CRISTO PARA MEUS PECADOS, CRISTO PARA MEUS CUIDADOS

Autor - J. N. DARBY
Título - CRISTO PARA MEUS PECADOS, CRISTO PARA MEUS CUIDADOS
Formato - PDF / EPUB / MOBI
Idioma - Português Brasil
Publicação - Associação Verdades Vivas

Evangelho de João, Capítulo 4

É algo maravilhoso pensar em quão real era a intimidade com que o Senhor conduzia o Seu relacionamento com as pessoas neste mundo – Seus modos, e Suas maneiras para com elas – se considerarmos Quem é Ele. Isto verdadeiramente altera todos os nossos pensamentos acerca de Deus.

Ele visitou os homens antes do dia do juízo, e nós O encontramos dando, e não julgando – tratando com os homens de um modo bem diferente do esperado. Ele, que será o Juiz, teve que vir de antemão para ser o Salvador; veio em graça, procurando adoradores; veio para visitar os corações dos homens – corações desobedientes esses – no próprio lugar onde os homens estavam. Veio, não para julgar, absolutamente, mas para tratar de nossas almas acerca dos mesmos pecados pelos quais Ele teria que nos ter julgado. Se O vejo dessa forma, descubro que Ele já cuidou de meus pecados de uma maneira totalmente diferente; uma maneira que certamente confirma o julgamento – coloca, com a maior ênfase, o selo do testemunho de Deus sobre tal julgamento – e ao mesmo tempo faz-me saber e reconhecer que a questão toda já foi decidida de um modo totalmente oposto àquele que era de se esperar. Ao invés de vir cobrar a dívida, Ele veio para pagá- la. Isto prova, de uma forma ou de outra, que a dívida existia, mas a maneira de tratar com ela é algo completamente diferente. 

Assim, Ele vem e trata com pecadores de um modo totalmente oposto à cobrança da dívida, e o faz de maneira eficaz. É isto o evangelho. “E vimos, e testificamos que o Pai enviou Seu Filho para Salvador do mundo” (1 Jo 4:14). É de um Salvador que temos de falar, e eu não poderia estar aqui falando assim se Ele não fosse um Salvador que executou uma salvação eficaz. Então vem o exercício do coração e a descoberta, por Sua Palavra, daquilo que nós somos, a fim de operar em nós o arrependimento; e a mesma Palavra nos diz que estamos salvos. “A tua fé te salvou: vai-te em paz” (Lc 7:50). Foi totalmente às custas de Si mesmo que Ele pôde dizer aquilo; e não voltou atrás no que disse à mulher e nem a enganou. E será que nós podemos ir em paz? Se Ele já disse: “Vai-te em paz”, podemos sair daqui em perfeita paz com a consciência de que vamos apoiados na garantia do próprio Senhor, não tendo nada a temer quanto às conseqüências do pecado. 

Portanto Ele envia a Sua Palavra aos filhos de Israel, “anunciando a paz por Jesus Cristo” (At 10:36), e que “em Seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24:47). 

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“Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz”

Você já obteve paz? Você já obteve aquilo que Ele anunciou e enviou outros a pregar? De nada adiantará você me dizer que não pode ter paz. Ela está disponível. Acaso seria algo para ser pregado mas não para ser crido? Deus desejou ter-nos contentes Consigo mesmo, e por isso envia o testemunho de paz. Não se trata de algo leviano, pois Ele fez a paz por meio do sangue da Sua cruz; e sendo justificados pela fé, temos paz com Deus. Trata-se de algo real, algo eficaz, algo divino, fundamentado naquilo que já foi feito com perfeição. Se eu creio, entro no gozo disso para desfrutá-lo. Trata-se do fato de que Deus nos visitou para trazer-nos paz. “Tenho-vos dito isto, para que em Mim tenhais paz; no mundo tereis aflições” (Jo 16:33). Por isso Deus dá a Si mesmo, vez após outra, o nome de “Deus da paz” (Fp 4:9). É o nome de Sua predileção que Ele dá a Si próprio. Ele nunca chama a Si próprio de Deus de gozo, pois o gozo pode mudar, mas a paz está estabelecida eternamente.

