MEFIBOSETE – A BONDADE DE DEUS

Certa manhã bem cedo, há muitos anos, estava lendo o capítulo 9 de 2 Samuel. Depois de lê-lo uma vez, pensei, “Que capítulo estranho, acerca de um jovem aleijado de ambos os pés”. Li-o novamente, e ainda não podia ver nada nele.

Depois de lê-lo pela terceira vez, meus olhos pararam nestas palavras: “Decerto usarei contigo de beneficência por amor de Jônatas, teu pai” (2 Sm 9:7). Um pensamento brilhou de repente em minha mente: “Ah! esta é uma figura da bondade de Deus, por meio de Jesus Cristo”. Que figura estava então perante mim – como uma bela paisagem ao romper da manhã. À medida que os anos passaram, a beleza dessa imagem tem aumentado cada vez mais em minha mente. Por muitas vezes fui guiado a pregar a Cristo a partir desta figura, e raramente sem que almas fossem convertidas a Deus. Isto me encoraja a discorrer, em fé, sobre esta interessante porção da Palavra de Deus juntamente com meus leitores, confiando que Deus irá usá-la para bênção de muitas almas.

Nesta figura da bondade de Deus, há dois personagens – Mefibosete, no caráter de filho da graça; e Ziba, como o homem de justiça-própria. A condição de Mefibosete ilustra de forma notável o estado em que se encontra o pecador quando é colocado diante de Deus.

O homem conclui que Deus é seu inimigo

Se você abrir no quarto versículo do quarto capítulo do mesmo livro, encontrará que ele era o filho de Jônatas, o filho de Saul, ambos já mortos nessa ocasião.

Você verá que Mefibosete caiu e tornou-se aleijado, e que desde sua queda esteve escondido, aleijado de ambos os pés, em Lo-Debar que, em hebraico, significa um lugar “sem pasto”. Por ser da casa de Saul, que era inimigo de Davi, Mefibosete concluiu que Davi, sem dúvida, seria seu inimigo escondendo-se, por isso, de sua presença.

Com que perfeição isto ilustra a condição do homem caído. Tão logo o pecado cegou a mente de Adão, nós já o encontramos escondendo-se da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim (Gn 3:8). E porventura não é exatamente esta a condição do homem até hoje? Ah, ele não conhece a Deus. Estando em inimizade contra Deus, o homem conclui que Deus é seu inimigo, e teme Sua presença. O pensamento de se entrar hoje na presença de Deus seria por demais aterrorizante. Acaso este pensamento o amedronta, meu leitor? Ah, é porque você não conhece a Deus. Talvez você possa dizer: “Eu pequei, e isto me faz ter medo de Deus”. É verdade que você pecou; e eu também pequei; e todos pecaram. Mas se você soubesse o preço que Ele já pagou – se soubesse que Ele não poupou nem mesmo a Seu Filho querido – então você entenderia que Deus é o único a Quem você pode ir como um pecador – e ficar assegurado de que “o sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1 Jo 1:7). 

 

Mas vamos seguir com nosso capítulo. “E disse Davi: Há ainda alguém que ficasse da casa de Saul, para que lhe faça bem por amor de Jônatas?” (2 Sm 9:1). Será que não é esta também a presente obra do Espírito de Deus? Demonstrando aos filhos e filhas caídos de Adão a bondade de Deus, não importa quão profundamente tenham caído; não importa que estejam aleijados, aleijados de ambos os pés, e verdadeiramente no lugar onde não encontram pasto? Ah, pobre pecador caído, onde quer que você esteja tentando se esconder de Deus, não há nada neste mundo de miséria e pecado que possa fazer você feliz. Ou você pensa que há? Por acaso você já não tomou posse das ilusões de Satanás, ou colocou sua confiança nas vãs promessas deste mundo, até que seu pobre coração ficasse despedaçado em amargo desapontamento, e tudo tenha se transformado em triste vaidade? Escute, então, pois vou falar-lhe dAquele que não irá desapontá-lo.

