Porque nada pode separar nossa vida interligada;

Bem cedo tendes ido com Cristo habitar,

Onde ambos para sempre estaremos.

O Poder da Oração

Ao traçar a linha prateada da graça de Deus em Seu povo amado, temos agora que tomar nota de um relato que foi amplamente difundido entre os cristãos após o início do terceiro século. Ocorreu perto do fim do reinado de Aurélio, e que o levou, como dizem alguns, a mudar o rumo de sua política para com os cristãos. Em uma de suas campanhas contra os germânicos e sármatas, ele se viu em uma situação de extremo perigo. O sol ardente brilhava em cheio nas faces de seus soldados; eles foram cercados pelos bárbaros e estavam exaustos por feridas e cansaço, e sedentos: enquanto isso, o inimigo se preparava para atacá-los. Nessa situação extrema, a 12ª legião, que diziam ser composta por cristãos, avançou e se ajoelhou em oração. De repente, o céu ficou coberto de nuvens, e começou a cair uma forte chuva. Os soldados romanos pegaram seus elmos para recolher as refrescantes gotas, mas a chuva logo aumentou e se tornou uma tempestade de granizo, acompanhada de trovões e raios, que deixou os bárbaros tão alarmados que garantiu aos romanos uma vitória fácil.

O imperador, perplexo com tal resposta miraculosa às orações, reconheceu a intervenção do Deus dos cristãos, conferiu honra à legião, e emitiu um decreto em favor da religião deles. Depois disto, se não antes, eles passaram a ser chamados de “legião do trovão”. Historiadores, a partir de Eusébio, têm tomado nota desse marcante acontecimento.

Mas, como uma lenda frequentemente contada, muitas coisas lhe foram acrescentadas. Há boas razões para crer, no entanto, que uma resposta providencial em favor dos romanos foi dada à oração. Isto parece bastante evidente. E para a fé não há nada incrível em tal evento, embora algumas das circunstâncias relatadas sejam questionáveis. Por exemplo, uma legião romana naquela época provavelmente teria cinco mil homens: embora possa ter havido um grande número de cristãos na 12ª legião, que era uma legião distinta, ainda assim é difícil acreditar que todos eles eram cristãos.

Em seu retorno da guerra, eles sem dúvida relataram a seus irmãos a misericordiosa intervenção de Deus em resposta à oração, pois a igreja registraria e disseminaria a história entre os cristãos, para Seu louvor e glória. Mas os fatos são ainda mais plenamente confirmados pelos romanos. Eles também acreditavam que a libertação tinha vindo do céu, mas em resposta às orações do imperador aos deuses. Assim, o evento foi comemorado, de sua maneira habitual, em colunas, medalhas e pinturas. Nelas, o imperador é representado estendendo as mãos em súplicas; o exército recolhendo a chuva em seus elmos; e Júpiter lançando seus raios sobre os bárbaros, que jazem mortos no chão.

Alguns anos depois desse marcante evento, Marco Aurélio, o filósofo e perseguidor, morreu. Grandes mudanças rapidamente se seguiram. A glória do império, e o esforço para manter a dignidade da antiga religião romana, expirou com ele, mas o cristianismo fez grandes e rápidos avanços. Homens hábeis e eruditos surgiram nessa época e, ousada e poderosamente, defendiam, usando suas penas como instrumento, o cristianismo. Estes eram chamados de Apologistas. Tertuliano, um africano, que dizem ter nascido em 160, pode ser considerado o mais hábil e mais perfeito exemplo dessa classe.

Os mais esclarecidos dentre os pagãos agora começam a sentir que, se a religião deles tinha que suportar o poder agressivo do evangelho, ela deveria ser defendida e reformada. Assim começou a controvérsia, e um certo Celso, um filósofo epicureu, que dizem ter nascido no mesmo ano que Tertuliano, firmou-se como líder do lado controverso do paganismo. Foi por volta desse período – os últimos anos do segundo século – que os registros sobre a igreja começaram a se tornar mais interessantes, por serem mais definidos e confiáveis. Mas antes de prosseguirmos adiante com a história geral, seria interessante refazer nossos passos e olhar brevemente para a história interna da igreja desde o princípio. Veremos, assim, como algumas das coisas que ainda são observadas, e com as quais estamos familiarizados, foram primeiramente introduzidas.


Veja História dos Judeus, de Dean Milman, livro 16, volume 2, página 380↩

Veja História Romana, Enciclopédia Britânica, vol. 19, página 406.↩

Veja História Eclesiástica, de Mosheim, vol. 1, página 67; e os primeiros capítulos de Cristianismo Primitivo, de Cave.↩

N. do T.: Apesar do capítulo 10 de Mateus, assim como Marcos 16:15, dizerem respeito à comissão dos judeus e ao evangelho do reino, é evidente que muitos pontos podem ser aplicados também aos cristãos, e descrevem muito bem o sofrimento e perseguição sofridas por causa do nome de Cristo. O caráter judaico e a pregação do evangelho do reino (e não o evangelho da graça de Atos 16:31) de Mateus 10 podem ser facilmente observados por uma leitura atenciosa e em oração: “Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus…E odiados de todos sereis por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. Quando pois vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel sem que venha o Filho do homem.” (Mateus 10:5–7, 22–23).Para mais detalhes sobre o caráter judaico dos evangelhos e sobre a diferença entre o evangelho do reino e o evangelho da graça, acesses estes links:

Missão possível – http://www.3minutos.net/2008/09/33-misso-possvel.html

Por que Jesus nao voltou como prometeu em Mateus 10? –http://www.respondi.com.br/2012/01/por-que-jesus-nao-voltou-como-prometeu.html

O que significa perseverar ate’ o fim? – http://www.respondi.com.br/2013/03/o-que-significa-perseverar-ate-o-fim.html

O que é o “Evangelho do Reino”? – http://www.respondi.com.br/2005/06/o-que-o-evangelho-do-reino.html

MATEUS 10-13 – http://dispensacao.blogspot.com.br/2014/07/mateus-10-13.html

Chapter-a-Day – Mateus – http://www.stories.org.br/mt_p.html↩

História da Igreja, de Neander, vol. 1, p. 95.↩

Cristianismo Primitivo, de Cave, p. 20.↩

N. do T.: com exceção das próprias Escrituras↩

N. do T.: bispo significa “supervisor” ou “ancião” de uma assembleia (igreja) local. Na Palavra de Deus, o bispo ou ancião nunca aparece como um cargo eclesiástico assalariado (como inventaram os homens no decorrer dos séculos), mas sim como simplesmente um ofício (ou papel) exercido em uma assembleia. Para saber mais leia: Anciaos, Presbiteros [Bispos] e Guias (http://aordemdedeus.blogspot.com.br/2011/07/anciaos-presbiteros-bispos-e-guias.html), Existem anciaos hoje? (http://aordemdedeus.blogspot.com.br/2011/07/existem-anciaos-hoje.html)↩

N. do T.: e certamente para muitas outras seitas cristãs↩

N. do T.: O escritor deste livro vivia na Inglaterra no século XIX↩

Veja As Genuínas Epístolas de Clemente, Policarpo, Inácio e Barnabé, por Ab. Wake, 6ª ed. Bagster.↩

Sermões em Apocalipse, por W. Kelly↩

História Eclesiástica, de Neander, vol.1, p. 142↩

N. do T.: Antigo instrumento de tortura↩

Para mais detalhes, veja a História da Igreja, de Milner, vol. 1, p. 194↩

A História Interna da Igreja (107 d.C. – 245 d.C.)

A História Interna da Igreja

Vamos agora pisar, mais uma vez, em terreno seguro. Temos o privilégio e satisfação de apelarmos para as Escrituras Sagradas. Antes mesmo que o cânon das Escrituras fosse fechado, foi permitido que surgissem muitos dos erros, tanto doutrinais quanto práticos, que vêm desde sempre perturbando e rasgando em pedaços a igreja professa. Estes eram, na sabedoria da graça de Deus, detectados e expostos pelos apóstolos inspirados. Se mantivermos isto em mente, não nos surpreenderemos ao encontrar muitas coisas na história interna da igreja inteiramente contrárias às Escrituras. Nem teremos qualquer dificuldade em resistir a eles. Nós fomos armados pelos apóstolos. O amor ao ofício e preeminência na igreja foi manifestado logo cedo, e muitas observâncias de mera invenção humana foram acrescentadas. A “semente de mostarda” se tornou uma grande árvore – o símbolo do poder político na terra: esta era e continua sendo o aspecto externo da Cristandade; mas internamente, o fermento fez seu trabalho maligno, “até que tudo ficou levedado”. (Mateus 13:31–33)

Aqueles que estudaram cuidadosamente Mateus 13 com outras passagens em Atos e nas Epístolas que falam da profissão do nome de Cristo deveriam ter uma ideia bastante correta tanto do que diz respeito ao início da história da igreja quanto ao que se sucedeu. Ela abrange o período inteiro, desde a semeadura da semente pelo Filho do homem, até a colheita, embora sob a semelhança com o reino dos céus. Isto é um grande alívio para a mente, e nos prepara para uma cena sombria e angustiante, perversamente perpetrada sob o justo nome e sob a capa de Cristianismo. Vamos agora nos voltar para algumas dessas passagens.

1. Nosso bendito Senhor, na parábola do joio e do trigo, prediz o que aconteceria. “O reino dos céus”, diz Ele, “é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se”. No decorrer do tempo a erva cresceu e frutificou. Essa foi a rápida propagação do Cristianismo na terra. Mas também lemos que “apareceu também o joio”. Estes são os falsos professantes do nome de Cristo. O Senhor Jesus semeou a boa semente. Satanás, através do descuido e falta de firmeza do homem, semeou o joio. Mas o que deveria ser feito com ele? Deveria ser arrancado para fora do reino? O Senhor diz: “Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa”, isto é, até o final da era ou dispensação, quando o Senhor vier em juízo. (Mateus 13:24–26,29–30)

Mas aqui, alguns podem perguntar: “Será que o Senhor quis dizer que o trigo e o joio devem crescer juntos na igreja?” Certamente que não. Eles não devem ser arrancados fora do campo, mas devem ser colocados para fora da igreja (assembleia local) quando se manifestarem como pessoas ímpias. A igreja e o reino são coisas bastante distintas, embora seja possível dizer que uma (a igreja) está contida na outra (o reino). O campo é mundo, não a igreja. Os limites do reino vão muito além dos limites da verdadeira igreja de Deus. Cristo edifica a igreja; os homens é que estendem as proporções da Cristandade. Se a expressão “o reino dos céus” significasse o mesmo que “a igreja de Deus”, não deveria haver nenhuma disciplina, afinal. Mas o apóstolo, ao escrever aos coríntios, expressamente diz: “Tirai pois dentre vós a esse iníquo” (1 Coríntios 5:13). Mas ele não deveria ser posto para fora do reino, pois isto só poderia ser feito tirando-lhe a vida. O trigo e o joio devem crescer juntos no campo até a colheita. Então o Próprio Senhor, em Sua providência, vai lidar com o joio. Eles serão amarrados em feixes e lançados no fogo. Nada pode ser mais claro que o ensino do Senhor nessa parábola. O joio deve ser mantido longe da mesa do Senhor, mas não deve ser arrancado do campo. A igreja não deveria usar de punições mundanas para lidar com os ofensores eclesiásticos. Mas infelizmente, contrariamente ao que o Senhor tinha instruído aos discípulos, é exatamente o que acabou acontecendo no decorrer da história, como demonstra dolorosamente a longa lista de mártires. Dores e punições foram introduzidos como disciplina, e os insubmissos eram entregues ao poder civil para serem punidos com fogo e espada.

2. Em Atos 20, lemos que “lobos cruéis” apareceriam na igreja após a partida do apóstolo. Nas Epístolas de Paulo aos Tessalonicenses – que supõe-se serem suas primeiras epístolas inspiradas – ele lhes diz que o mistério da iniquidade já estava operando, e que outras coisas más viriam a seguir. Ao escrever aos Filipenses, ele lhes diz, com tristeza, que muitos andam como “inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:18,19). Muitos estavam se autoproclamando cristãos, mas pensando nas coisas terrenas. Tal estado de coisas não podia escapar ao olho espiritual daquele cujo único objeto de apreço era Cristo em glória e conformidade prática com Seus caminhos enquanto na terra. Em sua Segunda Epístola a Timóteo – provavelmente o último que ele escreveu – ele compara a Cristandade a “uma grande casa”, na qual há todo tipo de vasos, “uns para honra e outros para desonra” (2 Timóteo 2:20). Esta é uma imagem exterior da universal igreja. No entanto, os cristãos não podem deixá-la, e a responsabilidade individual nunca pode cessar. Mas o cristão deve se limpar de tudo o que é contrário ao nome do Senhor. As instruções são as mais simples e preciosas para os que possuem a mente espiritual, em todas as épocas. Os cristãos não devem ter qualquer associação com o que é falso. Tal é o significado de se purificar dos vasos para desonra. Ele deve se limpar de tudo que não é para a honra do Senhor. João e os outros apóstolos falam a mesma coisa, e dão as mesmas direções divinas, mas não será necessário, aqui, se delongar mais que isso. Foi apontado o suficiente para preparar o leitor para o que encontraremos naquilo que se autoproclama cristão.

Os Seguidores Imediatos dos Apóstolos

Aqui surge uma importante pergunta, e uma que é frequentemente feita: “Em que momento, e por quais meios, o clericalismo – todo o sistema do clero – firmou-se com tanto afinco na igreja professa?” Para responder a essa pergunta plenamente, seria necessário escrever em detalhes a história interna da igreja. Sua constituição e caráter foram totalmente modificados pela introdução do sistema clerical. Mas seu crescimento e organização foi gradual. Argumentos foram construídos a partir do Antigo Testamento e, em um curto período de tempo, o cristianismo foi reformulado para os moldes do judaísmo. A distinção entre bispos e presbíteros, entre uma ordem sacerdotal e o comum sacerdócio de todos os crentes, e a multiplicação de cargos eclesiásticos, rapidamente se seguiram como consequência. Mas, por mais difícil que seja traçar as incursões do clericalismo, a sinagoga era seu modelo.

Aprendemos de todo o Novo Testamento que o judaísmo era o incansável e implacável inimigo do cristianismo em todos os pontos de vista. Ele trabalhou incessantemente, por um lado introduzindo seus ritos e cerimônias e pelo outro perseguindo até a morte todos os que eram fiéis a Cristo e aos verdadeiros princípios da igreja de Deus. Vemos isto especialmente em Atos e nas Epístolas. Mas quando os dons extraordinários na igreja cessaram, e quando os nobres defensores da fé, nas pessoas dos apóstolos inspirados, se foram, podemos facilmente imaginar como o judaísmo prevalecera. Além disso, as primeiras igrejas (assembleias) eram principalmente compostas de convertidos da sinagoga judaica, que por muito tempo retiveram seus preconceitos judaicos.

Portanto, acreditamos firmemente que o clericalismo brotou do judaísmo. Desde os dias dos apóstolo até hoje a raiz de toda a estrutura e domínio do clericalismo está lá. A filosofia e a heterodoxia, sem dúvida, fez muito para corromper a igreja e levá-la a dar as mãos com o mundo: mas a ordem do clero e tudo o que pertence a ela deve ter sido fundamentada na religião dos judeus. É mais que provável, no entanto, que muitos possam ter sido persuadidos, como muitos têm sido desde então, de que o cristianismo é uma continuação do judaísmo, em vez de serem perfeitamente contrastantes. Os mestres judaizantes ousadamente afirmavam que o cristianismo era meramente um enxerto sobre o judaísmo. Mas através das epístolas, em todo lugar aprendemos que uma é terrena e a outra é celestial; que uma pertence à antiga, e a outra à nova criação; que a lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.

Vamos agora nos voltar aos seguidores imediatos dos apóstolos.

Os Pais Apostólicos, como são chamados, tais como Clemente, Policarpo, Inácio e Barnabé, foram os seguidores imediatos dos apóstolos inspirados. Eles tinham ouvido as instruções deles, trabalharam com eles no evangelho, e provavelmente tinham sido familiarmente conhecidos deles. Mas, não obstante os altos privilégios que eles gozavam como aprendizes dos apóstolos, eles logo se afastaram das doutrinas que lhes tinham sido confiadas, especialmente no que diz respeito ao governo da igreja. Eles parecem ter esquecido completamente – a julgar pelas Epístolas que citam seus nomes – a grande verdade do Novo Testamento sobre a presença do Espírito Santo na assembleia. Certamente tanto João quanto Paulo falam muito da presença, habitação, domínio soberano e autoridade do Espírito Santo na igreja. João 13–16, Atos 2:1, 1 Coríntios 12:14 e Efésios 1–4 dão claras direções e instruções sobre essa verdade fundamental da igreja de Deus. Se essa verdade tivesse sido mantida de acordo com a exortação do apóstolo – “procurando guardar” – não criar – “a unidade do Espírito” (Efésios 4:3) – o clericalismo nunca teria achado um lugar na Cristandade.

Os novos mestres da igreja parecem também ter esquecido a bela simplicidade da ordem divina na igreja. Deveria haver apenas duas ordens de ofícios – anciãos e diáconos. Estes eram nomeados para atender às necessidades temporais, e aqueles para as necessidades espirituais da assembleia dos santos. Ancião, ou bispo, significa simplesmente supervisor, alguém que exerce uma supervisão espiritual. Ele pode ser “apto para ensinar” ou não: ele não é um mestre ordenado, mas um supervisor ordenado. E quanto aos sacramentos estabelecidos por mandato divino, apenas encontramos, no Novo Testamento, o Batismo e a Ceia do Senhor. Nada poderia ser mais simples, mais claro, ou mais facilmente compreendido, como todas as direções dadas para a fé e prática, mas não havia espaço de sobra para a exaltação e glória do homem na igreja de Deus. O Espírito Santo tinha descido para tomar a liderança na assembleia, de acordo com a palavra do Senhor e a promessa do Pai; e nenhum cristão, por mais dotado que pudesse ser, crendo nisto, podia tomar o lugar de líder, e assim praticamente despedir o Espírito Santo. Mas, a partir do momento em que essa verdade foi perdida de vista, os homens começaram a contender por lugar e poder, e assim, é claro, o Espírito Santo não tinha mais Seu lugar de direito na assembleia.

Mal a voz da inspiração tinha ficado em silêncio na igreja, e logo ouvimos a voz dos novos mestres gritando e exigindo as mais elevadas honrarias de ser pago como bispo, e de ter um lugar supremo dado a eles. Nenhuma palavra sobre o lugar do Espírito como governante soberano na igreja de Deus. Isto é evidente pelas epístolas de Inácio, que dizem ter sido escritas em 107 d.C. Muitos grandes nomes, como sabemos, têm questionado a autenticidade delas; e muitos grandes nomes defendem que elas foram satisfatoriamente provadas serem genuínas. As provas de cada lado estão fora do nosso escopo. A Igreja da Inglaterra tem, por muito tempo, as aceitado como genuínas, e as considera como a base, e como a vindicação triunfante, da antiguidade do episcopado. A seguir estão algumas amostras de suas advertências às igrejas.

Inácio, no curso de sua viagem de Antioquia a Roma1, escreveu sete epístolas. Uma aos efésios, aos magnésios, aos trálios, aos romanos, aos filadélfios, aos esmirnenses, e uma ao seu amigo Policarpo. Tendo sido escritas na véspera de seu martírio, e com grande seriedade e veemência, e tendo sido discípulo e amigo do apóstolo João, sendo na época um bispo de Antioquia, provavelmente o mais famoso da Cristandade, suas epístolas devem ter produzido uma grande impressão nas igrejas; além do fato de que o caminho do ofício, autoridade e poder terem sido sempre um grande encanto para a vã natureza humana.

Ao escrever à igreja em Éfeso ele diz: “Tomemos cuidado, irmãos, para não nos colocarmos contra o bispo, a fim de que estejamos sujeitos a Deus…, pois é evidente que temos de respeitar o bispo da mesma maneira como respeitamos o próprio Senhor”. Em sua epístola aos magnésios ele diz: “Eu vos exorto a cuidadosamente fazer todas as coisas em divina harmonia: seus bispos presidindo como se estivessem no lugar de Deus; seus presbíteros como se estivessem no lugar do conselho de apóstolos; e seus diáconos, a posição mais estimada para mim, estando encarregados do ministério de Jesus Cristo”. Encontramos o mesmo tom em sua carta aos trálios: “Enquanto estiverem sujeitos ao bispo de vocês da mesma forma que ao Senhor, me parece que estarão vivendo, não à maneira dos homens, mas de acordo com Jesus Cristo, que morreu por vocês…Guardem-se de tais pessoas; e isso vocês farão se não estiverem ensoberbecidos, mas continuem inseparáveis de Jesus Cristo nosso Deus, do bispo de vocês, e dos mandamentos dos apóstolos”. Passando por cima de várias de suas cartas às igrejas, vamos apenas dar mais uma amostra de sua epístola aos filadélfios: “Eu clamei enquanto estava no meio de vocês, falei em alta voz: ‘Obedeçam ao bispo, ao presbitério e aos diáconos’. Agora alguns supõem que disse isso prevendo a divisão que aconteceria. Mas Ele é minha testemunha, por amor do qual estou em correntes, que eu nada sabia vindo da parte dos homens, mas o Espírito falou…: ’Nada façam sem o bispo; mantenham seus corpos como templos de Deus, amem a unidade, fujam das divisões, sejam seguidores de Cristo, como Ele é do Pai”’2

Na última citação é bastante evidente que o venerável “pai” desejava adicionar a suas teorias o peso da inspiração. Mas, por mais extravagante e irresponsável que essa ideia possa ser, devemos dar-lhe crédito por acreditar no que dizia. Não temos dúvida de que ele era um cristão devoto, e cheio de zelo religioso, mas não pode haver menos dúvida de que ele enganou-se muito neste e em outros assuntos. A principal ideia em todas as suas cartas é a perfeita submissão do povo aos seus superiores, ou seja, a submissão dos leigos ao seu clero. Ele estava, sem dúvida, ansioso pelo bem-estar da igreja, e temeroso do efeito das “divisões” às quais se refere; assim ele provavelmente deve ter pensado que um governo forte, nas mãos dos bispos, seria o melhor meio de preservá-la das incursões do erro. “Sejam diligentes”, disse, “em estabelecer a doutrina de nosso Senhor e dos apóstolos, junto com o mais digno bispo entre vocês, os mais espirituais presbíteros e os mais piedosos diáconos. Sejam sujeitos ao bispo e uns aos outros, como Jesus Cristo era ao Pai, quando na carne; e como os apóstolos a Cristo, e ao Pai e ao Espírito; e assim poderá haver união entre vocês, tanto no corpo quanto no espírito”. Assim, a mitra foi colocada na cabeça do mais alto dignatário, e daí em diante se tornou objeto de ambição eclesiástica, e não raro da mais indecorosa contenda, com todas as suas consequências desmoralizantes.

Clericalismo, Ministério e Responsabilidade Individual

Admite-se que as epístolas de Inácio foram escritas apenas alguns anos após a morte de João, e que o escritor deveria estar intimamente familiarizado com o pensamento do apóstolo, e que em suas epístolas ele estaria apenas apresentando seus pontos de vista. Por isso é dito que o episcopado é contemporâneo do cristianismo. Mas pouco importa, comparativamente, por quem elas foram escritas, ou o tempo preciso em que foram escritas: o que importa é que essas cartas não fazem parte das Escrituras, e o leitor deve julgar o caráter delas pela Palavra de Deus, e a influência que tiveram na história da igreja. O pensamento do Senhor, no que diz respeito a Sua igreja e à responsabilidade de Seu povo, deve ser aprendido por Sua própria palavra, e não pelos escritos dos “pais”, por mais pioneiros e estimados que sejam. E aqui, pode ser interessante citar, antes de deixarmos este assunto, alguns trechos da Palavra que o leitor fará bem em comparar com os extratos dos textos dos “pais” citados anteriormente. Esses trechos da Palavra se referem ao ministério e responsabilidade individual cristã. Assim, aprendemos a grande diferença entre ministério e ofício: ou melhor, entre ser estimado por causa de suas obras, e não meramente por seu ofício.

No Evangelho de Mateus, do versículo 45 do capítulo 24 até o versículo 31 do capítulo 25, temos três parábolas, por meio das quais o Senhor instrui os discípulos quanto à conduta deles durante Sua ausência.

1. O assunto da primeira parábola é a responsabilidade do ministério dentro da casa – na igreja. “A qual casa somos nós.” (Hebreus 3:6). Assim lemos: “Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim. Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens.” (Mateus 24:45–47). O verdadeiro ministério é do Senhor, e dEle apenas. Isto é o que temos que observar tendo em vista o que aconteceu no próprio início do cristianismo. E Ele se importa com a fidelidade ou infidelidade em Sua casa. Seu povo é próximo e querido ao Seu coração. Aqueles que foram humildes e fiéis durante Sua ausência serão feitos governantes sobre todos os Seus bens quando Ele retornar. O verdadeiro ministro de Cristo tem de tratar diretamente com o próprio Cristo. O cristão não é mercenário de algum homem, ou de algum grupo particular de homens. “Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim”. A falha no ministério é também dita e tratada pelo próprio Senhor.

“Mas se aquele mau servo disser no seu coração: O meu senhor tarde virá; e começar a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com os ébrios” (Mateus 24:48,49). Este é o outro e triste lado do quadro. O caráter do ministério é grandemente afetado pela resistência ou rejeição à verdade da vinda do Senhor. No lugar de serviço dedicado à família, com seu coração voltado para a aprovação do mestre em seu retorno, há presunção, tirania e mundanismo. A condenação de tal, quando o Senhor vier, será pior que a do mundo. Ele “destinará a sua parte com os hipócritas” – o mesmo lugar de Judas – onde “haverá pranto e ranger de dentes” (Mateus 24:51). Tais são as temíveis consequências do esquecimento quanto ao retorno do Senhor. Mas isto é mais do que mero erro doutrinal ou uma diferença de opinião sobre a vinda do Senhor. Estava “no seu coração”, sua vontade vinha dali. Ele desejava em seu coração que o Senhor ficasse longe, como se Sua vinda fosse estragar todos os seus planos e acabar com toda a sua grandeza mundana. Não é esta uma imagem tão verdadeira do que aconteceu? E que lição solene para aqueles que tomam para si um lugar de serviço na igreja! A mera nomeação de soberania, ou a escolha do povo, não será suficiente naquele dia, a menos que eles também tenham sido escolhidos do Senhor e fiéis em Sua casa.

2. Na segunda parábola, cristãos professos, durante a ausência do Senhor, são representados por virgens que saíram ao encontro do Noivo para iluminar o caminho dEle até Sua casa. Esta foi a atitude dos primeiros cristãos. Eles saíram do mundo e do judaísmo para ir adiante e se encontrar com o Noivo. Mas sabemos o que aconteceu. Ele tarda em vir, e todas elas caem no sono e adormecem. “Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro” (Mateus 25:6). Desde o primeiro século até o presente 3, ouvimos muito pouco sobre a vinda do Senhor. De vez em quando, aqui e ali, uma voz fraca podia ser ouvida sobre o assunto, mas não até o início do século XIX ouviu-se o clamor da meia-noite. Agora temos muitos folhetos e volumes sobre o assunto, e muitos estão pregando isto em quase todas as terras debaixo do céu. A meia-noite já passou, e logo vem a manhã.

A restauração da verdade da vinda do Senhor marca uma época distinta na história da igreja. E, como todo reavivamento, foi uma obra do Espírito Santo, por meio de instrumentos de Sua própria escolha, e por meios que Ele elaborou. E quão grande é a longanimidade do Senhor, que em meio a esse grande movimento instituiu um tempo entre o clamor e a chegada do Noivo para provar a condição de cada um. Cinco das dez virgens não tinham óleo em suas lâmpadas – sem Cristo, sem o Espírito Santo habitando nelas. Elas tinham apenas a lâmpada exterior da profissão. Quão terrivelmente solene pensamento, se olharmos para a cristandade a partir deste ponto de vista! Cinco dentre dez são falsas, e contra elas a porta será fechada para sempre. Como esse pensamento deveria mover a seriedade e energia no evangelismo! Que possamos sabiamente aproveitar melhor o tempo que graciosamente foi dado entre o clamor da meia-noite e a vinda do Noivo.

3. Na primeira parábola, o assunto é o ministério dentro da casa; na terceira, é o ministério fora da casa – o evangelismo. Na segunda parábola, é a expectativa pessoal da vinda do Senhor, com a posse daquilo que é o requisito para ir com Ele para as bodas do filho do Rei.

“Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens. E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe.” (Mateus 25:14,15). Aqui o Senhor é representado como deixando este mundo e voltando para o céu; e enquanto Ele está ausente, Seus servos devem negociar com os talentos conferidos a eles. “E, tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou outros cinco talentos. Da mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros dois.” (Mateus 25:16,17). Aqui temos o verdadeiro princípio e o verdadeiro caráter do ministério cristão. O próprio Senhor chamou os servos e deu-lhes os talentos, e o servo é responsável perante o próprio Senhor pelo cumprimento de seu chamado. O exercício de um dom, seja dentro ou fora da casa, embora sujeito às direções do mundo e sempre exercitado em amor e para a bênção, não é de modo nenhum dependente da vontade de um soberano, de um sacerdote ou do povo, mas e Cristo apenas, a verdadeira Cabeça da igreja. É algo grave e solene para qualquer um interferir nas reivindicações de Cristo no serviço de Seu servo. Tocar nisto é deixar de lado a responsabilidade para com Cristo e derrubar o princípio fundamental do ministério cristão.

O sacerdócio era a característica distinta da dispensação judaica; o ministério, de acordo com Deus, é a característica do período cristão. Daí o fracasso da igreja professa, quando procurou imitar o judaísmo de tantas formas, tanto em seu sacerdócio quanto em seu ritualismo. Se uma ordem sacerdotal, com ritos e cerimônias, é ainda necessária, a eficácia da obra de Cristo é posta e causa. De fato, embora não em palavras, isto ataca a raiz do cristianismo. Mas tudo é resolvido pela Palavra de Deus. “Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus, daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados…Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado.” (Hebreus 10:12–14,18)

O ministério, então, é um assunto da mais alta dignidade e do mais profundo interesse. Testifica a obra, a vitória e a glória de Jesus, de que o perdido pode ser salvo. É a atividade do amor de Deus se dirigindo a um mundo alienado e arruinado, e fervorosamente rogando por almas para se reconciliar com Ele. “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” (2 Coríntios 5:19–21). O sacerdócio judaico mantinha o povo em suas relações com Deus: o ministério cristão é Deus em graça, por meio de Seus servos, libertando almas do pecado e da ruína, e trazendo-as para perto se Si mesmo como felizes adoradores no lugar santíssimo (santo dos santos).

Voltando à nossa parábola, há uma coisa que deve ser especialmente observada aqui, que mostra a soberania e sabedoria do Senhor em conexão com o ministério. Ele deu quantias diferentes para cada um, de acordo com suas capacidades. Cada um tinha uma capacidade natural que servia exatamente para o serviço para o qual foi empregado, e os dons concedidos de acordo com a medida do dom de Cristo para seu cumprimento. “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Efésios 4:11). O servo deve ter certas qualificações naturais para sua obra, além do poder do Espírito Santo. Então o Senhor pode criar em seu coração, pelo Espírito Santo, um amor verdadeiro pelas almas, que é o melhor dom do evangelista. Em seguida, ele deve apressar-se e exercitar seu dom de acordo com sua capacidade, para a bênção de almas e para a glória de Deus. Que possamos lembrar que somos responsáveis por essas duas coisas – o dom graciosamente concedido, e a capacidade por meio da qual o dom deve ser exercitado. Quando o Senhor vier ter com Seus servos, não será suficiente dizer “Eu nunca fui educado para isso, ou nomeado para o ministério”. A questão será: “Eu esperei no Senhor para ser usado por Ele de acordo com aquilo que ele tinha preparado para mim? Ou será que escondi o meu talento na terra?”. Fidelidade ou infidelidade será a única coisa em questão para Ele.

Aquilo que distinguia o servo fiel do infiel era a confiança em seu mestre. O servo infiel não conhecia o Senhor: ele agiu com base no medo, não com base no amor, e assim enterrou seu único talento na terra. O fiel conhecia o Senhor, confiava nEle, e o serviu por amor, e foi recompensado. O amor é a única fonte verdadeira de serviço para Cristo, seja na igreja ou pelo mundo afora. Que nunca sejamos achados dando desculpas para nós mesmos, como o “mau e negligente servo”, mas que estejamos sempre contando com o amor, a graça, a verdade e o poder de nosso bendito Salvador e Senhor.

O Efeito da Nova Ordem Clerical

Pode ser justo supor que aqueles bons homens, por quem uma nova ordem de coisas foi trazida para a igreja, tendo excluído o livre ministério do Espírito Santo nos membros do corpo, desejavam de coração o bem-estar da igreja. É evidente que Inácio, por esses meios, esperava evitar “divisões”. Mas, por mais bem intencionados que fossem seus motivos, é o cúmulo da loucura humana – se não pior – interferir com, ou procurar mudar, a ordem de Deus. Este foi o erro de Eva, e todos conhecemos muito bem as consequências. Foi também o pecado original da igreja, pelo qual ela tem sofrido por estes últimos 18 séculos 4.

O Espírito Santo enviado do céu é o único poder de ministério, mas o Senhor tem a liberdade de escolher e empregar Seus próprios servos. Os arranjos e nomeações humanas necessariamente interferem com a liberdade do Espírito. Elas extinguem o Espírito Santo: apenas Ele sabe onde está a capacidade, e onde, quando e como dispensar os dons. Falando da igreja como era nos dias dos apóstolos, é dito: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.” Também lemos: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deusque opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil.” (1 Coríntios 12:4–7,11). Aqui tudo está nas mãos divinas. O Espírito Santo dispensa o dom. Este deveria ser exercido no reconhecimento do senhorio de Cristo; e Deus dá eficácia ao ministério. Quão maravilhoso é ter o Espírito, o Senhor, e Deus como a fonte, o poder e o caráter do ministério! Quão grande, e quão triste, é a mudança disto para o rei, os sacerdotes e o povo! Não é isso apostasia? Mas enquanto nos opomos à mera nomeação humana ao ofício, seja qualificado ou não, contenderíamos mais seriamente pelo ministério da Palavra tanto para santos5 quanto para pecadores.

Infelizmente a igreja logo descobriu que o impedimento do ministério, do modo como nos é apresentado na Palavra de Deus, e a introdução de uma nova ordem de coisas não impediu que divisões, heresias e falsos mestres se manifestassem. É verdade que a carne, até no mais verdadeiro e dotado cristão, pode se manifestar; mas quando o Espírito de Deus está agindo em poder, e a autoridade da Palavra é mantida, o remédio está em mãos: o mal será julgado em humildade e fidelidade a Cristo. A partir dessa época – o início do segundo século, e até mesmo um pouco antes disso – a igreja foi muito perturbada por heresias; e com o passar do tempo, as coisas nunca melhoraram, mas sempre pioraram.

Irineu, um cristão de grande fama, que sucedeu Potino como bispo de Lion em 177 d.C., nos deixou muita informação sobre o assunto das primeiras heresias. Supõe-se que tenha escrito, no ano 183, seu grande livro “Contra as Heresias”, no qual dizem conter uma defesa da santa fé católica, e um exame e refutação das falsas doutrinas defendidas pelos principais hereges.6

A Origem da Distinção entre Clérigos e Leigos

O cristianismo, no início, não tinha qualquer ordem sacerdotal. Seus primeiros convertidos iam por toda a parte anunciando o Senhor Jesus. Eles foram os primeiros a disseminar em outros países as boas novas da salvação, antes mesmo dos próprios apóstolos terem deixado Jerusalém (Atos 8:4). No decorrer do tempo, quando eram encontrados convertidos o suficiente em algum lugar para formar uma assembleia, eles se reuniam ao nome do Senhor no primeiro dia da semana para partir o pão e edificarem uns aos outros em amor (Atos 20:7). Quando surgia a oportunidade de visita de um apóstolo a tais reuniões, ele escolhia anciãos para assumir a supervisão do pequeno rebanho; diáconos eram escolhidos pela assembleia. Assim era toda constituição das primeiras igrejas. Se o Senhor levantasse um evangelista, e almas fossem convertidas, elas eram batizadas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Isto acontecia, é claro, fora da assembleia, e não era um ato eclesiástico. Após devido exame espiritual quanto à genuinidade dos resultados da obra do evangelista, estando a assembleia satisfeita, os novos crentes eram recebidos à comunhão.

Percebe-se, a partir desse breve esboço da ordem divina nas igrejas, que não havia distinções tais como “o clero” e “o leigo”. Todos estavam no mesmo patamar quanto ao sacerdócio, adoração e proximidade de Deus. Como os apóstolos Pedro e João dizem: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.” (1 Pedro 2:5). E assim a assembleia inteira podia cantar: “Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém.” (Apocalipse 1:5,6). O único sacerdócio, então, na igreja de Deus, é o comum sacerdócio de todos os crentes. O mais humilde servo no palácio de um arcebispo, se lavado no sangue de Cristo, é mais branco que a neve, e pronto para entrar no lugar santíssimo e adorar além do véu.

Não há mais adoração no pátio exterior. A separação de uma classe privilegiada – uma ordem sacerdotal – é desconhecida no Novo Testamento. A distinção entre clero e leigo era sugerida pelo judaísmo, e a invenção humana logo a tornou algo grandioso; mas foi a ordenação episcopal que estabeleceu a distinção e ampliou a separação. O bispo gradualmente assumiu o título de pontífice. Os presbíteros, e até mesmo os diáconos, se tornaram, assim como os bispos, uma ordem sagrada. O lugar de mediação e de grande proximidade de Deus foi assumida pela casta sacerdotal, e também de autoridade sobre os leigos. No lugar de Deus falando diretamente ao coração e consciência por Sua própria Palavra, e sendo o coração e a consciência trazidos diretamente à presença de Deus, apareceu o sacerdócio se colocando entre eles. Assim a Palavra de Deus foi perdida de vista, e a fé ficou à mercê das opiniões dos homens. O bendito Senhor Jesus, como o Grande Sumo Sacerdote de Seu povo, e como o Mediador entre Deus e os homens, foi então praticamente deslocado e deixado de lado. 7

Assim, infelizmente, vemos na igreja o que tem sido verdade para o homem desde Adão. Tudo o que foi confiado ao homem falhou. Desde o tempo em que a responsabilidade de manter a igreja como a coluna e firmeza da verdade caiu nas mãos humanas, não houve nada além de falha. A Palavra de Deus, no entanto, permanece a mesma, e sua autoridade nunca pode falhar, bendito seja o Seu nome. Um dos principais objetivos deste livro é chamar a atenção do leitor aos princípios e à ordem da igreja, como ensinada no Novo Testamento. “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (João 4:24). Isto é, devemos adorá-Lo e servi-Lo de acordo com a verdade, e sob a direção e unção do Espírito Santo, se for para glorificar Seu nome, e adorá-Lo e servi-Lo de maneira aceitável.

Quase todos os escritores eclesiásticos afirmam que nem o Próprio Senhor nem Seus apóstolos forneceram quaisquer preceitos quanto à ordem e governo da igreja – que tais coisas foram deixadas para a sabedoria e prudência de seus líderes, e ao caráter das épocas. Por essas suposições muita coisa foi entregue à vontade humana. Sabemos as consequências. O homem procurou a sua própria glória. A simplicidade do Novo Testamento, o caminho humilde do Senhor e de Seus apóstolos, o zelo e abnegação de Paulo, tudo isso foi ignorado, e as grandezas mundanas logo se tornaram o objeto e ambição do clero. Um breve resumo do ofício de um bispo irá deixar claro essas coisas e, sem dúvida, será de grande interesse aos leitores.

O Que Era um Bispo Nos Primeiros Tempos?

O mais humilde camponês está familiarizado com a grandeza mundana de um bispo, mas ele pode não saber como um ministro de Cristo, e um sucessor de um humilde pescador da Galileia, chegou a tal dignidade. Nos dias dos apóstolos, e por mais de cem anos depois, o ofício de um bispo era uma obra laboriosa, mas uma “boa obra”. Ele era encarregado de uma única igreja, que podia estar normalmente reunida em uma casa particular. Ele não estava lá como um “senhor sobre a herança de Deus” (1 Pedro 5:3), mas na realidade como um ministro e servo, instruindo o povo, e cuidando dos doentes e pobres pessoalmente. Os presbíteros, sem dúvida, ajudavam na gestão dos assuntos gerais da igreja, e também os diáconos; mas o bispo tinha a parte principal do serviço. Ele não tinha autoridade, no entanto, de decretar ou sancionar qualquer coisa sem a aprovação do presbitério e do povo. Não havia, então, o pensamento de “clero inferior” sob ele. E nesse tempo as igrejas não tinham renda, com exceção de contribuições voluntárias do povo que, moderados como sem dúvidas eram, deixavam uma pequena quantia para o bispo para ajudar os pobres e necessitados.

Mas naqueles primeiros tempos os oficiais da igreja continuavam, muito provavelmente, em seus antigos ofícios e ocupações, para sustento de si mesmos e de suas famílias, do mesmo modo que antes. “Um bispo”, diz Paulo, “deve ser dado à hospitalidade” (Tito 1:8). E isso ele não poderia ser se sua renda dependesse das ofertas dos pobres. Não foi até por volta do ano 245 que o clero passou a receber salário, e foram proibidos de seguir com seus empregos do mundo; mas próximo ao fim do segundo século surgiram circunstâncias na história da igreja que afetaram grandemente a humildade e simplicidade original de seus supervisores, e que tenderam à corrupção da ordem sacerdotal. “Essa mudança começou”, diz Waddington, “perto do início do segundo século; e é certo de que nesse período encontramos as primeiras denúncias de corrupção incipiente do clero.” A partir do momento em que os interesses dos ministros se tornaram totalmente distintos dos interesses do cristianismo, pode-se considerar que muitas e grandes mudanças para pior tinham começado. Vamos tomar nota de algumas circunstâncias, e em primeiro lugar, a origem das dioceses.

A Origem das Dioceses

Os bispos que viviam nas cidades eram, quer pelas suas próprias pregações, quer pela pregação dos outros – presbíteros, diáconos ou o povo – os responsáveis pelo surgimento de novas igrejas nas cidades e vilas vizinhas. Essas assembleias jovens, muito naturalmente, continuavam sob o cuidado e proteção das igrejas das cidades por meio das quais eles tinham recebido o evangelho e se tornado em novas igrejas. Províncias eclesiásticas eram, assim, formadas gradualmente, o que os gregos mais tarde denominaram dioceses. Os bispos das cidades reivindicavam o privilégio de nomear ofícios e cargos a essas “igrejas rurais”; e as pessoas a quem eles concediam suas instruções e cuidados eram chamados de bispos distritais. Estes formavam uma nova classe que ficava entre os bispos e presbíteros, sendo considerados inferiores àqueles e superiores a estes. Assim foram criadas novas distinções e divisões, e os ofícios e cargos se multiplicaram.

A Origem do Bispo Metropolitano

Igrejas assim constituídas e reguladas rapidamente se espalharam por todo o império. No gerenciamento de seus assuntos internos cada igreja era essencialmente distinta da outra, embora andassem em comunhão espiritual com todas as outras e as considerassem parte da única igreja de Deus. Mas, com o aumento do número de crentes e a extensão das igrejas, variações na doutrina e na disciplina surgiram, o que nem sempre podia ser resolvido nas assembleias individuais. Isto deu origem aos concílios, ou sínodos. Estes eram compostos principalmente por aqueles que tomavam parte no ministério. Mas quando os representantes das igrejas eram assim reunidos, logo se descobria que o controle de um presidente era necessário. A menos que haja respeito e submissão pela ação soberana do Espírito Santo na igreja, haverá anarquia sem um presidente. O bispo da capital da província era geralmente apontado para presidir, sob o elevado título de bispo metropolitano. Em seu retorno para casa era difícil deixar de lado essas ocasionais honrarias, então ele logo reivindicava para si o título pessoal e permanente de bispo metropolitano.

Os bispos e presbíteros, até por volta desse tempo, eram geralmente vistos como iguais, ou a mesma coisa, sendo os termos usados como sinônimos. Mas agora os bispos se consideravam investidos com poder supremo na direção da igreja, e estavam determinados a se manterem nessa autoridade. Os presbíteros se recusavam a lhes conceder essa nova e auto-assumida dignidade, e buscavam manter sua própria independência. Assim se ergueu a grande controvérsia entre os sistemas presbiterianos e episcopais, que continuam até hoje, e da qual poderemos tratar com mais detalhes mais adiante. Foi dito o suficiente para mostrar ao leitor o início de muitas coisas que ainda vivem diante de nós na igreja professa. Na consagrada ordem do clero será encontrada a semente da qual surgiu todo o sacerdócio medieval, o pecado da simonia 8, as leis do celibato, e a terrível corrupção da idade das trevas.9

Tendo visto o que estava acontecendo dentro da igreja desde o início, e especialmente entre seus líderes, vamos agora continuar a história geral a partir da morte de Marco Aurélio.


Ver Viagem e Martírio de Inácio↩

Os extratos acima foram retirados da Tradução de Wake. Veja também “Uma Completa e Fiel Análise dos Escritos de Inácio, Clemente, Policarpo e Hermas”. O Pesquisador, volume 2.↩

N. do T.: Século XIX, quando foi escrito este livro↩

N. do T.: este livro foi escrito no século XIX↩

N. do T.: lembrando que “santos” na Novo Testamento refere-se àqueles salvos por Cristo, justificados (tornados justos) gratuitamente pela fé em Jesus. “Chamados santos” (Romanos 1:7).↩

Irineu contra as Heresias. Clarke, Edinburgo.↩

Uma das maiores autoridades sobre a ordem episcopal é da opinião de que a distinção entre clero e leigo é derivada do Antigo Testamento: que assim como o sumo sacerdote tinha seu ofício atribuído a ele, e os sacerdotes também tinham suas atribuições próprias, e os levitas seus serviços peculiares; assim também os leigos estavam da mesma maneira sob as obrigações próprias aos leigos. Ele também afirma que o comum sacerdócio de todos os crentes é ensinado no Novo Testamento, mas que os Pais desde os tempos mais antigos formaram a igreja no sistema judaico. – Gingham on the Antiquity of the Christian Church, vol. 1, p. 42.↩

N. do T.: simonia é a venda de “favores divinos”↩

Para mais detalhes, veja Neander, vol.1, p. 259; Mosheim, vol. 1, p. 91; Bingham, vol. 1.↩

De Cômodo à Ascensão de Constantino (anos 180–313 d.C.)

De Cômodo à Ascensão de Constantino (anos 180–313 d.C.)

O cristianismo, sob os sucessores de Aurélio, desfrutou de uma temporada de relativo repouso e tranquilidade. A depravação de Cômodo foi útil no tocante aos interesses dos cristãos após seus longos sofrimentos sob seu pai, e o breve reinado de muitos dos imperadores que se seguiram não os deram tempo de combater o crescimento do cristianismo. “Durante pouco mais que um século”, diz Milman, “desde a ascensão de Cômodo até a de Diocleciano, mais de vinte imperadores passaram como sombras ao longo da trágica cena do palácio imperial. O império do mundo se tornou o prêmio de façanhas mirabolantes, ou o precário troféu da soldadesca sem lei. Uma longa linhagem de aventureiros militares, muitas vezes estranhos ao nome, à raça e à linguagem de Roma – africanos, pireneus, árabes e godos – agarraram o inconstante cetro do mundo. A mudança de soberanias era quase sempre uma mudança de dinastia, ou, por alguma estranha fatalidade, cada tentativa de restabelecer um sucessão hereditária era frustrada pelos vícios ou pela imbecilidade da segunda geração.”

Assim os cristãos tiveram cerca de cem anos de relativo descanso e paz. Havia, sem dúvida, muitos casos de perseguição e martírio durante esse período, mas tais casos eram mais o resultado de hostilidade pessoal contra algum indivíduo do que algum tipo de política sistemática do governo contra o cristianismo. O primeiro e imponente objetivo de cada imperador que se sucedia era assegurar seu disputado trono. Eles não tinham tempo de se dedicarem à supressão do cristianismo, ou às mudanças sociais e religiosas dentro do império. Assim a grande Cabeça da igreja – que é também “sobre todas as coisas a cabeça da igreja” (Efésios 1:22) – tornou a fraqueza e insegurança do trono o meio indireto da força e prosperidade da igreja.

Mas embora o reinado de Cômodo tenha sido geralmente favorável ao progresso do cristianismo, houve um notável exemplo de perseguição que devemos tomar nota.

Apolônio, um senador romano, renomado pela erudição e filosofia, era um cristão sincero. Muitos da nobreza de Roma, com toda sua família, abraçaram o cristianismo nessa época. A dignidade do senado romano sentiu-se reduzida por tais novidades. Supõe-se que isto tenha levado à acusação de Apolônio perante o magistrado. Seu acusador, baseado em uma velha e não revogada lei de Antonino Pio, que decretava cruéis punições contra os acusadores dos cristãos, foi sentenciado à morte e executado. O magistrado pediu ao prisioneiro, Apolônio, que desse um relato de sua fé perante o senado e a corte. Ele obedeceu, e ousadamente confessou sua fé em Cristo. Consequentemente, por um decreto do senado, ele foi decapitado. Alguns dizem que este é o único registro, em toda a história, de um julgamento no qual tanto o acusado quanto o acusador sofreram judicialmente. Mas a mão do Senhor estava nisto, e muito acima do acusador e do magistrado, Perenius, que condenou os dois. A partir deste período muitas famílias de distinção e opulência em Roma professaram o cristianismo, e às vezes encontramos cristãos na família imperial.

Após um reinado de cerca de 12 anos, o indigno filho de Aurélio morreu dos efeitos de um copo de vinho envenenado.

Pertinax, imediatamente após a morte de Cômodo, foi eleito pelo senado para ocupar o trono; mas após um breve reinado de sessenta e seis dias, ele foi morto por insurgentes. Seguiu-se uma guerra civil, e Septímio Severo finalmente obteve o poder soberano de Roma.

O Cristianismo sob o Reinado de Severo (anos 194 a 210 d.C.)

No início do reinado de Severo, ele era bastante favorável aos cristãos. Um escravo cristão, chamado Próculo, foi o meio de restaurar a saúde do imperador, ao ungi-lo com óleo. Essa notável cura – sem dúvida em resposta à oração – deu aos cristãos grande favor aos olhos de Severo. Próculo recebeu uma posição honrosa na família imperial, e uma criada e um tutor cristão foram contratados para formar o caráter do jovem príncipe. Ele também protegeu da indignação popular homens e mulheres da mais alta classe em Roma – senadores, suas esposas e famílias – que tinham abraçado o cristianismo. Mas, infelizmente, todo esse favor para com os cristãos era meramente resultado de circunstâncias locais. As leis continuaram as mesmas, e a violenta perseguição eclodiu contra eles em determinadas províncias.

As Perseguições sob Severo (ano 202 d.C.)

Não foi até cerca do décimo ano de seu reinado que a ferocidade natural de sua mente sombria e implacável se manifestou contra os cristãos. Em 202, após o retorno do oriente, onde ele tinha conseguido grandes vitórias, e sem dúvida se enchido de orgulho, ele estendeu sua mão e impiedosamente se atreveu a deter o progresso do cristianismo – a carruagem do evangelho. Ele aprovou uma lei que proibia, sob severas penas, que qualquer um de seus súditos se tornasse judeu ou cristão. Esta lei, como era de se esperar, acendeu uma severa perseguição contra novos convertidos e cristãos em geral. Ela estimulou seus inimigos a todo o tipo de violência. Grandes somas de dinheiro foram extorquidas de cristãos tímidos por autoridades corruptas como preço pela paz. Embora alguns tenham se submetido em troca de vida e liberdade, esta prática foi veementemente denunciada por outros. Era considerada pelos mais zelosos como degradante para o cristianismo, e uma vergonhosa barganha das esperanças e glórias do martírio. Ainda assim, a perseguição parece não ter sido geral. Ela deixou cicatrizes mais profundas no Egito e na África.

Em Alexandria, Leônidas, pai do famoso Orígenes, sofreu o martírio. Os jovens nas escolas que estavam recebendo uma educação cristã foram submetidos a severas torturas e alguns de seus professores foram presos e queimados. O jovem Orígenes se distinguiu nesta época por seus trabalhos ativos e destemidos nas agora quase desertas escolas. Ele esperava seguir os passos de seu pai, e mais procurava do que evitava a coroa do martírio. E foi justamente na África, um lugar no qual sempre pensamos como um deserto sombrio, miserável e escassamente povoado, que a linha prateada da maravilhosa graça de Deus foi mais distintamente marcada na celestial paciência e fortaleza dos santos sofredores. Temos de convidar nossos leitores a entrar em alguns detalhes a mais sobre isso.

A Perseguição na África

Os historiadores dizem que em nenhuma parte do Império Romano o cristianismo tinha criado raízes mais profundas e permanentes do que na província da África. Naquela época, essa região era cheia de ricas e populosas cidades. O tipo africano de cristianismo era totalmente diferente do que era chamado de cristianismo egípcio. O primeiro era mais sincero e apaixonado, e o último era sonhador e especulativo, graças à má influência do platonismo. Tertuliano pertence a este período, e é um verdadeiro exemplo desta diferença; mas veremos mais sobre isso mais adiante. Vamos agora tomar nota de alguns dos mártires africanos.

Perpétua e Seus Companheiros

Dentre outros que foram presos e martirizados na África durante essa perseguição, Perpétua e seus companheiros, dentre todas as histórias, merecem um lugar distinto. A história do martírio deles não só carrega todo o selo dessa verdade circunstancial, como também está repleta de toques mais requintados de sentimento e afeição natural. Aqui vemos a bela combinação dos mais ternos sentimentos e dos mais fortes afetos que o cristianismo reconhece em todos os seus direitos, e os torna ainda mais profundos e ternos porque foi a causa do sacrifício deles sobre o altar da total dedicação àquEle que morreu em total dedicação a nós. “O qual me amou”, como diz a fé, com propriedade, “e se entregou a si mesmo por mim.” (Gálatas 2:20)

Em Cartago, no ano 202, três jovens homens, Revocato, Saturnino e Secundulo, e duas moças, Perpétua e Felicidade, foram presos, todos eles sendo ainda catecúmenos, isto é, novos convertidos que se preparavam para o batismo e comunhão. Perpétua era de boa família, rica e nobre, de educação liberal, e honrosamente casada. Ela tinha cerca de 22 anos de idade, e era mãe de um bebê ainda de peito. Toda sua família aparentemente era cristã, com exceção de seu pai, que ainda era pagão. Nada é dito sobre seu marido. Seu pai era muito apegado a ela, e temia muito a desgraça que seus sofrimentos por Cristo trariam para sua família. Assim ela tinha de lutar não apenas com a morte em sua forma mais terrível, mas também com todo laço sagrado da natureza.

Quando ela foi levada pela primeira vez perante seus perseguidores, seu velho pai veio e pediu que ela se retratasse e dissesse que não era cristã. “Pai”, ela respondeu calmamente, apontando para um vaso que estava no chão, “poderia eu chamar esse vaso de qualquer coisa além do que ele é?” “Não”, ele respondeu. “Assim também eu não poderia te dizer nada além do que eu sou, uma cristã.” Alguns dias depois, os jovens cristãos foram batizados. Apesar de estarem sob guarda, eles não estavam ainda presos na prisão. Mas pouco tempo depois disto, eles foram lançados na masmorra. “Então”, ela disse, “eu fui tentada, estava apavorada, pois eu nunca tinha estado em tal escuridão antes. Oh, que dia terrível! O calor excessivo ocasionado pelo número de pessoas, o duro tratamento dos soldados, e, finalmente, a ansiedade por causa do meu bebê, me tornou miserável.” Os diáconos, no entanto, conseguiram adquirir para os prisioneiros cristãos um lugar melhor, onde ficavam separados dos criminosos comuns. Tais vantagens podiam geralmente ser adquiridas dos corruptos supervisores das prisões. Perpétua estava agora feliz por ter seu filho consigo. Ela o pegou no colo e exclamou: “Agora, esta prisão se tornou um palácio para mim!”.

