A ORAÇÃO E O MUNDO INVISÍVEL

Paul Wilson: Palestra a jovens cristãos em Oak Park, Illinois, Estados Unidos – Agosto/1955.

Vamos abrir a Bíblia no capítulo 9 do profeta Daniel, versículos 1-11 e 20-23. Leiam também o capítulo 10, inclusive o versículo 1 do capítulo 11. Desejo meditar um pouco nestas duas orações do profeta Daniel. Certamente não se trata de algo extraordinário encontrarmos Daniel orando, pois era característico daquele homem de Deus ser encontrado freqüentemente em oração.

No capítulo 2, quando o rei teve um sonho e ninguém podia revelá-lo, Daniel orou e pediu a seus amigos para orarem com ele pelo mesmo propósito – para que o Deus do céu lhes concedesse conhecer esse segredo. Quando a resposta veio, ele não saiu correndo para contar ao rei, mas antes parou e agradeceu ao Senhor.

No capítulo 6, quando o rei foi persuadido a assinar um decreto (criado e elaborado pelos inimigos de Daniel), para que qualquer que fizesse qualquer petição a qualquer deus ou homem, exceto ao rei, pelo período de trinta dias, fosse lançado na cova dos leões, Daniel foi para sua casa e, pondo-se de joelhos, orava três vezes ao dia. Porém, note que há algo mais naquele capítulo. Ali diz, “como também antes costumava fazer” (Dn 6:10). Ele não se alterou com aquele decreto; ele não alterou o seu modo de vida; “três vezes no dia se punha de joelhos, e orava… como também antes costumava fazer”. Ele era um homem de oração, e onde quer que você encontre um homem de Deus, você encontrará um homem de oração.

Então, no capítulo 9, Daniel começa a orar. Era o “ano primeiro de Dario, filho de Assuero” (Dn 9:1). O que o levou a orar nessa ocasião foi o fato de ele haver descoberto que os filhos de Israel iriam permanecer no cativeiro na Babilônia por setenta anos. Ele sabia que os setenta anos estavam para terminar. Ele cria naquilo que Deus dissera por meio de Seu profeta Jeremias, e esperava que o povo retornasse para a terra quando os anos se completassem. Sendo um homem de fé, um homem de oração e um homem do Livro (gosto de pensar nele não como um profeta, mas como um estudioso da profecia), ele põe-se a orar.

Quando os anos designados haviam chegado ao fim, Deus levantou a Ciro, um homem justo do oriente, cujo nome foi revelado cento e setenta e cinco anos antes de seu nascimento (Is 44:28-45:1), para a missão de enviar o povo de volta à sua terra. Deus não somente levantou a este homem, Ciro, mas levantou também a Daniel no tempo apropriado para confessar os pecados do povo como sendo seus. Em Isaías 59:16 lemos: “E viu que ninguém havia, e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor”. Penso que a única falha de um santo do Antigo Testamento que é registrada no Novo
Testamento está em Romanos 11:2: “Elias… fala a Deus contra Israel”. Era certamente algo contrário ao pensamento de Deus que alguém fizesse intercessão contra o Seu povo. Após Elias haver orado assim, foi-lhe dito que ungisse a Eliseu para ser o seu sucessor.

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Pecamos!

Este homem, Daniel, foi levantado para rogar pelo povo de Deus. Você verá algo semelhante em homens como Samuel, Davi, e muitos outros que rogaram a Deus por Seu povo. Qual era a condição daquele povo? Será que Daniel ignorava o fracasso do povo, que havia trazido sobre si os juízos governamentais de Deus? De modo algum. Ele buscava “com oração e rogos, com jejum, e saco e cinza” (Dn 9:3). Para Daniel não se tratava de um exercício superficial; não era apenas uma identificação fingida com o povo de Deus. Ele sentia seu fracasso como sendo de si próprio, e isso o levou à humilhação, em saco e cinzas, em oração e súplica (oração contínua). Ele dizia: “Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas o concerto e a misericórdia para com os que Te amam e guardam os Teus mandamentos”. E note as palavras do versículo seguinte: “Pecamos (e não “eles pecaram”), e cometemos iniqüidade, e procedemos impiamente, e fomos rebeldes, apartando-nos dos Teus mandamentos e dos Teus juízos” (Dn 9:4-5). Ele identifica-se plenamente com todo o povo.