 

Ziba, o homem de justiça-própria, informou ao rei que Jônatas tinha ainda um filho, que era aleijado de ambos os pés, na casa de Maquir, filho de Amiel, em Lo-Debar. “Então mandou o rei Davi, e o tomou.” (v.5) Este “tomou” é algo maravilhoso. Isto nos fala da graça que é inteiramente de Deus. O homem mostra sua bondade àqueles que, conforme pensa, a merecem. Ou então espera receber em troca algo digno de sua bondade. Não é assim com Deus. Mefibosete não fez coisa alguma para merecer a bondade. Ele não teve que fazer sua parte primeiro, como dizem alguns. Não! A graça foi buscá-lo em Lo-Debar, no próprio lugar onde estava. E acaso não veio o Filho de Deus encontrar os pecadores bem onde estes estavam? Ele veio para buscá-los, e os encontrou mortos em suas ofensas e pecados. E porventura Ele não ocupou o próprio lugar de juízo, e morreu, o Justo pelo injusto, para nos levar a Deus? Que caia eterna vergonha sobre cada fariseu orgulhoso que, depois de tudo isso, ainda venha a dizer: “O homem precisa fazer sua parte primeiro”.

 

Uma figura do trêmulo pecador

 

Mefibosete era aleijado demais para fazer sua parte primeiro. Ele tinha que ser levado. Ah! se não fosse por esta graça que leva, todos nós teríamos perecido em nossos miseráveis esforços para nos esconder de Deus. E então, quando Mefibosete foi levado “a Davi, se prostrou com o rosto por terra” (2 Sm 9:6). Que imagem de receio e temor. Sendo descendente de Saul, que caçava a vida de Davi, o que poderia Mefibosete esperar? Que no momento seguinte a voz de austera justiça exigisse sua vida. Aqui ele se prostra – uma figura do trêmulo pecador, colocado na presença de Deus, com o terrível fardo de culpa e pecado; ele não conhece a Deus – ele não sabe o que o espera.

 

Antes de ouvirmos as palavras de Davi, vamos voltar à aliança de amor, conforme é revelada em 1 Samuel 20:14-17. Jônatas, o pai daquele jovem caído aos pés de Davi, fala assim no versículo quatorze: “E, se eu então ainda viver, porventura não usarás comigo da beneficência do Senhor, para que não morra? Nem tão pouco cortarás da minha casa a tua beneficência eternamente… E Jônatas fez jurar a Davi de novo, porquanto o amava; porque o amava com todo o amor da sua alma”.

 

Você já voltou a visitar o lugar onde passou sua infância, e aí viu pela primeira vez o filho de algum amigo já falecido? Então você poderá ter uma vaga idéia do que Davi sentiu quando olhou para Mefibosete, o filho de Jônatas, caído aos seus pés.

 

Quem poderá descrever a terna doçura daquela voz que falou do mais profundo do seu coração: “Mefibosete!”? “Eis aqui teu servo”, é a trêmula resposta. Quão pouco ele esperava a graça incondicional que estava a ponto de ser mostrada a ele. “Eis aqui teu servo”, é o pensamento mais elevado que pode ter o homem caído. Ele tenta se oferecer como um servo para Deus, e espera ser salvo ao menos por seu serviço. Esta é a religião de cada coração humano que não conhece a Deus.

 

Não temas, porque decerto usarei contigo de beneficência

 

Mas escute agora as palavras de Davi. Como o pai, na parábola do filho pródigo, ele interrompe Mefibosete. “Não temas, porque decerto usarei contigo de beneficência por amor de Jônatas, teu pai, e te restituirei todas as terras de Saul, teu pai, e tu de contínuo comerás pão à minha mesa.” (v.7). Ah! Deus é assim – sem condições, sem barganha. Não é nada do tipo ‘se você fizer isto’, ou ‘se você não fizer aquilo’. Oh, não; é tudo pura graça! A bondade de Deus! “Usarei de bondade para contigo” (Versão Almeida Atualizada), e isto inteiramente por causa de outra pessoa. “E tu de contínuo comerás pão à minha mesa.” Acaso não foi assim na parábola em que Jesus revelou a desconhecida e ilimitada graça do coração do Pai? Houve alguma repreensão? Houve alguma condição? Não, ele se lançou ao pescoço do filho e o beijou (Lc 15). E porventura não é assim também a bondade de Deus? Estarei eu deturpando a verdade ou, como Cristo fez, estarei revelando o verdadeiro caráter de Deus? Será assim que Ele recebe o pecador perdido? Pergunto: serão também estas as palavras que Ele tem para o trêmulo e miserável pecador, que só merece a perdição do inferno? Poderá Deus, apontando para a cruz de Cristo, dizer: “Não temas, porque decerto usarei contigo de beneficência por amor de…” Jesus? Tudo isto é, também, sem uma única condição. É tudo pura graça, fluindo de Seu próprio coração transbordante de amor.