Vemos como Ele tratou a mulher de João 4. Foi por meio da graça. “A salvação vem dos judeus” (Jo 4:22). Eles tinham a lei, o templo, tudo o que pertencia a Deus, como o irmão mais velho de Lucas 15:31. Mas os judeus O lançam fora, e Ele deve passar por Samaria. Era esse o início de Seu ministério. Os fariseus tinham ciúme dEle, portanto Ele sai deixando esse lugar que, segundo a promessa, era um lugar de salvação. É esta a terrível condição do mundo: que o Filho de Deus tenha vindo, e os homens O tenham lançado fora. Ele veio e foi rejeitado e, portanto, o testemunho é de que o mundo inteiro jaz no maligno. O mundo não apenas pecou, mas rejeitou Aquele que veio a ele quando o homem pecou – o mesmo mundo que cresceu desde que Deus expulsou o homem para fora do Éden. Se eu me denomino cristão, estou professando que o mundo expulsou e crucificou o Filho de Deus. Mas ainda assim a graça segue adiante. Deus usou disso como o meio e a ocasião para expressá-la. É isto que é tão glorioso na cruz: aquilo que era a perfeita expressão da inimizade do homem, foi a perfeita expressão do amor de Deus. Ali foi o ponto de encontro entre a ira do homem contra Deus, e o soberano amor de Deus para com o homem. O Senhor ainda não havia chegado na cruz, mas andava na graça e no espírito disso.

“Deus estava em Cristo reconciliando Consigo o mundo”

Então, rejeitado na Judéia, Ele deve passar por Samaria, e tomamos posse da bendita verdade de que Deus está acima de todo pecado, pois Samaria era por demais detestável. Ele pode exercer o Seu amor na mesma esfera daquilo que detesta. “Deus prova o Seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8). Ele deu o Seu Filho bendito, Um Consigo mesmo, entregando-O à morte, e levando-O a beber o cálice da ira por aqueles que não passavam de pecadores. “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2 Co 5:19).

Agora, preste atenção para outra coisa que vemos aqui: nós O encontramos como Homem em sua totalidade, descendo a este mundo – “mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-Se semelhante aos homens” (Fp 2:7). Oh! que alguns corações pudessem entender isso! Falo agora da forma como Ele veio – voltarei depois a falar de Sua morte – O qual, sendo rico, Se fez pobre por amor de nós. Isto é revelado nas circunstâncias desta história. No calor do dia, cansado de Sua jornada, Ele Se aproxima do poço e senta-Se onde pode encontrar repouso. Será que nossos corações acreditam realmente que esse era o Senhor? Por que estava Ele numa tal condição para estar cansado? Por que estava ali? Era o perfeito amor. Ele desce para tomar este lugar. Ele passa pelo mundo – O Santo que não poderia ser contaminado, e usa disso para passar por um mundo de pecadores e trazer-lhes o amor que desejavam.

Isto foi expresso na forma mais amável no caso do leproso em Lucas 5:12, que “prostrou- se sobre o rosto, e rogou-Lhe, dizendo: Senhor, se quiseres, bem podes limpar-me”. O leproso estava certo do poder, mas não sabia do amor que havia ali. Ele direciona Seu amor para o leproso, “estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero; sê limpo” (Lc 5:13). Se alguém tocasse um leproso ficava imundo e era expulso do arraial. Mas Ele não pode ser contaminado. Esta é uma figura da maneira como o Senhor Se encontrava aqui. A santidade, incontaminada e incontaminável, leva aos pecadores o amor que tanto necessitam.

“Trouxe-Lhe porventura alguém de comer?”

“Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-Se assim junto da fonte” (Jo 4:6), e os discípulos foram comprar comida. Oh! pensarmos no próprio Senhor, ao qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu, mas que era o Senhor da glória, sentado cansado junto à fonte, com sede, e dependente deste mundo para um gole d’água – o mundo que foi feito por Ele, e não O conhecia! “Veio uma mulher de Samaria tirar água; disse-lhe Jesus: Dá-me de beber” (Jo 4:7), tendo Ele que depender dessa mulher para receber água. É exatamente nisto que ela descobre que havia algo de notável naquele Homem. Era algo de extraordinário que um judeu falasse com ela, uma mulher de Samaria, e seu pensamento é atraído a isto.

Deixe-me dizer algo acerca dessa mulher, a qual é de um interesse tão bendito para nós, por haver motivado o coração do Senhor. Ela era uma pobre e repulsiva criatura – sozinha ali. Lemos da hora em que as mulheres iam buscar água, juntas, conversando acerca de todas as coisas que se passavam; mas ela não vem junto com as outras mulheres. Seu coração era solitário; ela havia se isolado por causa de pecado, e nada tinha conseguido; uma mulher vigorosa, que tinha estado buscando alegria por meio da energia de sua natureza, tendo encontrado só a desgraça e a ruína. Ela havia saído completamente só naquela hora incomum do dia, com um coração repleto de ansiedades. Sozinha, por causa de sua vergonha, ela encontra Alguém que é até mais solitário do que ela, e aquele Alguém era o Senhor! Ela poderia ir aos homens da cidade, mas Ele era completamente só, não tinha ninguém a quem ir, apesar de ser Ele próprio o mais afável e acessível dos homens.

Nunca houve circunstância alguma, em que Ele tenha estado, onde o poder, amor, bondade e verdade não fossem imediatamente exercitados. Não havia cansaço se algum pobre e desolado pecador se aproximasse. Quando os discípulos retornaram, disseram, “Trouxe-Lhe porventura alguém de comer?” (v.33). Não importa em companhia de quem estivesse, Ele era sempre acessível aos seus corações; porém não havia simpatia para com Ele. Nenhum amor e bondade foram ao encontro dEle em Sua passagem por este mundo; Seu coração era algo completamente estranho a este mundo; mas era, todo ele, só simpatia para com o próximo. Quando teve que dar conta de Si diante dos principais sacerdotes que o caçavam buscando Sua morte, no momento em que o galo cantou, Seu olhar estava sobre Pedro – nunca Se aborreceu. Não importa em que circunstância estivesse, nada jamais podia sequer tocar a fonte de graça e bondade que havia nEle.

“Se tu conheceras o dom de Deus”

Mas note que conforto há para nós! Aqui estava o Juiz de vivos e mortos – não como juiz, evidentemente, mas a Pessoa que irá julgar, encontrando-Se com uma pobre pecadora em graça, sentando-Se justamente com a pessoa que merecia ser julgada. Neste sentido, na comunhão da graça, Ele está sentando-Se conosco. É exatamente o que está acontecendo por meio do evangelho. “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse” (2 Co 5:20).

Bem, Ele encontra-Se assentado junto ao poço pedindo água para beber. Ela diz, “Como, sendo Tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” (v.9). Repare na resposta do Senhor. Há dois pontos distintos nela. “Se tu conheceras o dom de Deus”, isto é, o que Deus está fazendo para você. É sobre este terreno que Ele trata com você: “O dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 6:23).

O que vem a seguir é, “E Quem é o que te diz – Dá-me de beber”. Isto é, se você soubesse – não “Quem Eu sou”, mas – Quem é que desceu tanto a ponto de pedir água para beber; se seu olho fosse aberto para enxergar Deus dando vida eterna – vindo para nada exigir (e quem seria capaz se Ele exigisse) – você ficaria em perfeita confiança diante dEle.