Após alguns dias houve um rumor de que os prisioneiros seriam examinados. O pai apressou-se até sua filha em grande aflição de espírito. “Minha filha”, disse ele, “tenha pena de meus cabelos grisalhos, tenha pena do seu pai, se ainda sou digno de ser chamado seu pai. Se eu a eduquei até a flor da sua juventude, se eu preferi você a todos os seus irmãos, não me exponha a tal vergonha entre os homens. Olhe para o seu bebê – seu filho que, se você morrer, não poderá sobreviver por muito tempo. Deixe seu espírito elevado de lado, para que todos nós não mergulhemos em ruínas. Pois se você morrer, então nenhum de nós jamais terá coragem de falar livremente de novo.” Enquanto ele falava isto, ele beijou suas mãos, se lançou a seus pés, suplicando-lhe com termos carinhosos e muitas lágrimas. Mas, embora muito comovida e aflita pela visão do seu pai e sua forte e terna afeição por ela, ela ficou calma e firme, e sentiu-se principalmente preocupada pelo bem de sua alma. “Os cabelos grisalhos de meu pai”, disse ela, “me afligem ao considerar que apenas ele da minha família não se regozijaria com meu martírio.” “O que acontecerá”, disse-lhe ela, “quando eu chegar perante o tribunal, depende da vontade de Deus, pois não permanecemos em pé por nossa própria força, mas apenas pelo poder de Deus.”

Ao chegar a hora decisiva – o último dia do julgamento deles – uma imensa multidão se reuniu. O velho pai novamente apareceu, na esperança de poder, pela última vez, mudar a ideia de sua filha. Nesta ocasião ele levou seu neto recém-nascido em seus braços, e pôs-se diante dela. Que momento! Que espetáculo! Seu velho pai, seus cabelos grisalhos, seu tenro bebê: que apelo para uma filha – para o coração de uma jovem mulher! “Tenha pena dos cabelos grisalhos de seu pai”, disse o governador, “tenha pena de sua criança indefesa, e ofereça sacrifício em prol da prosperidade do imperador.” Assim ela se apresentou perante o tribunal, perante a multidão reunida, perante as admiradas miríades dos céus, perante as tenebrosas hostes do inferno. Mas Perpétua estava calma e firme. À semelhança de Abraão, pai dos que creem, seus olhos não estavam agora em seu filho, mas no Deus da ressurreição. Tendo encomendado seu filho aos cuidados de sua mãe e de seu irmão, ela respondeu ao governador, e disse: “Isto não posso fazer.” “Você é cristã?”, ele perguntou. “Sim”, ela respondeu, “sou cristã”. Seu destino estava agora decidido. Eles foram todos condenados a servirem de cruel entretenimento para o povo e os soldados, em uma luta com feras selvagens, na festa de aniversário do jovem Geta, filho mais novo do imperador. Eles retornaram a suas masmorras, regozijando por terem sido capazes de testemunharem e sofrerem por amor a Cristo. O carcereiro, Pudas, foi convertido por meio do comportamento tranquilo dos prisioneiros.

Quando foram levados ao anfiteatro, os espectadores notaram que os mártires tinham uma aparência pacífica e alegre. De acordo com um costume que prevalecia em Cartago, os homens deviam ser vestidos de escarlate como os sacerdotes de Saturno, e as mulheres de amarelo como as sacerdotisas de Ceres, mas os prisioneiros protestaram contra tal procedimento. “Viemos aqui”, disseram, “por nossa própria escolha, e não deixaremos que nossa liberdade seja tirada de nós; nós desistimos de nossas vida para não sermos forçados a tais abominações.” Os pagãos reconheceram que o pedido deles era justo, e cederam. Após se despedirem entre si com o mútuo beijo do amor cristão, com a esperança certa de logo se encontrarem novamente, estando “fora do corpo, para habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8), eles foram adiante para a cena de morte em seus trajes simples. A voz de louvor a Deus foi ouvida pelos espectadores. Perpétua estava cantando um salmo. Os homens foram expostos a leões, ursos e leopardos; as mulheres foram atiradas a uma vaca furiosa. Mas todos foram rapidamente libertados de seus sofrimentos pela espada do gladiador, e entraram na alegria do seu Senhor.

A interessante narrativa aqui resumida, e que supõe-se ter sido escrita pelas próprias mãos de Perpétua1, respira tal ar de verdade e realismo que conquistou o respeito e confiança de todas as eras. Mas o nosso principal objetivo ao escrevê-la para nossos leitores é apresentá-los a uma imagem viva na qual muitas das melhores qualidades da fé cristã estão belamente mescladas com os mais calorosos e ternos sentimentos cristãos, e para que possamos aprender a não sermos reclamões e murmuradores, mas a suportar todas as coisas por amor de Cristo, para que Sua graça possa brilhar, nossa fé triunfar, e Deus ser glorificado.

Alguns anos após esses eventos, Severo voltou sua atenção para a Grã-Bretanha, onde os romanos estiveram perdendo terreno. O imperador, estando à frente de um exército muito poderoso, rechaçou os nativos independentes da Caledônia, e reconquistou a região ao sul da muralha de Antonino, mas perdeu tantas tropas nas sucessivas batalhas em que foi obrigado a lutar que não achou apropriado forçar suas conquistas além daquele limite. Sentindo o tempo de seu fim se aproximando, ele se retirou para York, onde logo expirou, no décimo oitavo ano de seu reinado, em 211 d.C.

A Posição Alterada do Cristianismo na Sociedade

Após a morte de Septímio Severo – exceto durante o curto reinado de Maximino – a igreja desfrutou de uma temporada de relativa paz até o reinado de Décio, no ano 249 d.C. Porém, durante o favorável reinado de Alexandre Severo, uma mudança considerável aconteceu na relação do cristianismo com a sociedade. Por toda a sua vida, Alexandre esteve sob a influência de sua mãe, Julia Mamea, que é descrita por Eusébio como “uma mulher distinta por sua piedade e religiosidade.” Ela chamou Orígenes, sobre cuja fama ela tinha ouvido falar muito, e aprendeu dele algo sobre as doutrinas do evangelho. Ela se tornou, mais tarde, favorável aos cristãos, mas não há muitas evidências de que ela também tenha sido cristã.

Alexandre tinha uma disposição religiosa. Ele tinha muitos cristãos em sua casa, e bispos eram admitidos até mesmo na corte em caráter reconhecidamente oficial. Ele frequentemente usava as palavras de nosso Salvador: “E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também.” (Lucas 6:31). Ele tinha essas palavras escritas nas paredes de seu palácio e em outros edifícios públicos. Mas todas as religiões eram consideradas para ele como quase a mesma coisa, e sobre este princípio ele deu ao cristianismo um lugar em seu eclético sistema.

Os Primeiros Edifícios Públicos para Assembleias Cristãs

Um importante ponto na história da igreja, e que prova sua posição alterada no Império Romano, agora aparece diante de nós pela primeira vez. Foi durante o reinado desse excelente príncipe (Alexandre Severo) que as primeiros edifícios públicos foram levantados para as assembleias de cristãos. Uma pequena circunstância conectada a uma pequena porção de terra em Roma mostra o verdadeiro espírito do imperador e o crescente poder e influência dos cristãos. Esse terreno, considerado de uso geral, foi escolhido por uma congregação como o lugar para uma igreja, mas uma companhia de abastecedores reivindicava que tinha prioridade sobre o uso do terreno. O caso foi julgado pelo imperador, que decidiu conceder o terreno aos cristãos, sob a alegação de que era melhor dedicá-lo à adoração a Deus em qualquer forma do que aplicá-lo a um uso profano e indigno.

Edifícios públicos – chamadas de “igrejas cristãs” – começavam agora a aparecer em diferentes partes do império, e a possuir propriedades na terra. Os pagãos nunca conseguiam entender porque os cristãos não tinham templos nem altares. Suas assembleias religiosas, até essa época, eram realizadas de modo privado. Até mesmos os judeus tinham suas sinagogas públicas, mas os cristãos não se reuniam em algum edifício separado e distinto. A casa particular, as catacumbas, o cemitério de seus mortos, eram os lugares em que ocorriam suas pacíficas congregações. A privacidade deles, que muitas vezes era, naqueles turbulentos tempos, sua segurança, estava agora passando. Por outro lado, deve também ser observado que essa confidencialidade era muitas vezes utilizada contra eles. Nós vimos como, no princípio, os pagãos não conseguiam entender uma religião sem um templo, e então eram facilmente persuadidos de que essas reuniões privadas e misteriosas, que pareciam evitar a luz do dia, serviam apenas para o pior dos propósitos.

A condição exterior do cristianismo estava agora mudando de maneira incrível – mas infelizmente, não em favor da saúde e crescimento espiritual, como veremos em breve. Havia agora edifícios bem conhecidos nos quais os cristãos se reuniam, cujas portas podiam ficar bem abertas para toda a gente. O cristianismo era agora reconhecido como uma das várias formas de adoração que o governo não proibia. Mas a tolerância aos cristãos durante este período teve o apoio favorável apenas de Alexandre. Nenhuma mudança foi feita nas leis do império em favor dos cristãos, de modo que seu tempo de paz teria um fim com a morte do imperador. Uma conspiração foi formada contra ele pela desmoralizada soldadesca, que não podia suportar a disciplina que o imperador procurava restaurar. E assim o jovem imperador foi morto em seu quarto, aos vinte e nove anos de idade e no décimo terceiro ano de seu reinado.

O Tratamento do Clero pelo Senhor

Mal as novas “igrejas” foram construídas, e os bispos recebidos na corte, e a mão do Senhor se voltou contra eles. Aconteceu dessa maneira:

Maximino, um rude camponês da Trácia, subiu ao trono imperial. Ele tinha sido o principal instigador da morte, se não o verdadeiro assassino, do virtuoso Alexandre. Ele começou seu reinado mandando prender e matar todos os amigos do último imperador. Aqueles que tinham sido seus amigos ele tornou seus próprios inimigos. Ele ordenou que os bispos, e particularmente aqueles que tinham sido amigos íntimos de Alexandre, fossem executados. Sua vingança caiu mais ou menos sobre todas as classes de cristãos, mas principalmente sobre o clero. Não era, no entanto, pelo cristianismo que eles sofreram nessa ocasião, uma vez que Maximino não se importava com qualquer religião, mas por causa da posição que eles tinham alcançado no mundo. Pode haver reflexão mais dolorosa do que esta?

Por volta dessa época destrutivos terremotos em várias províncias reacenderam o ódio popular contra os cristãos em geral. A fúria do povo sob tal imperador era irrestrita e, encorajados por governantes hostis, incendiaram as recém-construídas “igrejas” e perseguiram os cristãos. Mas, felizmente, o reinado desse selvagem imperador teve curta duração. Ele se tornou intolerável pelas pessoas. O exército se amotinou e o matou no terceiro ano de seu reinado, e uma época mais favorável para os cristãos retornou.

O reinado de Gordiano I, de 238 a 244 d.C., e o de Filipe, de 244 a 249, foram amigáveis para com a igreja. Mas repetidamente percebemos que um governo favorável aos cristãos era imediatamente seguido por outro que os oprimia. Foi particularmente o caso nessa época. Sob os sorrisos e o patrocínio de Filipe, o Árabe, a igreja desfrutou de grande prosperidade exterior, mas estava na véspera de uma perseguição mais terrível e mais generalizada do que qualquer outra que já tinha se passado.

Uma das causas que podem ter contribuído para isso foi a ausência dos cristãos nas cerimônias nacionais que comemoravam o milésimo ano de Roma, em 247 d.C. Os jogos seculares foram celebrados com grandiosidade sem precedentes por Filipe, mas como ele era favorável aos cristãos, eles escaparam da fúria dos sacerdotes pagãos e do populacho. Os cristãos eram agora um corpo reconhecido no Estado, e por mais cuidado que tivessem de evitar se misturar às facções políticas ou às festividades populares, eles eram considerados inimigos de prosperidade do Estado e a causa de todas as calamidades. Chegamos agora a uma mudança completa de governo – um governo que afligiu toda a igreja de Deus.

A Perseguição Geral sob o Reinado de Décio

Décio, no ano 249, conquistou Filipe e colocou-se no trono. Seu reinado é marcante na história da igreja pela primeira perseguição geral. O novo imperador era desfavorável ao cristianismo e zelosamente devoto à religião pagã. Ele resolveu tentar o completo extermínio do primeiro, e restaurar o último à sua antiga glória. Uma das primeiras medidas de seu reinado foi emitir decretos aos governadores para que fizessem cumprir as antigas leis contra os cristãos. Eles foram ordenados, sob pena de perder suas próprias vidas, a exterminar todos os cristãos, completamente, ou trazê-los de volta por meio de sofrimentos e torturas à religião de seus pais.

Desde os tempos de Trajano havia uma ordem imperial de que os cristãos não deviam ser procurados; e havia também uma lei contra acusações privadas que fossem trazidas contra eles, especialmente se fossem por seus próprios servos – como vimos no caso de Apolônio – e essas leis tinham sido geralmente observadas pelos inimigos da igreja; mas agora elas eram totalmente negligenciadas. As autoridades procuravam os cristãos, os acusadores não corriam risco algum, e o clamor popular foi admitido no lugar da evidência formal. Durante os dois anos que se sucederam, uma grande multidão de cristãos em todas as províncias romanas foi banida, aprisionada ou torturada até a morte por vários tipos de punições e sofrimentos. Esta perseguição foi mais cruel e terrível que qualquer outra que a precedeu. Mas a parte mais dolorosa daquelas cenas de cortar o coração foi o estado debilitado dos próprios cristãos diante do triste efeito do conforto e prosperidade mundana.

Os Efeitos do Mundanismo na Igreja

O estudante da história da igreja se depara agora com o manifesto e terrível efeito do mundo na igreja. É uma visão muito triste, mas deveria ser uma lição proveitosa para o leitor cristão. O que era nesse período, continua agora, e deverá sempre ser. O Espírito Santo, que habita em nós, não é menos sensível hoje ao hálito poluído e destruidor do mundo do que era naquele tempo.

O que o inimigo não podia fazer por meio de éditos sangrentos e tiranos cruéis, ele conseguiu por meio da amizade com o mundo. Este é um velho estratagema de Satanás. A astuta serpente provou ser mais perigosa do que o leão que ruge. Por meio do favor de grandes homens, e especialmente de imperadores, ele fez com que o clero abaixasse a guarda, conduziu-os a dar as mãos com o mundo, e enganou-os por suas lisonjas. Os cristãos podiam agora erigir templos como os pagãos, e seus bispos eram recebidos na corte imperial em igualdade de condições com os sacerdotes idólatras. Este ímpio relacionamento com o mundo minou os próprios fundamentos do cristianismo deles. Isto se tornou dolorosamente manifesto quando a violenta tempestade da perseguição se sucedeu à longa calma de sua prosperidade mundana.

Em muitas partes do império, os cristãos tinham desfrutado de paz sem distúrbio por um período de trinta anos, o que não foi bom para a igreja como um todo. Muitos não possuíam a fé vinda de uma ardente convicção, tal como ocorria no primeiro e segundo séculos, mas uma fé vinda da verdade incutida na mente pela educação cristã – o que prevalece hoje em escala alarmante. Uma perseguição irrompendo com grande violência, após tantos anos de tranquilidade, não podia deixar de relevar um processo de refinamento para as igrejas. A atmosfera do cristianismo tinha se corrompido. Cipriano, no Ocidente, e Orígenes, no Oriente, falam do espírito secular que tinha penetrado – do orgulho, luxo e cobiça do clero – nas vidas descuidadas e ímpias das pessoas.

“Se”, diz Cipriano, bispo de Cartago, “a causa da doença é compreendida, a cura da parte afetada logo é encontrada. O Senhor provaria o Seu povo; e por causa do regime divinamente prescrito de vida ter sido perturbado na longa temporada de paz, um julgamento divino foi enviado para restabelecer nossa fé caída e, como poderia praticamente dizer, adormecida. Nossos pecados merecem coisa pior, mas nosso gracioso Senhor assim ordenou que tudo isso que ocorreu parece mais uma prova do que uma perseguição. Esquecendo-se do que os crentes faziam nos tempos dos apóstolos, e o que eles deveriam sempre continuar fazendo, os cristãos têm trabalhado com o desejo insaciável de aumentar suas posses terrenas. Muitos dos bispos que, por preceito e exemplo, deveriam ter guiado os outros, negligenciaram seu chamado divino para se envolver no gerenciamento de preocupações mundanas.” Sendo esta a condição das coisas em muitas das igrejas, não é difícil imaginar o que aconteceu.

O imperador ordenou que uma rigorosa busca fosse feita por todos os suspeitos de se recusarem ao cumprimento para com o culto nacional. Os cristãos foram obrigados a se conformarem às cerimônias da religião pagã. Em caso de se negarem, ameaças, e depois torturas, eram empregadas para forçar a submissão. Se continuassem firmes, a punição de morte deveria ser infringida especialmente nos bispos, a quem Décio odiava mais amargamente. O costume era, onde quer que o terrível édito fosse seguido até a execução, a escolha de um dia no qual todos os cristãos do local deveriam se apresentar perante o magistrado, renunciar a sua religião, e oferecer incenso no altar do ídolo. Muitos, antes do terrível dia chegar, fugiam para o exílio voluntário. Os bens destes eram confiscados e eles mesmos eram proibidos de retornar, sob pena de morte. Aqueles que continuaram firmes, após repetidas torturas, foram lançados na prisão, quando foram empregados os sofrimentos adicionais da fome e da sede, tentando fazê-los mudar de ideia. Muitos que eram menos firmes e fiéis eram libertados sem sacrificar, comprando eles mesmo, ou permitindo que seus amigos comprassem, um certificado dos magistrados. Mas esta indigna prática foi condenada pela igreja como uma renúncia tácita.

Dionísio, bispo de Alexandria, ao descrever o efeito desse terrível decreto, diz “que muitos cidadãos de reputação consentiam com o édito. Alguns eram impelidos por seus medos, e alguns eram forçados por seus amigos. Muitos ficavam pálidos e trêmulos, que não estavam prontos nem a se submeterem à cerimônia idólatra, nem para resistirem até a morte. Outros suportavam suas torturas até certo ponto, mas finalmente cediam.” Tais foram alguns dos dolorosos e vergonhosos efeitos do relaxamento geral resultante do envolvimento com o presente século mau. É desconfortável para nós, que vivemos em um tempo de grande liberdade civil e religiosa, dizermos coisas duras sobre a fraqueza daqueles que viviam em tais tempos sanguinários. Em vez disso, devemos sentir a vergonha por nós mesmos, e orar para que possamos ser guardados de ceder às atrações do mundo em todas as suas formas. Mas nem tudo era defeito, graças ao Senhor. Vamos olhar por um momento para o lado bom das coisas.

O Poder da Fé e Devoção Cristã

O mesmo Dionísio nos conta que muitos se tornaram pilares do Senhor, que por meio dEle eram fortalecidos, e se tornaram maravilhosas testemunhas de Sua graça. Dentre esses ele menciona um garoto de quinze anos, de nome Dióscuro, que respondeu de maneira muito sábia a todos os questionamentos, e demonstrou tal constância sob tortura que conquistou a admiração do próprio governador, que o liberou, na esperança de que ele pudesse reconhecer seu erro quando estivesse mais velho. Uma mulher, que tinha sido trazida ao altar por seu marido, foi forçada a oferecer incenso por alguém segurando sua mão; mas ela exclamou: “Eu não fiz isso: foi você quem fez!”, e assim foi condenada ao exílio. Em uma masmorra em Cartago os cristãos foram expostos ao calor, fome e sede, a fim de forçá-los a cumprir com o decreto; mas embora tivessem presenciado a morte por inanição diante de seus olhos, eles continuaram fiéis em sua confissão de fé em Cristo. E da prisão em Roma, onde certos confessores tinham sido confinados por cerca de um ano, a seguinte nobre confissão foi enviada a Cipriano: “Que destino mais glorioso e abençoado pode, pela graça de Deus dada ao homem, do que, em meio a torturas e ao próprio medo da morte, confessar a Deus, o Senhor; do que, com corpos dilacerados e um espírito partindo mas livre, confessar a Cristo, o Filho de Deus; do que se tornar participante do sofrimento de Cristo, em nome de Cristo? Se ainda não derramamos nosso sangue, estamos prontos para derramá-lo. Ore então, amado Cipriano, para que o Senhor possa diariamente confirmar e fortalecer a cada um de nós, mais e mais, com a força de Seu poder; e que Ele, como o melhor dos líderes, finalmente conduza Seus soldados, a quem Ele tem disciplinado e provado no campo perigoso, até o campo de batalha que está diante de nós, armados com aquelas armas divinas que nunca podem ser vencidas.”

Dentre as vítimas dessa terrível perseguição estavam Fabiano, bispo de Roma, Babilas da Antioquia, e Alexandre de Jerusalém. Cipriano, Orígenes, Gregório, Dionísio, e outros homens eminentes, foram expostos a cruéis torturas e exílio, mas escaparam com vida. O ódio do imperador foi particularmente direcionado contra os bispos. Mas pela misericórdia do Senhor o reino de Décio foi curto, ele foi morto em batalha contra os godos, por volta do fim do ano 251.2

O Martírio de Cipriano sob o Reinado de Valeriano

Como o nome de Cipriano deve ser familiar para todos os nossos leitores e um nome muito famoso relacionado ao governo e disciplina na igreja, pode ser interessante observar particularmente a coragem serena deste “pai” apostólico na perspectiva do martírio.

Ele nasceu em Cartago por volta do ano 200, mas não foi convertido até por volta do ano 246. Embora em idade madura, ele possuía o vigor e ardor da juventude. Ele tinha sido um distinto mestre e retórico, e agora ele era um distinto cristão devoto e fervoroso. Ele foi logo promovido aos ofícios de diácono e presbítero, e em 248 foi eleito bispo pela vontade geral do povo. Seus trabalhos foram interrompidos pela perseguição sob Décio, mas sua vida foi preservada até o ano de 258. Na manhã do dia 13 de setembro, um oficial com soldados foi enviado pelo procônsul para que o trouxessem a sua presença. Cipriano então sabia que seu fim estava próximo. Com uma mente pronta e um semblante alegre ele foi sem demora. Seu julgamento foi adiado por um dia. A notícia de sua apreensão agitou toda a cidade. Seus conhecidos ficaram a noite toda em frente ao lugar onde se encontrava preso.

De manhã ele foi levado ao palácio do procônsul cercado por uma grande multidão de pessoas e uma forte guarda de soldados. Após um pequeno atraso, o procônsul apareceu. “És tu Tácio Cipriano, o bispo de tantos homens ímpios?”, disse o procônsul. “Eu sou”, respondeu Cipriano. “O sacratíssimo imperador te ordena que sacrifiques.” “Eu não sacrifico”, ele respondeu. “Consideres bem”, replicou o procônsul. “Execute as tuas ordens”, respondeu Cipriano, “o caso não admite qualquer reconsideração.”

O governador consultou seu conselho, e então proferiu a sentença: “Tácio Cipriano, tens vivido por muito tempo em tua impiedade, e reuniste ao redor de ti muitos homens envolvidos na mesma conspiração perversa. Tu tens mostrado a ti mesmo como um inimigo dos deuses e das leis do império; os piedosos e sagrados imperadores têm em vão se esforçado para lembrar-te do culto de teus ancestrais. Desde então tens sido o principal autor e líder dessas práticas culpadas, que sejas então um exemplo para aqueles que tiveste iludido em tuas assembleias ilegais. Tu deves expiar teu crime com teu sangue.” “Deus seja louvado!”, respondeu Cipriano, e a multidão de irmãos exclamou: “Que sejamos também martirizados com ele.”. O bispo foi levado até um campo vizinho e decapitado. Foi marcante o fato de que alguns dias depois o procônsul morreu. E o imperador Valeriano, no ano seguinte, foi derrotado e levado como prisioneiro pelos persas, que o trataram com grande e desdenhosa crueldade – uma calamidade e desgraça sem precedentes nos anais de Roma.

A morte miserável de muitos dos perseguidores causou grande impressão na mente pública, e forçou em muitos a convicção de que os inimigos do cristianismo eram os inimigos do céu. Por cerca de quarenta anos após este ultraje, a paz e prosperidade da igreja não foi seriamente interrompida, de modo que podemos deixar de lado esses anos para chegarmos à disputa final entre paganismo e cristianismo.

O Estado Geral do Cristianismo

Antes de empreendermos um breve relato da perseguição sob Diocleciano, pode ser interessante rever a história e condição da igreja enquanto a luta final se aproximava. Mas, de modo a formar um julgamento correto do progresso e estado do cristianismo ao final de trezentos anos, devemos considerar o poder dos inimigos com quem tinha de contender.

1. Judaísmo. Vimos durante algum tempo, e especialmente na vida do apóstolo Paulo, que o judaísmo foi o primeiro grande inimigo do cristianismo. Teve de lutar, desde sua infância, com os fortes preconceitos dos judeus crentes, e com a amarga malícia dos incrédulos. Em sua região nativa, e onde quer que viajasse, o cristianismo foi perseguido por esse inimigo implacável. E após a morte dos apóstolos, a igreja sofreu muito ao ceder à pressão judaica, levando finalmente a remodelar o cristianismo de acordo com o sistema do judaísmo. O vinho novo foi posto em odres velhos.

2. Orientalismo. Próximo ao fim do primeiro século e do início do segundo século, o cristianismo teve de abrir caminho entre os muitos e conflitantes elementos da filosofia oriental. Seu primeiro conflito foi com Simão Mago, como registrado em Atos dos Apóstolos. Embora fosse samaritano de nascença, supõe-se que ele tenha estudado as várias religiões do Oriente em Alexandria. Ao retornar ao seu país de origem, ele avançou em pretensões muito altas em direção a um conhecimento e poder superior, fazendo pasmar o povo de Samaria, anunciando que ele próprio era alguém grande, a quem todos, desde o menor até o maior, davam ouvidos, dizendo: “Este é a grande virtude de Deus”. A partir desta observação sobre Simão podemos aprender que influência tais homens tinham sobre as mentes dos ignorantes e supersticiosos, e também que poder terrível de Satanás a igreja tinha que enfrentar. Ele assumiu não somente o elevado título de “grande virtude de Deus”, como também se vangloriava de possuir outras perfeições da Divindade. Os escritores geralmente se referem a ele como a cabeça e pai de toda a hoste de impostores e hereges.

Após ter sido tão aberta e vergonhosamente derrotado por Pedro, dizem que Simão Mago deixou Samaria e viajou por vários países, escolhendo especialmente aqueles nos quais o evangelho ainda não tinha chegado. Desde essa época ele introduziu o nome de Cristo em seu sistema, e assim se esforçou em confundir o evangelho com suas blasfêmias, confundindo a mente do povo. Quanto aos seus milagres e mágicas, suas maravilhosas teorias sobre ter ele mesmo descido do céu, e outras emanações, não temos nada a dizer, além de que provam ter sido, especialmente no Oriente, um obstáculo poderoso para o progresso do evangelho.

Os sucessores de Simão, tais como Cerinto e Valentino, sistematizaram de tal modo suas teorias que tornaram-se os fundadores de uma forma de gnosticismo que a igreja teve que enfrentar no segundo século. O nome “gnosticismo” envolve a ideia de ambições por um conhecimento superior. Costuma-se pensar que Paulo se refere a este significado da palavra ao alertar seu filho Timóteo contra a “falsamente chamada ciência” (1 Timóteo 6:20)

Embora esteja fora do escopo deste livro tentar qualquer coisa como um esboço desse tão difundido orientalismo ou gnosticismo, ainda assim devemos dar aos nossos leitores alguma ideia do que era. Isto se provou por um tempo como o mais formidável oponente do cristianismo. Mas à medida que os fatos e doutrinas do evangelho prevaleciam, o gnosticismo declinava.

Sob a cabeça dos gnósticos podem ser incluídos todos aqueles nos primeiros séculos da igreja que incorporaram em seus sistemas filosóficos as doutrinas mais óbvias e convenientes, tanto do judaísmo quanto do cristianismo. Assim o gnosticismo se tornou uma mistura de filosofia oriental, judaísmo e cristianismo. Por meio desta confusão satânica, a bela simplicidade do evangelho foi destruída e, por um longo tempo, em muitos lugares, seu verdadeiro caráter foi obscurecido. Foi um plano bem pensado e um poderoso esforço do inimigo, não apenas para corromper, mas também para minar e subverter todo o evangelho. Logo que o cristianismo apareceu os gnósticos começaram a adotar em seus sistemas algumas de suas mais sublimes doutrinas. O judaísmo já era profundamente modificado com isto antes da era cristã, provavelmente desde o cativeiro.

Mas o gnosticismo, devemos lembrar, não era uma corrupção do cristianismo, embora toda a escola de gnósticos seja chamada de herege pelos escritores eclesiásticos. Quanto à sua origem, o gnosticismo remonta desde a muitas religiões do Oriente, tais como a dos caldeus, dos persas, dos egípcios, dentre outras. Até mesmo em nossos dias tais filósofos seriam vistos como infiéis e estranhos ao evangelho de Cristo; mas nos primeiros tempos, o título de herege foi dado a todos os que, de qualquer maneira, introduziam o nome de Cristo em seus sistemas filosóficos. Por isso foi dito: “Se Maomé tivesse aparecido no segundo século, Justino Mártir ou Irineu teriam chamado ele de herege.” Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que os princípios da filosofia grega, especialmente o platônico, forçaram seu caminho, bem no começo, para dentro da igreja, corrompendo a corrente pura da verdade, e ameaçando, por um tempo, mudar o desígnio e o efeito do evangelho sobre a humanidade.

Orígenes, que nasceu em Alexandria – o berço do gnosticismo – por volta do ano de 185, foi o pai apostólico que deu forma e completude ao método alexandrino de interpretar as Escrituras. Ele distinguia nelas um tríplice sentido – o literal, o moral, e o místico – correspondendo, respectivamente, ao corpo, alma e espírito do homem. O sentido literal, defendia ele, podia ser entendido por qualquer leitor atento; o moral requeria uma inteligência mais elevada; e o místico só poderia ser aprendido por meio da graça do Espírito Santo, que devia ser obtida por oração.

O grande objetivo desse eminente mestre era harmonizar o cristianismo com a filosofia, e este foi o fermento da escola de Alexandria. Ele buscava juntar os fragmentos da verdade espalhados pelos outros sistemas, e uni-los em um esquema cristão, de modo a apresentar o evangelho em uma forma que não ofendesse os preconceitos, e que assegurasse a conversão de judeus, gnósticos e pagãos. Esses princípios de interpretação, e essa combinação do cristianismo com a filosofia, levou Orígenes e seus seguidores a muitos erros graves e sérios, tanto práticos quanto doutrinais. Ele mesmo era um cristão devoto, sincero e zeloso, e verdadeiramente amava o Senhor Jesus, mas a tendência de seus princípios nada mais fizeram, desde aqueles dias até hoje, além de enfraquecer a fé no caráter definitivo da verdade, se não também pervertendo-a toda por meio da espiritualização e alegorização, o que seu sistema ensinava e permitia.

A malignidade da matéria era um dos princípios fundamentais em todos as seitas dos gnósticos, e prevalecia em todos os sistemas religiosos do Oriente. Isto levou às mais loucas teorias quanto à formação e caráter do universo material e todas as substâncias corpóreas. Isto levou muitas pessoas a acreditarem que seus corpos eram intrinsecamente maus, recomendando-se a abstinência e severas mortificações corporais para que a mente, ou o espírito, que era visto como puro e divino, pudesse desfrutar maior liberdade, e ser capaz de contemplar melhor as coisas celestiais. Sem nos alongarmos sobre o assunto – o qual não apreciamos – o leitor poderá observar que o celibato do clero, em anos posteriores, e todo o sistema do asceticismo e monasticismo, tiveram sua origem, não nas Escrituras, mas na filosofia oriental.3

3. Paganismo. A igreja não apenas tinha que enfrentar o judaísmo e o orientalismo, como também sofria com a hostilidade do paganismo. Estes eram os três formidáveis poderes de Satanás com os quais ele perturbou a igreja durante os três primeiros séculos de sua história. Na realização de sua alta comissão dada pelo Senhor – “Fazei discípulos de todas as nações”…“Pregai o evangelho a toda criatura” – ela tinha esses inimigos para enfrentar e superar. Mas estes não poderiam impedir seu curso, se ela tivesse simplesmente andado em separação do mundo e permanecido verdadeira e fiel ao seu celestial e exaltado Salvador. Mas infelizmente, o que o judaísmo, o orientalismo e o paganismo não podiam fazer, as seduções do mundo conseguiram. E isto nos leva a olhar bem de perto para a condição da igreja quando a grande perseguição começou.

Um Exame da Condição da Igreja (ano 303 d.C.)

Diocleciano ascendeu ao trono em 284. Em 286, ele se associou a Maximiano, como Augusto, e em 292 Galério e Constâncio foram adicionados ao número de príncipes com o título inferior de César. Assim, quando começou o quarto século, o império romano tinha quatro soberanos. Dois levavam o título de Augusto; e dois, o título de César. Diocleciano, embora supersticioso, não nutria nenhum ódio contra os cristãos. Constâncio, o pai de Constantino, o Grande, era amigável a eles. No início, os assuntos cristãos pareciam ser vistos de forma razoavelmente brilhante e feliz, mas os sacerdotes pagãos estavam raivosos, e conspiravam contra os cristãos. Eles viam sua ruína nos triunfos da grande disseminação do cristianismo. Por plenos cinquenta anos a igreja tinha sido muito pouco incomodada pelo poder secular. Durante esse período os cristãos tinham atingido um grau de prosperidade sem precedentes; mas era algo apenas exterior: eles tinham declinado profundamente da pureza e simplicidade do evangelho de Cristo.

Igrejas tinham surgido na maioria das cidades do império, e com uma certa demonstração de esplendor arquitetural. Vestimentas e utensílios sagrados de prata e ouro começaram a ser usados. Convertidos eram reunidos de todas as classes da sociedade; até mesmo a esposa do Imperador e sua filha Valéria, casada com Galério, aparentemente estiveram entre esses convertidos. Os cristãos ocupavam altos cargos no estado e na casa imperial. Eles ocupavam posições de distinção, e até de suprema autoridade, nas províncias e no exército. Mas, infelizmente, esse longo período de prosperidade exterior tinha produzido suas usuais consequências. A fé e o amor decaíram; o orgulho e ambição aumentaram. A dominação sacerdotal começou a exercer seus poderes usurpados, e o bispo a assumir a linguagem e a autoridade de vigário de Deus. Invejas e dissensões distraíam as comunidades pacíficas, e disputas às vezes prosseguiam até a violência aberta. A paz dos cinquenta anos tinha corrompido toda a atmosfera cristã: o relâmpago da ira de Diocleciano foi permitido por Deus para refiná-la e purificá-la.

Tal é a confissão melancólica dos próprios cristãos que, de acordo com o espírito dos tempos, analisavam os perigos e as aflições aos quais eram expostos sob a luz dos julgamentos divinos.4

Os Atos de Diocleciano e o Fim do Período de Esmirna

Até aqui a igreja já havia passado por nove perseguições sistemáticas. A primeira foi sob Nero, depois sob Domiciano Trajano, Marco Aurélio, Severo, Maximino, Décio, Valeriano e Aureliano. E agora chegara o temível momento, quando ela enfrentaria a décima perseguição, de acordo com a palavra profética do Senhor: “E tereis uma tribulação de dez dia” (Apocalipse 2:10). E não é pouco notável que, não apenas houve exatamente dez perseguições do governo, como também que a última tenha durado exatamente dez anos. E, como vimos na parte inicial do período de Esmirna, exatamente dez anos passaram desde o início da perseguição sob Aurélio, no Oriente, até seu fim no Ocidente. O estudante cristão pode traçar outras características semelhantes: preferimos sugerir tais características do que forçar sua aceitação, embora acreditemos que elas tenham sido prefiguradas na epístola à Esmirna.

O reinado de Diocleciano é de grande importância histórica. Primeiro, porque se distinguiu pela introdução de um novo sistema de governo imperial. Ele virtualmente transferiu a capital da antiga Roma para a Nicomédia, na qual estabeleceu sua sede e residência. Lá ele manteve uma corte de esplendor oriental, para a qual ele convidada homens de erudição e filosofia. Mas o filósofos que frequentavam sua corte, todos nutrindo extremo ódio contra o cristianismo, usaram de sua influência com o imperador para exterminar uma religião pura demais para atender às suas mentes poluídas. Isto levou à última e maior perseguição aos cristãos. E é esta última que nos interessa. E como todas as histórias sobre este período são recolhidas principalmente dos registros de Eusébio e Lactâncio, que escreveu nessa época e testemunhou muitas execuções, podemos fazer pouco mais do que selecionar e transcrever a partir do que já está escrito, consultando os vários autores já mencionados.

Os sacerdotes pagãos e filósofos acima mencionados, não tendo sido bem-sucedidos em seus artifícios com Diocleciano a fim de criar uma guerra contra os cristãos, fizeram uso do outro imperador, Galério, seu genro, para cumprir seus propósitos. Este homem cruel, impelido em parte por sua própria inclinação, em parte por sua mãe, uma pagã muito supersticiosa, e em parte pelos sacerdotes, não deu sossego ao seu sogro enquanto não o convenceu.

Durante o inverno do ano 302–303, Galério fez uma visita a Diocleciano na Nicomédia. Seu grande objetivo era excitar o velho imperador contra os cristãos. Diocleciano, por um tempo, resistiu à sua importunação. Ele era avesso, por algum motivo, às medidas sanguinárias propostas por seu parceiro. Mas a mãe de Galério, uma inimiga implacável dos cristãos, empregou toda a sua influência sobre seu filho para inflamar sua mente com hostilidades imediatas e ativas. Diocleciano, com o tempo, cedeu. Antes disso, Galério tinha tomado o cuidado de remover do exército todos os que se recusavam a sacrificar aos ídolos. Alguns foram dispensados, e outros foram sentenciados à morte.

O Primeiro Decreto

Por volta do dia 24 de fevereiro de 303, o primeiro decreto foi emitido. Ele ordenava que todos os que se recusassem a sacrificar aos ídolos deveriam perder seus cargos, suas propriedades, sua classe, e os privilégios civis; que os escravos que persistissem em professar o evangelho fossem excluídos da esperança da liberdade, que todos os cristãos de todas as classes deviam ser destruídos, que as reuniões religiosas deviam ser suprimidas, e que as Escrituras deviam ser queimadas. A tentativa de exterminar as Escrituras foi uma característica nova nessa perseguição e, sem dúvida, foi sugerida pelos filósofos que frequentavam o palácio. Eles estavam bem conscientes de que seus próprios escritos teriam pouca influência sobre a opinião pública se as Escrituras e outros livros sagrados estivessem em circulação. Imediatamente após essas medidas terem sido tomadas a igreja de Nicomédia foi atacada, os livros sagrados foram queimados, e os edifícios inteiramente demolidos em poucas horas. Por todo o império as “igrejas” dos cristãos deveriam ser derrubadas até o pó, e os livros sagrados deviam ser entregues aos oficiais do império. Muitos cristãos que recusaram entregar as Escrituras foram condenados à morte, enquanto aqueles que as entregaram para serem queimadas foram considerados pela igreja como traidores de Cristo, e mais tarde houve grandes problemas no exercício da disciplina para com tais pessoas.5

Mal este cruel decreto tinha sido afixado no local costumeiro e um cristão de classe nobre o rasgou. Sua indignação com a injustiça o levou de modo tão flagrante a um ato de zelo imprudente – a uma violação daquele preceito do evangelho que ordena o respeito para com todos em posição de autoridade. Foi uma ocasião adequada para sentenciar um cristão de classe alta à morte. Ele foi queimado vivo em fogo baixo, e suportou seus sofrimentos com uma serenidade tão digna que surpreendeu e humilhou seus carrascos. A perseguição tinha agora começado. O primeiro passo contra os cristãos tinha sido tomado, e o segundo não demorou.

Não muito tempo após a publicação do decreto houve um incêndio no palácio de Nicomédia que se espalhou quase até a câmara do imperador. A origem do fogo parece ser desconhecida, mas obviamente a culpa foi jogada sobre os cristãos. Diocleciano acreditou nisto. Ele ficou alarmado e indignado. Multidões foram lançadas na prisão, sem discriminação daqueles que eram ou não suspeitos, e as mais cruéis torturas foram empregadas para que houvesse uma confissão; mas foi em vão. Muitos foram queimados até a morte, decapitados e afogados. Cerca de quatorze dias depois, um segundo incêndio irrompeu no palácio. Tinha se tornado então evidente que era obra de um incendiário. Os pagãos novamente acusaram os cristãos, e em alta voz clamaram por vingança, mas como não havia provas que pudessem ser encontradas de que os cristãos tivessem algo a ver com esses incêndios fatais, uma forte e, cremos, verdadeira suspeita, repousava sobre o próprio imperador Galério. Seu grande objetivo desde o início era incriminar os cristãos e alarmar Diocleciano por meio de suas próprias medidas violentas. Estando plenamente consciente da consequência desses eventos na mente sombria, tímida e supersticiosa do velho imperador, ele imediatamente deixou Nicomédia, alegando que não se considerava seguro na cidade.

Mas o objetivo foi alcançado, superando a extensão que até mesmo Galério e sua mãe pagã podiam ter desejado. Diocleciano, agora completamente incitado, irou-se ferozmente contra toda sorte de homens e mulheres que levavam o nome de cristão. Ele obrigou sua esposa Prisca e sua filha Valéria a oferecer sacrifício. Oficiais do palácio, da mais alta classe e nobreza, e todos os habitantes do palácio, foram expostos às mais cruéis torturas, pela ordem, e até mesmo na presença, do próprio Diocleciano. Os nomes de alguns de seus ministros de estado foram proferidos por preferirem as riquezas de Cristo à grandeza de seu palácio. Um dos eunucos foi trazido perante o imperador e foi torturado com grande severidade por rejeitar o sacrifício aos ídolos. Procurando fazer dele um exemplo para os outros, uma mistura de sal e vinagre foi derramada em suas feridas abertas, mas foi tudo em vão. Ele confessou sua fé em Cristo como seu único Salvador, e que não possuía nenhum outro Deus. Ele foi então gradualmente queimado até a morte. Doroteus, Gorgônio e Andrea, eunucos que serviam no palácio, também foram condenados à morte. Antimo, o bispo de Nicomédia, foi decapitado. Muitos foram executados, muitos foram queimado vivos, mas se tornou tedioso destruir homens individualmente, e então grandes fogueiras eram acesas para queimar muitos de uma só vez, e outros foram levados para o meio de um lado e lançados à água com pedras presas em seus pescoços.

A partir da Nicomédia, o centro da perseguição, as ordens imperiais foram despachadas, requerendo a cooperação dos outros imperadores na restauração da dignidade da religião antiga, e a completa supressão do cristianismo. Assim a perseguição se ergueu por todo o mundo romano, com exceção da Gália. Ali governava o brando Constâncio, e, embora ele tenha demonstrado concordância com as medidas de seus colegas, pela demolição das “igrejas”, ele se absteve de toda violência contra as pessoas cristãs. Embora ele próprio não fosse um cristão decidido, ele era naturalmente humano, e evidentemente amigável ao cristianismo e aos que o professavam. Ele presidia sobre o governo da Gália, Grã-Bretanha e Espanha. Mas o temperamento feroz de Maximiano e a crueldade selvagem de Galério apenas aguardavam o sinal para levar em efeito as ordens vindas da Nicomédia. E agora os três monstros se erguiam, na plena força do poder civil contra os seguidores indefesos e inocentes do manso e humilde Jesus, o Príncipe da Paz.

“A graça que começou terminará em glória;

Jesus, dEle é a vitória

Em Sua própria triunfante história

Está o registro da nossa própria história.”

O Segundo Decreto

Não muito tempo depois que o primeiro decreto tinha sido levado à execução por todo o império, rumores de revoltas na Armênia e Síria, regiões densamente populadas por cristãos, chegaram aos ouvidos do imperador. Essas confusões foram falsamente atribuídas aos cristãos, e proporcionaram um pretexto para um segundo decreto. Insinuava-se que o clero, como líderes dos cristãos, eram particularmente suspeitos nessa ocasião, e o decreto determinou que todos os que eram da ordem clerical fossem lançados na prisão. Assim, em um curto período de tempo, as prisões estavam cheias de bispos, presbíteros e diáconos.

O Terceiro Decreto

Um terceiro decreto foi imediatamente emitido proibindo a liberação de qualquer pessoa do clero, a menos que consentissem em oferecer sacrifício aos ídolos. Eles foram declarados inimigos do Estado, e onde houvesse um prefeito hostil que escolhesse exercer sua autoridade sem limites, eles eram todos levados em prisões destinadas apenas aos mais vis criminosos. O decreto estabelecia que aqueles dentre os prisioneiros que estivessem dispostos a oferecer sacrifício aos deuses deviam ser libertados, e que o restante devia ser compelido por torturas e punições. Grandes multidões da mais devota piedade, e veneráveis na igreja, ou foram executados ou foram enviados às minas. O imperador pensou, em vão, que se os bispos e mestres fossem subjugados, as igrejas logo seguiriam o exemplo deles. Mas percebendo que o resultado de suas medidas foi a mais humilhante derrota, ele foi instigado, pela influência unida de Galério, dos filósofos e dos sacerdotes pagãos, a emitir um outro e ainda mais rigoroso decreto.

O Quarto Decreto

Por um quarto decreto as ordens que se aplicavam apenas ao clero foram então estendidas a todo o corpo de cristãos. Os magistrados foram instruídos a usar livremente da tortura para forçar todos os cristãos – homens, mulheres e crianças – à adoração aos deuses. Diocleciano e todos os seus colegas estavam agora comprometidos com essa batalha desesperada e desigual. Os poderes das trevas – todo o Império Romano – puseram-se em pé, armados, determinados, comprometidos com a defesa do antigo politeísmo e com o completo extermínio do nome cristão. Recuar seria o mesmo que confessar fraqueza, e para saírem bem-sucedidos o adversário devia ser exterminado; mas não podia haver vitória, pois os cristãos não ofereciam resistência. Historicamente, este foi o confronto final e temível entre o paganismo e o cristianismo; a batalha estava agora em seu auge, e chegando a uma crise.

Uma proclamação pública foi feita através das ruas das cidades, de que homens, mulheres e crianças deviam todos ajudar a reparar os templos dos deuses. Todos deviam ser submetidos à prova de fogo: sacrificar ou morrer. Cada indivíduo foi convocado pelo nome a partir de listas previamente criadas. Às portas das cidades todos eram submetidos a um exame rígido, e aqueles que descobria-se serem cristãos eram imediatamente presos.

Detalhes sobre os sofrimentos e martírios que se seguiram encheriam volumes. À medida que os decretos se seguiam em rápida sucessão e irada severidade, o espírito do martírio revivia, e fortalecia-se mais e mais, até que homens e mulheres, em vez de serem presos e arrastados à fogueiras, lançavam-se nas chamas ardentes, como se subissem ao céu em carruagens de fogo. Famílias inteiras foram submetidas a vários tipos de morte, algumas pelo fogo, outros pela água, após suportarem severas torturas, alguns pereciam de fome, outros por crucificação, e alguns foram presos de cabeça para baixo e deixados vivos, para que morressem uma morte lenta. Em alguns lugares dez, vinte, sessenta e até cem homens e mulheres, com seus pequeninos, foram martirizados por meio de vários tormentos em um único dia.6

Em quase todas as partes do mundo romano tais cenas de barbárie impiedosa continuaram com mais ou menos severidade pelo longo período de dez anos. Apenas Constâncio, dentre todos os imperadores, inventou meios de proteger os cristãos no Ocidente, especialmente na Gália, onde residia. Mas em todos os outros lugares eles foram entregues a toda a sorte de crueldades e injúrias, sem o direito de poder apelar às autoridades, e sem a mínima proteção do Estado. Foi dada livre licença à população pagã para praticarem toda sorte de excessos contra os cristãos. Sob tais circunstâncias o leitor pode facilmente imaginar ao que eles eram constantemente expostos, tanto em suas vidas quanto em suas propriedades. Os ímpios se sentiam seguros de jamais serem chamados a responder por qualquer violência contra os cristãos pelas quais fossem culpados. Mas os sofrimentos dos homens, embora grandes, pareciam poucos comparados aos das mulheres. O medo da exposição e violência era mais temida do que a mera morte.

Vamos tomar um exemplo. “Certa mulher santa e devota”, diz Eusébio, “admirável por sua virtude, e ilustre, acima de tudo, na Antioquia por sua riqueza, família e reputação, tinha educado suas duas filhas – então na flor da idade e conhecidas por sua beleza – nos princípios da piedade. O esconderijo onde estavam foi descoberto, e elas foram capturadas nas malhas da soldadesca. A mãe, preocupada por si mesma e por suas filhas, e sabendo o que estava para lhes acontecer, sugeriu que era melhor morrerem, entregando-se nas mãos de Cristo, do que caírem nas mãos dos brutais soldados. Depois disso, todas concordando com a mesma coisa, e tendo pedido aos guardas um pouco de tempo, se lançaram no rio para escaparem de um mal maior”. Embora tal ato não possa ser plenamente justificado, deve ser julgado com muitas considerações. Elas foram levadas pelo desespero. E temos certeza de que o Senhor sabe como perdoar tudo o que é errado em nossas ações, e nos dar total crédito por tudo o que é correto em nossos motivos.

Por um momento, os perseguidores em vão imaginaram que iriam triunfar sobre a queda do cristianismo. Pilares foram erguidos e medalhas foram cunhadas para a honra de Diocleciano e Galério, por terem extinguido a superstição cristã e por restaurarem a adoração aos deuses. Mas aquEle que está assentado no céu estava no mesmo momento anulando a própria ira desses homens para a completa libertação e triunfo de Seu povo, e para a reconhecida derrota e queda de seus inimigos. Eles podiam martirizar cristãos, demolir “igrejas” e queimar livros; mas as fontes vivas do cristianismo estavam além de seu alcance.

A Mão Julgadora do Senhor

Grandes e importantes mudanças começaram a acontecer na soberania do império. Mas a Cabeça da igreja vigiava sobre tudo. Ele tinha limitado e definido o período de seu sofrimento, e nem as hostes do inferno, nem as legiões de Roma, poderiam estendê-lo em uma hora sequer. Os inimigos dos cristãos foram feridos com as mais terríveis calamidades. Parecia que Deus estava requerendo o sangue derramado. Galério, o verdadeiro autor da perseguição, no décimo oitavo ano de seu reinado e no oitavo da perseguição, expirou de uma enfermidade repugnante. Como Herodes Antipas e Filipe II da Espanha, ele foi “comido de bichos”. Médicos foram procurados, oráculos foram consultados, mas tudo em vão; os remédio aplicados apenas agravaram a virulência da doença. O palácio inteiro estava tão infectado pela natureza de sua aflição que ele foi abandonado por todos os seus amigos. As agonias que ele sofreu o forçaram a clamar por misericórdia, e também por um sincero pedido para que os cristãos intercedessem pelos sofrimentos do imperador em suas súplicas ao seu Deus.

De seu leito de morte ele emitiu um decreto que, ao mesmo tempo que condescendia pedindo desculpas pelas severidades passadas contra os cristãos, sob o argumentos falacioso de respeito pelo bem-estar público e unidade do estado, também admitia plenamente a total falha das severas medidas para a supressão do cristianismo, e estabelecia a liberdade e exercício público da religião cristã. Alguns dias após a promulgação do decreto, Galério expirou. Por cerca de seis meses as misericordiosas ordens desse decreto foram seguidas, e um grande número foi libertado das prisões e das minas; mas infelizmente, trazendo as marcas de torturas corporais à beira da morte. Esta breve cessação da perseguição mostrou, ao mesmo tempo, seu temível caráter e alarmante extensão.

Mas Maximino, que sucedeu Galério no governo da Ásia, buscou reviver a religião pagã em todo o seu esplendor original e suprimir o cristianismo com renovada e implacável crueldade. Ele comandou que todos os oficiais de seu governo, desde os mais altos até os mais baixos, tanto do serviço civil quanto do militar, que todos os homens e mulheres, todos os escravos, e até mesmo as crianças, deveriam sacrificar e até mesmo participar do que era oferecido nos altares pagãos. Todos os legumes e provisões no mercado deveriam ser aspergidos com a água e o vinho utilizados nos sacrifícios, para que os cristãos fossem assim forçados ao contato com as ofertas idólatras.

Novas torturas foram inventadas, e torrentes frescas de sangue cristão fluíram em todas as províncias do Império Romano, com a exceção da Gália. Mas a mão do Senhor foi novamente posta pesadamente tanto sobre o império quanto sobre o imperador. Todo tipo de calamidade prevaleceu. Opressão, guerra, pestilência e fome despovoaram as províncias asiáticas. Ao longo dos domínios de Maximino, as chuvas de verão não caíram; uma fome desolou todo o Oriente, muitas famílias opulentas foram reduzidas à mendicância, e outras venderam seus filhos como escravos. A fome foi acompanhada de suas usuais pestilências. Pústulas surgiram sobre todo o corpo daqueles atingidos pela enfermidade, mas especialmente sobre os olhos, de modo que multidões se tornaram cegas impotentes e incuráveis. Todos desanimavam, e todos os que conseguiam fugiam das casas infectadas, de modo que miríades foram deixadas a perecer em um estado de abandono absoluto. Os cristãos, movidos pelo amor de Deus em seus corações, começaram a exercer os bondosos ofícios da humanidade e misericórdia. Eles cuidavam dos vivos, e decentemente enterravam os mortos. O medo caiu sobre todos. Os pagãos concluíram que suas calamidades eram uma vingança do céu por perseguirem seu povo favorecido.

Maximino ficou alarmado, e esforçou-se, tarde demais, para refazer os seus passos. Ele emitiu um decreto admitindo os princípios de tolerância, e comandando a suspensão de qualquer medida violenta contra os cristãos, recomendando apenas meios suaves e persuasivos para reconquistar esses apóstatas da religião de seus antepassados. Tendo sido derrotado na batalha contra Licínio, ele voltou sua ira contra os sacerdotes pagãos. Ele os acusou de o terem enganado com falsas esperanças de vitória sobre Licínio, e do império universal no Oriente, e então vingou seu desapontamento por meio de um promíscuo massacre de todos os sacerdotes pagãos ao seu alcance. Seu último ato imperial foi uma promulgação de outro decreto ainda mais favorável aos cristãos, no qual ele proclamava liberdade irrestrita de consciência e restaurava as propriedades confiscadas de suas igrejas. Mas a morte veio e encerrou o sombrio catálogo de seus crimes, e também a sombria linha de imperadores perseguidores que morreram pelos mais excruciantes tormentos sob a divina mão do julgamento divino. Muitos nomes de grande fama, tanto por posição quanto por caráter, estão entre os mártires desse período, e muitos milhares, desconhecidos e despercebidos na terra, mas cujo registro está nas alturas, e cujos nomes estão escritos no livro da vida do Cordeiro.

Assim encerra-se o mais memorável de todos os ataques dos poderes das trevas contra a igreja cristã, e assim encerra-se a última esperança do paganismo em manter-se pela autoridade do governo. O relato da mais violenta, mais variada, mais prolongada e mais sistemática tentativa de exterminar o evangelho já conhecida bem merece o espaço que a destinamos, de modo que não nos desculpamos por sua extensão neste texto. Vimos o braço do Senhor erguido de modo gracioso e solene para castigar e purificar Sua igreja, para demonstrar a imperecível verdade do cristianismo, e para cobrir com eterna vergonha e confusão seus audazes mas impotentes inimigos. Como Moisés, podemos exclamar: “E eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia. E Moisés disse: Agora me virarei para lá, e verei esta grande visão, porque a sarça não se queima. E vendo o Senhor que se virava para ver, bradou Deus a ele do meio da sarça” (Êxodo 3:2–4). Assim vemos o porquê da sarça não se queimar, ou o porquê de Israel não ter sido consumido no Egito , ou o porquê da igreja neste mundo não ter sido exterminada: Deus estava no meio da sarça, Ele está no meio de Sua igreja – ela é a habitação de Deus pelo Espírito. Além disso, Cristo disse claramente, referindo-se a Ele mesmo em Seu exaltado poder e glória: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18).