 

Oh, meu leitor, você conhece a Deus assim? “Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus.” (Ef 2:4-7). Será que você pode dizer que é esta a sua porção? Os homens teriam enviado um livro de instruções ao jovem paralítico, para dizer-lhe como curar seus pés, como se apresentar melhor e fazer nem sei mais o quê. Mas não há nem uma só palavra assim aqui. Não, Mefibosete vem como está; nada mais é exigido. E como é que poderia ser, quando se tratava de Davi tratando em conformidade com aquilo que havia em seu coração? Mais do que todas as outras coisas, Satanás irá empenhar-se em esconder do pobre pecador esta bondade de Deus. É quando Deus é verdadeiramente conhecido, que se entende que não há necessidade de homem algum sobre a terra, ou santo no céu, para abrandar Seu coração para comigo. Ele já está cheio de indizível amor.

 

Estará você, querido leitor, sentindo o fardo do pecado? E será que você tem se encontrado perplexo com os grossos volumes de instruções escritos pelos homens dizendo como você deve se sentir, e como você deve agradar a Deus e fazer com que Ele o salve? Talvez um diga que guardando as ordenanças e os sacramentos que você poderá ter a esperança de ser salvo. Outro, com um efeito igualmente mortífero, é provável que diga que você deve passar por esta ou aquela experiência antes que Deus o receba. Isto é, eles de bom grado irão querer persuadi-lo de que você não está tão completamente caído; que você é apenas aleijado um pouco de um pé, e que você tem que tão somente fazer de Cristo uma muleta e, com Sua ajuda, você vai poder seguir em frente até que razoavelmente bem. Na verdade, o ponto onde querem chegar é que você pode, de alguma forma, merecer o céu.

 

Ponha sua confiança em Deus

 

Portanto se você estiver de tal modo desnorteado e perturbado, deixe-me rogar-lhe que dê ouvidos a Deus e abandone todos os meios de salvação indicados pelos homens. Ponha sua confiança em Deus; naquilo que foi revelado na cruz de Cristo. Será que ali – enquanto você O contempla em Seus sofrimentos por você e por seus pecados, fazendo, por amor, a expiação por causa desses mesmos pecados a fim de que você possa se ver livre – você poderá fazer algo mais além de odiar seus pecados, e arrepender-se deles, e odiar a si mesmo por havê-los cometido? Ah, não há nada como a contemplação da cruz de Cristo para produzir arrependimento em um pobre pecador.

 

Tão logo aquela torrente de graça incondicional foi derramada dentro do temeroso coração de Mefibosete, ele “se inclinou, e disse: Quem é teu servo, para tu teres olhado para um cão morto tal como eu?” (v.8). É assim que a bondade de Deus conduz ao arrependimento. O pecador é introduzido na presença de infinita graça, e também de infinita santidade. O verdadeiro caráter de Deus é revelado ao pecador em Cristo Jesus. Então ele escuta as mais doces palavras de divino amor: “Não temas, porque decerto usarei contigo de beneficência” (v.7). E o efeito disso é inclinar-se até o pó, sensibilizado por essa irresistível graça. É este o “arrependimento para a vida” (At 11.18).

 

Se não estou enganado, há muitos que entendem como arrependimento um tipo de reerguimento de si próprio; uma melhoria de si mesmo por meio da qual você consegue fazer com que Deus mude de idéia a seu respeito, como se Ele fosse nosso inimigo e necessitasse de nossas boas obras para ficar de bem conosco. Acaso foi necessário alguma mudança no pensamento de Davi? Não; seu coração estava cheio de amor. E para que seria necessário alguma mudança no pensamento de Deus? O que é a cruz de Cristo, além da expressão do amor de Deus para com os pecadores perdidos? Agora, querido leitor, se você conhecesse a bondade de Deus para com você, como foi demonstrada em Seu Filho Jesus Cristo e em Sua morte expiatória, isto produziria instantaneamente uma completa mudança de pensamento em você. E quanto mais você conhecesse a gratuidade desse precioso amor, mais você se humilharia, se inclinaria até o pó, diante de dEle. Aquilo que você talvez esteja tentando em vão produzir em si próprio, como algo preliminar à salvação, ou como algo para merecê-la, seria produzido no momento em que cresse no tremendo amor de Deus.

