LIVRE DA COVA

O MARINHEIRO ENFERMO era um jovem forte e de físico avantajado, de 22 anos de idade, mas a quem um acidente havia deixado estendido numa cama, inutilizado.

 

— Entre; seja bem vindo. — disse tão logo me viu. — Meu amigo Henry disseme que você viria e me contaria algo que me traria conforto. Os médicos dizem que nunca mais poderei me mover; e ai! Pensar em ter que passar o resto da vida preso a um só lugar é de enlouquecer! Quando minha mãe chega em casa, ao fim de um dia de trabalho, não devo mostrar sinais de desânimo; já chega o que ela tem que passar todos os dias trabalhando para poder me sustentar. E pensar que eu contava poder ajudá-la a passar o resto de seus dias em conforto, sem ter que trabalhar…

Parou, sufocado por um soluço que era quase um gemido; porém, dominando dentro em pouco a emoção, contou-me que tinha sido carpinteiro a bordo de um navio. O mar era o seu encanto, e tinha feito muitas viagens proveitosas, apesar de haver passado por diversas tempestades. Quando, na última viagem, estava voltando, e já perto do porto de destino, fazia alguns consertos num mastro. Fazia bom tempo, mas, de repente, um pé de vento, vindo do lado da costa, atingiu o navio, fazendo-o estremecer e virar-se para o alto mar, afocinhando. O marinheiro foi colhido de surpresa, quando começava a descer. Não pôde segurar-se, e foi atirado com violência para o convés, caindo de costas, de uma grande altura.

— Quando já não podiam fazer mais nada no hospital, trouxeram-me para casa, e estou mais inútil do que um bebê, servindo só para dar trabalho e exigir cuidados. Quase me faz enlouquecer ver minha pobre mãe chegar tão pálida e cansada, e eu aqui deitado; no entanto, ela nunca se queixa; mas diz sempre que Deus o permitiu, e que o que Ele faz, ou permite, é sempre o melhor. Ainda bem que ela pode encarar as coisas assim, já que isto a anima; mas a mim parece-me que em vez de ser Ele o Deus da viúva e do órfão, como ela diz que é, esqueceu-Se dela e me impediu de ajudá-la. Meu pai morreu afogado no mar, quando eu não tinha mais do que três ou quatro anos. O Deus Todo-Poderoso nos tem tratado duramente. Duramente!

Senti-me impotente para tentar dar-lhe uma palavra de conforto, e apenas pedi a Deus que Se revelasse no Seu verdadeiro caráter de Salvador a este pobre desgraçado, que pensava tão mal dele.

— Decerto que a sua provação é muito grande, Andrew, e palavras humanas pouco valor poderão ter no caso, bem o sei, ainda que inspiradas por um sincero desejo de ajudar: mas há Um que pode auxiliá-lo e consolá-lo, e eu O conheço; mas vejo que você deixou que se apoderassem de si pensamentos amargos a Seu respeito. Acaso não tem nada a contar de positivo? Não se lembra de qualquer misericórdia que tenha recebido? De que altura caiu?

— Quase 20 metros.

— Não seria o bastante para estar morto?

— Sim, de fato todos acham ter sido um milagre eu ter ainda ficado com vida. Dois amigos meus, quando estávamos na América do Sul, caíram de uma altura de talvez menos de 10 metros, e nunca mais falaram.

— E se você nunca mais tivesse falado aqui neste mundo, onde se teria tornado a ouvir sua voz? Onde você se encontraria neste momento: no Céu ou no Inferno?

— Certamente estaria no Inferno, pois o diabo naquele tempo me tinha bem seguro.

— Sim, e procurava precipitá-lo na cova. Mas os olhos do Senhor não o perdiam de vista; sim, os olhos daquele que você acusa haver Se esquecido da viúva e de ter tratado com aspereza o órfão. A Sua poderosa palavra de misericórdia se aplica a você: “Livra-o, que não desça à cova; já achei resgate” (Jó 33.24). Você diz que foi um milagre: foi o amor e a misericórdia do Senhor, buscando a sua alma, e, embora inválido, ainda está fora do Inferno; a porta do Céu está aberta e o Senhor Jesus ainda aguarda para ser misericordioso, oferecendo-lhe a salvação mediante o Seu precioso sangue, e dizendo: “Vinde a mim… e eu vos aliviarei” (Mateus 11.28). Ele lhe oferece a vida eterna. Ora, diga-me, Deus esqueceu-Se da viúva e do órfão, quando o salvou da morte?