N. do T.: obviamente até o momento anterior ao seu martírio↩

Veja Neander, vol. 1, p. 177; Mosheim, vol. 1, p. 217; Milner, vol. 1, p. 332↩

Para maiores detalhes sobre as diferentes seitas, veja o Dicionário das Igrejas Cristãs e Seitas, de Marsden. Robertson, volume 1; Neander, volume 2; Milman, volume 2; Mosheim, volume 1.↩

Milman, vol. 2. 261.↩

Pode ser do interesse do leitor saber que nenhum dos manuscritos do Novo Testamento existentes datam de antes da metade do quarto século. Um fato responsável por isso, em grande medida, é a destruição dos escritos cristãos, especialmente as Escrituras, no reinado de Diocleciano durante a primeira parte daquele século. Sob Constantino sabe-se que esforços especiais foram empreendidos para criar cópias fidedignas, das quais o famoso crítico Tischendorf acredita que os manuscritos do Sinai sejam uma.↩

Para conhecer os nomes e detalhes sobre muitos desses sofredores, veja Milner, vol. 1, pp. 473–506.↩

O Período de Pérgamo (313 – 606 d.C.)

Constantino

O reinado de Constantino, o Grande, marca uma época muito importante na história da igreja. Tanto seu pai Constâncio quanto sua mãe Helena tinham inclinação à religiosidade e sempre foram favoráveis aos cristãos. Alguns anos da juventude de Constantino foram gastos na corte de Diocleciano e Galério na condição de refém. Ele testemunhou a publicação do decreto de perseguição na Nicomédia, em 303, e os horrores que se seguiram. Tendo conseguido fugir, ele seu uniu a seu pai na Grã-Bretanha. Em 306, Constâncio morreu na cidade de York. Ele tinha nomeado, como seu sucessor, seu filho Constantino, que foi, desse modo, saudado como Augusto pelo exército. Ele continuou e estendeu a tolerância que seu pai tinha outorgado aos cristãos.

Havia agora seis aspirantes à soberania do império – Galério, Licínio, Maximiano, Maxêncio, Maximino e Constantino. Seguiu-se uma cena de discórdia sem paralelo nos anais de Roma. Dentre esses rivais, Constantino possuía uma superioridade decidida no que diz respeito à prudência e capacidade, tanto militar quanto política. No ano 312, Constantino entrou em Roma vitorioso. Em 313, um novo decreto foi emitido, pelos quais os decreto de perseguição de Diocleciano foram revogados, os cristãos encorajados, seus mestres honrados, e os professantes do cristianismo avançaram a posições de confiança e influência no Estado. Esta grande mudança na história da igreja nos introduz ao período de Pérgamo (313 – 606 d.C.).

O Período de Pérgamo (313 – 606 d.C.)

Cremos que a epístola à igreja em Pérgamo descreve exatamente o estado das coisas na época de Constantino. Mas citaremos a carta inteira para a conveniência de nossos leitores, e então faremos a comparação: “E ao anjo da igreja que está em Pérgamo escreve: Isto diz aquele que tem a espada aguda de dois fios: Conheço as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás; e reténs o meu nome, e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. Mas algumas poucas coisas tenho contra ti, porque tens lá os que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel, para que comessem dos sacrifícios da idolatria, e fornicassem. Assim tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas, o que eu odeio. Arrepende-te, pois, quando não em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe.” (Apocalipse 2:12–17)

Em Éfeso vemos o primeiro passo da apostasia, ao deixarem seu “primeiro amor” – o coração escapando de Cristo e do desfrutar de Seu amor. Em Esmirna o Senhor permitiu que os santos fossem lançados na fornalha para que e o progresso do declínio estacionasse. Eles foram perseguidos pelos pagãos. Por meio dessas provas o cristianismo reviveu, o ouro foi purificado, os santos mantinham firmes o nome e fé de Cristo. Assim Satanás foi derrotado, e o Senhor determinou que os imperadores, um após o outro, nas mais humilhantes e mortificantes circunstâncias, publicamente confessassem sua derrota. Mas em Pérgamo o inimigo muda sua estratégia. Em vez da perseguição a partir de fora, agora vemos a sedução vinda de dentro. Sob Diocleciano ele é o leão que ruge, e sob Constantino ele é a serpente enganadora. Pérgamo é o cenário do poder lisonjeiro de Satanás: ele está dentro da igreja1. O nicolaísmo é a corrupção da graça – a carne agindo na igreja de Deus. Em Esmirna ele está do lado de fora como um adversário, em Pérgamo ele está do lado de dentro como um sedutor. Foi exatamente isto que aconteceu sob o reinado de Constantino.

Historicamente, foi quando a violência da perseguição tinha passado – quando os homens tinham se cansado de sua própria raiva, e quando eles viram que seus esforços nada mais faziam além de tornar os sofredores menos preocupados com as coisas do mundo e mais devotos ao cristianismo – enquanto até mesmo a quantidade de cristãos parecia aumentar – foi então que Satanás tenta um outro velho artifício, um que já tinha sido tão bem sucedido contra Israel (Números 25). Quando ele não pôde obter a permissão do Senhor para amaldiçoar Seu povo Israel, ele os seduziu até sua ruína por meio de alianças ilícitas com as filhas de Moabe. Como um falso profeta, ele estava agora na igreja de Pérgamo, seduzindo os santos a uma aliança ilícita com o mundo – o lugar de seu trono e autoridade. O mundo para de perseguir, e grandes vantagens são concedidas aos cristãos pelo estabelecimento civil do cristianismo. Constantino professava ser convertido, e atribui seus triunfos às virtudes da cruz. Infelizmente, a armadilha é bem-sucedida, a igreja é lisonjeada por seu patrocinador, aperta as mãos com o mundo, e afunda até sua posição, “que é onde está o trono de Satanás”. Tudo estava agora perdido quanto ao seu testemunho corporativo adequado, e assim o caminho até o papado se escancarou. Todas as vantagens mundanas foram sem dúvida adquiridas, mas, infelizmente, foi à custa da honra e glória de seu celestial Senhor e Salvador.

A igreja, devemos lembrar, é um chamado para fora (Atos 15:14) – chamados, para fora, dentre os judeus e gentios, para testemunhar que ela não é deste mundo, mas do céu – que ela está unida a um Cristo glorificado, e não é deste mundo, assim como Ele não é deste mundo. Assim Ele mesmo diz: “Não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.” (João 17:16–18)

A missão dos cristãos é do mesmo princípio e do mesmo caráter da missão de Cristo. “Assim como o Pai me enviou”, Ele diz, “também eu vos envio a vós.” (João 20:21). Eles foram enviados, por assim dizer, do céu para o mundo pelo bendito Senhor, para fazer Sua vontade, para cuidar por Sua glória, e para voltar para o lar quando o trabalho terminasse. Assim o cristão deveria ser a testemunha celestial da verdade de Deus, especialmente das verdades referentes à total ruína do homem, e sobre o amor de Deus em Cristo para um mundo a perecer; e, portanto, deveria buscar recolher almas para fora do mundo, para que sejam salvas da ira vindoura. Mas quando perdemos de vista nosso elevado chamado e nos associamos com o mundo como se pertencêssemos a ele, nos tornamos falsas testemunhas; causamos ao mundo uma grande lesão, e a Cristo uma grande desonra. Isto, como podemos verificar, foi o que a igreja fez quanto à sua posição e ação corporativa. Sem dúvidas, houve muitos casos de fidelidade individual em meio ao declínio generalizado. O Próprio Senhor fala do Seu fiel Antipas, que foi martirizado. O céu toma especial nota da fidelidade individual, e se lembra do fiel pelo nome.

Mas o olho e o coração do Senhor tinha seguido Sua pobre e infiel igreja até onde ela tinha caído. “Conheço as tuas obras”, diz Ele, “e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás”. Que palavras solenes são estas, vindas dos lábios de seu desonrado Senhor! Nada era oculto a Seus olhos. “Eu sei”, Ele diz, “eu tenho visto o que aconteceu”. Mas o que, infelizmente, tinha agora acontecido? Por que a igreja, como um corpo, tinha aceitado os termos do imperador, e estava agora unida ao Estado, indo habitar no mundo? Isto era a Babilônia, espiritualmente – cometer fornicação com os reis da terra. Mas aquEle que anda no meio dos castiçais de ouro julga suas ações e sua condição. “E ao anjo da igreja que está em Pérgamo escreve: Isto diz aquele que tem a espada aguda de dois fios”. Ele toma o lugar de alguém armado com uma espada divina – o penetrante e incisivo poder da palavra de Deus. A espada é o símbolo do poder pelo qual as questões são resolvidas; seja ela a espada carnal das nações ou “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17).

Muitas vezes se ouve falar que sempre há uma conexão marcante e instrutiva entre o modo como Cristo Se apresenta, e o estado da igreja a qual Ele está se dirigindo. Isto é muito verdadeiro na carta em questão. A Palavra de Deus evidentemente tinha perdido seu lugar de direito na assembleia de Seus santos; ela não era mais a autoridade suprema nas coisas divinas. Mas o Senhor Jesus tem o cuidado de mostrar que ela não tinha perdido seu poder, ou lugar, ou autoridade em Suas mãos. “Arrepende-te, pois, quando não em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca”. Observe que ele não diz “batalharei contra vocês”, mas “contra eles”. Ao exercer disciplina na igreja, o Senhor age com discriminação e com misericórdia. A posição pública da igreja era agora uma posição falsa. Havia associação aberta com o príncipe deste mundo, no lugar de fidelidade a Cristo, o Príncipe dos céus. Mas aquele que tivesse um ouvido para ouvir o que o Espírito disse à igreja tinha uma secreta comunhão com aquEle que sustenta a alma fiel com o maná escondido. “Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe”. A deserção geral, sem dúvida, isolaria os poucos fiéis – um remanescente. A eles a promessa é dada.

O maná, como aprendemos em João 6, representa o Próprio Cristo, como aquEle que desceu do céu para dar vida a nossas almas. “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre” (João 6:51). Como aquEle que tomou o lugar de humilhação neste mundo, Ele é nossa provisão para o andar diário através do deserto. O maná devia ser colhido diariamente, fresco, das gotas de orvalho todas as manhãs. O “maná escondido” refere-se ao pote de ouro de maná que foi colocado na arca como um memorial diante do Senhor. É a bendita recordação de Cristo, que foi o Homem humilhado e sofredor neste mundo, e que é o eterno deleite de Deus e dos fiéis no céu. Não só a comunhão de verdadeiro coração dos santos com Cristo exaltado nas alturas, mas com Ele como aquele Jesus que uma vez foi humilhado aqui embaixo. Mas isso não pode ser se estivermos ouvindo as lisonjas e aceitando os favores do mundo. Nossa única força contra o espírito do mundo é andar com o Cristo rejeitado, e alimentarmo-nos dEle como nossa porção, mesmo agora. Nosso alto privilégio é comer, não apenas do maná, mas do “maná escondido”. Mas quem pode falar da bem-aventurança de tal comunhão, ou da perda daqueles que deixam seus corações escaparem de Cristo para se estabelecerem no mundanismo?

A “pedra branca” é uma marca secreta do favor especial do Senhor. Como a promessa é dada na carta a Pérgamo, isto pode significar a expressão da aprovação de Cristo quanto à maneira com que os “vencedores” testemunharam e sofreram por Ele, quando tantos foram levados pelas seduções de Satanás. Isto dá a ideia geral de uma promessa secreta de completa aprovação. Mas é difícil explicar. O coração pode entrar em sua bem-aventurança e ainda assim sentir-se incapaz de descrevê-la. Felizes aqueles que assim a conhecem em si mesmos. Há alegrias que são comuns a todos, mas há uma alegria, uma alegria especial, que será nossa própria alegria peculiar em Cristo, que durará para sempre. Isto será verdade para todos. “E na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe”. Que fonte indescritível de calmo repouso, doce paz, verdadeiro contentamento, e força divina, encontramos na “pedra branca”, e no “novo nome”, escrito por Suas próprias mãos. Outros podem nos interpretar mal, muitos podem pensar que estamos errados, mas Ele sabe tudo, e o coração pode aquietar-se, seja o que for que estiver acontecendo em nossas vidas. Ao mesmo tempo, devemos julgar tudo, inclusive nós próprios, pela Palavra de Deus – a espada afiada de dois gumes.

“Lá, no pão escondido

De Cristo – uma vez aqui humilhado –

Guardado por Deus – para sempre alimentar

Minh’alma, por seu amor, se animará.

Chamado por aquele nome secreto

De deleite não revelado

Bendita resposta ao opróbrio e vergonha –

Gravada na pedra branca.”

(tradução livre da poesia constante da edição original em inglês)

Tendo assim brevemente estudado a epístola a Pérgamo, seremos mais capazes de entender a mente do Senhor quanto à conduta dos cristãos sob o reinado de Constantino. A igreja professa e o mundo juntaram as mãos, e estavam agora se divertindo juntos. Como o mundo não poderia se erguer ao elevado nível da igreja, ela caiu ao baixo nível do mundo. Foi exatamente isto que aconteceu. No entanto, a forma justa do cristianismo foi mantida, e não há dúvidas de que havia muitos que mantiveram firmes a fé e o nome de Jesus. Retornemos agora à conversão e história de Constantino, o Grande.

A Conversão de Constantino (ano 312 d.C.)

O grande evento na história religiosa de Constantino aconteceu em 312. Ele estava marchando da França para a Itália contra Maxêncio. A aproximação da batalha foi um momento de extrema importância. Ou seria sua ruína, ou ele se ergueria ao pináculo do poder. Ele estava imerso em um profundo pensamento. Sabia-se que Maxêncio esteve fazendo grandes preparações para a luta, aumentando seu exército e escrupulosamente participando de todas as costumeiras cerimônias do paganismo. Ele consultou com diligência os oráculos pagãos, e confiou seu sucesso à ação dos poderes sobrenaturais.

Constantino, embora fosse um sábio e virtuoso pagão, ainda assim era um pagão. Ele sabia com o que iria batalhar, e enquanto considerava a que deus ele devia se dirigir para obter proteção e sucesso, ele pensou nos modos de seu pai, o imperador do Ocidente. Ele se lembrou de que ele tinha orado ao Deus dos cristãos e sempre foi próspero, enquanto os imperadores que perseguiam os cristãos foram visitados com justiça divina. Ele decidiu, então, deixar de lado o serviço dos ídolos, e pedir a ajuda do verdadeiro Deus nos céus. Ele orou para que Deus se tornasse conhecido a ele, e para que o fizesse vitorioso sobre Maxêncio, apesar de todas as artes mágicas e rituais supersticiosos.

Enquanto envolvido em tais pensamentos, Constantino imaginou ter visto, logo após o meio-dia, uma aparição extraordinária nos céus: o sinal de uma cruz brilhante e sobre ela a inscrição: “Por este símbolo vencerás”. O imperador e todo o exército, que foi testemunha desse maravilhoso sinal, ficaram tomados pelo pavor. Mas enquanto o imperador meditava seriamente sobre o que a visão poderia significar, a noite veio, e ele caiu no sono. Ele sonhou que o Salvador lhe tinha aparecido, segurando nas mãos o mesmo sinal que ele tinha visto nos céus, e o instruiu a fazer uma bandeira com o mesmo padrão, e usá-la como estandarte na guerra, lhe assegurando que enquanto ele o fizesse, seria vitorioso. Constantino, ao acordar, descreveu o que lhe foi mostrado enquanto dormia, e resolveu adotar o sinal da cruz como seu lábaro imperial.

O Estandarte da Cruz

De acordo com Eusébio, os artífices em ouro e pedras preciosas foram imediatamente chamados, e receberam as ordens dos lábios de Constantino. Eusébio tinha visto o estandarte e fornece um longo relato sobre isso. Como um enorme interesse é lançado sobre essa relíquia da antiguidade por todos os escritores eclesiásticos, daremos ao leitor uma breve, porém minuciosa, descrição dele.

A haste, ou suporte perpendicular, era longa e banhada a ouro. Em seu topo havia uma coroa, composta de ouro e pedras preciosas, com a gravação do símbolo sagrado da cruz e as primeiras letras do nome do Salvador, ou a letra grega X sobreposta à letra P (XPISTOS em grego). Logo sob esta coroa estava a figura do imperador em ouro, e embaixo um crucifico de madeira, no qual pendia uma bandeira quadrada de tecido púrpura, bordada e coberta com pedras preciosas. Isso foi chamado de Lábaro. Esse resplandecente estandarte era carregado à frente dos exércitos imperiais e guardado por cinquenta homens escolhidos, supostamente invulneráveis devido ao caráter deles.

Constantino também mandou chamar mestres cristãos, a quem ele questionou sobre o Deus que lhe apareceu, e a importância do símbolo da cruz. Isto deu-lhes a oportunidade de direcionar sua mente para a Palavra de Deus e de instruí-lo no conhecimento de Jesus e de Sua morte na cruz. A partir de então o imperador se declarava a si mesmo um convertido ao cristianismo. A confiança e expectativas supersticiosas de Constantino e de seu exército estavam agora elevadas ao máximo. A batalha decisiva aconteceu na ponte Mílvia. Constantino conquistou uma notável vitória sobre seu inimigo, embora suas tropas não chegassem a um quarto do número das tropas de Maxêncio.

O Decreto de Constantino e Licínio (313 d.C.)

O vitorioso imperador fez uma rápida visita a Roma. Dentre outras coisas que ele fez ali, ele ordenou que fosse erguida, no fórum, uma estátua sua segurando em sua mão direita o estandarte em forma de uma cruz, com a seguinte inscrição: “Por este sinal salutar, o verdadeiro símbolo de coragem, eu liberto tua cidade do jugo do tirano.” Maxêncio foi encontrado no rio Tibre na manhã após a batalha. O imperador evidentemente sentiu que estava em débito para com o Deus dos cristãos e para com o símbolo sagrado da cruz por suas vitórias. E isto, ousamos dizer, foi o ponto máximo de seu cristianismo naquele tempo. Como um homem, ele não tinha sentido necessidade de um Salvador, se é que alguma vez sentiu. Mas como guerreiro, ele abraçou a religião cristã com seriedade. Mais tarde, como um homem do Estado, ele reconheceu e valorizou o cristianismo, mas só Deus sabe se alguma vez, como um pecador perdido, ele aceitou o Salvador. É difícil para príncipes serem cristãos.

Constantino procede, então, em direção ao Ilírico para se encontrar com Licínio, com quem tinha formado uma aliança secreta antes de ir ao confronto contra Maxêncio. Os dois imperadores se encontraram em Milão, onde a aliança deles foi ratificada pelo casamento de Licínio com a filha de Constantino. Foi durante esse momento de paz que Constantino persuadiu Licínio para que consentisse em repelir os decretos de perseguição de Diocleciano, e a emissão de um novo decreto de completa tolerância. Tendo nisto concordado, um decreto público, assinados por ambos Constantino e Licínio, foi emitido em Milão, em 313 d.C., em favor dos cristãos, o que pode ser considerado como a maior garantia oficial da liberdade deles. Completa e ilimitada tolerância lhes foi concedida; suas “igrejas” e propriedades foram restauradas sem compensação; e, assim, exteriormente, o cristianismo florescia.

Mas a paz entre os imperadores, que parecia ter sido estabelecida sobre um fundamento firme, foi logo interrompida. Inveja, amor ao poder e a ambição pela soberania no império Romano não permitiriam que ficassem por muito tempo em paz. Uma guerra irrompeu no ano 314, mas Licínio foi derrotado com grandes perdas, tanto de homens quanto de território. Uma nova época de paz novamente começou, que durou cerca de nove ano. Uma nova guerra tornou-se inevitável, e mais uma vez assumiu a forma de embate religioso entre os imperadores rivais. Licínio aderiu à causa dos sacerdotes pagãos e perseguiu os cristãos. Ele condenou à morte muitos dos bispos que ele sabia que eram muito especiais e favoritos na corte de seu rival. Ambos os partidos faziam agora preparativos para um confronto que deveria resolver definitivamente a questão. Licínio, antes de sair para a guerra, sacrificou aos deuses e os louvou em discurso público. Constantino, por outro lado, confiou no Deus cujo símbolo acompanhava seu exército. Os dois exércitos hostis se encontraram. A batalha foi feroz, obstinada e sanguinária. Licínio não era um adversário qualquer, mas o gênio dominante, a atividade e a coragem de Constantino prevaleceu. A vitória estava completa. Licínio sobreviveu a sua derrota por cerca de apenas um ano. Ele morreu, ou talvez tenha sido assassinado em privado, em 326. Constanino tinha agora alcançado o auge de sua ambição. Ele se tornou o único soberano do Império Romano, e continuou assim até sua morte em 337. Para uma descrição da carreira política e militar desse grande príncipe devemos indicar ao leitor a história civil; vamos agora brevemente tomar nota de sua carreira religiosa.

A História Religiosa de Constantino

Tudo o que sabemos sobre a religião de Constantino até o período de sua assim chamada “conversão” indica que ele era, exteriormente, se não zelosamente, um pagão. O próprio Eusébio admite que ele estava, nesta época, em dúvida sobre qual religião abraçaria. Política, superstição, hipocrisia e inspiração sobrenatural foram as influências decisivas, em menor ou maior grau, em sua futura história religiosa. Mas seria certamente injusto supor que sua profissão do cristianismo, e suas declarações públicas em seu favor, eram nada mais do que uma deliberada e intencional hipocrisia. Tanto seu caminho religioso quanto eclesiástico admitem uma explicação muito mais elevada e natural. Mas também não podemos acreditar que tenha havido algo de inspiração divina, seja em sua visão ao meio-dia ou em seu sonho à noite. Pode ter ocorrido alguma aparição incomum no sol ou nas nuvens, que a imaginação converteu em um sinal miraculoso da cruz; e a outra aparição pode ter sido fruto do exagero de um sonho em decorrência de seu estado de elevada ansiedade: mas toda essa história pode agora ser considerada uma fábula, cheia de bajulações ao grande imperador, e muito gratificante para seu grande admirador e panegirista, Eusébio. Não há como colocá-la entre os registros autênticos da História.

Política e superstição tiveram, sem dúvida, uma grande influência na mudança que se operou na mente de Constantino. Desde sua juventude ele tinha testemunhado a perseguição aos cristãos e deve ter observado uma vitalidade na religião deles que se erguia acima do poder de seus perseguidores, e sobrevivia diante da queda de todos os outros sistemas. Ele tinha visto um imperador após outro, que tinham sido inimigos públicos do cristianismo, morrerem a mais terrível morte. Apenas seu pai – dentre todos os imperadores – o protetor do cristianismo durante a longa perseguição, tinha descido a um túmulo honrado e pacífico. Fatos tão marcantes não poderiam falhar em influenciar a mente supersticiosa de Constantino. Além disso, ele pode ter apreciado com sagacidade política a influência moral do cristianismo, sua tendência a impor obediência pacífica ao governo civil, e a imensa adesão que obviamente havia na mente de quase metade de seu império.

Os motivos do imperador, no entanto, são fazem parte da nossa história, não necessitando nos ocupar por muito mais tempo. Porém, de modo a enxergarmos com mais clareza esse período tão importante e de grande reviravolta na história da igreja, pode ser interessante olhar para o estado da igreja em que Constantino a encontrou em 313, e como ele a deixou em 337.

A Condição na Qual Constantino Encontrou a Igreja

Até esse tempo a igreja tinha sido perfeitamente livre e independente do Estado. Ela tinha uma constituição divina direta dos céus – e fora do mundo. Ela trilhava seu caminho, não pelo patrocínio do Estado, mas por poder divino, contra qualquer influência hostil. Em vez de receber apoio do governo civil, ela tinha sido perseguida desde o início como um inimigo estrangeiro, como uma obstinada e pestilenta superstição. Dez vezes foi permitido ao diabo levantar contra ela todo o mundo romano, que dez vezes teve que confessar sua fraqueza e derrota. Se ela tivesse mantido em mente o dia de suas bodas e o amor daquEe que diz “Nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja” (Efésios 5:29), ela nunca teria aceitado a proteção de Constantino ao custo de sua fidelidade a Cristo. Mas a igreja como um todo estava agora muito misturada com o mundo, e muito longe de seu primeiro amor.

Já vimos que, desde os dias dos apóstolos, houve um crescente amor pelo mundo e por sua pompa exterior. Por causa desta tendência, tão natural a nós todos, o Senhor permitiu, em amor, que Satanás a perseguisse. Mas a igreja, em vez de aceitar a prova como um castigo vindo da mão do Senhor, e desejando o mundanismo, se cansou de seu lugar e caminho de rejeição, e pensando que ainda assim poderia agradar e servir ao Senhor, passou a andar sob a luz do mundo. Esta ilusão satânica foi cumprida por Constantino, embora ele não soubesse o que estava fazendo. “Quaisquer que fossem os motivos de sua conversão”, diz Milman, “Constantino, sem dúvida, adotou uma política prudente e criteriosa, ao garantir a aliança, em vez de continuar a luta, com um adversário que dividia a riqueza, o intelecto, se não também a propriedade e a população do império.”

A União da Igreja com o Estado

No mês de março de 313, os proclamas da aliança profana entre a igreja e o Estado foram publicados em Milão. O celebrado decreto daquela data conferiu aos cristãos completa tolerância, e abriu o caminho para o estabelecimento legal do cristianismo e para sua ascensão sobre todas as outras religiões. Isto foi publicamente demonstrado no novo estandarte imperial – o Lábaro. Além das iniciais de Cristo2 e do símbolo de Sua cruz, havia também uma imagem do imperador em ouro. Estes signos, ou motes, foram concebidos como objetos de adoração, tanto para os soldados pagãos quanto cristãos, e para animar-lhes o entusiasmo no dia da batalha. Assim, aquele que é chamado de grande imperador cristão uniu publicamente o cristianismo e a idolatria.

Mas se temos entendido a mente de Constantino corretamente, não podemos hesitar em dizer que, naquele tempo, ele era um pagão de coração, e um cristão apenas por motivos militares. Foi apenas como um soldado supersticioso que ele tinha abraçado o cristianismo. Naquele momento ele estava pronto para receber a assistência de qualquer divindade tutelar em suas lutas pelo império universal. Não podemos ver qualquer traço de cristianismo, muito menos qualquer traço de zelo de um novo convertido: mas podemos facilmente identificar os traços da velha superstição do paganismo na roupagem nova de cristianismo. Se não fosse por tais considerações, o Lábaro teria sido a exibição da mais ousada desonra ao bendito Senhor. Mas foi tudo feito em ignorância. Ele estava também ansioso em atender às mentes de seus soldados e súditos pagãos, e dissipar-lhes os medos quanto à segurança de sua velha religião.

Os primeiros decretos de Constantino, embora favoráveis ao cristianismo em seus efeitos, foram dados em termos cautelosos de modo a não interferir nos direitos e liberdades do paganismo. Mas os cristãos gradualmente foram crescendo em seu favor, e seus atos de bondade e liberalidade falaram mais alto que os decretos. Ele não somente os restaurou quanto aos seus direitos civis e religiosos dos quais tinham sido privados, e as “igrejas” e propriedades que lhes tinham sido publicamente confiscadas na perseguição diocleciana; como também permitiu-lhes, por seus próprios presentes generosos, construir muitos novos lugares para suas assembleias. Ele demonstrou grande favor aos bispos e os tinha constantemente com ele no palácio, em suas viagens e em suas guerras. Ele também demonstrou seu grande respeito pelos cristãos ao entregar a educação de seu filho Crispo nas mãos do celebrado cristão Lactâncio. Mas com todo esse patrocínio real, ele assumiu a supremacia sobre os assuntos da igreja. Ele aparecia nos sínodos dos bispos sem seus guardas, se misturava em seus debates, e controlava a resolução das questões religiosas. A partir desse tempo o termo “Católica” era aplicado invariavelmente, em todos os documentos oficiais, à igreja.

Constantino como “Cabeça da Igreja” e Sumo Sacerdote dos Pagãos

Após a total derrota de Licínio, à qual já nos referimos, todo o mundo romano estava reunido sob o cetro de Constantino. Em sua proclamação emitida aos seus novos súditos no Oriente, ele declara a si mesmo como o instrumento de Deus para a disseminação da verdadeira fé, e que Deus tinha lhe dado a vitória sobre todos os poderes das trevas, de modo que sua própria adoração por seus próprios meios fosse universalmente estabelecida. “Liberdade”, diz ele, em uma carta a Eusébio, “sendo mais uma vez restaurada e, pela providência do grande Deus e de meu próprio ministério, o dragão sendo expulso da ministração do Estado, eu confio que o poder divino tenha se tornado manifesto a todos, e que aqueles que, através do medo ou incredulidade tenham caído em muitos crimes, chegarão ao conhecimento do verdadeiro Deus, e à correta e verdadeira ordem em suas vidas.” Constantino tinha então tomado seu lugar mais abertamente a todo o mundo como a “cabeça da igreja”; mas ao mesmo tempo retinha o ofício de Pontifex Maximus – o sumo sacerdote do paganismo; a isto ele nunca renunciou, tendo morrido como “cabeça da igreja” e sumo sacerdote do paganismo.

Esta aliança profana, ou mistura profana da qual já falamos, e que é mencionada e lamentada na carta a Pérgamo, se encontra em todos os passos na história desse grande príncipe histórico. Mas tendo já visto algumas explicações sobre a carta, deixaremos que o próprio leitor compare a verdade e a história de forma piedosa. Que misericórdia termos tal guia ao estudarmos esse marcante período da história da igreja!

Dentre os primeiros Atos do agora único imperador do mundo estava a revogação de todos os decretos de Licínio contra os cristãos. Ele libertou todos os prisioneiros das masmorras e das minas, ou da servil e humilhante ocupação a qual eles tivessem sido desdenhosamente condenados. Todos os que foram privados de seus postos no exército ou no serviço civil foram restaurados, e restituições foram feitas para as propriedades das quais tinham sido despojados. Ele emitiu um decreto endereçado a todos os seus súditos, aconselhando-lhes a abraçar o evangelho, mas não pressionando ninguém; ele desejava que fosse uma questão de convicção. Ele esforçou-se, no entanto, em torná-lo atraente concedendo lugares e honras a prosélitos das mais altas classes e doações aos pobres – uma atitude que, como reconhece Eusébio, produziu uma grande quantidade de hipocrisia e conversão fingida. Ele ordenou que “igrejas” fossem construídas em todos os lugares, e que tivessem o tamanho suficiente para acomodar toda a população. Ele proibiu a construção de estátuas aos deuses, e não permitia que sua própria estátua fosse colocada nos templos. Todos os sacrifícios oficiais foram proibidos, e de muitas formas ele se esforçou em elevar o cristianismo e suprimir o paganismo.

Os Efeitos do Favor Real

Chegamos agora à consideração do que tem sido o grande problema histórico dos homens de todos os credos, nações e paixões: a saber, quem causou maior dano à igreja e ao povo de Deus na terra: o Estado, que procura o avanço do cristianismo pelos modos mundanos ao seu comando, ou o poder terreno que se opõe pela violência? Devemos admitir que muito pode ser dito quanto à grande bênção da tolerância imparcial, e das grandes vantagens da supressão legal de todos os costumes perversos para a sociedade; mas o favor da corte sempre foi causa de ruína para a verdadeira prosperidade da igreja de Deus. É uma grande graça não ser molestado, mas é maior ainda a graça de não ser patrocinado por príncipes. O verdadeiro caráter dos cristãos é de estrangeiros e peregrinos neste mundo. A posse de Cristo, e de Cristo no céu, mudou tudo para os cristãos na terra. Eles agora pertenciam ao céu, e agora eram estrangeiros na terra. Eles são os servos de Cristo no mundo, embora não sejam do mundo. O céu é seu lar; aqui eles não têm cidade permanente. O que a igreja deveria esperar de um mundo que crucificou o seu Senhor? Ou ainda, o que ela deveria aceitar deste mundo? Sua verdadeira porção aqui é o sofrimento e rejeição; como diz o apóstolo: “Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro.” O Senhor pode poupar Seu povo, mas se a prova deve vir, não devemos pensar que algo estranho nos tenha acontecido. “No mundo tereis aflições” (Romanos 8:36, João 16:33)

O Testemunho da História

Até mesmo pela história podemos provar que foi melhor para o cristianismo quando os cristãos estavam sofrendo na fogueira por Cristo do que quando foram festejados nos palácios dos reis e cobertos pelos favores reais. Para ilustrar nossa questão, daremos ao leitor uma página da história da grande perseguição sob Diocleciano, e uma dos mais brilhantes dias de Constantino. Citaremos ambos dos escritos de Milman, mais tarde conhecido como Decano de St. Paul, e que, portanto, não pode ser suspeito de injustiça para com o clero. Falaremos apenas dos fiéis. É bem sabido que nas últimas perseguições, quando as assembleias dos cristãos tinham aumentado bastante, muitos provaram a infidelidade no dia da prova, embora estes eram comparativamente poucos, e muitos deles mais tarde se arrependeram.

“A perseguição tinha já durado seis ou sete anos (309), mas em nenhuma parte do mundo o cristianismo demonstrava qualquer sinal de decadência. Estava tão profundamente enraizado nas mentes dos homens, amplamente promulgado e vigorosamente organizado para ser incapaz de suportar esse violento, porém inútil, choque. Se sua adoração pública era suspensa, os crentes se reuniam em secreto, ou cultivavam na inexpugnável privacidade do coração os inalienáveis direitos da consciência. Mas, é claro, a perseguição caiu com maior peso sobre os mais eminentes do corpo. Aqueles que resistiam à morte eram animados pela presença das multidões que, se não se atreviam a aplaudir, mal podiam esconder sua admiração. Mulheres se aglomeravam para beijar as bordas das vestes dos mártires, e suas cinzas espalhadas, ou os ossos insepultos, eram roubados pelo zelo devoto de seus rebanhos.”

Sob o decreto emitido do leito de morte de Galério, a perseguição cessou, e aos cristãos foi permitido o livre e público exercício de sua religião. Este tempo de respirar durou apenas alguns meses. Mas que grandiosa a vista do que se seguiu, e que testemunho da verdade e do poder do cristianismo! O Decano continua dizendo:

“A cessação da perseguição acabou por mostrar sua extensão. As portas da prisão foram abertas, as minas devolveram seus trabalhadores condenados, em todo lugar fileiras de cristãos eram vistas se apressando até as ruínas de suas ”igrejas“ e visitando os lugares santificados por sua antiga devoção. As vias públicas, as ruas e os locais de mercado das cidades ficaram cheias de longas procissões cantando salmos de louvores por sua libertação. Aqueles que tinham mantido sua fé sob essas severas provas receberam as carinhosas congratulações de seus irmãos; aqueles que tinham falhado na hora da aflição se apressaram a confessar seu fracasso e a buscar por readmissão no então alegre rebanho.”

Vamos agora nos voltar para o estado alterado das coisas sob Constantino, cerca de vinte anos depois da morte de Galério. Observe a grande mudança na posição do clero.

“Os bispos apareciam como participantes regulares da corte, e as dissensões internas do cristianismo se tornaram assuntos de Estado. O prelado governava, agora nem tanto por sua admitida superioridade na virtude cristã, mas pela inalienável autoridade de seu ofício. Ele abria ou fechava a porta da ”igreja“, que era equivalente a uma admissão ou exclusão da felicidade eterna. Ele pronunciava as sentenças de excomunhão, que lançava para fora o trêmulo delinquente no meio dos perdidos e moribundos pagãos. Ele tinha seu trono na parte mais distinta do templo cristão, e embora ainda atuasse na presença e em nome de seu colégio de presbíteros, ainda assim era reconhecido como a cabeça de uma grande comunidade, sobre cujo destino eterno ele mantinha um vago, mas não por isso menos imponente e terrível, domínio.”3

Questões intelectuais e filosóficas tomaram o lugar da verdade do evangelho, e a mera religião exterior no lugar da fé, do amor, e da mente voltada para as coisas celestiais. Um Salvador crucificado, a verdadeira conversão, a justificação somente pela fé, a separação do mundo, são assuntos nunca conhecidos por Constantino, e provavelmente nunca introduzidos em sua presença. “A conexão entre o mundo físico e moral tinha se tornado um tópico geral e, pela primeira vez, tinha se tornado uma verdade primária de uma religião popular, e naturalmente, não podia se isentar da mescla com as paixões populares. A humanidade, mesmo dentro da esfera do cristianismo, retornou à condição judia mais inflexível e, em seu espírito, assim como em sua linguagem, o Antigo Testamento começou a dominar sobre o evangelho de Cristo.”

O Verdadeiro Caráter da Igreja Desaparece

Por mais agradável, para a mera natureza, que pudesse parecer a luz do favor imperial, ela foi a destruidora do verdadeiro caráter do cristão individual e da igreja como conjunto. Tanto o testemunho de um Cristo rejeitado na terra quanto de um Cristo exaltado no céu foram esquecidos. O mundo era batizado, em vez de somente os crentes como estando mortos e ressuscitados com Cristo – como tendo morrido em Sua morte, e ressuscitado em Sua ressurreição. A Palavra de Deus é clara: “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Colossenses 2:12). O batismo é aqui usado como um símbolo tanto da morte quanto da ressurreição. Mas a quem essa solene e sagrada ordenança era agora administrada? Novamente, repetimos: ao mundo romano. A fé em Cristo, o perdão dos pecados e a aceitação no Amado não eram critérios para o batismo por parte do subserviente clero.

Sendo a profissão do cristianismo vista então como o caminho seguro para a riqueza e honra, todos os níveis e classes da sociedade se candidataram ao batismo. Nas festas da Páscoa e do Pentecostes, milhares, todos vestidos com as vestes brancas do neófito4, se aglomeravam ao redor de diferentes “igrejas”, aguardando serem batizadas. O número de pessoas era tão grande, e toda a cena era tão marcante, que muitos pensaram que tais novos convertidos fossem a inumerável multidão mencionada no livro do Apocalipse, que estaria diante do Cordeiro trajada de vestes brancas. De acordo com alguns escritores, cerca de doze mil homens, além das mulheres e crianças, foram batizados em um só ano em Roma, e uma túnica branca, com vinte peças de ouro, foi prometida pelo imperador para cada novo convertido das classes mais pobres. Sob tais circunstâncias, e por estes recursos mercenários, concretizou-se a queda do paganismo, e o cristianismo sentou no trono do mundo romano.

O Batismo e Morte de Constantino

O batismo de Constantino deu origem a quase tanta especulação quanto sua conversão. Apesar do grande zelo que ele demonstrava em favor do cristianismo, ele adiou seu batismo e, consequentemente, sua recepção na igreja, até a aproximação de sua morte. Muitos motivos, tanto políticos quanto pessoais, foram sugeridos por diferentes escritores como as razões do adiamento; mas tememos que o verdadeiro era pessoal. A superstição já tinha, nessa época, ensinado os homens a conectarem o perdão dos pecados ao rito do batismo. Sob esse terrível engano Constantino parece ter adiado seu batismo até que não pudesse mais desfrutar de suas honrarias imperiais e saciar suas paixões nos prazeres do mundo. É impossível conceber qualquer indulgência papal mais destrutiva para a alma, mais desonrosa para o cristianismo, e mais perigosa para toda a virtude moral. Era uma licença para que pessoas como Constantino perseguissem os grandes objetos de sua ambição por meio dos tenebrosos caminhos de sangue e crueldade, uma vez que colocava em suas mãos maneiras de conseguir um perdão fácil quando fosse conveniente. Mas, por outro lado, podemos pensar que tenha sido uma grande misericórdia do Senhor que alguém cuja vida privada e doméstica – assim como sua carreira pública – fosse tão manchada de sangue, não professasse publicamente o cristianismo ao receber o batismo e participar da ceia do Senhor.

Os bispos, a quem ele chamou ao palácio da Nicomédia em sua última doença, ouviram sua confissão, se deram por satisfeitos e o abençoaram. Eusébio, bispo da Nicomédia, o batizou! Ele agora professava, pela primeira vez, que se Deus poupasse sua vida ele se uniria à assembleia de Seu povo, e que, tendo usado as vestes brancas do neófito, ele jamais usaria novamente o púrpura do imperador. Mas essas decisões foram feitas tarde demais: ele morreu pouco tempo depois de seu batismo, no ano 337:5

Helena, a mãe do imperador, merece uma breve menção. Ele abraçou a religião professada por seu filho. Sua devoção, piedade e generosidade eram grandes. Ela viajou por vários lugares, visitando os lugares sagrados que tinham sido cenários dos principais eventos da história das Escrituras, e ordenou que o templo de Vênus, que Adriano tinha construído no local do santo sepulcro, fosse demolido, e deu instruções para que uma “igreja”, que deveria exceder todas as outras em esplendor, fosse construída no local. Ela morreu em 328 d.C.

Já vimos, infelizmente com tanta clareza, a verdade dolorosa das palavras do Senhor, de que a igreja estava habitando onde estava o trono de Satanás. Constantino a deixou lá. Ele a encontrou aprisionada em minas, masmorras e catacumbas, e afastada da luz do céu, e a colocou no trono do mundo. Mas o quadro ainda não está completo: devemos tomar nota de outras características na história, recorrendo à semelhança na epístola.

O reinado de Constantino foi marcado não apenas pela igreja sendo retirada de seu lugar correto através dos enganos de Satanás, mas também pelos amargos frutos dessa mudança degradante. As sementes do erro, da corrupção e da dissensão se espalharam rapidamente, e agora apareciam publicamente perante os tribunais do mundo, e em alguns casos diante do mundo pagão.

As Controvérsias do Donatismo e do Arianismo

Duas grandes controvérsias – o donatismo e o arianismo – tiveram seu início nesse reinado: o primeiro surgiu no Ocidente a partir de uma disputada nomeação à dignidade episcopal em Cartago; e o último, de origem oriental, envolvia os próprios fundamentos do cristianismo. O arianismo era uma questão de doutrina, e o donatismo de prática. Ambos estavam corrompidos em suas próprias fontes e essências, e podem ser representados pelo falso profeta e, especialmente, pelos nicolaítas. Vamos agora observar brevemente essas duas cismas, uma vez que lançam luz sobre a natureza e os resultados da união da igreja com o Estado. O imperador tomava parte nos conselhos dos bispos como “cabeça da igreja”.

Na morte de Mensúrio, bispo de Cartago, um concílio de bispos das redondezas foi convocado para nomear seu sucessor. O concílio era pequeno – pois a organização estava por conta de Botrus e Celésio, dois presbíteros que aspiravam ao cargo – mas foi Ceciliano, um diácono que era muito amado pela congregação, que foi eleito bispo. Os dois desapontados presbíteros protestaram contra a eleição. Mensúrio morreu estando ausente de Cartago em uma viagem, mas antes de sair de casa ele tinha confiado alguns bens da igreja a alguns anciãos da congregação, e tinha deixado um inventário nas mãos de uma mulher piedosa. Este foi entregue a Ceciliano que, é claro, exigiu que os artigos dos anciãos fossem devolvidos, mas eles não estavam disposto a entregá-los, uma vez que supunham que ninguém jamais iria perguntar sobre eles após o velho bispo ter morrido. Assim eles se uniram ao partido de Botrus e Celésio, em oposição ao novo bispo. A cisma foi também apoiada pela influência de Lucila, uma senhora rica a quem Ceciliano tinha anteriormente ofendido por uma repreensão piedosa; e assim toda a província assumiu o direito de interferir no assunto.

Donato, bispo de Casa Nigra, colocou-se à frente da facção cartaginesa. Segundo, primaz de Numídia, por convocação de Donato, apareceu em Cartago liderando setenta bispos. Este auto-instituído concílio intimou Ceciliano a comparecer perante eles, alegando que ele não deveria ter sido consagrado exceto na presença deles e do primaz da Numídia; além disso, considerando que Ceciliano tinha sido um traditor6 , não podia ser bispo, e assim o concílio declarou anulada sua eleição. Ceciliano se recusou a reconhecer a autoridade do concílio, mas eles prosseguiram em eleger Majorino para o cargo de bispo, que eles declararam vago pela excomunhão de Ceciliano. Infelizmente, para a reputação dos bispos, Majorino pertencia à família de Lucila que, para apoiar a eleição, doou grandes somas de dinheiro para garantir a eleição, que os bispos dividiram entre si. Uma cisma decidida estava agora formada, e muitas pessoas que estavam indiferentes a Ceciliano, depois disso, voltaram a ter comunhão com ele.

Alguns relatos dessas discórdias chegaram aos ouvidos de Constantino. Ele tinha acabado de se tornar o senhor do Ocidente, e tinha enviado uma grande soma de dinheiro para o alívio das igrejas africanas. Eles tinham sofrido muito durante as últimas perseguições. Mas, como os donatistas eram tidos como sectários, ou dissidentes da verdadeira igreja católica, ele ordenou que os presentes e privilégios conferidos aos cristãos pelos último decretos fossem limitados àqueles em comunhão com Ceciliano. Isto levou os donatistas a uma petição ao imperador, desejando que sua causa pudesse ser examinada pelos bispos da Gália, de quem supunham que a imparcialidade poderia ser esperada. Aqui, pela primeira vez, temos uma aplicação do poder civil para nomear uma Comissão de Juízes Eclesiásticos.

Constantino concordou: um concílio foi realizado e Roma, em 313, que consistiu de cerca de vinte bispos. A decisão foi a favor de Ceciliano, que logo a seguir propôs termos de reconciliação e reunião; mas os donatistas desprezaram qualquer compromisso. Eles suplicaram ao imperador por outra audiência declarando que um sínodo de vinte bispos era insuficiente para anular a sentença de setenta que tinham condenado Ceciliano. Por esta representação Constantino convocou outro concílio. O número de bispos presentes era muito grande, vindos da África, Itália, Sicília, Sardenha, e especialmente da Gália. Esta foi a maior assembleia eclesiástica que houve até então. Eles se reuniram em Arles, no ano de 314. Ceciliano foi novamente absolvido, e vários decretos canônicos foram estabelecidos com vista ao término das dissensões africanas.

Nesse meio-tempo Majorino morreu, e um segundo Donato foi apontado como seu sucessor. Ele foi apelidado pelos seus seguidores como “o Grande”, a fim de distingui-lo do primeiro Donato. Ele é descrito como alguém erudito, eloquente, de grande capacidade, e que possuía a energia e o zelo ardente do temperamento africano. Os sectários, como eram chamados, assumiram então a alcunha de os donatistas, tomando o caráter, assim como o nome, de seu chefe.

Constantino como o Árbitro das Diferenças Eclesiásticas

Novamente os donatistas suplicaram ao imperador pela causa deles, e nessa ocasião para levar a questão inteiramente por suas próprias mãos, ao que ele concordou, embora ofendido pela obstinação deles. Ele ouviu o caso em Milão no ano 316, onde proferiu a sentença em concordância com os concílios de Roma e Arles. Ele também emitiu decretos contra eles, aos quais ele mais tarde repeliu ao ver as perigosas consequências das medidas violentas. Mas o donatismo logo se tornou uma cisma feroz, generalizada e intolerante na igreja. Já em 330 eles tinham crescido tanto que um sínodo foi realizado por 270 bispos, e em alguns períodos de sua história houve sínodos de cerca de 400 bispos. Eles provaram ser uma grande aflição para as províncias da África por mais de 300 anos – na verdade, até a época da invasão maometana.

Reflexões sobre a Primeira Grande Cisma na Igreja

Como esta foi a primeira cisma que dividiu a igreja, pensamos ser interessante nos ocuparmos com alguns detalhes. O leitor pode aprender algumas lições necessárias a partir dessa divisão memorável. Ela começou com um incidente tão insignificante em si que mal mereceria um lugar na história. Não havia qualquer questão de má doutrina ou de imoralidade, mas apenas uma eleição disputada para a Sé de Cartago. Um pouco de correção, um pouco de abnegação, um verdadeiro desejo pela paz, unidade e harmonia da igreja, e acima de tudo um cuidado adequado pela glória do Senhor, teriam prevenido centenas de anos de tristeza por dentro e desgraça por fora para a igreja de Deus. Mas ao orgulho, à avareza e à ambição – tristes frutos da carne – foi permitido que realizassem seu terrível trabalho. O leitor também pode ver, pelo lugar que o imperador tinha nos concílios da igreja, quão cedo sua posição e caráter foram totalmente alterados. Quão estranho deve ter parecido para Constantino que, imediatamente após ter adotado a cruz como seu estandarte, um apelo fosse feito ao seu próprio tribunal por uma decisão episcopal sobre assuntos eclesiásticos! Isto provou a condição do clero. Mas devemos notar as consequências que tal apelo envolve: se a parte contra quem a sentença do poder civil foi dada se recusasse a acatá-la, eles se tornariam transgressores da lei. E foi exatamente isso o que aconteceu.

Os donatistas foram, portanto, tratados como ofensores das leis imperiais; eles foram privados de suas “igrejas” e muitos deles sofreram banimento e confiscação. Até mesmo a pena de morte foi decretada contra eles, embora não pareça que essa lei tenha sido aplicada em qualquer caso durante o reinado de Constantino. Medidas poderosas, no entanto, foram utilizadas pelo Estado visando compelir os donatistas a se reunirem com os católicos. Mas, como é comum em tais casos, e como a experiência tem sempre demonstrado, a força que era usada para compeli-los apenas serviu para desenvolver o espírito selvagem da facção que já existia em sua semente. Despertados pela perseguição, estimulados pelo discursos de seus bispos e especialmente por Donato, que era a cabeça e alma de seu partido, eles incorreram em toda espécie de fanatismo e violência.

Constantino, ensinado pela experiência, por fim descobriu que, embora ele pudesse dar proteção à igreja, ele não podia dar-lhe paz. E assim ele emitiu um decreto concedendo aos donatistas total liberdade de agir de acordo com suas próprias convicções, declarando que isto era um assunto que pertencia ao julgamento de Deus.7

A Controvérsia Ariana

Mal tinha a paz exterior da igreja sido assegurada pelo decreto de Milão e ela foi distraída por dissensões internas. Pouco após o rompimento da cisma donatista na província da África, a controvérsia ariana, que tinha sua origem no Oriente, se estendeu a todas as partes do mundo. Já falamos dessas raivosas contendas como o mais amargo fruto da união antibíblica da igreja com o Estado. Não que elas necessariamente surgiram a partir dessa união, mas pelo fato de Constantino ter se tornado o chefe declarado e ostensivo da igreja, e por ele presidir em suas assembleias solenes, questões de doutrina e prática produziam uma agitação por todo o corpo da igreja, e não apenas na igreja como também exerciam uma poderosa influência política sobre os assuntos do mundo. Sendo o império então cristão, ao menos em princípio, tais questões eram de interesse e importância mundial. A partir daí a controvérsia ariana foi a primeira que rasgou todo o corpo de cristãos, e dispôs em quase todas as partes do mundo os partidos hostis em implacável oposição.

Heresias de natureza semelhante à de Ário tinham aparecido na igreja antes de sua ligação com o Estado, mas sua influência raramente se estendia além da região e do período de seu nascimento. Após alguns debates ruidosos e palavras raivosas, a heresia caía em desonra, e era logo quase esquecida. Mas foi muito diferente com a controvérsia ariana. Constantino, que se sentava no trono do mundo e assumia ser a única cabeça da igreja, interpôs sua autoridade de modo a prescrever e definir os princípios precisos da religião que ele tinha estabelecido. A Palavra de Deus, a vontade de Cristo, o lugar do Espírito, as relações celestiais da igreja, foram todas perdidas de vista – ou melhor, nunca tinham sido vistas pelo imperador. Ele tinha provavelmente ouvido algo sobre as numerosas opiniões pelas quais os cristãos se dividiam; mas ele viu, ao mesmo tempo, que eles eram uma comunidade que tinha continuado a avançar em vigor e magnitude; que eles eram realmente unidos em meio às heresias, e fortes sob a mão de ferro da opressão. Mas ele não podia ver, nem podia entender, que então, apesar de seu fracasso, ela estava olhando para o Senhor e inclinando-se apenas nEle neste mundo. Qualquer outra mão estava contra ela e era guiada pelo trabalho e pelo poder do inimigo. Mas, declaradamente, ela estava prosseguindo através do deserto, encostada em seu Amado, e nenhuma arma forjada contra ela podia prosperar.

O imperador, sendo completamente ignorante das relações celestiais da igreja, pode ter pensado que, como ele podia dar-lhe completa proteção da opressão externa, ele podia também, pela sua presença e poder, dar-lhe paz e descanso das dissensões internas. Mas ele mal sabia que, não obstante estas estarem muito além de seu alcance, a própria segurança, facilidade mundana e indulgência que ele tão generosamente concedia ao clero eram os principais meios que fomentavam discórdias e inflamavam as paixões dos disputantes. E assim aconteceu que ele era continuamente atacado pelas reclamações e acusações mútuas de seus novos amigos.

O Início do Arianismo

O arianismo foi o crescimento natural das opiniões gnósticas, e Alexandria, o viveiro das questões metafísicas e distinções sutis, seu local de nascimento. Paulo de Samósata e Sabélio da Líbia, no terceiro século, ensinavam falsas doutrinas similares à de Ário no quarto século. As seitas gnósticas em suas diferentes variedades, e a maniqueísta, que era a religião persa com uma mistura de cristianismo, podem ser consideradas religiões rivais, mas como facções cristãs, no entanto, todas elas fizeram sua obra má entre os cristãos quanto à doutrina da Trindade. Quase todas essas heresias, como são comumente chamadas, tinham caído sob o descontentamento real, e seus seguidores eram sujeitos a regulamentos penais. Os montanistas, paulitas, novacianos, marcionitas e valentinianos estavam entre as seitas proscritas e perseguidas. Mas havia uma outra heresia, uma mais profunda e tenebrosa, e muito mais influente do que qualquer outra que já tinha aparecido, que estava para estourar a partir do próprio seio da assim chamada “santa igreja católica”. A seguir temos um relato do que aconteceu.

Alexandre, o bispo de Alexandria, em uma reunião com seus presbíteros, parece ter se expressado livremente sobre o assunto da Trindade, quando Ário, um dos presbíteros, questionou a verdade das posições de Alexandre, alegando que estavam aliadas aos erros sabelianos, que tinham sido condenados pela igreja. Essa disputa levou Ário a declarar suas próprias visões sobre a Trindade, que eram, em essência, a negação da divindade do Salvador – que Ele seria apenas o primeiro e mais nobre dos seres criados, formado a partir do nada por Deus Pai – que, embora imensuravelmente superior em poder e em glória aos mais elevados seres criados, Ele seria inferior ao Pai. Ele também defendia que, embora inferior ao Pai em natureza e em dignidade, Ele é a imagem do Pai e o representante do poder divino pelo qual Ele criou os mundos. Quais eram suas visões sobre o Espírito Santo não são tão claramente expostas.8

O arianismo não apenas é inconsistente com o lugar dado ao Filho do começo ao fim das Escrituras, como também com a obra infinita de reconciliação e nova criação, e é distintamente refutada de antemão por muitas passagens das Sagradas Escrituras. Pode ser interessante citar algumas delas aqui. Aquele que, quando nascido de mulher, foi chamado Jesus, o Espírito de Deus declara (João 1:1–3) ser, no princípio, o Verbo que estava com Deus e era Deus. “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”. É impossível conceber um testemunho mais poderoso de Sua subsistência não criada, de Sua personalidade distinta quando Ele estava com Deus antes da criação, e de Sua natureza divina. Ele é aqui mencionado como o Verbo, cujo correlato não é o Pai, mas Deus (e assim deixando espaço para o Espírito Santo); mas, para que Sua própria consubstancialidade fosse enfatizada, Ele é cuidadosa e definitivamente declarado Deus9. Voltando para além do tempo e da criatura, tão longe quanto alguém possa pensar, “no princípio era o Verbo”. A linguagem é muito precisa: Ele estava no princípio com Deus, não no sentido de vir a ser ou chegar a ser, mas “Ele estava” em Seu próprio absoluto ser. Todas as coisas “vieram à existência” através dEle. Ele foi o Criador tão completamente que o apóstolo João acrescenta: “sem ele nada do que foi feito se fez”. Por outro lado, quando a encarnação é afirmada no versículo 14, a linguagem é: “E o Verbo se fez carne”, não no sentido de ser absoluto, mas no sentido de vir a ser. Além disso, quando Ele veio entre os homens, Ele é descrito como “o Filho unigênito, ’que está’ [não apenas que estava ou esteve] no seio do Pai” (João 1:18) – uma linguagem ininteligível e confusa a menos que se considere como demonstração de que Sua humanidade de modo algum diminui Sua divindade, e que a proximidade infinita do Filho com o Pai sempre subsiste.