Uma vez Deus veio procurando por frutos e encontrou uvas bravas (Is 5:2). Sob a lei Ele buscou por fruto e teve os Seus servos mortos. Ele disse, “Tenho ainda um Filho” – mas quando eles viram o Filho, disseram, “Este é o herdeiro; vamos, matemo-Lo, e a herança será nossa” (Mc 12:7). O efeito foi, não fruto, mas ódio contra Ele e contra o Seu Pai. Agora Ele não vem buscando fruto (não digo que Ele não veio produzindo fruto, mas que não veio buscando fruto). Ele veio semear (sem buscar pelo fruto), tratando, no evangelho, pessoalmente com o pecador. E onde há graça e o senso da necessidade, haverá o fruto do Espírito, e é este o fruto que Ele então irá procurar. A natureza humana julga a Deus, mas a natureza de Deus revela-se completamente superior a isso. Ele dá. Assim temos estes dois benditos princípios: que Deus está dando, e que o Senhor desceu a tal ponto de pobreza até chegar a ser dependente de uma criatura para beber um pouco de água; desceu para colocar-Se sob os desejos daqueles que nada tinham além de necessidades, de forma a poder supri-los. A mulher é atraída; há poder em Sua palavra; e Ele começa falando-lhe de coisas espirituais.

“Vai, chama o teu marido, e vem cá”

Vemos, então, a maneira como a mulher está absorvida em seus próprios cuidados ou apreensões. O versículo 15 é uma notável expressão de confiança em Sua palavra – “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la”. Note, porém, o estado do coração dela – completamente ocupado com seu cântaro e suas necessidades. Você conhece alguém assim? Pessoas que reconhecem a Palavra de Deus como sendo a Palavra de Deus; que reconhecem Sua autoridade, mas estão com seus corações totalmente ocupados com as coisas desta vida. Como qualquer pessoa natural, ela não recebeu as coisas do Espírito de Deus. Seu pensamento foi despertado para respeitar Sua Palavra, de modo que ela poderia crer no que Ele disse, mas ela não podia entender as coisas espirituais; estas não tinham a menor via de acesso ao seu coração, tão cheio que estava com as coisas temporais.

O que estava para ser feito? Ele tinha estado derramando palavras de graça; tudo havia passado por sobre a cabeça dela – passado por cima de um coração envolvido com as coisas do mundo. Ele vai pelo outro lado, não o dom de Deus, mas a condição do homem – “Vai, chama o teu marido, e vem cá” (v.15). A mulher respondeu e disse, “Não tenho marido” (v.17). Bem verdade. Ela diz a verdade para esconder a verdade – como freqüentemente acontece neste pobre mundo. A consciência foi agora alcançada; e é por aí que a Palavra sempre entra. É perfeitamente correto que devesse atrair o coração, mas a consciência deve ser alcançada. “Disse-lhe Jesus: Disseste bem: Não tenho marido; porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade” (vs.17-18). Agora tudo está exposto; a consciência dela é colocada na presença de Deus. Tudo deve estar exposto à luz que veio a este mundo. É maravilhosa a rapidez com que até mesmo a memória é colocada sob essa ação da luz. Pecados há muito esquecidos são relembrados. A luz entrou em cena; agora a mulher tem entendimento; antes não havia entendido uma palavra sequer; estava completamente sepultada em seus cuidados.

“Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador”

Versículo 19: “Disse-Lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta”. A Palavra de Deus havia alcançado sua consciência, e onde quer que assim o faça, ela tem autoridade, e só pode ser assim. Quando encontro um livro que me diz tudo o que fiz, sei do que se trata. Não é preciso que seja provado pelo homem. Nenhum livro no mundo tem autoridade até que alcance a consciência. Este livro é, então, a sua própria testemunha contra a tolice dos ataques que são feitos contra ele, e prova a loucura da incredulidade. É a Palavra de Deus, por si só, a sua própria testemunha. Não pego uma vela para ver se o sol brilha! Mas será que você não percebe que ele brilha? Então você está cego. A única coisa que traz consigo autoridade é a Palavra de Deus entrando na consciência – “Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito: porventura não é este o Cristo?” (v.29).