Se havia alguém entre os cativos na Babilônia que pudesse ser achado livre de culpa, esse alguém era Daniel, um homem que fora levado para lá, mas não por alguma falta que tivesse cometido; ele fora levado cativo e vivera ali para Deus. Gosto de pensar nele como alguém que levou uma vida de devoção desde a sua juventude até à velhice; ele era um homem fiel. Ele propôs em seu coração que não se contaminaria. Não se tratava de algo exterior – era seu propósito de coração (Dn 1:8). Ele desejava agradar a Deus. Sendo um judeu fiel, ele viu em Babilônia coisas que o contaminariam, e manteve-se afastado delas para a glória de Deus. Ele tinha base nas Escrituras para fazer o que fez. Possamos nós, queridos jovens, ter um propósito de coração em buscar de Deus graça para mantermos longe de nós tudo aquilo que poderia nos contaminar.

Agora Daniel é um homem idoso; ele viveu em fidelidade, e agora identifica-se com os pecados do povo, e ora. Há outra coisa acerca de sua oração em Daniel 9:7: “A Ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós a confusão de rosto”. Precisamos ter sempre em mente que Deus é justo; Ele nunca comete qualquer erro. Daniel toma toda a culpa para si próprio e para seu povo. Note, mais uma vez, no versículo 8: “Ó Senhor, a nós pertence a confusão de rosto, aos nossos reis, aos nossos príncipes, e a nossos pais, porque pecamos contra Ti”.

Uma época de ruína

Lembremo-nos, queridos cristãos, de que estamos vivendo em uma época de ruína – nos últimos dias da história da igreja de Deus sobre a Terra. Não estamos nos dias que tiveram início tão brilhantemente naquele dia de Pentecostes, mas estamos nos dias de 2 Timóteo, quando a casa de Deus é descrita como uma “grande casa”, na qual há não somente vasos para honra, mas também vasos para desonra. O que devemos fazer? Não podemos simplesmente sair da “grande casa”; a “grande casa” é a esfera de profissão do cristianismo sobre a Terra. Você não pode sair dela a menos que desista do cristianismo. Há ruína e fracasso de todos os lados.

Deixe-me falar algumas poucas palavras àqueles que aqui estão, que reúnem-se somente ao nome do Senhor Jesus Cristo. Tomemos cuidado para não comermos, por assim dizer, a oferta pelo pecado. Tomemos cuidado para não termos a pretensão de nos considerarmos como não havendo falhado. Eu tremo ao notar qualquer tendência de nos exaltarmos e dizermos que temos guardado a verdade, ou que a verdade seja guardada por nós. Irmãos, proceder assim é não ter aprendido bem a lição. Somos uma parte da ruína, e precisamos estar no espírito de Daniel como é encontrado nas Escrituras. Estou persuadido de que se nos exaltarmos como se fôssemos alguma coisa, Deus nos mostrará que nada somos. Ele irá definitivamente extinguir o orgulho. “Estas seis coisas aborrece o Senhor, e a sétima a Sua alma abomina.” A primeira coisa que é mencionada são os “olhos altivos” (Pv 6:16-17). Tomemos cuidado para não nos exaltarmos como sendo alguma coisa, ou nos declararmos superiores a alguém. Deixe-me dar uma palavra de alerta: Existe um caminho para a fé, um caminho de obediência; e se andarmos neste caminho, poderemos ficar conscientes do fato de que fazemos parte da ruína que se introduziu. Existe uma maneira de se guardar a verdade de um testemunho remanescente nestes últimos dias, mas necessitamos de cabeças baixas, conscientes de que fazemos parte do fracasso da cristandade.

A resposta

Daniel orou, e quando chegamos ao versículo 20 do capítulo 9 encontramos a resposta à sua oração. Quão rápido a resposta chegou! “Estando eu ainda falando e orando, e confessando o meu pecado, e o pecado do meu povo Israel, e lançando a minha súplica perante a face do Senhor, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus, estando eu, digo, ainda falando na oração, o varão Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio voando rapidamente, e tocou-me à hora do sacrifício da tarde” (Dn 9:20-21). Ele estava em um estado de espírito adequado, e a resposta veio rapidamente. A profecia das setenta semanas de Daniel foi-lhe dada como uma resposta ao seu estado de espírito.