Novamente, Romanos 9:5 é uma rica e precisa expressão da imutável e suprema Divindade de Cristo igualmente com o Pai e o Espírito. Cristo veio, “o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém”. Os esforços dos críticos heterodoxos dão testemunho de toda a importância da verdade que eles em vão procuram abalar por esforços artificiais que somente fazem transparecer a insatisfação de seus autores. Não há mais enfática afirmação da suprema divindade em toda a Bíblia; porque a humilhação do Filho na encarnação e na morte de cruz a torna a mais cabal prova da divina supremacia que pode ser usada a favor dEle.

Em seguida, o apóstolo diz de Cristo: “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.” (Colossenses 1:15–17). Os devaneios dos gnósticos são aqui antecipadamente cortados fora, pois demonstra que Cristo foi o chefe de toda a criação porque Ele foi o Criador, tanto dos seres invisíveis mais elevados quanto dos visíveis: todas as coisas são ditas terem sido criadas para Ele assim como por Ele; e como Ele é antes de tudo, assim tudo subsiste juntamente em virtude dEle.

A única outra passagem que preciso agora referenciar é Hebreus 1, onde o apóstolo ilustra a plenitude da Pessoa de Cristo entre outras escrituras do Antigo Testamento como o Salmos 45e 102. No primeiro Ele é tratado como Deus e ungido como homem; no outro Ele é reconhecido como Jeová, o Criador, após Ele ser ouvido derramando Sua aflição como o rejeitado Messias.

É impossível, então, aceitar a Bíblia sem rejeitar o arianismo como um libelo hediondo contra Cristo e a verdade, pois não existe maior certeza de que Ele tenha se tornado um homem do que Ele ser Deus antes da criação, sendo Ele Próprio o Criador, o Filho e Jeová.

Alexandre, indignado com as objeções de Ário contra ele, e por causa de suas opiniões, o acusou de blasfêmia. “O ímpio Ário”, exclamou, “o precursor do Anticristo se atreveu a proferir suas blasfêmias contra o divino Redentor”. Ele foi julgado por dois concílios reunidos em Alexandria, e expulso da igreja. Ele se retirou para a Palestina, mas de modo nenhum desencorajado por sua desgraça. Muitos simpatizavam com ele, dentre eles dois clérigos chamados de Eusébio: um da Cesareia, o historiador eclesiástico, e outro, bispo da Nicomédia, um homem de imensa influência. Ário manteve uma correspondência animada com seus amigos, ocultando suas opiniões mais ofensivas, e Alexandre emitiu avisos contra ele, e recusou todas as intercessões de seus amigos que o queriam restaurado. Mas Ário era um antagonista astuto. Ele é descrito na história como uma pessoa alta e graciosa, calmo, pálido e de aparência branda; de discurso popular, mas com argumentação afiada; de vida rigorosa e irrepreensível, e de modos agradáveis; mas assim, sob um exterior humilde e mortificado, ele ocultou os mais fortes sentimentos de vaidade e ambição. O adversário tinha habilmente selecionado seu instrumento. A aparente posse de tantas virtudes o tornou adequado para o propósito do inimigo. Sem essas aparências de justo ele não teria poder algum para enganar.

A Primeira Impressão de Constantino sobre a Controvérsia

A dissensão logo se tornou tão violenta que julgou-se necessário apelar ao imperador. Ele, a princípio, considerou a questão toda como totalmente insignificante e sem importância. Ele escreveu uma carta a Alexandre e Ário em conjunto, na qual ele os reprova por contender sobre questões ociosas e diferenças imaginárias, e recomenda que eles suprimissem todos os sentimentos profanos de animosidade, e que vivessem em paz e unidade10. É mais que provável que o imperador não tivesse ideia da séria natureza da disputa, ou não teria falado dela como insignificante e sem importância: mas se a carta foi elaborada por Hosius, bispo de Córdoba, como muitos acreditam, ele não podia alegar ignorância de seu caráter, e deve ter escrito o documento de acordo com os sentimentos expressos por Constantino, e não de acordo com seu próprio julgamento. A carta foi altamente exaltada por muitos como um modelo de sabedoria e moderação, e, se não fosse a questão de maior abrangência que fixar a data da Páscoa, realmente mereceria tal elogio. Mas a Divindade e a glória de Cristo estavam em questão e, consequentemente, a salvação da alma.

Hosius foi enviado ao Egito como o comissário imperial, a quem a resolução do caso foi confiada. Mas ele descobriu que a dissensão ocasionada pela controvérsia tinha se tornado tão séria que ambas as partes se recusaram a ouvir as advertências do bispo, mesmo acompanhado da autoridade do soberano.


N. do T.: no sentido de profissão cristã↩

As letras normalmente empregadas para representar o nome do Salvador eram LH.S, que significa Jesu Hominum Salvator – Jesus, o Salvador dos homens.↩

História do Cristianismo, vol. 2, pp. 283–308. Neander, vol. 3, p. 41. Vida de Constantino, por Eusébio.↩

N. do T.: neófito é o mesmo que “novo convertido”. As vestes do neófito eram trajes brancos usados pelos novos convertidos na ocasião do batismo.↩

Vida de Constantino, de Eusébio, p. 147↩

“Um nome de infâmia dado àqueles que, para salvarem suas vidas durante a perseguição, tinham entregue as Escrituras ou bens da igreja aos perseguidores.” Milner, vol. 1, p. 513↩

Neander, vol. 3, p. 244; Robertson, vol. 1, p. 175; Milman, vol. 2, p. 364.↩

A doutrina blasfema de Ário era um desdobramento do gnosticismo, talvez a menos ofensiva em aparência, mas direta e inevitavelmente destrutiva para a glória pessoal do Filho como Deus e, portanto, derrubava as bases da redenção. O unitarianismo moderno nega que o Senhor Jesus seja mais que um homem, negando até mesmo Seu nascimento sobrenatural da virgem Maria. No entanto, Socino afirmou que houve uma modificação singular em sua exaltação após Sua ressurreição, constituindo-O como um objeto adequado de adoração divina. Ário parecia se aproximar da verdade quanto a Sua preexistência antes de ter vindo ao mundo, e afirmava que Ele é o Filho de Deus, que criou o universo, mas manifestava que Ele próprio tinha sido criado, mesmo sendo a primeira e mais elevada das criaturas. Não era a mesma coisa que a negação sabeliana das personalidades distintas, mas a negação de que o Filho, e é claro também o Espírito, são a verdadeira, distintiva, essencial e eterna Divindade.↩

A ausência do artigo aqui é necessariamente devido ao fato de que meos é o predicado de o Aoyos, que de modo nenhum poderia dar um sentido inferior de Sua Divindade, o que contradiria o próprio contexto. De fato, se o artigo tivesse sido inserido, seria uma heterodoxia muito grosseira, pois seus efeitos seriam a negação de que o Pai e o Espírito são Deus ao excluir a todos menos o Verbo da Divindade.↩

Veja a Carta em Vida de Constantino, de Eusébio, vol. 2↩

Roma e seus Governantes (313 d.C.—397 d.C.)

O Concílio de Niceia

Constantino se via agora obrigado a analisar com mais atenção a natureza da disputa. Ele começou a entender que a questão não tinha nada de insignificante, mas era da mais alta e essencial importância; e assim resolveu convocar uma assembleia de bispos de modo a estabelecer a verdadeiro doutrina, e para dissipar para sempre, como ele em vão esperava, esta propensão à disputa hostil. Tudo o que era necessário para a viagem dos bispos foi fornecido a cargo público, como se fosse um assunto de Estado.

No mês de junho de 325 d.C., o primeiro concílio geral da igreja se reuniu em Niceia, na Bitínia. Cerca de 318 bispos estavam presentes, além de um número muito grande de sacerdotes e diáconos. “A flor dos ministros de Deus”, como diz Eusébio, “de todas as igrejas que abundam na Europa, África e Ásia, agora se reuniram”. O espetáculo era totalmente novo, e certamente ninguém estava tão surpreso como os próprios bispos. Não havia passado muitos anos desde que foram marcados como os objetos da mais cruel perseguição. Eles tinham sido escolhidos por causa de sua eminência como vítimas peculiares da política de extermínio do governo. Muitos deles levavam em seus corpos as marcas dos sofrimentos por Cristo. Eles tinham conhecido o que era ser conduzido ao exílio, trabalhar em minas, ser exposto a todo o tipo de humilhação e insulto. Mas agora tudo tinha mudado, mudado tanto que eles mal podiam acreditar que aquilo era realidade e não uma visão. Os portões do palácio se abriram para eles, e o imperador do mundo agiu como o moderador da assembleia.

Nada podia confirmar e declarar tanto ao mundo a triste queda da igreja e sua submissão ao Estado como o lugar que tinha o imperador nesses concílios. Ele não chegou em Niceia até o dia 3 de julho. No dia seguinte os bispos se reuniram no hall do palácio, que tinha sido preparado para o propósito. Aprendemos de Eusébio que a assembleia se sentou em profundo silêncio, enquanto os grandes oficiais do Estado e outras pessoas honráveis entravam no salão, e assim esperaram em trêmula expectativa a aparição do imperador. Constantino, com muita demora, entrou; ele estava vestido esplendidamente: os olhos dos bispos ficaram ofuscados com o ouro e as pedras preciosas de seu traje. A assembleia inteira levantou-se para dar-lhe honra. Ele avançou até um assento de ouro preparado para ele, e ali ficou parado em pé, em respeitosa deferência aos dignatários espirituais, até que foi convidado a se sentar. Após cantarem um hino de louvor, ele deu uma exortação sobre a importância da paz e união. O concílio sentou-se ali por pouco mais de dois meses, e Constantino parece ter estado presente durante a maior parte das sessões, ouvindo com paciência, e conversando livremente com os diferentes prelados.

O Credo Niceno

A celebrada confissão de fé geralmente chamada de “O Credo Niceno” foi o resultado das longas e solenes deliberações da assembleia. Eles decidiram contra as opiniões arianas, e firmemente mantiveram as doutrinas da Santíssima Trindade, da verdadeira Divindade de Cristo, e de Sua unidade com o Pai em poder e glória. O próprio Ário foi levado perante o concílio e questionado quanto à sua fé e doutrina; ele não hesitou em repetir, como sua crença, as falsas doutrinas que tinham destruído a paz da igreja. Enquanto ele avançava com suas blasfêmias, os bispos concordemente taparam os ouvidos e clamaram que tais opiniões ímpias eram dignas de anátema juntamente com seu autor. Santo Atanásio, embora fosse no momento apenas um diácono, chamou a atenção de todo o concílio por seu zelo em defesa da verdadeira fé, e por sua penetração em desvendar e expor os artifícios dos heréticos. Veremos mais sobre o nobre Atanásio mais adiante.

Este famoso credo foi assinado por todos os bispos presentes, com a exceção de uns poucos arianos. Sendo a decisão do concílio apresentada perante Constantino, ele imediatamente reconheceu a aprovação unânime do concílio como obra de Deus, e a recebeu com reverência, declarando que todas as pessoas que se recusassem a se submeter a ela deveriam ser banidas. Os arianos, ouvindo isso, impelidos pelo medo assinaram a fé estabelecida pelo concílio. Eles, portanto, colocaram-se numa posição em que podiam ser acusados de serem homens desonestos. Apenas dois bispos, Segundo e Teonas, ambos egípcios, continuaram a aderir a Ário, e foram banidos com ele para a Ilíria. Eusébio da Nicomédia e Teognis de Niceia foram condenados cerca de três meses depois, e sentenciados pelo imperador ao banimento. Várias penalidades foram então denunciadas contra os seguidores de Ário: todos os seus livros foram sentenciados a serem queimados, e era até mesmo considerada ofensa capital esconder qualquer de seus escritos. Tendo concluído o trabalho, os bispos se dispersaram para suas respectivas províncias. Além da solene declaração da opinião deles sobre a doutrina em questão, eles finalmente definiram também sobre a questão relacionada a celebração da Páscoa1 e estabeleceram alguns outros assuntos que foram levados diante deles.

Constantino Muda de Ideia

Como o imperador não tinha um juízo independente próprio sobre os assuntos eclesiásticos, e certamente não tinha discernimento espiritual para essas controvérsias doutrinárias, não podia-se confiar na continuidade de seu favor. Em pouco mais de dois anos ele mudou completamente de opinião. No entanto, esses dois anos foram cheios de acontecimentos na história doméstica de Constantino que eram muito mais sérios do que uma mudança de ideia quanto ao arianismo. No mesmo ano em que ele convocou o concílio de Niceia, ele deu ordens privadas para a execução de Crispo, seu filho mais velho, e para o sufocamento em banho quente de sua esposa, Fausta, com quem estava casado por cerca de vinte anos. A história não pode encontrar motivos melhores para essas obras das trevas além de um ciúme mesquinho e indigno. Dizem que a sabedoria e bravura de Crispo, na derrubada final de Licínio, excitou o ciúme de seu pai, e isto foi provavelmente fomentado por Fausta, que era sua madrasta. Sabendo que ele foi amargamente reprovado por sua crueldade para com o seu próprio filho, ele ordenou a morte de Fausta em seu remorso e miséria. Como temos expressado um julgamento muito decidido contra a natureza ímpia da ligação entre a igreja e o Estado, já falamos demais sobre a vida privada do imperador, de modo que o leitor pode julgar quanto à aptidão — ou melhor, inaptidão — de alguém tão manchado de sangue poder se sentar como presidente em um concílio cristão. Desde aquele dia até hoje a igreja estatal tem sido exposta à mesma contaminação, seja na pessoa do soberano ou do comissário real.

Constância, a viúva de Licínio e irmã de Constantino, possuía grande influência sobre seu irmão. Ela simpatizava com os arianos e estava sob influência deles. Em seu leito de morte, em 327, ela conseguiu convencer o irmão que uma injustiça tinha sido feita contra Ário, e o persuadiu a convidar Ário para sua corte. Ele o fez, e Ário apareceu apresentando ao imperador uma confissão de sua fé. Ele expressou, de modo geral, sua crença na doutrina do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e suplicou que o imperador pusesse um fim às inúteis especulações para que a cisma fosse curada e todos, unidos, pudessem orar pelo reinado pacífico do imperador, e por toda a sua família. Por sua confissão plausível e seus belos discursos, ele alcançou seu objetivo. Constantino expressou estar satisfeito, e assim Ário e seus seguidores, por sua vez, ficaram em posições elevadas no favor imperial. Os que tinham sido banidos foram chamados de volta. Uma lufada de ar real mudou o aspecto externo de toda a igreja. O partido ariano tinha agora posse total da influência de peso do imperador, e logo se apressaram a utilizá-la.

Atanásio, Bispo de Alexandria

No concílio de Niceia, Atanásio participou de modo distinto; seu zelo e habilidades logo o designaram como a cabeça do partido ortodoxo, e como o mais poderoso antagonista dos arianos. Após a morte de Alexandre, no ano 326, ele foi elevado à Sé de Alexandria pela voz universal de seus irmãos. Ele tinha então apenas trinta anos de idade, e sabendo algo sobre os perigos assim como sobre as honras do ofício, ele teria preferido uma posição menos responsável; porém ele acabou cedendo aos mais sinceros desejos de uma congregação afetuosa. Ele se manteve como bispo por quase meio século. Sua longa vida foi devotada ao serviço do Senhor e de Sua verdade. Ele continuou firme na fé e inflexível em seu propósito até sua última hora de vida, do mesmo modo como a posição nobre que ele demonstrou no concílio de Niceia. A divindade de Cristo não era para ele uma mera opinião especulativa, mas a fonte e força de toda sua vida cristã. E em nenhum outro lugar ela pode ser encontrada por qualquer outro, como o apóstolo nos assegura. “E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida.” (1 João 5:11,12). Essa vida habita no Filho unigênito do Pai. Ele é “a vida eterna”. E esta vida, para o louvor da glória da graça de Deus, é dada a todos que creem no verdadeiro Cristo de Deus. Ao receber a Cristo, recebemos a vida eterna e nos tornamos filhos de Deus — herdeiros de Deus — e co-herdeiros com Cristo. Esta vida não é propriedade de qualquer mera criatura, por mais exaltada que possa ser. Os anjos santos possuem uma existência muito bendita e incessante pelo poder de Deus, mas o cristão tem vida eterna através da fé em Cristo, pela graça de Deus. Nada pode ser mais fatal ao bem-estar da alma humana do que a doutrina de Ário. Mas vamos retornar à nossa história.

Enquanto o avanço de Atanásio à Sé de Alexandria dava grande alegria e esperança aos seus amigos, também encheu seus inimigos com o mais amargo ressentimento. Eles agora viam como o grande líder dos católicos2 o bispo daquela igreja da qual Ário tinha sido expulso, e que foi apoiado pelas afeições de seu povo e por uma centena de bispos que juraram fidelidade ao grande bispo de Alexandria. Eles sabiam de seu poder e zelo incansável em defesa dos decretos do Concílio Niceno, e podem ter julgado de forma correta que, se sua sua influência tinha sido tão grande quando em âmbito restrito, o que poderia-se esperar quando ele foi colocado em posição tão eminente? Dessa forma, eles deixaram de lado seus planos e uniram forças para derrotá-lo.

Atanásio Contesta a Autoridade de Constantino

Eusébio da Nicomédia inicialmente recorreu a medidas aparentemente amigáveis para com Atanásio, com o propósito de induzi-lo a readmitir Ário à comunhão da igreja. Mas, falhando completamente, ele influenciou o imperador para que lhe ordenasse a fazê-lo. Um mandato imperial foi emitido para que Ário e todos os seus amigos, que estavam dispostos a se ligarem mais uma vez à igreja católica, fossem recebidos; e informando a Atanásio que, se não o fizesse, ele deveria ser deposto de sua posição e mandado ao exílio. Atanásio, no entanto, não se deixou intimidar pelos decretos imperiais, mas firmemente respondeu que não poderia reconhecer pessoas que tinham sido condenadas por um decreto de toda a igreja. “Constantino agora descobria, para seu espanto”, diz Milman, “que um decreto imperial — que deveria ser obedecido em trêmula submissão de uma ponta à outra do império romano, mesmo se ele tivesse decretado uma revolução política completa, ou prejudicasse as propriedades e privilégios de milhares — foi recebido com deliberada e decidida indiferença por um único bispo cristão. Durante dois reinados, Atanásio contestou a autoridade do imperador”3. Ele suportou a perseguição, calúnia, exílio; sua vida estava em constante perigo em defesa da grande e fundamental verdade — a divindade do bendito Senhor. Ele enfrentou o martírio, não pela ampla distinção entre cristianismo e paganismo, mas por essa única doutrina central da fé cristã.

Uma sucessão de queixas contra Atanásio foram levadas ao imperador pelo partido ariano — ou, mais propriamente, o partido eusebiano. Mas estaria fora de nosso propósito entrar em detalhes: ainda temos de traçar um pouco mais a linha prateada nessa nobre e fiel testemunha.

A acusação mais pesada era de que Atanásio havia enviado uma soma de dinheiro para uma pessoa no Egito para ajudá-la em um projeto de conspiração contra o imperador. Ele foi intimado a comparecer e responder pela acusação. O clérigo obedeceu e pôs-se diante dele. Mas a aparição pessoal de Atanásio, um homem de poder notável sobre as mentes dos outros, parece ter inspirado temor à alma de Constantino. As acusações frívolas e infundadas foram triunfalmente refutadas por Atanásio perante um tribunal de inimigos, e assim a virtude imaculada de seu caráter foi inegavelmente estabelecida. E tal foi o efeito da presença de Atanásio sobre o imperador que ele denominou-o um homem de Deus e considerou seus inimigos como os autores dos distúrbios e divisões. Mas esta impressão teve curta duração, uma vez que ele continuava governado pelo partido eusebiano.

O Concílio de Tiro

Em 334, Atanásio foi intimado a comparecer perante um concílio na Cesareia. Ele se recusou, alegando que o tribunal era composto de seus inimigos. No ano seguinte, ele foi citado diante de outro concílio que seria realizado em Tiro pela autoridade imperial, no qual ele compareceu. Mais de cem bispos estavam presentes, e uma comissão de leigos do imperador direcionaram o processo. Uma multidão de acusações foram trazidas contra o destemido clérigo; mas o mais tenebroso, e o único que iremos tomar nota, era o crime duplo de magia e assassinato. Disseram que ele tinha matado Arsênio, um bispo de Mileto — que tinha cortado-lhe uma das mãos, e que tinha usado ela em rituais de magia; uma mão tinha sido forjada como prova. Mas Atanásio estava preparado para a acusação. O Deus da verdade estava com ele. Ele calmamente perguntou se os que estavam presentes ali conheciam Arsênio. Ele era bem conhecido por muitos. Um homem foi, de repente, levado à corte, coberto da cabeça aos pés por um manto. Atanásio primeiro descobriu sua cabeça. Ele foi logo reconhecido como o assassinado Arsênio. Em seguida suas mãos foram descobertas, e assim foi provado que se tratava de Arsênio, vivo e não mutilado. O partido ariano tinha feito o melhor que pôde para esconder Arsênio, mas o Senhor estava com Seu inocente servo, e os amigos de Atanásio conseguiram encontrá-lo. A malícia dos arianos sem escrúpulos foi novamente exposta, e a inocência de Atanásio triunfalmente vindicada.

Mas os inimigos implacáveis do bispo continuaram com suas acusações. Mais uma vez ordenaram-lhe que comparecesse em Constantinopla, e que respondesse por si mesmo na presença imperial.

As velhas acusações, nesta ocasião, foram retiradas, mas uma nova foi habilmente escolhida, com vista a despertar a desconfiança do imperador. Eles afirmaram que Atanásio tinha ameaçado interromper o fluxo de navios que transportavam milho do porto de Alexandria para Constantinopla. Deste modo, uma fome seria iniciada na capital. Isto tocou o orgulho do imperador e, seja pela crença na acusação, ou pelo desejo de se livrar de uma pessoa tão influente, ele o baniu para Treves, na Gália. A injustiça da sentença é inquestionável.

Reflexões Sobre os Grandes Eventos do Reinado de Constantino

Antes de prosseguirmos com nossa história geral, será interessante fazer uma pausa por um momento e considerar o significado das grandes mudanças que ocorreram, tanto na posição da igreja quanto no mundo, durante o reinado de Constantino, o Grande. Não seria demais dizer que a igreja passou pelas mais importantes crises de sua história, e que a queda da idolatria pode ser considerada como o evento mais importante em toda a história do mundo. Desde um período pouco após o dilúvio, a idolatria tinha prevalecido entre as nações da terra, e Satanás, por seus artifícios, tinha sido o objeto de adoração. Mas todo o sistema da idolatria foi condenado por todo o mundo romano, se não finalmente derrubado, por Constantino; de qualquer modo, ela tinha recebido sua ferida mortal.

A igreja, sem dúvida, perdeu muito por sua união com o Estado. Ela não mais existia como uma comunidade separada, e não era mais governada exclusivamente pela vontade de Cristo. Ela tinha abandonado sua independência, perdido seu caráter celestial, e se tornado inseparavelmente identificada com as paixões e interesses do poder governante. Tudo isso foi extremamente triste, e o fruto de sua própria incredulidade. Mas, por outro lado, o mundo ganhou muito com essa mudança. Isto não pode ser ignorado em nossas lamentações sobre o fracasso da igreja. O estandarte da cruz agora se erguia por todo o império; Cristo era publicamente proclamado como o único Salvador da humanidade; e as santas escrituras eram reconhecidas como a Palavra de Deus, o único guia seguro e certo para a bem-aventurança eterna. Antes mesmo de estar ligada ao poder civil, a igreja professa estava, sem dúvida, espiritualmente fraca, e assim deve ter pensado mais em seu bem-estar do que em sua missão de bênção para os outros; no entanto, Deus pôde agir por meio dessas novas oportunidades, e acelerar o desaparecimento das terríveis abominações da idolatria da face do mundo romano.

A legislação geral de Constantino ostenta evidências do trabalho silencioso dos princípios cristãos, e os efeitos dessas leis humanas seriam sentidas muito além do círculo imediato da comunidade cristã. Ele promulgou leis para a melhor observância do domingo; contra a venda de crianças como escravas, o que era comum entre os pagãos; e também contra o furto de crianças com o objetivo de vendê-las, assim como muitas outras leis, tanto de caráter social quanto moral, que nos são informadas pelas histórias já citadas. Mas o maior e mais influente evento de seu reinado foi o extermínio dos ídolos, e a elevação de Cristo. Dizem que os etíopes e ibéricos foram convertidos ao cristianismo durante esse reinado.

Os Filhos de Constantino (de 337 a 361 d.C.)

Constantino, o Grande, foi sucedido por seus três filhos, Constantino II, Constâncio e Constante. Eles foram educados na fé do evangelho, e tinham sido nomeado Césares por seu pai, e em sua morte eles dividiram o império entre eles. Constantino II ficou com a Gália, Espanha e Grã-Bretanha; Constâncio ficou com as províncias asiáticas e com a capital, Constantinopla; e Constante ficou com a Itália e a África. O início do novo reinado foi caracterizado — como era habitual naqueles tempos — pela morte dos parentes que podiam um dia se provarem rivais ao trono. Mas juntamente com os velhos e usuais ciúmes e hostilidades políticas, um novo elemento agora aparece — a controvérsia religiosa.

O filho mais velho, Constantino, era favorável aos católicos, e sinalizou o começo de seu reinado chamando Atanásio de volta, e colocando-o novamente como bispo de Alexandria. Mas em 340 Constantino II foi morto em uma invasão da Itália, e Constante tomou posse dos domínios de seu irmão, se tornando, assim, o soberano de dois terços do império. Ele era favorável às decisões do concílio de Niceia, e aderiu com firmeza à causa de Atanásio. Constâncio, sua imperatriz e a corte eram parciais ao arianismo. E assim a guerra religiosa começou entre os dois irmãos — entre o Oriente e o Ocidente —- e foi levada adiante sem justiça ou humanidade, o que não tinha nada a ver com o espírito pacífico do cristianismo. Constâncio, como seu pai, interferiu tanto nos assuntos da igreja, que pretendia ser um teólogo, e durante todo o seu reinado o império foi incessantemente agitado pela controvérsia religiosa. Os concílios se tornaram tão frequentes que estabelecimentos públicos eram constantemente empregados para abrigar os bispos em contínua viagem; de ambos os lados, concílios foram reunidos para se oporem a outros concílios. Mas como o principal evento do período, assim como a linha prateada da graça de Deus, está conectada a Atanásio, retornaremos a sua história.

A História de Atanásio

Após um banimento de dois anos e quatro meses, Atanásio foi restaurado a sua diocese pelo jovem Constantino II, onde foi recebido com uma recepção alegre por seu rebanho. Mas a morte desse príncipe expôs Atanásio a uma segunda perseguição. Constâncio, que é descrito como um homem vaidoso, mas fraco, logo se tornou um cúmplice secreto dos eusebianos. No final de 340, ou início de 341, um concílio se reuniu na Antioquia para a dedicação de uma “igreja” esplêndida que tinha sido fundada pelo velho Constantino. Dizem que o número de bispos foi de cerca de 97, dos quais 40 eram eusebianos. Dentre o número de cânones que foram aprovados, foi decidido, e com certa aparência de equidade, que um bispo deposto por um sínodo não podia retomar suas funções episcopais até que ele tivesse sido absolvido pelo julgamento de um outro sínodo de igual autoridade. Esta lei foi evidentemente passada com uma referência especial ao caso de Atanásio, e o concílio pronunciou, ou melhor, confirmou, sua destituição. Gregório, um capadócio, um homem de caráter violento, foi nomeado para a Sé, e Filágrio, o prefeito do Egito, foi instruído a apoiar o novo primaz com os poderes civis e militares da província. Sendo Atanásio o favorito do povo, eles se recusaram a ter um bispo nomeado pelo imperador: cenas de desordem, indignação e profanação se seguiram. “A violência se achou necessária para apoiar a iniquidade”, diz Milner, “e um príncipe ariano foi obrigado a trilhar os passos de seus antecessores pagãos para apoiar o que ele chamava de igreja”.

Atanásio, oprimido pelos clérigos asiáticos, retirou-se de Alexandria e passou três anos em Roma. O pontífice romano, Júlio, com um sínodo de 50 bispos italianos, o proclamou inocente, e confirmou-lhe a comunhão da igreja. Não menos que cinco credos tinham sido elaborados pelos bispos orientais nas assembleias convocadas em Antioquia entre 341 e 345, com o fim de ocultar suas verdadeiras opiniões; mas nenhum deles admitia estar livre de um elemento ariano, embora as posições mais ofensivas do arianismo fossem professamente condenadas. Os dois imperadores, Constâncio e Constante, se tornaram então ansiosos para curar a brecha que existia entre as igrejas orientais e ocidentais, e de acordo eles convocaram um concílio a ser reunido em Sárdica, na Ilíria, em 347 d.C., para decidir os pontos disputados. Noventa e quatro bispos do Ocidente e vinte e dois do Oriente, estando reunidos e devidamente considerados os assuntos de ambos os lados, decidiram em favor de Atanásio: o partido ortodoxo restaurou o primaz perseguido de Alexandria e condenou a todos o que se opunham a ele como inimigos da verdade. No meio tempo, o intruso Gregório morreu, e Atanásio, em seu retorno a Alexandria, após um exílio de oito anos, foi recebido com júbilo universal. “A entrada do arcebispo em sua capital”, disse alguém, “foi um cortejo triunfal: a ausência e a perseguição tinham tornado ele querido para os alexandrinos, e sua fama foi difundida da Etiópia até a Grã-Bretanha ao longo de toda a extensão do mundo cristão.”

Após a morte de Constante, o amigo e protetor de Atanásio, em 350, o covarde Constâncio sentiu que era a hora de vingar suas feridas privadas contra Atanásio, que não tinha mais Constante para defendê-lo. Mas como ele iria cumprir seu objetivo era a dificuldade. Se ele decretasse a morte do mais eminente cidadão, a ordem cruel seria executada sem qualquer hesitação; mas a condenação e morte de um bispo popular devia ser causada com cautela, demora e alguma aparência de justiça. Os arianos começaram a trabalhar em um plano; eles renovaram suas maquinações, e mais concílios foram convocados.

Os Concílios de Arles e Milão

No ano 353 um sínodo foi realizado em Arles, e em 355 um outro em Milão. Mais de 300 bispos estavam presentes no último. As sessões do concílio foram realizadas em um palácio, estando Constâncio e seus guardas presentes. A condenação de Atanásio foi artisticamente representada como a única medida que podia restaurar a paz e união da igreja católica. Mas os amigos do primaz eram verdadeiros para com seu líder e para com a causa da verdade. Eles asseguraram ao imperador, no espírito mais humano e cristão, que nem a esperança de seu favor, nem o medo de seu desprazer, os convenceria a se unir na condenação de um ausente, inocente e honrado servo de Cristo. O debate foi longo e obstinado; o excitado interesse foi intenso, e os olhos de todo o império se fixaram em um único bispo. Mas o imperador ariano era impaciente, e antes que o concílio de Milão fosse dissolvido, o arcebispo da Alexandria tinha sido solenemente condenado e deposto. Uma perseguição geral foi direcionada contra todos os que lhe eram favoráveis, e também para efeitos de forçar a conformidade com a opinião do imperador. E tão afiada a perseguição se tornou que o partido ortodoxo levantou um clamor de que os dias de Nero e de Décio tinham retornado. O próprio Atanásio encontrou um refúgio nos desertos do Egito.

A Morte e os Sucessores de Constâncio

No ano 361, Constâncio, o patrono dos arianos, morreu. Assim como seu pai, ele adiou seu batismo até pouco tempo antes de sua morte. Os dias prósperos dos arianos estavam então acabados.

Juliano, comumente chamado de “o Apóstata”, sucedeu ao trono, e, provavelmente para mostrar sua total indiferença à questão teológica em disputa, ordenou a restauração dos bispos que Constâncio tinha banido. Após um breve reinado de 22 meses, e de uma vã tentativa de reviver o paganismo, ele morreu repentinamente de uma ferida no peito por uma seta persa.

Joviano, que sucedeu imediatamente Juliano ao trono, professava o cristianismo. Ele foi o primeiro dos imperadores romanos que deu evidências claras de que realmente amava a verdade como ela é em Jesus. Ele parece ter sido um cristão sincero antes de subir ao trono, uma vez que dissera ao apóstata Juliano que preferiria deixar o serviço do que sua religião; no entanto, Juliano o valorizava, e o manteve por perto até sua morte. O exército declarou a si mesmo cristão; o Lábaro, que tinha sido deixado de lado durante o reinado de Juliano, era novamente levado na linha de frente. Joviano, no entanto, tinha aprendido dos tempos passados que religião não podia avançar por força exterior. Deste modo, ele permitiu total tolerância para com seus súditos pagãos; e, no que diz respeito às divisões entre os cristãos, ele declarou que não molestaria ninguém por conta da religião, mas que amaria todos aqueles que estudassem a paz e bem-estar da igreja de Deus. Atanásio, ao ouvir sobre a morte de Juliano, retornou a Alexandria, para a agradável surpresa e alegria de seu povo. Joviano escreveu a Atanásio confirmando-o em seu cargo e convidando-o à sua corte. O bispo atendeu ao convite; o imperador desejava instrução e conselho. Através de uma relação pessoal ele ganhou influência sobre Joviano, o que seus inimigos em vão tentavam perturbar. Mas o reinado deste príncipe cristão durou apenas cerca de oito meses. Ele foi encontrado morto em sua cama em 17 de fevereiro de 364, tendo sido sufocado, como se supunha, com carvão vegetal.

Valentiniano e Valente. Joviano foi sucedido por dois irmãos — Valentiniano e Valente. O primeiro governou no Ocidente, e o último no Oriente. Quanto aos assuntos da igreja, Valentiniano seguiu o plano de Joviano. Ele se recusou a qualquer interferência em questões doutrinais, mas aderiu firmemente à fé de Niceia. Como soldado e estadista ele possuía várias e grandes habilidades. É dito que ambos irmãos se expuseram ao perigo pela profissão do cristianismo no reinado de Juliano; mas Valente foi mais tarde vencido pelo arianismo por meio de sua esposa, que o persuadiu a receber o batismo do bispo ariano de Constantinopla. Diz-se que o bispo exigiu dele um juramento de perseguir os católicos. Seja como for, é certo que logo após seu batismo ele manifestou grande zelo em favor dos arianos, e perseguiu duramente os eclesiásticos pela adesão deles à fé de Niceia e pelo exercício de suas influências em seu nome.

Sob o decreto de Valente, em 367 d.C., Atanásio foi mais uma vez atacado pelos arianos — os inimigos da piedade cristã. Tatiano, governador de Alexandria, tentou levá-lo para fora da cidade, mas os sentimentos do povo eram tão fortes em favor do venerável bispo que ele não se atreveu a executar suas ordens por um tempo. Enquanto isso, Atanásio, sabendo o que se aproximava, se retirou silenciosamente, e permaneceu por quatro meses escondido no sepulcro de seu pai. Esta foi a quarta vez que ele teve que fugir de Alexandria. Valente, no entanto, pelo medo que ele aparentemente tinha do povo, chamou-o de volta, e permitiu que ele, sem qualquer impedimento, prosseguisse com seus trabalhos pastorais até 373 d.C., quando foi chamado de seu trabalho na terra para seu descanso no céu. Valente morreu em uma batalha com os godos no ano 378, após um reinado de quatorze anos.

Que Serviço Atanásio Prestou à Igreja?

Estamos dispostos a acreditar que, sob a bênção de Deus, ele foi o meio de preservar a igreja da heresia ariana, que ameaçava extinguir do cristianismo tanto o nome quanto a fé no Senhor Jesus Cristo. O inimigo visava nada menos que um sistema sem Cristo, o que poderia levar, a longo prazo, ao total abandono do cristianismo. Mas o concílio de Niceia foi usado por Deus para derrubar seus maus intentos. A afirmação da Divindade de Cristo e do Espírito Santo em igualdade com Deus Pai foi grandemente abençoada por Deus então, e tem sido assim desde aqueles dias até hoje. Embora a igreja tivesse sido infiel e tendo derivado para o mundo, “que é onde está o trono de Satanás”, o Senhor em misericórdia levantou um grande testemunho de Seu santo nome e da fé de Seus santos. Historiadores, tanto civis quanto eclesiásticos, suportam os mais honráveis testemunhos sobre a capacidade, atividade, constância, abnegação e zelo incansável de Atanásio em defesa da grande doutrina da santíssima Trindade. “Reténs o meu nome, e não negaste a minha fé” (Apocalipse 2:13), são palavras que se referem, sem dúvidas, à fidelidade de Atanásio e de seus amigos, e também dos fiéis em outros tempos.

Os vencedores de que fala a carta a Pérgamo também estavam lá, sem dúvidas. Mas o Senhor não permitiu que eles fossem vistos ou registrados pelo historiador. Eles eram os escondidos de Deus que foram alimentados pelo maná escondido. Eles terão um lugar de grande proximidade com o Senhor na glória. “Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe.” (Apocalipse 2:17)

O Cristianismo sob o Reinado de Graciano

Valentiniano foi sucedido por seu filho, Graciano, em 375. Ele tinha então apenas dezesseis anos de idade. Ele admitiu como colega nominal seu meio-irmão, o Valentiniano mais jovem; e pouco tempo depois ele escolheu Teodósio como um colega ativo, a quem ele concedeu a soberania do Oriente. Graciano tinha sido educado na fé cristã e dava evidências de ser um verdadeiro crente. Ele foi o primeiro dos imperadores romanos a recusar o título e o manto de sumo sacerdote da antiga religião: Como podia um cristão, dizia ele, ser o sumo sacerdote da idolatria? É uma abominação para o Senhor. Assim vemos na piedade precoce desse jovem príncipe os benditos efeitos do testemunho dos fiéis. Que coisa nova e estranha para nós: um príncipe piedoso ascender ao trono dos degenerados césares com dezesseis anos de idade! Mas ele era tanto humilde quanto piedoso.

Estando consciente de sua própria ignorância quanto às coisas divinas, ele escreveu a Ambrósio, bispo de Milão, para que o visitasse. “Venha”, ele disse, “para que você possa me ensinar as doutrinas da salvação, para alguém que realmente crê, não para que estudemos para contenções, mas para que a revelação de Deus possa habitar mais intimamente em meu coração”. Ambrósio respondeu num êxtase de satisfação: “Excelentíssimo príncipe cristão”, diz ele, “modestamente, não foi a falta de afeição que até aqui me impediu de visitá-lo. Se, contudo, não estou contigo pessoalmente, tenho estado em minhas orações, nas quais encontramos, ainda mais, as atribuições de um pastor”.

O jovem imperador foi geralmente popular, mas sua ligação com o clero ortodoxo, o tempo que ele passava na companhia deles, e a influência que eles ganharam sobre ele (especialmente Ambrósio), o expuseram ao desprezo de seus súditos mais belicosos. As fronteiras foram duramente pressionadas, nesse tempo, pelos bárbaros, mas Graciano foi incapaz de conduzir uma guerra contra eles. Máximo, tomando vantagem do descontentamento do exército, levantou um estandarte de revolta. Graciano, vendo o rumo que as coisas tinham tomado, fugiu com cerca de trezentos cavalos, mas foi dominado e morto em Lion, no ano 383. Máximo, o usurpador e assassino, colocou-se no trono do Ocidente. Mais tarde, ele foi deposto e morto por Teodósio, e assim o jovem Valentiniano foi colocado no trono de seu pai.

Teodósio, Apelidado de O Grande

A medida de nosso interesse na história dos imperadores romanos deve ser proporcional ao conhecimento que eles tinham da verdade, e do tratamento deles para com os cristãos. Se não procurássemos discernir a mão de Deus no governo deles seria cansativo e inútil, nesse distante período, examinar o que resta deles. Mas enxergar a mão de Deus, e ouvir Sua voz, e traçar a linha prateada de Sua graça através desses tempos rudes, nos mantém na companhia dEle próprio, e assim nossa experiência é aumentada. Mas quase tudo depende, quanto ao serviço de Deus, ou à bênção para nós mesmos, do motivo ou objetivo com que estudamos a história da igreja, e quais são seus efeitos. De acordo com esse princípio de estima, Teodósio demanda um estudo sério e cuidadoso. Ele era um ministro de Deus, assim como era o imperador romano, que foi usado por Ele para subjugar o arianismo no Oriente, e para abolir a adoração aos ídolos por todo o mundo romano. A idolatria é o pecado mais ousado do homem, e nunca poderá ser ultrapassado até que “se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus.” (2 Tessalonicenses 2:3,4). A expressão completa dessa blasfêmia é ainda futura, e sinalizará o julgamento imediato e o amanhecer do dia milenial.

Mas o zelo de Teodósio não era apenas negativo. Ele apoiou o cristianismo, de acordo com sua compreensão, mais vigorosamente do que qualquer de seus predecessores. Ele completou o que Constantino começou e o superou, e muito, em zelo e seriedade cristã. Logo após seu batismo ele reuniu um concílio, que ocorreu em Constantinopla em 2 de maio de 381. Os principais assuntos pelos quais o concílio foi convocado eram os seguintes: dar maior plenitude e definição ao credo niceno; condenar as heresias, tais como as dos arianos, eunomianos, eudoxianos, sabelianos, apolinarianos, e outros; e tomar medidas para a união da igreja.

Os Invasores Bárbaros

A maioria de nossos leitores, até mesmo os mais jovens, já devem ter ouvido sobre “O Declínio e Queda do Império Romano” — o quarto grande império mundial de que falou o profeta Daniel e João no Apocalipse. Ele tinha estado em declínio já por algum tempo, e estava rapidamente se aproximando de sua queda, quando Teodósio foi chamado ao trono. As fronteiras eram ameaçadas por todos os lados pelos bárbaros, que habitavam em terras vizinhas ao mundo romano. “Nas costas de cada um dos grandes rios que limitavam o império”, diz o decano Milman, “apareceu uma hoste de invasores ameaçadores. Os persas, os armênios e os ibéricos estavam preparados para passar o Eufrates ou a fronteira oriental; o Danúbio já tinha proporcionado uma passagem para os godos; atrás deles vinham os hunos, em enxames ainda mais formidáveis a se multiplicarem; os francos e o resto das nações germânicas se aglomeravam junto ao Reno”. Esta assustadora formação militar de invasão bárbara mostrará ao leitor, de relance, a então posição do quatro império, e o quão fácil é para Deus quebrar em pedaços o ferro, assim como ele quebrou o cobre, a prata e o ouro.4

Dentro dos limites da terra romana a idolatria ainda existia, e sua adoração continuava imperturbável. Seus milhares de templos, em toda sua antiga grandeza, e suas cerimônias imponentes, cobriam a terra. Dificilmente um cristão poderia se voltar para qualquer lugar sem que visse um templo e inalasse um incenso oferecido aos ídolos. O cristianismo tinham apenas se erguido ao nível da tolerância em relação aos pagãos. O arianismo e o semiarianismo, em suas muitas formas, prevaleciam. Em Constantinopla e no Oriente eles eram supremos. Outras heresias abundavam. Tal era o estado das coisas, tanto dentro quanto fora do império, durante a ascensão de Teodósio. No entanto, para os detalhes sobre sua história civil, devemos sugerir aos leitores os autores já citados. Apenas gostaríamos de acrescentar que ele foi usado por Deus para deter, por um tempo, o progresso da invasão; para demolir as imagens e alguns dos templos de adoração pagã; para abolir a idolatria; para suprimir a superstição; para fazer com que as decisões do concílio de Niceia prevalecessem em todos os lugares; e para dar triunfo e predominância à profissão do cristianismo.

A História Religiosa de Teodósio

Vamos agora olhar, por um momento, para alguns dos principais eventos na história do grande Teodósio. Nas circunstâncias desses eventos poderá ser encontrado o melhor comentário sobre a vida do imperador, o poder do clero, e o caráter daqueles tempos.

Teodósio era espanhol. O cristianismo, bem cedo, tinha se estabelecido na Península, que era famosa por sua firme aderência às doutrinas de Atanásio durante toda a controvérsia trinitariana. Hosius, um bispo espanhol, foi o presidente do concílio de Niceia. Perto do fim do primeiro ano de seu reinado, Teodósio foi advertido, por causa de uma séria doença que tinha, a não adiar seu batismo, como era a prática então. Ele chamou o bispo de Tessalônica e foi imediatamente batizado. Alguns dizem que ele foi o primeiro dos imperadores a serem batizados no nome completo da Santíssima Trindade. Sua admissão na igreja foi imediatamente seguida por um decreto que proclamava sua própria fé e prescrevia a religião de seus súditos. “É nosso desejo que todas as nações que são governadas por nossa clemência e moderação possam aderir firmemente à religião que foi ensinada por São Pedro aos romanos…De acordo com a disciplina dos apóstolos, e a doutrina do evangelho, cremos na única divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sob igual majestade, e em uma piedosa Trindade…Além da condenação da justiça divina, eles deverão esperar sofrer as severas penalidades que nossa autoridade, guiada pela sabedoria celestial, julgar conveniente infligir sobre os tais.”

Tal era a ortodoxia severa e intransigente de Teodósio. Firmemente, embora enganado, ele acreditava que este era seu dever para que pudesse governar como um imperador cristão, e os bispos que ele consultava eram mais inclinados a aumentar do que suavizar sua severidade. Em uma ocasião, seu senso de justiça o determinou a ordenar que alguns cristãos reconstruissem, a suas próprias custas, uma sinagoga judaica, que, em um tumulto, tinha sido destruída. Mas o vigoroso bispo de Milão interferiu e prevaleceu sobre ele para que anulasse a sentença, com o fundamento de que não era certo que os cristãos construíssem uma sinagoga judaica. Aqui, o bispo evidentemente falhou em uma questão de justiça comum. Ele era menos justo do que seu mestre imperial.

Reflexões sobre a Disciplina de Ambrósio e a Penitência de Teodósio

Há poucos eventos nos anais da igreja tão profundamente interessantes quanto a penitência do grande Teodósio, e as rigorosas condições de restauração exigidas por Ambrósio. Despojados das superstições e formalidades que eram peculiares àqueles tempos, temos diante de nós um caso da mais genuína e salutar disciplina. Não devemos supor nem por um instante que o comportamento de Teodósio foi o resultado de fraqueza e pusilanimidade5, mas de um verdadeiro temor de Deus; um verdadeiro sentimento de sua culpa, uma consciência sensível, um reconhecimento das exigências de Deus, a quem toda a grandeza mundana está sujeita.

Ambrósio não era nem arrogante nem hipócrita, como muitos pontífices que o sucederam. Ele possuía uma forte afeição pelo imperador, e uma sincera preocupação por sua alma, mas agiu em relação a ele com um solene senso de seu dever. Ele tinha uma grande ideia, sem dúvida, sobre a dignidade com que seu ofício o investiu; e ele se sentia obrigado a usá-la em prol da justiça e humanidade, e para controlar o poder da soberania terrena: uma classe de poder muito certamente nunca concedida por Deus a um ministro cristão, e que frequentemente provou ser, em tempos mais recentes, um poder muito perigoso, uma vez que o sacerdote que possui em suas mãos a consciência de um rei pode inflamar ou moderar suas paixões sanguinárias. No caso de Ambrósio, tratava-se puramente de influência cristã. Ele apareceu, embora um pouco fora de sua atribuição, como o vingador dos ultrajados, e exercendo uma autoridade judicial sobre os mais mesquinhos e poderosos dentre os homens. Mas é sempre desastroso interferir com a ordem estabelecida por Deus, mesmo quando nobres objetivos pareçam ter sido alcançados.

Cerca de quatro meses após sua vitória sobre Eugênio, e o castigo dos assassinos de Valentiniano, Teodósio, o Grande, morreu em Milão, no ano de 395, não passando dos cinquenta anos de idade; o último imperador que manteve a dignidade do nome romano. Ambrósio não viveu muito após a morte de seu amigo imperial. Ele morreu em Milão na véspera da Páscoa, em 397. Ele aprofundou e fortaleceu as bases do poder eclesiástico que influenciaria o cristianismo em todos os tempos futuros. Basílio, os dois Gregórios, e Crisóstomo floresceram neste período.


As igrejas orientais, desde o princípio, observavam a festa da Páscoa em comemoração à crucificação de Cristo, o que correspondia à Páscoa Judaica, no décimo quarto dia do mês. Isto pode ter surgido a partir do fato de que no Oriente havia muito mais judeus convertidos. As igrejas ocidentais observavam a festa em comemoração à ressurreição. A diferença quanto ao dia deu origem a uma longa e acirrada controvérsia. Mas, após muita contenda entre as igrejas orientais e ocidentais, foi ordenado pelo concílio de Niceia que fosse observada em comemoração à ressurreição em toda a cristandade. Assim, a Páscoa Cristã ficou estabelecida no domingo que segue o décimo quarto dia da lua pascal, que ocorre próximo ao dia 21 de março: de modo que, se o referido 14º dia fosse um domingo, não seria naquele domingo, mas no próximo, podendo cair em qualquer domingo das cinco semanas que começam em 22 de março e terminam em 25 de abril.↩

O termo “Igreja Católica”, como dado por Constantino, aqui significa simplesmente “a igreja estabelecida”.↩

História do Cristianismo, vol.2, p. 540.↩

N. do T.: para mais detalhes sobre a profecia de Daniel aqui mencionada, leia Breve História da Humanidade, de W. W. Fereday. Link: http://manjarcelestial.blogspot.com.br/2013/05/breve-historia-da-humanidade.html↩

N. do T.: pusilanimidade é fraqueza de ânimo, falta de energia, de firmeza, de decisão.↩

A História Interna da Igreja (245—451 d.C.)

A História Interna da Igreja

O século que termina com a morte do grande Teodósio e Ambrósio foi cheio do mais profundo interesse para o leitor cristão. Passaram-se eventos, dentre os mais momentosos, que afetaram a majestade e glória de Deus e o bem-estar da humanidade. Do ano 303 até 313, a igreja passou através de suas provações mais difíceis sob Diocleciano. Por dez anos ela esteve em uma fornalha ardente, mas em vez de ser consumida, como seu inimigo em vão imaginara, ela parece ter aumentado em número assim como em pureza e poder. A Satanás foi permitido fazer o que queria contra ela, e ele moveu e agitou tanto a população pagã que em todas as partes do império eles ergueram seus braços: primeiro, para defender o politeísmo, e, segundo, para erradicar o cristianismo ao perseguir os cristãos e destruir seus livros sagrados. Assim, o século começou com o grande e final embate entre o paganismo e o cristianismo, e terminou com a total ruína do primeiro, e o completo triunfo do último. A disputa terminou com o quarto século, e a vitória descansou sobre o cristianismo desde então.

Tal foi a história exterior da igreja, e o cumprimento, até então, da palavra do Senhor nas epístolas a Esmirna e Pérgamo. Mas há outras coisas que muito razoavelmente demandam um pouco de nossa atenção antes de entrarmos no quinto século, e nenhuma parte do amplo campo que se estende diante de nós parece ter uma importância tão forte quanto a esfera e influência dos grandes prelados do Oriente e do Ocidente. Deve também ter ocorrido aos nossos leitores, a partir das necessárias alusões ao batismo, que a observância desse rito tinha um imenso lugar nas mentes daqueles primeiros cristãos. Eles acreditavam que as águas do batismo purificavam a alma completamente. Pensamos, então, em combinar os dois — daremos uma breve história do batismo a partir dos escritos dos “pais”, o que, ao mesmo tempo, nos dará uma oportunidade de vermos quais visões eles tinham, não apenas sobre o batismo, mas sobre as verdades fundamentais do evangelho.

As Variações Eclesiásticas do Batismo

No Novo Testamento há perfeita uniformidade, tanto quanto ao preceito quanto aos exemplos, sobre o assunto do batismo. No entanto, em nossos próprios dias, e desde o início do terceiro século, encontramos na igreja professa infinitas variações tanto quanto o que diz respeito à teoria quanto à prática sobre esse importante assunto. Aqueles não familiarizados com a história eclesiástica podem naturalmente perguntar: Quando, e por quais meios, tais diferenças surgiram na igreja?

Como tem sido nosso plano, no decorrer de todo este livro, encontrar o início das grandes questões que têm afetado a paz e prosperidade da igreja, nos esforçaremos, bem brevemente, a apontar o início da história dos batismos eclesiásticos. Usamos o termo eclesiástico para distingui-lo do que é bíblico. Nada que tenha sido introduzido após os dias dos apóstolos inspirados provém de autoridade divina, seja em teoria ou prática. Assim, algo não pode ser o batismo cristão se varia daquilo que Cristo instituiu ou da prática de Seus apóstolos. Trazer alterações é o mesmo que mudar a coisa em si, e torná-la não o mesmo, mas um outro batismo; assim encontramos, na história, que surgiram muitos batismos.

Como nosso objeto de estudo, agora, é o início da história dessas variações, e não a controvérsia, evitaremos dar qualquer opinião sobre a tão longamente agitada questão. Por mais de 1600 anos a controvérsia tem sido mantida com grande determinação, e por homens capazes de ambos os lados. Nenhuma controvérsia na história da igreja tem tido tal continuidade, ou conduzida com tal confiança de vitória por ambas as partes. Como não há menção expressa de batismo infantil nas Escrituras, os batistas pensam que sua posição é inquestionável; e os pedobatistas, com a mesma firmeza acreditam que pode ser inferido, a partir de várias passagens conhecidas, que o batismo infantil era praticado nos dias dos apóstolos. Não houve tanta controvérsia quanto ao modo do batismo. Os gregos, latinos, francos e germânicos aparentemente batizavam por imersão. “Batismo é uma palavra grega”, diz Lutero, “e em Latim pode ser traduzida como mersio, imersão….e embora essa prática tenha caído em desuso entre a maioria de nós, contudo, os que são batizados deveriam ser inteiramente imergidos, e então imediatamente levantados para fora da água, pois é isto que a etimologia da palavra indica, assim como na língua germânica”. O testemunho e Neander é o mesmo: “O batismo era originalmente administrado por imersão; e muitas das comparações de São Paulo aludem a essa forma de administração. A imersão é um símbolo da morte, de ser sepultado com Cristo; a saída da água é um símbolo da ressurreição com Cristo; e ambos, tomados em conjunto, representam o segundo nascimento, a morte do velho homem, e uma ressurreição para uma nova vida”1. Cave, Tillotson, Waddington, etc. falam do modo de batismo de maneira similar. E como todos esses testemunhos são de pedobatistas, podemos descartar esta parte do assunto como justamente provada na história da igreja; no entanto, a fé deve permanecer somente sobre a Palavra de Deus. Não seguimos os “pais”, mas sim a Cristo.

Irineu, bispo de Lion, é o primeiros dos “pais” a aludirem ao batismo infantil. Ele morreu por volta do ano 200, de modo que seus escritos são datados por volta do fim do segundo século. Os “pais” apostólicos nunca mencionaram isso. Por essa época a superstição, em grande medida, tinha tomado o lugar da fé, de modo que o leitor deve estar preparado a ouvir algumas noções extravagantes colocadas por alguns dos grandes doutores; ainda assim, muitos deles, sem dúvidas, eram verdadeiro cristãos fervorosos. “Cristo veio salvar todas as pessoas para Si mesmo”, diz Irineu, “com isso quero dizer que todos os que, por Ele, forem regenerados — batizados — para Deus: infantes e pequeninos, crianças e jovens, e pessoas mais velhas. Portanto Ele passou por várias idades: para os infantes ele foi feito um infante, santificando infantes; para os pequeninos Ele foi feito um pequenino, santificando os dessa idade; e também dando-lhes um exemplo de piedade, justiça e obediência: para os jovens Ele foi um jovem”, etc. O batismo era, portanto, ensinado como sendo uma lustração da alma para todas as idades e condições da humanidade. Mas a controvérsia logo se resumiu em uma questão — criança ou adulto. Regeneração, nascer de novo, batismo, eram usados como termos intercambiáveis, como se significassem a mesma coisa, nos escritos dos “pais”.2

Aqui temos a origem, até onde a antiguidade eclesiástica nos informa, do batismo infantil. A passagem é um tanto obscura e extremamente fantasiosa, mas é o primeiro traço que temos da questão ainda instável, e provavelmente a raiz de todas as suas variações vistas eclesiasticamente. O efeito de tal ensino nas mentes supersticiosas foi imenso. Pais ansiosos apressaram-se para ter seus delicados bebês batizados para que não morressem sob a maldição do pecado original, e o homem do mundo atrasava seu batismo até a aproximação da morte para evitar qualquer mancha subsequente, e para que pudesse emergir das águas da regeneração para os recintos da pura e genuína bem-aventurança. O exemplo e reputação de Constantino levou muitos a adiar, desse modo, o batismo, embora o clero testificava ser contra a prática.