 

Não me esquecerei da mudança de expressão manifesta no seu rosto, ou antes, de como o seu semblante manifestou várias mudanças de expressão. Irromperam por fim estas palavras:

 

— Sou o maior dos tolos aqui fora do Inferno. Nada tenho feito senão caluniar a Deus!

— Exatamente, Andrew, mas — repeti, — “o sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de TODO o pecado” (1 João 1.7).

— Mas decerto isto não significa os MEUS pecados… — Quando Deus disse TODO o pecado, não saberia Ele o que estava dizendo? Não o diria Ele com sinceridade? Decerto que sim, e, oh! Ele também sabe, só Ele sabe, TODO o valor do sangue do Seu Filho.

Após longa pausa, olhou de repente para cima e disse:

— Parece demais, que Ele me perdoe por completo. Contei-lhe, então, de cor, a bem conhecida parábola do pai e do filho pródigo, que ele escutou com muita atenção, e, quando cheguei ao fim, ele chorava abundantemente.

— Isso foi amor, sem dúvida, mas, oh; mesmo aquele rapaz nunca foi tão mau como eu. — Mas Andrew, não se trata de ser mais ou menos mau; mas sim de saber se basta o sangue do Filho de Deus para o purificar. Você acha que pode dizer que há alguns pródigos que regressam, mas que o amor do Pai não é suficiente para acolhê-los? Tenho que me retirar, mas quero deixar-lhe dois pequenos versículos, para que neles medite: “Deus é amor” e “O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de TODO o pecado” (1 João 4.8; 1.7). Ele repetiu estas palavras pausadamente, duas ou três vezes. Então, prometendo voltar no dia seguinte, se me fosse possível, parti.

 

No dia seguinte não me foi possível voltar lá, embora muito o desejasse. Mas quando depois consegui voltar a visitá-lo, ele quase que gritava:

— Já o tenho! Já o tenho!

— O que é que tem, Andrew?

— Tenho quase tudo, a não ser a glória, mas é esse o meu porto de destino, e já tenho o Piloto a bordo; entreguei-Lhe o leme e Ele sabe muito bem passar pelo cabo e entrar a salvo no porto.

— Conte-me tudo, Andrew.

— Depois que você saiu, fiquei outra vez triste e desanimado como antes. Só via diante de mim os meus pecados e a negra ingratidão, e ontem todo o dia, quando você não veio, pensei que Deus já tinha me desamparado completamente, mas, à noite, quando estava desesperadíssimo, comecei a lembrar-me de como, naquela história, o pai foi ao encontro do pobre homem que voltava na sua miséria, e tudo tão prontamente lhe perdoou; e então, quando os meus pecados voltaram a atormentar-me, qualquer coisa parecia dizer-me no íntimo: “Andrew! Se você é maior pecador do que aquele homem, isso apenas serve para tornar Deus um maior Salvador, para poder salvá-lo”. E então eu disse em voz alta: “É assim mesmo, Senhor; já tenho o perdão, apesar de ser um tão grande e vil pecador!

— E sua mãe já sabe da alegria que agora possui?

— Sabe sim. Não a podia ocultar. Como vê, Seu grande amor é o que me arrebata com emoção e alegria. Depois ele me disse:

— Fale-me outra vez a respeito de se ter livrado da cova.

Li para ele o capítulo 33 de Jó, e depois, a seu pedido, tornei a lê-lo. Perguntei-lhe se os dias lhe pareciam muito compridos.

— Isto sim; agora nunca estou só, pois Jesus está sempre junto a mim. E quanto a minha mãe, digo ao Senhor que sei que Ele tem por ela ainda maior amor do que eu, pelo que sei que posso viver confiante de que Ele cuidará dela. Em vista de todo o Seu amor, como poderia jamais duvidar dele?

 

Retirado do livro Qual o teu destino.

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Author: Acervo Digital Cristão

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