Note também que ele foi tocado “à hora do sacrifício da tarde”. Era a hora da oferta do cordeiro da tarde (eles tinham que oferecer um cordeiro à tarde e outro de manhã; o fogo do altar não era para apagar-se jamais – a noite toda até à manhã). Naquele tempo já não existia um sacrifício da tarde; tudo havia cessado por causa de seus pecados. Daniel estava longe de sua terra, estava na Babilônia, mas guardava essas coisas em seu coração, e estava consciente de ser aquela a hora do sacrifício da tarde. E assim, nesse espírito, ele recebe a resposta.

Oração e jejum

Vamos passar para o capítulo 10. Outro rei sobe ao trono – Ciro, o qual foi levantado por Deus. Daniel havia aprendido que seu povo deveria voltar a Jerusalém de acordo com a profecia de Jeremias. A profecia dada a Daniel fora postergada para um tempo distante. Não encontramos Daniel voltando a Jerusalém junto com aqueles que voltaram no primeiro capítulo de Esdras. E, no entanto, seu estado de espírito não havia sofrido mudança; ele tivera uma revelação do futuro para um tempo ainda distante, e Deus revelara a ele a glória de Israel conforme é relacionada ao Messias – a época gloriosa quando o Messias haveria de vir. “Naqueles dias eu, Daniel, estive triste por três semanas completas. Manjar desejável não comi, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com ungüento, até que se cumpriram as três semanas” (Dn 10:2-3).

Querido cristão, o que é que sabemos acerca da verdadeira oração e intercessão diante de Deus? Às vezes é levantada a questão sobre “jejuar”. No capítulo anterior o jejum é mencionado. E aqui no versículo 3, ele estava num espírito de jejum e de lamento. A pergunta que comumente se faz é, “Existe o jejum em nossos dias?”. Acaso não havemos de reconhecer que se estivéssemos mais fervorosamente diante de Deus, poderíamos conhecer mais da renúncia-própria? Nestes dias de prosperidade, luxúria, etc., quanto sabemos acerca da renúncia-própria? É por esta razão que tão raramente escutamos notícias de orações respondidas. Tiago nos diz: “Nada tendes, porque não pedis”; e ainda, “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tg 4:2-3). Porém existe tal coisa, que é o estar diante de Deus em um espírito de jejum – andando em humilhação e juízo-próprio, reconhecendo a própria ruína, e negando-se a si mesmo.

Daniel esperou por três semanas inteiras. Muitos dos queridos santos de Deus pediram por algo que nunca chegaram a ver no período de suas vidas. Deus não prometeu que responderia às nossas orações durante o tempo de nossa vida. Neste caso aqui a resposta veio no tempo apropriado de Deus. Não podemos apressar a Deus.

A visão

Neste décimo capítulo, Daniel estava às margens do grande rio, o qual é Hidequel (Tigre). Faz-me lembrar muito da época em que Saulo de Tarso estava de jornada a Damasco; os homens que estavam com ele escutaram a voz, porém Saulo a compreendeu. Aqui, em Daniel, um grande temor caiu sobre os homens que estavam com ele, e fugiram para se esconder; mas Daniel viu esta grande visão. É preciso um estado de espírito e de comunhão com o pensamento de Deus. Existe algo como estar em comunhão com a mente de Deus; se andarmos com Ele, conheceremos mais acerca disto. Mas não estou querendo dizer que iremos ter revelações especiais em nossos dias como teve Daniel.

O que Daniel viu, na visão, poderia nos fazer lembrar do que João viu no primeiro capítulo de Apocalipse. Ele viu o Senhor Jesus como Filho do Homem em trajes judiciais, e caiu aos Seus pés como morto. Algo similar aconteceu a Daniel aqui (v. 8): “Fiquei pois eu só, e vi esta grande visão, e não ficou força em mim: e transmudou-se em mim a minha formosura em desmaio, e não retive força alguma”. A glória da Pessoa que falou a ele o prostrou. A maneira de termos uma clara idéia do que somos é entrando na presença de Deus.