Tertuliano. O testemunho deste “pai” prova que os bebês eram batizados em seus dias — ele morreu por volta de 240 — mas que ele não era favorável à prática: como ele diz, “Mas aqueles cujo dever é administrar o batismo devem saber que ele não deve ser dado precipitadamente…Portanto, de acordo com a condição e disposição de cada homem, e também de acordo com sua idade, o adiamento do batismo é mais proveitoso, especialmente no caso de crianças pequenas. Pois qual a necessidade de colocar os padrinhos em perigo? pois podem falhar em suas promessas por causa da morte, ou podem estar enganados se uma criança se provar ser de disposição ímpia.”

Orígenes, ao discorrer sobre o pecado da nossa natureza, faz alusão ao batismo como o meio indicado de removê-lo. “Os bebês são batizados”, diz ele, “para o perdão dos pecados. De que pecados? Ou quando eles pecaram? Ou como pode, nesse caso, o batistério suprir qualquer bem que seja? Mas de acordo com o sentido que mencionamos agora: ninguém é livre da poluição, mesmo que sua vida tenha durado apenas um dia sobre a terra. E é por este motivo, porque pelo sacramento do batismo a poluição que temos de nascença é levada embora, que os bebês são batizados.”

Cipriano, bispo de Cartago, por volta do ano 253, recebeu uma carta de Fido, um bispo do interior, perguntando se um bebê, antes dos oito dias de idade, podia ser batizado se necessário. A resposta prova, não apenas que o batismo infantil era então praticado, mas a necessidade disto na mente deles por causa de sua eficácia. Cipriano, com sessenta e seis bispos em concílio, diz: “Quanto ao caso dos bebês, visto que você julga que eles não devem ser batizados dentro de dois ou três dias após terem nascido, e que a regra da circuncisão deve ser observada, de modo que ninguém deve ser batizado e santificado antes do oitavo dia após ter nascido: todos nós em assembleia fomos de opinião contrária. Seja o que for que você pensa adequado de se fazer, não houve nenhum dentre nós que tivesse a mesma ideia, mas todos nós, pelo contrário, julgamos que a graça e misericórdia de Deus não deve ser negada a qualquer pessoa nascida. Pois já que o nosso Senhor em Seu evangelho diz ’o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las’, então no que depender de nós, nenhuma alma, se possível, será perdida”, etc.

Gregório Nazianzeno, bispo de Constantinopla, foi um “pai” notável por volta do ano 380. Ele foi o meio de destruir o poder do arianismo na capital oriental, onde tinha sido mantido com grande força por quase quarenta anos. Ele teve de encontrar muita oposição e até mesmo perseguição no início; mas aos poucos sua eloquência, o tom prático e sério de seu ensino, e a influência de sua vida piedosa começaram a dar resultado e a mantê-lo firme na cidade, embora nunca tenha gostado do estilo imperial da capital.

Dr. Wall cita Gregório largamente sobre o batismo, mas nossos extratos serão breves. Como o restante dos “pais”, ele é enfático sobre o assunto. “O que você diz sobre aqueles que ainda são crianças e não têm capacidade de serem sensíveis, seja da graça ou da falta dela? Devemos batizá-las também? Sim, por todos os meios, se qualquer perigo torná-lo necessário. Pois é melhor que elas sejam santificadas sem terem consciência disso do que morrerem não seladas e não iniciadas. E uma base para isto, para nós, é a circuncisão, que era feita no oitavo dia e era um típico selo, e era praticada naqueles que não tinham o uso da razão”. Contra a prática de adiar o batismo até um leito de morte, ele fala forte e seriamente, comparando o serviço à lavagem de um cadáver, em vez de um batismo cristão.

Basílio, bispo de Cesareia, é constantemente associado com os dois Gregórios. Gregório de Nissa era seu irmão, e o outro seu melhor amigo. A Capadócia gerou três “pais”. Basílio era fiel ao credo de Atanásio durante seus dias de depressão e adversidade, mas não viveu para contemplar seu triunfo final. Ele morreu por volta de 379. Ele foi um grande admirador e um verdadeiro exemplo do cristianismo monástico. Ele abraçou a fé ascética, abandonou sua propriedade e praticou tamanhas austeridades severas a ponto de prejudicar sua saúde. Ele fugiu para o deserto, mas sua fama fez com que uma cidade fosse construída ao redor dele, e construiu um monastério, e então os monastérios surgiram por todos os lados.

Suas visões sobre o batismo são similares às de seu amigo Gregório: ele exorta a necessidade disto com base no mesmo sentimento supersticioso que todos eles tinham. “Se Israel não tivesse passado através do mar”, diz ele, “eles não teriam se livrado de Faraó: e a menos que tu passes através das águas do batismo, não te livrarás da cruel tirania do diabo”, etc. Ele aplicava isto a todas as idades, e o reforçava pelas palavras do Senhor a Nicodemos: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.” (João 3:5)

Ambrósio, bispo de Milão, como todos os “pais” que já conhecemos, se engana completamente quanto ao significado de João 3:5: “Aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”. “Você vê”, diz ele, “que Cristo não excetua pessoa nenhuma, nem um bebê, nem mesmo aquele que é morto por um acidente inevitável.”

João, apelidado Crisóstomo, que significa “boca dourada”, obteve esse nome por conta de sua eloquência suave e fluída. Ele era tão favorito do povo que eles costumavam dizer: “Nós preferimos que o sol não brilhe a João não pregar”. Ele era evidentemente a favor do batismo infantil, embora não seja claro se acreditava no pecado original. “Por este motivo também batizamos bebês”, diz ele, “embora eles não estejam corrompidos pelo pecado, para que possa ser acrescentadas a eles a santidade, a justiça, a herança de adoção, uma fraternidade com Cristo e para que sejam feitos membros com Ele”. Seria difícil falar mais quanto aos alegados benefícios do batismo além dos que vemos aqui enumerados. Mas por mais extravagante que toda a sentença possa parecer, esse era o texto dos pedobatistas desde aqueles dias até hoje. A maioria dos nossos leitores são familiares a essas palavras: “O batismo é onde eu sou feito um membro de Cristo, um filho de Deus, e um herdeiro do reino dos céus”. Tais palavras foram tiradas não das Escrituras, mas de Crisóstomo.

Dr. Wall parece ansioso por deixar transparecer que esse grande doutor [Crisóstomo] não estava alienado quanto ao pecado original. Ele sugere que o significado de suas palavras possam ser: “eles não se corromperam pelos seus próprios pecados”. Mas Crisóstomo não diz “seus próprios”, mas que eles não estão corrompidos pelo pecado. E certamente toda criança é corrompida, como disse o salmista: “Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmos 51:5). Em vão procuramos solidez em muitas das doutrinas fundamentais do cristianismo entre os “pais”, para não dizer sobre o que eles negligenciaram, tal como a presença do Espírito Santo na assembleia, o chamado celestial e as relações celestiais da igreja, a diferença entre a casa de Deus e o corpo de Cristo, a bendita esperança, e o glorioso aparecimento do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo (Tito 2:11–15).

Reflexões sobre a História do Batismo Infantil

O suficiente, cremos, para o presente propósito, foi dito sobre o assunto do batismo infantil. O leitor tem diante de si o testemunho das mais confiáveis testemunhas para os primeiros duzentos anos de sua história. A prática parece ter tomado sua ascensão e derivado toda a sua incrível influência com base na interpretação errônea de João 3:5: “Aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”. Argumentava-se, a partir desta passagem, que o batismo era necessário para a salvação e todas as bênçãos da graça. A eficácia do sangue de Cristo, o poder purificador da palavra de Deus, e as operações graciosas do Espírito Santo, foram todas atribuídas à devida observância do batismo externo. E não é preciso muito esforço para perceber o lugar que isso tomou na igreja professa nesses últimos 1600 anos3, ou para perceber sua influência em todas as classes e épocas, embora muitos não cressem na regeneração batismal.

Dr. Wall afirma que os antigos cristãos, sem exceção de um homem sequer, ensinavam que essas palavras do Salvador se referiam ao batismo. Ele acredita que Calvino foi o primeiro homem a se opôr a essa interpretação, ou o primeiro a se recusar a aceitar a passagem como um ensino da necessidade do batismo para a salvação. Supondo que essas afirmações estejam corretas, elas provam que a grande estrutura eclesiástica que se ergueu sobre o batismo foi fundada sobre uma má interpretação. A igreja de Roma, os luteranos, os gregos, os anglicanos, continuam a seguir os “pais” nesta aplicação errada da verdade. “Devemos então”, diz Hooker, referindo-se à nova interpretação de Calvino sobre jo 3:5, “considerar que aquilo que sempre foi interpretado de uma determinada maneira e não de outra, seja agora aceito sob o disfarce de uma capa de novidade? Deus adotou o batismo, não apenas como um símbolo ou emblema do que recebemos, mas também como um instrumento ou meio pelo qual recebemos a graça”. O bispo Burnet também observa, falando dos tempos antigos: “As palavras do nosso Salvador a Nicodemos foram expostas de modo a dar a entender a absoluta necessidade do batismo para a salvação. Essas palavras ’o reino de Deus’, tomadas com o significado de glória eterna, essa expressão de nosso Salvador era entendida como querendo dizer que nenhum homem podia ser salvo a menos que fosse batizado”, etc.4 Calvino ensinava que os benefícios do batismo eram limitados aos filhos dos eleitos, e assim introduzia-se a ideia do cristianismo hereditário. Os presbiterianos seguem Calvino e, como consequência de seu ensinamento, a circuncisão se torna tanto a justificativa como a regra para o batismo infantil. Mas alguns de nossos leitores podem estar ansiosos por saber o que acreditamos ser a verdadeira interpretação de João 3:5, visto que tanta coisa é construída encima deste versículo.

Qual é o Ensino de João 3:5?

João 3:5

Cremos que a expressão “nascer da água” não poderia, de forma alguma, se referir ao batismo. O novo nascimento é o tema do Salvador, sem o qual homem nenhum pode ver ou entrar no reino de Deus. Não havia ainda se tornado visível — “o reino de Deus não vem com aparência exterior” (Lucas 17:20) — mas estava lá entre eles, como a nova esfera de poder e bênção de Deus. A carne nunca poderia perceber esse reino. Cristo não tinha vindo para ensinar e melhorar a carne, como Nicodemos parece ter pensado; mas que o homem poderia ser participante da natureza divina que é transmitida pelo Espírito. Nenhum mero ritual exterior é capaz de admitir alguém ao reino. Deve haver uma nova natureza, ou uma nova vida, adequada à nova ordem de coisas. “Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3). Então o Senhor mostra a Nicodemos o único caminho para entrar no reino: “Aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”. A água é aqui usada como um símbolo do poder purificador da Palavra de Deus, como em Pedro: “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade”. Aqui, a verdade é mencionada como o instrumento, e o Espírito como o agente do novo nascimento, como ele continua dizendo: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus”. Duas coisas são necessárias—a Palavra e o Espírito (1 Pedro 1:22,23).

A passagem obviamente indica a aplicação da Palavra de Deus no poder do Espírito — operando no coração, consciência, pensamentos e ações — nos trazendo, assim, uma nova vida de Deus, na qual temos Sua mente e Seus pensamentos sobre o reino. As seguintes passagens farão com que isto fique ainda mais claro: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tiago 1:18). “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” (Efésios 5:26). “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (João 15:3). Aqui temos a purificação moral da alma pela aplicação da Palavra através do Espírito, que julga todas as coisas, e que opera em nós novos pensamentos e afeições adequados à presença e glória de Deus.

Como uma questão de interpretação, então, não vemos alusão alguma ao batismo em João 3:5: o batismo manifesta o que já foi transmitido, porém o batismo em si mesmo não transmite nada. Por outro lado — de acordo com os comentários inspirados nas Epístolas — o batismo é o sinal da morte, não de dar vida, como os “pais” uniformemente afirmavam. “Ou não sabeis”, diz o apóstolo, “que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte” (Romanos 6:3–4, Colossenses 2, 1 Pedro 3). Além disso, é perfeitamente claro que Nicodemos não podia saber qualquer coisa sobre o batismo cristão, já que ele não foi instituído por nosso Senhor até depois de Ele ter ressuscitado dentre os mortos.

Os Modernos Pedobatistas

A igreja de Roma e todos os que seguem os “pais” confessam que a origem de sua prática é a tradição. Mas há muitos outros em nossos dias, como tem sido desde a Reforma5, que detêm o batismo infantil com base nos escritos do Novo Testamento. As seguintes são as principais passagens as quais eles se referem: “Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus”…“De outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos”…“Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos”…“Criai-os na doutrina e admoestação do Senhor”. E muitos apoiam seus argumentos principalmente no batismo de famílias, e alguns também com base na aliança abraâmica. Veja Marcos 10:14; 1 Coríntios 7:14; Atos 2:39; Efésios 6:4; Atos 16:33; Gênesis 17.

Os anti-pedobatistas, ou “os batistas”, como chamam a si mesmos, simplesmente afirmam que, em todas as alusões ao batismo nos escritos dos apóstolos, ele é uniformemente associado à fé no evangelho, e que tais expressões como “sepultados com Ele pelo batismo” e “plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte” (Romanos 6:4,5), etc., devem significar que a pessoa assim batizada tem parte com Cristo pela fé. E, além disso, defendem que, como o batismo é uma ordenança de Cristo, deve necessariamente ser celebrada exatamente como Ele designou. Eles afirmam que nada além das Escrituras diretas devem ser o fundamento de nossa fé e prática nas coisas divinas. E sendo o batismo algo cuja ministração é necessária, e de maneira prescrita, sem a qual seria apenas uma noção na mente humana, essas coisas, portanto, são tão necessárias como o próprio batismo. E, portanto, segue que os verdadeiros candidatos devem ser apenas crentes professos, e o verdadeiro modo, que é apenas a imersão, são coisas necessárias para o verdadeiro batismo cristão6.

A Origem da Comunhão Infantil

Quando a superstição em geral toma o lugar da fé, e as noções humanas tomam o lugar da Palavra de Deus, até que ponto homens, mesmo que sejam sérios e iluminados, podem ser levados! Agostinho defendeu firmemente a prática da comunhão infantil. Pensava-se que isso era uma consequência necessária do batismo infantil. Os “pais” afirmavam que a graça de Deus derramada sobre os batizados era dada sem medida, e sem qualquer limitação quanto à idade. Assim, eles raciocinaram e chegaram à conclusão que a ceia do Senhor podia ser consistentemente administrada a todos que tinham sido batizados, sejam crianças ou adultos. O costume prevaleceu por muitas eras, e é ainda observada pela igreja grega, mas nos absteremos dos detalhes. Em geral, o significado espiritual intrínseco e o verdadeiro projeto da ceia do Senhor foi grandemente perdido de vista, e a mais supersticiosa reverência foi expressa para os símbolos exteriores da ordenança.

A Posição e Caráter do Clero

Ao estudarmos a história interna da igreja durante o quarto século, inumeráveis tópicos mereceriam uma breve observação: mas podemos nos referir somente àqueles que caracterizam o período. A posição alterada do clero é uma questão importante, e é responsável por muitas mudanças que foram introduzidas por eles. Desde o tempo de Constantino, os membros do ministério cristão atingiram uma nova posição social, com certas vantagens seculares. Isto levou um grande número a se unir à ordem sagrada pelos mais indignos motivos. Daí a triste influência dessa mistura profana em toda a igreja professa. Constantemente encontramos nela o orgulho, a luxúria arrogante, e a assumida dignidade de toda a ordem clerical. Assim, conta-se que Martinho de Tours, quando na corte de Máximo, deixou a imperatriz lhe esperando à mesa, e que quando o imperador desejou beber diante dele, e esperava receber a taça de volta após o bispo ter bebido, Martinho a passou ao seu próprio capelão, como se tivesse honra mais elevada do que qualquer potentado terreno. A circunstância nos mostra onde estava o clero então, e o que eles pensavam de si mesmos e da dignidade espiritual em oposição à classe secular. A igreja tinha então se tornado como “uma grande casa”, onde “não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra”. E assim tem sido desde então, e assim será até o final; mas o caminho do fiel é simples. “De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra.” (2 Timóteo 2:20,21)

A Origem e Crescimento do Monasticismo

Antes de abordarmos o período da “igreja de Tiatira”, pode ser interessante tomar nota do surgimento e crescimento das primeiras tendências ascéticas. A influência do monasticismo foi, de fato, muito grande durante a idade das trevas, e em todas as igrejas ocidentais. Vamos traçar seu caminho desde sua fonte. É interessante conhecer o início das coisas, especialmente de coisas importantes e influentes.

Durante a violência da perseguição sob Décio, por volta do ano 251, muitos cristãos fugiram ao exílio voluntário. Dentre esses estava um jovem chamado Paulo de Alexandria, que fez sua morada no deserto de Tebas, no Alto Egito. Pouco a pouco ele se tornou ligado ao modo de vida que adotou por necessidade, e é celebrado como o primeiro eremita cristão, embora não tivesse fama ou influência na época: não tanta como seu grande sucessor imediato.

Antônio (ou Antão), que é considerado o pai do monasticismo, nasceu em Cooma, no Alto Egito, por volta do ano 251. Na infância e juventude, conta-se que era de disposição contemplativa, séria e com tendência ao isolamento. Ele pouco se importava com o aprendizado mundano, mas desejava ardentemente o conhecimento das coisas divinas. Antes de alcançar a idade de 19 anos, ele perdeu seus pais, e tomou posse de uma propriedade considerável. Uma dia, na igreja, aconteceu do evangelho referente ao jovem rico ter sido lido perante a assembleia. Antônio considerou as palavras do Salvador como se fossem enviadas do céu para ele. “Vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me” (Lucas 18:22). Ele imediatamente doou sua terra aos habitantes de sua aldeia, vendeu o resto de suas propriedades e deu tudo aos pobres, exceto uma pequena porção que ele reservou para o cuidado de sua única irmã. Em outra ocasião ele ficou profundamente impressionado com as palavras do Senhor: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã” (Mateus 6:25–34), e tomando essas palavras em sentido literal, despojou-se do resto de suas propriedades e mandou sua irmã a uma sociedade de virgens piedosas para que ela pudesse ser livre de todos os cuidados com coisas terrenas e abraçasse uma vida de rígido asceticismo.

Conta-se que Antônio tenha visitado Paulo, o eremita, e todos os ascéticos mais famosos dos quais tinha ouvido falar, esforçando-se a aprender de cada um suas virtudes distintivas, e a combinar todas as suas graças em sua própria prática. Ele se fechou em uma tumba, onde viveu por dez anos. Por excessivos jejuns, exaustão, e uma imaginação acima do normal, ele imaginava-se atormentado por espíritos malignos, com quem ele tinha muitos e sérios conflitos. Antônio se tornou famoso. Muitos visitavam sua morada fora do comum na esperança de vê-lo, ou de ouvir o barulho de seus conflitos com os poderes das trevas. Mas ele saiu de sua tumba e passou a habitar em um castelo em ruínas perto do Mar Vermelho por outros vinte anos. Ele aumentou suas mortificações visando superar os espíritos malignos, mas as mesmas tentações e conflitos o seguiram.

Estranho como possa parecer, esse marcante e iludido homem tinha um verdadeiro coração para Cristo, e um coração terno para com seu povo. A perseguição sob Máximo (311) o tirou de sua célula para as cenas públicas em Alexandria. Sua aparição causou um grande efeito. Ele se dedicou aos sofredores, exortando-os a manterem inabalável confiança em suas confissões de Cristo, e manifestando grande amor aos confessores nas prisões e nas minas. Ele se expôs, de todas as maneiras, ao perigo, ainda que ninguém se aventurava a tocá-lo. Supunha-se que um tipo de santidade inviolável cercava esse homem misterioso que parecia um fantasma. Quando a fúria da perseguição passou, ele fugiu para um novo lugar de isolamento, ao lado de uma alta montanha. Ali ele cultivou uma pequena porção de terra; multidões se aglomeravam para ouvi-lo; e um grande número o imitava. Os tristes vinham a ele para serem confortados, os perplexos para serem aconselhados, e os inimigos para serem reconciliados. Milagres lhe foram atribuídos, e sua influência não tinha limites.

No ano 352, quando tinha 100 anos de idade, ele apareceu uma segunda vez em Alexandria. Ele o fez para contrariar a propagação do arianismo, e defendeu com toda sua influência a verdadeira fé ortodoxa. Sua aparição produziu uma grande sensação, multidões se aglomeravam para ver o monge — o homem de Deus, como lhe chamavam — e ouvi-lo pregar, e muitos pagãos foram convertidos ao cristianismo por meio dele. Antônio e seus monges eram apoiantes firmes e poderosos do credo niceno. Ele viveu até a idade de 105 anos, e morreu apenas alguns dias antes de Atanásio ter encontrado um refúgio entre os monges do deserto, em 356.

As Virtudes e Falhas de Antônio

Antônio era evidentemente sincero e honesto, embora fosse totalmente equivocado e enganado pelos artifícios e poder de Satanás. No lugar de agir de acordo com a comissão do Salvador aos Seus discípulos, “ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15), ou de seguir Seu exemplo de andar fazendo o bem, ele achou que podia alcançar uma espiritualidade mais elevada retirando-se do meio da humanidade, e devotando-se à austeridade da vida e à comunhão ininterrupta com o céu. Ele era um cristão, mas totalmente ignorante da natureza e objetivo do cristianismo. A santidade na carne foi seu único grande objetivo, embora o apóstolo tivesse dito: “Em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Romanos 7:18). Portanto, tudo foi um fracasso, total fracasso: como sempre deve ser, se pensarmos que há qualquer coisa boa na natureza humana, ou tentarmos nos tornar melhores em nós mesmos. Em vez de conseguir santificar sua natureza por meio dos jejuns e do ócio, ele descobriu que toda paixão foi estimulada a uma maior atividade.

“Dessa maneira, em sua solidão”, nos diz Neander, “ele teve que enfrentar muitos conflitos em suas faculdades mentais, os quais talvez poderiam ter sido evitados caso se envolvesse com algum tipo de vocação que exigisse o uso de todas as suas forças. As tentações contra as quais ele teve que batalhar foram das mais numerosas e poderosas, pois estava entregue à ociosa ocupação com si mesmo e se ocupava em lutar contra as imagens impuras que constantemente vinham do abismo de corrupção de dentro de seu coração, no lugar de esvaziar a si mesmo, dedicando-se a trabalhos mais dignos, ou de desviar o olhar para a eterna fonte de pureza e santidade. Em um período posterior, Antônio, com uma convicção fundada em longos anos de experiência, reconheceu isso e disse aos seus monges: ’Não ocupemos nossas imaginações pintando espectros e espíritos malignos; não atribulemos nossas mentes como se estivéssemos perdidos. Em vez disso, confortemo-nos e alegremo-nos todo o tempo, como aqueles que foram redimidos; e sejamos conscientes de que o Senhor está conosco, o Mesmo que os venceu e os tornou em nada. Lembremo-nos sempre que, se o Senhor está conosco, o inimigo não pode nos fazer mal. Os espíritos do mal aparecem de formas diferentes para nós, de acordo com o estado de mente com que eles nos encontram…Mas se nos encontrarem gozosos no Senhor, ocupados na contemplação da bem-aventurança futura e das coisas do Senhor, refletindo que tudo está nas mãos do Senhor, e que nenhum espírito maligno pode fazer qualquer mal ao cristão, eles afastam-se, em confusão, da alma que eles veem preservada por tais bons pensamentos.”7

É perfeitamente claro, a partir desses conselhos aos monges, que Antônio era não apenas um cristão sincero, mas que ele tinha um bom conhecimento do Senhor e da redenção, embora tivesse sido tão completamente desviado por um coração enganado. Nunca estamos seguros a menos que nos movamos sobre as linhas diretas da Palavra de Deus. O sistema que esse homem introduziu em seus falsos sonhos de aperfeiçoamento da carne se tornou, no decorrer do tempo, um canteiro de devassidão e vício. E assim continuou por mais de mil anos. Somente no século XVI a luz divina da abençoada Reforma, lançando luz sobre um cenário de densas trevas morais, revelou a arraigada corrupção e as flagrantes enormidades das diferentes ordens monásticas. Os monges daquele tempo, como enxames de gafanhotos, cobriam toda a Europa; eles proclamavam em todos os lugares, como nos informa a História, a devida obediência à santa mãe igreja, a devida reverência aos santos, e mais especialmente à Virgem Maria, a eficácia das relíquias, os tormentos do purgatório, e as benditas vantagens decorrentes de indulgências. Mas enquanto os monges perdiam sua popularidade e influência na Reforma, uma nova ordem foi necessária para ocupar o seu lugar e fazer sua obra má: e isto foi encontrado na Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola — os jesuítas. Mas temos de olhar mais uma vez para o inicio da história do monasticismo.

A Primeira Sociedade de Ascetas

A forma mais antiga em que o espírito asceta se desenvolveu na igreja cristã não se deu na formação de sociedades ou comunidades, como encontramos mais tarde, mas na seclusão de indivíduos isolados. Eles acreditavam, embora equivocados, que eles tinham um chamado especial para se esforçarem por uma vida cristã mais elevada; e, a fim de atingir essa eminente santidade, impuseram sobre si mesmos as mais severas restrições. Eles se retiravam para lugares desertos onde podiam se entregar a si mesmos em fechada meditação nas coisas divinas, e onde suas mentes pudessem estar inteiramente abstraídas de todos os objetos naturais e de quaisquer deleites para os sentidos. Tanto homens quanto mulheres supunham que deviam empobrecer seus corpos em vigílias, jejuns, trabalhos e autoflagelo. Como o corpo era considerado uma carga opressiva e um obstáculo para suas aspirações espirituais, eles competiam entre si sobre quão longe podiam carregar suas auto-mortificações. Eles sobreviviam à base das mais insanas e doentias dietas: às vezes se abstinham da comida e sono até que a natureza estivesse totalmente esgotada. O contágio dessa nova invenção de Satanás se espalhou por toda a parte. O misterioso recluso era tido como necessariamente investido de uma santidade particular. A célula do eremita era visitada pelos nobres, eruditos e devotos — todos desejosos de prestar homenagem ao homem santo de Deus; e assim o orgulho espiritual foi engendrado pela bajulação do mundo. A partir deste momento a vida monástica era tida em tal estima que muitos a adotaram como um emprego altamente honorável; e, posteriormente, formaram-se comunidades, ou instituições monásticas.

Pacômio, que era, como Antônio, um nativo de Tebas, se converteu ao cristianismo no início do século IV. Após praticar austeridades por algum tempo, foi informado por um anjo em seus sonhos de que ele tinha feito um progresso suficiente na vida monástica, e que agora deveria se tornar um mestre para outros. Pacômio fundou, então, uma sociedade na ilha do Nilo. Assim começaram os ascetas a viver em associação. A instituição logo se estendeu de tal forma que, antes da morte do fundador, chegou a oito monastérios, com 3000 monges; e no começo do século seguinte o número de monges já passava dos 50000. Eles viviam em células que, cada uma, continham três monges. Eles eram comprometidos à obediência absoluta dos comandos de Aba, ou pai. Eles vestiam uma roupa peculiar, sendo seu principal artigo uma pele de cabra, em imitação a Elias que, como João Batista, era tido como um exemplo da condição monástica. Eles nunca podiam se despir: eles dormiam com suas roupas, e em cadeiras construídas de tal forma que os mantivessem numa postura quase vertical. Eles rezavam muitas vezes por dia em jejum no quarto e sexto dia da semana, e se comunicavam no sábado e no dia do Senhor (domingo). Suas refeições eram feitas em silêncio, e com capuzes sobre seus rostos, de modo que ninguém pudesse ver seu vizinho. Eles dedicavam-se à agricultura e variadas formas de indústria, e tinham todas as coisas em comum, à imitação dos primeiros cristãos após o dia de Pentecostes8. Pacômio fundou sociedades similares para mulheres.

Os Monastérios e o Pontífice Romano

Até quase o final do quinto século, os monastérios eram colocados sob a superintendência dos bispos; os monges eram considerados simplesmente como leigos e não tinham qualquer pretensão de serem classificados entre a ordem sacerdotal. Circunstâncias, no entanto, no decorrer do tempo, levaram os monges a assumir um caráter clerical. Muitos deles se ocupavam no trabalho de ler e expor as Escrituras, e todos eles deveriam estar envolvidos no cultivo da vida espiritual mais elevada. Assim, a população os tinham em muita estima, especialmente quando eles começaram a exercer suas funções clericais além dos confinamentos de suas celas. Invejas logo surgiram entre os bispos e os abades: o resultado foi que os abades, para se libertarem da dependência que tinham de seus rivais espirituais, fizeram uma petição para que tivessem a proteção do Papa de Roma. A proposta foi aceita com prazer, e logo todos os monastérios, grandes e pequenos, abadias, mosteiros e conventos se submeteram à autoridade da Sé de Roma. Isto foi um imenso passo em direção ao poder pontifical de Roma.

O Papa podia agora estabelecer, em quase qualquer canto, uma espécie de polícia espiritual, que agia como uma rede de espiões sobre os bispos, assim como sobre as autoridades seculares. Este evento deve ser observado com cuidado se quisermos acompanhar os caminhos e meios da ascensão do poder, e da derradeira supremacia, do Pontífice Romano.

O sistema monástico logo se espalhou para além dos limites do Egito: e todos os grandes mestres da época, tanto no Oriente quanto no Ocidente, advogavam a causa do celibato e monasticismo. São Jerônimo, em particular, o homem mais erudito de seus dias, é considerado o elo de ligação entre as duas grandes divisões da igreja — a grega e a romana, ou a oriental e a ocidental. Ele foi o meio pelo qual o celibato e monasticismo foram fortemente levados adiante, especialmente entre as mulheres. Muitas senhoras romanas de classe se tornaram freiras através de sua influência. Ambrósio exaltava tanto a virgindade em seus sermões que as mães de Milão impediam que suas filhas assistissem seu ministério; mas multidões de virgens de outros cantos se reuniam em torno dele para receberem a consagração. Basílio introduziu a vida monástica em Ponto e Capadócia; Martinho, na Gália; Agostinho, na África; e Crisóstomo foi impedido pela sabedoria de sua mãe a se retirar, em sua juventude, a um eremitério remoto na Síria.

Antes de terminarmos este assunto pode ser interessante, de uma vez por todas, tomar nota sobre o crescimento e estabelecimento dos conventos.

A Origem das Reclusas Femininas

Desde períodos iniciais da história da igreja lemos sobre virgens devotas que professavam a castidade religiosa e se dedicavam ao serviço de Cristo. Seus deveres e devoções eram auto-impostos, de modo que podiam preservar suas relações domésticas ou entrar sem escândalo ao estado de casadas. Mas a origem das comunidades de reclusas femininas é atribuída a Pacômio, o grande fundador dos sistemas monásticos regulares. Antes de sua morte, que ocorreu por volta da metade do século IV, não havia menos do que 27.000 mulheres no Egito que, por si só, tinham adotado a vida monástica. As regras que ele formou para os conventos de freiras eram similares àquelas aplicadas aos monges. “Elas viviam de fundos em comum, usavam um dormitório em comum, uma mesa e um armário. Os mesmos serviços religiosos eram prescritos, e a habitual temperança e ocasionais jejuns eram apreciados com a mesma severidade. O trabalho manual não era menos rigidamente forçado, mas em vez da labuta agrícola imposta a seus ’irmãos’, a elas cabia tarefas mais leves, como costurar ou tecer. Por deveres tão numerosos, por ocupações admitindo tão grande variedade, elas superavam o tédio cotidiano, e a dureza da reclusão monástica.”9

É certo de que muitos desses estabelecimentos foram fundados durante o quarto século, e que eles se propagaram por todo o Egito, Síria, Ponto e Grécia, e que gradualmente penetraram em cada província onde o nome de Cristo era conhecido, e mesmo até hoje elas abundam em todos os países católicos romanos, e formam um estranho e incongruente apêndice para a igreja.

A Cerimônia dos Votos

O espírito cruel e impiedoso do papado é sentido dolorosamente até mesmo por seus próprios membros na consagração de uma freira. Isso não é natural, nem bíblico: é um ultraje para todo sentimento de nossa humanidade, ruinoso tanto para a alma quanto para o corpo, e submeter-se a isso só é possível pelo poder que Satanás tem de cegar as pessoas. Que misericórdia é estarmos longe de sua influência inexplicável e ilusões fatais! Ligeiramente abreviada, a seguinte descrição do cerimonial de uma noviça a tomar os votos vem da pena de uma testemunha ocular da cena que ocorreu em Roma:

“Por favores particulares foram-nos dados os melhores assentos, e, após esperarmos cerca de meia hora, dois criados em ricas texturas abriram caminho para a jovem condessa, que entrou na igreja lotada vestida da cabeça aos pés, com cabelos negros brilhando com diamantes. Apoiada por sua mãe, ela avançou até o altar. O sacerdote oficiante era vicário, o discurso do púlpito foi pronunciado por um monge dominicano, que a apresentou como a esposa prometida de Cristo — uma santa na terra, uma que renunciou às vaidades do mundo por uma antecipação das alegrias do céu.

“Tendo o sermão terminado, a própria doce vítima, ajoelhando-se diante do altar aos pés do cardeal, solenemente abjurou do mundo cujos prazeres e afeições ela parecia tão calculadamente desfrutar, e pronunciou aqueles votos que a separariam dele para sempre. Enquanto sua voz suavemente cantava aquelas palavras fatais, eu acredito que mal havia um olho em toda a imensa igreja que não estivesse cheio de lágrimas. Os diamantes que brilhavam em seus cabelos foram arrancados, e suas longas e belas tranças caíram luxuriantemente sobre seus ombros.

“A grade que a sepultaria foi aberta. A abadessa e sua negra fileira de freiras apareceram. Suas vozes corais cantavam uma sequência de boas-vindas, que dizia, ou parecia dizer ’espírito irmão, venha para fora!’. Ela renunciou a seu nome e título e adotou uma nova denominação, recebendo a bênção solene do cardeal e os últimos abraços de seus amigos em pranto, e então atravessou o ponto de seu destino do qual jamais retornaria. Um painel atrás do outro se abriu, e ela apareceu na grade novamente. Ali ela foi despojada de seus ornamentos e de seu traje esplêndido, seus belos cabelos foram impiedosamente cortados pelas tesouras fatais das irmãs, o que foi o suficiente para fazer toda a congregação estremecer. Assim que foi tosquiada de sua cobertura natural, as irmãs apressaram-se em vesti-la com as roupas sóbrias de freira, a touca branca e o véu de noviça.

“Ao longo de toda a cerimônia ela mostrou grande calma e firmeza, e não foi até que tudo tivesse terminado que seus olhos se encheram de lágrimas de emoção natural. Mais tarde, ela apareceu na pequena porta dos fundos do convento para receber a simpatia, os louvores e congratulações de todos os seus amigos e conhecidos, e até mesmo de estranhos, todos esperando pagar seus cumprimentos à nova esposa do céu.”10

A descrição dada aqui refere-se à profissão de uma freira na tomada do véu branco, um passo que simboliza o início do noviciado, ou ano de teste, ainda não irrevogável. A cerimônia de tomada do véu preto no final do ano é ainda mais solene e terrível, e quando terminada, a freira passa a ser reclusa para o resto da vida, e pode apenas ser libertada de seu voto pela morte. Aos olhos da lei romana, tanto civil quanto eclesiástica, o passo dado estaria além de qualquer revogação. Prisão, tortura e morte temporal e eterna são tidas como as punições pela desobediência. E quem pode dizer, de fora dos muros dos conventos, quais crueldades refinadas e prolongadas não são praticadas lá dentro? O poder é despótico; não há apelação, até que enganador e enganado, perseguidor e vítima indefesa, estejam lado a lado diante do justo tribunal de Deus.

Reflexões sobre os Princípios do Asceticismo

É realmente triste refletir sobre os muitos e sérios erros dos grandes doutores, ou dos primeiros “pais”, como são usualmente chamados. Não sabemos de nada mais grave e solene do que o fato de que eles enganaram muito as pessoas de então, e que por meio de seus escritos eles têm enganado a igreja professa desde então. Quem é capaz de estimar as terríveis consequências de tais ensinos pelos últimos 1400 anos, pelo menos? A má interpretação e má aplicação da Palavra de Deus é evidentemente a regra para esses líderes, e ensinar a sã doutrina é a exceção. E ainda assim eles são o orgulho e a alegada autoridade para uma grande porção da Cristandade até hoje.

Sobre o assunto do asceticismo, qualquer um com conhecimento comum das Escrituras pode enxergar a ignorância que tinham da mente de Deus, e o quanto pervertiam Sua Palavra. Somos exortados, por exemplo, a “mortificar as obras do corpo”, mas nunca a mortificar o próprio corpo. O corpo é do Senhor, e deve ser cuidado. “Não sabeis vós”, diz o apóstolo, “que os vossos corpos são membros de Cristo?”. Verdadeiramente, devem ser reduzidos à servidão, mas este é o modo mais sábio de cuidar do corpo (Romanos 8:13, 1 Coríntios 6:15, 9:27). Novamente, o apóstolo diz: “Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra”, e então ele explica o que são esses membros: “a fornicação, a impureza, o afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria” (Colossenses 3:5). Estas são as obras do corpo que devemos mortificar — que devemos entregar à morte de maneira prática; e isto sobre o fundamento de que a carne foi condenada à morte na cruz. “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5:24). Observe que o versículo não diz que estão crucificando, ou que deveriam crucificar a carne, mas que já a crucificaram. Deus a colocou fora de Sua vista pela cruz, e devemos mantê-la fora de nossa vista pelo auto-julgamento. O corpo, pelo contrário, tem no Novo Testamento um lugar muito importante como o templo do Espírito Santo, mas a tendência do asceticismo é de maltratar o corpo e alimentar a carne. “As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:23).

Os “pais” parecem ter se esquecido que o asceticismo era fruto da filosofia pagã, e de modo nenhum do cristianismo divino, mas eles parecem nunca terem olhado com cuidado para as Escrituras para conhecerem a mente de Deus sobre esses assuntos. Não tendo entendido a total ruína do homem na carne, eles em vão pensavam que ela podia ser melhorada, e foram assim desviados de inumeráveis maneiras, especialmente quanto à obra de Cristo, o julgamento da carne por Deus, o verdadeiro princípio da adoração, e todo o caminho do serviço cristão.

Tendo visto o estabelecimento do grande sistema monástico que exerceria uma influência tão poderosa em conexão com o cristianismo, a literatura e a civilização através da idade das trevas, deixemos o assunto por enquanto e retornemos à nossa história geral.

Arcádio e Honório (395 d.C.)

Teodósio, o Grande, deixou dois filhos, Arcádio, com idade de dezoito anos, e Honório, que tinha apenas onze. O mais velho ficou com a soberania do Oriente, e o mais novo a do Ocidente. Nada pode ser mais impressionante do que a condição do mundo romano nesse momento, ou mais adequado para despertar nossa compaixão: dois imperadores de tal fraqueza a ponto de serem incapazes de conduzir a administração dos assuntos públicos, e todo o império em um estado de perigo e alarme por causa dos invasores góticos. A mão do Senhor é manifesta aqui. Onde está agora o gênio, a glória e o poder de Roma? Expiraram junto com Teodósio. Em um momento em que o império precisava de prudência, de habilidade marcial e dos talentos de um Constantino, ele foi declaradamente governado por dois príncipes imbecis. Mas seus dias estavam contados na providência de Deus, e deveriam passar muito rápido.

A mais feroz tempestade que já tinha assolado o império estava então pronta a irromper em sua hora de fraqueza. O competente general Flávio Stilicho (ou Stilico), a última esperança de Roma, foi assassinado logo após a morte de Teodósio, e toda a Itália caiu nas mãos dos bárbaros. Os godos tinham se rendido aos exércitos e especialmente à política de Teodósio, mas bastou as notícias de sua morte para que eles se erguessem em revolta e vingança. O famoso Alarico, o astuto e competente líder dos godos, apenas esperou para uma oportunidade favorável para levar adiante um esquema de maior magnitude e ousadia do que qualquer outro que tenha passado na mente de qualquer dos inimigos de Roma desde os tempos de Aníbal. Ele foi, sem dúvida, um ministro dos justos juízos de Deus sobre um povo tão manchado com o sangue de Seus santos, além de terem crucificado o Senhor da glória e matado Seus apóstolos. Deixaremos os detalhes com os historiadores do declínio e queda de Roma: mas podemos dizer brevemente que Alarico era então seguido não apenas pelos godos, mas também pelas tribos de quase todo nome e raça. A fúria do deserto seria então derramada sobre a amante e corrupta do mundo. Ele conduziu suas forças para a Grécia sem oposição; ele devastou sua terra frutífera e saqueou Atenas, Corinto, Argos e Esparta; e aquela que era impiamente chamada de “a cidade eterna” foi sitiada e saqueada. Por seis dias ela foi entregue ao abate sem remorsos e a todo tipo de pilhagem. Assim caiu a culpada e devota cidade pelo juízo de Deus: nenhuma mão se estendeu para ajudá-la: ninguém para lamentar seu destino. Também as províncias mais ricas da Europa, como a Itália, a Gália e a Espanha, foram devastadas pelos sucessores imediatos de Alarico, especialmente Átila, e novos reinos foram instituídos pelos bárbaros. Assim a história do quarto grande império mundial termina por volta do ano 478 d.C., 1229 anos após a fundação de Roma.

Teodorico, rei dos ostrogodos, um príncipe de igual excelência nas artes da guerra e no governo, restaurou uma era de paz e prosperidade, varreu todos os vestígios do governo imperial, e fez da Itália um reino.11

Reflexões sobre as Calamidades de Roma

O leitor cristão pode aqui achar proveitoso fazer uma pausa por um momento e contemplar a derrubada do império ocidental e a divisão de seu território entre as várias hordas de bárbaros. É nosso privilégio e para nossa edificação vermos, em tudo isso, o cumprimento e harmonia das Escrituras, a soberana providência de Deus, e o cumprimento de Seus propósitos. Podemos também nos permitir derramarmos lágrimas de compaixão pelas misérias de nossos iludidos semelhantes. Isso não seria nada mais do que a terna compaixão daquEle que chorou sobre a devota cidade de Jerusalém. É nosso dever estudarmos a história pela certeza da luz das Escrituras; se não for pelas Escrituras — como tentam alguns — será pela incerta luz da história. Assim podemos nos alegrar na presença de Deus com a página da história aberta diante de nós, e nossa fé fortalecida pelo poderoso contraste entre o reino de Deus e toda a glória terrena. “Por isso”, diz o apóstolo, “tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade” (Hebreus 12:28). A superioridade do cristianismo sobre as mais poderosas instituições pagãs foi então manifesta a todos. Quando os esmagadores juízos de Deus caíram sobre a Itália, quebrando em pedaços o cetro de ferro do império, a igreja não sofreu nenhum dano. Em vez de ser exposta ao perigo, ela foi bastante protegida, e usada como o meio para proteger outros. Como a arca que se ergueu sobre as tenebrosas águas do dilúvio, a igreja foi preservada da fúria do invasor. Não houve sinal de bárbaros abraçando a velha religião da Grécia e de Roma: ou eles aderiam às superstições de seus ancestrais, ou adotavam alguma forma de cristianismo. Não há um solo firme para o pecador em meio às convulsões da terra, as ascensões e quedas de impérios, além da Rocha Eterna, o Cristo de Deus ressuscitado e exaltado. “Bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Salmos 2:12). O Senhor providenciou a segurança de Seu povo pela conversão prévia daqueles que subverteram o império.

A Conversão dos Bárbaros

É sempre interessante e edificante identificar a mão do Senhor ao tornar a ira do homem em instrumento para Seu próprio louvor, e ao trazer o maior bem ao Seu próprio povo em meio ao que parecia ser sua mais pesada calamidade. No reinado de Galieno, por volta de 268, um grande número de provinciais Romanos tinham sido levados em cativeiro pelos bandos góticos; muitos desses cativos eram cristãos, e vários pertenciam à ordem eclesiástica. Eles foram dispersos por seus mestres como escravos nos vilarejos: mas também como missionários pelo Senhor. Eles pregaram o evangelho ao povo bárbaro, e muitos foram convertidos. Seu aumento e ordem podem ser inferidos do fato de que eles foram representados no concílio de Niceia por um bispo chamado Teófilo.

Ulfilas, que é comumente chamado “o Apóstolo dos Godos”, mereceu a grata lembrança da posteridade, mas especialmente dos cristãos. Por volta da metade do século IV, ele inventou um alfabeto e traduziu as Escrituras para a linguagem gótica, com a exceção do livro de Samuel e de Reis, por receio de que seu conteúdo belicoso (cheio de guerras) pudesse parecer favorável à ferocidade dos bárbaros. A princípio eles parecem ter sido simples e ortodoxos em sua fé, mas mais tarde se tornaram profundamente manchados com o arianismo, especialmente após os ministros arianos, que foram expulsos de suas “igrejas” por Teodósio, terem trabalhado diligentemente entre eles.

Alarico e seus godos eram cristãos professos. Eles dirigiam sua ira contra os templos pagãos, mas reverenciavam muito as “igrejas”. Esta foi a grande misericórdia de Deus para Seu povo. Muitos fugiam para as “igrejas”, onde encontravam um santuário. A fé fervorosa e o zelo infatigável de Ulfilas, juntamente com sua vida irrepreensível, tinha ganhado o amor e confiança do povo. Eles receberam na fé as doutrinas do evangelho, que ele pregava e praticava: de modo que os primeiros invasores do império tinham previamente aprendido, em sua própria terra, a professar, ou ao menos respeitar, a religião dos conquistados. E aqui vemos a verdade, ou melhor, o cumprimento das palavras do Apóstolo em sua Epístola aos Romanos: “O evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego”; e depois: “Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.” Os cidadãos cultos do Império Romano e os rudes habitantes da Cítia e da Germânia foram, do mesmo modo, colocados sob o poder salvador do evangelho.

A Conversão de Clóvis

Como a conversão de Clóvis é conhecida como sendo a mais importante do século V, devemos fornecer alguns detalhes em particular sobre o evento — importante, em relação às suas consequências, tanto imediatas quanto remotas, na história da Europa, e também da igreja.

Os francos, um povo da Germânia, tinham se estabelecido no norte da França, perto da aldeia Cambrai, uma parte mais religiosa do país, que ficou famosa pelo santuário de São Martinho de Tours e pelas lendárias virtudes de outros santos. Clóvis era um pagão, mas Clotilda, sua esposa, tinha abraçado a fé católica. Ela vinha a muito tempo incitando-o a tornar-se cristão, mas ele se demorava a crer. Por fim, no entanto, quando em uma batalha contra os alamanos, e se encontrando em perigo, ele pensou no Deus de Clotilda, e orou a Ele, declarando que seus antigos deuses tinham falhado para com ele, e prometendo se tornar um cristão se ele ganhasse a vitória. A maré da batalha virou; seus inimigos foram derrotados, e, fiel ao seu voto, no Natal de 496, Clóvis foi batizado em Reims pelo bispo Remígio. Três mil guerreiros seguiram seu exemplo, declarando estarem dispostos a adotarem a mesma religião de seu rei.

Aqui temos outro Constantino. Clóvis encontrou na profissão do cristianismo algo mais favorável aos seus interesses políticos, mas isto não produziu mudança para melhor em sua vida. Seu objetivo era conquistar, sua ambição não tinha limite, suas obras eram ousadas e cruéis. De um mero líder franco com um território pequeno ele se tornou o fundador da grande monarquia francesa. E de sua confissão da fé católica, e de sua aliança com o Pontífice Romano, ele foi reconhecido como o campeão do catolicismo, e declarou-se o único soberano ortodoxo do Ocidente: todos os outros eram arianos. Alarico, que conquistou Roma; Genserico, que conquistou a África; Teodorico, o Grande, que se tornou o rei da Itália; e muitos dos reis lombardos, eram todos arianos. Por esse motivo os reis da França derivam de Clóvis o título de “Filho mais velho da Igreja”.

Ao estudante da profecia é interessante observar que, por essa época, pelo menos cinco ou seis reis bárbaros estavam em posse das províncias romanas, e governavam o que havia sido o império latino. Mas isto havia morrido. Morreu como um império, e deve permanecer no lugar de morte até ser ressuscitado, de acordo com a Palavra do Senhor, nos últimos dias (Apocalipse 13, 17).

Antes de concluirmos o período de Pérgamo, achamos que será necessário observar, mesmo que brevemente, três coisas: o estado interno da igreja, a controvérsia pelagiana e a controvérsia nestoriana.

Ritos e Cerimônias

A adoção mais generalizada do cristianismo, como pode-se imaginar, foi seguida por um aumento do esplendor em tudo o que dizia respeito à — assim chamada — adoração a Deus. “Igrejas” foram construídas e adornadas com maiores custos; o clero oficiante passou a vestir-se em roupas mais ricas, a música se tornou mais elaborada, e muitas novas cerimônias foram introduzidas. E esses usos eram então justificados sobre o mesmo terreno que a alta cúpula da igreja usa para justificar os extraordinários ritos e cerimônias nos dias de hoje12. A intenção era recomendar o evangelho aos pagãos por cerimônias que pudessem superar aquelas da velha religião. Multidões eram, então, atraídas à igreja, como são hoje, sem qualquer entendimento suficiente sobre sua nova posição, e com mentes ainda possuídas de noções pagãs e corrompidas pela moralidade pagã. Mesmo nos primeiros dias do cristianismo encontramos irregularidades na igreja em Corinto no que diz repeito às práticas não esquecidas dos pagãos. O acendimento de velas à luz do dia, incenso, images, procissões, purificações, e inumeráveis outras coisas, foram introduzidas nos séculos IV e V. Como observa Mosheim: “Enquanto a boa vontade dos imperadores colaborasse com o avanço da religião cristã, a piedade indiscreta dos bispos obscurecia sua verdadeira natureza e oprimia suas energias pela multiplicação dos ritos e cerimônias.”13

A Influência Degenerativa do Ritualismo

A tendência de todo o ritualismo eclesiástico é produzir um espírito de superstição que subverte a fé: do mero formalismo que substitui a direção do Espírito Santo, e de descansar em nossas próprias boas obras em rejeição à obra consumada de Cristo. A Palavra de Deus é assim praticamente deixada de lado, o Espírito Santo é entristecido, e o coração é aberto para as incursões de Satanás. Quando a fé se encontra em vivo exercício, a Palavra de Deus é estritamente seguida, e a prometida direção do Consolador é confiada, a alma é forte e vigorosa na vida divina, e as sugestões do inimigo passam despercebidas. Satanás é um atento observador dos diferentes estados da alma do crente e da igreja professa. Ele sabe quanto será bem-sucedido em suas tentativas contra o crente individual ou contra a igreja; ele espera o tempo certo — ele aguarda uma oportunidade. Quando ele vê a mente tomando uma direção errada, ele sussurra, bajula, estimula. Que pensamento solene para todos nós!

A Heresia Pelagiana

A condição da igreja no início do século V deu ao adversário uma oportunidade de trazer uma nova heresia, que introduziu uma nova controvérsia que continuou com mais ou menos violência desde aqueles dias até hoje. Trata-se do pelagianismo. A grande heresia, o arianismo, que tinha até então agitado a igreja, originou-se no Oriente e era relacionada à Divindade de Cristo, e agora esta nova se erguia no Ocidente, e tinha por assunto a natureza do homem após a queda e suas relações com Deus. Esta deturpava a questão do pecador perdido, e aquela, o divino Salvador.

Diz-se que Pelágio foi um monge do grande monastério de Bangor, no País de Gales, e provavelmente o primeiro bretão que se distinguiu como um teólogo. Seu verdadeiro nome era Morgan. Supõe-se que seu seguidor, Celéstio, era nativo da Irlanda. Agostinho fala dele como sendo mais jovem que Pelágio — e mais ousado e menos astuto. Estes dois companheiros no erro visitaram Roma, onde se tornaram íntimos de muitas pessoas de reputação ascética e santa, e disseminaram suas opiniões com cautela e privacidade. Mas, após o cerco do ano 410, eles passaram para a África, onde avançaram mais abertamente com suas opiniões.

Aparentemente a motivação de Pelágio não estava em qualquer desejo de formar um novo sistema doutrinal, mas sim de se opôr ao que considerava ser indolência moral e um espírito mundano entre os irmãos. Por isso, ele sustentava que o homem possuía um poder inerente para fazer a vontade de Deus e para alcançar o mais alto grau de santidade. Deste modo suas visões teológicas foram, em grande medida, bem formadas e determinadas, porém totalmente falsas, sendo consistentes somente com seu asceticismo rígido e com os frutos nativos que este produzia. Como as Escrituras inegavelmente atribuem todo o bem no homem à graça de Deus, assim Pelágio também, num sentido criado por ele próprio, reconhecia isso; mas suas ideias sobre graça divina eram, de fato, nada mais do que os meios externos para ressaltar os esforços humanos: ele não via a necessidade de uma obra de graça celestial no coração e nem da operação do Espírito Santo. Isto o levou a ensinar que o pecado de nossos primeiros antepassados não tinham prejudicado ninguém além deles mesmos, e que o homem é agora nascido tão inocente como Adão, como Deus o havia criado, e que era possuidor do mesmo poder e pureza moral. Estas doutrinas, e outras ligadas a elas, especialmente a ideia do livre arbítrio do homem — “um poder imparcial de escolha entre o bem e o mal” — foram secretamente disseminadas por Pelágio e seu colega Celéstio em Roma, Sicília, África e Palestina. No entanto, as novas opiniões foram geralmente condenadas, exceto no Oriente. Lá, por exemplo, João, bispo de Jerusalém, que considerava que as doutrinas de Pelágio concordavam com as opiniões de Orígenes, às quais ele tinha aderido, promoveu Pelágio, permitindo que ele professasse livremente seus sentimentos e angariasse discípulos.14

Agostinho e a Graça Divina

Agostinho, o famoso bispo de Hipona, a grande luz evangélica15 do Ocidente, e o mais influente de todos os escritores cristãos latinos, começou por volta dessa época a refutar, com sua pena, as doutrinas de Pelágio e Celéstio. E principalmente a ele é dado, como sendo um instrumento de Deus, o crédito de impedir o crescimento dessa seita naquele tempo. Por uma marcante conversão, e por profundo exercício de alma, ele tinha sido treinado sob a disciplina do Senhor para realizar essa grande obra. Foi assim que o todo-sábio Deus secretamente levantou um testemunho em oposição a Pelágio, e, por meio de sua heresia, pôs em evidência mais visões do evangelho da graça do que tinha sido ensinado desde os tempos dos apóstolos, e também visões mais plenas da verdade, santidade e humildade cristã. As igrejas ocidentais, conduzidas por Agostinho, continuaram perseverantemente resistindo às falsas doutrinas com concílios, livros e cartas. Os gauleses, os bretões, e até mesmo os palestinos, por seus concílios, e os imperadores por suas leis e penalidades, até então tinham esmagado a controvérsia logo em seu início. Mas os princípios fundamentais do pelagianismo em suas muitas formas e níveis permanecem até o tempo presente. No entanto, em vez de rastrear a história dessa heresia, vamos brevemente nos referir ao que as Escrituras ensinam sobre os dois principais pontos do assunto.