Deus é amor; Seu bendito Filho, um pobre Homem falando a uma mulher; mas Ele é também luz que se manifesta. As duas coisas sempre andam juntas. Você nunca encontra, quando o evangelho é recebido, que este não se introduza como luz para a consciência. Onde quer que o evangelho entre, será luz, expondo tudo que está ali, do contrário não há raiz. É quando o entendimento é levado ao coração dessa pobre mulher que a sua consciência é alcançada. Será que você gostaria que Ele lhe dissesse tudo o que você tem feito? Acaso Ele não conhece cada coisa má que eu tenho feito? Tais coisas deveriam ser trazidas à tona no juízo; mas meu conforto é que tudo foi exposto diante dEle, quando Ele estava tratando comigo em graça. Agora eu posso admitir isto, já que o olho de Deus perscruta tudo por meio de Sua Palavra. Ao tratar com a alma, o amor trouxe luz aqui. O amor atraiu a Pedro (Lc 5). Por que Pedro não foge? Por que vai até Ele e diz: “Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador” (Lc 5:8)? Ele foi atraído pelo amor e graça, e convencido pela luz que o amor derramou. A luz, que manifesta a mim o que eu sou aos olhos de Deus, me leva à presença dEle, de maneira que estou na luz assim como Ele está. Tem que haver verdade nas entranhas, mas, ainda assim, o não tê-la não impediu o Senhor de dizer: “Se tu conheceras o dom de Deus” (v.10). Agora, ao invés de tentar acertar as coisas com Deus, sabendo tudo o que tenho feito, eu O encontrei em perfeita graça. Não há, portanto, nenhum pecado escondido. Tudo é exposto à luz por Deus.

“Se tu conheceras… QUEM é o que te diz – Dá-me de beber”

Note outra coisa. Deus está revelando algo novo. Seria Ele capaz de confiar no coração dessa pobre mulher? Não. Ele iria fazer com que Ela confiasse em Seu coração. As pessoas dizem: “Será que meu coração não poderá enganar-me?” Certamente que poderá! Mas será que o coração dEle irá enganar-me? A graça de Deus traz salvação para nós – dá-nos tudo o que necessitamos. Foi assim que Ele trouxe vigor à beira do tanque de Betesda: “Toma tua cama, e anda” (Jo 5:8). Ele não está pedindo coisa alguma de nós, mas traz-nos aquilo que necessitamos – dá-nos a Si mesmo: e não há nada que necessitemos mais que a Ele próprio. Ele nos leva ao arrependimento – à convicção daquilo que somos, como temos visto aqui. Mas Ele vem e diz: “Se tu conheceras o dom de Deus” (v.10). Deus tem algo para dar – vida eterna por meio de Jesus Cristo. Porém eu procuro evitar achegar-me a Deus. Parece-me prudente agir assim. Mas Quem é Este com quem estou, que está introduzindo essa luz? O mesmo Homem que pediu por um pouco de água para beber. “Se tu conheceras… QUEM é o que te diz – Dá-me de beber” – um pobre Homem com nada além de palavras de graça; você teria confiado nEle. “Tu Lhe pedirias, e Ele te daria água viva” (v.10). Você acha que eu poderia contar com Deus no dia do juízo? Mas será que posso contar com o pobre Homem sentado à beira da fonte? É quando meus olhos são abertos para a Pessoa e obra do Senhor, que descubro que estive falando com o próprio Senhor, e Ele não teve nenhuma palavra contra mim, apesar de saber tudo o que sempre fiz. Meu coração tem a bendita consciência de que encontrou-se com Deus.