 

E note agora o contraste entre estes dois homens – Ziba, o servo, e Mefibosete, o filho – Davi chama a Ziba, e lhe dá mandamentos, os quais ele concorda guardar.

 

“Conforme a tudo quanto meu senhor, o rei, manda a seu servo, assim fará teu servo.” (v.11). A mesma coisa que Israel tão tolamente se comprometeu a fazer no Sinai – e a mesma coisa que milhares estão se comprometendo a fazer em nossos dias, os quais abandonaram o cristianismo, voltando a uma forma de judaísmo – sim, e temo que nove em cada dez que lêem esta página, pertençam à religião do servo, e não do filho.

 

Que contraste pode ser visto nas palavras de Davi dirigidas ao filho em pura graça.

 

“Tudo… tenho dado.” (v.9). “Mefibosete… de contínuo comerá pão à minha mesa.” (v.10). “Mefibosete comerá à minha mesa como um dos filhos do rei.” (v.11); “Morava pois Mefibosete em Jerusalém, porquanto de contínuo comia à mesa do rei, e era coxo de ambos os pés.” (v.13). Nenhuma palavra de graça dirigida ao servo, e nenhum mandamento dirigido ao filho. Um mostra o serviço de uma servidão pela lei; o outro, a adoração da mais profunda afeição do coração.

 

Feliz é a sua porção, filho da graça! Deus deu a você vida eterna. Não mais um servo, mas um filho nobre, real, à mesa de seu Senhor. Nem sequer um sacramento para ajudar a salvá-lo, mas o sentar-se de contínuo à mesa de seu Senhor, partindo e comendo daquele pão, e bebendo daquele cálice, que o faz recordar do corpo ferido e do sangue derramado de Cristo, pelo que você é salvo.

 

Sim, Deus lhe deu o Pão da Vida, do qual você deverá sempre se nutrir. Você é um filho; seu lugar nunca pode ser o de um servo. “Mas, a todos quantos O receberam [receberam a Cristo], deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no Seu nome.” “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo.” (Jo 1:12; Rm 8:17).

 

De quão imensa importância é compreender este extraordinário parentesco.

 

Certamente você deve ver que existe uma grande diferença entre o relacionamento de um servo e o de um filho. Um servo não permanece assim para sempre, mas o filho será sempre filho. Dessa forma a graça foi o que tirou Mefibosete de seu lugar de temor e inimizade, dando-lhe, de uma só vez, todos os privilégios de filiação, sem uma única condição. Vimos o efeito disso nele, demonstrado numa total rendição do seu eu, e encontraremos seu coração apegando-se a Davi para sempre.

 

A fria incredulidade diria: “Sim, é verdade, ele era um pobre e coitado aleijado antes de ser levado a Davi e tornado um filho do Rei. Mas certamente ele nunca poderia desfrutar do privilégio de sentar-se à mesa real, e continuar a ser um pobre e coitado aleijado”. Este argumento existe porque não são poucos os que admitem que é a graça que leva um pobre pecador, perdido e aleijado, a Cristo, mas que no entanto imaginam que, depois de levado a Cristo, a continuidade desta condição e a salvação final dependem, de algum modo, de seu próprio andar e de sua obediência. Este é um dos mais terríveis e desnorteantes enganos. Se fosse verdade (ai de nós!), quem poderia ser salvo? Todo crente que conhece seu próprio coração responderá: “Eu é que não!” Se minha salvação final dependesse de mim por apenas uma hora, eu não ousaria ter sequer esperança de ser salvo.

 

Você ousaria? Porém, o que vemos nesta figura divinamente inspirada da bondade de Deus? “De contínuo comia à mesa do rei, e era coxo de ambos os pés.” (v.13).