Reflexões sobre a Condição do Homem e a Graça de Deus

Se o mero raciocínio humano fosse permitido nessa controvérsia, ela seria interminável. Mas se a autoridade da Palavra de Deus é respeitada, ela logo se resolve. Que há algo bom na natureza humana caída, e que o homem, como tal, tem poder para escolher o que é bom e rejeitar o que é mal, são coisas que estão na raiz do pelagianismo em suas numerosas formas. A total ruína do homem é negada, e todas as ideias de graça divina que parecem inconsistentes com o livre arbítrio do homem são excluídas desse sistema. Mas o que diz as Escrituras? Uma única linha da Palavra de Deus satisfaz o homem da fé. E isto deveria ser o único argumento do mestre, do evangelista e do cristão em particular. Devemos sempre tomar o terreno da fé contra todos os adversários.

Em Gênesis 6, Deus expõe Sua opinião sobre a natureza humana caída. “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente”. Deus não podia encontrar nada no homem além do mal, e mal sem cessar. Novamente, no mesmo capítulo, lemos: “E viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra”. Não alguma carne, observemos, mas toda a carne tinha corrompido seu caminho sobre a terra. Aqui temos o juízo de Deus sobre a natureza corrupta; mas, ao mesmo tempo, Ele revela Sua graça soberana para redimir a condição do homem assim julgado. Deus provê uma arca de salvação, e então anuncia o convite: “Entra tu e toda a tua casa na arca” (Gênesis 7:1). A cruz é o testemunho, e a grande expressão, das grandes verdades figuradas pela arca. Ali temos de um modo, como em nenhum outro lugar, o juízo de Deus sobre a natureza humana com todo o seu mal; e, ao mesmo tempo, a revelação de Seu amor e graça em toda sua plenitude de poder salvífico.16

Mas todas as Escrituras são consistentes com Gênesis 6 e a cruz de Cristo. Tome, por exemplo, Romanos 5 e Efésios 2. No primeiro é dito estarmos “fracos”; mas no último, que estamos “mortos”, mortos em delitos e pecados. O apóstolo, mais no início da Epístola aos Romanos, com muito cuidado prova a ruína do homem e a justiça de Deus, e aqui temos Seu amor demonstrado no grande fato da morte de Cristo por nós. “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios”. Mas por que é dito “a seu tempo”? Porque o homem tinha sido plenamente provado ser não apenas “ímpio”, mas “fraco” demais para fazer qualquer coisa boa para Deus, ou para se mover um passo sequer em sua direção. Sob a lei, Deus mostrou ao homem o caminho, apontou meios, e deu-lhe uma longa prova; mas o homem não tinha poder algum para sair de sua triste condição de pecador. Quão humilhante, mas quão saudável, é a verdade de Deus! É bom conhecermos nossa condição de perdidos. Quão diferente é isso da falsa teologia e da orgulhosa filosofia dos homens! Mas da parte de Deus, bendito seja Seu nome, o estado do homem (assim demonstrado) foi apenas a oportunidade para a manifestação de Sua graça salvadora; e por isso Jesus morreu. “Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”. Agora o homem deve se deparar, ou com o juízo de Deus em incredulidade, ou com Sua salvação pela fé. Não há algo como estar “encima do muro”. A prova mais completa de nossa condição perdida e do amor gracioso de Deus é “que Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:6–10).

Em Efésios 2 não se trata meramente de uma questão de fraqueza moral do homem, mas de sua morte. “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados”. Em Romanos o homem é visto como impotente, ímpio, um pecador, e um inimigo; aqui, como moralmente morto: e este é o pior tipo de morte, pois é a própria fonte da mais ativa impiedade. “Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência”. Que golpe para o orgulhoso poder que o homem pensa ter de escolher entre o bem e o mal! Aqui, ao contrário, ele é visto como estando sob o governo de demônios — como escravo de Satanás. O homem admite muito mais facilmente ser ímpio do que impotente. Ele se orgulhará de ter sua opinião própria — de ser independente e muito capaz de julgar e escolher por si próprio nas coisas espirituais.

Um dos dogmas favoritos de Pelágio, se não o fundamento de seu sistema, era que “como o homem tem a capacidade de pecar, assim também ele não apenas tem a capacidade de discernir o que é bom, mas do mesmo modo tem poder para desejá-lo e realizá-lo. E esta é a liberdade do arbítrio, que é tão essencial para o homem que ele não pode perdê-la”. Nos referimos a esta falsa noção simplesmente porque ela é muito aceita pela mente natural, e é tão difícil de se livrar dela mesmo após sermos convertidos, sendo sempre um grande obstáculo à obra da graça de Deus na alma. Uma vez que o homem está morto em seus pecados, Deus e Sua própria obra devem ser tudo. É claro que há uma grande variedade entre os homens naturalmente, quando estão “fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”. Alguns são benevolentes e morais, alguns vivem em grosseira e aberta impiedade, e alguns podem ter um gratificante tipo de coração sensível: mas por que motivo? Para fazer a vontade de Deus? Certamente não! Deus não está em todos os seus pensamentos. Eles são energizados pelo espírito de Satanás, e guiados por ele de acordo com o curso deste mundo. “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” (Lucas 16:13)

Como o Homem é Responsável?

Mas onde, pode-se perguntar, e de que forma entra a responsabilidade do homem? Certamente o homem é responsável por considerar que Deus é verdadeiro, e aceitar como justo, por mais humilhante que seja, Seu julgamento sobre sua natureza e caráter. “Se recebemos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior” (1 João 5:9). Aceite esse quadro sombrio que Deus pinta sobre o homem e diga: este sou eu, isto é o que eu tenho feito e o que eu sou. A salvação é pela fé: não pelo arbítrio (desejo), escolha, ou obras, mas sim pelo crer. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele… E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.” (João 3:16–19)

Como poderia alguém deixar de ver que uma responsabilidade é criada por essa demonstração de bondade divina em Cristo, e uma de caráter tão óbvio, solene e considerável? Tanto é assim, de fato, que a evidência é decisiva e final, e que o incrédulo será julgado diante de Deus. Não é uma questão, perceba, deles não encontrarem perdão, mas de preferirem as trevas à luz para que continuem em pecado. Isto é o que Deus coloca contra eles, e como poderia haver um fundamento mais justo e razoável de condenação? Impossível. Que possa ser a feliz condição de todos os que leem essas páginas de se curvarem à humilhante sentença das Escrituras sobre nossa natureza, e de nos considerarmos pecadores perdidos à vista de Deus. Que assim um Deus todo misericordioso e gracioso nos encontre na grandeza de Seu amor, e nos abençoe com tudo o que é devido a Cristo, como o Salvador da humanidade.

Os Nestorianos

Como a seita chamada de nestoriana ocupa um lugar importante na história da igreja, vamos tomar nota brevemente de sua formação. Eles são, às vezes, chamados de sírios, uma vez que seu fundador foi um sírio. Cremos que são numerosos na Síria atualmente17, mas não receberam do governo turco a proteção a qual tinham direito, e assim foram expostos a constantes assaltos das tribos predatórias. Milhares de nestorianos nas montanhas do Curdistão, incluindo homens, mulheres e crianças, foram massacrados em 1843, e suas vilas totalmente destruídas pelas tribos curdas. Desde o ano 1834, uma interessante missão foi estabelecida entre eles pelo Conselho Americano de Missões Estrangeiras. O caráter e procedimentos da missão são muito comentados por Dr. Grant, um dos missionários que residiu entre os nestorianos por um tempo considerável, e que tinha estudado seus modos e costumes com grande minúcia e cuidado, e acabou publicando um tratado visando provar que essa interessante classe de pessoas são os descendentes das dez tribos perdidas de Israel. Mas suas conclusões, como outras sobre o mesmo assunto, podem muito bem ser postas em dúvida.18

Nestório, um monge sírio, tornou-se um presbítero da igreja em Antioquia. Ele era estimado e celebrado por conta da rígida austeridade de sua vida, e do impressionante fervor de sua pregação. Ele atraiu grandes e atentas audiências, e logo se tornou um grande favorito do povo. No ano 428 ele foi consagrado bispo de Constantinopla. Mas a disciplina do claustro tinha lhe preparado mal para uma posição tão importante na vida pública. Tão logo ele foi promovido a esse nível, ele começou a demonstrar um zelo intemperado contra as várias descrições dos hereges, o que devia-se mais ao fanatismo do monge do que ao espírito tolerante e suave do cristianismo genuíno. Em seu discurso inaugural, dirigindo-se ao imperador Teodósio, o jovem, ele se pronunciou com estas violentas expressões: “Dá-me um país purgado de todos os hereges, e em troca por isto eu lhe darei o céu. Me ajude a subjugar os hereges, e eu lhe ajudarei a subjugar os persas”. Mas não demorou muito até que o próprio Nestório fosse também acusado de heresia.

O novo bispo logo em seguida pronunciou sua declaração de guerra contra os hereges por meio de Atos de violência e perseguição. Ele excitou tumultos entre o povo: os arianos foram atacados, sua casa de reuniões foi queimada, e outras seitas foram perseguidas. Tais procedimentos, no entanto, logo levantaram contra Nestório, até mesmo dentre os ortodoxos, uma numerosa hoste de inimigos, que buscaram e logo conseguiram sua queda. Aconteceu assim…(continua no próximo tópico).

Anastácio e a Mariolatria

Anastácio, um presbítero que tinha acompanhado Nestório desde a Antioquia, e que era seu amigo íntimo, atacou, em um discurso público, o uso da expressão “Mãe de Deus”, que era aplicada à virgem Maria. O termo então posto em oposição tão violentamente tinha do seu lado a autoridade do uso consagrado pela tradição e muitos nomes de grande peso para com o povo. Nestório aprovou o discurso, apoiou seu amigo, e em vários discursos explicou e defendeu seu ataque. Muitos ficaram satisfeitos com esses discursos, e muitos se despertaram contra Nestório e seu amigo: a agitação em Constantinopla foi imensa, os gritos de “Heresia, heresia!” se ergueram e as chamas de uma grande e dolorosa controvérsia se acenderam.

A Diferença Entre Nestório e Seus Oponentes

Nunca houve uma contenda doutrinal na qual os partidos em conflito fossem tão próximos. Ambos aderiam e apelavam ao credo niceno: ambos criam na absoluta Divindade e na perfeita humanidade do Senhor Jesus. Mas foi inferido pelos inimigos de Nestório, especialmente por Cirilo, que ele era inconsistente quanto à encarnação, com base em sua objeção ao termo “mãe de Deus”. O significado ou importância do disputado termo, como usado pelos doutores no século anterior, não era o de implicar que a virgem comunicou a vida divina ao Salvador, mas de afirmar a união da Divindade e humanidade em uma Pessoa — que o “menino nos nasceu, um filho se nos deu”, era Deus encarnado. Assim foi atribuída a Nestório a ideia de que ele defendia a mera humanidade do Redentor, e que o Espírito apenas habitou nEle após ter se tornado um homem, como acontecia antigamente com os profetas. Mas Nestório, enquanto viveu, se declarou totalmente oposto a tais opiniões. Também não parece que tais opiniões foram alguma vez afirmadas por ele, mas apenas inferidas por seus adversários com base na sua rejeição do epíteto “Mãe de Deus”, e de alguns termos incautos e ambíguos que ele utilizou em seus discursos públicos sobre o assunto.

Cirilo e a Ortodoxia

Cirilo, bispo de Alexandria, na controvérsia que tinha se erguido, aparece como o grande campeão da ortodoxia. Mas todos os historiadores concordam em atribuir a ele um caráter mais soberbo e contrário ao de um cristão. Ele é acusado de ser movido pela inveja por causa do crescente poder e autoridade do bispo de Constantinopla, e de ser incansável, arrogante e inescrupuloso em seus caminhos. Ele era também tão violento contra os hereges quanto Nestório. Ele perseguiu os novacianos e expulsou os judeus de Alexandria. Um zelo honesto e piedoso pode ter animado esses grandes clérigos, mas eles falharam totalmente em unir ao zelo a prudência e moderação cristã, e logo aliaram ao zelo as piores paixões da natureza humana.

Cirilo foi primeiramente impelido a entrar na controvérsia quando descobriu que cópias dos sermões de Nestório estavam circulando entre os monges no Egito, e que eles tinham abandonado o termo “Mãe de Deus”. Ele imediatamente culpou tanto os monges quanto Nestório, e denunciou a novidade como herética. Todas as partes logo se agitaram, e palavras raivosas, que não precisam ser agora repetidas, foram usadas por todos os partidos. É suficiente dizer que, quando Nestório descobriu que Cirilo tinha habilmente conseguido assegurar a influência de Celestino, bispo de Roma, e que ele estava envolvido com outras dificuldades, ele apelou a um concílio geral. Como alguns de seus oponentes já tinham peticionado para tal assembleia, ela foi acordada, e o imperador Teodósio emitiu ordens para uma assembleia em Éfeso no ano 431, que é chamada de Terceiro Concílio Geral. Eles se reuniram em junho. Cirilo, em virtude da dignidade de sua sé, presidiu. Acusações foram postas contra Nestório. Ele foi condenado como culpado de blasfêmia, privado da dignidade episcopal, cortado do sacerdócio em todas as partes, e enviado ao exílio, no qual ele terminou seus dias por volta do ano 450.

Cerca de 200 bispos assinaram a sentença contra Nestório, mas ainda assim permanece a questão, por parte da maioria dos historiadores, se ele era realmente culpado de aderir aos erros pelos quais foi condenado. Mas todos concordam que ele era imprudente e intemperado em sua linguagem, vaidoso de sua própria eloquência, que desconsiderava os escritos dos primeiros “pais”, e que era apto a ver heresias em tudo o que diferia da fraseologia dogmática à qual estava acostumado desde jovem. Mas é difícil determinar quem foi o principal causador dessa grande disputa: se foi Cirilo ou Nestório.19

O Encerramento do Período de Pérgamo

O concílio de Éfeso estava longe de pôr fim a essas contendas vergonhosas. Em vez de restaurar harmonia à igreja, só fez aumentar suas angústias. João, bispo de Antioquia, e outros clérigos orientais, julgaram Cirilo e seus amigos de terem agido muito injustamente e com precipitação inadequada no caso de Nestório: assim ergueu-se uma nova controvérsia, e em meio a isto nasceu uma nova heresia — o eutiquianismo, que muito perturbou as igrejas orientais por cerca de vinte anos.

Eutiques, abade de um convento em Constantinopla, na ânsia de sua oposição ao nestorianismo, correu ao extremo oposto. Ele foi acusado de inconsistência quanto às doutrinas da encarnação, e denunciado como herege. Isto levou a outro concílio que ocorreu na Calcedônia no ano 451, e que é chamado de Quarto Concílio Geral. Mas os detalhes dessas disputas locais fogem do escopo deste livro. Nosso plano é dar ao leitor um esboço distinto no menor espaço possível, e apenas apresentar alguns poucos detalhes em casos em que o nome da pessoa se tornou um sinônimo para as opiniões que ensinava, tais como Ário, Pelágio, etc., ou quando os eventos, tais como as grandes perseguições, merecem a atenção da igreja ao longo de todas as eras.

Para levar a cabo esses propósitos, será agora necessário voltarmos nossa atenção mais especialmente ao poder crescente e às sublimes pretensões da igreja de Roma. Em Leão, o Grande, podemos ver o encerramento do período de Pérgamo, e a aproximação da monarquia papal. Mas antes de nos aventurarmos nessas águas turbulentas, faremos bem em estudarmos nosso mapa divino — a história profética de Deus da igreja durante aquele período tenebroso e, muitas vezes, tempestuoso.


The Inquirer, 1839, p. 232↩

Veja História do Batismo Infantil, de Dr. Wall. Nós citamos sua tradução (para o Inglês) dos “pais”. Tendo recebido os agradecimentos do clero da Câmara dos Comuns, da Convocação, e as honras de D. D. da Universidade de Oxford, por sua grande obra em defesa do batismo infantil, podemos confiar em suas citações como essencialmente corretas, e como as mais favoráveis em relação ao tema.↩

N. do T.: o livro foi escrito no século XIX↩

Política Eclesiástica, de Hooker, livro 5. Burnet em Artigos, artigo 27.↩

Pelos reformadores, e mais tarde pelos puritanos, foram feitos esforços para encontrar nas Escrituras o que a igreja de Roma tinha mantido como tradição; os protestantes recorriam à Bíblia para tudo, e os católicos para os “pais”.↩

Reflexões sobre a História de Wall, de Gale, vol. 3, p. 84↩

História Geral da Igreja, vol. 3, p. 310. Veja também História da Igreja, por James Craigie Robertson, vol. 1, p. 295.↩

Robertson, volume 1; Neander, volume 3; Crenças do Mundo, de Gardner, volume 2.↩

Waddington, vol. 2, p. 252.↩

Crenças do Mundo, de Gardner.↩

Enciclopédia Britânica, vol. 19, p. 420. Dezoito Séculos Cristãos, de White, p. 94.↩

Veja A Igreja e o Mundo, 1866.↩

História Eclesiástica, vol. 1, p. 366, Murdock e Soames. Robertson, vol. 1, p. 316.↩

“O erro fundamental do monge Pelágio era a negação de nossa total corrupção pelo pecado derivado de Adão, e expiado unicamente pela morte e ressurreição do segundo Homem, o último Adão. Por isso ele pregava que a liberdade era verdadeiramente possuída por todos os homens, não apenas no sentido de isenção de alguma restrição exterior, mas da liberdade da natureza de escolher entre o bem e o mal, negando, assim, a escravidão do pecado no interior do homem. Assim, mesmo em sua aplicação cristã, ele parece ter compreendido a graça como pouco mais do que o perdão por esta ou aquela ofensa, e não como a concessão de uma nova natureza ao crente, devido a qual ele não pratica o pecado, pois nasceu de Deus. Assim não havia lugar no esquema pelagiano para o homem estar perdido de um lado, e para o crente estar salvo no outro. De fato, ele pregava que a raça humana era concebida em uma inocência como a do estado primordial de Adão até que pecasse e então caísse sob a culpa e suas consequências. Os pelagianos negavam a imputação do pecado de Adão, vendo nele nada mais do que a influência de um mal exemplo. Assim, enquanto a ruína moral do homem o fazia perder a força, bem como o relacionamento com o Cabeça da igreja, por um lado, pelo outro lado, sob a graça, estavam contadas todas as naturais e as sobrenaturais dotações da família humana. Por isso, a lei da consciência e o evangelho eram considerados como diferentes métodos e diferentes estágios de justiça, sendo os recursos e operações da graça válidos apenas de acordo com as tendências da vontade. Novamente, a redenção em Cristo se tomou, se não um mero aperfeiçoamento, com certeza uma exaltação e transfiguração da humanidade. O próprio Cristo não era nada além do padrão supremo de justiça, alguém que estimulava uns a guardarem perfeitamente a lei moral, e, por Sua obra, estimulava outros ao amor e ao exemplo pelos conselhos evangélicos da perfeição moral superior à lei.” W. Kelly↩

N. do T.: aqui não se refere ao que conhecemos hoje como “denominações evangélicas”, mas simplesmente no sentido puro da palavra, isto é, daquilo que defende o evangelho.↩

Para detalhes, veja Notas sobre o Livro de Gênesis.↩

N. do T.: este texto foi escrito no século XIX↩

Veja Crenças do Mundo, de Gardner, vol. 2, p. 531↩

Manual dos Concílios, de Landon, p. 225; Neander, vol. 4, p. 141; Mosheim, vol. 1, p. 468.↩

Roma e a Expansão de Sua Influência (397—590 d.C.)

A Epístola à Igreja em Tiatira

“E ao anjo da igreja de Tiatira escreve: Isto diz o Filho de Deus, que tem seus olhos como chama de fogo, e os pés semelhantes ao latão reluzente: Eu conheço as tuas obras, e o teu amor, e o teu serviço, e a tua fé, e a tua paciência, e que as tuas últimas obras são mais do que as primeiras. Mas algumas poucas coisas tenho contra ti que deixas Jezabel, mulher que se diz profetisa, ensinar e enganar os meus servos, para que forniquem e comam dos sacrifícios da idolatria. E dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua fornicação; e não se arrependeu. Eis que a porei numa cama, e sobre os que adulteram com ela virá grande tribulação, se não se arrependerem das suas obras. E ferirei de morte a seus filhos, e todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda os rins e os corações. E darei a cada um de vós segundo as vossas obras. Mas eu vos digo a vós, e aos restantes que estão em Tiatira, a todos quantos não têm esta doutrina, e não conheceram, como dizem, as profundezas de Satanás, que outra carga vos não porei. Mas o que tendes, retende-o até que eu venha. E ao que vencer, e guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei poder sobre as nações, e com vara de ferro as regerá; e serão quebradas como vasos de oleiro; como também recebi de meu Pai. E dar-lhe-ei a estrela da manhã. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” (Apocalipse 2:18–29)

Pensamos que basta um pouco de discernimento espiritual e um conhecimento moderado sobre a história eclesiástica para ver o papado da Idade Média prenunciado nesta epístola. Vimos em Éfeso o declínio do primeiro amor, em Esmirna a perseguição do poder romano, em Pérgamo vemos Balaão seduzindo a igreja e a unindo ao mundo; mas as coisas são ainda piores em Tiatira. Aqui temos as consequências tristes porém naturais dessa união ímpia. Como poderia ser de outro modo quando qualquer que meramente se submetesse ao rito exterior do batismo fosse considerado como nascido de Deus? A porta foi assim escancarada para que o destruidor e o corruptor entrassem no recinto sagrado da igreja de Deus. Todo o testemunho quanto ao seu caráter celestial e sua separação do mundo estava agora perdido. Ela tinha falsificado a palavra do Senhor que diz aos Seus discípulos: “Não são do mundo, como eu do mundo não sou” (João 17:16). De fato, na aparência, o cristianismo tinha ganhado uma vitória. A cruz era então revestida em ouro e pedras preciosas, mas esta era a glória do mundo, não de um Cristo crucificado. Era, na verdade, o mundo que tinha ganhado a vitória, e a humilhação da igreja assim estava completa.

Apenas o Senhor podia estimar as terríveis consequências de tal estado de coisas. Seus olhos viam a corrupção, as idolatrias, e as perseguições da assim chamada Idade das Trevas, da qual a igreja em Tiatira foi um prenúncio notável. Veremos agora resumidamente o conteúdo da epístola.

Os títulos do Senhor são a primeira coisa a ser observada. Eles são cheios das mais adequadas instruções para os poucos fiéis quando o corpo geral de cristãos está identificado com este mundo. Ele Se apresenta como o Filho de Deus, que tem olhos como chama de fogo, e Seus pés como latão reluzente. Quando Pedro confessou que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, Ele imediatamente acrescentou: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. E agora, em antecipação a tudo o que estava por vir, Ele chama a atenção para os pensamentos de Seu povo para o fundamento imutável sobre o qual a igreja é construída. Ele também assume os atributos do juízo divino. Fogo é o símbolo dos penetrantes olhos de juízo, como chamas de fogo, de um juízo que a tudo perscruta; e os pés como latão reluzente, do juízo iminente.

Aqui temos, então, no caráter que o bendito Senhor toma, a garantia da perfeita segurança do remanescente fiel, e a afirmação do infalível julgamento sobre a falsa profetiza e sua numerosa prole de filhos corruptos — filhos de sua sedução e corrupção. Jezabel era não apenas uma profetiza como também uma mãe: ela não apenas seduziu o povo de Deus por suas falsas doutrinas, matando também a muitos; como também uma ampla classe dos piores dentre os homens derivou sua existência a partir de sua corrupção [de Jezabel]. Isto é dolorosamente manifesto no decorrer de toda a Idade das Trevas—o “estado de Jezabel” da igreja. Ela se estabeleceu dentro da igreja como se fosse sua própria casa, e decretou a todo o mundo que ela era infalível e que devia ser implicitamente obedecida em todos os assuntos da fé. Concordar com tal suposição blasfema era infidelidade a Cristo; se opôr a ela resultava em sofrimento e morte.

À medida que as pretensões de Roma falavam cada vez mais alto e as trevas cresciam cada vez mais densas, muitos dos santos de Deus se tornaram cada vez mais devotos a Cristo e a Suas reivindicações. O que é devido a Cristo deve sempre ser a palavra de ordem do cristão, e não o que é devido àqueles em posições elevadas. Parece ter havido uma energia espiritual nessa época que se ergue acima de tudo o que houve desde os dias dos apóstolos. Isto é graça — a maravilhosa graça de Deus para com Seus verdadeiros santos em um tempo de muita provação. É a linha prateada de Seu próprio amor que é tão preciosa a Sua vista. Podemos nem sempre ser capazes de traçá-la na história eclesiástica, mas lá está ela, e lá ela brilha aos olhos e ao coração de Deus em meio à abundante iniquidade. Isto deve ser notado, e sempre lembrado, como algo de muito encorajamento ao cristão quando colocado em circunstâncias de provas. Ouça o que o Próprio Senhor diz: “Eu conheço as tuas obras, e o teu amor, e o teu serviço, e a tua fé, e a tua paciência, e que as tuas últimas obras são mais do que as primeiras”. Aqui temos amor, fé e esperança em vivo exercício, os três grandes princípios fundamentais do verdadeiro cristianismo prático; e vemos que as últimas obras são mais que as primeiras. Não nos deparamos com tal testemunho fiel, ou tal medida de devoção, desde os primeiros dias da igreja em Tessalônica. Pode ser, no entanto, que a impiedade ao redor tornou a piedade deles ainda mais preciosa para o coração do Senhor, levando-O a elogiá-los ainda mais. Mas nenhum coração que bate verdadeiramente para Ele em um dia mau passará desconhecido, despercebido ou não recompensado.

No entanto, embora o Senhor ame elogiar o que Ele pode em Seu povo, e observar as coisas boas antes de falar das coisas más, Ele também não tarda em detectar suas falhas. Eles corriam o perigo de adulterarem com a falsa doutrina e com o falso sistema religioso de Jezabel; portanto Ele diz: “Mas algumas poucas coisas tenho contra ti que deixas Jezabel, mulher que se diz profetisa, ensinar e enganar os meus servos, para que forniquem e comam dos sacrifícios da idolatria” (v. 20). Não obstante a fidelidade de muitas almas fervorosas em Tiatira (ou seja, na igreja medieval), havia também a aceitação pública do espírito do mal: “toleras a mulher Jezabel” (versão Almeida Revisada). Esta era a sombra escura sobre a linha prateada: que às vezes acaba parecendo completamente obscurecida. Mas o Senhor não falhou, como sempre, em levantar testemunhas adequadas para Ele Próprio. Assim como havia santos na casa de César, um Obadias na casa de Acabe, um remanescente fiel em Israel que não tinha se curvado a Baal, assim o Senhor nunca foi deixado sem uma testemunha fiel no decorrer da Idade Média. No entanto, havia uma permissividade ao mal no estado geral de coisas, o que entristecia o coração do Senhor e trazia os Seus juízos.

“A mulher”, pode ser interessante observar, é usada como um símbolo do estado geral; “o homem”, é dito, é um símbolo de atividade responsável. Balaão e Jezabel são nomes simbólicos — um profeta e uma profetiza. O primeiro agiu como um sedutor entre os santos; e a última se estabeleceu dentro da igreja professa e fingia ter absoluta autoridade ali. Isto era ir muito além até mesmo da impiedade de Balaão. Mas todos sabemos o que Jezabel foi quando se assentou como rainha em Israel. Seu nome chega até nós como envolto em crueldades e sangue. Ela odiava e perseguia as testemunhas de Deus; ela encorajava e patrocinava os sacerdotes idólatras e profetas de Baal; ela acrescentava violência à corrupção: tudo virou ruína e confusão. E este é o nome que o Senhor escolheu para simbolizar o estado geral da igreja professa durante a Idade Média. Em Tiatira, Ele, cujos olhos eram como chama de fogo, podia ver a semente daquilo que carregaria tal fruto ruim até dias póstumos, e assim Ele adverte Seu povo para que retenham aquilo que eles já tinham, o que inclui Ele Próprio. “Outra carga vos não porei. Mas o que tendes, retende-o até que eu venha”. Como o estado de Jezabel continua até o fim e nunca pode ser consertado, o Senhor direciona então os olhos da fé do remanescente para Seu próprio retorno — “Até que eu venha”. A brilhante esperança de Sua vinda é assim apresentada como um conforto ao coração em meio à ruína geral; e Seus santos são aliviados, pelo Próprio Senhor, das vãs tentativas dos homens de consertar a igreja 1 e o mundo. Que libertação misericordiosa! Mas a pobre natureza humana não pode entendê-la, e assim tenta, vez após outra, consertar questões tanto na igreja como no Estado.

Temos evidentemente três classes de pessoas mencionadas nesta epístola: (1) Os filhos de Jezabel — aqueles que devem seu nome e lugar cristão ao seu sistema corrupto. Um julgamento impiedoso levará a todos estes. Foi dado espaço para o arrependimento, mas eles não se arrependeram; portanto, o pleno juízo de Deus cairá sobre eles. “Ferirei de morte a seus filhos”. (2) Aqueles que não são seus filhos, mas que não fazem oposição a ela: são maleáveis e indolentes. Esta, infelizmente, é uma ampla classe de pessoas em nossos próprios dias. Ela caracteriza a condição pública da cristandade. Sem consciência diante de Deus, eles se contentam em flutuar suavemente correnteza abaixo, em comunhão com algum sistema religioso que lhes pareça mais agradável a suas próprias mentes. Quanto ao que é agradável para a mente de Deus, eles nunca buscam saber. Ainda assim eles são Seus filhos. O juízo para tais é “grande tribulação, se não se arrependerem das suas obras”. (3) O remanescente fiel, os “vencedores”. Eles são aqui mencionados como “os demais”, ou o remanescente; eles terão poder sobre as nações em associação com Cristo quando Ele vier para reinar. Enquanto isso eles têm essa doce e preciosa promessa: “E dar-lhe-ei a estrela da manhã”. Isto é a associação consciente com Ele Próprio até mesmo hoje. A igreja medieval era especialmente culpada de duas coisas: ela arrogante e perversamente buscava possuir poder supremo sobre as nações, e ela perseguia o remanescente fiel dos santos, tais como os valdenses e outros. Mas os santos, uma vez assim perseguidos, ainda possuirão o reino, e reinarão com Cristo por 1000 anos; e todo o sistema de Jezabel será totalmente e para sempre rejeitado: “É forte o Senhor Deus que a julga” (Apocalipse 18:8).

Há apenas mais uma coisa para tomar nota neste esboço da condição pública da cristandade desde o início do sistema papal. A exortação a “ouvir” é colocada após a promessa especial. Isto marca o remanescente como distinto e separado do corpo geral. Nas três primeiras igrejas a palavra de advertência — “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” — vem antes da promessa. Mas nas quatro igrejas finais temos a promessa antes do chamado a ouvir. O significado óbvio dessa mudança é profundamente solene. Nas primeiras três, o chamado a ouvir é dirigido a toda a assembleia, mas nas últimas apenas ao remanescente. Parece que, nestas, é esperado que ninguém ouviria além dos vencedores. O corpo professo geral parece tanto cego como surdo através do poder de Satanás e das poluições de Jezabel; que temível condição! Devemos também ter em mente que os quatro estados, como representados pelas últimas quatro igrejas, continuam até o final da vinda do Senhor. Que Ele possa nos guardar de tudo o que cheire a Jezabel, para que possamos apreciar devidamente nossa união com Ele Próprio e Suas bênção prometidas aos “vencedores”.

Tendo então brevemente examinado o quadro divinamente pintado sobre o estado de Jezabel da igreja durante a Idade das Trevas, nos voltaremos agora aos amplos, porém tristes, registros de sua história.

O Começo do Período Papal

É geralmente admitido que esse período começa com o pontificado de Gregório, o Grande, em 590, e termina com a Reforma na primeira metade do século XVI. Mas, antes de entrarmos na história geral, tentaremos responder a uma questão que tem sido perguntada e que, sem dúvida, está na mente de muitos: Quando, e por que meios, o poder caiu nas mãos do pontífice romano, o que levou a sua supremacia e despotismo durante a Idade Média? É uma pergunta interessante, mas respondê-la plenamente nos levaria além de nossos limites. Podemos apenas apontar alguns poucos fatos na cadeia de eventos que levou à fundação do grande poder e soberania da Sé de Roma.

Desde o tempo do famoso decreto de Milão em 313, a história da igreja mudou de caráter. Ela passou então de uma condição de angústia e perseguição para o auge de uma prosperidade e honra mundana: outras questões além daquelas do cristianismo foram doravante envolvidas em sua história. Tendo entrado em uma aliança com o Estado, seu futuro caminho foi necessariamente formado por suas novas relações. Ela não podia mais agir simplesmente no nome do Senhor Jesus, e de acordo com Sua santa Palavra. Mas nunca poderia haver uma completa amalgamação (mistura entre os dois lados). Um era do céu, e o outro era deste mundo. Eles são, por natureza, opostos um ao outro. Ou a igreja aspirava ser senhora do Estado, ou o Estado invadia o terreno da igreja e desconsiderava seus direitos inerentes. Foi exatamente isto o que aconteceu. Logo após a morte de Constantino, a luta entres esses dois grandes poderes, a igreja e o Estado, pelo governo do mundo, começou; e, de modo a assegurar o êxito nesta guerra, o pontífice romano recorreu a caminhos e meios que não caracterizaremos aqui, uma vez que nos depararemos com eles em breve.

Antes de Constantino transferir a sede do império a Bizâncio e construir Constantinopla, Roma era a metrópole reconhecida, e seu bispo o primaz. Mas quando Constantinopla tornou-se a cidade imperial, seu bispo foi promovido à categoria de patriarca, e logo começou a reivindicar a dignidade de pontífice romano. Este foi o início da igreja grega como uma comunhão separada, e da longa disputa entre o Oriente e o Ocidente. Havia então quatro patriarcas, de acordo com o plano do imperador: em Roma, Constantinopla, Antioquia e Alexandria. A categoria do bispo dependia da superioridade da cidade em que presidia, e como Constantinopla era então a capital do mundo, seus bispos não ficavam atrás de ninguém em honra e magnificência. Os outros ficaram invejosos, Roma queixou-se, a contenda começou, a brecha se alargou. Mas Roma nunca descansou até que tivesse ganhado a ascendência sobre seus rivais mais fracos e menos ambiciosos.

As Vantagens de Roma

A corte de Constantinopla, embora possa ter encorajado as esperanças e ambições dos bispos, afetava o governo da igreja com poder despótico, e decidia em controvérsias religiosas do tipo mais grave. Mas no Ocidente não era assim. O pontífice romano desse período demonstrou o espírito independente e agressivo do papado que se elevou a tais alturas em épocas posteriores. Os bispos do Oriente foram assim colocados em desvantagem em consequência de sua dependência da corte e de suas disputas com os imperadores. Além disso, a presença e grandeza do soberano oriental mantinha a dignidade do bispo em um lugar secundário. Em Roma não havia mais ninguém para disputar com a classe ou estilo do pontífice.

A retirada dos imperadores de Roma, como residência real, foi então favorável ao desenvolvimento do poder eclesiástico ali; pois, embora abandonada por seus governantes, era ainda venerada como a verdadeira capital do mundo. Deste modo, Roma possuía muitas vantagens como a sede do bispo supremo. Mas o fator principal que impulsionou e consolidou o poder da Sé romana foi a crescente crença, por toda a Cristandade, de que São Pedro foi seu fundador. Os bispos romanos negavam que sua precedência originava-se na grandeza imperial da cidade, mas sim em sua descendência linear de São Pedro. Este dogma foi geralmente recebido por volta do começo do século V.

Por tais argumentos a igreja de Roma estabeleceu seu direito de governar a universal igreja. Ela sustentava que Pedro era primaz entre os apóstolos, e que seu primado é herdado pelos bispos de Roma. Mas pode ser interessante observar aqui o duplo aspecto do romanismo — o eclesiástico e o político. Em ambos os aspectos ele reivindicava a supremacia. Eclesiasticamente ele sustentava: (1) que o bispo de Roma é o juiz infalível em todas as questões de doutrina; (2) que ele tem o direito inerente ao governo supremo em convocar concílios gerais e presidir sobre eles; (3) que o direito de fazer nomeações eclesiásticas pertencia a ele; (4) que a separação da comunhão da igreja de Roma envolve a culpa de cisma. Politicamente ela reivindicava, aspirava e ganhava preeminência e poder sobre toda a sociedade européia, assim como sobre todos os governos europeus. Veremos provas abundantes desses fatores em particular no decorrer de sua bem definida história, a qual daremos prosseguimento agora.

Não foi até depois do primeiro concílio de Niceia que a supremacia dos bispos romanos passou a ser, em geral, permitida. Os primeiros bispos de Roma mal são conhecidos na história eclesiástica. A ascensão de Inocente I no ano 402 deu força e definição a esse novo princípio da igreja latina. Até este tempo não havia qualquer reconhecimento legal da supremacia de Roma, embora ela fosse considerada a principal igreja do Ocidente, e fosse frequentemente procurada pelos outros grandes bispos por um julgamento espiritual em questões de disputa. Quando a igreja grega caiu no arianismo, a igreja latina aderiu firmemente ao credo niceno 2, o que a elevou muito na opinião de todo o Ocidente. “Na mente de Inocente”, diz Milman, “parece ter surgido, pela primeira vez, a vasta concepção da supremacia eclesiástica universal de Roma; ainda sombria e escura, mas completa e abrangente em seu esboço.”

Leão I, Apelidado de “O Grande”

Podemos prosseguir, sem interrupção, do nome de Inocente para o de Leão, que ascendeu à cadeira de São Pedro no ano 440, e a ocupou por 21 anos. Ele era notável por suas habilidades políticas, erudição teológica e grande energia eclesiástica. Ele sustentava, com a arrogância de romano e com o zelo de clérigo, que todas as pretensões e todas as práticas em sua igreja eram questões para a contínua sucessão apostólica. Contudo, parece que ele era firme na fé quanto à salvação, e zelosamente oposto a todos os hereges. As igrejas orientais tinham perdido o respeito da Cristandade pelas suas longas e vergonhosas controvérsias. Poder, e não sutilezas, era a ambição de Roma. Leão condenou toda a raça de hereges, desde Ário a Eutiques; mas mais especialmente a heresia maniqueísta.

Por seus grandes esforços e extraordinário gênio ele levantou as reivindicações do bispo romano como sendo o representante de São Pedro a uma altura nunca antes vista. “O apóstolo”, diz ele, “foi chamado Petra, a pedra, por cuja denominação ele é constituído o fundamento…Em sua cadeira habita a sempre viva, a super-abundante, autoridade. Que os irmãos, portanto, reconheçam que ele é o primaz de todos os bispos, e que Cristo, que não nega a ninguém seus dons, ainda assim não os concede a ninguém exceto por meio dele.”3

Tomando devida consideração pelo caráter dos tempos e pelas opiniões oficiais e inerentes, cremos que Leão era sincero em suas convicções, e provavelmente um cristão. De coração ele cuidava do povo de Deus, e mais de uma vez, por suas orações e sagacidade política, salvou Roma dos bárbaros. Quando Átila, o mais terrível dos conquistadores estrangeiros, com suas incontáveis hostes, pairava sobre a Itália, pronto para cair sobre a indefesa capital, Leão foi adiante o “Destruidor” no nome do Senhor, e como o chefe espiritual de Roma, e tão fervorosamente orou por seu povo que as paixões selvagens do huno se acalmaram e, para espanto de todos, ele concordou com os termos pelos quais a cidade foi salva do caos e abate. Mas o principal objetivo da vida de Leão, e a que ele cumpriu plenamente, foi estabelecer as bases da grande monarquia espiritual de Roma. Durante seu pontificado ele foi o nome mais conhecido no império, se não em toda a Cristandade. Ele morreu no ano 461.

O Imperador Justiniano

O nome de Justiniano é tão famoso na história, e tão conectado à legislação tanto civil quanto eclesiástica, que seria injusto para com nossos leitores passar por ele sem tomar uma nota, mesmo que ele não esteja imediatamente relacionado à igreja latina. Ele pertencia ao Oriente, e assim dificultava a ascensão do Ocidente.

No ano 527 Justiniano ascendeu ao trono de Constantinopla e o ocupou por quase quarenta anos. Ele delegou os assuntos políticos e militares do império a seus ministros e generais, e devotou seu tempo às coisas que ele pensava serem mais importantes. Ele gastou muito de seu tempo em estudos teológicos e na regulação dos assuntos religiosos de seus súditos, tais como prescrever o que os sacerdotes e o povo devia crer e praticar. Ele gostava de se misturar em controvérsias e de agir como legislador em assuntos religiosos. Sua própria fé — ou melhor, sua servil superstição — distinguia-se pela mais rígida ortodoxia, e uma grande porção de seu longo reinado foi gasto na extinção de heresias. Mas isto levou a muitos casos de perseguição, tanto públicas como privadas.

Nesse meio tempo Justiniano viu um novo campo se abrindo para suas energias em outra direção, e imediatamente voltou sua atenção a isto. Após a morte de Teodorico, o Grande, em 526, os assuntos da Itália caíram em uma condição muito confusa, e os novos conquistadores estavam longe de permanecerem firmemente assentados em seus tronos. Despertando a hostilidade dos romanos contra os bárbaros, o exército imperial tornou-se unido e determinado; e, conduzidos pelos capazes generais Belisário e Narses, as conquistas da Itália e África foram alcançadas em um espaço muito curto de tempo. Diante da visão das bem conhecidas águias, os soldados dos bárbaros se recusaram a lutar, e as nações lançaram fora a supremacia dos ostrogodos. Os generais imperiais buscaram então uma guerra de extermínio. Conta-se que durante o reinado de Justiniano a África perdeu cinco milhões de habitantes. O arianismo foi extinto naquela região, e na Itália supõe-se que o número dos que pereceram pela guerra, fome, ou por outros motivos, tenha excedido sua população atual 4. Os sofrimentos desses países, durante as revoluções desse período, foram maiores do que tinham suportado em qualquer outro, seja em tempos anteriores ou posteriores, de modo que tanto os eventos seculares do reinado de Justiniano quanto seus próprios esforços legislativos tiveram uma influência importante, porém muito infeliz, na história do cristianismo.

Após erigir a igreja5 de Santa Sofia, e outras vinte e cinco outras igrejas em Constantinopla, e após publicar um novo édito de seu código, ele morreu em 565 d.C.6

Passemos então ao terceiro grande fundador do edifício papal.

Gregório I, Apelidado de “o Grande” (590 d.C.)

Chegamos agora ao final do sexto século do cristianismo. Neste ponto encerra-se a história do período inicial da igreja, e começa a do período medieval. O pontificado de Gregório pode ser considerado como a linha que separa os dois períodos. Uma grande mudança acontece. As igrejas orientais declinam e recebem pouca atenção, enquanto as igrejas do Ocidente, especialmente a de Roma, atraem amplamente a atenção do historiador. E como Gregório pode ser considerado o homem representativo desse período transicional, nos esforçaremos para colocá-lo de forma justa perante o leitor.

Gregório nasceu em Roma por volta do ano 540, sua família sendo de classe senatorial, e ele próprio sendo o bisneto de um papa chamado Félix, de modo que, em sua descendência, ele herdou tanto a dignidade civil quanto a eclesiástica. Pela morte de seu pai ele se tornou possuidor de grande riqueza, que ele imediatamente dedicou a usos religiosos. Ele fundou e manteve sete monastérios: seis na Sicília, e a outra, que era dedicada a Santo André, na mansão de sua família em Roma. Ele liquidou em dinheiro suas roupas e joias caras e seus móveis e distribuiu aos pobres. Quando tinha cerca de 35 anos ele deixou de lado seus compromissos civis, assumiu sua residência no monastério romano e começou uma vida estritamente ascética. Embora fosse seu próprio convento, ele começou com os mais baixos deveres monásticos. Todo seu tempo era gasto em oração, lendo, escrevendo, e fazendo os mais abnegados exercícios. A fama de sua abstinência e caridade se espalhou por toda a parte. Com o decorrer do tempo ele se tornou abade de seu monastério; e, com a morte do papa Pelágio, ele foi escolhido pelo senado, clero e povo para preencher a cadeira vazia. Ele se recusou, e esforçou-se por vários meios a escapar das honras e dificuldades do papado. Mas ele foi forçadamente ordenado, pelo amor do povo, como bispo supremo.

Tirado da quietude de um claustro e de suas pacíficas meditações ali, Gregório via-se então envolvido no gerenciamento dos mais variados e desconcertantes assuntos tanto da igreja como do Estado. Mas ele estava evidentemente preparado para o grande e árduo trabalho que tinha diante de si. Vamos tomar nota, primeiramente, da fervente caridade de Gregório.

A Caridade Fervente de Gregório

O caráter de Gregório se distinguia pelo fervor de seus Atos de caridade. Embora elevado ao trono papal, ele viveu em um estilo simples e monástico. Seu palácio era cercado pelos pobres sofredores, como tinha sido seu monastério, e o alívio era distribuído com uma mão liberal. Não contente em apenas exercitar sua caridade sozinho, ele poderosamente exortava seus irmãos episcopais a abundarem na mesma. “Que o bispo não pense”, diz ele, “que apenas a leitura e pregação são suficientes, ou apenas estudiosamente manter-se em retiro, enquanto a mão que enriquece permanece fechada. Mas que sua mão seja generosa; que faça avanços em direção àqueles que estão em necessidade; que considere as necessidades dos outros como se fossem de si próprio; pois sem essas qualidades o nome do bispo é um título vão e vazio”.

A riqueza da Sé romana permitiu-lhe exercitar extensas caridades. Como administrador dos fundos papais, Gregório tem a reputação de ser justo, humano e muito laborioso. Mas seu biógrafos são tão volumosos em seus relatos sobre suas boas obras que chega a ser difícil tentar um breve esboço. No entanto, como podemos estimá-lo como um crente em Cristo, apesar da falsa posição em que estava e sua consequente cegueira quanto ao verdadeiro caráter da igreja, nos deleitamos em demorar um pouco mais em sua memória, e também traçar a linha prateada da graça de Deus apesar da ímpia mistura das coisas seculares e sagradas.

Na primeira segunda-feira de cada mês ele distribuía grandes quantidades de provisões a todas as classes. Os doentes e enfermos eram superintendidos por pessoas designadas para inspecionar todas as ruas. Antes de sentar-se à sua própria refeição, uma porção era separada e enviada aos famintos à sua porta. Os nomes, idades e moradias daqueles que recebiam o alívio papal encheram um grande volume. Tão severa era a caridade de Gregório que, certo dia, ao ouvir sobre a morte de um homem pobre pela fome, condenou-se a si mesmo a uma dura penitência pela culpa de negligência como administrador da divina graça. Mas sua ativa benevolência não se limitava à cidade de Roma; era algo quase mundial. Ele entrava em todas as questões que afetavam o bem-estar de todas as classes, e prescrevia minuciosas regulamentações para todas, para que os pobres não fossem expostos à opressão dos ricos, ou os fracos fossem oprimidos pelos fortes. Mas isto ficará mais evidente quando tomarmos nota da posição eclesiástica e temporal de Gregório.

A Posição Eclesiástica e Secular de Gregório

O cuidado pastoral da igreja era evidentemente o principal objetivo e deleite do coração de Gregório. Ele acreditava que esta era sua obra, e com prazer teria se dedicado inteiramente a isto; pois, de acordo com a credulidade supersticiosa da época, ele tinha a mais profunda convicção de que o cuidado e governo de toda a igreja pertencia a ele como sucessor de São Pedro; e também, que ele era obrigado a defender a dignidade especial da Sé de Roma. Mas ele foi compelido, a partir do perturbado estado da Itália, e pela segurança de seu povo — seu querido rebanho — a empreender muitos tipos de negócios incômodos, totalmente estranhos ao seu chamado espiritual. Os invasores lombardos7 eram, naquela época, o terror dos italianos. Os godos tinham sido, em grande medida, civilizados e romanizados. Mas esses novos invasores eram bárbaros sem remorso e impiedosos; embora, por mais estranho que seja dizê-lo, eles eram os autodeclarados campeões do arianismo. E o poder imperial, em vez de proteger seus súditos italianos, agiu apenas como um obstáculo para que eles se defendessem. Guerra, fome e pestilência tinham dizimado e despopulado tanto o país, que todos os corações falhavam, e todos se voltavam ao bispo como o único homem para a emergência desses tempos, de tão firme que era a opinião sobre sua integridade e capacidade entre os homens.

Assim vemos que o poder secular, em primeira instância, foi imposto ao Papa. Não parece que ele buscava essa posição — uma posição tão ansiosamente procurada por muitos de seus sucessores; mas vemos que ele entrou com relutância em deveres tão pouco de acordo com o grande objetivo de sua vida. Ele involuntariamente deixou para trás a vida quieta e contemplativa de monge, e entrou em assuntos do estado como um dever a Deus e a seu país. A direção dos interesses políticos de Roma recai sobretudo sobre Gregório. Ele foi guardião da cidade e o protetor da população da Itália contra os lombardas. Toda a história presta testemunho à sua grande capacidade, sua incessante atividade, e a multiplicidade de suas ocupações como o virtual soberano de Roma.

No entanto, por mais inconsciente que Gregório tenha sido quanto aos efeitos de sua grande reputação, ele contribuiu muito para a dominação eclesiástica e secular de Roma. A preeminência em seu caso, por mais triste que fosse para um cristão, era desinteressada e exercida de modo benéfico; mas não foi assim com seus sucessores. A infalibilidade do Papa, a tirania espiritual, a perseguição aos de diferentes opiniões, a idolatria, a doutrina do mérito das obras, o purgatório e as missas pelas almas dos mortos, coisas que se tornaram marcas registradas do papado, ainda não haviam se estabelecido totalmente em Roma; mas, podemos dizer, estavam todas à vista.

Não devemos, no entanto, prosseguir com esse assunto no momento; voltemos a um assunto mais interessante e mais agradável a nossas mentes.

O Zelo Missionário de Gregório

Apesar do abatimento da igreja e de todas as classes da sociedade através das invasões dos bárbaros, o bendito Senhor zelava pela disseminação do evangelho em outros países. E certamente foi pela Sua misericórdia que as hostes de invasores que se espalharam pelas províncias do império foram logo convertidos ao cristianismo. Eles podem ter tido muito pouco entendimento sobre sua nova religião, mas isto abrandou muito sua ferocidade e mitigou os sofrimentos dos conquistados. Gregório era muito zeloso em seus esforços de estender o conhecimento do evangelho e trazer as nações bárbaras à fé católica. Mas seu plano favorito, e o que tinha estado a muito tempo em seu coração, era a evangelização dos anglo-saxões.

A bela história do incidente que primeiramente dirigiu a mente de Gregório à conversão da Britânia é prazerosa demais para não merecer um espaço em nosso texto. Nos primeiros dias de sua vida monástica, pelo menos antes de sua elevação ao papado, certo dia chamou-lhe a atenção alguns meninos bonitos de cabelos claros expostos à venda no mercado. Conta-se que ocorreu a seguinte conversa neste lugar. Ele perguntou de que país eles vinham. “Da ilha da Britânia”, foi a resposta. “Os habitantes dessa ilha são cristãos ou pagãos?” “Eles ainda são pagãos”. “Que infelicidade”, disse ele, “que o príncipe das trevas possua gente de tamanha graça! Que tal beleza de rosto possa desejar aquela melhor beleza da alma”. Ele então perguntou por qual nome eram chamados. “Anglos”, foi a resposta. Brincando com as palavras, ele disse: “Verdadeiramente eles são Anjos! De que província?” “Da província de Deira, na Nortúmbria”. “Certamente eles devem ser resgatados ’de ira’ — da ira de Deus, e chamados à misericórdia de Cristo. Qual o nome do rei deles?” “Ella”, foi a resposta. “Sim”, disse Gregório, “Aleluias devem ser cantadas nos domínios desse rei.”

“Ser o primeiro missionário desse belo povo”, diz Milman, “e conquistar a ilha remota e bárbara, como um César cristão, para o reino de Cristo, tornou-se a santa ambição de Gregório. Ele conseguiu com muito esforço o consentimento do Papa, e tinha já partido e viajado por três dias, quando foi abordado por mensageiros enviados para chamá-lo de volta. Toda a Roma tinha se levantado em piedoso motim e compeliu o Papa a revogar sua permissão”8. Mas embora ele tenha sido assim prevenido de executar sua missão em pessoa, ele nunca perdeu de vista seu nobre objetivo. A partir desse momento ele não foi mais permitido a retornar ao seu monastério. Ele foi forçado a embarcar em assuntos públicos, primeiro como um diácono, e mais tarde como supremo pontífice. Mas tudo isso era uma dignidade compulsória para Gregório. Seu coração estava voltado para a salvação dos jovens de cabelo claro da Inglaterra e preferiria mil vezes ter embarcado em viagem à nossa ilha 9, com todas as suas dificuldades e perigos desconhecidos, do que ser coroado com as honras do papado. Mas tal era o caráter de sua mente, que ele perseguia com incansável atenção e devoção qualquer plano de piedade que tivesse planejado anteriormente. Daí aconteceu que, após ter sido elevado à cadeira papal, foi-lhe permitido promover e enviar um grupo de quarenta missionários para as margens da Britânia. Mas antes de falarmos sobre o caráter e resultados dessa missão, será interessante olhar brevemente para a história da igreja nas Ilhas Britânicas desde o início.

A Primeira Colocação dos Alicerces da Cruz na Britânia

À muito tempo, nos primeiros dias da simplicidade apostólica, a cruz de Cristo, cremos, foi plantada nessa ilha. Há evidência histórica para acreditar que “Cláudia”, mencionada por Paulo em sua Segunda Epístola a Timóteo, foi a filha de um rei britânico, que se casou com um distinto romano chamado “Prudente”. Esta circunstância não parecerá improvável se tivermos em mente que, durante todo o período do domínio romano nesse país, devem ter havido muitas oportunidades para a disseminação do cristianismo, as quais seriam prontamente abraçados por aqueles que amavam o Senhor Jesus e as almas dos homens. Além disso, era o costume da época para os reis e nobres britânicos enviar seus filhos para Roma para educação; e esta prática, conta-se, prevaleceu a tal ponto que uma mansão foi estabelecida expressamente para eles, e um imposto de um centavo era cobrado de cada casa na Inglaterra para apoiá-la.10

Outra testemunha para o precoce estabelecimento do cristianismo nesse país é o testemunho dos “Pais”. Justino Mártir, Irineu e Tertuliano, que escreveram no século II, afirmam que, em cada país conhecido aos romanos havia pessoas que professavam o cristianismo — desde aqueles que andavam em carroças até os que não tinham nem um lar para viver, não havia raça de homens dentre os quais não houvessem orações oferecidas no nome de um Jesus crucificado. Temos também o testemunho dos últimos “Pais”. A corrente histórica parece ser carregada pela menção de bispos britânicos tendo participado de vários dos concílios gerais no século IV; e sua ortodoxia no decorrer da controvérsia ariana foi atestava pelo peso das evidências de Atanásio e Hilário. É também digno de nota que Constantino — que tinha passado algum tempo com seu pai na Britânia — ao escrever às igrejas do império sobre a disputa concernente à Páscoa, citou a igreja britânica como um exemplo de ortodoxia. A heresia pelagiana, conta-se, foi introduzida na Britânia por alguém chamado Agrícola no ano 429, onde encontrou muita aceitação; mas em uma conferência em Saint Albans os mestres hereges foram derrotados pelo clero ortodoxo.11

A Antiga Igreja Britânica

Embora a igreja britânica tivesse adquirido tal crédito pela ortodoxia, temos muito pouca informação confiável quanto à sua ascensão e progresso, ou quanto aos meios pelos quais isto foi efetuado. Há muitas tradições, mas elas mal são dignas de serem repetidas, e são impróprias para uma breve história. Há ampla evidência, no entanto, de que na primeira parte do século IV, e pelo menos por duzentos anos antes da chegada dos monges italianos, a igreja britânica tinha uma organização completa, com seus próprios bispos e metropolitas.