Versículo 10: “E eis que uma mão me tocou, e fez que me movesse sobre os meus joelhos e sobre as palmas das minhas mãos. E me disse: Daniel, homem mui desejado”. Daniel, um velho agora, é chamado de “homem muito amado” (Versão Almeida Atualizada). Querido cristão, leia o livro de Daniel; leia como ele começou com um propósito de coração em agradar ao Senhor, e como ele seguiu naquele caminho; então, veja como ao final de sua jornada ele recebe este lindo testemunho – ele é chamado de “homem muito amado”. Ele não recebeu aquele título vivendo uma vida descuidada, fazendo como faziam os babilônios; ele o recebeu como resultado de um andar de fé – vivendo em separação para Deus.

Um título de graduação

Lembro-me de ter conversado, certa vez, com um grupo de jovens rapazes cristãos, todos almejando um título de graduação (como “Ph.D.”, que significa “Philosophiae Doctor”, etc.) em faculdades e universidades. Lembro-me de tê-los escutado acerca dos diplomas e títulos que queriam conseguir. Vocês sabem, Daniel recebeu um bom título de graduação. Deus ama a todos os Seus filhos. Existe uma maneira em que Ele ama a cada um igualmente; mas existe também um amor de benevolência – um amor de prazer – para com um filho obediente, e é isto o que encontramos aqui: “Daniel, homem muito amado”. Será que você gostaria de receber um título de graduação como este – “H.M.A.” (“Homem Muito Amado”)? Um título assim é recebido por andar no caminho de fé em separação deste mundo. Como almejamos ver jovens cristãos seguindo a Cristo e tomando uma posição por Cristo. Isto também serve para nós, mais velhos, que já temos um pouco mais de tempo de jornada. O caminho feliz é vivermos vidas devotadas a Cristo. É bom começar a vida cristã bem, com um propósito de coração, não em nossa própria força, mas buscando a ajuda do Senhor para vivermos para Ele. Não é bom apenas começar bem, mas também terminar bem. Alguns começam bem, mas desviam-se do caminho – desviam-se quando ficam velhos. Querido cristão, se Deus nos deixar aqui, que sejamos guardados de nos desviarmos, desde a nossa juventude até à nossa velhice, seguindo adiante no caminho de dependência e devoção, para podermos escutar no final da jornada, “homem muito amado”. É um título que deveríamos muito ambicionar – uma “formatura” que seria para a glória dAquele que morreu por nós, e também algo de que poderíamos desfrutar.

O tempo de Deus

Passemos agora ao versículo 12: “Então me disse: Não temas, Daniel”. O Senhor Jesus falou estas palavras, “Não temas”, a alguns dos que eram Seus quando esteve aqui. O Senhor nos deseja ter em Sua presença com o sentimento de que Ele é Deus, mas Ele quer que fiquemos à vontade em Sua presença. “Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia, em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras.” Este versículo é a chave para o fato, ou a razão pela qual ele esteve esperando por três semanas inteiras. Todas as suas palavras haviam sido ouvidas desde o princípio, desde o primeiro dia.

O versículo 13 acrescenta: “Mas o príncipe do reino da Pérsia se pôs defronte de mim vinte e um dias, e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu fiquei ali com os reis da Pérsia”. Por quê Deus permitiu que o mensageiro que foi enviado com a resposta para Daniel fosse atrasado por três semanas inteiras? Ele permitiu a demora, o atraso, para exercício da alma de Daniel. Às vezes aguardamos no Senhor dia após dia, mês após mês, e talvez até ano após ano, e não há sinal aparente de que nosso fardo esteja sendo removido. O apóstolo Paulo foi arrebatado ao terceiro céu e viu coisas impossíveis de serem colocadas em linguagem humana, e quando voltou foi-lhe dado um espinho na carne para mantê-lo humilde. Ele rogou três vezes ao Senhor que o tirasse. A resposta que recebeu não foi a que estava buscando, mas o satisfez. A resposta foi: “A Minha graça te basta, porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. E então Paulo disse: “De boa vontade pois me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo” (2 Co 12:9).

Atrás dos bastidores: um mundo invisível

Esse atraso nos leva para atrás dos bastidores. Este décimo capítulo de Daniel é um dos poucos lugares nas Escrituras que introduz você no mundo invisível. Há coisas que são invisíveis aos nossos olhos naturais e que não são escutadas por nossos ouvidos. Até mesmo nas coisas naturais há apenas uma pequena porcentagem do espectro que podemos escutar com nossos ouvidos. O beija-flor tem um canto maravilhoso, porém nossos ouvidos não são adequados para escutá-lo.