Existem os pobres infiéis gastando seus cérebros para descobrir qualquer coisa sobre Deus, mas eu O encontrei. Ele nada mais tinha do que palavras de graça e bondade, embora conhecesse todos os meus pecados. Todos os Seus caminhos e palavras e obras se resumem em perfeito amor para comigo, e é este o amor que veio me encontrar como pecador. O Pai procura adoradores. Você não tem que subir a esta ou aquela montanha. Ele enviou o Salvador para procurar. Quantos Ele encontra? Será que Ele iria encontrar em você um coração que passa longe do Senhor Jesus – um coração que já leu centenas de passagens nas quais Sua graça foi manifestada, e que segue adiante intocável, insensível, apesar de Deus ter estado aplicando o Seu coração em você?

“A Minha comida é fazer a vontade dAquele que Me enviou, e realizar a Sua obra”

Veja como até mesmo o coração do Senhor se regozija para com esta pobre pecadora (v.32), “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis”. Você crê isto acerca de Cristo? Ele tinha vindo para abrir os olhos da mulher e isto, para Ele, era alimento: “A minha comida é fazer a vontade dAquele que Me enviou, e realizar a Sua obra” (v.34). É adorável ver o coração do Senhor agindo assim. E veja como o mesmo coração se abriu para todo o restante: “Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa” (v.35). Na verdade Ele já havia sido rejeitado na Judéia, mas o encontro com esta mulher O confortou tanto que agora Ele abre Seu coração para dizer: “Vede as terras, que já estão brancas para a ceifa”.

Temos que seguir adiante para ver que, tendo os pecados sido perfeitamente manifestados, nos é apresentada a cruz do Senhor Jesus, pois nada poderia sofrer os pecados; nada a não ser o amor que vem ao encontro do pecador, e que O levou a entregar-Se a Si próprio. O coração foi conquistado e a consciência atingida. Mas o que dizer das coisas que ela havia praticado? O próprio Senhor, que estava falando a ela, coloca-Se sob os mesmos pecados e os leva embora. Certamente precisamos de algo mais do que aquilo que apenas atinja a consciência; precisamos de algo que a purifique. Mesmo sendo nossos pecados como a escarlata, são tornados brancos como a neve, e somos obrigados a reconhecer isto, pois Ele levou, “Ele mesmo em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro” (1 Pd 2:24). Ele carregou-Se, a Si mesmo, com eles. Fui convencido, e então humilhado acerca deles. Mas antes que chegasse o dia do juízo, Cristo veio, e sobre a cruz ficou carregando os pecados que Ele teria que ter julgado. A cruz – Deus tratando com Cristo acerca dos pecados. Quando Ele vier em juízo eu direi: “Foi Ele o Homem que levou os meus pecados”. Antes que chegasse o dia do juízo, a mesma Pessoa que será o Juiz veio pessoalmente para sofrer o castigo. Então, a questão não é se mereço condenação – “Não há um justo, nem um sequer” (Rm 3:10) – mas sim o que Deus fez. Posso me atrever a duvidar do que Ele fez?

“Deixou pois a mulher o seu cântaro”

Se me encontro exposto à luz diante de Deus, não existe lugar onde meus pecados possam ser vistos tão terríveis quanto na cruz. Mas se eles não tiverem sido todos perfeitamente levados para sempre, então jamais o poderão ser, pois Cristo não poderá morrer novamente (Hb 10). Ele Se levantará para julgar, mas Ele encontra-Se sentado agora, pois tudo está feito da forma mais completa; se não for assim (quero dizer quanto à obra e não quanto aos nossos sentimentos), então nunca o poderá ser. Portanto, tendo sido tudo feito, e tendo a alma sido exercitada, olho para a cruz e digo: “Ele levou meus pecados”. É certo que odeio meus pecados. E assim deve ser; esta é a obra do Espírito em nós, mas falo da obra que foi feita por nós. Não fale de pecados passados, presentes e futuros; é tolice confundir a época em que meu coração pensa neles com a obra que os levou. Quanto a pecados futuros, nunca devo pensar em pecar. Quanto a pecados passados, quantos deles eram passados quando Cristo morreu? A obra foi completada quando eles eram ainda todos futuros. Não devemos confundir a obra completada com o seu efeito em mim. Ele está ressurreto em glória; existirá, então, qualquer dúvida se serei também glorificado?