 

Preciosa graça!

 

A graça me buscou, achou, e quis salvar; Me guarda, levará, e manterá no Lar.

 

O crente fica, com freqüência, demasiadamente espantado quando descobre que, apesar de toda a força própria que pensa possuir para manter-se firme na hora da tribulação, é tão fraco agora como antes. E basta que ele, por um momento, esqueça a posição que em graça tem como filho, e comece a tentar andar como servo, para acabar ocupado com seus pobres pés aleijados. Ao descobrir que, como um servo debaixo da lei, não pode agradar a Deus, ele acaba se desiludindo e desistindo de tudo. Querido leitor, talvez você tenha insistido neste caminho a duras penas. Talvez você tenha olhado para o seu pobre andar aleijado até haver chegado a dizer em seu coração: “Na certa eu não posso ser mesmo um filho de Deus!” Ah, você nunca poderá achar descanso olhando para seus pés aleijados.

 

Coloque-os debaixo da mesa, e olhe para aquilo que Deus, em Sua infinita graça, tem colocado sobre a mesa. Ele coloca diante de nós a recordação de Cristo. Tudo o que somos em nosso pobre, desventurado e aleijado ser, foi julgado e posto de lado pela cruz. E Deus considera nosso velho ser morto e sepultado fora do alcance de Sua vista. Ele nos vê agora ressuscitados com Cristo; sim, nEle próprio, sentados nos lugares celestiais.

 

Oh, sim, é bem verdade que o crente continua, em si mesmo, tão aleijado depois de sua conversão quanto ele era antes. No entanto ele tem uma nova vida – tem agora uma nova natureza, a qual não tinha antes; e tem o Espírito Santo habitando em si. Mas ainda sua velha natureza, chamada carne, continua sendo o que sempre foi. O que deve fazer então? Não ter absolutamente nenhuma confiança na carne; mas reconhecer a graça que o fez ser de Cristo, e que o manterá sendo dEle para sempre. Coloquemos, portanto, nossos pés debaixo da mesa, e alegremo-nos com as riquezas da divina graça que estão dispostas diante de nós. É quando chegamos no final de toda a esperança em nós mesmos, e quando reconhecemos a completa ruína do velho homem, que passamos a uma tranquila dependência em Cristo, em comunhão de Quem encontramos o poder para uma vida santa. Porém a carne, em sua justiça-própria, vai dar um bocado de trabalho antes de se deixar considerar morta (Rm 7).

 

A bondade de Deus para com um mundo culpado

 

O assunto do capítulo seguinte (2 Sm 10), é a bondade sendo demonstrada e sendo rejeitada, com o conseqüente juízo que se segue. Trata-se do grande pecado que é digno de condenação. A bondade de Deus para com um mundo culpado tem sido demonstrada. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3:16). Que bondade! Mas ouça estas solenes palavras:

 

“Quem não crê já está condenado”. (Jo 3:18).

 

Se você que lê estas linhas for alguém que rejeita a bondade de Deus demonstrada na dádiva de Seu filho, pense bem; oh, pense bem em sua condenação eterna!

 

Gostaria de prosseguir rapidamente com a história desses dois homens – tipos, como foram, de todos aqueles que, nos dias de hoje, ou encontram a graça e a salvação em Deus, ou estão tentando ser salvos pela guarda de Seus mandamentos.

 

No capítulo 15 temos registrada a rebelião de Absalão. Davi, o verdadeiro rei, é rejeitado; e quando abandona Jerusalém, é notável observarmos que ele atravessa o mesmo riacho que o rejeitado Jesus cruzou anos depois. “E toda a terra chorava a grandes vozes, passando todo o povo: também o rei passou o ribeiro de Cedrom.” (2 Sm 15:23). Quando Jesus passou por aquele ribeiro na noite de Sua rejeição, os poucos que passaram com Ele não puderam vigiar nem uma hora. E no versículo 30, “subiu Davi pela subida das Oliveiras, subindo e chorando”. Foi a esse monte que Jesus levou Seus discípulos, quando, havendo sido rejeitado por aqueles por quem viera e tendo morrido, havendo Deus O ressuscitado dentre os mortos, subiu ao céu – rejeitado pelo mundo, mas recebido em glória nas alturas.