Há algo mais: Existe um mundo invisível, e há poderes no mundo invisível. Lemos neste capítulo acerca de Gabriel e Miguel. Estes são os dois únicos anjos cujos nomes são registrados, porém lemos de anjos invisíveis que excedem o homem em força; são mensageiros de Deus, cumprindo a Sua vontade. Eles exercem um domínio providencial neste mundo; são “todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação” (Hb 1:14). Fico satisfeito em saber que quando chegarmos na glória descobriremos que por muitas vezes fomos cuidados pela ministração de anjos. Esse é o mundo no qual Deus opera, invisível ao olho humano. A Palavra de Deus fala do querubim e do serafim; são dois tipos de anjos. Miguel é apresentado como o arcanjo; quantos outros seres celestiais existem não podemos dizer, e nem o sabemos. Um desses mensageiros, que estava destinado a cumprir a ordem de Deus foi enviado com a resposta à oração de Daniel. Foi enviado para levar esta maravilhosa profecia, e é uma profecia das mais maravilhosas – incrédulos que têm estudado a história secular afirmam que nenhum homem poderia tê-la escrito, e que ela deve ter sido escrita depois de haver acontecido. Mas Daniel era profeta e não historiador; ele recebeu a profecia e ela está repleta de detalhes minuciosos.

As hostes espirituais da maldade

Há algo mais neste capítulo. Além dos anjos que cumprem as ordens de Deus, existe uma força no mundo invisível que é encabeçada por Satanás. Ele tem seus anjos – seus ministros – que cumprem suas ordens. Talvez ele tenha organizado seu sistema imitando as fileiras do governo de Deus. O Senhor Jesus disse: “E se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá pois o seu reino?” (Mt 12:26). Ele tem um sistema organizado, e estamos lendo de alguém que resistiu ao mensageiro que trazia a mensagem a Daniel – “o príncipe do reino da Pérsia”. “E eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu fiquei ali com os reis da Pérsia” (Dn 10:13). Ele estava em combate com um dos mensageiros de Satanás. Pouco sabia Ciro que estava acontecendo uma batalha no mundo invisível, e que esta tinha a ver com o seu reino. Satanás, se pudesse, buscava frustrar os planos de Deus. Ele sempre se opõe àquilo que é conforme a mente de Deus. Um dos principais mensageiros das hostes celestiais de Deus veio ajudar Daniel.

Encontramos Miguel mencionado aqui, em Judas e no capítulo 12 de Apocalipse. Em cada lugar vemos que ele está em conflito com Satanás ou seus emissários. Em Judas 9 lemos: “Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda”. Isto nos ensina algo que não nos seria possível aprender do Antigo Testamento. Moisés estava no monte e ali morreu; e ali ensina que foi Deus Quem o sepultou. Creio que ensina ter sido ele sepultado por Deus, que usou Miguel, o arcanjo, como instrumento, ao qual o diabo resistiu. O diabo, sem dúvida alguma, teria influenciado os filhos de Israel a fazerem do sepulcro de Moisés um santuário ou lugar de peregrinação. Miguel resistiu ao diabo.

Se você deseja conhecer algo acerca da glória de Satanás, você poderá encontrar no capítulo 28 de Ezequiel, onde ele é tipificado no Rei de Tiro; e não em Isaías 14 sob o nome de Lúcifer. Lúcifer é uma representação, não de Satanás, mas do último rei do Império Romano revivido. Satanás é um ser glorioso, e Miguel não pronuncia contra ele juízo de maldição. Não fazemos idéia das forças postas em ordem de batalha contra nós, mas podemos descansar sabendo que “mais são os que estão conosco do que os que estão com eles” (2 Rs 6:16). Temos Alguém do nosso lado, que é superior a todas as hostes de Satanás, mas não nos esqueçamos da seriedade da confederação que se opõe ao nosso progresso. O Senhor disse ao diabo: “Vai-te, Satanás” (Lc 4:8). Não creio que seja apropriado para o filho Deus dizer isto; a nós é dito para resistirmos ao diabo. E como devemos resistir a ele? Com a Palavra de Deus, assim como o Senhor resistiu a ele no deserto. Ele resistiu ao diabo e o derrotou com estas duas palavras: “Está escrito”. Ele usou a Palavra de Deus, não para silenciar Satanás, mas como um guia para Sua própria conduta; e se a usarmos como o guia para nossa conduta, Satanás fugirá de nós.