De acordo com o testemunho tanto dos historiadores antigos quanto dos modernos, as doutrinas e rituais da igreja antiga da Britânia eram de caráter muito simples se comparadas com a grega e romana, embora ainda muito longe da simplicidade do Novo Tetamento. Eles ensinavam a unicidade da Divindade, a Trindade, a natureza divina e humana de Cristo, a redenção por Sua morte, e a eternidade de recompensas e punições futuras. Eles consideravam a ceia do Senhor como um símbolo, e não um milagre; eles tomavam o pão e o vinho como nosso Senhor comandou que fossem tomados — em memória dEle — e eles não recusavam o vinho aos leigos. Sua hierarquia consistia de bispos e sacerdotes, com outros ministros, e uma cerimônia especial era feita para a ordenação. O casamento era comum entre o clero. Havia também monastérios com monges vivendo neles, jurados à pobreza, castidade e obediência a seu abade. As “igrejas”12 eram construídas em honra aos mártires, e cada “igreja” tinha muitos altares; as cerimônias eram realizadas na língua latina, em tom monocórdico pelos sacerdotes. Disputas eram finalmente resolvidas por sínodos provinciais, que ocorriam duas vezes ao ano; acima disso, em questão de disciplina, não havia apelação. Assim vemos que as doutrinas da igreja antiga da Britânia era caracterizada por uma verdadeira simplicidade apostólica, e como instituição ela era livre e sem restrições.13

É motivo de sincera gratidão14 que a história inicial da igreja na Inglaterra tenha deixado um nome tão íntegro comparado às superstições e corrupções do Oriente e do Ocidente. Mas, infelizmente, sua existência como um estabelecimento separado não durou muito. Ela mal pôde sobreviver à metade do século VII. Suas calamidades foram provocadas por três passos consecutivos, todos estes fora de sua própria jurisdição — a retirada das tropas romanas da Britânia; a Conquista Saxônica; e a Missão Agostiniana. Vamos agora olhar brevemente para cada um desses passos e seus efeitos.

Vimos algo sobre o declínio e aproximação da queda do Império Romano. Em consequência das pesadas calamidades que caíram sobre a cidade e as províncias de Roma, as tropas foram gradualmente retiradas da ilha britânica para que protegessem o centro do domínio. E os romanos, vendo que não podiam mais dispensar as forças necessárias para um estabelecimento militar na Britânia, partiram finalmente da ilha por volta da metade do século V, cerca de 475 anos após Júlio César ter desembarcado, pela primeira vez, em suas margens. O governo então caiu nas mãos de um número de príncipes insignificantes que, é claro, brigaram entre si. Guerras civis, fraqueza nacional e desmoralização logo se seguiram, com seus habituais juízos.

A retirada das tropas romanas necessariamente expôs o país a invasores, especialmente os pictos e escotos. Os chefes britânicos, incapazes de resistir a esses audaciosos ladrões e saqueadores, apelaram, em sua angústia, a Roma. “Os bárbaros”, eles diziam, “atravessaram nossas muralhas como lobos em um rebanho de ovelhas, vão embora com seus espólios e retornam todos os anos.” Mas por mais que os romanos pudessem ter pena de seus velhos amigos, eles agora não podiam ajudá-los. Decepcionados com a ajuda de Roma, e desesperado por sua incapacidade de defenderem-se contra as desoladoras tribos do Norte, os britânicos se voltaram aos saxões por ajuda.15

A Chegada dos Saxões à Inglaterra

Por volta da metade do século V os navios saxões chegaram à costa britânica e, sob seus líderes, Hengist e Horsa, desembarcaram algumas centenas de guerreiros ferozes e desesperados. Estes famosos líderes imediatamente tomaram o campo a frente de seus seguidores e derrotaram completamente os pictos e escotos. Mas o remédio se provou pior do que a doença. Um grande mal foi afastado, mas um outro pior apareceu. Os saxões, vendo que o país que eles tinham sido contratados a defender possuía um clima mais agradável que o próprio país deles, e ansiosos por trocar as sombrias margens do Norte pelos campos ricos da Britânia, convidaram novas levas de seus compatriotas para unirem-se a eles; e assim, de defensores eles se tornaram conquistadores e mestres dos malfadados britânicos. Os anglos e outras tribos se espalharam pelo país; e embora os britânicos não tivessem cedido sem uma luta severa, o poder saxão prevaleceu e reduziu os nativos à completa submissão, ou levou-os a procurar abrigo nas montanhas do País de Gales, na Cornualha e em Cumberland. Muitos emigraram, e alguns se estabeleceram em Armórica, agora Bretanha, no noroeste da França.

Mas os saxões e anglos não eram apenas guerreiros selvagens, eles eram também pagãos selvagens e impiedosos. Eles exterminavam o cristianismo onde quer que conquistavam. De acordo com o “venerável Bede”, os bispos e seu povo foram indiscriminadamente abatidos com fogo e espada, e não havia ninguém para enterrar as vítimas de tal crueldade. Edifícios públicos e privados foram, do mesmo modo, destruídos, sacerdotes foram assassinados por toda a parte no altar; alguns que tinham fugido para as montanhas foram apreendidos e mortos aos montes, outros, cansados e com fome, renderam-se, abraçando a escravidão perpétua em troca da vida; alguns fugiram a regiões além do mar, e alguns levaram uma vida de pobreza entre as montanhas, florestas e rochedos.

A Britânia, após esse evento, recaída a um estado de obscuro barbarismo, foi retirada da visão do mundo civilizado e afundou-se às profundezas da miséria e crueldade; e ainda assim esse é o mesmo povo que o Senhor pôs no coração de Gregório para ganhá-lo para Si pelo evangelho da paz. Como podiam alguns pobres monges, sem frota ou exército, como podemos bem exclamar, se aventurar em tais margens, e menos ainda ganhar os corações e subjugar a vida de tais selvagens à fé e prática do evangelho da paz? É o mesmo evangelho que triunfou sobre o judaísmo, o orientalismo, o paganismo, e pelo mesmo poder divino, em breve triunfaria sobre o feroz barbarismo dos anglo-saxões. Quão fraca e tola é a infidelidade que questiona sua origem divina, poder e destino! Observaremos agora o progresso da missão.

A Missão de Agostinho na Inglaterra

No ano 596, e cerca de 150 anos após a chegada dos saxões na Britânia, a famosa missão de Gregório saiu da Itália rumo a essa ilha. Uma companhia de quarenta monges missionários, sob a direção de Agostinho, foram enviados para pregar o evangelho aos ignorantes anglo-saxões. Mas ao ouvir sobre o caráter e hábitos selvagens do povo, e sendo ignorantes de sua língua, eles ficaram seriamente desencorajados e tiveram medo de prosseguir. Agostinho foi enviado de volta pelos outros para suplicar a Gregório que os dispensassem do serviço. Mas ele não era um homem que abandonava uma missão daquele tipo. Ele não a planejou com pressa, mas foi o resultado de muita oração e deliberação. Ele, portanto, os exortou e encorajou a seguir em frente, confiando no Deus vivo e na esperança de ver o fruto de seus labores na eternidade. Ele entregou-lhes cartas de apresentação para bispos e príncipes, e lhes garantiu toda assistência em seu poder. Assim animados eles prosseguiram a sua viagem e, viajando pelo caminho da França, chegaram na Britânia.

Os 41 missionários, tendo desembarcado na Ilha de Thanet, anunciaram a Etelberto, rei de Kent, sua chegada de Roma e sua missão com novas de grande alegria para ele e para seu povo. As circunstâncias favoreceram muito essa marcante missão. Bertha, a rainha (filha de Clotário I, rei dos francos), era cristã. Seu pai estipulou em seu acordo matrimonial que devia ser permitido a ela a livre profissão do cristianismo, na qual tinha sido educada. Um bispo participava de sua corte, e vários de sua casa eram cristãos, e as cerimônias eram conduzidas de acordo com a forma romana. O Senhor, neste caso, usou uma mulher, como Ele fez muitas vezes, para a propagação do evangelho entre os pagãos. Estas contrastam favoravelmente com a classe de “mulheres Jezabel”, e preservam a linha prateada da graça de Deus nessas tempos de trevas. Bertha era da casa de Clóvis e Clotilda.

Etelberto, influenciado por sua rainha, recebeu bondosamente os missionários. Foi permitido a Agostinho e seu séquito que prosseguissem para a Cantuária, a residência do rei. Este consentiu com uma entrevista, mas ao ar livre por medo de magia. Os monges se aproximaram da festa real de maneira muito imponente. Um deles, carregando uma grande cruz prateada com a figura do Salvador, conduziu a procissão, a qual seguiram-se os demais, cantando seus hinos em Latim. Ao chegarem ao carvalho escolhido como o local da conferência, foi dada permissão para que pregassem o evangelho ao príncipe e seus assistentes. O rei foi então informado que eles tinham vindo com boas novas, e até mesmo vida eterna para aqueles que os recebessem, e o prazer da bem-aventurança no céu para sempre. O rei ficou favoravelmente impressionado, e lhes deu uma mansão na cidade real de Cantuária, e liberdade para pregarem o evangelho a sua corte e ao povo. Eles então marcharam para a cidade, cantando em uníssono a ladainha: “Te suplicamos, ó Senhor, em toda a Tua misericórdia, que Tua ira e Tua fúria sejam removidas desta cidade, e de Tua santa casa, porque nós temos pecado. Aleluia”.

Por esses passos preparatórios o caminho dos missionários tornou-se simples e fácil. A aprovação do monarca inspirou seus súditos com confiança, e abriu seus corações aos mestres. Novos convertidos se multiplicaram rapidamente. No Natal do ano 597 conta-se que não menos que 10.000 pagãos foram reunidos ao rol da igreja católica pelo batismo. Etelberto também se submeteu ao batismo e ao cristianismo na forma romana, tornando-se a religião estabelecida de seu reino. Esta foi a primeira base de Roma na Inglaterra. Ela estava agora determinada em subjugar a igreja britânica ao papado, e estabelecer sua autoridade na Grã-Bretanha, como tinha feito na França. Ela começou a trabalhar da seguinte maneira…(continua no próximo capítulo)

A Hierarquia Católica Romana Formada na Inglaterra

Gregório, ao ouvir sobre o grande sucesso de Agostinho, enviou-lhe mais missionários, que carregaram com eles um número de livros, incluindo os Evangelhos, utensílios cerimoniais, vestimentas, relíquias, e o pálio que deveria investir Agostinho como Arcebispo da Cantuária. Ele também orientou-lhe que consagrasse doze bispos em sua província; e, caso achasse vantajoso para a propagação da fé, que estabelecesse outro metropolita em York, que deveria então ter autoridade de nominar outros doze bispos para os distritos nortenhos da ilha. Tais foram os rudimentos da igreja inglesa; e tal era a exagerada impaciência de Gregório pela supremacia eclesiástica, que ele estabelecia um plano de governo para locais antes de terem sido visitados pelos evangelistas.

“Na visão eclesiástica do caso”, diz Greenwood, “a igreja anglo-saxônica era a filha genuína de Roma. Mas, além dos limites desse estabelecimento, nenhum direito de parentesco pode ser atribuído a ela dentro das ilhas britânicas. Uma numerosa população cristã ainda existia nos distritos nortenhos e ocidentais, cujas tradições não davam apoio à alegação romana de maternidade. O ritual e disciplina das igrejas britânicas, galesas e irlandesas diferiam em muitos pontos daquelas de Roma e dos latinos em geral. Eles celebravam a festa da Páscoa em conformidade com a prática das igrejas orientais, e na forma de tonsura16, assim como no rito batismal, ele seguiam o mesmo modelo: diferenças que, por si só, parecem suficientes para excluir toda a probabilidade de um pedigree puramente latino”.17

Agostinho, então à frente da hierarquia composta de doze bispos, imediatamente fez a ousada tentativa de trazer a antiga igreja britânica sob a jurisdição romana. Através da influência de Etelberto ele obteve uma conferência com alguns dos bispos britânicos em um lugar que, naquela época, foi chamado de “carvalho de Agostinho”, em Severn. Ali o clero romano e o britânico se encontraram pela primeira vez; e a primeira e imperiosa exigência de Agostinho foi: “Reconheçam a autoridade do bispo de Roma”. “Desejamos amar todos os homens”, eles humildemente responderam, “e qualquer coisa que fizermos por vocês, faremos também a este a quem chamam de Papa”. Surpresos e indignados com sua recusa, Agostinho os exortou a adotarem os costumes romanos quanto à celebração da Páscoa, à tonsura e à administração do batismo, para que uma uniformidade de disciplina e adoração pudesse ser estabelecida na ilha. A isto eles positivamente se recusaram. Tendo recebido o cristianismo, primeiramente, não de Roma, mas do Oriente, e nunca tendo reconhecido a igreja romana como sua mãe, eles viam-se como independentes da Sé de Roma. Um segundo e um terceiro concílio foi realizado, mas sem melhores resultados. A Agostinho foi claramente dito que a igreja britânica não reconheceria homem algum como supremo na vinha do Senhor. O arcebispo exigiu, argumentou, censurou, realizou milagres; mas tudo sem efeito — os britânicos eram firmes. Por fim, lhe disseram que eles não podiam se submeter nem à soberba dos romanos, nem à tirania dos saxões. Despertado à irada indignação pela quieta firmeza deles, o zangado sacerdote exclamou: “Se vocês não receberem os irmãos que lhes trazem paz, vocês receberão inimigos que lhes trarão guerra. Se vocês não se unirem conosco para mostrar aos saxões o caminho da vida, vocês receberão deles o golpe da morte”. O arrogante arcebispo retirou-se, e supõe-se que tenha morrido pouco tempo depois, em 605 d.C., mas sua profecia de mal agouro cumpriu-se logo após sua morte.

Edelfrido, um dos reis anglo-saxões, ainda um pagão, juntou um numeroso exército e avançou em direção a Bangor, o centro do cristianismo britânico. Os monges fugiram em grande alarme. Cerca de 1250 deles se refugiaram em um local afastado, onde concordaram em continuar juntos em oração e jejum. Edelfrido se aproximou e, ao ver um número de homens desarmados, perguntou quem eram. Ao dizerem-lhe que eram os monges de Bangor que tinham vindo a orar pelo sucesso de seus conterrâneos: “Então”, ele clamou, “embora não tenham armas, estão lutando contra nós”; e ordenou a seus soldados que caíssem sobre os monges em oração. Cerca de 1200, conta-se, foram mortos, e apenas cinquenta escaparam em fuga. Assim o domínio de Roma começou na Inglaterra, o que continuou por quase mil anos.

Se Agostinho tinha realmente algo a ver com o assassinato dos monges, parece difícil dizer. Aqueles que tomam uma forte visão protestante do caso afirmam claramente que seus últimos dias foram ocupados em fazer arranjos para o cumprimento de sua própria ameaça. Outros, que tomam uma visão oposta, negam que haja qualquer evidência de que ele influenciou os pagãos para a terrível tragédia. Mas, seja como for, uma suspeita tenebrosa deve sempre pairar sobre a política de Roma. As próprias palavras vingativas de Agostinho, e toda sua história, confirmam a suspeita. Tal era a natureza da intolerante Jezabel — quando o argumento falhava, ela apelava para a espada. A partir de então o romanismo caracterizou-se pela arrogância e sangue. A antiga igreja da Britânia, que era limitada aos distritos montanhosos do País de Gales, gradualmente diminuiu e desapareceu.18

Reflexões sobre a Missão de Agostinho e o Caráter de Gregório

Agostinho [de Cantuária] é mencionado por alguns historiadores como um cristão devoto, e seu empreendimento missionário como um dos maiores nos anais da igreja. Mas, sem querer diminuir um degrau sequer da grandeza do homem ou de sua missão, não podemos nos esquecer que as Escrituras são o único padrão verdadeiro de caráter e obras. Ali aprendemos que o fruto do Espírito é “amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” (Gálatas 5:22). E, certamente, o grande clérigo não manifestou para com seus irmãos, os cristãos britânicos, a graça do amor, a paz, ou a conciliação; pelo contrário, ele era orgulhoso, imperioso, soberbo e vanglorioso.

Esses sérios defeitos em seu caráter não eram desconhecidos a Gregório, como ele diz, em uma carta endereçada a ele: “Eu sei que Deus tem realizado, através de você, grandes milagres entre o povo, mas lembremo-nos de que, quando os discípulos disseram com alegria ao divino Mestre: ’Senhor, pelo teu nome, até os demônios se nos sujeitam’, Ele lhes respondeu: ’Alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus’19. Enquanto Deus assim emprega sua agência, lembre-se, meu querido irmão, de julgar a si mesmo secretamente por dentro, e conhecer bem o que você é. Se você ofendeu a Deus em palavras ou ações, preserve essas ofensas em seus pensamentos para reprimir a vanglória de seu coração, e considere que o dom de milagres não lhe é concedido por si mesmo, mas para aqueles cuja salvação você está trabalhando para conseguir”. Em outra carta ele o alertou contra a “vaidade e pompa pessoal”, e lembrou-lhe “que o pálio de sua dignidade devia ser usado no serviço da igreja, e não para ser colocado em competição com o púrpura real nas ocasiões estatais”.

Agostinho era totalmente inadequado para uma missão que requeria paciência e uma terna consideração pelos outros. A igreja britânica tinha existido por séculos, seus bispos tinham tomado parte em grandes concílios eclesiásticos e assinado seus decretos. Os nomes de Londres, York e Lincoln são encontrados nos registros do Concílio de Arles (314 d.C.), de modo que devemos, no mínimo, respeitar nos britânicos o desejo deles de aderirem à liturgia transmitida pelos seus ancestrais, e de resistir à suposição estrangeira da supremacia espiritual de Roma. Agostinho falhou completamente em se aproveitar das lições de humildade que tinha recebido de seu grande mestre, e assim tem menos motivo de reivindicação sobre nossa estima e admiração.

O grande clérigo Gregório, assim como seu grande missionário, não sobreviveu muito tempo após a conquista espiritual da Inglaterra. Desgastado por seus grandes labores e enfermidades, ele morreu no ano 604, assegurando a seus amigos que a expectativa da morte era seu único consolo, e pedindo-lhes que orassem por sua libertação dos sofrimentos corporais.

A conduta de Gregório durante os treze anos e seis meses em que foi bispo de Roma demonstra um zelo e uma sinceridade dificilmente igualada na história da igreja romana. Ele era laborioso e abnegado no que ele acreditava ser o serviço de Deus, e em seu dever para com a igreja e para com toda a humanidade. A coleção de suas cartas, quase 850 em seu número, carrega um amplo testemunho de sua capacidade e atividade em todos os assuntos dos homens, e em todas as esferas da vida. “De tratar com reis patriarcas ou imperadores sobre as mais elevadas preocupações da Igreja e do Estado, ele passava a dirigir o gerenciamento de uma fazenda, ou ao alívio de algum aflito peticionário em alguma dependência distante de sua Sé. Ele aparece como um papa, como um soberano, como um bispo, como senhorio. Ele toma medidas para a defesa de seu país, para a conversão dos pagãos, para a repreensão e reconciliação dos cismáticos”, etc.20

Mas, não obstante as variadas excelências de Gregório, ele era profundamente infectado com os princípios e o espírito da época em que vivia. O espírito de Jezabel estava evidentemente trabalhando ainda em sua juventude. Em vão procuramos por qualquer coisa parecida com a simplicidade cristã na igreja de Deus dessa época. Não podemos duvidar da piedade do próprio Gregório; mas, como um eclesiástico, o que ele era? Envenenado até o fundo do coração pela grosseira ilusão das reivindicações universais da cadeira de São Pedro, ele não podia arriscar nenhum rival, como vemos em sua oposição determinada e amarga às pretensões de João, bispo de Constantinopla; e, o que era ainda mais tenebroso, vemos o mesmo espírito em sua exultação ao saber sobre o assassinato do imperador Maurício e sua família pelo cruel e traiçoeiro Flávio Focas, simplesmente porque Gregório presumiu que Maurício fosse culpado do que ele considerou heresia. Ao que parece, Maurício apoiou o que Gregório julgou ser usurpação da parte de João, ao assumir o título de bispo universal. Mas mesmo sancionar tal afirmação não era qualquer pequeno crime na mente do pontífice romano. E assim foi com Gregório. Quando a notícia da sangrenta tragédia chegou a seus ouvidos, ele se alegrou; pareceu a ele ser uma luz de dispensação providencial para a libertação da igreja de seus inimigos. As própria fontes de caridade parecem ter secado nos corações de todos os que já se sentaram em um trono papal, quando se tratava de rivais eclesiásticos. A justiça, a franqueza, a humanidade, e todo sentimento correto do cristianismo acabam cedendo às dominantes reivindicações da falsa igreja. Até mesmo Gregório se curvou e foi terrivelmente corrompido pela “mulher Jezabel” (Apocalipse 2:20).

A Superstição e a Idolatria de Gregório

Ambição misturada com humildade e superstição misturada com fé caracterizavam o grande pontífice. Esta estranha mistura e confusão era, sem dúvida, o resultado de sua falsa posição. É difícil entender como um homem de tão bom senso pôde se tornar tão degradado pela superstição a ponto de acreditar na operação de milagres por meio de relíquias, e recorrer a tais coisas para a confirmação da verdade das Escrituras. Mas a triste verdade é que, em vez de devotar-se aos interesses de Cristo, ele foi cegado pelo grande e absorvente objetivo: os interesses da igreja de Roma. Paulo podia dizer: “Uma coisa faço”; e também “Uma coisa sei”. Primeiro, devemos saber que somos perdoados e aceitos; então, fazer as coisas que agradam a Cristo é o elevado e celestial chamado do cristão. “Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte…Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:10–14). Tal era, e deveria sempre ter sido, o espírito e o anelo do cristianismo. Mas o que encontramos ao final do sexto século? Qual era a “uma coisa” que Gregório tinham em vista? Claramente não eram as reivindicações de um Cristo celestial, e conformidade com Ele em Sua ressurreição, sofrimentos e morte. Podemos seguramente afirmar que o grande objetivo de sua vida pública foi estabelecer além de qualquer disputa o bispado universal de Roma. E para este fim, em vez de levar almas a deliciarem-se nos caminhos de Cristo, assim como nEle Próprio, o que Paulo sempre fez, ele buscava fazer avançar suas reivindicações da Sé Romana pela idolatria e corrupção. Nem mesmo o espírito de perseguição estava totalmente ausente.

O monasticismo, sob o patrocínio de Gregório, especialmente de acordo com as regras mais estritas de Benedito, foi grandemente revivido e amplamente estendido. A doutrina do purgatório, respeito por relíquias, a adoração de imagens, a idolatria dos santos e dos mártires, o mérito das peregrinações a lugares santos, foram todos ensinados ou sancionados por Gregório, como coisas conectadas ao seu sistema eclesiástico. E temos de reconhecer que tudo isso são características inegáveis da atividade de Balaão e da corrupção de Jezabel.

Mas agora passemos ao século VII. A Idade das Trevas está próxima, e tenebrosa de fato ela é. O papado começa a assumir uma forma definida. E, como chegamos em nossa história ao final de uma era do cristianismo e ao começo de outra, podemos fazer uma pausa proveitosa por um momento para fazer um levantamento geral do progresso do evangelho em diferentes países.


N. do T.: aqui no sentido de seu testemunho na terra↩

N. do T.: a doutrina da Santíssima Trindade defendida no concílio de Niceia, em oposição à doutrina do arianismo↩

Cathedra Petri, de Greenword, vol. 1, p. 348.↩

N. do T.: Este livro foi escrito no Século XIX↩

N. do T.: Aqui provavelmente no sentido de construção religiosa, ou templo, e não no sentido bíblico de “igreja”.↩

Milman, vol. 1, p. 350; J. C. Robertson, vol. 1, p. 473; Milner, vol. 2, p. 336.↩

Os lombardos foram uma tribo germânica de Brandenburg. De acordo com a crença popular, eles tinham sido convidados à Itália por Justiniano para lutar contra os godos. O chefe deles, Alboin, estabeleceu um reino que durou de 568 a 774. O último rei, Desidério, foi destronado por Carlos Magno. Como os encontraremos novamente em conexão com nossa história, apenas tomamos esta breve nota sobre sua origem. — Dicionário de Datas, de Haydn.↩

Cristianismo Latino, vol. 1, p. 434↩

N. do T.: o autor do livro vivia na Inglaterra↩

Para detalhes, veja Vida de Paulo, de Conybeare e Howson; e Monasticismo Inglês, de Travers Hill.↩

J. C. Robertson, vol. 1, p. 450.↩

Aqui no sentido de construção, ou templo cristão↩

Ver Monasticismo Inglês, por Travers Hill, p. 141, as obras de Gildas; A História Eclesiástica da Nação Inglesa, por Bede; A História Eclesiástica da Grã-Bretanha, por Jeremy Collier, vol. 1.↩

O autor vivia na Inglaterra.↩

Enciclopédia Britânica, vol. 5, p. 301.↩

N. do T.: Corte circular, rente, do cabelo, na parte mais alta e posterior da cabeça, que se faz nos clérigos; cercilho, coroa. Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.↩

Cathedra Petri, livro 3, p. 215.↩

Gardner, vol. 1, p. 391.↩

Lucas 10:17–20.↩

J.C. Robertson, vol. 2, p. 4.↩

Europa (372 d.C.—814 d.C.)

A Disseminação do Cristianismo na Europa

O sistema eclesiástico que os monges italianos introduziram na Inglaterra rapidamente se disseminou, e finalmente triunfou. Em cerca de 100 anos após a chegada de Agostinho [de Cantuária], esse sistema era professado e crido por toda a Britânia anglo-saxônica. A igreja inglesa, assim fundada sobre o modelo romano, não podia falhar em manter uma posição especialmente dependente de Roma. Esta união em um período inicial foi promovida e fortalecida pelos monges, freiras, bispos, nobres e príncipes ingleses, que faziam frequentes peregrinações ao túmulo de São Pedro em Roma. O clero britânico, embora ainda aderente aos antigos modos, e dispostos a resistir à presunção estrangeira, foram obrigados a isolarem-se nas extremidades do país. O romanismo agora prevalecia sobre toda a Inglaterra.

A Escócia e a Irlanda parecem ter sido abençoadas com o cristianismo por volta da mesma época que a Britânia. Por meio de soldados, marinheiros, missionários e cristãos perseguidos vindos do sul, o evangelho foi pregado e muitos creram. No entanto, o início da história religiosa desses países é coberto de lendas, portanto vamos nos referir apenas aos nomes e eventos que possuem boa autenticidade.

Os Primeiros Pregadores do Cristianismo na Irlanda

Supõe-se que Patrício (ou Patrick), o apóstolo da Irlanda, nasceu por volta do ano 372 nas margens do rio Clyde. Conta-se que Kilpatrick1 tenha adotado seu nome por causa dele. Seus pais eram cristãos sinceros; seu pai era um diácono, e seu avô era um presbítero. Sua mãe, que buscava instilar em seu coração as doutrinas do cristianismo, era irmã do celebrado Martinho, arcebispo de Tours. Mas o jovem Succath, seu nome original, não era seriamente inclinado para a religião. Algum tempo depois, seus pais deixaram a Escócia e se estabeleceram na Britânia. Aos dezesseis anos, quando Succath e suas duas irmãs estavam brincando à beira do mar, alguns piratas irlandeses, comandados por O’Neal, levaram os três para seus barcos e os venderam como escravos na Irlanda. Por seis anos ele foi empregado em cuidar do gado.

Durante o período de sua escravidão ele suportou muitas e grandes dificuldades. Mas a consciência de seu pecado veio à tona. Ele ficou sério e pensativo. Quando tinha mais ou menos quinze anos ele havia cometido algum grande pecado que então pressionava pesadamente sobre sua consciência, noite e dia. Ele orava com frequência e chorava muito; de fato, tal era o fervor dentro de sua alma que ele ficou insensível ao frio, à chuva e a outas inconveniências às quais ele era exposto. Ele então pensava em seu lar, nas ternas palavras e sinceras orações de sua mãe; e Deus graciosamente usou a lembrança do evangelho que ela lhe ensinava para abençoar sua alma. Ele nasceu de novo. “Eu tinha dezesseis anos”, ele diz, “e não conhecia o Deus verdadeiro; mas naquela ilha estranha o Senhor abriu meus olhos incrédulos e, embora tardiamente, ponderei sobre meus pecados e fui convertido com todo o meu coração ao Senhor meu Deus, que se importou comigo em meu triste estado, teve piedade de minha juventude e ignorância, e que me consolou como um pai consola seus filhos. O amor de Deus aumentou cada vez mais em mim, com fé e temor do Seu nome. O Espírito me incentivou em tal nível que eu me derramava em orações umas cem vezes por dia. E, durante a noite, nas florestas e nas montanhas, quando cuidava do meu rebanho, a chuva, a neve, as geadas e os sofrimentos que eu suportei me impeliam a buscar a Deus. Naquela época eu não sentia a indiferença que agora sinto; o Espírito fermentava o meu coração”.2

Se podemos confiar que essas palavras saíram dos lábios de Succath, elas apresentam um testemunho muito mais puro da verdade do evangelho do que o que encontramos na igreja de Roma. Elas apresentam uma alma exercitada em relacionamento estreito com o Próprio Deus. As formas e o sacerdócio do romanismo destroem esta comunhão bela, pessoal e direta com Deus e com Seu Cristo através da graça e poder do Espírito Santo. Mas tal, sem dúvida, era o cristianismo dessas Ilhas Britânicas antes de ser corrompida pelos emissários papais.

No decorrer do tempo Succath ganhou sua liberdade e, após viajar e pregar muito, ele retornou a sua família. Mas ele logo sentiu um desejo irresistível de voltar à Irlanda e pregar o evangelho aos pagãos, entre os quais ele tinha encontrado o Salvador. Em vão seus pais e amigos tentaram detê-lo. Ele rompeu todos os obstáculos, e com o coração cheio do zelo cristão partiu para a Irlanda. Ele tinha então mais de 40 anos de idade e, de acordo com alguns escritores, tinha sido ordenado presbítero, e foi então consagrado bispo da Irlanda. Por causa disso ele é conhecido como São Patrício. Ele devotou o resto de sua vida à Irlanda, e trabalhou entre eles com grande efeito, embora em meio a muitas dificuldades e perigos. A conversão da Irlanda é atribuída aos seus esforços. O ano de sua morte é incerto.

O Zelo Missionário da Irlanda

Os benditos frutos dos trabalhos de São Patrício foram abundantemente manifestados em anos posteriores. A Irlanda, nessa época, é descrita como uma espécie de paraíso de paz e piedade; e sua fama pelo ensino puro das Escrituras se ergueu tão alto que chegou a receber a honorável denominação de “a ilha dos Santos”. Os labores do clero irlandês, no entanto, não se confinavam em seu próprio país. Naturalmente apaixonados por viajar e vagar, e estando energizados por um amor pelas almas, muitos deixaram seu país natal, em grupos missionários, sob a liderança de um amado e devoto abade. Geralmente conta-se que os monastérios eram tão cheios de monges nessa época que não havia espaço suficiente em seu próprio país para o emprego de seu zelo, de modo que eles sentiam que era seu dever exercer suas atividades em outras terras. Assim vemos uma ampla linha prateada da graça de Deus naquele povo rude, mais distintamente marcado do que em qualquer outra parte da Cristandade. O nome do Senhor seja louvado. Mas tomemos um exemplo para observarmos estas obras.

A Missão de Columba

Columba, um homem piedoso, de descendência real e cheio de boas obras, ficou profundamente impressionado com a importância de se levar o evangelho a outras terras. Ele pensava na Escócia, e determinou-se a visitar o país do famoso Succath. Tendo comunicado sua intenção a alguns de seus companheiros cristãos, que concordaram em acompanhá-lo, a missão foi acordada. Por volta do ano 565 Columba, acompanhado por doze companheiros, navegou das margens da Irlanda em um barco aberto de vime coberto de peles e, após experimentar muita dificuldade em sua pequena e rude embarcação, o nobre grupo missionário chegou às Ilhas Ocidentais — um conglomerado de ilhas ao largo da costa oeste da Escócia chamado de Hébridas. Eles desembarcaram perto da rocha estéril de Mull, ao sul das cavernas basálticas de Staffa, e fixaram sua morada em uma pequena ilha, mais tarde conhecida como Iona, ou Icolmkill. Lá ele fundou seu monastério, mais tarde tornado tão famoso na história da igreja. A tradição preservou um ponto na costa onde desembarcaram por meio de um montículo artificial, vagamente semelhante a um barco invertido, modelado segundo o padrão dos currach, no qual os piedosos monges navegaram através do mar.3

Pensa-se que um bom número de cristãos já tinha encontrado um refúgio naquela rocha estéril. Naquele tempo ela devia ser quase completamente isolada das moradas dos homens. As águas das Hébridas são tão tempestuosas que a navegação em barcos abertos deve ter sido extremamente perigosa. O nome Iona significa “A Ilha das Ondas”. Além de suas ondas transversais, suas correntes e seus recifes, a pesada maré do Atlântico rola sobre as suas praias. A respeito dos monges de Iona, falaremos de cada um; mas ainda não terminamos com a Irlanda.

Columbano, outro monge de grande santidade, parece ter deixado sua cela cerca de sessenta anos após Columba. Ele nasceu em Leinster, e treinou no grande monastério de Bangor na costa de Ulster. Uma sociedade de 3000 monges, sob o governo de seu fundador, Comgal, foi gerada nesse convento. A igreja na Irlanda ainda era livre; não tinha sido ainda escravizada pela igreja de Roma. Eles eram simples e sinceros em seu cristianismo comparado às formas sem vida e ao elemento sacerdotal do papado. Nem mesmo as construções religiosas desse período se assemelham aos conventos papistas de épocas posteriores. Mesmo assim, eles já tinham viajado para muito além da simplicidade do cristianismo apostólico.

A Palavra de Deus não era o único guia deles. O cristianismo não tinha existido no mundo por 600 anos sem ter contraído muitas corrupções. Ele passou através de muitos eventos de grande importância na história da igreja. O gnosticismo, o monasticismo, o arianismo e o pelagianismo eram gigantescos males naqueles dias; mas o monasticismo era a instituição popular ao final do século VI.

As Características de um Monge Superior

Cria-se que um proficiente na piedade mística daqueles dias podia operar milagres, proferir profecias e desfrutar de visões divinas. Ele era tão cercado por uma espécie de santidade temerosa que ninguém ousava tocar no homem de Deus. Ele saía de sua cela como se viesse de um outro mundo, com ele mesmo e suas vestes cobertas de poeira e cinzas. Ele ousadamente repreendia os vícios dos reis, confrontava os mais cruéis tiranos, ameaçava o derrube de dinastias, e assumia um tom elevado de superioridade sobre todas as dignidades seculares.

Assim era Columbano. Com uma colônia de monges ele partiu de barco da Irlanda por volta do ano 590. Ele pretendia pregar o evangelho para além dos domínios francos, mas aportou na Gália. A fama de sua piedade chegou aos ouvidos de Guntram, rei da Borgonha, que o convidou a se estabelecer naquele país. Recusando a oferta do rei, o abade solicitou permissão para se retirar a algum ermo inacessível. Ele se estabeleceu nos Vosges. Por um tempo os missionário tiveram que suportar grandes dificuldades. Eles frequentemente tinham, por dias, nenhuma outra comida além de ervas selvagens, cascas de árvores e, provavelmente, peixes do córrego. Mas, gradualmente, eles causaram uma impressão favorável sobre as pessoas dos arredores. Todas as classes olhavam para eles com reverência. Provisões lhes eram enviadas, especialmente por aqueles desejosos de lucrar pelas orações daqueles homens santos. O suprimento era descrito como miraculoso. A piedade e poderes maravilhosos do abade logo reuniram muitos ao seu redor. Monastérios se ergueram em diferentes locais, e os devotos se aglomeravam para enchê-los.

Columbano presidiu como abade sobre todas essas instituições. Seu modo de governo foi provavelmente o mesmo que tinha em Bangor, na Irlanda. Embora seu deleite sempre fosse vagar pelos bosques selvagens, ou habitar por dias em sua caverna solitária, ele ainda exercia uma estrita superintendência sobre todos os monastérios que ele tinha formado. O trabalho, a dieta, a leitura, o tempo para oração, e o estabelecimento das punições eram todos ditados por ele mesmo. Com o tempo, ele caiu em disputas com seus vizinhos quanto ao dia de guardar a Páscoa. Ele escreveu sobre o assunto ao Papa Gregório e a Bonifácio, colocando a igreja de Jerusalém acima da de Roma, como sendo o local da ressurreição do Senhor. Ele também trabalhou em Meltz, Suíça e Itália. Após fundar muitos monastérios, ele morreu em Roma no ano 610.

O mais celebrado seguidor do grande abade foi seu conterrâneo São Galo, que o acompanhara em todo o seu destino; mas, ficando doente quando seu mestre passava pela Itália, não pôde mais segui-lo e foi deixado em Helvétia. Mais tarde, ele pregou ao povo em sua própria língua, fundou o famoso monastério que leva seu nome, e é honrado como o apóstolo da Suíça. Ele morreu por volta do ano 627. Da época de São Patrício até a metade do século XII a igreja na Irlanda continuou a afirmar sua independência de Roma, e a manter sua posição como um ramo vivo e ativo da igreja, sem possuir qualquer chefe (ou cabeça) terreno4. Vamos nos voltar agora para a Escócia.

Os Primeiros Pregadores do Cristianismo na Escócia

Cerca de 150 anos antes do famoso Columba ter desembarcado na ilha de Iona, São Niniano, “um homem muito santo da nação britânica”, como Bede o chama, pregou o evangelho nos distritos do sul da Escócia. Este missionário, como quase todos os santos dos primeiros séculos, é declarado como tendo sangue real. Ele recebeu sua educação em Roma, ensinado pelo famoso Martinho de Tours, e, retornando à Escócia, fixou sua residência principal em Galloway.

Se podemos confiar nos seus biógrafos, devemos crer que ele foi por toda a parte pregando a Palavra, e que selvagens que viviam nus o ouviram, se maravilharam e foram convertidos. “Ele apressou-se sobre a obra para a qual tinha sido enviado pelo Espírito, sob o comando de Cristo, e tendo sido recebido em seu país, uma grande multidão se reuniu, com muita alegria em todos, e uma maravilhosa devoção e louvor a Cristo ressoou em todos os lugares; alguns o tomaram por profeta. Presentemente o extenuante lavrador entrou no campo de seu Senhor, começou a arrancar as coisas mal plantadas, para dispersar essa má colheita e destruir aqueles mal construídos”. Milhares, conta-se, foram batizados e se uniram ao exército dos fiéis.

Ele começou a construir uma “igreja” de pedra nas margens do Solway mas, antes que fosse terminada, recebeu notícia sobre a morte de seu amigo e patrono São Martinho, e piedosamente dedicou a “igreja” a sua honra. Conta-se que esse foi o primeiro edifício de pedras erguido na Escócia e, por conta de sua aparência branca e brilhante comparada às cabanas de troncos e lama até então usados, atraiu grande atenção. Ela foi chamada em saxão de “giz derretido”, e assim o é até os dias atuais.5

Não sabemos nada sobre os sucessores imediatos de São Niniano: até a missão de Columba a história do cristianismo na Escócia é pouco conhecida. Sem dúvidas o Senhor manteria vivo o fogo que ele tinha acendido, e preservou e disseminou a verdade do evangelho que tinha sido recebido por tantos. Dentre os pictos, ao sul de Grampians, Niniano parece ter trabalhado principalmente e com sucesso, mas com o celebrado Columba começa o período mais interessante nos anais eclesiásticos da Escócia.

Já vimos Columba e sua colônia de monges estabelecendo-se em Iona. Ali ele construiu seu monastério, tal como era. E tão famoso se tornou o colégio de Iona que foi considerado, por muitos anos, se não por séculos, a luz do mundo ocidental. Homens, eminentes pela erudição e piedade, foram enviados para fundar bispados e universidades em cada canto da Europa. Por 34 anos Columba viveu e trabalhou naquela rocha solitária. Ocasionalmente ele visitava o continente, fazendo a obra de um evangelista entre os bárbaros escoceses e pictos, plantando igrejas e exercendo uma imensa influência sobre todas as classes; mas seu grande objetivo era treinar homens para a obra do evangelho no país e no exterior. Sem dúvida manter-se-ia uma ligação estreita e amigável entre o Norte da Irlanda e o Oeste da Escócia; de fato, naquela época ambas as regiões eram consideradas idênticas e eram conhecidas pela denominação geral de escoceses.

Os Missionários de Iona

Perto do fim do século VI, ou início do século VII, missionários começaram a sair dos claustros de Iona carregando a luz do cristianismo, não meramente a diferentes partes da Escócia, mas também à Inglaterra e ao continente. Agostinho [de Cantuária] e seus monges italianos chegaram em Kent um pouco antes do famoso Aidan de Iona e seus monges entrarem em Northumberland. Assim a igreja saxônica foi invadida por cristãos missionários em suas duas extremidades.

Osvaldo, então rei da Nortúmbria, era cristão. Ele tinha sido convertido, batizado e recebido à comunhão na igreja escocesa quando era um jovem e exilado nesse país. Ao recuperar o trono de seus ancestrais ele naturalmente desejou que seu povo fosse levado ao conhecimento do Salvador. A seu pedido, os anciãos de Iona lhe enviaram um grupo missionário chefiado pelo piedoso e fiel Aidan. O rei atribuiu-lhes a ilha de Lindisfarne por residência. Ali Aidan estabeleceu o sistema de Iona, e a comunidade viveu de acordo com o governo monástico. Muitos se uniram ao monastério, vindos tanto da Escócia quanto da Irlanda. O próprio rei zelosamente ajudou na disseminação do evangelho: às vezes pregando, e às vezes agindo como um interpretador, tendo aprendido a língua celta durante seu exílio. Bede, embora fortemente romano em suas afeições, dá um testemunho sincero às virtudes desses clérigos do Norte — “Seu zelo, sua gentileza, sua humildade e simplicidade, seu estudo sério das Escrituras, sua liberdade de todo o egoísmo e avareza, sua honesta ousadia ao lidar com os grandes, sua ternura e caridade para com os pobres, sua vida estrita e abnegada.”6

A obra da conversão parece ter prosperado nas mãos de Agostinho [da Cantuária] e Aidan. Os monges italianos estendiam seus ensinamentos e influência sobre o sul e sudoeste do reino, enquanto os monges escoceses espalhavam a verdade de um evangelho mais puro e simples sobre as províncias do norte, do leste e da região central. Ao mesmo tempo, York, Durham, Lichfield e Londres se encheram de homens escoceses. Assim Roma e Iona se encontraram em solo inglês, uma colisão que era inevitável; quem se tornaria o mestre? Agostinho [de Cantuária], que tinha sido consagrado primaz da Inglaterra pelo papa, exigiu que os monges celtas se conformassem à disciplina romana: a isto eles se recuraram prontamente, e defenderam com grande firmeza sua própria disciplina e as regras de Iona. Sérias disputas então se levantaram. Roma não podia se submeter a nenhum rival, ela estava determinada a manter a Inglaterra sob seus domínios.

Após a morte do piedoso e generoso Osvaldo, o trono foi preenchido por seu irmão Oswiu, que também tinha se convertido ao cristianismo e foi batizado na Escócia durante seu cativeiro. Mas sua princesa aderiu aos costumes de Roma, e a família seguiu a mãe. Uma forte influência foi assim exercida contra os monges escoceses; e, cansados das contínuas provocações e da conduta inescrupulosa dos agentes do pontífice, tanto eclesiásticos quanto seculares, os firmes presbíteros ficaram determinados a deixar a Inglaterra e retornarem a Iona. De longe, a maior e mais importante parte do país tinha sido convertida ao cristianismo por meio de seus labores; mas o triunfo de Roma na conferência de Whitby em 664, através da sutileza do padre Wilfred, os desencorajou tanto que eles silenciosamente se retiraram do campo após a ocupação de cerca de trinta anos. “Por mais santo que tenha sido o teu Columba”, disse o astuto Wilfred, “prefere-o ao príncipe dos apóstolo, a quem Cristo disse ’Tu és Pedro, e te darei as chaves do reino dos céus’?”. O Rei Oswiu estava presente, e professou obediência a São Pedro. “Receio”, disse ele, “que quando eu chegar ao portão do céu, não haverá ninguém para abri-lo para mim”. O povo logo seguiu seu príncipe, e em um curto período de tempo toda a Inglaterra tornou-se subserviente de Roma. Mas nem argumentos, intimidação, nem o escárnio, tinham qualquer efeito sobre os presbíteros do Norte. Eles se recusaram a reconhecer que deviam fidelidade ao bispo de Roma. A Escócia ainda era livre. Os padres, como de costume, puseram-se a trabalhar com os príncipes. Isto foi realizado como descrito a seguir.

A Tonsura Clerical

Dentre os muitos assuntos de disputa entre os missionários celtas e italianos, o verdadeiro dia para a celebração da Páscoa e a verdadeira forma da tonsura clerical animaram as mais ferozes controvérsias, despertaram as mais fortes paixões e, finalmente, levaram à queda da igreja da Escócia e ao triunfo dos sacerdotes de Roma. Mas, tendo já falado sobre a questão da Páscoa em ligação com o concílio de Niceia, vamos apenas tomar nota sobre a disputa sobre a tonsura.

Pode parecer estranho aos nossos jovens leitores protestantes, que podem nunca ter visto um padre católico sem seu chapéu, que o corte de seu cabelo fosse algo de mais peso em sua ordenação do que sua erudição ou sua piedade. E a mera forma em que era raspada era considerada de tanta importância que tornou-se um teste de ortodoxia. Os monges escoceses seguiam as igrejas do Oriente, tanto na observância da Páscoa quanto na forma de tonsura. Eles raspavam a parte de trás da cabeça de orelha a orelha na forma de uma crescente. Os orientais reivindicavam João e Policarpo como seu exemplo e autoridade. Os italianos professavam ficar em grande choque por tal barbaridade, e chamavam-na de tonsura de Simão Mago. O clero romano usava uma forma circular. Isto era feito tornando careca um pequeno ponto redondo bem no topo da cabeça, e aumentando o ponto à medida que o eclesiástico avançava nas ordens sagradas. A tonsura tornou-se um requisito como uma preparação para as ordens por volta do quinto ou sexto século.

Agostinho [de Cantuária] e seus sucessores na sé da Cantuária, seguindo os escritos dos mais antigos e veneráveis “Pais”, afirmavam que a tonsura foi primeiramente introduzida pelo príncipe dos apóstolos, em honra à coroa de espinhos que foi pressionada sobre a cabeça do Redentor; e que o instrumento inventado pela impiedade dos judeus para a ignomínia e tortura de Cristo pode ter sido utilizada por Seus apóstolos como seu ornamento e glória. Por mais de um século a controvérsia se ergueu com grande ferocidade. As questões prosseguiam a tal ponto que um homem era ou não era considerado um herege de acordo com o local do couro cabeludo em que se fazia careca: na coroa (topo da cabeça) ou na parte de traz da cabeça. Roma se encheu de raiva; meios humanos pareciam insuficientes para conquistar um miserável bando de presbíteros em um canto remoto da ilha. Eles se recusavam a curvar-se perante ela. O que deveria ser feito? Como sempre, achando-se incapaz de alcançar seu objetivo por meio dos padres, ela recorreu a favoritos na corte, nobres e príncipes. Naitam, rei dos pictos, foi convencido a crer que, ao se submeter ao papa, ele seria igual a Clóvis e Clotaire. Lisonjeado por tal grandeza de glória futura, ele recomendou que todo o clero de seu reino recebesse a tonsura de São Pedro. Então, sem demora, ele enviou agentes e cartas para cada província e fez com que todos os monastérios e monges recebessem a tonsura circular de acordo com a moda romana. Alguns se recusaram. Os anciãos da rocha aguentaram por um tempo, mas as ordens do rei, o exemplo do clero e a fraqueza de alguns dentre eles conduziu ao caminho da destruição de Iona e de toda a antiga igreja da Escócia. Por volta do início do século VIII a navalha foi introduzida, eles receberam a tonsura latina, tornaram-se servos de Roma, e continuaram assim até o período da Reforma.7

Quem Eram os Culdees?

Culdees eram uma espécie de reclusos religiosos que viviam em lugares afastados. A comunidade cristã de Iona foi chamada de Culdees. E este é, provavelmente, o motivo pelo qual aquele ponto isolado foi fixado por Columba como o local de seu monastério. Embora totalmente livres das corrupções dos grandes monastérios no continente, a vida e as instituições de Columba eram estritamente monásticas. E, a partir de fragmentos de informação recolhidos da história, parece bem certo de que “eles se gloriavam em seus milagres, respeitavam relíquias, praticavam penitências, jejuavam às quartas e sextas-feiras, tinham algo bem similar às confissões auriculares, às absolvições e às missas para os mortos; mas é certo que eles nunca se submeteram aos decretos do papado em relação ao celibato”. Muitos dos culdees eram homens casados. São Patrício era filho de um diácono e neto de um sacerdote.8

Mas, embora esses homens bons e santos fossem tão infectados pela superstição dos tempos, a situação remota em que se encontravam, a simplicidade de seus modos, e a pobreza de seu país devem tê-los preservado muito das influências romanas e dos vícios predominantes dos monastérios mais opulentos. Prefiramos pensar no monastério deles como um seminário, nos quais homens eram treinados para a obra do ministério. Em anos posteriores os monges foram frequentemente perturbados, e algumas vezes abatidos, por piratas. No século XII passou a ser posse dos monges romanos. “Sue fé pura e primitiva”, diz Cunningham, “havia partido; seu renome por causa da piedade e erudição se foi; mas a memória deles sobreviveu, e era então considerada com maior reverência supersticiosa do que nunca. Muito antes disso o monastério foi usada como sepulcro da realeza, numerosas peregrinações foram feitas até ele, e agora reis e chefes começaram a enriquecê-lo com doações de dízimos e terras. As paredes que então estavam desmoronando foram consertadas; e os viajantes podem apreciar essas veneráveis ruínas eclesiásticas se erguendo de um cais em meio ao vasto oceano com sentimentos parecidos com aqueles com os quais é possível considerar os templos de Tebas meio enterrados, mas ainda em pé, no meio das areias do deserto”.

Vamos agora deixar de lado por um tempo as Ilhas Britânicas. A primeira introdução da cruz na Inglaterra, Escócia e Irlanda, e o triunfo final de Roma nesses países, são eventos do mais profundo interesse por si só; mas por terem acontecido em nosso próprio país9 eles têm direito à nossa atenção especial. A partir desse momento poucas mudanças exteriores aconteceram na história da igreja, embora possam ter havido muitas lutas internas a partir dos numerosos abusos e das exigências audaciosas de Roma.

A Disseminação do Cristianismo na Alemanha e Arredores

É mais do que provável que a cruz tenha sido introduzida, num período primitivo, no coração das florestas germânicas, assim como naquelas cidades e distritos que estavam sujeitos ao Império Romano. Os nomes de vários bispos da Alemanha 10 são encontrados nas listas dos concílios de Roma e Arles realizados sob a autoridade de Constantino nos anos 313 e 314. Mas não foi até o final do sexto e início do sétimo século que o cristianismo foi amplamente disseminado e firmemente enraizado na região. Os bretões (ou britânicos), os escotos (ou escoceses) e os irlandeses foram honrados por Deus como os principais instrumentos nessa grande e abençoada obra. O ardente Columbano, cuja missão já tomamos nota, foi o líder dos primeiros grupos que foram ao auxílio dos pagãos no continente europeu. Ele primeiramente atravessou a França, então passou o Reno e trabalhou pela conversão dos suábios, bávaros, francos e outras nações da Alemanha. St. Kilian, um escocês e evangelista muito devoto, o seguiu. Ele é considerado o apóstolo da Francônia e honrado como um mártir por sua fidelidade cristã por volta do ano 692. Willibrord, um inglês missionário com onze de seus compatriotas, cruzou para a Holanda para trabalhar entre os frísios; mas assim como outros anglo-saxões do período ele era fervorosamente devoto à Sé Romana. Ele foi ordenado bispo de Witteburg pelo papa; seus associados propagaram o evangelho através da Vestfália e dos países vizinhos.

Mas o homem que levou as nações da Germânia como um rebanho de ovelhas sob o pastorio de Roma foi o famoso Vinfrido. Ele nasceu em Crediton, em Devonshire, de uma nobre e rica família, por volta do ano 680. Ele entrou em um monastério em Exeter quando tinha sete anos, e mais tarde se mudou para Nursling em Hampshire. Ali ele se tornou famoso por sua capacidade como pregador e como expositor das Escrituras. Ele se sentia chamado por Deus logo no início de sua vida para ir mundo afora como um missionário aos pagãos. Ele navegou para a Frísia no ano 716. Seus labores foram longos e abundantes. Três vezes ele visitou Roma e recebeu grandes honras do papa. Sob o título de São Bonifácio, e considerado o apóstolo da Germânia, ele morreu como um mártir aos sessenta e cinco anos. Mas embora ele tenha sido um missionário muito bem-sucedido, um homem de grande força de caráter, de grande erudição e de vida santa, ele era um vassalo jurado do papa, e buscava mais o avanço da igreja de Roma do que o avanço do evangelho de Cristo.11

O Grande Projeto Papal para o Engrandecimento

A difusão do cristianismo nesse século ultrapassou em muito seus anteriores, tanto nos países do Oriente quanto do Ocidente. Vimos alguns de seus triunfos no Ocidente. No Oriente conta-se que os nestorianos trabalharam com incrível afinco e perseverança para propagar a verdade do evangelho na Pérsia, Síria, Índia, e entre as nações bárbaras e selvagens habitantes dos desertos e das costas mais remotas da Ásia. Em particular, o vasto império da China foi iluminado por seu zelo e diligência com a luz do cristianismo. Durante vários séculos sucessivos, o patriarca dos nestorianos enviou um bispo para presidir sobre as igrejas de então na China. Essas interessantes pessoas rejeitaram a adoração de imagens, a confissão auricular, a doutrina do purgatório, e muitas outras doutrinas corruptas das igrejas romana e grega.

A igreja oriental, ou igreja grega, parece ter sido impedida, por causa de dissensões internas, de se preocupar muito com a disseminação do cristianismo entre os pagãos. No Ocidente tudo era atividade mas, infelizmente, não para a disseminação do evangelho ou para a conversão de almas.12

O Período de Transição do Papado

Retornemos agora a Roma. Sua importância e influência como um centro reivindica nossa maior atenção por mais um pouco. Os domínios espirituais do papa então se estendiam por toda a parte. De todas as partes do império bispos, príncipes e povos olhavam para Roma como o pai de sua fé e a mais elevada autoridade na Cristandade. Mas, embora assim exaltada à mais alta soberania espiritual, o supremo pontífice e sua relação com o império oriental ainda era um assunto delicado. Isto era insuportável para o orgulho e ambição de Roma. A poderosa batalha pela vida e poder político agora começava, e durou por todo século VII e VIII. Este foi o período de transição de um estado de subordinação ao poder civil ao estado de auto-existência política. Como isto poderia ser alcançado era então o grande problema que o Vaticano tinha que resolver. Mas o domínio espiritual não podia ser mantido sem o poder secular.

Os lombardos — os vizinhos mais próximos e temidos dos papas — e o império grego eram os dois grandes obstáculos no caminho da soberania secular do papa. A queda do império ocidental e a ausência de qualquer governo nacional fez com que o povo romano olhasse para o bispo como seu chefe natural. Ele foi assim investido com uma influência política especial, distinta de seu caráter eclesiástico. As invasões dos lombardos, como já vimos, e a fraqueza dos gregos, contribuíram para o aumento do poder político nas mãos dos pontífices. Mas isto foi apenas acidental, ou uma necessidade diante das emergências imprevistas. Os Estados romanos ainda eram governados por um oficial do império oriental, e o próprio papa, se ofendesse o imperador, era suscetível de ser preso e lançado na prisão, como foi, de fato, o caso do papa São Martinho no ano 653, que morreu no exílio no ano seguinte.