 

É aqui, quando Davi é assim rejeitado, e após haver passado pelo Monte das Oliveiras, que encontramos exposto o caráter de Ziba, o servo (Leia o capítulo 16:1-4). A primeira coisa que vemos é uma grande exibição de serviço ao seu rei – jumentos carregados de pão, frutas e vinho. “Que pretendes com isto?”, pergunta o rei. Onde está Mefibosete? Ziba diz ao rei que Mefibosete ficou em Jerusalém para tentar tomar posse do reino. Realmente, aquilo tudo dava uma aparência de que Ziba, o homem de justiça-própria, tinha a melhor religião. Sim, e é isto o que sempre tem parecido ser à vista. Mas Deus conhece os segredos de todos os corações. Para todas as aparências exteriores parecia existir um grande zelo e devoção em Ziba; e ele tinha uma boa oratória. Mas, por dentro, tudo não passava de hipocrisia.

 

Por fim chega o dia da volta de Davi, o rejeitado (capítulo 19.24-30), e Mefibosete sai para encontrá-lo. Sim, e o dia da volta do Senhor Jesus, o rejeitado logo chegará; e todo o que é filho da graça, esteja ele dormindo no pó, ou vivo quando Ele vier, sairá para encontrá-Lo nos ares (1 Ts 4:15-18).

 

Mas a vossa tristeza se converterá em alegria

 

E agora, o verdadeiro caráter de ambos é revelado. Mefibosete “não tinha lavado os pés, nem tinha feito a barba, nem tinha lavado os seus vestidos desde o dia em que o rei tinha saído até ao dia em que voltou em paz” (v.24). A bondade de Davi havia conquistado seu coração. Aquele coração pulsava de afeição para com o rei rejeitado; e sua afeição era por demais profunda para permitir que ele ocupasse na terra qualquer outro lugar que não fosse o de um triste enlutado, esperando pela volta daquele a quem amava. E porventura não foi com isto que Jesus contava na noite de Sua rejeição? “Um pouco, e não Me vereis, e outra vez um pouco, e ver-Me-eis. Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes; mas a vossa tristeza se converterá em alegria.” (Jo 16.20). Oh, quão pouco temos correspondido ao coração de nosso rejeitado Senhor! A nada posso culpar, senão ao meu próprio esquecimento de Cristo, se me coloco em qualquer outro lugar que não seja aquele em que Mefibosete se colocou – o lugar de um triste enlutado, esperando pela volta dAquele a Quem amo.

 

Mas o que dizer das frutas, do pão e do vinho? “Por que não foste comigo, Mefibosete?” E agora a verdade é tornada manifesta. Foi ele quem havia providenciado os jumentos carregados de frutas. Porém, por Mefibosete ser aleijado, Ziba adiantou-se a montar o jumento, tomando, assim, e com hipocrisia, o lugar de Mefibosete. E note agora o profundo efeito da graça. Mefibosete diz:

 

“Faze pois o que parecer bem aos teus olhos. Porque toda a casa de meu pai não era senão de homens dignos de morte diante do rei meu senhor; e contudo puseste a teu servo entre os que comem à tua mesa” (vs.27-28). Quão doce é a confiança que a graça dá! Acaso você, leitor, tem a firme confiança de que Deus deu a você, em pura graça, um lugar em Sua própria mesa? Se assim for, como você poderia deixar de almejar, com puro gozo, pela vinda de Jesus?

 

“E disse-lhe o rei: Por que ainda falas mais de teus negócios? já disse eu: Tu e Ziba reparti as terras.” (v.29). É maravilhosa a resposta de Mefibosete: “Tome ele também tudo: pois já veio o rei meu senhor em paz à sua casa” (v.30). Não era a terra que ele queria; não, seu maior desejo havia sido realizado. Era a pessoa daquele que lhe havia demonstrado tamanha bondade.