O conflito

Abram no capítulo 12 de Apocalipse: “E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do Sol” (esta mulher é Israel), “tendo a Lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. E estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsias de dar à luz. E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas. E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a Terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho. E deu à luz um filho, um Varão que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o Seu trono” (vs.1-5).

Isto deve deixar claro que este é o Senhor Jesus Cristo, o mesmo do Salmo 2. Note bem, temos Seu nascimento e ascensão mostrados aqui, mas não Sua morte e ressurreição – elas não são mencionadas aqui. “E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias. E houve batalha no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhava o dragão e os seus anjos” (Ap 12:6-7). Aí encontramos outra vez Miguel em conflito com os poderes das trevas. Encontramos também que, no tempo do fim, Miguel se levantará e entrará outra vez em um conflito. Alguns cristãos ficariam boquiabertos se lhes disséssemos que Satanás e seus anjos caídos encontram-se no céu (não na presença de Deus), e que ele é chamado de “príncipe das potestades do ar” (Ef 2:2). E há ainda os “príncipes das trevas deste século”, e as “hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6:12). O tempo se aproxima quando eles serão expulsos e lançados na Terra.

Gostaria de chamar a sua atenção para algo, no capítulo 12 de Apocalipse, em conexão com o nascimento do Senhor Jesus Cristo. Temos ali um vislumbre da razão por quê Herodes procurou matar o Senhor Jesus quando este nasceu. Herodes inquiriu dos magos acerca do tempo em que a estrela aparecera, e então deu ordem para matar todas as crianças de dois anos para baixo, procurando destruir o Senhor Jesus. Aquilo parecia obra do iníquo Herodes, mas quando lemos o capítulo 12 de Apocalipse, encontramos o sinistro poder que se movia por trás de Herodes. Isso nos mostra algo do que acontecia atrás dos bastidores. Vemos que o dragão, Satanás, parou diante da mulher pronto para devorar seu filho, tão logo este nascesse. Todo este capítulo nos leva para atrás dos cenários e nos mostra um pouco da luta que acontecia ali. E a luta segue também agora! Herodes foi o instrumento usado por Satanás, e os espíritos maus em sua organização estão agora trabalhando nos tronos dos governos. Quando os principais líderes governamentais reuniram-se recentemente para uma conferência em Genebra, fiquei a pensar em quantos espíritos maus de Satanás estariam ali. Essas coisas não são imaginárias, ou contos de ficção; porém Deus levanta as cortinas aqui e ali e nos deixa ver aquilo que é invisível.

Na peneira de Satanás

No livro de Jó vemos que as tribulações que vieram sobre Jó, que pareciam ser as mesmas que vieram aos seus vizinhos, eram, na verdade, a movimentação dos iníquos espíritos invisíveis. Satanás não conhece nada acerca de amor, ou do poder do amor. Satanás podia levantar o vendaval e influir nos raios; ele podia levantar ladrões e salteadores, e tudo foi permitido por Deus. Mas aprendemos uma coisa claramente, e isto é que nada pode acontecer a um filho de Deus sem a Sua permissão.

O Senhor Jesus disse a Pedro: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo”. Ele não disse: ‘Eu vou impedir que Satanás coloque você em sua peneira’, mas o que disse foi: “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lc 22:31-32). O Senhor sabia que era para o bem de Pedro; portanto Pedro caiu na peneira de Satanás e este lhe deu uma boa sacudida. Satanás estava fazendo o trabalho do Senhor para mostrar ao próprio Pedro como este realmente era. Irmãos, é muito melhor aprendermos nossas lições na escola de Deus em comunhão, do que aprendê-las na peneira de Satanás. Às vezes, para o nosso bem, Deus permite que entremos na peneira de Satanás a fim de perdermos nossa auto-confiança, e aprendermos que somos pequeninos e fracos como os grãos de trigo que volteiam na peneira.