O Único Grande Objetivo do Papado

A cada dia tornava-se mais e mais evidente que não poderia haver paz sólida para Roma, nem fundamento seguro para a supremacia já alcançada, a menos que fosse alcançada a derrubada total tanto dos poderes gregos quanto lombardos na Itália, e a apropriação de seus espólios pela santa Sé. Este era então o único grande objetivo dos sucessores de São Pedro e a batalha que eles tinham que lutar. Mas, assim como a vinha de Nabote, o jizreelita, isso deveria ser possuído por bem ou por mal. Jezabel conspira, e a morte de Nabote é realizada. A história dos reis lombardos e da grande controvérsia iconoclástica durante os séculos VII e VIII lançam muita luz sobre os meios usados para alcançar esse fim; mas disso tudo podemos dizer apenas uma palavra para passarmos adiante, e sugerir aos nossos leitores a consulta direta à história geral.13

“Há abundante fundamento histórico para acreditar”, diz Greenwood, “que esse objetivo havia, por essa época, se moldado muito distintamente na mente do papado: o território de seu inimigo religioso, o imperador, devia ser definitivamente anexado ao patrimônio de São Pedro, juntamente a um Estado territorial muito mais extenso à medida que a oportunidade viesse ao alcance. Mas restava a árdua e aparentemente impossível tarefa de arrancar essas potenciais aquisições das mãos do inimigo lombardo. E, de fato, todo o curso da política papal estava então direcionada ao cumprimento desse único objetivo.”

Pepino e Carlos Magno (741–814 d.C.)

Os olhos dos papas tinham, por algum tempo, se voltado para a França como o ponto de partida de onde viria a libertação. A nação franca tinha sido católica desde o início de seu cristianismo; mas uma conexão mais próxima com Roma foi mais tarde formada por meio de São Bonifácio, o monge inglês. Cheio como era da reverência de sua nação por São Pedro e seus sucessores, ele exerceu toda sua influência entre os bispos da França e Alemanha para estender a autoridade da Sé Romana. Isto preparou o caminho para a solução do grande problema que tinham em mãos.

Pepino, que era o alto mordomo ou prefeito do palácio de Childerico III, rei dos francos, exercera por muito tempo todos os poderes do Estado junto com todos os atributos da soberania, com exceção do título. Ele pensou que chegara o momento de pôr um fim à realeza de seu mestre e assumir o nome e as honras reais. Ele possuía em grande medida todas as qualidades que a nobreza e o povo estavam acostumados a respeitar nos príncipes daquela época. Ele era um guerreiro galante e um estadista experiente. Por uma brilhante série de sucessos ele tinha grandemente estendido o domínio dos francos. O pobre rei, sendo destituído de tais capacidades, afundou no favor popular e foi apelidado de “o Estúpido”. Pepino, no entanto, tinha sabedoria para prosseguir cautelosamente neste estágio de seus planos. Bonifácio, que desempenhava um importante papel nesse assunto, foi secretamente despachado para Roma para preparar o papa para a mensagem de Pepino, e com instruções de como respondê-lo. No meio tempo, ele reuniu os estados do reino para deliberar sobre o assunto. Os nobres deram a opinião de que, primeiramente, o pontífice deveria ser consultado, independentemente do quão lícito fosse o que o prefeito desejava. De acordo, dois eclesiásticos confidenciais foram enviados a Roma para proporem a seguinte questão ao papa Zacarias: “Se a lei divina não permitia que um povo valente e guerreiro destronasse um monarca imbecil e indolente, que era incapaz de desempenhar qualquer das funções da realeza, e substituí-lo por um mais digno de governar, e um que já tinha rendido mais importante serviço ao Estado?”. A resposta lacônica do papa, já em posse de todos os segredos, foi rápida e favorável. “Aquele que legalmente possui o poder real pode também legalmente assumir o título real.”

O papa, sem dúvida, respondeu como seus questionadores desejavam. Pepino se sentiu então seguro de seu prêmio. Fortificado pela aprovação da mais alta autoridade eclesiástica, e seguro da aquiescência do povo, ele ousadamente assumiu o título real. Ele foi coroado por Bonifácio na presença nos nobres e prelados do reino reunidos em Soissons, no ano 752. Mas o caráter religioso da coroação marcou o crescente poder do clero. A cerimônia judaica da unção foi introduzida por Bonifácio para santificar o usurpador, e os bispos ficavam ao redor do trono como se fossem de igual posição com os nobres armados. De acordo com o uso dos francos, Pepino foi elevado sobre o escudo, entre as aclamações do povo, e proclamado rei dos francos. Childerico, o último dos reis merovíngios, foi despojado da realeza sem oposição, despojado de seus longos cabelos, tonsurado e encerrado em um monastério.

A Sanção de Zacarias à Conspiração de Pepino

A parte que Bonifácio e seu chefe, o papa, tiveram nessa revolução, e a moralidade dos procedimentos, têm sido assuntos de muita controvérsia. Os escritores papais têm dolorosamente tentado exonerar os inescrupulosos sacerdotes, e os escritores protestantes tentam criminalizá-los. Mas se compararmos a conduta deles com os princípios do Novo Testamento, não pode haver controvérsia. Cada princípio e sentimento correto, tanto humanos quanto divinos, foram prontamente sacrificados para assegurar a aliança de Pepino contra os gregos e lombardos. A violação dos direitos sagrados dos reis, a grande lei da sucessão hereditária, a rebelde ambição de um servo, a degradação do soberano legítimo, e a absolvição de súditos por suas infidelidades, são aqui todos sancionados pelo papado como sendo corretos aos olhos de Deus, uma vez que eles eram os meios pelos quais o papa seria elevado à uma soberania secular. Tal foi a ousada perversão e a terrível blasfêmia da Sé Romana na metade do século VIII. Que o estudante da história da igreja tome nota dessa ocorrência como característica do papado, e como um precedente para suas futuras pretensões. Este acontecimento é geralmente relatado como o primeiro exemplo de interferência do papa nos direitos dos príncipes e na fidelidade dos súditos. Mas os sucessores de Zacarias fizeram amplo uso desse precedente em anos posteriores. Eles afirmavam que os reis da França, a partir desse tempo, podiam ser coroados apenas pela autoridade do papa, e que a sanção papal era seu único título legal. Mal podiam Pepino ou Zacarias prever os imensos efeitos dessa negociação na história da igreja e do mundo. Foi o grande primeiro passo em direção ao futuro reinado do bispo de Roma — o importante elo na cadeia de eventos.

A Soberania Secular do Papado é Estabelecida

Através de uma troca mútua de bons ofícios, em menos de três anos Pepino cruzou os Alpes à frente de um numeroso exército, derrubou os lombardos, e recuperou o território italiano que eles tinham arrancado do império ocidental. A justiça exigiria, de fato, que o território retornasse ao imperador, a quem pertencia; ou ele poderia retê-lo para si mesmo. Mas ele não fez nem um nem o outro. Consciente de sua obrigação para com a santa Sé, ele respondeu que não tinha ido à batalha por amor de homem algum, mas apenas por amor de São Pedro, e para obter o perdão de seus pecados. Ele então transferiu a soberania sobre as províncias em questão para o bispo de Roma. Esta foi a fundação de todo o domínio secular dos papas.

Astolfo, rei dos lombardos, tendo jurado a Pepino que restauraria a São Pedro as cidades que ele tinha tomado, as tropas francesas foram retiradas. Mas a magnificente “doação”, no que dizia respeito ao papa, estava apenas no papel. Ele não tinha sido posto em posse real dos territórios cedidos, nem tinha os meios de pôr-se a si mesmo em posse do dom real. Mal o rei franco retornou dos Alpes, Astolfo recusou-se a cumprir seu compromisso. Ele reuniu suas divisões dispersas e continuou seus ataques sobre os territórios dispersos da igreja. Ele devastou o país até os próprios muros de Roma e sitiou a cidade. O papa, indignado tanto com a conduta evasiva de Pepino quanto com a perfídia dos lombardos, enviou mensagens a seus protetores francos pelo mar a toda pressa, pois todos os caminhos por terra estavam fechados pelo inimigo. Sua primeira carta recordou ao rei Pepino que ele arriscava a eterna condenação se não completasse a doação que havia prometido a São Pedro. Seguiu-se uma segunda carta, mais patética e mais persuasiva. Mesmo assim os francos se atrasaram. E, finalmente, o papa escreveu uma terceira, como se viesse do próprio São Pedro. A ousadia e pretensão dessa carta é tão terrível que a citaremos inteiramente como um exemplo dos meios usados pelo papa para aterrorizar os bárbaros para a proteção da santa Sé e o avanço de seus domínios. Ele considerou todos os meios justificáveis para alcançar tais propósitos elevados. Assim se lê:

“Eu, Pedro, o apóstolo, protesto, admoesto e conjuro-vos, os mais cristãos reis, Pepino, Carlos e Carlomano, com toda a hierarquia, bispos, abades, padres e todos os monges; todos os juízes, duques, condes, e todo o povo dos francos. A mãe de Deus, do mesmo modo, vos conjura, e vos adverte e ordena, ela, assim como os tronos e domínios e todas as hostes do céu, a salvar a amada cidade de Roma dos detestados lombardos. Se ouvirdes, eu, Pedro, o apóstolo, prometo-vos minha proteção nesta vida e na próxima, preparar-vos-ei as mais gloriosas mansões no céu, e conceder-vos-ei as alegrias eternas do paraíso. Façam causa comum com meu povo de Roma, e vos concederei qualquer coisa para a qual orardes. Conjuro-vos a não deixarem esta cidade ser lacerada e atormentada no inferno com o diabo e seus anjos pestilentos. De todas as nações debaixo do céu os francos são os mais elevados na estima de São Pedro; para mim, vós mereceis todas as vossas vitórias. Obedecei, e obedecei rapidamente; e, por meu sufrágio, nosso Senhor Jesus Cristo vos dará uma longa vida, segurança, vitória, e na vida futura, multiplicará Suas bênçãos sobre vós, entre Seus santos e anjos.”14

O Prenúncio do Homem do Pecado

Nada pode nos dar uma ideia mais expressiva da terrível apostasia da igreja de Roma que essa carta. O único direito para a vida eterna é a obediência ao papa; o mais elevado dever do homem é a proteção e ampliação da santa Sé. Mas onde está Cristo? Onde estão Suas reivindicações? Onde está o cristianismo? Em vez de buscar converter os bárbaros e ganhar suas almas para Cristo, o santíssimo nome do Senhor e o nome do apóstolo são prostituídos para os mais baixos propósitos. O soldado que luta mais duro pela Sé Romana, embora destituído de qualquer qualificação moral e religiosa, é assegurado de grandes vantagens temporais na vida presente, e na vida vindoura o mais elevado assento no céu. Certamente temos aqui o mistério da iniquidade, e o prenúncio daquele homem de pecado, o filho da perdição, que se opõe e exalta a si mesmo sobre tudo o que é chamado Deus, ou que é adorado, de modo que ele como Deus se assenta no templo e Deus, mostrando-se como se fosse Deus — dele mesmo, cuja vinda é segundo a obra de Satanás, com todo o poder e sinais e prodígios de mentira. (2 Tessalonicenses 2:3–12)

Pepino logo tinha seus francos em ordem de marcha. As ameaças e promessas da “carta de São Pedro” tiveram o efeito desejado. Eles novamente invadiram a Itália. Astolfo cedeu imediatamente às exigências de Pepino. O território contestado foi abandonado. Embaixadores do Oriente estavam presentes na conclusão do tratado, e exigiram a restituição de Ravena e seu território ao seu mestre, o imperador; mas Pepino declarou que seu único objetivo na guerra era demonstrar sua veneração por São Pedro; e ele concedeu, pelo direito de conquista, tudo a seus sucessores. Os representantes do papa agora passavam pela terra, recebendo a homenagem das autoridades e as chaves das cidades. Mas o território que ele aceitou de um potentado estrangeiro na forma de uma doação pertencia ao seu mestre reconhecido, o imperador oriental. Ele [o papa] havia contratado, por uma grande soma, que teve o cuidado de tornar pagável no céu, um poderoso estrangeiro para roubar sua soberania de direito para sua própria vantagem, e sem vergonha ou hesitação ele aceitou a fraude. O rei francês pôde ser destronado e humilhado por seu servo, e o império grego pôde ser roubado e desafiado por seu sacerdote, se a igreja fosse assim engrandecida. Tal sempre foi a política de Roma.

Mas a generosa doação de Pepino — que morreu no ano 768 — esperou pela confirmação de seu filho, Carlos Magno. No ano 774, quando os lombardos mais uma vez ameaçaram os territórios romanos, a ajuda da França foi implorada. Carlos Magno prosseguiu à sua ajuda. Ele chegou em Roma na véspera da Páscoa. Os romanos, segundo nos contam, receberam o rei com ilimitada demonstração de alegria. Trinta mil cidadãos saíram-lhe ao encontro; todo o corpo do clero com cruzes e bandeiras, e as crianças das escolas, que levavam ramos de palmeira e oliveira, o saudaram com hinos de boas vindas. Ele desmontou, e prosseguiu a pé em direção à igreja de São Pedro, onde o papa e todo o clero estavam à espera. O rei devotamente beijou cada degrau das escadas e, ao chegar ao patamar beijou o papa, e entrou no edifício segurando sua mão direita. Ele passou a véspera da Páscoa em devotos exercícios e rezas. Mas quando o coração do rei estava quente e terno, o papa Adriano trouxe ao assunto uma nova escritura de doação à santa Sé. Carlos Magno, então, aumentou em grande medida a doação que Pepino tinha feito à igreja, confirmou-a com um juramento, e solenemente depositou a escritura da doação sobre a tumba do apóstolo. Após a conclusão das solenidades da Páscoa, despediu-se do pontífice e voltou ao seu exército. Seus braços foram vitoriosos em toda a parte, e ele não fez uma pausa sequer até que tivesse inteira e finalmente subvertido o império dos lombardos, e proclamou-se a si mesmo rei da Itália.

A Doação Territorial de Carlos Magno

A real extensão de sua doação é muito difícil de determinar. Mas parece ser da opinião geral dos historiadores que ela incluía não apenas o exarcado de Ravena, mas os ducados de Espoleto e Benevento, Veneza, Istria, e outros territórios no norte da Itália — em suma, quase toda a península com a ilha de Córsica. Todo Nabote foi roubado de sua vinha, e seu sangue derramado, para a gratificação da ambição de Jezabel, e para o estabelecimento de seu trono de iniquidade. Mas o marco da consumação e selo de toda a iniquidade foi o modo como o papa buscou reconciliar seu caráter de vicário de Cristo com sua nova posição. Como todos os homens estão sujeitos a Cristo, ele raciocinou, assim do mesmo modo eles são sujeitos ao Seu vicário e representante na terra em tudo o que pertence ao Seu reino. Mas este reino se estende sobre todos, portanto nada pertencente a este mundo ou seus assuntos podem estar acima ou além da jurisdição da cadeira de São Pedro. Nosso reino não é deste mundo; ele é, assim como Cristo, em todos, sobre todos e sobre tudo. De acordo com esta teoria, nenhum domínio secular deveria ser considerado inconsistente com a declaração do Salvador no que diz respeito ao Seu reino. É neste pressuposto ímpio, desde então, que os papas têm sempre agido. Daí sua interferência com o sacerdote e o povo, com o rei e o súdito, com a terra e o mar, sobre todo o mundo.

Carlos Magno visitou Roma novamente em 781, e uma terceira vez em 787, e em cada ocasião a igreja foi enriquecida por presentes, concedidos, como ele professava na linguagem da época, “para o bem de sua alma”. Submergido em gratidão e plenamente consciente de sua própria necessidade um defensor permanente, o papa coroou Carlos Magno na véspera do Natal do ano 800 com a coroa do império ocidental, e o proclamou César Augusto. Um príncipe franco, um teutão, foi assim declarado o sucessor dos Césares, e empunhou todo o poder do imperador do Ocidente. “O império de Carlos Magno”, diz Milman, “era quase compatível com a Cristandade latina; a Inglaterra foi o único grande território que reconhecia a supremacia de Roma e não se sujeitou ao novo império ocidental”15. Este evento deu início à grande época nos anais da Cristandade romana.

Devemos agora deixar o Ocidente por um tempo, e tornar nossa atenção para uma outra grande revolução religiosa que repentina e inesperadamente surgiu no Oriente — o maometismo.


N. do T.: Provavelmente a referência é a uma região da Irlanda chamada de Kilpatrick ou ao sobrenome irlandês Kilpatrick.↩

D’Aubigne, vol. 5, p. 25↩

Para detalhes interessantes, veja “The Church History of Scotland from the commencement of the Christian era to the present time”, de John Cunningham, ministro de Crieff A. and C. Black Edinburgh. 1859.↩

Faiths of the World (Crenças do Mundo), de Gardner, vol. 1, p. 150.↩

Cunningham, vol. 1, p. 52↩

J. C. Robertson, vol. 2, p. 62↩

D’Aubigne, vol. 5, p. 77. Cunningham, vol. 1, p. 90.↩

Cunningham, vol. 1, p. 94.↩

N. do T.: o autor vivia na Inglaterra↩

N. do T.: ou Germânia, como era conhecida a região na época romana↩

Para detalhes particulares veja Middle Ages, de Hardwicke; J. C. Robertson, vol. 2, p. 95↩

Mosheim, vol. 2, p. 29.↩

Veja especialmente a Cathedra Petri de Greenwood.↩

Para uma descrição mais ampla desse importante período, veja Cristianismo Latino, de Milman, vol. 2, p. 243.↩

Veja Milman, vol. 2. Greenwood, vol. 2.↩

Islamismo—Iconoclastia (569—741 d.C.)

Maomé, o Falso Profeta da Arábia

Foi com muito interesse que traçamos o constante progresso e poder subjugador do cristianismo em toda a Europa durante os séculos VII e VIII, embora em sua roupagem latina ou romana. O nome de Jesus foi disseminado mundo a fora, e Deus pôde usar o doce sabor desse nome para a bênção, apesar dos rígidos rituais de Roma que o cercavam de todos os lados. Mas todas essas conquistas do evangelho, por meio do gerenciamento do papa e da influência de seus missionários, tornaram-se as conquistas da Sé Romana. Quão longe tinha seu domínio espiritual se estendido, e quão grande seu poder podia ter se tornado se não tivesse encontrado formidáveis oposições, seria impossível imaginar. Mas Deus permitiu que um inimigo se erguesse, que não somente deteve o progresso do romanismo por todos os lados, como também mais de uma vez fez o próprio pontífice tremer por sua segurança, mesmo na cadeira de São Pedro. Esse foi Maomé, o impostor da Arábia.

O início do século VII — o momento em que esse notável homem apareceu — foi peculiarmente favorável para o cumprimento de seu grande objetivo. Quase o mundo inteiro estava contaminado por ídolos. A religião prevalecente de seu próprio país era grosseiramente idólatra. Havia 360 ídolos no templo de Meca, que era o número preciso de dias no ano árabe. O paganismo, com seus inúmeros falsos deuses, ainda cobria uma ampla porção da terra; e mesmo o cristianismo, infelizmente, tinha se tornado extensivamente idólatra, tanto nas igrejas gregas quanto romanas. Foi nesse momento que Maomé apareceu perante o mundo como um severo e austero monoteísta. Ele sentiu-se chamado a restaurar a doutrina fundamental da Unidade divina a sua devida proeminência na crença religiosa da humanidade. Mas as próprias ideias de encarnação, de redenção, de um Redentor, de um relacionamento e comunhão com Deus — as penetrantes influências de um santo amor — não têm lugar no sistema desse profeta. O abismo bocejante que separa Deus do pecador é deixado intransponível pela religião de Maomé. Mas, antes de falarmos sobre seu sistema, vamos olhar brevemente para sua família e juventude.

A Família e Juventude de Maomé

De acordo com a tradição árabe, ele era de uma família nobre chamada Coraixe. Essa tribo, os coraixitas, na época do nascimento de Maomé (que é geralmente datada por volta do ano 569), era um tipo de hierarquia que exercia a supremacia religiosa, e eram os guardiões reconhecidos da Caaba, a pedra sagrada de Meca, com seu templo. Seu pai morreu logo após seu nascimento, e sua mãe quando ele era muito novo, de modo que ele ficou órfão e destituído. Tendo outros membros masculinos de sua família também morrido, o governo de Meca e as chaves da Caaba passaram para as mãos de outro ramo da família. Pouco é conhecido sobre os primeiros 25 anos de sua vida, salvo que ele tenha se dedicado a atividades mercantis, e foi tão bem-sucedido e honrado em seus negócios que recebeu o título de Amin, ou fiel. Aos 28 anos casou-se com uma viúva de sua família, que possuía uma grande riqueza. Doze anos após seu casamento — quando tinha 40 anos — o profeta começou a ouvir as intimações de sua futura missão. Os infortúnios de sua família e como recuperar sua antiga dignidade e poder podem ter estado, no início, em sua mente. De acordo com o costume que era comum entre seus conterrâneos, ele se retirava todos os anos a uma caverna em uma montanha, e gastava algum tempo em solidão religiosa. Foi em uma dessas cavernas, de acordo com seu próprio relato, que ele recebeu sua primeira comunicação vinda do céu — ou melhor, como cremos, do abismo das trevas. Ele foi, no entanto, gradualmente levado a crer que era especialmente chamado por Deus para ser um instrumento para a destruição da idolatria e para a propagação da verdadeira fé. Seus oráculos, que ele professava receber diretamente do céu pelo anjo Gabriel, foram preservados no Alcorão, e considerados pelos fiéis como a palavra de Deus.

A Religião do Islã

Assim, a nova religião anunciada era o Islã — uma palavra que significa submissão ou resignação à vontade de Deus. Sua doutrina foi resumida em seu próprio aforismo: “Não há Deus se não o verdadeiro Deus, e Maomé é seu profeta”. Os seis principais artigos na fé teórica do Islam eram: (1) crença em Deus, (2) em Seus anjos, (3) em Suas escrituras, (4) em Seus profetas, (5) na ressurreição e no dia do juízo, e (6) na predestinação. A parte prática do credo do profeta era igualmente irrepreensível, de acordo com os pensamentos prevalentes da observância religiosa da época, e abrange quatro grandes preceitos: (1) orações e purificação; (2) esmolas; (3) jejum; e (4) a peregrinação a Meca, que era considerada tão essencial que qualquer um que morresse sem realizá-la poderia ser equivalente a ter morrido como um judeu ou um cristão.

O único artigo realmente novo e surpreendente na religião do Islã era a missão divina de Maomé como o apóstolo e profeta de Deus. Mas nessas aparências justas é mais manifesta a obra de Satanás. Tais princípios simples e elementares não fariam violência a ninguém, mas enganariam muitos. A história claramente prova que suas opiniões mudaram com seu sucesso, e que sua violência e intolerância aumentaram com seu poder, até ter se tornado uma religião da espada, da pilhagem e da sensualidade. “Ele foi um pregador gentil”, diz Milman, “até ter desembainhado a espada”. A espada, uma vez desembainhada, é o argumento impiedoso. Em certa época encontramos o amplo princípio da tolerância oriental explicitamente declarado: a diversidade de religiões é atribuída à ordenação direta de Deus, e todos compartilhavam o mesmo ideal. Mas o Alcorão gradualmente retrai todas essas sentenças mais suaves e assume a linguagem de superioridade insultante ou de aversão não disfarçada. Mas, embora o Alcorão tenha muitos pontos de semelhança tanto com o judaísmo quanto com o cristianismo, pensa-se que Maomé não conhecia o Antigo e o Novo Testamento — que ele, na verdade, tirou seu material de lendas talmúdicas, dos evangelhos espúrios e de outros escritos heréticos, misturados às velhas tradições da Arábia.

Os primeiros convertidos que Maomé ganhou para sua nova religião estavam entre seus amigos e relações próximas, mas a obra de conversões prosseguiu bem devagar. Ao final de três anos seus seguidores somavam somente quatorze. Não contente com seu progresso, ele resolveu fazer uma declaração pública de sua religião. Ele primeiro chamou sua própria família para que o reconhecessem como um profeta de Deus, e, tendo sido aceito como o profeta pela sua família, também aspirou ser profeta de sua tribo. Mas suas exigências foram recusadas pelos coraixitas, suas pretensões foram desacreditadas, e ele mesmo e seus seguidores foram perseguidos.

A Entrada Triunfante de Maomé em Medina

Até então ele se esforçara para difundir suas opiniões apenas pela persuasão, mas o povo era obstinado e supersticioso, e ameaçou o profeta com o martírio. Ele foi obrigado a fugir de sua cidade nativa, Meca, o ponto central do comércio e da religião da Arábia, e o esperado centro de seu novo império espiritual. Ele fugiu para Medina, onde foi recebido como um príncipe. Alguns de seus mais distintos cidadãos tinham abraçado sua causa; um partido já tinha se formado em seu favor. Sua fuga, em 622 d.C., é considerada a grande era na vida do profeta, e a fundação da cronologia maometana. Agora que estava possuído de uma força, ele foi encarregado, por uma nova revelação, de usá-la para a propagação da fé. O caráter de suas “revelações celestiais” então mudaram, tornando-se ferozes e sanguinárias. Sua boca se encheu, como os profetas de Acabe, com um espírito de mentira.

Em poucos anos, após alguns combates entre as cidades rivais e os seguidores das religiões rivais, a força do profeta aumentou tanto, que em 630 ele tomou posse de Meca. Ele limpou a Caaba de seus 360 ídolos, e erigiu no lugar o grande santuário do Islã. A partir de então Meca tornou-se o centro de seu sistema; toda a população jurou lealdade; todas as tribos da Arábia estavam então sob seu domínio e professando sua religião.

Meca, a Capital do Islã

Maomé tornou-se então o senhor de Meca. A unidade de Deus era proclamada, assim como sua própria missão profética, do mais alto pináculo da mesquita. Os ídolos foram quebrados em pedaços. O velho sistema da idolatria afundou perante o medo de seus braços e da simplicidade exterior de seu novo credo. O próximo passo importante na política do profeta foi assegurar a unidade religiosa absoluta de toda a Arábia. Por este meio, os velhos feudos hereditários das tribos e raças desapareceram, e todos se transformaram em um exército religioso unido contra os infiéis. A guera estava então declarada contra todas as formas de incredulidade, o que era especialmente uma declaração de guerra contra a Cristandade, e uma determinação expressa de propagar o maometismo pelo poder de sua espada.

Maomé torna-se então um soberano independente. A Arábia, liberta dos ídolos, abraça a religião do Islã. Mas, embora o profeta fosse então um príncipe secular e um guerreiro bem-sucedido, ele não negligenciou seus deveres de sacerdote. Ele constantemente conduzia as devoções de seus seguidores, fazia as orações públicas, e pregava nos festivais semanais às sextas-feiras. Ele blasfemamente assumiu ser profeta, sacerdote e rei. A mistura, a ilusão, é a inspiração do inferno; é como a obra-prima de Satanás enviada do reino das trevas. O fanatismo de seus seguidores foi impulsionado pelos incentivos à pilhagem e a gratificação de toda a paixão maligna. A apropriação de todas as mulheres cativas foi reconhecida como uma das leis da guerra, e a recompensa oferecida pela coragem. As máximas inculcadas em todos os fiéis eram tais como: “Uma gota de sangue derramada na causa de Deus, ou uma noite passada em armas, é de mais valia do que dois meses empregados ao jejum e oração. A qualquer que cai em combate, seus pecados são perdoados; no dia do juízo suas feridas serão resplandescentes como o escarlate e odoríferas como o almíscar: e a perda de seus membros serão recompensadas pelas asas de anjos e querubins”. O grito de guerra do intrépido Khaled era: “Lutem, lutem e não temam! O paraíso, o paraíso, está sob a sombra de suas espadas! O inferno com seu fogo está atrás daquele que foge da batalha, o paraíso está aberto àquele que cai em batalha”. Assim animados, os exércitos muçulmanos se acendiam com entusiasmo; e, sedentos pelos despojos de vitória aqui e pelo paraíso sensual que viria, eles corriam sem medo para a batalha.

A fundação do império árabe estava então estabelecida. Maomé convocou, não apenas os mesquinhos potentados dos reinos vizinhos, mas também os dois grandes poderes do mundo mais civilizado, o rei da Pérsia e o Imperador do Oriente, a se submeterem à sua supremacia religiosa. Conta-se que Heráclito receber a comunicação com respeito, mas Cosroes II, o persa, desdenhosamente rasgou a carta em pedaços: o profeta, ao ouvir sobre o ato, exclamou: “É assim que Deus vai rasgar o reino, e rejeitar as súplicas de Cosroes”. E assim aconteceu; o reino da Pérsia foi reduzido, em um curto período de tempo, pelos exércitos maometanos a apenas algumas comunidades dispersas. Mas embora o círculo do Islã estivesse se alargando, o seu centro estava morrendo. Tenho seguido seu filho mais velho até a sepultura com lágrimas e suspiros, o profeta fez sua peregrinação de despedida a Meca, e morreu no ano 632, aos 64 anos de idade. Ao que parece ele não tinha sido tocado nem um pouco pelo remorso em seu leito de morte, mas o sangue que ele derramou e as multidões que ele enganou o seguirão até o julgamento final.

A missão maligna do falso profeta foi cumprida. Ele tinha organizado a mais terrível confederação que o mundo já viu. No curto espaço de dez anos ele plantou no Oriente uma religião que se enraizou tão firmemente que, entre todas as revoluções e mudanças de doze séculos, ela ainda exerce uma poderosa influência controladora sobre as mentes e consciências de mais de 100 milhões de seres humanos.1

Os Sucessores de Maomé

Após a morte do profeta, a guerra foi declarada contra a humanidade por seus sucessores, os califas. Os principais destes foram Abu Bakr, o sábio; Omar, o fiel; Ali, o bravo; Khaled, a espada de Deus. Estes eram os companheiros e parentes mais velhos do profeta. Em poucos meses após sua morte esses generais foram seguidos por multidões do deserto e invadiram as planícies da Ásia. A história dessas guerras, embora tenham afetado profundamente o progresso do cristianismo, não se encontra no escopo deste livro. Mas, como muitas nações e multidões do povo do Senhor foram vítimas desse temível flagelo, merece uma breve consideração. Muitos creem que os gafanhotos sarracenos eram um cumprimento parcial de Apocalipse 9:1–12.

Os pagãos perseguidos, como Cosroes II, o rei infiel e desafiante da Pérsia, e os cristãos meramente nominais, foram igualmente castigados por Deus por meio dos sucessores de Maomé; mas os orgulhosos bispos e padres foram os objetivos especiais de sua vingança. “Não destruam as árvores de fruto nem os campos férteis em seu caminho”, disseram os califas, “sejam justos, e poupem os sentimentos dos vencidos. Respeitem todas as pessoas religiosas que vivem como ermitões ou em conventos, e poupem seus edifícios. Mas se encontrarem com uma classe de incrédulos de um tipo diferente, que andam por aí com coroas raspadas e pertencem à sinagoga de Satanás, certifiquem-se de racharem seus crânios, a menos que abracem a verdadeira fé ou rendam tributo”. E assim a poderosa horda seguiu com um entusiasmo que nada podia deter. “A Síria caiu; a Pérsia e o Egito caíram; e muitos outros países se renderam ao poder deles”. Muitas grandes cidades, tais como Jerusalém, Bosra, Antioquia, Damasco, Alexandria, Cirene e Cartago caíram nas mãos deles. Eles também invadiram a Índia, atacaram a Europa e a Espanha, e alcançaram até mesmo às margens do Loire; mas ali foram derrotados e expulsos por Carlos Martel no ano 732. Vamos tomar nota mais a fundo apenas do tratamento deles sobre os vencidos no caso de Jerusalém.

No ano 637 Jerusalém caiu nas mãos do califa Omar, que construiu uma mesquita no local do templo. Todo o povo daquela cidade culpada foi reduzido a uma casta desprezível e marcada pelo arrogante conquistador. Em todo lugar eles deviam honrar os muçulmanos, e dar lugar à sua frente. O cristianismo foi submetido à ignomínia da tolerância; a cruz não era mais exibida do lado de fora das igrejas, e os sinos deviam ficar silenciosos; os cristãos eram deixados a lamentar suas mortes em segredo; a vista do muçulmano devoto não devia ser ofendida pelos símbolos do cristianismo de modo nenhum; e sua pessoa devia ser considerada sagrada, de modo que era um crime que um cristão esbarrasse em um muçulmano.

Tal era a condição a que os cristãos habitantes de Jerusalém caíram de vez, e na qual permaneceram, sem que seus algozes fossem perturbados por nenhum tipo sério de agressão até o tempo das cruzadas. Quase os mesmos termos, cremos, foram forçados a todos os cristãos na Síria. Assim Deus, em Sua santa providência, lidou com muitas nações, tanto no Oriente quanto no Ocidente, que eram densamente povoadas por judeus e cristãos, e condenou milhões a uma longa noite de servidão sob o maometismo, que continua até os dias de hoje. 2

Reflexões sobre o Islamismo e o Romanismo

Tendo chegado a nossa história, tanto civil quanto eclesiástica, ao final do século VIII, podemos fazer uma breve pausa e refletir sobre o que vimos, onde estamos, e o que esperar. Temos visto o crescimento da Sé Romana no Ocidente, e como ela alcançou o cume de sua ambição. Vimos também o surgimento do grande poder antagonista no Oriente, inferior apenas na extensão de sua influência religiosa e social ao próprio cristianismo de modo geral. O primeiro se espalhou gradualmente no próprio centro da Cristandade iluminada, e o último surgiu de repente em um obscuro distrito de um deserto selvagem. Mas qual — pode-se perguntar — é a lição moral a ser tomada do caráter e dos resultados desses dois grandes poderes? Ambos foram permitidos por Deus e, se julgamos corretamente, foram permitidos por Ele como um juízo divino sobre a Cristandade por sua apostasia, e sobre os pagãos por sua idolatria. Por um lado, o grito de guerra foi erguido contra todos os que recusavam a fé ou o tributo ao credo e aos exércitos dos califas; por outro lado, um grito de guerra mais implacável foi erguido contra quem se recusasse a crer na Virgem e nos santos, suas visões e milagres, suas relíquias e imagens, de acordo com as exigência intolerantes da idólatra Roma. As igrejas orientais tinham se enfraquecido e se perdido desde os dias de Orígenes por uma filosofia platônica, na forma de uma teologia metafísica, o que causou contínuas dissensões. No Ocidente as controvérsias tinham sido grandemente evitadas: o poder era o objetivo ali. Roma tinha aspirado, por séculos, o domínio da Cristandade — e do mundo. Ambos foram tratados judicialmente por Deus no dilúvio de fogo vindo da Arábia; mas o islamismo permanece como o poderoso flagelo de Deus no Oriente, e o romanismo no Ocidente.

Monotelismo e Iconoclastia

Enquanto os árabes sob Abu Bakr e Omar estavam invadindo os países gregos, e arrancando província após província do império, o imperador contentou-se em enviar exércitos para repeli-los e permaneceu em sua capital para a discussão de questões teológicas. Desde a conclusão de suas guerras bem-sucedidas contra a Pérsia, a religião tinha se tornado quase o objetivo exclusivo de sua solicitude. Duas grandes controvérsias estavam, no momento, agitando todo o mundo cristão. A primeira dessas, a assim chamada controvérsia monotelista, pode ser descrita, em geral, como um reavivamento, sob uma forma um pouco diferente, da velha heresia monofisita, ou de Eutiques. Sob o nome geral dos monofisitas estão compreendidos os quatro principais ramos de separatistas da igreja oriental: os jacobitas sírios, os coptas, os abissinianos e os armênios. O originador dessa numerosa e poderosa comunidade cristã foi Eutiques, abade de um convento de monges em Constantinopla, no século V. Os monofisitas negavam a distinção das duas naturezas em Cristo; os monotelitas, por outro lado, negavam a distinção da vontade, divina e humana, no bendito Senhor. Uma tentativa bem-intencionada, porém frustrada, do imperador Heráclito, foi reconciliar os monofisitas à igreja grega. Mas, como o som da controvérsia é raramente ouvido dentre os sectários orientais após esse período, e como um relato detalhado de suas disputas não seria de nenhum interesse aos nossos leitores, deixamos isto para as páginas da história eclesiástica.3

A iconoclastia, ou o surto de destruição de imagens, merece uma consideração mais detalhada. Ela penetrou no coração da Cristandade como nenhuma outra controvérsia tinha feito até então, e forma uma importante época na história da Sé Romana. Jezabel agora aparece em suas verdadeiras cores, e, deste momento em diante, seu caráter maligno é indelevelmente estampado no papado. Os papas que então preenchiam a cadeira de São Pedro defendiam e justificavam abertamente a adoração a imagens. Este foi, certamente, o início do papado — a maturidade do sistema de desonra a Deus. Os fundamentos do papado foram descobertos, e assim tornou-se evidente que a perseguição e a idolatria eram os dois pilares sobre os quais seu domínio arrogante repousava.

O Primeiro Objeto Visível de Veneração Cristã

Por mais de trezentos anos após a primeira publicação do evangelho há boas razões para crer que nem imagens nem qualquer outros objetos visíveis de reverência religiosa eram admitidos no serviço público das igrejas, ou adotados nos exercícios de devoção privada. Provavelmente tal coisa nunca tinha sido pensada pelos cristãos antes dos dias de Constantino; e podemos apenas considerá-la como um dos primeiros frutos da união da igreja com o Estado. Até esse período o grande protesto dos cristãos era contra a idolatria dos pagãos: e por isto eles sofreram até a morte. E não é pouco notável que a imperatriz Helena, a mãe de Constantino, foi a primeira a excitar a mente cristã a esta degradante superstição. Conta-se que ela, em seu zelo por lugares religiosos, tenha descoberto e desenterrado a madeira da “verdadeira cruz”. Isto foi o suficiente para o propósito do inimigo. A predileção da natureza humana por objetos de veneração se acendeu; a chama se espalhou rapidamente; e seguiu-se a usual consequência — a idolatria.

Memoriais similares do Salvador, da Virgem Maria, dos Apóstolos inspirados, e dos “Pais da Igreja”, foram também “encontrados”. As relíquias mais sagradas que estavam escondidas por séculos eram então descobertas por visões. Tão grande e tão bem-sucedida foi a ilusão do inimigo que toda a igreja caiu na armadilha. Da época de Constantino até a época da invasão árabe, a veneração por imagens, pinturas e relíquias gradualmente aumentou. A reverência pelas relíquias era mais característica dos ocidentais, e a reverência por imagens das igrejas orientais. Mas, a partir da época de Gregório, o Grande, o sentimento do Ocidente se tornou mais favorável às imagens. Em consequência da decadência quase total da literatura, tanto entre o clero quanto entre os leigos, o uso de imagens tornou-se uma imensa fonte de poder para o sacerdócio. Pinturas, estátuas e representações visíveis de objetos sagrados tornaram-se o modo mais fácil de dar instruções, encorajar a devoção e fortalecer os sentimentos religiosos nas mentes do povo. Os mais intelectuais ou iluminados dentre o clero podiam se esforçar em manter a distinção entre o respeito por imagens com um meios e não como objetos de adoração. Mas a devoção indiscriminada do vulgar desconsidera totalmente essas sutilezas. O apologista pode estabelecer distinções muito sutis entre imagens como objetos de reverência e como objetos de adoração, mas não pode haver dúvida que, com mentes ignorantes e supersticiosas, o uso, a reverência, a adoração de imagens, seja em pinturas ou estátuas, invariavelmente se degenera em idolatria.

Antes do final do século VI a idolatria estava firmemente estabelecida na igreja oriental, e durante o século VII fez um progresso gradual e muito geral no Ocidente, onde já tinha anteriormente ganhado algum terreno. Tornou-se comum cair prostrado perante imagens, rezar para elas, beijá-las, adorná-las com gemas e metais preciosos, colocar as mãos sobre elas em juramento, e até mesmo empregá-las como madrinhas e padrinhos de batismo.

As Tentativas de Leão de Abolir a Adoração de Imagens (por volta de 726 d.C.)

O imperador Leão III, de sobrenome Isáurico, um príncipe de grandes habilidades, teve a ousadia de empreender, em face de tantas dificuldades, a purificação da igreja de seus detestáveis ídolos. Como os escritos do partido vencido foram cuidadosamente suprimidos ou destruídos, a história é silente quanto aos motivos do imperador: mas estamos dispostos a acreditar que o novo credo e o sucesso de Maomé influenciaram muito Leão. Além disso, havia um sentimento bastante generalizado entre os cristãos no Oriente de que a crescente idolatria da igreja era o que tinha trazido sobre eles o castigo de Deus pela invasão maometana. Os cristãos constantemente ouviam tanto dos judeus quanto dos islâmicos o odioso nome dos idólatras. A grande controvérsia evidentemente surgiu a partir dessas circunstâncias.

Leão subiu ao trono do Oriente no ano 717 e, após assegurar o império contra os inimigos estrangeiros, começou a se preocupar com os assuntos religiosos. Ele em vão pensou que podia mudar e melhorar a religião de seus súditos por seu próprio comando imperial. Por volta do ano 726, ele emitiu um decreto contra o uso supersticioso de imagens — não sua destruição. Não podemos supôr que Isáurico estava agindo por temor ao verdadeiro Deus, mas sim que seus motivos eram puramente egoístas. Sendo chefe do império e ainda ostensivamente o chefe da igreja, ele sem dúvidas pensou que por seus decretos poderia cumprir a abolição total e simultânea da idolatria por todo o império, e estabelecer uma autocracia eclesiástica. Mas Leão superestimou demais seu poder secular nos assuntos espirituais. Havia passado o tempo de decretos imperiais mudarem a religião do império. Ele ainda tinha que aprender, para sua profunda mortificação, o desdenhoso, insolente e arrogante orgulho e poder dos pontífices, e o apego religioso do povo a suas imagens.

O primeiro decreto meramente interditou a adoração de imagens, e ordenou que fossem removidos a tal ponto que não poderiam ser tocados ou beijados. Mas o momento que a ímpia mão do imperador tocou nos ídolos, a excitação foi imensa e universal. A proibição afetou todas as classes: instruídos e não instruídos, sacerdotes e camponeses, monges e soldados, clérigos e leigos, homens, mulheres, e até crianças, se envolveram nessa nova agitação. O efeito do decreto imediatamente ocasionou uma guerra civil tanto no Oriente quanto no Ocidente. A influência dos monges foi especialmente forte. Eles arranjaram um novo pretendente ao trono, armaram a multidão e apareceram em uma frota mal equipada perante Constantinopla. Mas o fogo grego desbaratou os assaltantes desordenados; os líderes foram presos e condenados à morte. Leão, provocado pela resistência que seu decreto tinha encontrado, emitiu um segundo e mais rigoroso decreto. Ele agora ordenava a destruição de todas as imagens, e o branqueamento de todas as paredes nas quais tais coisas tinham sido pintadas.

O Segundo Decreto é Publicado

O segundo decreto era tão avassalador que os oficiais do império, conta-se, foram até mesmo além de suas ordens. As mais sacras estátuas e imagens foram, em todo lugar, impiedosamente quebradas, rasgadas em pedaços, ou publicamente lançadas nas chamas debaixo dos olhos dos enfurecidos adoradores. “Correndo risco de morte”, diz Greenwood, “homens, mulheres e até crianças correram para a defesa dos objetos como se fossem tão queridos para eles como a própria vida. Eles atacavam e matavam os oficiais do império envolvidos na obra de destruição; estes, apoiados pelas tropas regulares, retaliavam com igual ferocidade; e as ruas da metrópole exibiam tal cena de indignação e abate como só pode ser proveniente de paixões religiosas envenenadas. Os líderes do tumulto foram, a maior parte, condenados à morte no local; as prisões se encheram totalmente; e multidões, após sofrerem várias punições corporais, foram transportadas a lugares de exílio”.4

O populacho ficou então excitado à fúria; mesmo a presença do imperador não os intimidava. Os oficiais do império tinham ordens de destruir uma estátua do Salvador que ficava sobre o Portão de Bronze do palácio imperial, e que era conhecida pelo nome de Segurança. Esta imagem era famosa por seus milagres, e recebia grande veneração do povo. Multidões de mulheres de reuniram em torno do lugar e ansiosamente suplicaram ao soldado que poupasse sua imagem favorita. Mas ele subiu na escada, e com seu machado atingiu o rosto que elas tão frequentemente contemplavam, e que, pensavam elas, benignamente olhava para elas. Os céus não interferiram, como esperavam; mas as mulheres tomaram a escada, derrubaram o ímpio oficial, e o cortaram em pedaços. O imperador enviou uma guarda armada para suprimir o tumulto; a multidão se uniu às mulheres e um assustador massacre se sucedeu. “A Segurança” tinha sido derrubada, e seu lugar foi preenchido com uma inscrição na qual o imperador dava vazão a sua inimizade contra as imagens.5

A execução das ordens imperiais foram rejeitadas em todos os lugares, tanto na capital quanto nas províncias; o entusiasmo popular era tão grande que só poderia ser debelada pelos mais fortes esforços do poder civil e militar. Paixões se acendiam dos dois lados, que naturalmente resultaram na mais ousada rebelião e na mais violenta perseguição.

O Papa Rejeita os Decretos de Leão

A inteligência do primeiro assalto de Leão III contra as imagens de Constantinopla encheu os italianos de dor e indignação; mas quando as ordens chegaram para forçar esses decretos fatais dentro das dependências italianas do império, todos levantaram seus braços contra isso, desde os maiores até os menores. O papa se recusou a obedecer as ordens e desafiou o imperador; e todo o povo jurou viver e morrer em defesa do papa e das imagens sagradas. Mas a complicação política dos assuntos naquele momento tornou impossível para o imperador forçar seus decretos nos domínios papais. Gregório se dirigiu ao imperador com grande tensão; o tom de sua resposta ao manifesto imperial respira um espírito do mais sedicioso desafio. Os monges, que viam seu ofício em perigo — a superstição à qual deviam sua riqueza e influência — pregavam contra o imperador como a um apóstata abandonado. Ele foi pintado por esses escravos da idolatria como alguém que combinava em sua pessoa todas as heresias que já haviam poluído a fé cristã e que ameaçavam as almas dos homens. Mas, exibindo o verdadeiro espírito do papado, tanto na defesa de sua querida superstição e idolatria, quanto em seu desafio ao poder secular, transcreveremos partes das epístolas originais do segundo e terceiro Gregório, deixando ao leitor que examine o quadro.

O papa Gregório II disse ao imperador: “Durante dez puros e afortunados anos temos provado os confortos anuais de tuas cartas reais, assinadas em tinta púrpura por tua própria mão, nas quais pudemos ver as sagradas promessas de teu apego ao credo ortodoxo de teus pais. Que deplorável mudança! Que tremendo escândalo! Tu agora acusas os católicos de idolatria; e pela acusação, trais tua própria impiedade e ignorância. A esta ignorância somos obrigados a adaptar a descortesia de nosso estilo e argumentos: os primeiros elementos das cartas sagradas são suficientes para tua confusão; e, se o imperador entrasse em uma escola de gramática e se declarasse o inimigo de nossa adoração, as simples e piedosas crianças lançariam suas tábuas de escrever em tua cabeça.”

Após essa desleal e ofensiva saudação, o papa tenta, como de costume, defender a adoração de imagens. Ele se esforça para provar a Leão a vasta diferença entre imagens cristãs e ídolos da antiguidade. Os últimos eram a representação fantasiosa de demônios, e as primeiras seriam a semelhança genuína de Cristo, de Sua mãe e de Seus santos. Ele então apela para as decorações no templo judaico — o propiciatório, os querubins e os vários ornamentos feitos por Bezalel para a glória de Deus — a fim de justificar o culto às imagens. Apenas os ídolos dos gentios, afirma ele, eram proibidos pela lei judaica. Ele nega que os católicos adoravam a madeira e a pedra: estes seriam apenas memoriais destinados a despertar sentimentos de piedade.

Ao falar de sua própria edificação ao contemplar as pinturas e imagens nas igrejas6, temos uma passagem de grande interesse histórico que mostra os temas habituais dessas pinturas: “O retrato miraculoso de Cristo enviado por Abgaro, rei de Edessa; as pinturas dos milagres do Senhor; a virgem mãe com o menino Jesus em seu colo, cercada por coros de anjos; a última ceia; a ressurreição de Lázaro; o milagre que deu vista ao cego; a cura do paralítico e do leproso; a alimentação das multidões no deserto; a transfiguração; a crucificação, sepultamento, ressurreição e ascensão de Cristo; o dom do Espírito Santo; e o sacrifício de Isaque.”7

Gregório aborda longamente os argumentos comuns em defesa das imagens, e reprova o imperador pela violação dos mais solenes compromissos, e então irrompe em um tom desdenhoso, tal como: “Tu exiges um concílio: revogue teus decretos, cesse a destruição de imagens; um concílio não será necessário. Tu nos atacas, ó tirano, com um grupo carnal e militar: desarmado e nu só podes implorar a Cristo, o príncipe das hostes celestiais, pois Ele enviará a ti um demônio para a destruição de teu corpo e salvação de tua alma. Tu declaras, com tola arrogância: ’Despacharei minhas ordens a Roma, quebrarei em pedaços a imagem de São Pedro; e Gregório, como seu predecessor Martinho, será transportado em correntes, e em exílio, aos pés do trono imperial’. Quisera Deus que me fosse permitido pisar as pegadas do santo Martinho; mas que o destino de Constâncio possa servir de alerta aos perseguidores da igreja. Mas é nosso dever viver para a edificação e apoio ao povo fiel; e também não iremos arriscar nossa segurança no evento de um combate. Incapaz como és de defender teus súditos romanos, a situação marítima da cidade pode talvez expô-la a tuas depredações; mas só temos de nos retirar à primeira fortaleza dos lombardos, e então poderás, do mesmo modo, perseguir os ventos. Ignora tu que os papas são o vínculo de união, os mediadores da paz entre o Oriente e o Ocidente? Os olhos das nações estão fixados em nossa humildade; e elas reverenciam, como um Deus sobre a terra, o apóstolo São Pedro, cuja imagem tu ameaças destruir.”

A conclusão da carta do papa evidentemente se refere a seus novos aliados além dos Alpes. Os francos tinham escutado obedientemente à recomendação papal de Bonifácio, o “apóstolo” da Alemanha. Negociações secretas já tinham começado para garantir a ajuda deles. A história e os resultados disso já examinamos em um capítulo anterior. Por isso o papa assegurou ao seu correspondente real que “os reinos remotos e interiores do Ocidente apresentam sua homenagem a Cristo e a Seu vice-gerente: e agora nos preparamos para visitar um dos mais poderosos monarcas, que deseja receber de nossas mãos o sacramento do batismo. Os bárbaros se submeteram ao jugo do evangelho, enquanto tu, sozinho, estás surdo à voz do Pastor. Esses piedosos bárbaros se acendem de raiva, têm sede de vingar as perseguições do Oriente. Abandona tua empreitada precipitada e fatal; reflita, trema e arrepende-te. Se persistires, somos inocentes do sangue que será derramado nessa disputa; que ele caia sobre tua cabeça.”8

Um Espírito de Mentira na Boca do Papado

Após lermos cuidadosamente essas antigas epístolas (ver seção anterior), é impossível acreditar que Gregório podia ser tão ignorante a ponto de afirmar tantas coisas a Leão em favor da adoração de imagens que eram certamente falsas: somos mais inclinados a acreditar que ele sabia que eram falsas, mas que apostou na ignorância do imperador. “Dizes”, continuou Gregório, “que somos proibidos de venerar coisas feitas pelos mãos dos homens. Mas és uma pessoa iletrada, e deveria, portanto, ter perguntado aos seus eruditos prelados o verdadeiro significado do mandamento. Se não fosses obstinado e intencionalmente ignorante teria aprendido deles que teus Atos estão em direta contradição com o testemunho unânime de todos os pais e doutores da igreja, e em particular repugnante à autoridade dos seus concílios gerais”. Tão flagrantemente falsas são essas afirmações que podemos apenas nos perguntar como qualquer pessoa poderia ter coragem de escrevê-las como se fossem verdade, especialmente o mais elevado eclesiástico da Cristandade. Mas isto prova que houve, desde o início, um espírito de mentira na boca do papado, assim como houve nos profetas de Baal (1 Reis 22:23). Até mesmo Greenwood 9 diz: “Em nenhum dos concílios gerais uma palavra sequer sobre adoração de imagens ocorre. A afirmação quanto ao testemunho unânime dos pais é igualmente falha. Com a exceção das obras de Gregório, o Grande, não encontrei nenhuma menção à prática da adoração de imagens nos pais dos seis primeiros séculos da era cristã.”10

Mas o espírito de mentira continua dizendo que a aparência visível de Cristo na carne causou tal impressão nas mentes dos discípulos que “assim que eles lançaram os olhos sobre Ele, apressaram-se em fazer retratos dEle, e os carregavam consigo, exibindo-os por todo o mundo, para que ao vê-los os homens pudessem ser convertidos da adoração de Satanás para o serviço de Cristo — porém só poderiam adorar as imagens, não com adoração absoluta, mas apenas com uma veneração relativa”. Do mesmo modo, o papa assegurou a Leão que “pinturas e imagens tinham sido tomadas de Tiago, o irmão do Senhor, de Estêvão, e de outros santos notáveis. E tendo assim feito, ele os dispersou por cada parte da terra para o aumento manifesto da causa do evangelho.”

Por uma estranha perversão ou confusão quanto aos fatos bíblicos, o papa compara o imperador ao “ímpio Uzias que”, diz ele, “sacrilegamente removeu a serpente de bronze que Moisés tinha erguido, e a quebrou em pedaços”. Aqui podemos dar ao papa o benefício da ignorância. Era menos provável que ele conhecesse sua Bíblia do que os seis concílios gerais. Ele parece ter tido alguma lembrança confusa sobre a história de Uzá, a quem o Senhor feriu por ter estendido a mão para segurar a arca quando os bois tropeçaram, e do ato de Ezequias, que quebrou em pedaços a serpente de bronze expressamente para prevenir que o povo pagasse homenagem divina (i.e. idolatrassem) a ela (1 Crônicas 13:9; 2 Reis 18:4). “Uzias”, diz ele, embora fosse na verdade Ezequias — “Uzias verdadeiramente era teu irmão, obstinado e, como tu, ousava fazer violência aos sacerdotes de Deus”. Pode-se então perguntar: o que as crianças de nossas escolas diriam ao papa que confundiu o bom rei Ezequias por um rei perverso, e seu ato de destruição da serpente de bronze por um ato de impiedade? Do mesmo modo podemos esperar que jogassem suas tábuas de escrever na cabeça de Gregório, assim como na de Leão (veja a seção anterior). Mas foi dito o suficiente sobre esse ponto para mostrar ao leitor qual era o espírito e caráter do papado desde sua própria fundação. Sempre foi um sistema descarado, mentiroso e idólatra, embora incontáveis números de santos de Deus tivessem estado nele durante seus mais tenebrosos períodos. O Nome salvador de Jesus sempre manteve-se em meio aos mais grosseiros absurdos e idolatrias, e qualquer que crê nesse Nome certamente será salvo. O dedo da fé que toca mesmo que somente a bainha de Sua veste, mesmo pressionado em meio a uma multidão de idólatras, abre as fontes eternas de todas as virtudes curadoras, e a própria fonte da doença é imediatamente extinta. E qualquer que seja a pressão ou trono Ele olhará ao redor para ver aquele que tocou nEle pela fé, e comunicará paz à alma atribulada (Marcos 5:25–34).

O Fim da Iconoclastia

Gregório II não sobreviveu muito tempo após ter escrito suas epístolas. No ano seguinte ele foi sucedido por um terceiro papa de mesmo nome. Gregório III também era zeloso na causa das imagens, e trabalhava para aumentar a popular veneração por elas. Em Roma, ele estabeleceu o exemplo de adoração de imagens na mais esplêndida escala. Um concílio solene foi convocado, consistindo de todos os bispos dos territórios lombardos e bizantinos ao norte da Itália, totalizando 93 bispos. A assembleia foi realizada na presença real das relíquias sagradas do apóstolo Pedro e teve a participação de todo o corpo do clero da cidade, dos cônsules e de uma grande multidão. Ali um decreto foi formulado, unanimemente adotado e assinado por todos os presente, com o efeito que: “Se qualquer pessoa, a partir de agora, desprezando os costumes antigos e fiéis de todos os cristãos e da igreja apostólica em particular, aparecer como um destruidor, difamador ou blasfemador das imagens sagradas de nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, e de Sua mãe, a imaculada Virgem Maria, dos apóstolos benditos, e de todos os santos, seja ele excluído do corpo e do sangue do Senhor, e da comunhão da universal igreja”11.

Leão, indignado pela audácia do papa, prendeu seus mensageiros e resolveu montar uma numerosa frota e exército para reduzir