 

E acaso não é assim que sucede, onde quer que a graça tenha verdadeiramente conquistado o coração a Cristo? O desejo não permanece nas coisas da Terra. “E, na verdade”, diz o apóstolo, “tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3:8). Oh, que possamos ser mais como Mefibosete – mais como os santos em Tessalônica – esperando pelo Filho de Deus vindo do céu. Mefibosete havia recebido a bondade de Davi com a mais completa confiança; a despeito de sua condição de aleijado, ele nunca duvidara da realidade do amor de Davi, mas havia aguardado pacientemente por seu retorno, suportando cada afronta, até que chegasse o tempo. Os tessalonicenses também haviam recebido as boas novas da graça de Deus em poder e no Espírito Santo, e em muita confiança – e por isso suportavam com paciência, e mesmo com gozo, todo insulto e aflição proveniente das mãos de seus inimigos. E qual era o secreto poder disso? Eles esperavam por Jesus vindo do céu. Os verdadeiros filhos de Deus sempre foram odiados e caluniados.

 

Mas que dia esse que vai chegar! Quem poderá dizer quão cedo chegará Aquele a Quem esperamos? Suas derradeiras palavras foram: “Certamente cedo venho”. “Amém. Ora vem, Senhor Jesus.” (Ap 22:20). Davi voltou; acaso não voltaria o Senhor de Davi? Sim, nossos olhos irão vê-Lo em breve. Oh, bendita e brilhante esperança! Não esperamos pelo Milênio. Não esperamos pelo cumprimento das profecias. Todas estas coisas são benditas em seu próprio lugar – mas é o próprio Jesus que o crente, que foi lavado em Seu salgue, almeja ver.

 

Esta belíssima ilustração se estende ainda mais no capítulo 21 – o dia do julgamento da casa de Saul. “Porém o rei poupou a Mefibosete, filho de Jônatas, filho de Saul, por causa do juramento do Senhor, que entre eles houvera, entre Davi e Jônatas, filho de Saul.” (v.7). Isto encerra a história deste filho da graça. E então – depois que Jesus tiver retornado e Seu reino tiver sido estabelecido; depois que a Igreja de Deus já estiver há muito desfrutando da glória celestial de Cristo, e Israel tiver desfrutado da glória do reino sobre a Terra; sim, mesmo depois que o grande trono branco tiver sido estabelecido, diante do qual os filhos caídos de Adão tiverem que permanecer – nenhum dos que foram contados na família da graça, nos conselhos da eternidade, nenhum, nem mesmo um único, se perderá.

 

Mas onde estarão, naquele dia, os indiferentes pecadores, e aqueles que tentam fazer algo pela sua própria salvação? Mostre-me algum homem que professe ser um guardador da lei, e que não seja um transgressor da lei. Porventura, prezado leitor, poderia algum de nós permanecer diante daquele trono apoiado em nossas próprias obras? Impossível. Com certeza, o homem que pretende parecer melhor que seu vizinho deve ser um hipócrita, pois Deus diz: “Não há diferença” – “todos pecaram” (Rm 3:22-23). Não, não! não é pelas obras que qualquer pecador pode ser salvo. Se você puder encontrar um homem que não seja pecador, bem, deixe que ele tente. Porém um pecador necessita de perdão. “E sem derramamento de sangue não há remissão.” (Hb 9:22). Bendito Jesus, Tu suportaste a ira, a maldição, o juízo, pelos pecados do Teu povo; e agora a bondade, que flui sem impedimento algum, e a paz eterna, formam a porção de cada alma que repousa em Ti. Olhe para a cruz, querido leitor, e ouça. Acaso Deus não está lhe dizendo algo ali? “Decerto usarei contigo de beneficência.”

 

O fruto de uma fé salvadora

 

Mas será que em troca disso não haverá obras? Oh, sim, haverá um serviço verdadeiro, profundo, de coração – que é o fruto de uma fé salvadora. Quantas são as obras que parecem boas diante dos homens e são, na realidade, nada aos olhos de Deus! Os homens se sobrecarregam com pesados fardos de obras de justiça-própria; e, no entanto, que mais são essas mesmas obras além da mera rejeição da imerecida bondade de Deus?

 

Quanto mais profunda for sua certeza da imutável bondade de Deus demonstrada a você, um indigno pecador, mais profunda será sua aversão ao pecado, e mais completo o seu gozo em um serviço devotado de todo o coração a Cristo; e mais ansiosamente, embora pacientemente, você irá aguardar por Sua volta vindo do céu.

 

C.Stanley

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Author: Acervo Digital Cristão

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