Daniel 10:20: “E disse: Sabes porque eu vim a ti? Eu tornarei a pelejar contra o príncipe dos persas; e, saindo eu, eis que virá o príncipe da Grécia”. O poder da Grécia era o próximo a se levantar, e a se interessar pelo povo terrenal de Deus, os judeus. E Satanás tinha seus instrumentos para trabalharem no trono do governo do reino da Grécia.

Capítulo 11, versículo 1: “Eu, pois, no primeiro ano de Dario, medo, levantei-me para o animar e fortalecer”. Voltemos a Daniel 6: Dario organizou seu governo e estabeleceu cento e vinte príncipes; colocou três sobre eles e fez de Daniel o chefe. Ali estava um dos filhos de Israel, um do povo terrenal de Deus, vivendo no trono do governo dos Medos e Persas. Vemos no capítulo 11 que o anjo Miguel, que levantou-se para fortalecer Daniel, também levantou-se para fortalecer Dario. Encontramos Dario indo a Daniel e dizendo: “O teu Deus, a quem tu continuamente serves, Ele te livrará” (Dn 6:16). E então, quando Dario se levantou na manhã seguinte, clamou com voz triste: “Daniel, servo do Deus vivo! Dar-se-ia o caso que o teu Deus, a Quem tu continuamente serves, tenha podido livrar-te dos leões?” (Dn 6:20) – Sua fé havia diminuído naquela noite. Quando ele descobre que Daniel está vivo e ileso, dá ordens e Daniel é tirado da cova. Eles não haviam transgredido sua lei ao tirá-lo da cova. Eu associo este capítulo 6 – o testemunho da fé de Dario e o interesse que demonstrou pelo bem estar de Daniel – com o anjo que levantou-se para fortalecer Daniel no capítulo 11, versículo 1.

Veja o livro de Ester: Quando Hamã tornou-se cabeça do governo, ele redigiu e assinou o edito para que todos os judeus fossem destruídos. Era Satanás trabalhando por trás dos cenários contra o povo terrenal de Deus. Se o plano de Hamã tivesse dado certo, isto significaria a ruína de toda a raça humana. Por trás de tudo estava a luta, não apenas dos emissários de Satanás, mas do anjo de Deus. Estamos sempre aptos a nos acomodar achando que as coisas são como as enxergamos; mas existem os poderes do mundo invisível.

Para sermos prudentes

Amigos, estas coisas são uma realidade! Não é para ficarmos desencorajados, mas tudo isso deveria nos fazer mais prudentes enquanto passamos por este mundo. Que possamos aprender algo do andar naquele espírito que caracterizou Daniel – reconhecendo nossa parte no triste fracasso, intercedendo pelo povo de Deus e buscando graça para seguir adiante em obediência à Sua Palavra. A obediência à Palavra de Deus, que nos leva a um caminho de separação, é uma coisa. Mas, se somos levados a levantar nossas cabeças buscando ser algo mais, então isto já é outro assunto. Afastemos o orgulho para longe de nós. Devemos nós ficar desencorajados por causa dos poderes das trevas? Poderão eles nos tocar? Pode ser que o Senhor permita a Satanás tocar em nossos bens, e até em nossa carne, para o nosso próprio benefício. Ele pode permitir, assim como fez a Pedro, que nós caiamos na peneira de Satanás a fim de levarmos uma rude chacoalhada com o objetivo de ficarmos livres do orgulho e da auto-confiança. Mas será que Satanás poderá verdadeiramente nos tocar?

“Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8:38). Entendo que “principados” e “potestades” referem-se aos poderes invisíveis que estão em ordem de batalha contra nós. Porém, nada, não importa quão grande seja – inclusive Satanás – poderá jamais tocar a vida e segurança de um santo de Deus. E Deus não vai deixar que Satanás ou seus emissários ponham a mão em você sem a Sua permissão. Ele pode até permitir, mas será sempre para o seu bem. Lembre-se de que pode acontecer com você o mesmo que pode acontecer com seu vizinho incrédulo; mas, como podemos ver no livro de Jó, com um filho de Deus será de um caráter diferente daquilo que acontece com o vizinho incrédulo.

Busquemos graça para termos propósito de coração e devoção, se ainda formos deixados aqui, para sermos guardados no caminho da fé até o momento em que ouviremos o chamado. Não falta muito!

Palestra a jovens cristãos em Oak Park, Illinois, Estados Unidos – Agosto/1955.

 

Paul Wilson

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