Há algo mais acerca da cruz. Tudo se passou entre Deus e Cristo totalmente a sós – e o sinal disso foi a completa escuridão – conforme as exigências e justiça de Deus; onde devia haver acordo acerca da absoluta perfeição dAqueles que levaram a obra a cabo. Os homens nada tinham a ver com aquela obra; tudo o que tínhamos a ver eram nossos pecados, e, devemos acrescentar, o ódio que levou Cristo à morte. Foi ali uma obra divina acerca de meus pecados.

Vejamos o efeito disso. Vemos a pobre mulher totalmente absorvida com seu cântaro; mas no momento em que sua consciência é plenamente atingida, ela sai para testificar a outros – Se você tão somente receber a Cristo, Ele lhe dirá todas as coisas. Ela abandona seu cântaro (v.28). Não foi à toa que o Espírito Santo registrou isto. Aquilo que a absorvia estava acabado. A palavra e o poder de Jesus, que deram a ela a convicção de pecado, também colocaram Cristo no lugar das coisas que tinham poder sobre o coração da mulher. Cristo como minha justiça em lugar de meus pecados; Cristo como o objeto de meu coração em lugar de meus cuidados.

Quero acrescentar uma palavra de conforto para qualquer alma que esteja convencida do pecado, mas que não tem paz. Suponhamos alguém que tenha recebido a Palavra de Cristo, mas que não possa afirmar que tenha recebido a Ele próprio – mas diz: “Se eu apenas pudesse encontrar a Cristo! Vejo em mim tanto pecado. Daria qualquer coisa para ter a Cristo”. O que foi que colocou este desejo em seu coração? Você O recebeu como o grande Profeta; Sua Palavra atingiu seu coração, você está convencido do pecado, mas não sabe se tem a Cristo como Salvador. Ele falou a você acerca da vida eterna, e você recebeu a Palavra que tornou Cristo precioso a você e tornou má a sua consciência. Então você tem Cristo. Sua Palavra teve a autoridade da Palavra de Deus em sua consciência. Se assim é, o mesmo Cristo que visitou você, é o Cristo que carregou os seus pecados. O Cristo que assim nos fala para introduzir estes pensamentos em nosso coração, é o mesmo que por graça suportou o castigo que merecíamos, antes que chegasse o dia do juízo.

Então, qual é o seu caso? Terá o seu coração trocado seu cântaro por Cristo? Não quero dizer que não haverá conflito. Mas terá o seu coração ouvido a Sua Palavra de modo tal que ela tenha penetrado em sua consciência? Será que você pensa que vai para o céu carregando seus pecados? Quantos pecados Eva cometeu quando Deus a expulsou do Éden? Um! Você já cometeu mais. Como é que você espera entrar no céu: com ou sem os seus pecados? Eles já foram levados? Como é que você pode descansar um momento sequer antes de ter certeza disso? Que loucura e insensatez!

Aquele que trata com nossas consciências é o mesmo que veio onde estamos, e que agora está rogando que nos reconciliemos com Deus. Será algo terrível, no dia do juízo, ter tido o coração fechado para a voz de Alguém que exerce tão grande atração. Acaso a atração que Ele tem exercido sobre você não é algo com fundamento? Terão existido palavras como as dEle – palavras de graça, graça indescritível, com as quais Ele tem procurado nos ganhar? É uma bendita verdade, que antes que chegasse o dia do juízo, o Juiz veio pessoalmente para libertar. Com certeza você terá que ser julgado então, se não aceitar o livramento agora mesmo!

J.N.Darby

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